Mergulhos na Praia do Sueste, em Noronha, são suspensos após drone detectar tubarões-tigre em comportamento de alimentação

Agroecologia e ‘recaatingamento’ transformam paisagem e vida de famílias no Sertão
Segundo o ICMBio, suspensão foi feita de forma preventiva, começa a valer a partir deste sábado (17) e é temporária. Banho de mar no local está proibido desde janeiro. Mergulhos na Praia do Sueste estão suspensos temporariamente
Ana Clara Marinho/TV Globo
A prática do mergulho de apneia, também chamado de mergulho por flutuação, na Praia do Sueste, em Fernando de Noronha, foi suspensa a partir deste sábado (17). O banho de mar está proibido no local desde janeiro deste ano, após uma menina de 9 anos ser mordida por um tubarão e ter a perna amputada.
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A suspensão é temporária, de acordo com o Instituto Chico Mendes da Biodiversidade (ICMBio). A decisão foi motivada pelo avistamento de tubarões-tigre em comportamento de alimentação no Sueste, através de um monitoramento aéreo feito com drone.
Tubarão-tigre é visto na Praia do Sueste, em Fernando de Noronha
Rihel Venuto/Reprodução Instagram
A chefe do ICMBio em Noronha, Carla Guaitanele, disse que o avistamento de tubarões-tigre tem ocorrido com frequência nessa região, por isso a suspensão aconteceu de forma preventiva, para evitar novos ataques.
Ainda de acordo com a representante do instituto na ilha, o protocolo de reabertura do Sueste prevê a suspensão dessa atividade quando tubarões-tigre são avistados no local, ou ainda em caso de chuva forte, alta turbidez da água e abertura do mangue.
Monitoramento aéreo
Drone monitora tubarão-tigre na Praia do Sueste, em Noronha
Rihel Venuto/Reprodução Instagram
Um relatório gerado a partir de imagens aéreas constatou o avistamento de tubarões-tigre no Sueste. Em 18 dias, com voos durante uma hora por dia, o monitoramento por drone registrou seis vezes a presença dessa espécie no local.
Os dados foram obtidos pelo mestre em oceanografia biológica Rihel Venuto e pelo fotógrafo de natureza Fábio Borges, que se voluntariaram para a atividade e realizam voos e anotações desde o dia 24 de novembro.
Tubarões
Segundo a direção do ICMBio, um quarto das espécies de tubarão estão ameaçadas de extinção, classificadas como criticamente ameaçadas, ameaçadas ou vulneráveis.
Com base nos critérios da Lista Vermelha de Espécies Ameaçadas de Extinção da União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN), Noronha se tornou um dos principais destinos para o mergulho com tubarões no Brasil.
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Estudo relata 1ª evidência de acasalamento de tubarões-tigre em Noronha: ‘Mordidas de amor’, diz bióloga

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Artigo científico internacional foi publicado nesta segunda (19). Pesquisadora diz que animais estão copulando na ilha. Registros de marca de cópula em tigres em Noronha
Projeto Trubarões e Rais de Noronha/Divulgação
Um artigo científico internacional, publicado nesta segunda (19), relata a primeira evidência de acasalamento e gravidez em tubarões-tigre em Fernando de Noronha. A publicação foi feita na revista Environmental Biology of Fishes. São ‘mordidas de amor’”, afirmou a bióloga Bianca Rangel.
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Os relatos foram feitos a partir de 2009 e contam com imagens de três registros produzidos em maio deste ano pelos pesquisadores da Universidade de São Paulo (USP).
“Este é o primeiro estudo relatando uma área associada ao acasalamento e gestação de tubarões-tigre em águas brasileiras”, comemorou Bianca Rangel, doutoranda da USP e coordenadora do Projeto Tubarões e Raias de Noronha.
A pesquisadora contou que o estudo indica que os tubarões-tigres estão copulando em Fernando de Noronha.
“Esse estudo tem sete registros de fêmeas com marca de cópula. Isso indica que a espécie copula em Noronha. A reprodução envolve várias etapas, como a fêmea ficar grávida e o nascimento dos filhotes. A cópula nós vimos que é feita em Fernando de Noronha”, declarou Bianca Rangel.
