Dia dos Povos Indígenas: valorizar professores é desafio para educação bilíngue e intercultural nas aldeias

Sem esforço, não há genialidade: a criatividade se treina
Apesar de ser um direito garantido na Constituição Federal, a educação escolar indígena sofre com a formação docente e a falta de estrutura adequada. Crianças na Escola Indígena Sakruiwe, localizada em território Xerente
Márcio Vieira/Governo do Tocantins
Embora o direito dos povos indígenas à educação escolar seja garantido pela Constituição Federal de 1988, ainda hoje existe uma diversidade de desafios para assegurá-lo na prática, afirmam especialistas nesta sexta-feira (19), quando é celebrado o Dia dos Povos Indígenas. Um dos problemas que preocupam é a falta de valorização de professores indígenas.
👉🏾 De acordo com a Lei de Diretrizes e Bases da Educação (LDB), de 1996, a educação escolar indígena deve ser bilíngue e intercultural para que haja a recuperação e a valorização da memória histórica dos povos indígenas, de suas línguas e ciências, e a reafirmação das identidades étnicas, além do acesso a informações e conhecimentos não indígenas.
Os povos indígenas são, de maneira geral, educadores dentro de sua comunidade. Mas, quando olhamos para o aspecto da educação escolar, existe um abismo nas políticas públicas que os deixa à margem do cenário educacional do país.
O que é a educação escolar indígena
A educação escolar indígena nada mais é do que a institucionalização dos saberes sociais e coletivos dos povos originários somada a uma versão adaptada da educação formal não indígena.
“Não se trata de tentar eurocentrizar a educação de estudantes indígenas, levando-os para as escolas, mas de incluí-los e compartilhar com eles saberes da sociedade não indígena, ainda respeitando a individualidade de cada povo e garantindo a sobrevivência de seu modo de vida”, explica Helenice Ricardo.
Para Gersem Baniwa, doutor em antropologia pela Universidade de Brasília (UnB) e membro do povo Baniwa, do Amazonas, garantir a educação escolar indígena nos moldes previstos na Constituição e na LDB é fundamental para dar aos povos indígenas protagonismo em suas formações.
Existem escolas em territórios indígenas desde o século 16. O que precisamos é que essas escolas tenham professores indígenas, gestores indígenas, que consigam formar e liderar os estudantes indígenas.
Segundo o especialista, que dá aulas no Departamento de Antrolpologia da UnB, permitir aos jovens indígenas a oportunidade de serem educados em suas línguas maternas, por professores integrantes de povos indígenas — enquanto aprendem sobre temas da realidade indígena, mas também sobre assuntos externos a eles — pode ajudá-los a compreender diferentes realidades a partir das próprias.
Escola indígena em Rondônia
Governo de Rondônia/Divulgação
Formação de professores indígenas
Um ponto importante para a garantia da aplicação da educação escolar indígena é a formação de professores indígenas com licenciatura, pedagogia ou magistério, capacitados para ensinar estudantes de educação básica.
Hoje, já existem licenciaturas interculturais que passsaram a ser ofertadas graças à pressão de movimentos dos povos originários. Esses movimentos acompanharam o aumento da escolarização indígena no século 20 e exigiram o direito a uma educação especializada, ministrada por seus pares.
📚 A ideia desses cursos é que os estudantes indígenas concluam o ensino médio em suas próprias comunidades e tenham a oportunidade de virarem professores licenciados para ensinar as próximas turmas de jovens indígenas.
Cursos como esses são financiados por um fundo específico do Ministério da Educação, o Programa de Apoio à Formação Superior e Licenciaturas Indígenas (Prolind). Segundo o MEC, em 2023, o repasse de verbas para o programa foi de R$ 8,6 milhões.
Uma das licenciaturas que integran o Prolind é dada pelo Departamento de Educação Escolar Indígena da UFAM, que é ofertada desde 2008 e já formou 370 professores indígenas, segundo Helenice Ricardo.
Começamos com uma demanda do Povo Mura e depois atendemos mais sete turmas. Passamos pelos Sateré-Mawé, Munduruku e, a partir de 2011, começamos a atender territórios etnoeducacionais com múltiplos povos.
Em 2024, pela primeira vez, uma turma de licenciatura intercultural está se especializando diretamente da sede da UFAM, em Manaus. Antes, as formações aconteciam em pólos da universidade, no interior do estado.
"Essa é uma conquista importante não só para os indígenas em formação, que estão ocupando um espaço que lhes pertence, mas também para os demais estudantes não indígenas, que vão aprender de maneira prática que quanto mais múltiplo e diverso é o ambiente universitário, mais saudável ele é", avalia Helenice.
