Índio ou indígena? Termo usado por Rodriguinho no ‘BBB 24’ gera discussão e etnolinguista explica

Enem 2023: resultado será divulgado nesta terça; veja o que fazer com a nota
Chamada de 'índia' pelo cantor, manauara Isabella Nogueira é cunhã-poranga do Boi Garantido, um dos bois do Festival de Parintins, e vem chamando atenção por defender a cultura indígena. Indígenas Yanomami, em território localizado entre Roraima e Amazonas.
GETTY IMAGES
O cantor Rodriguinho gerou uma discussão nas redes sociais desde a noite de quinta-feira (11) após chamar a amazonense Isabelle Nogueira de "índia" no "BBB 24". O termo ainda é popular em grande parte do país, mas, segundo especialistas, é pejorativo.
Natural de Manaus, considerada a cidade com mais indígenas do país, Isabelle entrou no reality após votação popular. A manauara é cunhã-poranga do Boi Garantido, um dos bois do Festival de Parintins, e vem chamando por defender a cultura indígena.
Isabelle Nogueira como cunhã-poranga do Boi Garantido
Michael Dantas
Saiba o que é 'cunhã-poranga', personagem folclórico representado por Isabelle Nogueira no 'BBB 24'
Desde o início da competição, alguns participantes do BBB, como Rodriguinho, têm usado o termo 'índia' para identificar Isabelle.
Após o programa de quinta, a amazonense chamou a atenção do cantor, alertando sobre o uso do termo: "Índio era quando o colonizador chegou no Brasil e quis falar que nós parecíamos o povo da Índia", explicou.
Ao g1, o etnolinguista Renato Régis também explicou que a palavra se tornou ofensiva pela forma como as pessoas a utilizavam para identificar os povos tradicionais no passado.
"Na visão linguística, que é a explicação mais estendida, já que a linguística estuda os fenômenos da língua, não devemos usar o termo 'índio' ou 'índia' porque se tornou pejorativo. As pessoas começaram a usar essa palavra como algo ofensivo, como ocorreu com a Isabelle, no BBB", explicou.
Indígenas Suruwahá, no Amazonas.
Sebastião Salgado
Segundo o especialista, é preciso substituir a palavra "índio" por expressões, como, "povos indígenas", "povos tradicionais" ou mesmo "povos ancestrais". "Uma pessoa que não conhece a cultura ancestral não pode sair por aí falando que fulano é índio, que fulana é índia. É preciso levar em consideração a cultura do povo, acima de tudo. Por isso ela explicou para o Rodriguinho", afirmou.
CENSO: Manaus passa a ser a cidade com mais indígenas no país
O etnolinguista também falou sobre como a figura de Isabelle no reality ajuda o público a entender e a conhecer mais sobre a cultura do Norte do país.
"Quando ela explicou sobre a figura da cunhã-poranga, que é a indígena guerreira, ela colocou no sentido de respeitar a ancestralidade. Ela bate muito nessa tecla e isso é muito importante, assim como todas essas expressões do chamado 'amazônes', que ela está fazendo o Brasil conhecer", finalizou.
Quem é Isabelle Nogueira
Isabelle Nogueira como cunhã-poranga do Boi Garantido
Michael Dantas
Natural de Manaus, capital do Amazonas, Isabelle Nogueira tem 31anos, é formada em Letras e chegou a dar aulas, mas hoje trabalha como dançarina e influenciadora digital no Amazonas.
Em uma roda de conversa formada pelos "brothers" na noite de terça-feira (9), Isabelle contou um pouco da sua história de vida. A amazonense relembrou a infância mais solitária e a história de luta da mãe para criá-la.
Em relato aos companheiros de confinamento, Isabelle disse que a mãe engravidou quando tinha 13 anos de idade.
"Começou ali uma criação realmente atípica. Ela trabalhava e eu ficava muito sozinha desde bebê. Eu tenho recordação minhas de 5 e 6 anos muito sozinha, chuva, eu chorava sozinha, então eu cresci muito sozinha. Essa é a grande verdade, muito eu por mim mesma", disse.
Isabelle Nogueira e o Boi Garantido
Reprodução/redes sociais
A manauara lembrou também que a paixão pelo boi-bumbá foi passada de mãe para filha. Em meio ao cotidiano corrido de estudos e trabalhos, ainda que muito nova, ela acompanhava a mãe nas festas.
