Por que estudar em escola particular no Brasil não é garantia de bom desempenho em exame internacional

Ministério da Educação estuda criar universidade indígena
Resultado de escolas particulares no Brasil ficou abaixo da média internacional na última edição do Pisa. Especialistas listam fatores para entender a questão. Desempenho escolar do Brasil está abaixo na média, e não somente no sistema público
DW/N. Pontes
Muitas famílias brasileiras buscam em escolas particulares um caminho para garantir melhor oportunidade de educação para seus filhos, mas nem sempre essa alternativa é uma garantia de aprendizado. Avaliações internacionais recentes confirmaram que o desempenho escolar geral do país está abaixo da média não somente no sistema público, mas também no privado.
Os números da edição mais recente do Programa Internacional de Avaliação de Estudantes (Pisa) mostraram que, embora o Brasil tenha conseguido passar pela pandemia sem piorar suas notas em matemática, leitura e ciências, os alunos brasileiros ficaram estagnados em níveis bastante insuficientes de aprendizado e bem abaixo da média internacional.
A avaliação realizada em 2022 indicou um desempenho abaixo da média em todos os recortes de renda: nem mesmo os alunos mais ricos ou as escolas particulares alcançaram a média da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE).
Por que estudar em escola particular no Brasil não é garantia de bom desempenho em exame internacional
DW
Será que isso significa pagar pela educação – sacrifício e meta para tantas famílias brasileiras que buscam mobilidade social – não é garantia de qualidade? A DW consultou especialistas e listou cinco fatores que ajudam a entender a questão.
1. O que o Pisa mostra sobre as escolas particulares
Realizado de três em três anos com estudantes na faixa dos 15 anos em 81 países membros e parceiros da OCDE, o Pisa traça um painel mundial da aprendizagem de estudantes na educação básica. Na edição de 2022, o foco foi em matemática.
👉🏽 O objetivo é avaliar se, aos 15 anos de idade, próximos do fim da escolaridade obrigatória em muitos países, os estudantes já aprenderam o suficiente para serem cidadãos plenos.
No Brasil, 10.798 alunos de 599 escolas passaram pela avaliação; destes, 1437 (ou 14,2%) eram de escolas privadas. A maioria dos participantes brasileiros representados no Pisa 2022 era da rede pública: estadual, (73,1%), seguida de municipais (10,3%) e federais (2,5%).
Enquanto a média geral de pontos do Brasil foi de 379 em matemática, 93 pontos abaixo da média da OCDE de 472, as escolas particulares fizeram 456 pontos. Melhores que a média do país, mas ainda abaixo da internacional.
Nem os alunos mais ricos no Brasil alcançaram a média da OCDE em matemática. Foram piores que estudantes de perfil parecido em países como Turquia e Vietnã, que fizeram mais de 500 pontos.
Brasil está nas últimas posições no Pisa 2022; veja notas de 81 países em matemática, ciências e leitura
2. Pandemia atrapalhou
As escolas particulares detêm uma fatia relativamente pequena da educação básica no Brasil. Das 47,3 milhões de matrículas registradas em 2023, 9,4 milhões (19,9%) eram no sistema privado. No ensino médio, as particulares representam 13%.
A baixa representatividade talvez ajude a explicar a escassez de trabalhos acadêmicos sobre a qualidade do ensino privado: a grande maioria das pesquisas se refere ao ensino público.
O pesquisador Ocimar Munhoz Alavarse, doutor em educação pela Universidade de São Paulo (USP), é exceção: há décadas dedica-se a interpretar as estatísticas de avaliações de ensino, como o Pisa e o Sistema de Avaliação da Educação Básica (Saeb), para compreender o que está além das médias de indicadores.
Coordenador do Grupo de Estudos e Pesquisas em Avaliação Educacional da Faculdade de Educação da USP, Alavarse diz que o atual Pisa reflete os alunos fora da escola na pandemia. "Impactou todo mundo, mas as escolas privadas continuam tendo resultado, nas médias, superiores."
Nem as famílias de classes média e alta, diz o professor, estavam prontas para a educação remota. "Muitas também não tinham em suas casas dois, três computadores, quando o pai e mãe também trabalhavam em casa", diz, pontuando que, obviamente, a situação era mais grave para as famílias de baixa renda.
As escolas também estavam despreparadas. "Uma coisa é recorrer eventualmente a esses recursos [tecnológicos]; outra coisa é transferir algo que há 200 anos se faz, que é o ensino presencial, para o computador", afirma Alavarse.
3. Influência de fora da escola
A estrutura do Pisa permite comparar alunos do mesmo nível socioeconômico de vários países. Segundo a OCDE, o status socioeconômico foi responsável por 15% da variação no desempenho em matemática no Pisa 2022 no Brasil, mesmo nível da OCDE.