Fêmea de tigre com marcas de ato sexual
Projeto Tubarões e Rais de Noronha
A bióloga disse que já existiam registros esporádicos da reprodução, mas não havia um estudo que comprovasse cientificamente essas notificações, como aconteceu agora.
As fotos mostram as fêmeas mordidas, marcas ocorridas no acasalamento. “Essas são mordidas feitas pelos machos. Por isso, as fêmeas ficam todas marcadas assim", observou a bióloga.
Importância de Noronha
A publicação dos registram comprovam a importância ambiental de Fernando de Noronha.
“O estudo valida Noronha como área importante para a reprodução do tubarão-tigre. Essa é a primeira região no Brasil com essa importância para a reprodução da espécie. Existem poucos registros de filhotes na região costeira e grávidas. Confirmamos a importância da ilha para espécie”, afirmou a pesquisadora.
Bianca Rangel acredita que a reprodução dos tigres em Noronha é recente.
“O pesquisador Ricardo Garla desenvolve estudo na ilha há mais de 20 anos e ele só tem um registro de fêmea com marca de cópula, que foi feito em 2011. Depois, os registros começaram a ser feitos com mais frequência, a partir de 2017. Esse ano nós fizemos três registros de fêmeas com marca de cópula, em uma semana”, informou a pesquisadora.
Pesquisa mostra primeira evidência de gravidez em tubarão-tigre em Noronha
A estudiosa disse, ainda, que Noronha é a região com a maior diversidade genética tubarão-tigre no planeta.
“Isso mostra que eles saem de todos os lugares do Oceano Atlântico para Fernando de Noronha. Aparentemente, estão trocando material genético e se reproduzindo. Isso é muito bom para a manutenção da espécie”, analisou Bianca (veja vídeo acima).
Ataques
Em Fernando de Noronha, ocorreram dois ataques de tubarões a humanos. Foram mordidos um turista, em 2015, e uma menina, em janeiro deste ano, na Praia do Sueste. Nos dois casos, os pesquisadores atribuíram os ataques a animais da espécie tigre.
A estudiosa afirmou que os incidentes não têm relação com a reprodução na ilha.
“Os incidentes não têm relação direta com o possível aumento populacional da espécie em Noronha. Nós ainda estamos constatando que os animais estão se reproduzindo. Não temos evidências de que eles estão nascendo na ilha. Aparentemente, tem animal que vem para Noronha, se reproduz e vai embora. Não há comprovação do aumento da população da espécie na ilha”, indicou Bianca Rangel.
Mergulhos
O Instituto Chico Mendes da Biodiversidade (ICMBio) suspendeu, no sábado (17), o mergulho de apneia na Praia do Sueste. O monitoramento por drone registrou tigres em comportamento de alimentação.
A pesquisadora considerou a decisão acertada. “Observamos os tubarões-tigres se alimentando. Nesse momento, eles têm um comportamento mais agitado. Os animais estão procurando presas e a água do Sueste, às vezes turva, não colabora. A forma de evitar o incidente é fechar a praia”, avaliou Bianca.
Bianca Rangel declarou que o Sueste é o local de preferência desses animais. “A preferência alimentar do tubarão-tigre é a tartaruga. O Sueste tem muita tartaruga e, por isso, o animal procura essa área. Nós acreditamos que o período de reprodução das tartarugas pode atrair tigres de vários locais, mas ainda precisamos monitorar para comprovar isso”, falou Bianca Rangel.
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Zoológico na Holanda descobre que panda gigante é fêmea e não macho

Agroecologia e ‘recaatingamento’ transformam paisagem e vida de famílias no Sertão
Fan Xing nasceu em 2020 em um zoológico e será enviada para a China. Panda será enviada para a China
Reprodução/ Instagram Ouwehands Dierenpark
Um panda gigante causou surpresa em um zoológico holandês, depois que os funcionários descobriram que se trata de uma fêmea e não de um macho, como ficou estabelecido logo após seu nascimento, em 2020.
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A descoberta surpreendeu os funcionários do zoológico de Ouwehands, no centro do país, durante um exame médico de rotina.
Fan Xing é o primeiro panda gigante nascido na Holanda.