"Eu lembro de mim assim, 5 ou 6 anos de idade, dormindo nas festas da nossa cultura. Minha mãe me levava com ela para as festas, até que eu comecei a fazer dinheiro com isso. Fazia 20 ou 30 reais dançando", contou Isabelle.
Atualmente, a manauara é conhecida no Amazonas como cunhã-poranga do Boi Garantido, o boi vermelho e branco do Festival Folclórico de Parintins.
"Já danço há 17 anos de forma profissional no Brasil inteiro, levando a cultura do meu povo, e no boi-bumbá Garantido há 10 anos", explicou aos "brothers".
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‘Absorvamos, busquemos, alcancemos’: Dorival Júnior, técnico da seleção, usa o presente do subjuntivo corretamente; e você? Faça o QUIZ

Dorival foi apresentado como novo técnico da Seleção Brasileira e chamou atenção nas redes sociais por sua maneira de falar. Descubra se você se lembra desse tempo verbal. Dorival fala com frequência no presente do subjuntivo
"O importante é que nós foquemos um pouco mais, nos preparemos um pouco mais, que estejamos muito mais determinados." A frase, dita pelo Dorival Júnior na sua apresentação como o novo técnico da Seleção Brasileira masculina de futebol, é só um exemplo característico do seu jeito de falar: cheio de verbos no presente do subjuntivo.
📽️ No vídeo acima, veja um compilado de declarações do treinador durante a entrevista coletiva na quinta-feira (11).
Essa particularidade de Dorival não passa batida nas redes sociais. Torcedores e internautas reparam nisso e elogiam o uso correto desse tempo verbal – especialmente por não ser tão usado no dia a dia.
Geralmente, as pessoas falam de uma maneira mais coloquial (quando nem sempre a norma culta é respeitada) ou optam por tempos verbais mais comuns – mesmo em contextos formais.
"O que causa espanto é o uso do presente do subjuntivo na primeira pessoa do plural, que é o 'nós', o que é muito difícil, porque normalmente substituímos essa pessoa pelo 'a gente'", explica Ávila Oliveira, professor de português e redação do Colégio Unificado, em Porto Alegre.
👉 Mas e você? Sabe usar o presente do subjuntivo corretamente? Teste seus conhecimentos no QUIZ abaixo e, em seguida, relembre as explicações das aulas de português.
Presente do subjuntivo
Presente do subjuntivo
Para começar, é preciso lembrar que o subjuntivo é uma flexão verbal (ou seja, uma variação do verbo) associada a algo incerto ou que ainda não aconteceu. Esse tempo verbal é normalmente utilizado para expressar ordem, desejo, dúvida ou sentimento.
Portanto, o presente do subjuntivo é um tempo verbal que indica uma possibilidade, uma hipótese, uma incerteza, no momento presente.
Desejo que nós realizemos nossos sonhos.
Espero que venhamos aqui mais vezes.
Torço para que consigamos passar de ano.
Tomara que possamos ir ao cinema no fim de semana.
Quero que sigamos nesse rumo.
A flexão do verbo acontece em todas as pessoas do plural e do singular (eu, tu, ele, nós, vós, eles), e é na primeira pessoa do plural que o estranhamento mais acontece.
No dia a dia, quase não utilizamos mais o 'nós' para conjugar verbos. O 'a gente' tomou esse lugar e, quando ele é utilizado, os verbos ficam flexionados no singular.
Por isso, segundo o professor, os espectadores podem ter estranhado quando Dorival Júnior disse: "É isso que eu espero que alcancemos ao longo desses anos", e não: "É isso que eu espero que a gente alcance ao longo desses anos", por exemplo.
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Norma culta é a única maneira correta de falar?
Não! O importante é conseguir se comunicar.
O principal objetivo da língua é comunicar, e isso precisa ser feito de maneira efetiva. Se o ouvinte não entende palavras mais rebuscadas, o interlocutor pode e deve usar termos e uma maneira de falar mais simples que torne a comunicação eficaz.
Para Ávila Oliveira, a norma culta não deve ser considerada como a única forma correta de falar, nem a maneira coloquial deve ser resumida a falar errado. Segundo ele, tudo depende do contexto, do que, como e com quem se fala.
"Pode causar estranhamento falar de maneira informal durante a apresentação de um seminário acadêmico, da mesma maneira que é estranho falar formalmente em um bar com os amigos", explica o professor.
