Câmara aprova piso salarial também para professor temporário

Dia dos Professores não é feriado para todos; veja quem folga
A Câmara dos Deputados aprovou nesta terça-feira (14) um projeto que garante o piso salarial nacional para professores temporários da educação básica. A proposta vai ao Senado.
O texto é de autoria do deputado Rafael Brito (MDB-AL) e relatado pela deputada Carol Dartora (PT-PR). O piso salarial do magistério é de R$ 4.867,77.
Nesta semana, a Câmara tem se concentrado em matérias sobre educação em homenagem à semana da criança e ao Dia do Professor, comemorado nesta quarta (15).
“A contratação de profissionais temporários não pode ser utilizada como mecanismo para descumprir o piso salarial dos professores, tampouco para precarizar a carreira docente”, afirmou a relatora.
Segundo dados apresentados pela deputada em seu parecer, atualmente as redes de ensino têm 51,6% de professores temporários e 46,5% de efetivos nas redes de ensino, sendo que 43,6% dos docentes temporários atuam há pelo menos 11 anos como professor.
“Ao esclarecer que o piso salarial profissional nacional se aplica a todos os profissionais do magistério público da educação básica, independentemente do tipo de vínculo, o Congresso Nacional cumpre seu papel de zelar pela valorização dos trabalhadores da educação e pela efetivação do direito fundamental à educação de qualidade”, afirmou.
A proposta não acarretará a criação de nova despesa, porque a previsão de recursos para o cumprimento do piso salarial aos profissionais do magistério contratados por tempo determinado será bancada por recursos já previstos no Fundo de Manutenção e Desenvolvimento da Educação Básica (Fundeb).
Ainda não há uma estimativa do impacto do investimento no Fundeb.

Medicina segue como curso mais concorrido da Fuvest 2026; veja ranking

‘Pim, pim, professora está a chegar!’: educadora angolana é recebida pelos alunos com canto e festa; vídeo viraliza
Complexo do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP
Divulgação/FMUSP
A Fuvest divulgou nesta terça-feira (14) a relação candidato/vaga do Vestibular 2026, que define o ingresso em cursos de graduação da Universidade de São Paulo (USP).
A área da saúde continua entre as mais desejadas pelos vestibulandos. Medicina segue liderando a lista, com 90,7 candidatos por vaga, mantendo ampla vantagem sobre as demais opções, mesmo tendo registrado queda de 6% em relação ao ano anterior.
Além de medicina, outros cursos da área da saúde apresentaram crescimento expressivo no interesse dos candidatos:
Ciências biomédicas (6º lugar) teve alta de 11,4%;
Fisioterapia (9º) cresceu 12,8% em comparação com 2025;
Psicologia manteve-se em segundo e terceiro lugar nas unidades de São Paulo e Ribeirão Preto, com aumentos de 5,4% e 12,7%, respectivamente.
Veja os vídeos que estão em alta no g1
Conforme a Fuvest, esse movimento consolida uma tendência observada desde o pós-pandemia: o fortalecimento do interesse por profissões ligadas à saúde, à ciência e ao cuidado com o outro.
A valorização social dessas áreas, o avanço das tecnologias médicas, o crescimento das startups de saúde e o surgimento de novas fronteiras de pesquisa — como biotecnologia, neurociência e saúde digital — ajudam a explicar o fenômeno.