📆 Na UFAM, a licenciatura para professores indígenas dura 4 anos e meio e começa com uma formação geral básica. No terceiro ano do curso, a turma é dividida em três áreas (linguagens, ciências da natureza e ciências humanas e sociais), e volta a ser unificada no final da formação.
Segundo Helenice, que integra o departamento responsável pelo curso, essa estrutura está longe do ideal de uma formação bem direcionada, mas explica que, muitas das vezes, um daqueles professores pode ser o único a lecionar o ensino médio em sua aldeia, então, precisa saber um pouco sobre cada área.
Vácuos da educação indígena
E é isso mesmo que acontece. De acordo com levantamento da ONG Todos Pela Educação obtido com exclusividade pelo g1, em 2023, cada escola indígena de educação infantil tinha menos de dois professores.
O levantamento revela que houve aumento no número de escolas, mas queda na média de professores por instituição em comparação a 2021.
2021: 2.035 escolas indígenas de educação infantil, e 4.301 professores atuando nessas instituições.
2023: 2.257 escolas, e 3.869 professores atuantes.
Essas mesmas escolas também sofriam com falta de fornecimento de energia elétrica e de material pedagógico infantil e indígena, além de problemas estruturais em 2023.
Imagina sair de sua comunidade, de sua região, para estudar e se especializar, e voltar para trabalhar em um local despreparado, impróprio para suprir as necessidades. São meses fora de casa para estudar, recebendo nenhum ou quase nenhum auxílio financeiro, apenas para testemunhar o descaso das redes de ensino.
Outros problemas enfrentados pelos professores indígenas são a desvalorização salarial e profissional, e o cenário de incerteza no trabalho, segundo o antropólogo.
"Muitos professores que trabalham em escolas indígenas rurais têm contratos temporários, não tem vínculo empregatício com as redes de ensino e acabam trabalhando por baixos salários, correndo o risco de serem demitidos na primeira oportunidade", explica.
Segundo o especialista, diante deste cenário, muitos profissionais formados optam por não trabalhar como professores ou escolhem fazer concursos em zonas urbanas em busca de estabilidade profissional.
‘Temos que decolonizar a educação'
Gersem Baniwa acredita que garantir a valorização dos professores indígenas é um passo importante para que a educação escolar indígena aconteça da maneira descrita em lei. E ele defende que nem só os povos originários se beneficiariam disso.
"Quem foi educado nos moldes da educação tradional tem dificuldade de entender que educação não é uma experiência única, composta dos mesmos elementos. Mas é algo fluido que muda e precisa mudar a partir da realidade de cada um. E isso que é a educação indígena, uma forma de educar adequada aos povos indígenas, mas tão válida e correta quando o ensino formal das cidades", diz.
Helenice Ricardo concorda que a partir do exemplo da educação indígena, as escolas brasileiras não indígenas podem aprender muito.
Podemos aproveitar essa experiência para criar novas epistemologias e metodologias para nossa educação como um todo, aceitando e permitindo as influências do povo brasileiro, dos afrodescendentes e dos indígenas, oferecendo, assim, uma educação decolonial, diferente do que fazemos há séculos.
Para ela, essa é a única forma de expandir a educação de uma maneira inclusiva e mais parecida com a diversidade brasileira.
VÍDEOS E PODCAST DE EDUCAÇÃO

Sem paralisar aulas, professores da UFRJ protestam por melhores condições de trabalho

Sem esforço, não há genialidade: a criatividade se treina
Docentes apoiam reivindicações, mas tentam diálogo para evitar a greve que atinge mais de 50 universidades federais. O grupo se reuniu na entrada do prédio do Ministério da Fazenda, no Centro do Rio, nesta sexta-feira (19). Com o lema “Eu amo a UFRJ”, o ato cobra por reajuste de salários e investimento em bolsas de pesquisas. Professores da UFRJ protestam por melhores condições de trabalho para evitar greve na instituição
Reprodução
Professores da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) realizaram um protesto nesta sexta-feira (19), em frente ao prédio do Ministério da Fazenda, no Centro do Rio de Janeiro. No local, os docentes se manifestaram por melhores condições de trabalho, como reajustes salariais e maior investimento em bolsas de pesquisa na instituição federal.
Na última quinta-feira (18), 52 universidades e de 79 institutos federais entraram em greve. Além dessas instituições, 14 campus do Colégio Pedro II também anunciaram adesão ao movimento grevista.