VÍDEOS DE EDUCAÇÃO

Resultado do Enem 2023 deve ser divulgado na terça-feira; saiba como usar a nota

Enem 2023: resultado será divulgado nesta terça; veja o que fazer com a nota
Exame é a principal porta de entrada para o ensino superior no país ao permitir concorrer a vagas em universidades públicas e privadas, financiamento e bolsas privadas. Resultado do Enem 2023 deve ser divulgado na terça-feira (16).
Érico Andrade/g1
A divulgação dos resultados individuais do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) 2023 está prevista para terça-feira (16), de acordo com o calendário informado pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep) no início do ano passado.
O Enem é a principal porta de entrada para o ensino superior no Brasil, pois permite a seus participantes concorrer a vagas em universidades públicas e privadas, e até a financiamento e bolsas privadas, com as notas obtidas nas provas.
As provas foram aplicadas em 5 e 12 de novembro na versão regular do exame, e em 12 e 13 de dezembro na versão PPL (para pessoas privadas de liberdade) e reaplicação.
Abaixo, veja como as notas podem ser utilizadas no Brasil e no exterior:
No exterior
Em Portugal, pelo menos 29 instituições, incluindo universidades, institutos politécnicos e escolas superiores, aceitam as notas do Enem em seus processos de admissão. O país europeu é o que mais aceita o Enem como vestibular, além do Brasil, graças a um acordo entre os dois governos.
Cada instituição define os próprios regulamentos (como documentos exigidos, calendários e possíveis auxílios estudantis).
As instituições de educação superior portuguesas que aceitam o Enem são:
Instituto Universitário de Lisboa – ISCTE
Escola Superior de Saúde Norte da Cruz Vermelha Portuguesa – ESSNorteCVP
Universidade Autónoma de Lisboa – UAL
Instituto Politécnico da Lusofonia – Ipluso
Instituto de Estudos Superiores de FAFE – IESFafe
Instituto Politécnico de Gestão e Tecnologia – Isla
Instituto Superior de Gestão e Administração de Santarém
Instituto Superior de Gestão – ISG
Instituto Superior D. Dinis Isdom
Instituto Superior Manuel Teixeira Gomes – Ismat
Instituto Português de Administração de Marketing – Ipam
Instituto Politécnico de Viana do Castelo – IPVC
Instituto Português de Administração e Marketing – Porto – Ipam
Universidade Nova de Lisboa
Instituto Politécnico de Beja – IPBeja
Instituto Politécnico de Leiria
Instituto Politécnico do Porto – IPP
Instituto Politécnico de Coimbra – IPC
Universidade da Beira Interior – UBI
Universidade do Minho – Uminho
Instituto Politécnico de Santarém
Instituto Politécnico de Castelo Branco
Instituto Politécnico de Bragança
Universidade Lusófona de Humanidades e Tecnologias – ULHT
Instituto Politécnico de Portalegre
Instituto Politécnico de Viseu
Universidade Católica Portuguesa – UCP
Instituto Universitário de Ciências Psicológicas, Sociais e da Vida – ISPA
Escola Superior Artística do Porto – ESAP
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ESTADOS UNIDOS
A Universidade de New York também aceita o Enem como critério de ingresso.
Divulgação
Pelo menos 4 universidades dos Estados Unidos aceitam a nota do Enem como critério de ingresso. O processo seletivo para estas instituições também pode envolver outros passos, como o exame de proficiência em inglês e o comprovante de conclusão do ensino médio. São elas:
Universidade de Nova York;
Universidade Drexel;
Northeastern University;
Universidade Temple.
REINO UNIDO
Algumas universidades do Reino Unido levam em conta a nota do Enem no processo de admissão. Outros passos também podem ser necessários para ingresso e matrícula.
Universidade de Glasgow;
Birkbeck – Universidade de Londres;
Universidade de Loughborough;
Universidade Nottingham Trent.
CANADÁ
A Universidade de Toronto está entre as que aceitam o Enem.
Divulgação
No Canadá, pelo menos a Universidade de Toronto e a Universidade Metropolitana de Toronto aceitam o Enem como parte do processo de ingresso em suas graduações. As universidades também podem estabelecer outras etapas para o processo de admissão.
Como o Enem é usado no Brasil
O governo federal tem três programas nacionais para ingresso no ensino superior por meio das notas do Enem. Eles funcionam para admissão em universidades públicas, concessão de bolsas em instituições privadas ou financiamento de cursos em faculdades particulares.
SISU
O Sistema de Seleção Unificada (Sisu) é o programa do Ministério da Educação (MEC) que seleciona estudantes para universidades públicas. A partir de 2024, o programa passa a ter apenas uma edição por ano.
