Rotinas de skincare para adolescentes: como conversar com os filhos sobre os riscos da nova tendência das redes sociais

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Especialistas explicam que hábito pode reduzir a saúde da pele, além de alimentar padrões de beleza que causam adoecimento mental. Orientar os pequenos é a principal aposta para combater os riscos.
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Como conversar com os filhos sobre os riscos de skincare para adolescentes.
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"Pressão estética nessa idade não é algo aceitável." Foi isso que a skatista e influenciadora Karen Jonz escreveu em uma publicação no Instagram na qual pede para que pais, blogueiras e marcas reflitam sobre o impacto da indústria dos cosméticos em crianças. A publicação acompanha um vídeo que mostra a animação da filha de Karen, Sky, de 8 anos, ao entrar em uma loja de cosmético.
A tetracampeã mundial do skate falou ainda sobre como os conteúdos das redes sociais e as embalagens, cores, brilhos e desenhos nos cosméticos chamam a atenção dos pequenos. E fez um alerta: os produtos não são para crianças.
A publicação de Karen é um outro lado de uma tendência que tem tomado conta das redes sociais nos últimos meses: a de skincare (rotina de cuidados com a pele por meio de produtos) realizada por crianças e adolescentes.
Nos diversos vídeos publicados nas redes sociais, produzidos principalmente dos Estados Unidos, meninas de 14 anos ou menos compartilham rotinas complexas de cuidado com a pele, compostas por tônicos, água micelar, esfoliantes, hidratantes faciais e até ácidos e produtos antienvelhecimento.
Segundo Elisete Crocco, coordenadora do setor de cosmiatria da Sociedade Brasileira de Dermatologia (SDB), esse novo hábito é inspirado nas rotinas de skincare sul-coreanas. Ela e a doutora em psicologia clínica pela PUC-Rio e especialista em doenças da beleza, Joana Novaes, avaliam que essa tendência mostra uma adultização precoce, estimula o consumismo e naturaliza a utilização de produtos impróprios para crianças — produtos estes que podem, inclusive, piorar a saúde da pele.
Não existe uma lógica real ou uma justificativa clínica para esse movimento. O que vemos são crianças tendo acesso a produtos que elas muito provavelmente não precisam, usando de forma indiscriminada e sem recomendação ou acompanhamento. É impossível prever os prejuízos à longo prazo, mas teremos que lidar com eles daqui a 20 anos.
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Tendência é perigosa
Apesar de não ser possível prever os prejuízos longínquos dessa nova tendência, Elisete Crocco, da Sociedade Brasileira de Dermatologia, diz que os danos de curto prazo já acontecem cada vez mais frequentemente.
"Uma criança que tem a pele normal e começa a usar ácidos que promovem renovação celular acaba alterando a barreira de proteção cutânea, aquela primeira camada de proteção da pele, deixando-a com microfissuras e mais porosa. Com isso, a pele não consegue manter a água para hidratação e acaba ficando ressecada", explica a especialista.
Em casos mais drásticos, a falta de orientação adequada e o uso indiscriminado de alguns produtos podem sensibilizar a pele e até causar manchas e queimaduras. Além disso, esse comportamento deixa também danos psicológicos. (Veja mais abaixo.)
Com isso em mente, a especialista explica que até o começo da adolescência, apenas beber bastante água para manter a pele hidratada e usar um protetor solar deve ser o suficiente para manter a saúde da pele desde que não haja nenhuma condição dermatológica evidente. Com exceção desses cuidados, qualquer outra rotina de skincare deve ser definida com auxílio de um dermatologista.
Elisete diz ainda que, em geral, as primeiras consultas dermatológicas acontecem durante a adolescência, quando o paciente começa a apresentar acne ou mudança na textura da pele. Então, o médico monta uma proposta de tratamento personalizada que leva em conta o tipo e as necessidades da pele.
Orientação dos pais
Para a psicóloga Cíntia Gouvea, que estuda o impacto das redes sociais na formação da personalidade, os pais devem, sempre que possível, intermediar ou, pelo menos, estar cientes dos conteúdos acessados por menores de 16 anos na internet.
Segundo a pesquisadora, além de evitar o consumo de conteúdo impróprio, isso é importante para que os pais saibam quando e como orientar os filhos.
"Os pais precisam refletir também se eles são passivos ou ativos em cenários como esse da nova tendência. Tanto estimular esse comportamento quanto fazer vista grossa pode trazer riscos para o filho", alerta a psicóloga.