"Todas as pesquisas reafirmam: quanto maior o nível socioeconômico do aluno, maior tende a ser o desempenho", diz Alavarse. Escolas de bairros de alta renda, por exemplo, tendem naturalmente a ter desempenho melhor do que territórios de vulnerabilidade social.
Não por mérito, mas por injustiça social. Os alunos com melhores condições já partem do início da "corrida" com vantagens: o nível de escolarização da mãe, o engajamento da família nos estudos, os livros e estímulos que a criança tem em casa, as condições de alimentação, saúde: tudo o que colabora ou atrapalha o aluno nos estudos, por exemplo.
4. Escolas particulares são bem diferentes entre si
Diferentemente do que pode supor o senso comum, não dá para tratar todas as escolas particulares como um mesmo grupo. "Uma coisa são as escolas de elite das principais capitais, que custam R$ 5 mil, R$ 6 mil, R$ 15 mil por mês. E existem escolas que chamamos de escola de bairro, que atende um público entre C e D, e elas acabam ficando num limbo", explica a pedagoga e mestre em educação Beatriz Cortese, diretora do Cenpec, organização sem fins lucrativos que promove equidade e qualidade na educação pública.
"Por um lado, elas não seguem a regulação e o cuidado das escolas públicas, que o governo acompanha, e por outro não têm a mesma estrutura das particulares", acrescenta Cortese.
Pedro Flexa, diretor da Federação Nacional das Escolas Particulares (Fenep), diz que "de fato os resultados do Pisa atestam que fatores extraescolares têm grande peso". Ele destaca, no entanto, o impacto positivo que as escolas particulares podem ter para famílias mais pobres, contribuindo para a sociedade.
José Antonio Figueiredo Antiório, presidente do Sindicato dos Estabelecimentos de Ensino no Estado de São Paulo, diz que há muitas escolas de mensalidade muito baixas que não são sequer regularizadas. "Um problema muito sério que estamos tentando resolver", ressalta.
5. Muitos alunos aprendem menos
Mesmo que a "foto" do ensino particular seja mais bonita, não significa que a maioria dos alunos aprendam. Alavarse cita dados do Sistema de Avaliação da Educação Básica (Saeb) para mostrar que, embora as escolas privadas tenham em média um resultado melhor que as públicas, há uma grande parcela de alunos que saem da escola despreparados.
Ele cita o Saeb 2021, que mostra que, entre alunos do 9º ano avaliados em matemática, 50% não aprenderam o que era esperado. Na mesma comparação, nas escolas municipais esse percentual era de 87%, segundo o especialista.
"Moral da história: se eu olhar para resultados [do Pisa e Saeb], sim: os resultados são superiores do que das escolas públicas. Mas também tem uma quantidade gigantesca, metade dos alunos, que não atinge o que seria esperado", diz.
Comparando ao padrão europeu almejado no Pisa, ele estima que a média das escolas privadas do Brasil equivaleria à média dos níveis socioeconômicos mais baixos da OCDE. Mas é fato que, para o topo dos alunos de melhor desempenho, o padrão é melhor. "Tem uma pequena parcela dos alunos da escola privada que têm desempenho parecido com o da Suíça", afirma o professor da USP.
Embora diga que o conceito de qualidade da escola pode variar de acordo com a família – uns querem desempenho no Enem, outros mais habilidades emocionais, por exemplo –, Alavarse alerta que, a depender da escola e dos sonhos de cada um, muitas podem não estar obtendo o que é esperado ao pagar a mensalidade.
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Enem 2024: prazo para pedir isenção da taxa começa nesta segunda; saiba quem tem direito e como solicitar

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Candidatos que tiveram isenção no Enem 2023 e não compareceram nos dias das provas precisam justificar a ausência para ter direito ao não pagamento em 2024. Pedidos de isenção para o Enem 2024 devem ser feitos até 26 de abril. Na imagem, parcitipante acessa página do Enem
Divulgação/Depositphotos
O prazo para solicitar a isenção de pagamento da taxa de inscrição do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) 2024 começa nesta segunda-feira (15).
O Inep, órgão responsável pelo exame, ainda não divulgou o valor da inscrição. Na edição de 2023, assim como em anos anteriores, o valor para quem não tinha isenção foi de R$ 85.
👉 Os pedidos de isenção devem ser submetidos na Página do Participante (enem.inep.gov.br/participante) com o login do gov.br até 26 de abril.
Abaixo, confira as respostas para as principais dúvidas sobre o benefício e sobre o Enem 2024.
💰 Quem tem direito à isenção de taxa?
Participantes que estão no 3º ano do ensino médio de escolas públicas;
alunos que estudaram durante todo o ensino médio na rede pública ou como bolsistas integrais da rede privada, desde que tenham renda familiar per capita igual ou inferior a 1,5 salário mínimo (R$ 1.980);
cidadãos em vulnerabilidade social, membros de família de baixa renda com inscrição no Cadastro Único para programas sociais do governo federal (CadÚnico).