As vagas: Neste ano, serão 264.360 vagas, distribuídas entre 127 instituições de educação superior. Para concorrer a uma delas, o candidato deve ter feito o Enem 2023 e tirado nota acima de zero na redação. As inscrições acontecem de 22 a 25 de janeiro.
Como funciona: Na inscrição, o aluno escolhe até duas opções de cursos e/ou de instituição. Ao longo do período de inscrição, o candidato pode mudar as opções no sistema quantas vezes quiser, tomando como base as notas de corte parciais divulgadas diariamente. Há vagas para cotistas (as regras variam de instituição para instituição).
Pré-requisitos: ter prestado a edição mais recente do Enem e tirado nota superior a zero na redação.
Atenção: com a novidade da edição única, o programa terá apenas um calendário válido para todos os participantes. Ou seja, mesmo os candidatos que irão iniciar o curso no segundo semestre precisarão se matricular na mesma data daqueles que iniciam o curso no primeiro semestre. Saiba mais aqui.
Sisu 2024: programa tem 264 mil vagas em primeira edição única; veja lista
PROUNI
O Programa Universidade para Todos (Prouni) é uma iniciativa do MEC que oferece bolsas integrais (100%) e parciais (50% de desconto) em instituições de ensino particulares.
Como funciona: O candidato deve indicar, em ordem de preferência, até duas opções de curso (selecionando a instituição de ensino e o turno). Depois, é necessário marcar se quer participar na modalidade de ampla concorrência ou de cotas. Por fim, precisa monitorar, a cada dia, a nota parcial para aqueles cursos. Se quiser, pode mudar suas escolhas (valerá a última opção marcada no período de inscrições).
Pré-requisitos: Ter feito o Enem em uma das duas últimas edições, com média mínima de 450 pontos nas áreas de conhecimento e nota superior a zero na redação. É preciso também pertencer a uma família com renda per capita de até 3 salários mínimos e ter ensino médio completo (em escola pública ou particular). Há vagas para pessoas com deficiência e professores da rede pública.
Tipos de bolsa: Integral (renda familiar mensal per capita de até 1,5 salário mínimo) e parcial (que cobre 50% da mensalidade, para renda familiar mensal per capita de 1,5 a 3 salários mínimos).
FIES
O Fundo de Financiamento Estudantil (Fies) é um programa do governo federal que paga parte das mensalidades de estudantes em universidades e faculdades privadas, com a contrapartida de os beneficiários quitarem o financiamento após a formatura.
Como funciona: O crédito pode cobrir de 50% a 100% da mensalidade do curso, com juros que dependem da renda familiar do candidato.
Pré-requisitos: Pode se inscrever no processo seletivo quem participou de qualquer edição do Enem desde 2010, com média mínima de 450 nas cinco áreas do conhecimento e nota superior a zero na redação. O candidato deve ter renda familiar mensal per capita de até 3 salários mínimos.
⚡ Alvo de críticas, o Fies não garante o financiamento de 100%, e os alunos, sem condições de pagar o restante, acabam depois se endividando.
Universidades privadas no Brasil
Há instituições privadas de ensino superior que usam a nota do Enem no processo seletivo ou que oferecem descontos nas mensalidades a partir do desempenho do candidato nesse exame. As regras e datas variam de universidade para universidade.

Por que alguns afirmam que 2+2=5 (e qual a lógica por trás disso)

Enem 2023: resultado será divulgado nesta terça; veja o que fazer com a nota
Dois mais dois é igual a quatro? Bem, a resposta de que são cinco tem uma história longa, encantadora e às vezes controversa. Há um ditado em inglês que diz 'ele juntou dois mais dois e chegou a cinco', que indica que alguém chegou a uma conclusão completamente errada.
Getty Images via BBC
Há verdades incontestáveis, como 1+1=2. A menos que a 1 monte de roupas sujas você adicione 1 monte de roupas sujas e fique com 1 montão de roupa para lavar.
Ou que esteja misturando tintas, e 1 cor + 1 cor = 1 nova cor, como um estudante de artes disse à matemática Eugenia Cheng, que incluiu vários desses exemplos em seu livro Is Math Real?: How Simple Questions Lead Us to Mathematics’ Deepest Truths ("A matemática é real?: Como perguntas simples nos levam às verdades mais profundas da matemática", em tradução livre).
