Como brasileiro criou ‘abelhas assassinas’ por acidente e revolucionou a apicultura

Marina diz que governo usará recursos do Fundo Amazônia para ajudar povo Yanomami
Warwick Estevam Kerr importou exemplares de espécie africana na década de 1950, que acabaram escapando e cruzando com abelhas europeias. Nos primeiros anos, nova espécie gerou pânico, mas depois de algum tempo foi fundamental para apicultura brasileira. Como brasileiro criou 'abelhas assassinas' por acidente e revolucionou a apicultura
Acervo/SBPC
Ele foi engenheiro agrônomo, geneticista e entomologista, professor de cinco universidades brasileiras e quatro dos Estados Unidos, além de ter sido o primeiro diretor científico da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), diretor do Instituto de Pesquisas da Amazônia (Inpa) por duas vezes e presidente da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC) por dois mandatos.
Como se não bastasse, por onde passou criou departamentos e formou novos pesquisadores, mas quando se fala em seu nome o que vem primeiro à mente de muita gente é um acidente ocorrido em 1957: a introdução das abelhas africanas – injustamente chamadas de "abelhas assassinas – no Brasil.
Não foi à toa, portanto, que durante muitos anos Warwick Estevam Kerr temesse que sua brilhante carreira ficasse marcada pelo episódio. Em uma entrevista para a revista Estudos Avançados, da Universidade de São Paulo (USP), publicada em 2005, ele chegou a dizer:
"Diante do erro cometido com as abelhas africanas, em 1957, eu não esperava que iria dar a volta por cima. Pensava que teria uma vida desgraçada para o resto dos meus dias. Até 1978, as mulheres franziam a testa, mostravam-me para os filhos e diziam: 'aquele é o homem que introduziu a abelha brava no Brasil'."
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O tempo, no entanto, lhe fez justiça. Nascido em Santana de Parnaíba, em 9 de setembro de 1922, Kerr se formou em Engenharia Agronômica, em 1945, na Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz, da Universidade de São Paulo (USP), em Piracicaba, na qual também fez doutorado e livre docência, e foi professor, de 1951 a 1955, e chefe do Departamento de Genética por quatro meses.
Em 1955, ele se mudou para Rio Claro, onde, a partir de 1958, foi chefe do Departamento de Biologia, da então recém-criada Universidade Estadual Paulista (Unesp). De 1962 a 1964 foi diretor científico da Fapesp, cargo ao qual renunciou um mês antes do término do seu mandato para criar e assumir a chefia, em 1965, do Departamento de Genética da Faculdade de Medicina da USP, em Ribeirão Preto, da qual se tornou professor titular por concurso em 1971.
Nessa época, foi presidente da SBPC por dois mandatos, 1969-1971 e 1972-1973, período em que teve muitos problemas com a ditadura, que governava o país. Foi preso duas vezes, em 1964 e 1969 e chegou a ter sua numerosa família, de sete filhos, ameaçada e sob vigilâncias dos agentes do governo.
Despois de se aposentar da USP, em janeiro de 1981, Kerr foi para o Maranhão, onde ficou por oito anos, período em que criou o Departamento de Genética da Universidade Federal de lá (UFMA) e foi reitor da universidade estadual (UEMA).
Depois, em 1972, mesmo aposentado aos 70 anos, ele foi convidado para dar aulas, orientar alunos de doutorado e continuar suas pesquisas na Universidade Federal de Uberlândia (UFU), na qual permaneceu até 2012. Nesse período, ele voltou a Manaus, em 1999, para novamente dirigir o Inpa por mais três anos.
Warwick faleceu aos 96 anos, em 15 de setembro de 2018
ARQUIVO PESSOAL / SBPC
Para o também engenheiro agrônomo Breno Magalhaes Freitas, do Departamento de Zootecnia da Universidade Federal do Ceará (UFC), a importância de Kerr para a ciência brasileira "foi enorme".
"Ele foi um cientista pioneiro em muitas áreas e levou a ciência a todas as regiões desse país, tendo formado várias gerações de pesquisadores brasileiros diretamente e inspirado tantos outros", diz.
"Junto com o padre Jesus Moure e o professor Paulo Nogueira-Neto, ele estabeleceu toda a base do conhecimento sobre as abelhas no Brasil."
