Falta de cuidado é violência que compromete a velhice negra

Lucia Hippolito sabia que não veria 2024
Estudos mostram que uma vida sob os efeitos negativos do racismo torna a Doença de Alzheimer prevalente entre afrodescendentes. As desigualdades sociais se encarregam de forjar velhices bem diferentes e a data de hoje – Dia Mundial de Conscientização sobre a Violência contra a Pessoa Idosa – é uma boa oportunidade para falar da violência contra a população negra que, desde cedo, coleciona investidas contra seu bem-estar. Estudo apresentado em 2021 por Roudom Ferreira Moura, doutor em epidemiologia pela USP, mostrava que os idosos negros na cidade de São Paulo tinham piores condições de renda, escolaridade, hipertensão e acesso a serviços privados que os brancos. Também avaliavam sua saúde negativamente: 47,2% dos pretos e 45,5% dos pardos descreveram seu quadro como regular, ruim ou muito ruim, enquanto, entre os brancos, foram 33%.
População negra: falta de cuidado compromete a velhice e aumenta risco de morte prematura
Ace Spencer para Pixabay
Reportagem impecável dos jornalistas da Associated Press, que coletaram dados ao longo de 2022, constatou que os afrodescendentes norte-americanos têm piores índices em todos os quesitos relacionados à saúde: de mortalidade materna e infantil a dificuldades para conseguir tratamento para distúrbios mentais. Alguns dos dados:
14,8% dos bebês negros nasceram prematuramente em 2021, um percentual acima de qualquer outra etnia.
18% dos jovens negros relatam serem expostos a um trauma racial com frequência, sendo que 50% enfrentam sintomas de depressão de moderados a severos. Uma vida sob os efeitos negativos do racismo torna a Doença de Alzheimer prevalente no grupo.
14% dos negros americanos acima dos 65 anos têm Alzheimer, em comparação com 10% dos brancos. A expectativa é de que o número de casos quadruplique até 2060.
75% dos afrodescendentes norte-americanos têm chances de desenvolver um quadro de hipertensão aos 55 anos.
O racismo estrutural afeta o paciente negro. James Sims era um cirurgião norte-americano do século XIX que chegou a ser conhecido como o pai da moderna ginecologia. Numa época em que era tabu examinar os órgãos femininos, desenvolveu uma técnica para corrigir a fístula vesicovaginal (uma comunicação anormal entre a bexiga e a vagina) realizando cirurgias sem anestesia em mulheres escravizadas. Só depois passou a operar mulheres brancas, essas devidamente sedadas. A crença de Sims de que negros conseguiam suportar melhor a dor persiste até hoje entre alguns profissionais de saúde.
Estudo da Tulane University sustenta que os negros que vivem nos EUA têm um risco de morte prematura 59% maior que os brancos. A desigualdade pode ser explicada pelas disparidades em oito áreas críticas: renda, emprego, segurança alimentar, escolaridade, acesso à saúde, qualidade do seguro saúde, casa própria e estado civil. São conhecidas como determinantes sociais de saúde (SDOH na sigla em inglês). Os pesquisadores utilizaram as informações de um levantamento nacional para determinar a prevalência e o risco de doenças no país. Quando aplicavam filtros nos quais os determinantes desfavoráveis deixavam de existir, a disparidade era reduzida a zero.
Ter apenas um determinante social desfavorável dobra as chances de uma pessoa ter morte prematura. Com seis ou mais, o risco é multiplicado por oito.
“Não há diferença entre a morte prematura de brancos e negros depois de excluirmos os determinantes. Simplesmente desapareceu”, afirmou Josh Bundy, epidemiologista e principal autor do trabalho, acrescentando: “isso sugere que sejam os alvos primários para eliminar as disparidades na saúde”.

Público visita centro que abriga o Sirius para atividades interativas no universo da ciência