Panda gigante causou surpresa em um zoológico holandês
Reprodução/ Instagram Ouwehands Dierenpark
"Fan Xing nos surpreendeu. Para nós, o sexo era algo que queríamos verificar durante um exame de saúde sob anestesia, só para ter certeza", contou José Kok, chefe do zoológico, em um comunicado.
Meses após seu nascimento, em 1º de maio de 2020, Fan Xing passou por um exame médico sem anestesia, feito rapidamente para que o filhote de urso pudesse retornar à mãe o mais rápido possível.
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No entanto, não é fácil determinar o sexo de um panda gigante, explicou Kok, especialmente quando se trata de um bebê que não para de se mexer.
RELEMBRE como foi o nascimento da Fan Xing
"Estávamos tão convencidos de que era um macho que nunca questionamos", contou Kok na noite de quinta-feira em um programa de televisão.
Foto divulgada pelo zoológico de Ouwehands mostra uma panda segurando seu filhote pela boca, neste sábado (2), em Rhenen, na Holanda
Ouwehands Zoo/AFP
Como acontece com todos os machos, o animal passou por um treinamento especial no zoológico para fortalecer o traseiro para poder se reproduzir sem dificuldade.
"Esta fêmea terá patas traseiras sólidas", brincou Kok.
A surpresa não afeta a saúde de Fan Xing ou sua missão, afirmou o zoológico.
O panda será enviado em breve para a China, conforme planejado, como parte de um programa internacional de reprodução.
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Apenas 2,65% da Caatinga de Pernambuco estão em área de preservação integral

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Com mais de 8 milhões de hectares, o bioma presente em 84% do território pernambucano tem cerca de 219 mil hectares em unidades de conservação de proteção integral, que também sofrem com práticas ilegais como a caça de animais e retirada de vegetação nativa. Xique-xique, planta nativa da Caatinga
Caroline Rangel/TV Globo
Os números do desmatamento da Caatinga em Pernambuco têm chamado a atenção de ambientalistas e de quem vive no Sertão do estado, mas não somente eles despertam preocupação.
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“A Caatinga hoje é o nosso bioma mais ameaçado, porque é o que tem a menor quantidade de áreas de proteção e a menor proporção de áreas protegidas”, disse o professor da Universidade Federal Rural de Pernambuco (UFRPE) em Serra Talhada, Martinho Carvalho, preocupado com o futuro da fauna e flora do ecossistema.
Dos 8.277.900 hectares de área do bioma no estado, apenas 219.623 hectares estão em áreas de proteção integral. Ou seja: só 2,65% da Caatinga está protegida.
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Esse cálculo foi feito pelo g1 com base em dados divulgados pela Agência Estadual de Meio Ambiente (CPRH). De acordo com o órgão, Pernambuco tem 13 Unidades de Conservação da Caatinga de Proteção Integral. Duas são mantidas pelo governo federal, nove pelo governo do estado e outras duas pelos municípios (veja no mapa).
O objetivo das Unidades de Proteção Integral é preservar a natureza. Nelas são proibidas atividades como a caça de animais e a retirada de árvores nativas, para uso comercial ou não.
O Sistema Estadual de Unidades de Conservação (Seuc) – Lei 13.787/09 – divide as unidades de proteção integral em cinco categorias: Estação Ecológica (Esec); Monumento Natural (Mona); Parque Estadual (PE); Refúgio de Vida Silvestre (RVS) e Reserva Biológica (ReBio).
Em algumas dessas categorias não é permitida a visitação de pessoas ou a prática do turismo, mas elas podem ser utilizadas para pesquisa científica, por exemplo. A lei também prevê que as áreas particulares incluídas nos limites do território de proteção integral sejam desapropriadas.
Falta proteção nas áreas de conservação
A maior unidade de conservação do bioma que temos em Pernambuco, mantida pelo estado, é a Estação Ecológica Serra da Canoa, fica na zona rural de Floresta, no Sertão de Pernambuco. São 7.598 hectares de área. Ela foi instituída como Unidade de Conservação em 2012, através de um decreto estadual (Nº 38133, de 27/04/2012), assinado pelo então governador Eduardo Campos.