Veja os cursos mais concorridos da Fuvest 2026 (candidatos por vaga):
Medicina: 90,7
Psicologia (SP): 58,6
Psicologia (Ribeirão Preto): 39,8
Relações Internacionais: 37,9
Audiovisual: 30,6
Ciências Biomédicas: 29,3
Publicidade e Propaganda: 27,6
Jornalismo: 25,7
Fisioterapia: 22,9
Engenharia Aeronáutica: 22,8
Comparativo da relação candidato/vaga do vestibular 2026 e vestibular 2025:
Medicina: 90,7 → 96,5 (🔻 -6,0%)
Psicologia (SP): 58,6 → 55,6 (🔺 +5,4%)
Psicologia (RP): 39,8 → 35,3 (🔺 +12,7%)
Relações Internacionais: 37,9 → 42,5 (🔻 -10,8%)
Audiovisual: 30,6 → 32,3 (🔻 -5,3%)
Ciências Biomédicas: 29,3 → 26,3 (🔺 +11,4%)
Publicidade e Propaganda: 27,6 → 28,6 (🔻 -3,5%)
Jornalismo: 25,7 → 26,2 (🔻 -1,9%)
Fisioterapia: 22,9 → 20,3 (🔺 +12,8%)
Engenharia Aeronáutica: 22,8 → 22,9 (🔻 -0,4%)
Cursos menos procurados
Entre os cursos com menor procura, a maior queda foi registrada em gerontologia, que passou de 8,7 para 1,5 candidato por vaga, uma redução de 82,8%. Gestão ambiental também teve retração (-12%), enquanto geociências e educação ambiental cresceram 47,1%, ainda que em números absolutos baixos.
Os cursos de licenciatura, como matemática e física, continuam entre os menos procurados, com 2,7 candidatos por vaga, o que reforça o desafio de atrair jovens para a carreira docente, marcada por baixa remuneração e falta de reconhecimento profissional.
Comparativo dos 5 cursos menos procurados do vestibular 2026 e vestibular 2025:
Engenharias (FZEA): 1,0 (novo curso)
Gerontologia: 1,5 → 8,7 (🔻 -82,8%)
Gestão Ambiental: 2,2 → 2,5 (🔻 -12,0%)
Geociências e Educação Ambiental: 2,5 → 1,7 (🔺 +47,1%)
Licenciatura em Matemática/Física: 2,7 → 2,7 (0,0%)
Calendário do Vestibular Fuvest 2026
Primeira fase: 23/11/2025
Segunda fase: 14 e 15/12/2025
Provas específicas – Música: 9 a 12/12/2025
Provas específicas – Artes Visuais: 11/12/2025
Provas específicas – Artes Cênicas: 5 a 9/01/2026
Primeira chamada: 23/01/2026

Plano Nacional de Educação: em relatório, deputado propõe revisão de metas a cada 2 anos e estudo anual sobre investimentos

Novo PNE traça meta de alfabetização até o 2º ano do ensino fundamental
O deputado Moses Rodrigues (União-CE) apresentou nesta terça-feira (14) o relatório sobre o Plano Nacional de Educação (PNE) 2025-2035. O texto traça 19 objetivos a serem alcançados na próxima década (veja lista aqui).
O relatório foi apresentado à Comissão Especial da Câmara sobre o Plano Nacional de Educação.
Entre as metas previstas, está a de garantir a formação, valorização e condições de trabalho adequadas aos profissionais da educação básica.
Uma nova meta sugerida pelo plano se refere ao financiamento da educação, e prevê assegurar a qualidade e a equidade nas condições de oferta e permanência da educação básica e superior.
O estudo prevê que, ao final dos 10 anos, o Plano vai custar 11% do PIB do país. Serão 7,5% de investimento público mais subsídios; e 3,5% da iniciativa privada.
Segundo a Comissão Especial, esta é a primeira vez que um PNE faz um estudo de quanto o governo e as entidades precisam investir ano a ano para o cumprimento de todas as metas.
O que é o PNE?
O plano determina as metas, diretrizes, objetivos e estratégias para a educação no país pelos próximos 10 anos.
O último PNE venceu ano passado, mas foi prorrogado até dezembro deste ano pelo Congresso, já que o governo não enviou uma nova proposta de texto a tempo.
O texto apresentado hoje ainda não tem data prevista para votação pela Câmara.
Calendário de revisão das metas
O texto apresentado nesta terça estabelece um calendário, com datas para o planejamento estratégico de cada gestor para o atingimento das metas. E trata das responsabilidades da União, dos estados e municípios.