No que diz respeito à apicultura em si, Freitas lembra que Kerr ficou marcado pelo acidente com as abelhas africanas, mas que depois ficou claro não ter sido sua culpa.
"E felizmente, mesmo por linhas tortas, a apicultura brasileira acabou se beneficiando enormemente da sua iniciativa de trazer as abelhas africanas, coragem de encarar as consequências quando os problemas aconteceram, mesmo não tendo sido sua responsabilidade", explica.
"Mas é preciso também ressaltar o seu grande trabalho com as abelhas sem ferrão, especialmente na região Norte do Brasil."
As abelhas africanizadas foram criadas a partir do cruzamento entre as abelhas africanas e europeias
Getty Images
O 'acidente com as abelhas'
O tão falado acidente com as abelhas africanas ocorreu um ano após ele ter voltado da África, para onde havia ido, em 1956, para estudar de perto a produção de mel naquele continente e, depois, aplicar seus novos conhecimentos na apicultura brasileira.
O objetivo era aumentar a produtividade e a resistência das abelhas europeias, que tinham sido introduzidas no Brasil, em 1839, mas que não haviam se adaptado muito bem ao país, com exceção das regiões Sul e Sudeste.
Na volta ao Brasil, como parte de sua bagagem, Kerr trouxe 51 rainhas – 50 da África do Sul e uma da Tanzânia – da espécie Apis mellifera scutellata, altamente produtiva, mas muito agressiva – ou defensiva, como preferem dizer os estudiosos das abelhas.
Elas deram origem a colmeias, que foram postas em quarentena em um bosque de eucalipto no campus de Rio Claro da Unesp, para que apenas as mais mansas fossem escolhidas.
Para evitar que as rainhas fugissem para a natureza e se espalhassem, as colmeias foram fechadas por uma malha, que permitia a passagem apenas das operárias, que são menores.
Um funcionário da equipe, imaginando que as abelhas estavam presas por engano, no entanto, retirou as malhas de algumas colmeias.
Resultado: 26 rainhas escaparam, cruzaram com as europeias e deram origem a enxames de abelhas africanizadas, que se espalharam, primeiro por São Paulo, e depois por todo o Brasil e que hoje estão pelas três Américas.
Sem predadores naturais no novo lar e muito agressivas, aonde chegavam e se instalavam "tocavam o terror".
"De 1957 até 1964 essas abelhas cruzaram-se com as alemãs, italianas e portuguesas", contou Kerr, na mesma entrevista para Estudos Avançados.
"Porém, houve um grande problema: os apicultores colocavam seus apiários próximos aos galinheiros, pocilgas, cocheiras. Houve mortes de galinhas, porcos, cavalos, e a mortalidade de gente que era 120 por ano passou para 180."
A médica veterinária Débora Cristina Sampaio de Assis, do Departamento de Tecnologia e Inspeção de Produtos de Origem Animal da Escola de Veterinária da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), lembra que as abelhas se espalharam rapidamente pelo país e, por meio do cruzamento com abelhas europeias, deram origem às abelhas africanizadas.
"Inicialmente, elas trouxeram uma série de problemas, pois os apicultores não sabiam como trabalhar com elas, devido, principalmente, ao seu maior comportamento defensivo, quando comparado ao das europeias", explica.
As abelhas africanizadas eram muito mais sensíveis a qualquer estímulo, além de atacarem em maior número e a distâncias mais longas da colmeia, sendo muito mais insistentes nos ataques que as abelhas europeias.
"Assim, por medo, muitos apicultores acabaram abandonando a atividade, pois não possuíam equipamentos adequados nem conhecimento técnico para realizar o manejo das abelhas africanizadas", diz Débora.
E foi aí que surgiu o mito das "abelhas assassinas". O medo, gerado pela falta de conhecimento e a repercussão dada pela imprensa aos acidentes, que ocorreram nesse período, fez com que as pessoas acreditassem que se tratavam de abelhas que poderiam atacar qualquer um e sem nenhum motivo, quando na verdade o que se tinha era uma resposta defensiva, para proteger a colônia.
"Ao se sentirem ameaçadas, as abelhas saíam das colmeias em grande número, ferroando as pessoas e animais, mesmo a longas distâncias, de 100 metros ou mais da colmeia", diz Débora.
Os animais, quando estavam confinados, levavam centenas ou milhares de ferroadas e muitos acabavam morrendo.