Greve nas universidades e institutos federais deixa alunos sob a incerteza de impactos na rotina e nos planos
Com o lema “Eu amo a UFRJ”, os professores esperam que a mobilização do grupo possa sensibilizar os gestores da educação no país. Eles acreditam que uma resposta positiva do Governo Federal possa evitar a paralisação das atividades na UFRJ.
"Vivemos uma redução contínua do orçamento e o resultado é visível nos corredores, salas, laboratórios, bibliotecas e museus da UFRJ. Mesmo assim seguimos produzindo conhecimento, gerando inovações e servindo com excelência à sociedade brasileira. Queremos condições dignas para seguir nessa trajetória", cobrou Mayra Goulart, presidente da Adufrj, a Associação de Docentes da UFRJ.
Servidores da educação de mais de 40 universidades e institutos federais estão em greve
A manifestação contou com a participação de cientistas, pesquisadores, estudantes e até do reitor da universidade Roberto Medronho, que estendeu as cobranças também ao Ministério da Educação.
"A missão da UFRJ é produzir conhecimento, mas sobretudo conhecimento que seja fundamental para a vida de quem mais precisa, das comunidades carentes nas regiões metropolitanas e nos rincões do nosso país. E não existe produção de conhecimento sem investimento".
"Nossa luta aqui não é apenas por mais repasses. Isto é o mais urgente, para a universidade não parar. Mas nossa luta é por mais investimentos também na educação do nosso país", comentou Medronho.
Para Tatiana Roque, professora do Instituto de Matemática, sem os repasses do governo, os alunos mais humildes serão os mais afetados.
"Com a redução dos repasses a gente não vai conseguir manter estes alunos. A gente precisa de assistência estudantil, de bandejão, de alojamento, sob o risco de perder estes alunos. Não podemos permitir este retrocesso. Educação não é gasto. É investimento", disse Tatiana Roque.

Governo propõe reajuste maior em 2025 para tentar encerrar greve nas universidades federais e institutos

Sem esforço, não há genialidade: a criatividade se treina
Nova rodada de negociações termina com Ministério da Gestão e Inovação em Serviços Públicos reafirmando que não há margem no orçamento para reajuste ainda em 2024. Registros da 4a. Reunião da Mesa Específica e Temporária com o MGI, com representação da entidades dos Técnico-Administrativos da Educação, FASUBRA e SINASEFE.
Divulgação/FASUBRA
Na tentativa de pôr fim à greve que atinge mais de 50 universidades e 79 institutos federais no país, o governo federal apresentou nesta sexta-feira (19) uma nova proposta com um reajuste maior para professores e técnicos administrativos.
De acordo com o secretário de Relações de Trabalho José Lopez Feijóo, o ministério se compromete com a concessão de 9% de aumento em janeiro de 2025 e mais 3,5% em maio de 2026.
Na primeira oferta do governo, o reajuste seria de 9% de aumento, sendo 4,5% em 2025 e 4,5% em 2026. Para este ano, não havia previsão de aumento.
A nova proposta prevê 9% em janeiro de 2025 e mais 3,5% em maio de 2026, totalizando 12,5%. Não há também previsão de aumento para 2024.
"Em relação à proposta que apresentamos na reunião anterior, praticamente dobramos a proposta, inclusive do ponto de vista de impacto orçamentário", afirma o secretário.
Na visão de Feijó, a proposta para os docentes foi bem recebida, não houve acordo para o fim da greve, mas o governo entende que a negociação evoluiu positivamente.
Para os docentes, a reestruturação de carreira foi um assunto com menos força do que a mesa dos técnicos em educação, no caso dos docentes são demandas para alterar algumas portarias.
"Nós atendemos a um pleito muito antigo da categoria, que é a luta pela reestruturação da carreira. Nesta reivindicação, eles tinham 12 pontos, dos quais nove nós atendemos. O que significa um ganho efetivo salarial e uma rapidez na ascensão na carreira. Servidores e servidoras que antes para chegar ao topo da carreira precisariam de 22 anos e meio, agora poderão chegar ao topo em 18 anos, uma redução de quatro anos e meio, o que significa um importante ganho de remuneração", afirma Feijóo.
A Federação de Sindicatos de Trabalhadores Técnico-administrativos em Educação das Instituições de Ensino Superior Públicas do Brasil (FASUBRA) e Sindicato Nacional dos Servidores Federais da Educação Básica, Profissional e Tecnológica (SINASEFE) disseram que a proposta apresentada pelo governo é insuficiente e a greve continua.