Por estar na categoria Estação Ecológica, a Lei estadual 13.787/09 diz que a visitação pública é proibida em áreas como essa, exceto quando o objetivo for educacional, para pesquisas científicas ou para medidas e manejo de restauração.
Animais são criados em área da Estação Ecológica Serra da Canoa
Caroline Rangel/TV Globo
Entre as justificativas para instituir a área de Floresta como Unidade de Conservação, o documento pontua “a baixa representatividade do bioma Caatinga no Sistema Estadual de Unidades de Conservação” e “as vulnerabilidades deste bioma, exclusivamente nacional, diante das perspectivas de mudanças climáticas”.
Já entre os objetivos, está “proteger as espécies endêmicas e as espécies raras ameaçadas de extinção ocorrentes na área e nos remanescentes florestais da região”.
Em viagem ao Sertão, o g1 visitou a Estação Ecológica Serra da Canoa. Mas na região a equipe recebeu denúncias de que até dentro da área de conservação da Caatinga existe a prática da caça de animais, como tatupeba, veado, ema e arara azul.
As práticas ilegais foram confirmadas pelo gestor da Unidade de Conservação da Caatinga em Floresta, Ericson da Silva. Funcionário da CPRH convocado para atuar na área desde 2019, ele é o único que vive na região e trabalha na Estação.
“Nós temos problemas seríssimos aqui de caça, retirada de madeira, mineral. Vários agravantes aqui precisam ser equalizados”, declarou o servidor, pontuando que, como sua chegada ao local é recente, a área ainda está passando por um processo de levantamento de terra e pessoal, para montagem do conselho gestor e do plano de manejo da estação.
Gestor da Estação Ecológica Serra da Canoa, Ericson da Silva, faz o mapeamento da área para criar plano de manejo e ações ambientais
Ezequiel Quirino/TV Globo
Além da atividade ilegal da caça, outra irregularidade apontada ao g1 é a presença de residências dentro da estação. O gestor da unidade confirmou a presença de 90 proprietários de terrra no local. De acordo com ele, a regularização fundiária está em curso.
“O proprietário tem toda autonomia na área, porque ainda é o dono da terra. Nós precisamos avançar quanto à questão fundiária, para que possamos ter uma reserva direcionada realmente à pesquisa científica e educação ambiental”, ressaltou, explicando que hoje o seu trabalho na unidade é principalmente relacionar os problemas, para que o estado possa implementar as medidas exigidas para uma área de proteção integral.
Próximo à Estação Ecológica Serra da Canoa está o Parque Estadual Mata da Pimenteira, em Serra Talhada, a 90km de Floresta. A Unidade de Conservação fica bem próxima da Universidade Rural de Pernambuco. A área costuma ser usada pelos professores e estudantes, para pesquisa.
Por estar inserida na categoria Parque Estadual, de acordo com o Sistema Estadual de Unidades de Conservação, a área tem como "objetivo básico a preservação de ecossistemas naturais de grande relevância ecológica e beleza cênica, possibilitando o desenvolvimento de atividades de educação e interpretação ambiental, de recreação em contato com a natureza e de ecoturismo".
A Mata da Pimenteira é uma área de preservação da vegetação de Caatinga arbórea. O biólogo e pesquisador da UFRPE Martinho Carvalho acompanhou a visita do g1 à Unidade de Conservação e explicou o que pode ser encontrado no local.
“Essa vegetação é de uma Caatinga Florestal, que é uma Caatinga mais rara. É uma vegetação mais densa. As árvores têm de 12 a 15 metros de altura e um diâmetro de tronco bem maior do que o que ocorre numa Caatinga típica. Ela é mais úmida em comparação aos outros tipos de Catinga, mas um pouco mais seca do que a Mata Atlântica. E, por isso também, ela tem uma riqueza de espécies maior do que as demais”, explicou o professor.
Parque estadual Mata da Pimenteira preserva vegetação de Caatinga arbórea
Ezequiel Quirino/TV Globo
O Parque tem uma área total de 887 hectares e, de acordo com a CPRH, recebeu o título de 1ª Unidade de Conservação do Estado de Pernambuco no Bioma Caatinga.