Além disso, como as abelhas africanizadas produzem mais enxames por temporada quando comparadas às abelhas europeias, esse fenômeno se tornou muito mais frequente, assustando a população.
"Entretanto, apesar de parecer um evento impressionante para a maioria das pessoas, devido ao barulho e grande número de abelhas, sabe-se que durante a enxameação, as abelhas apresentam pouca tendência a ferroar", diz Débora.
As vantagens
Mas não foi só morte e pânico que abelhas africanizadas causaram.
"Pensando na apicultura brasileira, a curto prazo houve um impacto negativo, com a desistência da atividade por parte da maioria dos apicultores", conta Freitas.
"Mas a médio e longo prazo, tão logo se entendeu que essa abelha era diferente e não podia ser criada como a europeia, quando se estudou seu comportamento e se desenvolveram as indumentárias de proteção, fumigadores maiores, e se passou a criá-la afastada das pessoas e animais e, principalmente, adotadas técnicas de manejo específicas para esse animal, a apicultura brasileira deu grandes saltos."
Por isso, segundo ele, hoje o Brasil é um grande produtor e exportador de mel de abelhas e própolis, coisa impensável naquela época.
"E isso ocorre apesar dos nossos apicultores não serem qualificados como deveriam, ainda com dificuldades de acesso à informação, equipamentos, crédito e comercialização justa para seus produtos", acrescenta Freitas.
O próprio Kerr contou, na entrevista a Estudos Avançados, como se deu esse processo.
"O grupo de Ribeirão Preto (eu, Lionel Gonçalves, Antônio Carlos Stort, vários alunos, três técnicos e mais tarde David De Jong e Ademilson Espencer Soares) conseguiu desenvolver várias técnicas, algumas muito simples, para controlar a exploração econômica dessas abelhas", disse.
"Como colocar os apiários longe das casas de moradia, dos galinheiros e cocheiras; depositar as colmeias em banquetas isoladas (ou em canos grossos de esgoto), usar fumigadores maiores, macacões, botas, por máscaras e luvas, sempre; fazer rainhas, escolher as colmeias mais produtivas, mais mansas, mais resistentes a ácaros e enfermidades. Porém, um avanço fundamental foi dado em 1965 e 1966 com a diminuição da agressividade das abelhas, o que era um grande problema."
Cinco anos depois, o problema estava praticamente resolvido. Para isso, o grupo comprou vinte rainhas italianas dos Estados Unidos, mansas e de alta produtividade, fez enxertia e obteve 25 mil rainhas virgens, que foram introduzidas em 25 mil núcleos fortes, das quais 18 mil foram aceitas e produziram milhares de zangões italianos.
O Brasil é atualmente um grande produtor e exportador de mel de abelhas e própolis
GETTY IMAGES
"Logo os apicultores viram que não adiantava ter uma população mansa, como se tinha com as abelhas italianas, mas que fornecia uma reduzida produção de mel, duas a três vezes menos do que a africanizada", declarou Kerr.
De acordo com ele, na entrevista, a baixa produção das europeias era causada por vários fatores, inclusive porque não resistiam a um ácaro muito grande, Varroa destructor, que provocava enorme estrago nas colmeias, ao ponto de baixar a produtividade da apicultura em dezenas de países.
Além disso, as africanizadas jogam fora as larvas doentes e mortas. As colmeias são mais limpas que as das europeias.
"A nossa produção normalizou-se porque os apicultores aprenderam a lidar com a abelha africanizada", comemorou.
Há controvérsias sobre se o acidente poderia ou não ter sido evitado, mas é consenso de que não houve negligência. Para Freitas, a fuga das rainhas africanas poderia ter sido evitada, mas não houve falta de rigor no experimento.
"A ideia original não era de que as abelhas se soltassem nas matas, tanto que foram tomados cuidados de prevenção colocando telas protetoras nas colmeias", diz.
"No entanto, não acredito em negligência. Apenas não puderam imaginar que alguém iria tirar essas telas, com a intenção de ajudar, achando que as abelhas estavam presas por engano. É preciso lembrar que aqueles eram outros tempos, e a maioria dos funcionários de fazendas eram pessoas simples, sem maiores instruções."
Débora, por sua vez, lembra que realização de experimentos de campo não é tarefa simples. Há dificuldades para controlar todos os fatores que podem interferir nos resultados.