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A especialista em doenças da beleza da PUC, Joana Novaes, avalia que há certa influência do mercado publicitário dos dermocosméticos, que convence os pais de que facilitar o acesso a estes produtos seria cuidar da filha. No entanto, ela diz que é preciso pensar criticamente.
Se as crianças veem esses produtos na internet e passam a querê-los, precisamos entender como elas têm acesso a eles. São os pais ou as próprias filhas que compram? Os pais sabem o que as filhas estão comprando e usando? Sabem por que elas querem estes produtos e para que eles servem? Todas essas perguntas devem ser feitas de um lugar de curiosidade genuína, partindo da vontade de ajudar.
É a partir das respostas dessas perguntas que os pais podem entender seu papel neste cenário e definir a melhor maneira de orientar os filhos.
Essa orientação pode vir tanto dos próprios pais — que podem se informar sobre o assunto, explicar os riscos, descobrir o que está por trás da relação das filhas com estes produtos —, como podem também recorrer à uma dermatologista.
"Às vezes, o pai e a mãe não conhecem aquele produto, não sabem para que serve ou como orientar os filhos. Nessas horas, vale sempre procurar um especialista que entende do assunto para explicar de maneira simples do que se trata", explica Elisete Crocco, coordenadora do setor de cosmiatria da Sociedade Brasileira de Dermatologia (SDB).
Mercado da tendência
Joana Novaes, especialista em doenças da beleza da PUC, sinaliza que essa tendência é fruto de uma mudança do mercado que impulsionou uma mudança de comportamento.
“Antes, as crianças eram vistas como um possível público-alvo futuro. Hoje, elas já movimentam um nicho e já são entendidas como público-alvo atual.”
Para a especialista, uma série de coisas alimenta essa tendência, como a apresentação de produtos em embalagens chamativas e infantilizadas e a oferta indiscriminada de conteúdo não especializado nas redes sociais.
“Imagine uma criança que usa as redes sociais sem fiscalização dos pais, e que dá de cara com um vídeo de uma jovem de 20 anos testando um produto com uma embalagem fofa, e falando sobre como aquele produto melhorou sua pele. Alguém com 12 anos pode se reconhecer naquilo e achar que precisa usar o produto também."
Segundo a especialista, a partir daí, cria-se um comportamento parecido com o que já era observado em outras gerações, mas com o agravante da precocidade.
Surge, então, uma geração que consome indiscriminadamente sem considerar seriamente a necessidade daquele produto, baseando-se apenas no desejo de fazer parte daquele movimento, e sem pensar também nos possíveis riscos de aplicar desde tão cedo produtos cosméticos na pele.
Outro perigo alertado pela especialista é o da criação de uma falsa imagem pelas crianças da própria aparência, já que boa parte dos conteúdos de beleza disponíveis na internet tendem a reforçar um ideal de beleza que nunca é alcançável e que sempre mudam, criando um ciclo vicioso.
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'É preciso estar disposta a conversar'
Karen Jonz, que propôs a reflexão sobre a indústria da beleza e dos cosméticos na rede social, contou ao g1 que fez a publicação porque aquele já era pensamento que carregava consigo como mãe e como internauta.
"Só recentemente que comecei a frequentar lojas de maquiagens e cosméticos e lembro de ficar muito confusa, perdida. Aos poucos, fui pesquisando e aprendendo o que priorizar e o que comprar, mas, tendo minha filha comigo naquele ambiente, me liguei de que deveria ser ainda mais confuso para ela", disse.
Acho que estamos em um momento comercial de cosméticos diferente, com muita oferta, com muita com muita influência e, ao mesmo tempo, com muita desinformação. E precisamos entender esses fenômenos para conversar e orientar as crianças.
Karen diz que já conversou com a filha sobre pressão estética e padrão de beleza, e permite que Sky use maquiagem apenas de forma lúdica, para expressar sua criatividade durante as brincadeiras.
Ela pondera que, futuramente, a filha pode ter outra relação com a maquiagem e com sua imagem pessoal. Mas, até lá, se propõe a conversar com Sky para que ela internalize que, independentemente de sua escolha, seja guiada pela própria vontade, e não porque os outros fazem, ou porque os outros esperam que ela faça.