Mas assim como a Estação Ecológica Serra da Canoa, em Floresta, a área de preservação em Serra Talhada conta com apenas um gestor no quadro de funcionários e também sofre com a presença de caçadores, o que acaba preocupando os pesquisadores, já que esse deveria ser um espaço de proteção do bioma.
“A presença de caçadores também é algo ameaçador. Aqui na reserva se encontram muitos caçadores, principalmente para caçar tatupeba, porque o pessoal acaba usando como aperitivo [a carne]. Eu mesmo, trabalhando aqui às vezes, à noite, já escutei tiros de espingarda. Já encontrei caçadores aqui dentro”, relatou o biólogo.
Além da caça dentro da Unidade e na região, também há a prática do desmatamento da vegetação nativa da Caatinga. O professor de biologia e ecologia da UFRPE André Lima explica que, das espécies ameaçadas do bioma, algumas estão presentes na área de conservação e são alvo da atividade ilegal.
“A aroeira e a baraúna são duas espécies que têm uma madeira muito boa, e por isso tão cobiçada. Mas temos também a umburana de cambão, uma planta que também é utilizada, por exemplo, para fazer as carrancas, porque ela tem uma madeira mole. Além disso existem outras espécies que podem ser utilizadas para produção de carvão, como por exemplo, a própria catingueira. A catingueira é uma planta que tem esse nome justamente porque o cheiro dela não é tão bom, entretanto, ela tem também essa pressão por conta da extração da madeira, que é bem resistente”, explicou o pesquisador.
A madeira extraída da vegetação nativa da Caatinga costuma ser utilizada por carvoarias clandestinas e madeireiras. Pelas estradas do Sertão é comum encontrar caminhões carregados. Eles costumam sair no fim da tarde.
Caminhões carregados de madeira são comuns nas estradas do Sertão de Pernambuco
Ezequiel Quirino/TV Globo
Respostas
Procurado pelo g1 para explicar sobre a extração ilegal de madeira da Caatinga e a inspeção, o gerente das Unidades de Conservação da CPRH, Gleidson Castelo Branco, explicou que a fiscalização existe e em algumas situações eles apreendem caminhões que saem disfarçados, com plantas que não são nativas da Caatinga na parte externa, para não chamar a atenção da fiscalização.
“A gente encontra muitos caminhões transportando algaroba, mas por diversas vezes já encontramos ele transportando não só algaroba. Ela realmente vem disfarçada com o fundo da carga. Então requer uma atenção dos fiscais durante essa fiscalização e o procedimento é que haja a apreensão de toda a carga, mesmo que tenham poucas espécies ali que são liberadas."
Sobre a falta de efetivo nas Unidades de Conservação da Caatinga, o gerente afirmou que, apesar de ter apenas um gestor na Estação Ecológica Serra da Canoa e no Parque Estadual Mata da Pimenteira, existe uma equipe, na sede do órgão, no Recife, para dar suporte a essas áreas.
“Existe o gestor. Algumas unidades têm uma equipe maior além do gestor, mas na sede no Recife. Inclusive tem um setor de administração de Unidades de Conservação que dá esse suporte na fiscalização da equipe gestora. Quando a unidade não possui a equipe gestora, quem faz esse papel é o setor de administração das unidades de conservação, que fica aqui na sede”.
De acordo com Gleidson Castelo Branco, ao existir denúncia e demanda, uma equipe sai do Recife para a fiscalização nas áreas de Unidade de Conservação.
Questionado sobre o que acontece quando uma pessoa é flagrada numa unidade de proteção ambiental desmatando ou caçando animais, ele explicou o infrator responde administrativamente, tem carga apreendida e pode pagar multa que varia entre R$ 50 e R$ 50 milhões.
“Tem tanto a apreensão da carga como também todos os instrumentos utilizados no cometimento da infração, como o próprio veículo. Existe a multa também que, a depender do caso, tem muitas variantes, agravantes, que vai de R$ 50 a R$ 50 milhões. Em algumas situações, além de ser infração administrativa ambiental, é um crime, então ele vai ser conduzido à delegacia para que se estabeleça todo o procedimento de inquérito criminal. Na Justiça tem as penas, além de multa, a depender do crime também. Inclusive, quando ele é cometido dentro da unidade de conservação, é um agravante”, explicou o gerente das Unidades de Conservação da CPRH.