"Por isso, não se pode afirmar que houve negligência ou falta de rigor no experimento", afirma.
"O fato é que as abelhas africanizadas se adaptaram muito mais facilmente ao ambiente que as abelhas europeias e, o que era para ter sido feito de forma controlada, acabou sendo feito pela própria natureza."
O próprio Kerr, que morreu aos 96 anos, em 15 de setembro de 2018, na sua entrevista, diz que de 1979 em diante, tudo mudou.
"Passaram a tirar fotografias minhas e falavam: 'esse é o homem que salvou nossa apicultura'", contou.
"Por causa dele o papai comprou caminhão novo'. Enfim, durante 14 anos vivi uma tragédia com a introdução no Brasil das 50 rainhas da África do Sul e de uma da Tanzânia. Agora, minha mulher acha a história até engraçada e eu, como bom caipira de Santana de Parnaíba, digo 'louvado seja Nosso Senhor Jesus Cristo'. E sempre fico frustrado, por não ter por perto meus caipiras amigos para tirarem o chapéu e dizerem: 'E para sempre seja louvado, amém'."
Este texto foi publicado em https://www.bbc.com/portuguese/brasil-64329040

Parque Nacional de Fernando de Noronha recebe mais de 129 mil visitantes e bate recorde, diz ICMBio

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Dados sobre visitação ao parque em 2022 foram divulgados pelo ICMBio. Maioria dos turistas saiu de São Paulo, de Pernambuco e do Rio de Janeiro. Parque Nacional Marinho de Fernando de Noronha
Ana Clara Marinho/TV Globo
O Parque Nacional Marinho de Fernando de Noronha (Parnamar) bateu recorde de visitação em 2022, de acordo com o Instituto Chico Mendes da Biodiversidade (ICMBio). No ano passado, a reserva foi visitada por 129.932 pessoas, entre turistas nacionais e estrangeiros.
Em 2021, o Parnamar recebeu 102.498 visitantes. O recorde anterior de visitação foi registrado em 2019, quando o parque nacional recebeu 115.617 turistas, número contabilizado antes da pandemia da Covid-19.
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Em 2022, o estado de São Paulo foi o campeão no ranking de turistas na reserva ambiental, com um total de 33.634 pessoas. Em segundo lugar, ficaram os visitantes de Pernambuco, com 12.622. Já em terceiro lugar, ficou o Rio de Janeiro, com 10.546 pessoas.
Ao todo, no ano passado, 110.483 brasileiros visitaram o parque. Em seguida, vem a Argentina, que somou 1.031 visitantes. Em terceiro lugar, estão os Estados Unidos, com um total de 860 turistas.
Na área do parque, estão praias como Sueste, Atalaia, e Sancho, que foi eleita cinco vezes como a mais bonita do mundo pelos leitores do site internacional de viagens Trip Advisor.
Arrecadação
No ano passado, foram arrecadados R$ 20.450.515 com a cobrança de ingressos para acessar o parque. No dia 1º de novembro, o governo federal reajustou em 8,6% o valor da entrada no Parque Nacional Marinho.
Com esse aumento, os preços passaram de R$ 330 para R$ 358, para visitantes estrangeiros, e de R$ 165 para R$ 179, para turistas brasileiros, que têm 50% de desconto. O ingresso é válido para dez dias de visitação.
O g1 solicitou à Administração da Ilha o total de visitantes em Fernando de Noronha e de arrecadação da Taxa de Preservação Ambientação, mas não obteve resposta até a última atualização desta reportagem.
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Tintas feitas de terra e cinzas de queimadas: pintura de 600m² no centro de São Paulo homenageia Ari Uru-Eu-Wau-Wau

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Ari era indígena, professor e conhecido por trabalhar registrando e denunciando crimes ambientais e contra seu povo. Ele foi morto em 2020. Ari Uru-Eu-Wau-Wau é homenageado em pintura de 600 m² no Centro de São Paulo
André D'Elia
Terra e cinzas de queimada da Amazônia foram matérias-primas para fabricação das tintas utilizadas em uma pintura com mais de 600 m², exposta no centro da cidade de São Paulo, que homenageia Ari Uru-Eu-Wau-Wau. A obra foi inaugurada no aniversário da cidade, na quarta-feira (25).