A skatista diz que não quer ser regra para outros pais, mas sente que tem cumprido bem seu papel, agindo de maneira que contempla sua relação com a filha. E o segredo não é tão secreto: "o importante é oferecer outras experiências, tirar o foco da internet, e deixar ela ser a criança que ela é".
VÍDEOS DE EDUCAÇÃO

Estudantes brasileiros conquistam vitória inédita no maior torneio de robótica do mundo

Time 'Los Atômicos', de São Paulo, conquistou o título na categoria de 9 a 16 anos, uma das mais importantes do evento, realizado em Houston, nos Estados Unidos. Brasil conquista prêmios inéditos em mundial de robótica
Um grupo de estudantes brasileiros conquistou um título inédito no maior torneio de robótica do mundo. Realizado em Houston, nos Estados Unidos, o torneio reuniu mais de 15 mil jovens de mais de 50 países para quatro dias de desafios e criatividade.
O time "Los Atômicos", de São Paulo, conquistou o título na categoria de 9 a 16 anos, uma das mais importantes do evento.
A tarefa do grupo era encontrar uma solução para um desafio contemporâneo. O resultado foi um projeto focado na inclusão e na acessibilidade infantil: um tabuleiro de xadrez controlado por comandos de voz.
O Brasil saiu vitorioso com um total de nove medalhas. O torneio valoriza o esforço de estudantes com idades entre 6 e 19 anos, que, em equipes, devem construir e operar robôs, além de desenvolver projetos de ciência e tecnologia para beneficiar suas comunidades.
Neste ano, o Brasil foi representado pela maior delegação até então: 144 competidores de escolas públicas e privadas, provenientes de 10 estados diferentes.
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Por que o descobrimento do Brasil nem sempre foi celebrado em 22 de abril

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Até 1817, muitas pessoas acreditavam que a data do “descobrimento” era 3 de maio. Desembarque dos portugueses em Porto Seguro, conforme obra de Oscar Pereira da Silva, de 1904
Domínio Público
A ideia — ou o conhecimento — de que o território brasileiro recebeu os colonizadores portugueses pela primeira vez em 22 de abril de 1500 não era sabida ou divulgada até o início do século 19. Até 1817, a maior parte daqueles que se importavam com isso julgava ser a data do “descobrimento” o 3 de maio daquele mesmo ano.
Há explicações para essa hipótese. E também para o fato de a data correta ter permanecido desconhecida por tanto tempo. É um enredo com nuances que envolvem sigilo estatal, liturgia católica e guerras napoleônicas.
👉 Então vamos ponto a ponto. Hoje é sabido que os portugueses aportaram à costa brasileira em 22 de abril de 1500 por causa de um documento que se tornou praticamente a certidão de nascimento do Brasil: a carta escrita por Pero Vaz de Caminha (1450-1500), integrante da comitiva de Pedro Álvares Cabral (1467-1520), para comunicar ao rei lusitano dom Manuel 1º (1469-1521) o “achamento” de novas terras.
Isto fica claro a partir de trechos da carta. Caminha diz que “na terça-feira […], que foram 21 dias de abril, […] topamos alguns sinais de terra”. No outro dia, “quarta-feira seguinte, pela manhã topamos aves a que chamam furabuchos” e “neste dia, a horas de véspera, houvemos vista de terra!”. Era o 22 de abril do descobrimento. “Primeiramente dum grande monte, mui alto e redondo; e doutras serras mais baixas ao sul dele; e de terra chã, com grandes arvoredos: ao monte alto o capitão pôs nome — o Monte Pascoal. E åa terra — a Terra de Vera Cruz”, descreve ele.
Segundo o relato de Caminha, no dia seguinte houve o desembarque. “E à quinta-feira, pela manhã, fizemos vela seguimos direitos à terra”, conta.
Ou seja: pelo relato do escrivão oficial da empreitada, os navegantes avistaram sinais de terra no dia 21, tiveram a certeza de estarem próximos a um território no dia 22 e desembarcaram no dia 23.
A carta de Pero Vaz de Caminha foi escrita relatando os acontecimentos da viagem de forma cronológica, a partir do dia 9 de março daquele ano até o dia 2 de maio. “[Foi] escrita entre os dias 26 de abril e 1º de maio de 1500” e teve [como objetivo informar ao rei de Portugal, dom Manuel 1º, o descobrimento e apresentar-lhe o que aí se encontrou”, explica o livro "Cronistas do Descobrimento", organizado pelo jornalista Antonio Carlos Olivieri e pelo historiador Marco Antonio Villa.