Entre janeiro e 15 de dezembro de 2022, de acordo com a CPRH, foram registradas 12 autuações de tráfico e caça de animais nativos da Caatinga, além de três por cativeiro [de animais]. Dez autuações de desmatamento em unidades de conservação da Caatinga foram registradas no estado
Investir para preservar
Diante da pequena proporção de áreas de Caatinga protegidas no estado e do desmatamento e da caça dentro dessas áreas, pesquisadores e ambientalistas lamentam a falta de investimento e políticas públicas direcionadas ao bioma.
“O apoio governamental, na verdade, e a gente fala tanto numa escala estadual ou nacional, [a Caatinga] sempre é colocada em último lugar”, afirmou o professor André Lima, da UFRPE.
O Centro de Pesquisas Ambientais do Nordeste (Cepan) estuda os biomas da região, as áreas de proteção e também atua na recuperação da vegetação e fauna dos locais degradados.
De acordo com o presidente da instituição, Joaquim José de Freitas Neto, esse não é um problema ambiental pontual do estado, mas do país, que segundo ele sofreu com a diminuição de recursos voltados para proteção, gestão e implementação de novas unidades.
“É importantíssimo a gente conseguir proteger esse capital natural que ainda existe da Caatinga, sob a forma de unidade de conservação, que hoje é a principal estratégia de proteção de floresta em pé, dentro da governança ambiental brasileira. Nos últimos tempos, sobretudo nos últimos quatro anos, vem ocorrendo um desmonte de políticas ambientais. Então se a gente não tem um direcionamento do governo federal, toda governança ambiental se torna fragilizada. Não adianta nada a gente criar uma unidade de conservação e ela não ter uma gestão efetiva, com diálogo com a comunidade, não ter planejamento, como o plano de manejo, que norteiam a gestão".
O g1 procurou o Ministério do Meio Ambiente para saber quanto o governo federal investiu no bioma Caatinga durante os últimos quatros anos, mas não teve resposta até a publicação desta reportagem.
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Agroecologia e ‘recaatingamento’ transformam paisagem e vida de famílias no Sertão

Agroecologia e ‘recaatingamento’ transformam paisagem e vida de famílias no Sertão
Projeto socioambiental em Caiçarinha da Penha trabalha na restauração do bioma e oferece, através de um instituto com foco na produção agrícola sustentável, oportunidade para mais de 40 famílias da zona rural de Serra Talhada. Sistema agroflorestal ajuda a manter agrícola da comunidade, sem impactos negativos a Caatinga
Ezequiel Quirino/TV Globo
“Quando eu acordo, antes das 5h da manhã, eu abro a janela e olho para a Caatinga, sinto o cheiro dela. Cheiro gostoso! Escuto o som dos passarinhos cantando, quando amanhece o dia”.
O depoimento é da agricultora familiar Lucineide Ferraz, 49 anos, apaixonada pela região em que vive e preocupada com o futuro: “me preocupo bastante com o desmatamento. Está acabando com tudo”. Quando questionada sobre o que a Caatinga representa para ela, a resposta é direta: “a vida”.
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Perguntada sobre sonhos, ela diz ter um: “fazer faculdade sobre algo da Caatinga, que é o que eu mais gosto, e dos animais”.
É com os olhos marejados de encantamento que ela fala da sua relação com o bioma. Em Pernambuco, há mais de 3 milhões de hectares de área de Caatinga desmatada. Além disso, apenas 2,65% da Caatinga de Pernambuco estão em área de preservação integral.
Lucineide Ferraz transforma os frutos da Caatinga em doces e geleias
Caroline Rangel/TV Globo
Lucineide é uma das 13 mulheres que trabalham no Instituto Serra Grande, localizado no distrito de Caiçarinha da Penha, na zona rural, a 43 quilômetros de Serra Talhada, no Sertão.