A previsão é que o Plano tenha as metas acompanhadas por dois instrumentos:
Plano da Educação: um documento de longo prazo, que define metas e diretrizes gerais.
Planos de Ação: a cada dois anos, União, estados e municípios devem elaborar planos operacionais com metas intermediárias e indicadores locais.
Fundo nacional de infraestrutura escolar
O novo PNE também cria o Programa Nacional de Infraestrutura Escolar, vinculado ao Ministério da Educação.
O objetivo da criação do Fundo é melhorar a infraestrutura escolar existente e expandir com novas construções e unidades.
O projeto prevê a retirada dos gastos com o programa do teto do orçamento federal, além de irrigação do fundo com recursos provenientes da exploração de petróleo.
Os 19 objetivos
Governo envia ao Congresso novo Plano Nacional de Educação
Veja a lista das 19 metas previstas no PNE:
Ampliar a oferta de matrículas em creche e universalizar a pré-escola
Garantir a qualidade da oferta de educação infantil
Assegurar a alfabetização e nível adequado de aprendizagem em matemática, ao final do segundo ano do ensino fundamental, a todas as crianças, em todas as modalidades educacionais, com inclusão e redução de desigualdades, visando à sua superação
Assegurar que crianças, adolescentes e jovens em idade escolar obrigatória concluam o ensino fundamental e o ensino médio na idade regular, em todas as modalidades educacionais, com inclusão e redução de desigualdades, visando à sua superação
Garantir a aprendizagem dos estudantes no ensino fundamental e no ensino médio, em todas as modalidades educacionais, com inclusão e redução de desigualdades, visando à sua superação
Ampliar a oferta de educação integral em tempo integral para a rede pública
Promover a educação digital com a garantia de conectividade de alta velocidade para fins pedagógicos, inclusive com redes internas wi-fi, e dos conteúdos das três dimensões estabelecidas na BNCC
Promover a educação ambiental e o enfrentamento das mudanças do clima em todos os estabelecimentos de ensino
Garantir o acesso, a oferta e a permanência em todos os níveis, as etapas e as modalidades na educação escolar indígena, na educação do campo e na educação escolar quilombola, observados os padrões nacionais de qualidade, com redução das desigualdades regionais
Garantir o acesso, a permanência, a oferta de atendimento educacional especializado de qualidade e a aprendizagem dos estudantes público-alvo da educação especial (PAEE), e dos estudantes público-alvo da educação bilíngue de surdos (Paebs), em todos os níveis, as etapas e as modalidades.
Assegurar a alfabetização e ampliar o acesso, a permanência e a conclusão da educação básica de todos os jovens, adultos e idosos
Ampliar o acesso, a permanência e a conclusão na educação profissional e tecnológica, com inclusão e redução de desigualdades, visando à sua superação
Garantir a qualidade e a adequação da formação às demandas da sociedade, do mundo do trabalho e das diversidades de populações e de seus territórios na educação profissional e tecnológica
Ampliar o acesso, a permanência e a conclusão na graduação, com qualidade, inclusão e redução de desigualdades, visando a sua superação
Garantir a qualidade de cursos de graduação e instituições de ensino superior
Ampliar a formação de mestres e doutores, de maneira equitativa e inclusiva, com melhoria contínua da qualidade e foco na prospecção e na solução dos problemas da sociedade, contribuindo para o desenvolvimento científico, tecnológico, cultural, econômico, social e ambiental do País
Garantir formação, valorização e condições de trabalho adequadas aos profissionais da educação básica, de modo a elevar a qualidade da educação
Assegurar a participação e o controle social no planejamento, na gestão democrática na educação pública, no monitoramento e na avaliação das políticas educacionais, tendo em vista a melhoria da qualidade do ensino e aprendizagem
Assegurar a qualidade e a equidade nas condições de oferta e permanência da educação básica e da educação superior

Como um professor de escola pública e uma parlamentar negra criaram o Dia do Professor há quase 80 anos

‘Pim, pim, professora está a chegar!’: educadora angolana é recebida pelos alunos com canto e festa; vídeo viraliza
Educadora angolana é recebida pelos alunos com canto e festa
Na sala dos professores do Ginásio Caetano de Campos, conhecido como Caetaninho, uma escola pública que funcionava na Rua Augusta (SP), uma questão angustiava: era preciso buscar uma solução para aliviar o calendário letivo no segundo semestre, então carente de pausas para o descanso.