Claro que isso não significa que 1+1≠ 2. Significa apenas que até o que é mais conhecido nos convida a pensar, que tudo merece um certo grau de questionamento e que muito depende do contexto.
Mas uma soma semelhante às anteriores tem uma longa, prestigiada e até polêmica história: 2+2.
Se você acha que a resposta é sempre 4, adianto que há quem argumente que isso não é necessariamente certo.
➡️ Vamos começar com René Descartes, no século 17, embora possamos seguir essa história até passados ainda mais remotos.
O filósofo francês que questionou tudo em busca da verdade perguntou-se por que não se duvidava que dois mais dois são quatro, se até mesmo a nossa existência era colocada em dúvida.
Duvidar que 2+2=4, observou, não era logicamente incoerente, pois, afinal de contas, os números eram ideias abstratas que não podíamos encontrar na natureza.
Mas afirmar "duvido que eu exista" era, sim, logicamente incoerente.
A mera capacidade de duvidar, observou ele, reafirma a nossa existência, daí a abordagem fundamental do racionalismo ocidental: cogito ergo sum ou "penso, logo existo".
Ele não estava, no entanto, colocando em questão se a duas coisas se somar mais duas, dará quatro; valeu-se precisamente dessa soma, pois era uma verdade óbvia.
➡️ E questioná-la era tão absurdo que o inglês Ephraim Chambers usou a expressão 2+2=5 como exemplo ao explicar o significado do conceito naquela que foi uma das primeiras enciclopédias da história.
Na Cyclopaedia, ou Um Dicionário Universal de Artes e Ciências (1728), cujo subtítulo indica que "contém uma explicação dos termos e uma conta dos significados das coisas nas várias artes, tanto liberais e mecânicas, e várias ciências, o humano e divinas", observa:
Assim, seria absurda uma proposição que afirmasse que dois e dois são cinco, ou que negasse que são quatro.
De encantadora a assustadora
Uma soma historicamente polêmica.
Getty Images via BBC
A soma seguiu presente, e não apenas em escritos filosóficos e matemáticos.
Em 1813, o famoso poeta inglês George Gordon Byron evocou-a em uma carta àquela que viria a ser sua esposa, Anne Isabella Milbanke.
Ele chamava-a de sua "princesa dos paralelogramos", pelo fascínio que a matemática despertava nela, um assunto que, escreveu Byron, "devo me contentar em admirar a partir da distância da incompreensão".
"Eu sei que dois e dois são quatro, e eu ficaria feliz em provar isso também se pudesse, embora eu deva dizer que se por qualquer tipo de processo eu pudesse converter 2 mais 2 em 5, eu teria um prazer muito maior."
O grande escritor russo Fiódor Dostoiévski foi além.
Em Notas do subsolo (1864), o protagonista aceita a falsidade de 2+2=5 e considera as consequências de negar a verdade de que 2+2=4.
No entanto, ele acha que o que torna a humanidade humana é a capacidade de escolher ou rejeitar o lógico e o ilógico, e o processo incessante de querer alcançar um objetivo, "em outras palavras, a própria vida, não particularmente a meta que, é claro, deve ser sempre 'dois mais dois são quatro'".
Esse objetivo, na sua opinião, "já não é a vida, mas o início da morte".
De maneira que conclui:
"Eu admito que dois e dois são quatro é algo excelente, mas, se somos justos, dois e dois são cinco também tem muito charme."
Não parecia tão encantador para o escritor francês Victor Hugo.
Ele foi mais um dos que usaram a soma como metáfora política, ao criticar o abandono dos valores liberais que inspiraram a Revolução Francesa quando Napoleão 3º se instalou como imperador.
No panfleto Napoléon le Petit ("Napoleão, o Pequeno", 1852), ele minou a credibilidade do sistema ao escrever:
"Agora, obtenham 7.500.000 votos para declarar que dois e dois são cinco, que a linha reta é o caminho mais longo, que o todo é menos do que a sua parte."
Um século depois, o Nobel francês Albert Camus escreveria em A Peste que "ninguém parabeniza um professor por ensinar que dois e dois são quatro", pois não parece estar arriscando sua vida ao fazê-lo.
"Mas há sempre um momento na história em que quem se atreve a dizer que dois e dois são quatro está condenado à morte. O professor sabe bem disso. E a questão não é saber qual será o castigo ou a recompensa que aguarda esse raciocínio. A questão é saber se dois e dois são ou não quatro."