Considerando este documento, não era para restar dúvida: oficialmente poderia se considerar o tal “descobrimento” como tendo ocorrido em qualquer uma das três datas consecutivas, 21, 22 ou 23 de abril.
Isto parece óbvio, se a carta tivesse sido publicizada na época. No entanto, a monarquia lusa determinou sigilo.
“A escrita da carta de Pero Vaz de Caminha foi concluída em 2 de maio de 1500, sendo o primeiro registro oficial português sobre o encontro do território do atual Brasil”, contextualiza à BBC News Brasil o historiador André Figueiredo Rodrigues, professor na Universidade Estadual Paulista (Unesp).
Pintura de Francisco Aurélio de Figueiredo e Melo feita em 1900 ilustra Pero Vaz de Caminha lendo sua carta a Pedro Alvares Cabral
Domínio Público
Endereçada ao rei, a carta foi enviada a Portugal pelo navegador Gaspar de Lemos, “em navio separado da esquadra de Pedro Álvares Cabra”, pontua Rodrigues, “que se dirigia para as índias, a fim de cumprir sua missão inicial e consolidar uma rota marítima ao Oriente, contornando a África”.
Ao chegar a Portugal, o documento ficou guardado nos arquivos da Secretaria de Estado, pois o rei dom Manuel o classificou como secreto, mandando que o documento não fosse divulgado para evitar que o encontro do Brasil fosse transmitido aos espanhóis, para evitar possíveis invasões e conquistas de terras no território que lhe cabia pelo Tratado de Tordesilhas.
Da Secretaria de Estado, a carta acabou sendo encaminhada ao Arquivo Nacional, instalado na Torre do Tombo do castelo de Lisboa. “O silêncio atribuído ao documento o fez ser esquecido nos emaranhados papéis constantes naqueles dois órgãos portugueses”, acrescenta Rodrigues.
➡️ Vale ressaltar que, naqueles séculos de Brasil colônia, não havia nenhuma preocupação em referendar uma data oficial, já que o propósito não era criar símbolos nacionais ou mesmo a ideia da criação de uma nação deste lado do Atlântico. O território brasileiro era apenas um adendo, um anexo, uma fonte de matérias-primas e riquezas para a a metrópole portuguesa.
Sobre o escrivão Pero Vaz de Caminha, pouco se sabe. Ele teria nascido no Porto, onde chegou a ocupar o posto de vereador, alguns anos antes de integrar a esquadra de Cabral. Em 1476, herdou do pai o cargo de mestre da balança da Casa da Moeda, um cargo de responsabilidade que seria como escrivão e tesoureiro oficial.
Fé na Santa Cruz
Se o sigilo estatal explica o desconhecimento público da data, é preciso explicar por que outra acabou sendo aquela entendida como o dia do descobrimento: 3 de maio.
Sabia-se que Cabral havia chamado o território de Ilha de Vera Cruz e, depois, de Terra de Santa Cruz. Ora, a interpretação foi religiosa. No calendário litúrgico da época, a comemoração da Santa Cruz era em 3 de maio — a data foi transferida para 14 de setembro depois do Concílio Vaticano 2º, ocorrido entre 1962 e 1965.
“Há um grande consenso entre os historiadores e muitos colocam isso como fato de que o nome de Vera Cruz estava associado a uma data religiosa, 3 de maio”, diz à BBC News Brasil o historiador Victor Missiato, pesquisador na Unesp e professor no Colégio Presbiteriano Mackenzie Tamboré. “Durante muito tempo o 3 de maio representou a chegada dos portugueses ao Brasil.”
Fac-símile de página da carta
Domínio Público
Rodrigues explica que a origem dessa interpretação remete ao historiador português Gaspar Correia (1492-1561) que, ao narrar o descobrimento do Brasil, “chegou a essa conclusão devido aos nomes dados às novas terras, que foram batizadas como Ilha de Vera Cruz, em 1500, Terra de Vera Cruz, em 1503, Terra de Santa Cruz, também em 1503 e Terra de Santa Cruz do Brasil, em 1505, possivelmente em homenagem ao Dia de Santa Cruz, então celebrado em 3 de maio”.