Foi quando o piracicabano Salomão Becker (1922-2006) teve uma ideia. Ele se lembrou que em sua cidade-natal havia a tradição de um dia em que os alunos levavam doces e salgadinhos para se confraternizar com os professores. Juntou alhos com bugalhos e propôs uma pausa nas atividades escolares para que fosse celebrado o Dia do Professor — que hoje é celebrado no Brasil todo dia 15 de outubro.
LEIA TAMBÉM: 'Pim, pim, professora está a chegar!': educadora angolana é recebida pelos alunos com canto e festa; vídeo viraliza
A escolha da data não poderia ser mais conveniente: mais ou menos no meio do segundo semestre escolar, coincidindo com o dia da primeira legislação brasileira a instituir oficialmente a educação pública primária em todo o território nacional, a Lei Imperial de 15 de outubro de 1827, sancionada pelo imperador d. Pedro 1º (1798-1834).
Em 1947, portanto, o Caetaninho passou a ter o Dia dos Professores. E a ideia logo foi se espalhando por outros colégios. Tanto que, no ano seguinte, se tornou lei paulista.
"A iniciativa de Salomão Becker é a gênese afetiva e comunitária da data", comenta à BBC News Brasil o publicitário Rinaldo Allara Filho, pesquisador da área de educação e professor na Universidade Presbiteriana Mackenzie.
"Ele percebeu o esgotamento físico e mental dos colegas ao final de um longo período letivo e teve uma ideia simples, porém profundamente humana: organizar um dia de folga e confraternização."
"O objetivo dele não era criar um feriado nacional, mas sim um momento de pausa e reflexão", explica Allara. "Era uma oportunidade para os professores se reunirem, trocarem experiências sobre os desafios da profissão, analisarem os problemas em comum e, principalmente, descansarem e se sentirem valorizados por seus pares. A iniciativa nasceu 'de baixo para cima', a partir da vivência real da sala de aula. Era sobre congraçamento, sobre criar uma comunidade de apoio mútuo em um ofício que pode ser muito solitário."
Antonieta de Barros foi uma das figuras centrais na criação do Dia do Professor
Acerto do Museu da Escola Catarinense
➡️Questão constante na história brasileira, a busca pela valorização do trabalho do professor era uma preocupação naqueles anos 1940. Tanto que, naquela mesma época, a professora catarinense Antonieta de Barros (1901-1952), então deputada estadual, criou uma lei instituindo o Dia do Professor como feriado escolar em Santa Catarina.
Barros entraria para a história como a primeira mulher negra a ser eleita para um cargo público no Brasil, tornando-se um ícone de pioneirismo tanto para o movimento negro quanto para a causa feminista.
"O professor Becker não estava só em sua iniciativa. Outros personagens se destacaram com essa ideia [de valorizar o magistério]. Por coincidência ou não, a professora Antonieta de Barros trabalhou nesse mesmo sentido, de valorizar a figura do professor mediante o estabelecimento da efeméride", afirma à BBC News Brasil o educador Italo Francisco Curcio, consultor da Fundação Eduardo Carlos Pereira. "E ela o fez, por meio de uma lei estadual."
Allara pontua que embora não haja evidências de conexão direta ou colaboração entre Becker e Barros, é preciso ressaltar o "espírito do tempo" do Brasil daquela época.