Ari era professor e conhecido por trabalhar registrando e denunciando extrações ilegais de madeira dentro da terra indígena onde vive o seu povo. Ele foi morto há quase três anos.
"Eu recebi o convite dos produtores do filme 'O Território'. Topei na hora. Recebi com muito carinho essa oportunidade de fazer um trabalho que eu pudesse chegar perto e contribuir com o legado do Ari".
A fala acima é de Mundano, de 36 anos. Ele se intitula como artivista: utiliza a arte para direcionar o olhar da sociedade para questões socioambientais do nosso país.
"A ideia era fazer um retrato de grandes dimensões em São Paulo para que pudesse levar para mais pessoas, tanto o caso do assassinato do Ari, também a história que se passa aí em Rondônia dentro do território e ao mesmo tempo pudesse ser meio que um 'basta'".
A pintura de Ari também tem o objetivo de fazer uma releitura da obra de Lasar Senegall, chamada "Bananal".
Processo de produção
Pintura de 600 m² homenageia Ari Uru-Eu-Wau-Wau no centro de São Paulo
Com a ideia em mente, a questão se tornou escolher o prédio mais apropriado para a pintura. O local escolhido fica próximo ao Marco Zero, localizado em frente à Catedral da Sé, no centro da Cidade de São Paulo.
"Ela agora pode ser vista no Centro Histórico de São Paulo. E o mais legal: por ser o centro histórico, diversos guias e turistas diariamente andam por ali, então, a partir de agora, a história da cidade de São Paulo está sendo contada inclusive com a história do Ari", aponta Mundano.
Na foto que foi utilizada como inspiração para a pintura, Ari está na floresta, segurando um tipo de ferramenta feita de madeira. A pintura de Mundano acrescenta à imagem de Ari, um grafismo tradicional do povo Uru-Eu-Wau-Wau em formato de "X" abaixo do peito.
Ari Uru-eu-wau-wau foi encontrado morto em RO
Reprodução/Kanindé
Trazendo ainda mais representação para a figura, Mundano decidiu utilizar terra da região do Marco Zero e cinzas de queimadas da Amazônia para produzir a tinta da pintura.
"Quando eu vi que boa parte do desenho eu ia estar usando marrom, me deu a ideia de fazer a pintura com terra. Então, no centro de São Paulo, no Marco Zero, eu recolhi essa terra e passei ela por filtragens, maceração até extrair esse pigmento que depois eu coloco verniz à base de água para ser o fixador. Então a representação do Ari é feita 100% com a terra e as cinzas da Amazônia", descreve Mundano.
A tinta feita de cinzas também foi utilizada para escrever ao redor da pintura nomes de centenas de indígenas e ativistas que lutam pela proteção das florestas.
A obra que mede mais de 600 m² demorou nove dias para ficar pronta, com participação de mais quatro artistas: AFolego, Andre Hulk, André Firmiano e Everaldo Costa. Por conta da proporção da pintura, os artistas precisaram usar uma plataforma elevatória para alcançar toda área.
"São diversos desafios pintando uma obra desse tamanho. A altura, o tamanho em si, a própria tinta que é bem mais difícil de pintar e também a responsabilidade de fazer uma releitura de uma das obras mais importantes da história da arte brasileira. Mas o maior desafio pra mim, enquanto artista, foi de representar o Ari e tentar trazer a sua presença", revela Mundano.
E a recepção do trabalho foi positiva e repercutiu. De acordo com Mundano, somente na quarta-feira (26), o vídeo sobre a arte alcançou mais de 1 milhão de visualizações. Além da pintura, diversos murais com a imagem de Ari foram espalhados por São Paulo e outros 20 estados.
"É uma obra histórica, no centro histórico de São Paulo, tentando fazer uma reparação aos povos originários que desde a invasão portuguesa sofrem massacre. Eu acho que a missão foi cumprida", finaliza.
Morte e Legado
Ari fazia parte do grupo de monitoramento do povo indígena Uru-Eu-Wau-Wau e lutava combatendo os crimes cometidos contra seu povo e sua terra. Ele foi morto durante a noite de 17 de abril de 2020 e o corpo encontrado na manhã seguinte, com sinais de lesão contundente na região do pescoço, que ocasionou uma hemorragia aguda.