Devido a essa associação entre o território recém-encontrado e os nomes que reportavam à celebração da Santa Cruz, passou-se a acreditar ter sido nesse dia a chegada de Cabral ao futuro território denominado Brasil.
A carta de Caminha permanecia preservada na Torre do Tombo. Preservada e praticamente incógnita. “Estava arquivada ali junto à Coroa Portuguesa mas, de fato, não se dava muita atenção a ela, permanecia sem grandes estudos e referências”, diz å BBC News Brasil o sociólogo Paulo Niccoli Ramirez, professor na Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo (FESPSP) e da Escola Superior de Propaganda e Marketing (ESPM).
Mas, conforme pontua Rodrigues, algum diretor do arquivo português determinou que fosse feita uma cópia, entendendo o seu valor. Sua ideia era preservar o conteúdo, fazendo uma espécie de backup.
Mesmo relegada à uma certa insignificância, a carta tinha sua existência sabida — apenas não era valorizada e utilizada como ponto de pesquisa. “Era conhecida desde sempre”, enfatiza à BBC News Brasil o historiador Paulo Henrique Martinez, professor na Unesp.
A biblioteca de dom João
Avancemos para o início do século 19. No episódio que ficaria conhecido como a fuga da corte portuguesa da invasão das tropas napoleônicas, dom João 6º (1767-1826) transferiu a corte para o Rio de Janeiro. Mas não veio apenas ele e aqueles que lhe eram próximos. Trouxe também todo o aparato estatal e uma riquíssima biblioteca.
Conforme frisa Rodrigues, veio “Trazendo consigo a biblioteca real, livros e vários documentos”. Entre eles, a tal cópia “da dita carta, entre os documentos trasladados”.
“O documento original permaneceu em Portugal e até hoje está no arquivo da Torre do Tombo, que é o Arquivo Nacional de Portugal”, conta o historiador. “Já a cópia que foi trazida para o Brasil foi parar no acervo do Arquivo da Marinha Real, no Rio de Janeiro.”
“Esses documentos chegaram ao Brasil e começaram a ser estudados, de forma que nove anos depois da chegada da família real descobriu-se de fato a existência da carta, alterando aí a data de origem da descoberta do Brasil”, diz Ramirez.
Isto porque este material caiu no colo de um sacerdote católico que também atuava como geógrafo e historiador, o padre Manuel Aires de Casal (1754-1821). “Ele teve acesso [à missiva] e tornou público seu conteúdo em 1817”, resume Rodrigues.
Capa do livro de Aires de Casal, publicado em 1817
Domínio Público
"O padre fez isso no livro Corografia Brazilica". Corografia significa “descrição particular de uma nação ou de uma área geográfica” e esta foi a primeira obra do tipo impressa no território brasileiro.
Até a divulgação da carta pelo padre Aires de Casal, a data do 22 de abril como sendo a da ‘descoberta’ oficial do Brasil pelos portugueses era desconhecida.
Para Martinez, o episódio simbolizou a “convocação de um documento que comprovasse uma determinada posição de Portugal na história europeia e na história da colonização”. E isso era extremamente importante naquele início de século 19, em que o antigo poderio português havia sido bastante reduzido frente à potência inglesa e à aliança entre França e Espanha.
Missiato observa que é interessante notar “o fato de esse documento estar vinculado à monarquia portuguesa e nunca ter sido utilizado [antes], até em termos de reconhecimento da história”. “[A carta] não tinha uma validade histórica tão importante para Portugal e acabou ganhando importância no Brasil quando foi relida a partir de uma nova releitura da história”, analisa ele.
Sobre o padre Aires de Casal, poucas informações biográficas são conhecidas. Ele provavelmente nasceu em Portugal — embora alguns historiadores afirmem que ele tenha nascido na Bahia — e acabou vindo à colônia para exercer as funções sacerdotais. Atuou na então província do Ceará e, quando a família real se transferiu para o Rio, aproximou-se da corte com o objetivo de esmiuçar os arquivos como pesquisador.
“Eu diria que a importância histórica dele se deve mais à eficiência do trabalho, o fato de ter elaborador a ‘Corografia’, do que a qualquer outra atividade que ele tivesse realizado anteriormente”, avalia Martinez.
Essa proximidade com a corte o habilitou a retornar à Portugal juntamente com a comitiva de dom João 6º, em 1821.