"O país vivia um período de redemocratização após o Estado Novo, e havia um debate nacional intenso sobre os rumos da nação e o papel da educação nesse processo de reconstrução. A necessidade de valorizar o magistério era uma pauta latente na sociedade", diz o professor.
"Particularmente penso que, as duas iniciativas, embora independentes, podem ser vistas como duas manifestações distintas, porém complementares, dessa mesma necessidade, uma nascida da prática e da solidariedade de classe em São Paulo, e outra, da visão política e do compromisso social em Santa Catarina."
Allara observa que há uma complementaridade entre as duas iniciativas.
"Mostra que a luta pela valorização não é uma abstração, mas foi liderada por pessoas reais, com motivações concretas. Becker nos lembra da importância do cuidado mútuo e da saúde mental docente. Antonieta nos inspira com sua resiliência e visão política", afirma.
➡️Fato é que a proposta pegou em todo o país. Em outubro de 1963, o então presidente João Goulart (1919-1976) publicou um decreto instituindo o feriado escolar do Dia do Professor no território nacional.
Antonieta de Barros, com sua turma de colegas
Acerto do Museu da Escola Catarinense
História, geografia e direito
Formado em filosofia pela Universidade de São Paulo, Becker foi professor de história e geografia em diversas escolas públicas e privadas ao longo de 49 anos. Ele era filho de imigrantes que trocaram a Moldávia pelo Brasil no início dos anos 1910 e deficiente físico — tinha paralisia total no braço direito, desde o nascimento.
Na juventude, Becker teve uma breve passagem pelo jornalismo, como repórter do jornal Folha da Tarde. Encontrou-se mesmo no magistério. Tanto que, já aposentado, decidiu cursar Direito e, tão logo se diplomou, acabou se tornando professor de direito internacional na Universidade Presbiteriana Mackenzie.
Curcio reconhece que há poucas informações biográficas que detalhem a trajetória de Becker mas que, "bastou essa iniciativa", a da criação da data comemorativa, "para mencionar-se sua notoriedade".
"Entendo que ele estava imbuído do mesmo princípio que o meu: o da necessidade de se destacar uma data para homenagear um personagem marcante em nossa vida, o professor, a professora", comenta o educador.
"Com seus quase 50 anos de docência, os registros históricos disponíveis acerca de sua biografia são parcos e não nos possibilitam destacar eventuais outras grandes marcas, que possam ter sido vivenciadas. Mas, mesmo assim, sabe-se de seu brilhantismo e dedicação singular na sua vida de professor", avalia Curcio.
Para o educador, Becker almejava "muito mais do que a efeméride". "Ele queria festejar e promover um dia de destaque do professor", salienta.
Pioneira
Antonieta de Barros é uma figura que vem sendo resgatada do apagamento nos últimos anos — em 2023 teve seu nome inscrito no Livro dos Heróis e Heroínas da Pátria. Filha de uma lavadeira, ex-escravizada, com um homem sobre o qual há poucas informações, teve uma infância pobre e difícil em Florianópolis.
Para ajudar nas despesas domésticas, sua mãe transformou a casa da família em uma pensão para estudantes. Conta-se que foi essa convivência que fez da menina uma apaixonada pelas letras. Tudo indica que foi por causa desses clientes de sua mãe que Barros se alfabetizou, inclusive.
Tornou-se professora e, ao longo da vida, dividiu-se entre empregos em escolas e o curso particular que ela criou para alfabetizar crianças pobres e sem acesso escolar.
Também foi jornalista. Fundou o dirigiu o jornal A Semana e escreveu para a imprensa local, não raras vezes tecendo críticas sociais.
Na política, iniciou como ativista de classe — foi uma das fundadoras da Liga do Magistério Catarinense. Mais tarde, se tornaria deputada estadual, uma das primeiras mulheres eleitas do país e a primeira mulher negra a ocupar um cargo eletivo. Também foi constituinte em 1935.