'No final, o Partido anunciaria que dois mais dois são cinco e você teria que acreditar nisso' (1984, George Orwell)
Getty Images via BBC
Mas talvez quem mais repercussão deu a 2+2=5 para denunciar dogmas absurdos e perigosos foi o jornalista e escritor George Orwell.
Ele levantou a ideia várias vezes, em ensaios e transmissões da BBC durante a Segunda Guerra Mundial, para ilustrar o ilógico da propaganda nazista.
Em uma carta de 1944, respondendo a uma pergunta sobre o crescimento do totalitarismo a alguém chamado Noel Willmett, ele explicou seus medos:
"Hitler pode dizer que os judeus começaram a guerra e, se sobreviver, isso se tornará história oficial."
"Você não pode dizer que dois e dois são cinco, porque para efeitos de, digamos, balística, eles têm que somar quatro."
"Mas se chegarmos ao tipo de mundo que temo, um mundo de dois ou três grandes superestados que não podem ser conquistados entre si, dois e dois poderiam se tornar cinco se o Führer assim o desejasse."
"Essa, até onde posso ver, é a direção em que estamos realmente nos movendo, embora, é claro, o processo seja reversível."
Cinco anos depois, seria publicado seu romance 1984, que atrairia a atenção de gerações como uma das declarações fictícias mais eloquentes contra um mundo reduzido a superestados.
Um mundo saturado de "nacionalismo emocional", complacente com os "métodos ditatoriais, polícia secreta e a falsificação sistemática da história", e com a vontade de "não acreditar na existência de uma verdade objetiva porque todos os fatos têm que se encaixar nas palavras e profecias de algum führer infalível".
Nessa distopia, o protagonista do romance, Winston Smith, pergunta-se se a opressão poderia se tornar tão forte que se o Estado afirmar que "dois mais dois é igual a cinco", isso imediatamente se tornaria verdade.
A resposta é dada por seu torturador, O'Brien, quando Smith diz que é impossível para ele conceber outra coisa, pois ele sabe que dois mais dois são quatro.
"Às vezes sim, Winston; mas outras vezes são cinco. E outras, três. E às vezes é quatro, cinco e três ao mesmo tempo", é a resposta arrepiante de O'Brien.
Em 2003, inspirada em 1984, a banda inglesa de rock Radiohead lançou a música "2+2=5", questionando a escolha de ficar na zona de conforto em vez de lutar contra o absurdo.
"Você é tão sonhador
Para colocar o mundo em ordem?
Ficarei para sempre em casa,
onde dois e dois sempre somam cinco"
O charme de 2+2=5
O resultado depende do que você está somando: maçãs + laranjas = impossível; frutas + frutas = aí sim.
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Mas até as verdades evidentes da matemática são controversas.
Apesar de 2+2=5 ter sido amplamente utilizado como exemplo de uma proposição evidentemente falsa e para alertar estudantes de matemática sobre o risco de falácias, há uma contracorrente.
Curiosamente, essa soma que para muitos ilustra o que é uma crença ou dogma absurdo, para outros é símbolo de quebra de cadeias.
Muitos são aderentes à teoria da Justiça Social Crítica (JSC), que se baseia sobretudo nas noções pós-modernas de poder, conhecimento e linguagem, e pensam que a sociedade está construída com sistemas opressivos de poder e privilégio que legitimam algumas formas de conhecimento sobre outras.
Para eles, a matemática não é uma ciência objetiva ou neutra em valores, nem meramente instrumental; também não é uma pura verdade abstrata existente além do mundo concreto.
Desse ponto de vista, 2+2 não é necessariamente 4, mas poderia ser 5.
Você se perdeu?
Talvez valha a pena citar o mais citado: Kareem Carr, doutor em bioestatística da Universidade de Harvard, que ganhou fama nas redes em 2020 com um post no então Twitter intitulado "Tudo o que você precisa saber sobre 2+2=5".
Ele começou dizendo que "afirmações como 2+2=4 são abstrações, o que significa que são generalizações de 'algo'".
"Pessoas de pensamento literal podem às vezes dizer coisas como 'se eu colocar um galo e uma galinha juntos e voltar no ano seguinte e há três deles (1+1=3) ou dizer: 'se eu deixar uma raposa e uma galinha juntos, eu volto depois e só há um (1+1=1)'.
"As pessoas vão achar que isso soa estúpido, mas elas estão fazendo um apontamento tremendamente profundo", disse.
Mais tarde ele declarou que "o mero ato de transformar algo em um número é uma suposição".