Os lugares que marcaram o encontro entre povos originários e colonizadores portugueses
Criação de uma identidade nacional
A nova data, o 22 de abril de 1500, acabaria sendo reforçada após a Independência, a partir de 1822, porque então passou a ser visto como necessária a criação de uma identidade nacional.
“O documento foi recuperado dentro de um espírito de valorização política da monarquia portuguesa no contexto pós-napoleônico, com o mundo reorganizado, a partir de 1815, lançando Portugal e outras pequenas nações a uma posição muito vulnerável e secundária diante de uma ordem internacional da Europa polarizada de um lado pela Inglaterra e, de outro, pela aliança entre França e Espanha”, argumenta Martinez.
“A publicação da carta de Caminha tem essa motivação: enfrentar o medo e a incerteza das pequenas nações diante do novo cenário de relações de poder que estava se desenhando na Europa pós-napoleônica”, conclui.
Era uma maneira de fincar os pés no cenário internacional, ressaltando a relevância de Portugal na vida política.
Missiato ressalta que a obra de Aires de Casal, por exemplo, acabou sendo base de diversos estudos do século 19, já que “marcou o início de uma historiografia brasileiro no período”. “Isto foi relevante em um país que ainda não tinha tradição nessa produção”, comenta.
“Por fim, esse documento passou a ser representado dentro de um conjunto de documentos oficiais importantes por conta da tentativa de formar uma origem nacional para o Brasil, de criar uma continuidade, um passado histórico, um sentimento de descoberta”, explica Missiato. “Tudo isso é passado pela monarquia do século 19.”
A valorização da descoberta da chegada dos portugueses à América e o estabelecimento da colonização, o registro afetivo e devocional e de lealdade à monarquia que estão contidos no texto da carta de Caminha reforçam essa intenção tão necessária no início do século 19: a de criar uma identidade nacional, um patriotismo em Portugal alimentado pela obra de colonização.
Essa valorização no cenário internacional era alimentada por idealizações e simbolismos e, como diz o historiador, “a criação de um um mundo, um imaginário, uma identidade baseada em valores simbólicos, morais e políticos”.
Além disso, a mudança da data pode ser vista como um lembrete de que, para a história, nenhum conhecimento deve ser encarado como definitivo.
“Na historiografia se diz que o passado não é estático, está sempre em movimento, é sempre reinterpretado. De modo que o passado é sempre uma interpretação feita a partir do presente, e eventualmente podem ser que surjam outros documentos para explicá-lo”, explica Ramirez.
VÍDEO: Réplica de navio mostra como eram as embarcações dos portugueses que chegaram ao Brasil

Pé-de-Meia: Lula diz que governo vai estender programa a inscritos no CadÚnico e incluir mais 1,2 milhão de beneficiários

Previsão anterior contemplava apenas beneficiários do Bolsa Família, segundo Lula. Aumento prevê aporte de R$ 3 bilhões ao ano na iniciativa. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) anunciou nesta segunda-feira (22) que decidiu modificar a "linha de corte" do programa Pé-de-Meia para incluir mais 1,2 milhão de estudantes na iniciativa.
Lula explicou que o governo estenderá o pagamento a alunos que integram famílias inscritas no Cadastro Único (CadÚnico) dos programas sociais do governo.
Antes, conforme o presidente, a linha de corte estava nas famílias que recebem Bolsa Família – o universo de inscritos no CadÚnico é maior do que o de inscritos no Bolsa Família.
Segundo o ministro da Fazenda, Fernando Haddad, o aumento no número de beneficiários do programa prevê aporte de R$ 3 bilhões ao ano.
"Quando nós anunciamos o Pé de Meia, a linha de corte era o cadastro do Bolsa Família. Ficou de fora o cadastro do Cad [Único, cadastro dos programas sociais do governo federal]. Nós resolvemos aumentar e colocar a linha de corte no cadastro do Cad e vai entrar, parece, que mais 1,2 milhão meninos e meninas no Pé-de-Meia", disse Lula.
Pé-de-meia: governo divulga valores de bolsa para alunos do ensino médio
O Pé-de-Meia é um programa do governo federal que, por meio do Ministério da Educação, fornece incentivo financeiro para estudantes de baixa renda regularmente matriculados no ensino médio da rede pública, como forma de combater a evasão escolar.
A mudança, segundo Lula, consta na medida provisória assinada nesta segunda para criar o programa Acredita. A nova ação prevê, entre outros pontos, renegociação de dívidas de microempreendedores individuais (MEIs), micro e pequenas empresas, o "Desenrola Para Pequenos Negócios".