Sem espaço fiscal em 2024
O secretário-executivo-adjunto do Ministério da Educação (MEC), Gregório Grisa, argumentou não haver espaço fiscal neste ano para reajuste salarial, apenas para os auxílios alimentação, saúde e creche.
Para compensar, o governo, em outro aceno aos grevistas, decidiu contemplar aposentados e pensionistas no reajuste desses benefícios, o que não estava previsto inicialmente. O texto que o governo colocou na mesa reajusta já a partir de maio deste ano:
o auxílio alimentação de R$ 658 para R$ 1 mil
a assistência à saúde complementar per capita média (auxílio saúde) de R$ 144 para R$ 215
a assistência pré-escolar (auxílio creche) de R$ 321 para R$ 484,90
Histórico da greve
O movimento de paralisação começou em março, mas ganhou fôlego nesta semana, quando as tentativas de negociação com o governo federal para reajustar salários e aumentar o orçamento da educação não trouxeram os resultados esperados pelos grevistas.
Os níveis de adesão ao movimento grevista são diferentes em cada instituição de ensino — nem sempre todos os setores das universidades e dos institutos estão paralisados. Em algumas universidades, parte dos professores não aderiu à greve; em outras, só os técnicos interromperam as atividades.
🔴 Demandas dos grevistas
Além da recomposição salarial, professores e servidores das instituições reivindicam:
reestruturação das carreiras;
revogação de normas relacionadas à educação que foram aprovadas nos governos Temer (2016-2018) e Bolsonaro (2019-2022), como o novo ensino médio;
reforço no orçamento das instituições de ensino e reajuste imediato de auxílios estudantis.
🔴 Impacto para os estudantes
Professores do IFPI deflagram greve
Eric Souza/g1
Milhares de estudantes já avaliam quais serão os impactos da paralisação. Mesmo compreendendo as reivindicações dos funcionários, estudantes entrevistados pelo g1 relatam, em resumo, as seguintes preocupações:
perda de conteúdo pedagógico, especialmente entre quem cursa o ensino médio nos institutos federais e já carrega defasagens do período da pandemia;
"calendário corrido" depois do fim da greve, com reposição de aulas nas férias e excesso de matéria ensinada em um período curto após a normalização;
incerteza sobre a data da formatura, incluindo o risco de atrasar a inserção no mercado de trabalho formal;
demora maior em receber o diploma e possibilidade de ficar de fora dos processos seletivos para universidades no ano que vem, como Sisu e Prouni (caso de quem está cursando no ensino médio nos institutos federais);
ansiedade com gastos extras e problemas na alimentação, já que restaurantes/bandejões universitários, que oferecem pratos a menos de R$ 1, estão fechados em alguns locais;
prejuízo em projetos de pesquisa, porque há instituições que limitaram o funcionamento das bibliotecas ou interromperam as mentorias dos Trabalhos de Conclusão de Curso (TCC);
atraso na concessão de novos auxílios estudantis, devido à paralisação do setor administrativo;
risco de evasão dos alunos mais vulneráveis, caso a greve se estenda por muitos meses.
🔴 Quando aconteceram as últimas greves nas federais?
Segundo o Sindicato Nacional dos Docentes das Instituições de Ensino Superior (Andes), o histórico de greves em universidades e institutos federais nos últimos 20 anos foi o seguinte:
2005: 112 dias de paralisação pelo reajuste de salários (40 universidades aderiram);
2008: 112 dias de paralisação pela reivindicação de verba para o orçamento (39 universidades aderiram);
2012: 125 dias de paralisação pelo reajuste de salários e de planos de carreira (60 universidades aderiram);
2015: 139 dias de paralisação pelo reajuste de salários (39 universidades aderiram);
2016: 26 dias de paralisação para impedir a aprovação da emenda constitucional 95 (44 universidades aderiram).
Educação em greve: 48 universidades e 71 institutos federais aderiram à paralisação

Inteligência artificial para formular material das escolas públicas de SP: modernização ou risco de erros? Veja análise de especialistas

Sem esforço, não há genialidade: a criatividade se treina
Secretaria de Educação de São Paulo admite, após documento interno 'vazar', que existe projeto-piloto para usar plataformas digitais na revisão e na atualização de slides exibidos nas aulas. Entenda quais os benefícios e riscos envolvidos na estratégia. Ferramentas de inteligência artificial são avaliadas por governo de SP
Michal Jarmoluk/Pixabay
A Secretaria de Educação do Estado de São Paulo prevê usar uma plataforma de inteligência artificial (IA) para formular e atualizar os slides mostrados pelos docentes nas aulas do ensino fundamental II e do ensino médio.