E, com o tempo, continuou encontrando exemplos, como o de adicionar 200ml de água a outros 200ml de água em um recipiente, que então teria, de acordo com a aritmética, 400ml.
Mas, esclareceu, como a temperatura dos primeiros 200ml era de 20°C e a dos outros era de 40°C, ao combiná-las a quantidade foi reduzida.
Seu ponto era, e ainda é, que em um mundo onde tanto conhecimento é gerado a partir de dados, é importante garantir que as suposições sejam precisas para que as conclusões sobre a realidade também o sejam.
"Então, quando alguém me diz '2+2=5', peço sempre mais detalhes em vez de pensar que são idiotas".
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Enem 2023: resultado será divulgado nesta terça; veja o que fazer com a nota

Enem 2023: resultado será divulgado nesta terça; veja o que fazer com a nota
Provas foram aplicadas em 5 e 12 de novembro e reaplicadas em 12 e 13 de dezembro. Exame é aceito no país em processos seletivos de instituições públicas e privadas, e em universidades internacionais. Resultado do Enem 2023 deve ser divulgado nesta terça-feira (16). Na imagem, aluna exibe caderno de questões do 2º dia.
Érico Andrade/g1
Os resultados individuais do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) 2023 serão divulgados nesta terça-feira (16). A divulgação deve acontecer após uma entrevista coletiva do Ministério da Educação (MEC) e do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep), prevista para as 9h, segundo a assessoria do MEC.
O Enem é a principal porta de entrada para o ensino superior no Brasil, pois permite a seus participantes concorrer a vagas em universidades públicas e privadas, e até a financiamento e bolsas privadas, com as notas obtidas nas provas.
As provas foram aplicadas em 5 e 12 de novembro na versão regular do exame, e em 12 e 13 de dezembro na versão PPL (para pessoas privadas de liberdade) e reaplicação.
Abaixo, veja como as notas podem ser utilizadas no Brasil e no exterior:
No exterior
Em Portugal, pelo menos 29 instituições, incluindo universidades, institutos politécnicos e escolas superiores, aceitam as notas do Enem em seus processos de admissão. O país europeu é o que mais aceita o Enem como vestibular, além do Brasil, graças a um acordo entre os dois governos.
Cada instituição define os próprios regulamentos (como documentos exigidos, calendários e possíveis auxílios estudantis).
As instituições de educação superior portuguesas que aceitam o Enem são:
Instituto Universitário de Lisboa – ISCTE
Escola Superior de Saúde Norte da Cruz Vermelha Portuguesa – ESSNorteCVP
Universidade Autónoma de Lisboa – UAL
Instituto Politécnico da Lusofonia – Ipluso
Instituto de Estudos Superiores de FAFE – IESFafe
Instituto Politécnico de Gestão e Tecnologia – Isla
Instituto Superior de Gestão e Administração de Santarém
Instituto Superior de Gestão – ISG
Instituto Superior D. Dinis Isdom
Instituto Superior Manuel Teixeira Gomes – Ismat
Instituto Português de Administração de Marketing – Ipam
Instituto Politécnico de Viana do Castelo – IPVC
Instituto Português de Administração e Marketing – Porto – Ipam
Universidade Nova de Lisboa
Instituto Politécnico de Beja – IPBeja
Instituto Politécnico de Leiria
Instituto Politécnico do Porto – IPP
Instituto Politécnico de Coimbra – IPC
Universidade da Beira Interior – UBI
Universidade do Minho – Uminho
Instituto Politécnico de Santarém
Instituto Politécnico de Castelo Branco
Instituto Politécnico de Bragança
Universidade Lusófona de Humanidades e Tecnologias – ULHT
Instituto Politécnico de Portalegre
Instituto Politécnico de Viseu
Universidade Católica Portuguesa – UCP
Instituto Universitário de Ciências Psicológicas, Sociais e da Vida – ISPA
Escola Superior Artística do Porto – ESAP
Veja como calcular a nota do Enem e por que a TRI pode prejudicar quem utiliza 'chutômetro'
ESTADOS UNIDOS
A Universidade de New York também aceita o Enem como critério de ingresso.
Divulgação
Pelo menos 4 universidades dos Estados Unidos aceitam a nota do Enem como critério de ingresso. O processo seletivo para estas instituições também pode envolver outros passos, como o exame de proficiência em inglês e o comprovante de conclusão do ensino médio. São elas:
Universidade de Nova York;
Universidade Drexel;
Northeastern University;
Universidade Temple.