O Pé-de-Meia contempla alunos dos 14 aos 24 anos. À época da regulamentação do programa, o MEC informou que a prioridade para receber o benefício era dos estudantes que integram famílias que recebem o Bolsa Família.
Os valores são repassados da seguinte forma:
incentivo para matrícula, no valor anual de R$ 200;
incentivo de frequência, no valor anual de R$ 1.800;
incentivo para conclusão do ano, no valor anual de R$ 1.000;
incentivo para o Enem, em parcela única de R$ 200.

Problemas no Fies: candidatos relatam atrasos na lista de espera e aprovações ‘duplas’; MEC diz a alunos que vai manter prazos

Resposta do Ministério da Educação foi enviada diretamente aos estudantes e obtida pelo g1. Alunos afirmam que estão desesperados e ansiosos diante da possibilidade de não serem selecionados até 30 de abril, quando o processo seletivo termina. Estudantes relatam problemas no processo seletivo do Fies
Candidatos que se inscreveram no Fundo de Financiamento Estudantil (Fies) do 1º semestre de 2024 afirmam que erros do Ministério da Educação (MEC) no processo seletivo estão atrapalhando a convocação de novos alunos na lista de espera.
Os estudantes — que disputam mais de 67 mil vagas para fechar contratos de empréstimo e pagar a graduação — relatam falhas técnicas, demora excessiva na fila de espera e outros problemas que, na visão deles, exigiriam uma ampliação do prazo de inscrições.
Ainda assim, a pasta afirmou a esse grupo, por e-mail, que não mudará as datas do programa. Até a mais recente atualização desta reportagem, o MEC não havia respondido às perguntas enviadas pelo g1.
Em resumo, as queixas do estudantes são as seguintes:
💻O sistema eletrônico pelo qual os estudantes enviam os documentos na matrícula tem problemas técnicos desde o início do processo, atrasando todas as etapas seguintes;
📋As listas de espera não estão "rodando" no ritmo esperado, por isso, milhares de alunos que não foram aprovados na 1ª chamada aguardam a convocação;
📝A mesma pessoa está sendo aprovada em mais de uma opção de curso (algo vetado pelo edital do Fies);
🗓️ O prazo final do Fies termina em 30 de abril e, mesmo com as falhas relatadas acima, a pasta afirma que "não vislumbra possibilidades de prorrogação”.
Além disso:
O edital do Fies 2024 foi publicado apenas em 7 de março, quase dois meses após a divulgação dos resultados do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) — em 2023, o documento saiu em 27 de janeiro, antes das notas da prova.
As inscrições do Fies terminaram em 18 de março, após algumas universidades já terem iniciado o ano letivo. Isso fez com que os aprovados, que ainda teriam todo o trâmite da pré-aprovação e da matrícula, perdessem as primeiras semanas de aula.
Abaixo, entenda os detalhes dos problemas:
💻Problema 1: sistema de entrega de documentos com falhas
🔴Os alunos que foram pré-selecionados na 1ª chamada (divulgada em 28 de março) tinham de enviar, como é de praxe, uma série de documentos para a universidade. O sistema eletrônico usado pelas instituições de ensino, no entanto, apresentou problemas técnicos e atrasou esse processo.
Por isso, o MEC aumentou o prazo para a etapa de conferência de dados pessoais. Segundo relatos enviados à reportagem, mesmo assim, as falhas não foram corrigidas e continuam atrasando as matrículas.
"O sistema de acesso das faculdades oscilou muito, falhou e comprometeu os prazos. Foi uma correria gigante [desde o início]", explica Rogério*, coordenador de bolsas e financiamento de uma instituição de ensino privada.
"É comum termos intercorrências no Fies, mas, neste ano, foram muitas mudanças [nas regras do programa] em pouco de espaço de tempo. É como trocar o pneu com o carro andando", diz.
📋Problema 2: a lista de espera não está 'rodando'
Acontece, então, um efeito cascata:
🔴Quando um candidato que passou na 1ª chamada não efetiva a matrícula ou não entrega os documentos a tempo, a vaga é transferida para a lista de espera (todos os reprovados disputam essa segunda chance). Em geral, a lista "roda" várias vezes, e novos alunos vão sendo convocados. O período para essa "repescagem", segundo o edital, vai de 28 de março a 30 de abril.