"A história de Antonieta de Barros ressignifica a data", ressalta Allara. "Ela nos lembra que a valorização do professor está intrinsecamente ligada à luta por uma sociedade mais justa, inclusiva e equitativa."
"Ela, uma mulher negra educando a partir das margens, viu na institucionalização do Dia do Professor um ato de afirmação da educação como pilar da democracia. Portanto, revisitar sua história não é apenas resgatar o passado; é nos inspirar para lutar por um futuro onde a valorização do professor seja, de fato, a prioridade que a sociedade brasileira merece."
Marco fundador
Sala de aula no Rio, em 1970
Arquivo Nacional
Estudioso da história do magistério no Brasil há 30 anos, o linguista Vicente de Paula da Silva Martins, professor na Universidade Estadual Vale do Acaraú (UVA), no Ceará, lembra à BBC News Brasil que é preciso destacar a importância da data escolhida no Brasil para comemorar o Dia do Professor.
"É o marco fundador do sistema nacional de ensino e da valorização jurídica da profissão docente", destaca ele, referindo-se ao decreto imperial de 1827. "Escolher essa data não é apenas um gesto comemorativo: é o reconhecimento da origem legal, institucional e simbólica da docência no Brasil."
Ao analisar a legislação original, Martins explica que ali estão os fundamentos que definem quem são os professores, quais seus papéis e como deveria se estabelecer a autoridade pedagógica no país recém-independente.
"Tudo isso inserido em um projeto de sociedade cujas marcas ainda influenciam a forma como valorizamos, ou nem sempre valorizamos, o magistério", pontua.
A lei daquela época, por exemplo, delimitava diferenças entre professor e mestre. O primeiro era responsável direto pela instrução dos alunos. Já o mestre ocupava posição mais elevada na hierarquia escolar, exercendo papéis de supervisão, orientação, coordenação e liderança.
Martins observa que tal "arranjo institucional" previa a "construção de uma hierarquia sociopedagógica", com papéis definidos de instrução e de controle e organização do ensino. Para ele, portanto, houve não apenas a organização do ensino das primeiras letras, mas a consolidação de "uma estrutura educacional marcada por desigualdades de função, prestígio e gênero".
"Todos os mestres eram professores, mas nem todo professor era mestre. E as mestras, embora formalmente reconhecidas, atuavam sob limites impostos pela sociedade patriarcal da época", resume. "Essa distinção, cristalizada legalmente, ecoa ainda hoje em debates sobre valorização docente, liderança pedagógica e igualdade de gênero na educação brasileira."
Para o professor da UVA, a lei de 1827 tem de ser entendida como "documento fundamental para compreender a formação da educação pública no Brasil". "Ela representa, ao mesmo tempo, um avanço normativo e um reflexo das contradições do liberalismo brasileiro no século 19", avalia Martins. "É uma lei de inspiração moderna, que valoriza o mérito, a instrução e a profissionalização do magistério. Mas que permanece presa às amarras da centralização imperial."
Por outro lado, ele reconhece que, ao determinar a criação de escolas de primeiras letras em todo o território, o imperador empreendeu, para os padrões da época, "uma tentativa ousada de universalizar o ensino básico".
"A educação, que até então era privilégio das elites e muitas vezes restrita a instituições religiosas, passou a ser entendida como um serviço público, sob responsabilidade direta do Estado", contextualiza ele. "Essa mudança de paradigma foi essencial para a construção de uma identidade nacional que valorizasse o saber e a formação cidadã."
A lei imperial foi a primeira a reconhecer o professor como "agente fundamental" na "formação moral, intelectual e cívica dos cidadão".
E estabelecia até mesmo a remuneração que deveria ser dada aos professores. De acordo com estudo de Martins, os valores previstos naquela legislação, se atualizados para a realidade atual, indicariam que um professor deveria receber ordenados mensais de no mínimo R$ 5.733 — e um teto de R$ 14.336.