REINO UNIDO
Algumas universidades do Reino Unido levam em conta a nota do Enem no processo de admissão. Outros passos também podem ser necessários para ingresso e matrícula.
Universidade de Glasgow;
Birkbeck – Universidade de Londres;
Universidade de Loughborough;
Universidade Nottingham Trent.
CANADÁ
A Universidade de Toronto está entre as que aceitam o Enem.
Divulgação
No Canadá, pelo menos a Universidade de Toronto e a Universidade Metropolitana de Toronto aceitam o Enem como parte do processo de ingresso em suas graduações. As universidades também podem estabelecer outras etapas para o processo de admissão.
Como o Enem é usado no Brasil
O governo federal tem três programas nacionais para ingresso no ensino superior por meio das notas do Enem. Eles funcionam para admissão em universidades públicas, concessão de bolsas em instituições privadas ou financiamento de cursos em faculdades particulares.
SISU
O Sistema de Seleção Unificada (Sisu) é o programa do Ministério da Educação (MEC) que seleciona estudantes para universidades públicas. A partir de 2024, o programa passa a ter apenas uma edição por ano.
As vagas: Neste ano, serão 264.360 vagas, distribuídas entre 127 instituições de educação superior. Para concorrer a uma delas, o candidato deve ter feito o Enem 2023 e tirado nota acima de zero na redação. As inscrições acontecem de 22 a 25 de janeiro.
Como funciona: Na inscrição, o aluno escolhe até duas opções de cursos e/ou de instituição. Ao longo do período de inscrição, o candidato pode mudar as opções no sistema quantas vezes quiser, tomando como base as notas de corte parciais divulgadas diariamente. Há vagas para cotistas (as regras variam de instituição para instituição).
Pré-requisitos: ter prestado a edição mais recente do Enem e tirado nota superior a zero na redação.
Atenção: com a novidade da edição única, o programa terá apenas um calendário válido para todos os participantes. Ou seja, mesmo os candidatos que irão iniciar o curso no segundo semestre precisarão se matricular na mesma data daqueles que iniciam o curso no primeiro semestre. Saiba mais aqui.
Sisu 2024: programa tem 264 mil vagas em primeira edição única; veja lista
PROUNI
O Programa Universidade para Todos (Prouni) é uma iniciativa do MEC que oferece bolsas integrais (100%) e parciais (50% de desconto) em instituições de ensino particulares.
Como funciona: O candidato deve indicar, em ordem de preferência, até duas opções de curso (selecionando a instituição de ensino e o turno). Depois, é necessário marcar se quer participar na modalidade de ampla concorrência ou de cotas. Por fim, precisa monitorar, a cada dia, a nota parcial para aqueles cursos. Se quiser, pode mudar suas escolhas (valerá a última opção marcada no período de inscrições).
Pré-requisitos: Ter feito o Enem em uma das duas últimas edições, com média mínima de 450 pontos nas áreas de conhecimento e nota superior a zero na redação. É preciso também pertencer a uma família com renda per capita de até 3 salários mínimos e ter ensino médio completo (em escola pública ou particular). Há vagas para pessoas com deficiência e professores da rede pública.
Tipos de bolsa: Integral (renda familiar mensal per capita de até 1,5 salário mínimo) e parcial (que cobre 50% da mensalidade, para renda familiar mensal per capita de 1,5 a 3 salários mínimos).
FIES
O Fundo de Financiamento Estudantil (Fies) é um programa do governo federal que paga parte das mensalidades de estudantes em universidades e faculdades privadas, com a contrapartida de os beneficiários quitarem o financiamento após a formatura.
Como funciona: O crédito pode cobrir de 50% a 100% da mensalidade do curso, com juros que dependem da renda familiar do candidato.
Pré-requisitos: Pode se inscrever no processo seletivo quem participou de qualquer edição do Enem desde 2010, com média mínima de 450 nas cinco áreas do conhecimento e nota superior a zero na redação. O candidato deve ter renda familiar mensal per capita de até 3 salários mínimos.
⚡ Alvo de críticas, o Fies não garante o financiamento de 100%, e os alunos, sem condições de pagar o restante, acabam depois se endividando.
Universidades privadas no Brasil
Há instituições privadas de ensino superior que usam a nota do Enem no processo seletivo ou que oferecem descontos nas mensalidades a partir do desempenho do candidato nesse exame. As regras e datas variam de universidade para universidade.