🔴No entanto, jovens ouvidos pelo g1 afirmam que a lista de espera não está "rodando" como em anos anteriores. A primeira saiu em 28 de março, como era previsto, mas a segunda só foi divulgada em 18 de abril. Desde então, afirmam os estudantes, nenhum outro nome foi convocado.
🔴Provavelmente, o que explica essa lentidão é justamente o problema no sistema de entrega dos documentos.
Forma-se um ciclo: os candidatos pré-selecionados não conseguem completar a matrícula -> o MEC prorroga o prazo para esses alunos entregarem os documentos –> as vagas ficam "represadas" e não são liberadas para as listas de espera.
"Durante os 20 dias em que a lista não 'rodou', tive crises de ansiedade constantes, e não consegui ser produtiva nem no trabalho, nem nos estudos", conta Alice Rêgo, de 20 anos, de Xinguara (PA).
Ela busca uma vaga em medicina. "Acho que o pessoal do MEC não tem noção do quão difícil é, porque isso mexe com um sonho gigante. Tento vestibular há 5 anos, e o Fies é minha esperança de realizar isso. Estão acabando com a minha saúde mental."
Maria Eduarda Souza, de 24 anos, também está aflita com a lentidão das listas de espera.
"Estou arrasada, porque só tem uma pessoa na minha frente [na 'fila']. Conversei com alguns alunos que foram convocados para essa mesma faculdade [em Maceió] e que não se matricularam, mas as vagas deles não foram disponibilizadas para mais ninguém depois", conta.
🔴Diante do problema nos mecanismos de matrícula, instituições de ensino estão com vagas do Fies ociosas: nem são ocupadas pelos convocados na 1ª chamada, nem vão para a lista de espera.
"Se continuar dessa forma, muitas vagas não serão preenchidas e muitos vão perder a oportunidade de estudar e conseguir concretizar um direito fundamental e garantido pela Constituição Federal de 1988", escreveram candidatos em um e-mail enviado ao MEC. "Precisamos ter uma prorrogação no prazo final para divulgação das listas de espera."
A pasta respondeu aos estudantes, em mensagem obtida pelo g1, que “não vislumbra possibilidades de prorrogação”.
Jhessyka Neves, de 33 anos, afirma que ficou desnorteada com esse retorno.
"A gente fica aguardando, paga cursinho, não sabe se vai pra frente ou pra trás, e a lista não roda. Estou vendo pelo site que tem vaga ociosa, que não tá sendo preenchida", conta a candidata a medicina.
📝Problema 3: aprovação dupla de um mesmo candidato
Na segunda lista de espera divulgada pelo MEC, há elementos que não respeitam determinadas regras do programa.
O Fies permite que cada candidato se inscreva em até 3 opções (A, B e C) de curso/faculdade, em ordem de preferência. Se, na 1ª chamada, a pessoa for convocada para a alternativa C, por exemplo, não terá o direito a concorrer na lista de espera para a A ou a B.
➡️Resumindo: passou em alguma das suas opções de graduação? Você pode se matricular nela ou abrir mão do Fies neste semestre. Não há chance de disputar a "repescagem" nas suas outras alternativas.
Essa regra existe justamente para dar mais chance a todos os alunos que disputam o financiamento. No entanto, o sistema falhou: há registros de candidatos que já tinham sido aprovados na primeira chamada e que, ainda assim, foram selecionados novamente na lista de espera.
É o caso de Marina*, que passou "direto" em uma vaga de medicina pelo Fies, mas não quis se matricular e, por isso, nem entregou os documentos para o financiamento.
Automaticamente, ela já deveria ter sido excluída do processo seletivo. Só que… seu nome apareceu novamente na lista de espera do Fies, em outra opção de graduação. Ou seja: foi aprovada duas vezes.
"Quando vi o e-mail com essa segunda convocação, fiquei preocupada e nervosa, porque sabia de um monte de gente que precisava da vaga e que estava apreensiva. Confrontei a faculdade, já que isso não poderia ter acontecido pelas regras do Fies. Confirmaram que meu nome estava entre os selecionados [de novo]. Enquanto isso, outras pessoas estão tentando se matricular", conta ao g1.
* A pedido dos entrevistados, os nomes verdadeiros foram trocados por fictícios.
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Estudantes relatam problemas no processo seletivo do Fies