Lucia Hippolito sabia que não veria 2024
Adultos e crianças participaram de 85 atividades interativas que incluíram práticas nos laboratórios, demonstrações tecnológicas, palestras e oficinas. Público visitou o CNPEM neste sábado
Gabriela Ferraz/EPTV
Um dos maiores centros de produção científica do Brasil, o Centro Nacional de Pesquisa em Energia e Materiais (CNPEM), em Campinas (SP), abriu as portas neste sábado (17) para apresentar o Sirius, um dos aceleradores de partículas mais avançados do mundo, e outros superlaboratórios com trabalhos nas áreas de biociências, nanotecnologia e biorrenováveis.
O programado, chamado de "Ciência Aberta", proporcionou a crianças e adultos um contato direto com os cientistas. As 85 atividades interativas incluíram práticas nos laboratórios, demonstrações tecnológicas, palestras e oficinas. O evento começou às 8h e segue até 17h.
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O evento aconteceu em um dia marcado por tristeza no CNPEM. O pesquisador João Leandro Brito Neto, de 39 anos, morreu baleado na noite de sexta-feira (16) enquanto conduzia o motocicleta da montadora BMW. A instituição emitiu uma nota lamentando a perde do colaborador.
"É com grande pesar que anunciamos a inesperada perda de João Leandro Brito Neto, um colaborador extremamente querido no Centro Nacional de Pesquisa em Energia e Materiais (CNPEM). Esse falecimento é sentido não apenas por sua equipe de trabalho, nas linhas de luz do Sirius, mas por toda a nossa organização", comunicou a instituição.
João Leandro era especialista no grupo Controle e Integração da Divisão de Engenharia de Linhas de Luz. O centro de pesquisa também destacou que João foi um voluntário entusiasmado em todas as edições do Ciência Aberta, evento programado justamente para este sábado.
"Enfrentar essa perda, especialmente em um dia como hoje, que o CNPEM se preparou para receber a visita de toda a sociedade, é um desafio imenso para todos nós […] É importante que, como comunidade, nos apoiemos mutuamente, compartilhando nossas memórias carinhosas e dedicando todo o trabalho de hoje ao João Leandro", finaliza.
O que é o Sirius?
Principal projeto científico brasileiro, o Sirius é um laboratório de luz síncrotron de 4ª geração, que atua como uma espécie de "raio X superpotente" que analisa diversos tipos de materiais em escalas de átomos e moléculas.
Para observar as estruturas, os cientistas aceleram os elétrons quase na velocidade da luz, fazendo com que percorram o túnel de 500 metros de comprimento 600 mil vezes por segundo. Depois, os elétrons são desviados para uma das estações de pesquisa, ou linhas de luz, para os experimentos.
Esse desvio é realizado com a ajuda de ímãs superpotentes, e eles são responsáveis por gerar a luz síncrotron. Apesar de extremamente brilhante, ela é invisível a olho nu. Segundo os cientistas, o feixe é 30 vezes mais fino que o diâmetro de um fio de cabelo.
CNPEM abriu as portas ao público neste sábado
Gabriela Ferraz/EPTV
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“O declínio cognitivo não deveria ser encarado como algo inevitável. Essa é uma trágica derrota da medicina”, diz especialista