O suspeito foi preso somente dois anos depois do crime. As investigações da Polícia Federal (PF) concluíram, em 2022, que a morte do ativista "não tem ligação com crimes ambientais". A versão não é aceita por indígenas e amigos de Ari.
Quase três anos após a morte do professor, seu nome continua a ecoar dentro e fora de Rondônia. Ele foi lembrado na abertura oficial da Conferência da Cúpula do Clima (COP26) na Escócia, durante discurso da ativista indígena Txai Suruí, em novembro de 2021.
Txai Suruí, ativista de 24 anos, fala na abertura da COP26
O documentário 'O Território'
Ari também é parte importante na construção de "O Território". O documentário mostra a luta de indígenas Uru-Eu-Wau-Wau pela defesa de suas terras. Durante 1h24m de duração, o público entra nas rotinas de Bitaté, um jovem Uru-Eu-Wau-Wau e da ativista Ivaneide Bandeira, conhecida como Neidinha. A morte de Ari Uru-Eu-Wau-Wau também é apresentada na obra.
"Para o meu povo assistir esse documentário hoje é muito forte porque ele [Ari] esteve presente no início. Lembrar é um furo no coração da gente", diz Bitaté.
TI Uru-Eu-Wau-Wau
Mudança das florestas em volta da TI Uru-eu-wau-wau, entre 1984 e 2020
Google Earth/Reprodução
A Terra Indígena Uru-eu-wau-wau possui mais de 1,8 mil hectares e se espalha por 12 dos 52 municípios rondonienses. A maior parte do território fica em Guajará-Mirim (RO) e São Miguel do Guaporé (RO).
O território vive sob ameaças de grilagem de terras e desmatamento. Em 2021, a TI Uru-Eu-Wau-Wau foi a que teve o entorno mais desmatado, segundo dados do Instituto do Homem e Meio Ambiente da Amazônia (Imazon).
Em 2021, a ativista Txai Suruí denunciou invasores destruíram um antigo cemitério indígenas na TI para criar gado. O cemitério para os povos indígenas é um local sagrado e o cenário de destruição encontrado chocou aqueles que vivem terra Uru-Eu-Wau-Wau.
Criação de gado em cemitério indígena da terra Uru-Eu-Wau-Wau
Redes Sociais/Reprodução
Povos de nove etnias vivem na TI, entre eles, diversos indígenas isolados. São eles:
Amondawa
Isolados Bananeira
Isolados do Cautário
Isolados no Igarapé Oriente
Isolados no Igarapé Tiradentes
Juma
Kawahiva Isolado do Rio Muqui
Oro Win
Uru-Eu-Wau-Wau

Fachin estende prazo para que União apresente plano de proteção de TI onde vivia ‘Índio do Buraco’

Marina diz que governo usará recursos do Fundo Amazônia para ajudar povo Yanomami
Medida reforça pedido para elaboração de plano de proteção para terras onde vivem indígenas isolados. Último Tanaru, conhecido como ‘Índio do Buraco’, é enterrado no sul de Rondônia
O ministro Edson Fachin, do Supremo Tribunal Federal (STF), concedeu um prazo adicional de 30 dias para que a União apresente um plano de proteção para Terras Indígenas onde vivem povos isolados, entre elas a TI onde vivia o "Índio do Buraco", em Rondônia.
Quem foi o 'Índio do Buraco', último sobrevivente de seu povo encontrado morto em RO
Último Tanaru, conhecido como 'Índio do Buraco', é enterrado no sul de RO
Em uma decisão de novembro de 2022, o ministro já havia determinado a proteção da área onde o indígena vivia, além de medidas para proteção de demais áreas onde vivem povos isolados. A Advocacia-Geral da União (AGU) recorreu pedindo a revisão da decisão.
A AGU argumenta, entre outros pontos, que no caso "não se verifica um quadro de omissão estrutural apto a atrair a atuação do Poder Judiciário". O pedido de revisão não foi aceito por Fachin.
No mesmo recurso, a Advocacia Geral solicitou mais tempo para apresentar o plano de ação para regularização e proteção das terras indígenas com presença de povos isolados e de recente contato. A justificativa utilizada no pedido é que o prazo inicial – de 60 dias – atravessava o exercício fiscal e o período de transição governamental.
Fachin analisou os argumentos e concedeu um prazo extra de 30 dias para que a União atenda às determinações.