➡️Segundo o órgão, é um “projeto-piloto” que não vai elaborar o conteúdo “do zero”: partirá do que já foi escrito por professores curriculistas (especialistas na formulação de materiais) para “inserir novas atividades, exemplos de aplicação prática do conhecimento e informações adicionais que enriqueçam as explicações de conceitos-chave de cada aula”.
❓Até a mais recente atualização desta reportagem, a Secretaria de Educação de São Paulo não havia confirmado qual será o tipo de ferramenta empregada – não sabemos, portanto, se o governo adotará uma plataforma formulada especificamente para o uso educativo ou se escolherá algo mais generalista, semelhante à versão 3.5 do ChatGPT. Nesta sexta-feira (19), o Ministério Público cobrou explicações do governo paulista e um maior detalhamento do projeto.
O g1 conversou com docentes da educação básica e do ensino superior, pesquisadores, autores de materiais didáticos e especialistas em tecnologia para debater:
quais os riscos de os materiais apresentarem erros ou limitarem a dinâmica das aulas;
de que forma os professores serão impactados pela mudança (terão mais trabalho ou economizarão tempo?);
que vantagens e desvantagens existem na adoção de IA na preparação dos slides;
quais cuidados são essenciais para que não haja prejuízo aos alunos.
Não é a primeira vez que o governo de São Paulo apresenta um projeto de uso da tecnologia na educação e gera discussão entre docentes e pesquisadores. Há oito meses, o governador Tarcísio de Freitas havia tentado abrir mão dos livros impressos e substituí-los somente por materiais didáticos digitais nas salas de aula – o plano foi cancelado após sofrer críticas de especialistas.
Antes de entender, mais abaixo, as possíveis consequências do uso de IA na formulação dos slides, veja o que já se sabe sobre o projeto do governo paulista:
A ferramenta adotada deve formular a primeira versão da “modernização da aula”, com cerca de 18 slides. Tomará como base os temas pré-definidos pela secretaria estadual e as referências passadas pelo órgão.
Um profissional contratado analisará esse conteúdo e fará as adaptações pedagógicas e correções necessárias.
Um time interno da secretaria fará uma revisão do material e poderá, se necessário, enviá-lo de volta para o profissional da etapa anterior.
Os recursos didáticos (como mapas e imagens) serão colocados nas apresentações.
As aulas serão validadas.
Cada profissional “revisor” terá dois dias úteis para entregar três aulas.
🔴Inovação ou atitude precipitada?
Beatriz Alqueres, gerente-executiva no Instituto Ayrton Senna, acredita que usar a ferramenta de inteligência artificial na revisão dos slides será “formalizar algo que já está acontecendo”.
“Todos nós já estamos usando o ChatGPT, por exemplo, para agilizar nossos trabalhos ou fazer pesquisas rápidas. A absorção disso é um ‘foguete’; muito orgânica e fácil. Pode parecer [um ponto de vista] romantizado, mas a IA tem um potencial enorme. Se vamos conseguir explorar adequadamente isso, aí já é incerto.”
Esta perspectiva de defender a “modernização” também é defendida por Lucas Rodrigues, mestre em data science pela Universidade de Paris e CEO do Clipping, startup de educação especializada em inteligência artificial.
“O governo, ao adotar essa medida, traz uma inovação e começa já a se preparar para o futuro que está vindo. E é uma linguagem que os próprios alunos também vão adotar”, diz.
Já Paulo Blikstein, professor de tecnologias da aprendizagem na Universidade Columbia (EUA), afirma que não seria o momento de implementar em sala de aula uma tecnologia considerada por ele tão incipiente.
“Não temos experimentos suficientes para saber da taxa de acerto dessas ferramentas. É muito temeroso e problemático usá-las na rede pública. É como ter uma técnica nova de cirurgia, que ainda não foi testada, e aplicá-la no SUS [Sistema Único de Saúde]”, diz.
“O governo está agindo de forma apressada, trazendo para alunos algo que precisaria ter sido testado amplamente na academia. Só está indo na onda de inovação tecnológica, colocando em risco a educação das crianças e jovens.”
Ele sugere que, antes de haver esse projeto em São Paulo, o governo participasse de um consórcio com pesquisadores de universidades estrangeiras, por exemplo, para elaborar testes mais precisos.
🔴Maior eficiência ou sobrecarga de trabalho dos professores?
Rodrigues, da área de data science, vê o uso das ferramentas digitais como uma forma de poupar tempo dos 90 professores curriculistas da rede paulista.