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O médico David Dodick, professor emérito da Mayo Clinic, sugere o check-up do cérebro como rotina “Infelizmente, ainda não fazemos um check-up do cérebro, embora já tenhamos tecnologia para isso. Seria a melhor forma de mapear o risco do declínio cognitivo e intervir precocemente. Do contrário, a longevidade pode ser uma maldição, e não um bônus”. As palavras, duras, são do médico David Dodick, professor emérito da Mayo Clinic e adjunto da Thomas Jefferson University, entre outras instituições. Assisti à palestra on-line que deu na quinta-feira, na qual apontava a questão como prioridade para a saúde pública global:
David Dodick, professor emérito da Mayo Clinic: check-up do cérebro deveria ser rotina
Reprodução
“O declínio cognitivo não é o caminho natural, nem deveria ser encarado como algo inevitável. Essa é uma trágica derrota da medicina”.
As estatísticas são alarmantes: as doenças do cérebro afetam uma em cada três pessoas e são a principal causa de incapacidade, além de apresentarem o maior crescimento entre as doenças crônicas não transmissíveis, como diabetes, hipertensão ou câncer.
“80% dos casos de derrame e 40% dos de demência podem ser evitados. Os países de baixa e média renda respondem por 80% do peso das doenças relacionadas ao cérebro. Quero ser otimista e imaginar que os governos investirão em programas para mudar este cenário”, frisou.
Dodick listou os 12 fatores de risco que respondem por 40% dos casos de demência: hipertensão, diabetes, obesidade, perda de audição, poluição atmosférica, consumo excessivo de álcool, traumas na cabeça, isolamento social, depressão, fumo, falta de atividade física e baixa escolaridade.
Fazendo uma comparação com os EUA, estamos, como eles, em maus lençóis: lá, são 37 milhões diabéticos, quase 50% dos adultos têm hipertensão e apenas um em cada quatro norte-americanos se exercita. Dois terços têm sobrepeso e, desses, 42% são obesos, mas menos de 2% estão em tratamento. No Brasil, há 17 milhões de portadores de diabetes – somos o quinto país com maior incidência, atrás de China, Índia, EUA e Paquistão. São 30 milhões com hipertensão e 22.4% da população apresentam um quadro de obesidade. No quesito atividade física, também vamos mal das pernas: menos da metade se exercita.
“O Alzheimer atinge um em cada dez idosos acima dos 65. É importante lembrar que se passam 20 anos até os sintomas surgirem, portanto trata-se de uma janela de oportunidade para a detecção precoce. Assim é possível tentar retardar o aparecimento da doença, atenuar sua manifestação e ganhar tempo até outras terapias estarem disponíveis”, explicou.
Há indicadores clínicos que precedem o estabelecimento de uma enfermidade, conhecidos como sintomas prodrômicos. No Parkinson, por exemplo, constipação, perda parcial do olfato (hiposmia) e o movimento involuntário dos olhos (nistagmo) são sinais de alerta que antecedem os tremores. Por isso, o “check-up” do cérebro se torna tão relevante, incluindo exames de sangue, imagens neurovasculares, avaliação de visão, audição, discurso, fala, equilíbrio e sono. Aliás, sobre o sono, o professor é incisivo:
“Eu costumava me gabar de que precisava de apenas cinco horas de sono para me refazer, mas os dados são incontestáveis e perturbadores. Na verdade, o que parece ser uma vantagem (dormir pouco) vai diminuindo a capacidade produtiva. E a insônia é um fator de risco tratável”.
O médico ainda citou medicamentos como a metformina e os inibidores SGLT2 que, embora sejam utilizados para o controle do diabetes, são neuroprotetores, reduzindo o risco de Alzheimer. O treinamento cognitivo é outra ferramenta valiosa para preservar as funções cerebrais, como o Teste de Stroop: aquele no qual temos que ler não a palavra escrita, e sim a cor na qual está impressa. Por fim, propõe um esforço coordenado das diversas entidades médicas: “temos que acabar com a medicina de silos, é preciso que as sociedades de diabetes, cardiologia e neurologia trabalhem juntas”.

‘Feliz por conversar’, os bancos com design especial para combater a solidão

Lucia Hippolito sabia que não veria 2024
Iniciativa surgiu no País de Gales em 2019 e se espalhou por diversas cidades Tentamos ignorar as pessoas que dividem o espaço urbano conosco. No ponto de ônibus, no metrô ou numa praça, fingimos que os outros não existem, cada um mergulhado no universo do seu celular. Em maio, Vivek Murthy, que ocupa o cargo de “surgeon general” nos EUA – responsável pelo serviço de saúde pública do país – divulgou documento alertando sobre a extensão da crise de solidão vivida pelos norte-americanos.
Banco ‘feliz por conversar’: ideia foi criação de Allison Owen-Jones, do País de Gales
Divulgação
Mesmo antes da pandemia, metade dos adultos relatava sofrer pelo menos algum grau de isolamento. Felizmente, um movimento iniciado no Reino Unido vai na direção oposta: são os bancos batizados como “Feliz por conversar”: com cores fortes, eles têm um design especial para incentivar o contato interpessoal.
Allison Owen-Jones teve a ideia ao observar um idoso ficar 40 minutos sentado sozinho num parque de Cardiff, no País de Gales, onde mora. “Não sabia como me aproximar sem parecer estranho, mas imaginei como seria bom fazer com que os outros soubessem que estamos disponíveis para bater papo”, ela conta. Foi assim que surgiu o banco da conversa, com a frase: “Happy to chat bank. Sit here if you don´t mind someone stopping to say hello” (“Banco ‘feliz por conversar’. Sente-se aqui se não se importa de alguém parar para dizer alô”). Em maio de 2019, começou a colar pequenos cartazes com esses dizeres e a iniciativa não só foi encampada por organizações não governamentais como se espalhou: Canadá, Estados Unidos, Austrália e Suíça foram algumas das nações a abraçar a causa.
Na Polônia, o “gadulawka”, como é chamado, traz o convite em polonês, hebraico e inglês. No Zimbabwe, são os “bancos da amizade” e podem servir, inclusive, para sessões terapêuticas.
No Zimbabwe, os “bancos da amizade” podem servir, inclusive, para sessões terapêuticas
Divulgação
Agentes de saúde recebem um treinamento básico em terapia cognitivo-comportamental com foco em solução de problemas. Em termos práticos, os participantes aprendem a identificar a causa de sua ansiedade ou depressão e a buscar soluções. O objetivo é livrar as pessoas da “kufungisisa” (“pensar demais”). Modelo semelhante foi implantado no Malawi, Quênia e em Zanzibar. Pode ser que, dos encontros, não surjam relacionamentos profundos, mas a sensação de invisibilidade tende a diminuir. Torço para que a proposta chegue aqui.