O projeto, que existe desde 2019, reúne 40 famílias das comunidades de Barreiros e Santana, num trabalho socioambiental – que é a recuperação e restauro de áreas desmatadas da Caatinga – e de agroecologia, preservando e aproveitando os frutos e folhas da vegetação do bioma, para gerar renda às famílias locais.
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A agricultora familiar, junto às colegas do Instituto, aproveita os insumos oferecidos pela Caatinga, como o umbu, o caju, o alecrim do mato e a quebra-faca, para fazer geleias, conservas, vinagres e bebidas fermentadas. Elas produzem 50 potes de produtos por dia e vendem em feiras, entre as comunidades, e pela internet.
Para fazer as receitas dos doces tudo é aproveitado. Enquanto a fruta é desidratada, o mel do caju é usado pra fazer licor. O umbu, colhido do pé, também é levado para casa, onde a produção acontece.
Instituto produz doces dos frutos Caatinga, como caju e umbu
Caroline Rangel/TV Globo
Há um ano, Tota Cavalcante começou a trabalhar no instituto. E assim como Lucineide, ela vê o projeto como um grande passo, para realização de sonhos.
“A pessoa pode juntar um dinheiro, juntar um pouco para o futuro, para quando estiver mais velho ter um dinheiro junto, para não depender dos outros. Meu sonho é fazer uma faculdade no futuro quando eu estiver podendo mais”, disse Tota, explicando que deseja fazer o curso de letras, para se tornar professora de português.
Agricultora Tota Cavalcante junta dinheiro que ganha pelo trabalho no instituto, para estudar no futuro
Caroline Rangel/TV Globo
O trabalho desenvolvido pelas mulheres da comunidade é presidido pela agricultora familiar Creuza Ferraz, de 69 anos. Aos 10 anos de idade, ela já trabalhava com agricultura.
Líder da Associação de Moradores da comunidade de Santana, no distrito de Caiçarinha da Penha, em Serra Talhada, Creuza tem facilidade para dialogar com as mulheres e famílias que vivem na área, principalmente sobre a importância das mulheres da região terem seu próprio trabalho, e pensarem num futuro melhor para elas e para o ecossistema em que estão inseridas.
“Aqui tudo é na base da mão. Não tem nada industrializado, e nem nós queremos. Nós queremos fazer artesanalmente, porque valoriza. É agricultura familiar”, pontuou a presidente.
O projeto do Instituto foi pensado desde 2003. Dona Creuza e outras mulheres da comunidade chegaram a fazer curso no Sebrae, para aprender a fazer doces, mas só em 2019, depois de muitos testes e estudos com frutas da região e da vegetação da Caatinga, começaram a fazer as geleias e compotas como um negócio local.
"Eu fui a primeira a fazer uma geleia de acerola, e deu certo. Aí eu mostrei no grupo, que as meninas criaram para a gente se comunicar. Aí, uma amiga minha fez outra em casa, deu certo também. Então, a gente começou fazendo em casa, com o aprendizado que a gente teve lá [no Sebrae]”, contou dona Creuza, enquanto mexia um doce de passa de caju.
Presidente do Instituto Serra Grande, Creuza Ferraz diz que projeto a valoriza agricultura, sem agredir a Caatinga
Caroline Rangel/TV Globo
O preço dos produtos varia de R$8 a R$30. São pelo menos oito horas de trabalho por dia para dar conta da produção. Todo trabalho feito pelas mulheres acontece na Fazenda Serra Grande, uma propriedade privada de 1.260 hectares, com 800 hectares de Caatinga preservada e 260 hectares de área reflorestada.
As terras são da família do coordenador do projeto socioambiental Serra Grande, Alvaro Severo. A área é da família dele desde a época do império, e sofreu com períodos de seca e degradação. Em 2019, quando decidiu morar em definitivo no local, resolveu abrir as portas da fazenda, incentivar as mulheres da região a enxergar oportunidade através da caatinga e orientar os agricultores sobre como é possível viver em harmonia com a terra.
“Essa área foi antropizada, ela foi utilizada por um método de agricultura que queimava, que compactava o solo, que salinizava o solo”, afirmou o coordenador, que tem um viveiro com 26 mil mudas nativas da caatinga, entre frutíferas e cactos, para reflorestamento.