Proteção dos povos isolados
Indígena viveu sozinho por quase 30 anos
Reprodução/Funai
A ação de autoria da Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (Apib) defende que durante anos "as omissões do Poder Público colocam alguns povos indígenas em risco real de genocídio, podendo resultar no extermínio de etnias inteiras".
As medidas foram adotadas após a morte do indígena isolado conhecido como "Índio do Buraco". Ele era o último sobrevivente do seu povo e viveu sozinho por aproximadamente 30 anos, na TI Tanaru, localizada no sul do estado de Rondônia.
O Índio do Buraco foi encontrado morto no dia 23 de agosto, durante atividade de rotina de equipes da Funai no interior da TI Tanaru.
Terra Indígena Tanaru em Rondônia
Reprodução/ISA
Outro exemplo de riscos aos quais os povos indígenas isolados são expostos, é o da TI Uru-Eu-Wau-Wau. A Apib afirma que no local há "intensa pressão de grileiros, madeireiros, fazendeiros, garimpeiros, pescadores e caçadores".
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Marina diz que governo usará recursos do Fundo Amazônia para ajudar povo Yanomami

Marina diz que governo usará recursos do Fundo Amazônia para ajudar povo Yanomami
População indígena sofre com uma grave crise de saúde, com registros de mortes de adultos e crianças provocados por doenças como desnutrição e malária. 'Recursos do Fundo Amazônia serão deslocados para ações emergenciais' declara ministra Marina Silva
A ministra do Meio Ambiente, Marina Silva, afirmou nesta segunda-feira (30) que o governo federal utilizará recursos do Fundo Amazônia para ajudar o povo Yanomami.
A população indígena sofre com uma grave crise de saúde, com inúmeros registros de desnutrição e malária.
Fome, desnutrição, malária, e contaminação por mercúrio: a tragédia Yanomami em Roraima
"Os recursos do Fundo Amazônia serão deslocados para ações emergenciais. Essas ações estão sendo tratadas em vários níveis, que envolvem: a questão da saúde; o tratamento ao problema da grave situação de fome, que está assolando as comunidades; a parte de segurança, para que essas pessoas possam ficar em suas comunidades, e isso tem a ver com operações de desintrusão do garimpo criminoso dentro dessas comunidades", declarou a ministra.
Marina Silva deu a declaração em uma entrevista coletiva em Brasília, após ter se reunido com a ministra da Cooperação da Alemanha, Svenja Schulze.
Fundo Amazônia
Criado em 2008, o Fundo Amazônia é destinado a financiar ações de redução de emissões provenientes da degradação florestal e do desmatamento. É considerada uma inciativa pioneira na área.
A ministra do Meio Ambiente, Marina Silva, ao lado da ministra da Cooperação da Alemanha, Svenja Schulze.
Filipe Matoso / g1
Além de apoiar comunidades tradicionais e ONGs que atuam na região amazônica, o fundo fornece recursos para estados e municípios para ações de combate ao desmatamento e a incêndios.
O fundo é abastecido com recursos de doações internacionais. Os governos de Alemanha e Noruega respondem, juntos, por mais de 99% dos depósitos.
Em dez anos (2009 a 2018), o fundo aplicou mais de R$ 1 bilhão em 103 projetos de órgãos públicos e organizações não-governamentais. O Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) administra os recursos e aprova os projetos.
Em 2019, primeiro ano do governo Jair Bolsonaro, as ações do fundo foram paralisadas. Na ocasião, o governo suspendeu comitês, entre eles o Comitê Orientador do Fundo Amazônia (COFA), que tem como atribuição estabelecer as diretrizes e critérios para aplicação dos recursos do fundo. Isso levou Noruega e Alemanha a suspenderem os repasses.
Em 1º de janeiro, dia em que tomou posse como novo presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva assinou uma série de medidas, entre elas um decreto em que determinou a retomada do fundo.
Após a edição do decreto, entidades ambientais disseram ter boa expectativa com a retomada do fundo, afirmando ser possível garantir a preservação ambiental da região e a buscar o desenvolvimento sustentável.
Também após o decreto, a Noruega informou que o Brasil já poderia gastar cerca de R$ 3 bilhões doados pelo país ao Fundo Amazônia. E a Alemanha anunciou a destinação de 35 milhões de euros.
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