Lucia Hippolito sabia que não veria 2024

Lucia Hippolito sabia que não veria 2024
Cientista política que ficou tetraplégica há 11 anos, vítima da Síndrome de Guillain-Barré, tinha câncer metastático No fim de maio, recebi uma mensagem de Lucia Hippolito, me lembrando que não nos víamos há alguns meses – estava certa, nosso último encontro tinha sido em dezembro de 2022. Volta e meia enviava uma gravação bem-humorada, dizendo: “sou como um monumento público, estou aberta à visitação!”.
Lucia Hippolito: serenidade diante do diagnóstico de metástase
Mariza Tavares
Sua vida mudara radicalmente em 2012, quando, no auge da trajetória profissional, ancorava o programa “CBN Rio”, na Rádio CBN. De férias em Paris, perdeu completamente os movimentos na véspera do retorno ao Brasil. Tratava-se de uma forma gravíssima da Síndrome de Guillain-Barré, doença autoimune que afeta os grupos musculares. Foram três meses de internação, sendo 48 dias intubada, até poder pegar um voo de volta, já presa a uma cadeira de rodas.
Combinei de ir à sua casa na segunda-feira seguinte e, a caminho do apartamento em Ipanema, na Zona Sul do Rio, me dei conta de que seu aniversário se aproximava. Ano passado, no dia 29 de junho, convidara 15 amigas para comemorar os 72 anos. Apesar de todas as limitações que a tetraplegia lhe impunha, nos recebeu na sala, sentada numa poltrona, impecavelmente arrumada (como sempre) e maquiada.
No entanto, esse encontro era diferente daquele que me levou a escrever, a seu pedido, uma coluna sobre como estava em dezembro de 2021. Usava o colar que eu lhe dera de presente de aniversário, mas más notícias me esperavam na visita do dia 5 de junho. Em setembro de 2022, Lucia havia sido diagnosticada com câncer no colo do útero e se submetera a uma histerectomia total, com a retirada também dos ovários.
O tumor tinha 4cm e a recuperação havia sido satisfatória, mas, no meio de maio, sentiu fortes dores na coluna e no abdômen. Uma ressonância magnética da coluna e uma tomografia computadorizada do pulmão e abdômen não deixaram dúvidas:
“O câncer se espalhou. Tenho metástase na coluna, no abdômen e no pulmão. No pior cenário, tenho mais três meses; no melhor, seis. Os médicos estudam a possibilidade de eu fazer imunoterapia, mas já disse que, se tiver que sair desta cama, não farei qualquer tratamento. O que não quero, em hipótese alguma, é sentir dor”.
Mesmo sob o impacto da situação, tomou todas as providências, como redigir o documento com suas diretivas antecipadas de vontade, que dispõe sobre os procedimentos a que uma pessoa deseja ou não ser submetida quando estiver com uma doença sem possibilidades terapêuticas e impossibilitada de manifestar sua vontade. No testamento, pediu que as cinzas sejam espalhadas na Place des Vosges, um dos cartões-postais de Paris, a cidade que ama e que visitava duas vezes por ano. O desejo será cumprido por Regina, sua irmã.
“Tive uma vida plena, cheia de conquistas. Fui muito amada por Edgar (Flexa Ribeiro), com quem estou casada há 51 anos. Digo que não me arrependo de nada, mas me arrependo, sim, de não ter visitado o Egito e a Rússia, porque adoraria ter conhecido o Museu Hermitage, em São Petersburgo”.
Perguntei onde encontrava força e me disse que, depois de tantos anos enfrentando as sequelas da doença, os longos períodos de depressão tinham sido substituídos por serenidade. Consumidora voraz de séries, me deu inúmeras indicações do que ver. Conversamos sobre política, que continua acompanhando, e brindamos com um espumante espanhol. À vida.
Pediu-me para escrever sobre seu estado, mas que aguardasse até falar com as pessoas mais próximas sobre a gravidade da situação. Não deu tempo. Internada no último sábado, hoje Lucia nos deixa. Órfãos da sua inteligência.