“Há um ganho de produtividade, porque, como vemos na proposta, [o conteúdo gerado pela IA] ainda vai passar por uma revisão humana. Uma pessoa que antes gastaria uma semana para escrever [ou atualizar] um conteúdo deve poder conseguir revisar em apenas um dia”, diz. “Isso vai universalizar mais o acesso à educação e dar uma escala maior ao aprendizado.”
Para Bernardo Soares, pesquisador em formação docente, educação e tecnologia, e autor de livros didáticos, o efeito pode ser exatamente o oposto: sobrecarregará tanto os professores que revisarão os materiais quanto aqueles que aplicarão os slides no dia a dia.
“Já é difícil revisar uma aula feita por outro professor; imagina só a feita por um computador. É o docente que sabe alinhar o conteúdo às necessidades do currículo paulista e da base curricular. Ele vai ter bem mais trabalho [para corrigir tudo]”, diz.
Blikstein, da Universidade Columbia, concorda que haverá uma sobrecarga dos docentes.
“Um material didático necessita de precisão de 100%. A gente sabe que tipos de erro os humanos costumam cometer, mas e os que a inteligência artificial cometem? São falhas mais difíceis de detectar. É obrigatório revisar os dados, as sequências, os detalhes, as informações. No mundo, já estão percebendo que, em muitos casos, essa revisão demora mais do que elaborar o material ‘manualmente’”, afirma o professor.
➡️A dinâmica de aprimoramento das ferramentas de inteligência artificial depende dos próprios usuários. Quanto mais a plataforma for usada, mais ela “aprende”.
Veja um exemplo abaixo:
O g1 pediu para o ChatGPT formular slides para alunos do 5º ano sobre funções trigonométricas. Em menos de um minuto, havia um esquema com o que deveria ser abordado em cada tela.
No entanto, em vez de chamar um dos elementos do triângulo de “cateto”, o sistema usou o termo “lado”:
Resposta do ChatGPT usa o termo "lado", em vez de "cateto" (que seria o mais correto).
Reprodução
Depois de corrigido, o “robozinho” admitiu que não havia escolhido a melhor palavra da primeira vez:
ChatGPT é "corrigido" pelo g1.
Reprodução
A partir de exemplos como esse, Daniel Cara, professor da Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo (USP), afirma que os professores curriculistas acabarão trabalhando “gratuitamente” para as empresas de tecnologia donas dessas ferramentas.
“Treinar uma ferramenta é um trabalho a mais para o docente. Ele já tem conhecimento da BNCC [Base Nacional Comum Curricular] e do currículo, tem experiência em sala de aula. Não vejo como isso possa acrescentar algo positivo.”
🔴Dar mais autonomia para o professor ou ‘engessar’ as aulas?
A Secretaria de Educação de São Paulo já fornece atualmente os slides que os professores devem usar nas aulas. É um material que passa atualmente por revisão de humanos e que, mesmo sem a intervenção da inteligência artificial, já é criticado por parte dos professores da rede.
“Em geografia, que é a minha disciplina, eu recebo os slides prontos, sem uma sequência didática lógica. Às vezes, são 20 ou 30 que eu preciso passar em 45 minutos de aula. Se não der tempo, não posso voltar a eles na aula seguinte, porque a coordenação e a direção fazem esse controle [do cronograma]”, conta uma docente que preferiu não se identificar.
“A direção chega a praticar assédio moral se o professor não usar todo o material.”
O g1 questionou a Secretaria de Educação de SP sobre essa denúncia, mas não obteve retorno até a última atualização desta reportagem.
Beatriz Alqueres, do Instituto Ayrton Senna, diz que o uso das ferramentas digitais precisa ser associado a uma reflexão sobre as práticas escolares.
“Até o uso do livro didático, que já está impresso, pode ‘engessar’ a aula. O ‘pulo do gato’ é pensar na relação dos professores com o material adotado. Como podemos associar tudo para fortalecer a aprendizagem dos alunos?”, questiona.
🔴Ter novas ideias ou correr o risco de errar mais?
Alqueires diz que, com a plataforma digital, “os professores vão poder ter apoio para pensar em formas de interdisciplinaridade”.
“A ferramenta ajuda a integrar mais os conteúdos de diferentes áreas, sem exigir que o professor domine todos os assuntos. O docente de matemática pode ter sugestões de como associar sua disciplina aos assuntos de física e história”, afirma. “É mais rápido usar a ferramenta de IA do que fazer o professor se apropriar de todos esses conhecimentos.”