Mais de 26 mil mudas de plantas nativas da Caatinga serão plantadas na região de Caiçarinha da Penha, para restaurar solo degradado
Ezequiel Quirino/TV Globo
As mudas são utilizadas na área da fazenda que um dia foi lavoura, em um sistema chamado de agroflorestal, onde espécies ameaçadas da caatinga dividem espaço com a plantação de feijão e mandioca, por exemplo. São grandes faixas de plantio com espécies alternadas.
A técnica é importante tanto no processo de recuperação do solo do bioma, como na prática da agroecologia, vivenciada pelas mulheres do instituto.
“A raiz da tuberosa, da mandioca, expande na terra. Então, quando chove, o fato desse solo não ser mais compactado ajuda para que a água da chuva, em vez de escorrer, infiltre. Então, a gente já tem um risco zero de erosão numa área como essa, porque a gente tem um poder de infiltração enorme. Justamente por causa dessas linhas de árvore que estão fazendo o processo de bombear água para o subsolo”, explicou Alvaro.
O sistema agroflorestal utilizado na fazenda é um experimento que ocupa 2,5 hectares de área. A expectativa é de que no próximo ano essa área seja expandida e ocupe 200 hectares de área, que poderá ser utilizada pela agricultura, mas sem impactos negativos à Caatinga.
Sistema agroflorestal é experimento para manter atividade agrícola, sem agredir vegetação da Caatinga
Ezequiel Quirino/TV Globo
“Recaatingamento”
O projeto socioambiental Serra Grande foi criado por Alvaro em 2003, pela inquietação com os impactos da seca na vida dos sertanejos e pela vontade de ver o bioma, exclusivamente brasileiro, vivo em Serra Talhada.
As mudas nativas do bioma, utilizadas no sistema agroflorestal e para agricultura sustentável, também ajudam a recuperar áreas degradadas da Caatinga, por causa das queimadas, pastagem e criação de caprinos, prática comum no Sertão.
Mas, de acordo com o coordenador do projeto, apenas o plantio de mudas nas áreas desmatadas não é suficiente para restaurar o bioma.
Para o trabalho do "recaatingamento", como costumam chamar, é fundamental a presença da fauna. Alvaro conta que mais de 2 mil espécies nativas da caatinga já foram soltas na área da fazenda, pelo Ibama. E é essa prática, junto ao reflorestamento, que faz o bioma se recuperar.
“Hoje a gente vê crescer uma floresta. É com essa diversidade, com a ajuda da fauna, dos ventos, por isso que também é tão importante a gente ter a soltura desses animais, porque eles também ajudam nesse restauro também. O passarinho come uma semente aqui, mas, se você olha os pés do Juazeiro, por exemplo, vê que tem um Mandacaru dentro. Isso é efeito da dispersão da semente pelos pássaros. Eles usam Juazeiro, que é uma das plantas que demoram a perder copa, é a melhor sombra para ele. Ele come a fruta do Mandacaru e vai se abrigar no Juazeiro. Aí cria uma simbiose, nasce sempre um pé de Mandacaru dentro de um pé de Juazeiro”, detalha Alvaro, pontuando a importância não só dos pássaros, mas tatus e outros animais comuns da Caatinga, para ajudar no restauro da vegetação degradada.
Ivair de Lima criava pássaros em gaiolas, e hoje entende a importância deles em liberdade para o ecossistema
Caroline Rangel/TV Globo
Além das atividades desenvolvidas na fazenda, quem trabalha no projeto também promove rodas diálogos e cursos sobre educação ambiental, para as comunidades vizinhas. Ivair de Lima tem 21 anos, e desde os 10 anos criava pássaros em gaiola.
A família, que trabalha com agricultura, participou de uma das conversas sobre a importância de manter animais como pássaros, tatus, veados e emas, soltos na Caatinga. O diálogo conscientizou Ivair.
“Eu achava bonito eles cantando na gaiola, mas agora eu crio eles soltos. É mais bonito eles voando entre as árvores. E também ajudo no restauro da Caatinga com o sistema agroflorestal, plantando mudas. É importante esse cuidado”, declarou o jovem, que também ajuda o Ibama a soltar os animais silvestres na fazenda Serra Grande.
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