O currículo básico deveria ensinar leitura, escrita, aritmética, gramática, moral cristã, religião católica, geometria e constituição e história do Brasil.
Para os especialistas, a data ainda hoje é importante para provocar uma valorização do magistério. "Apesar de ter menos pompa do que em outras épocas", diz Curcio.
Allara vê "uma dualidade" no feriado escolar.
"Por um lado, há uma dimensão afetiva e genuína, manifestada por alunos e famílias, que reconhece o impacto do professor em suas trajetórias. Esse reconhecimento é valioso e necessário para o bem-estar emocional do docente", comenta ele.
"Contudo, por outro lado, essa celebração pontual contrasta com um desafio estrutural. A data promove um reconhecimento sentimental, mas ainda falha em impulsionar a valorização profissional da categoria. A sociedade precisa avançar na percepção do magistério, superando a imagem histórica de uma profissão puramente vocacionada, que por vezes beira a filantropia em termos de condições de trabalho, para consolidá-la como um pilar estratégico na construção de futuros cidadãos."
Ou seja: a data celebra o professor, mas ainda faltam políticas que valorizem efetivamente o magistério.
"As celebrações não dependem apenas do sentimento de alguém que as organiza ou que as sugere, mas, sobretudo de quem as assimila, inclusive seu organizador ou seu proponente. Por isso, o tom da celebração é relativo", pondera o educador Curcio.
"Eu ainda creio que o professor é uma figura respeitada e celebrada."

‘Pim, pim, professora está a chegar!’: educadora angolana é recebida pelos alunos com canto e festa; vídeo viraliza

‘Pim, pim, professora está a chegar!’: educadora angolana é recebida pelos alunos com canto e festa; vídeo viraliza
Educadora angolana é recebida pelos alunos com canto e festa
🎶“Pim, pim, pim, professora está [a] chegar!”, gritam crianças de uma escola no Cazenga, em Luanda, capital de Angola. O furor delas na cantoria lembra o de um fã clube ao ver o ídolo pisando no palco.
Quem entra na sala de aula e anima ainda mais o público é a grande estrela e compositora do hit: Isabel Zua Domingos, de 24 anos, que leciona no colégio desde 2018.
A cena, registrada em um vídeo com milhões de visualizações, é impossível de ser vista apenas uma vez. Todo mundo pede bis, principalmente os brasileiros, que dominam os comentários do post.
Por meio da música, Isabel faz mágica: consegue transportar a plateia (formada por alunos de 10 e 11 anos) para um mundo mais festivo e acolhedor — “um lugar de conforto”, nas palavras da professora.
“Muitos dos meus alunos não têm alimentação adequada nem material escolar completo. Outros são expulsos por falta de pagamento da mensalidade. Mas eles amam ficar na escola”, diz Isabel, em entrevista ao g1.
“Brincando e aprendendo, aproveitam para esquecer as dificuldades que enfrentam em casa.”
‘A felicidade deles é a minha’
Professora viralizou ao animar alunos de escola em Angola
Reprodução/Redes sociais
As perguntas feitas pelo g1 a Isabel podem até versar sobre a história da docente, o dom que ela tem de encantar as crianças, os desafios do seu trabalho… Não importa. As respostas são sempre focadas nos alunos, nunca nela própria.
“Fico muito feliz quando sou recebida por eles, porque a felicidade deles é também a minha. Preciso motivá-los, para que eles não desistam de estudar”, diz.
O “álbum” de Isabel tem, além da música de boas-vindas, batuques e letras para quase todas as disciplinas. Ela acredita que seja essa a chave para conquistar as crianças — como Emanuel, o primeiro que grita e canta ao vê-la entrar na sala de aula, e a quem ela se refere como seu "quase filho”.
“Não é difícil fazer o que se ama. E eu amo o que eu faço. É uma profissão muito bonita”, afirma a professora.
Professora Isabel cativa seus alunos por meio da música
Arquivo pessoal