O pesquisador Soares preocupa-se com a limitação das plataformas digitais em produzir conteúdos – não só no sentido de poder apresentar erros conceituais ou ultrapassados, mas também de restringir a perspectiva do aluno sobre determinado fato histórico.
“Li outro dia, nas redes sociais, que usar a IA vai ser o fim da doutrinação política nas escolas. Mas a questão é que, dependendo do modo como a pessoa vai dar o comando para a plataforma, o resultado pode ser ainda mais enviesado. O ChatGPT, por exemplo, vai usar os termos do comando digitado para pesquisar a resposta na rede. Ou seja, vai chegar a resultados que confirmem uma visão específica de algo.”
Rodrigues também enfatiza que há esse risco. “Se for usada uma palavra preconceituosa, os resultados podem refletir a mesma ideia. Claro que se diminui o risco com a revisão humana, mas talvez não completamente, porque a informação é replicada [pelo ‘robô’] de forma cada vez mais sutil.”
Como o governo não divulgou a ferramenta que usará no projeto, não é possível ainda mensurar os riscos de gerar erros nos materiais.
“Espero que não seja algo tão limitado. Já tentei usar o ChatGPT, por exemplo, para dar aula de redação. Pedi sugestões de livros sobre um tema, mas vários que ele me passou sequer existiam”, conta o professor Soares.
Quais medidas são essenciais para minimizar riscos no uso de IA?
ChatGPT não tem a informação atualizada sobre a presidência do Brasil (busca feita em 19 de abril de 2024).
Reprodução
A seguir, veja um resumo dos cuidados necessários no uso da IA na formulação do material didático, segundo os especialistas entrevistados pelo g1.
Atenção às informações desatualizadas. O ChatGPT 3.5 (versão gratuita), por exemplo, usa uma base de dados ultrapassada e não consegue dizer quem é o presidente atual do Brasil.
A checagem de tudo é absolutamente essencial. As ferramentas geram textos que, por serem escritos corretamente, passam a ilusão de sempre estarem corretos. Se o professor não prestar atenção, pode haver erros graves.
Os direitos autorais devem ser respeitados. É comum que essas plataformas não citem a fonte original da informação.
O profissional que fará a pergunta ou dará o comando para a ferramenta precisará de um treinamento específico. A orientação não deverá ser só pedagógica, mas também técnica. Que termos usar para gerar os resultados esperados?
A inteligência artificial não conhece o aluno. Ela produzirá apenas conteúdos objetivos. Cabe à rede direcionar quais são as demandas específicas de cada turma ou escola.
Deve haver investimento em tecnologia. Relatos colhidos pelo g1 apontam que, em algumas escolas estaduais, equipamentos como TV e projetor estão quebrados. O professor acaba improvisando uma aula na lousa normal.
Por que a Suécia desistiu da educação 100% digital?
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Sem esforço, não há genialidade: a criatividade se treina

Sem esforço, não há genialidade: a criatividade se treina
Os grandes avanços na ciência, na arte e na tecnologia são geralmente atribuídos à genialidade, mas isso ignora todo o trabalho que há por trás. A criatividade, em suma, é uma luta constante na qual é preciso estar muito alerta
Divulgação
Mozart queixou-se, em uma carta, de ser considerado um prodígio, quando a verdade era que, segundo ele, ninguém no mundo tinha trabalhado mais a técnica musical do que ele. Em outra carta, ele destacou sua predisposição para trabalhar em vez de ficar ocioso e lamentou ter ficado 14 dias sem escrever uma única nota. "Não por preguiça ou descuido, mas porque era impossível para mim." Isso vindo de um dos compositores mais prolíficos e criativos da história da música. Mas então, o que é criatividade?
"É criar, criar algo novo", diz o artista Cristóbal Toral, para quem "a criatividade vem de uma vocação". Uma vocação inicial que "é um mistério" e que, no seu caso, foi a pintura. Você precisa de habilidades e de preparação, mas isso não é suficiente, afirma ele em entrevista à DW. "Porque você pode pintar muito bem, mas não contribuir com nada."
"A criatividade, em suma, é uma luta constante na qual é preciso estar muito alerta" e "com vontade de inovar e de se renovar", resume.
Toral, um dos mais reconhecidos pintores espanhóis em atividade, também viveu "momentos de bloqueio e momentos difíceis". "Mas é claro que isso se resolve pintando, pintando e cometendo erros na tela, e é assim que as coisas surgem… Como disse Picasso, a inspiração deve pegar você trabalhando."
"Lembro-me de quando Botero, que era um grande amigo, convidou-me para ir ao seu barco no verão. Um dia eu disse a ele: 'Mas Fernando, você viu o barco maravilhoso que você tem, o desenho dele…? Uma beleza, uma obra de arte!'… E ele riu", lembra, embora o escultor colombiano recentemente falecido tenha concordado com ele.
"Quero dizer com isso que a criatividade se expressa não só na arte, mas em uma infinidade de coisas", diz Toral, declarando-se um "apaixonado por design" e citando exemplos que vão de calotas de carros a cafeteiras.
A principal pesquisadora da criatividade é a psicóloga americana Teresa Amabile, que não leciona em escola de artes, mas na Harvard Business School, a escola de negócios de maior prestígio do mundo. A sua investigação, que abrange mais de 40 anos de experiências clínicas e observações em setores como as novas tecnologias, centra-se atualmente em como aumentar a criatividade no ambiente de trabalho. Empresas como Pixar ou Apple a convidaram para explicar suas ideias, assim como o Fórum de Davos. Não lhe faltam referências ilustres.
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Mais de mil invenções e mais de mil tentativas
Para ilustrar o surgimento de uma ideia, geralmente usa-se uma lâmpada. Não é por acaso. Foi uma invenção de Thomas Alba Edison, que registrou mais de mil patentes ao longo de sua vida profissional. Quando apresentou a invenção, em 1879, já a pesquisava há mais de um ano e disse ter feito mais de mil tentativas. Perguntaram-lhe se ele não havia desanimado depois de tanto fracasso e ele respondeu que não houve fracasso, que simplesmente aprendeu mil maneiras de como não fazer uma lâmpada.
"Grande parte dos freios à criatividade surge das convenções sociais, de preconceitos e estereótipos, aprendizados anteriores, sistemas educacionais repetitivos e mecânicos, tendência ao conformismo, insegurança e medo da rejeição, do fracasso ou do ridículo", enumera o psicólogo Guillermo Ballenato Prieto. "A crítica costuma ser uma grande inimiga da criatividade, é aconselhável reduzi-la nas organizações, bem como limitar ao máximo as sanções quando se comete um erro”, aconselha, em entrevista por e-mail à DW.
Thomas Edison, por exemplo, além de possuir outros truques criativos, procurou estimular a criatividade de seus funcionários e impôs em sua oficina uma cota de uma descoberta menor a cada dez dias e uma grande a cada seis meses.
É um dos exemplos que Ballenato dá nos cursos para desenvolver a criatividade que oferece na Universidad Carlos III de Madrid. O objetivo de Edison era que todos os seus funcionários aceitassem o desafio. Um de seus alunos mais avançados, Henry Ford, aprendeu com suas técnicas organizacionais e acabou se tornando um dos industriais mais importantes dos Estados Unidos como fundador da empresa automobilística Ford.
"Sentir que podemos superar as adversidades nos ajuda a superá-las", afirma Ballenato. Ford expressou isso em outras palavras em uma de suas declarações mais citadas. Amabile diz que, quando começou a abordar a criatividade como objeto de estudo, as pesquisas se concentravam na personalidade do gênio e não no trabalho por trás dele, mas que, na realidade, as pessoas comuns também podem ser criativas, incluindo as crianças. Ballenato segue essa linha.
"É possível treinar a mente para desenvolver a criatividade", afirma. "É uma ginástica mental que pode incorporar diversas estratégias. Entre elas destaco o valor de quebrar hábitos, dar voto de confiança ao absurdo, olhar além do aparente, ampliar a perspectiva, investigar e enriquecer a mente com novas informações, manter um registro das ideias…"
Assim como Amabile, Ballenato destaca a importância da motivação e da colaboração em equipe. "Com a troca de ideias ocorre uma fecundação cruzada que se nutre de novas informações, perspectivas, relações e associações de ideias", afirma.
Também faz diferença a organização do trabalho: "Estruturas mais horizontais e igualitárias tendem a potencializar mais a criatividade do que hierarquias excessivamente verticais", resume. "Paralelamente, é preciso premiar iniciativas, contribuições e ideias", acrescenta.
"O bom ambiente de trabalho e a alta motivação são excelentes catalisadores" da criatividade, afirma. Ele também recomenda desconectar-se e o ócio para superar bloqueios. Nesses casos, Cristóbal Toral procura inspiração na natureza e na sua diversidade ilimitada. "Não existem dois verdes iguais nem duas folhas iguais", diz o pintor com admiração. "Criatividade implica inconformismo, abertura à mudança, 'ir além' do convencional. É um estado de consciência e, em última análise, uma atitude perante a vida" conclui Ballenato.
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