💻 Como solicitar a isenção? É preciso entrar na Página do Participante e informar o CPF, a data de nascimento, o e-mail e um número de telefone válido.
☹️ E quem estava isento no Enem 2023, mas não fez a prova? Nesse caso, é necessário entrar na Página do Participante e justificar a ausência (anexando um atestado médico ou um boletim de ocorrência, por exemplo). Caso contrário, perderá o direito à isenção.
✉️ Quando saem os resultados da isenção? Em 13 de maio. Caso o pedido seja negado, é possível entrar com recurso entre 13 e 17 de maio.
📝 Quem conseguir a isenção precisa se inscrever no Enem? Sim. Todos, isentos ou não, deverão fazer a inscrição no Enem 2024, no período que ainda vai ser divulgado pelo Inep.
Datas do período de isenção e justificativa
15 a 26 de abril: justificativa de ausência no Enem 2023 e solicitação de isenção do Enem 2024.
13 de maio: resultado da justificativa de ausência no Enem 2023 e solicitação de isenção do Enem 2024.
13 a 17 de maio: recurso da justificativa de ausência no Enem 2023 e solicitação de isenção do Enem 2024.
24 de maio: resultado do recurso da justificativa de ausência no Enem 2023 e solicitação de isenção do Enem 2024.
Redação nota mil no Enem: alunos de escola pública que atingiram pontuação dão dicas
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Ao menos 52 universidades federais e 79 institutos estão em greve

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Servidores federais reivindicam reestruturação de carreira, recomposição salarial e orçamentária, e revogação de normas aprovadas nos governos Temer e Bolsonaro. Professores do Instituto Federal do Piauí aderem à greve.
Andressa Lopes/Rede Clube
Ao menos 52 universidades, 79 institutos federais (IFs) e 14 campus do Colégio Pedro II estão em greve, de acordo com um levantamento realizado pelo g1. Professores e servidores das instituições reivindicam reestruturação de carreira, recomposição salarial e orçamentária, e revogação de normas aprovadas nos governos Temer e Bolsonaro.
Os níveis de paralisação variam. Em algumas instituições, professores e técnicos-administrativos aderiram à greve. Em outros casos, apenas os professores, ou apenas os técnicos, estão paralisados.
Procurado pelo g1, o Sindicato Nacional dos Servidores Federais da Educação Básica, Profissional e Tecnológica (Sinasefe), que representa os professores e demais servidores federais, informou que, apesar de se reunir desde 2023 com o Governo Federal, nenhuma proposta que contemple as reivindicações dos servidores foi apresentada.
Já o Sindicato Nacional dos Docentes das Instituições de Ensino Superior (Andes) não respondeu aos questionamentos até a publicação da reportagem.
O Ministério da Educação declarou, por meio da assessoria de imprensa, que "vem envidando todos os esforços para buscar alternativas de valorização dos servidores da educação, atento ao diálogo franco e respeitoso com as categorias". A pasta diz ainda que vem participando das mesas de negociação que trata de condições de trabalho dos servidores que atuam nas instituições de educação.
Abaixo, confira como está a situação pelo país.
Norte
Acre: servidores da Universidade Federal do Acre (Ufac) e do Instituto Federal do Acre (Ifac) estão em greve.
Amapá: servidores do Instituto Federal do Amapá (IFAP) e da Universidade Federal do Amapá (UNIFAP) aderiram à paralisação.
Pará: as federais do Pará (UFPA), do Oeste do Pará (Ufopa), Federal Rural da Amazônia (Ufra), e o Instituto Federal do Pará (IFPA) e a Universidade Federal do Sul e Sudeste do Pará (Unifesspa) também estão em greve.
Rondônia: a Universidade Federal de Rondônia (Unir) e o Instituto Federal de Rondônia também estão paralisados.
Tocantins: técnicos da Universidade Federal do Tocantins (UFT) e um campi do Instituto Federal do estado estão em greve.
Nordeste
Alagoas: tanto a Universidade Federal de Alagoas (UFAL) quanto o Instituto Federal de Alagoas (IFAL) estão paralisados.
Bahia: 17 campi do Instituto Federal da Bahia também entraram em greve. Técnicos da Universidade Federal do Recôncavo Baiano também aderiram ao movimento.
Ceará: estão em greve a Universidade Federal do Ceará (UFC) Universidade Federal do Cariri (UFCA) Universidade Federal da Integração Luso-Afro Brasileira (Unilab) e o Instituto Federal do Ceará (IFCE).
Maranhão: técnicos e professores da Universidade Federal do Maranhão (UFMA) também aderiram à paralisação.
Paraíba: estão em greve os técnicos da Universidade Federal da Paraíba (UFPB) e da Universidade Federal de Campina Grande (UFCG), e professores e técnicos do Instituto Federal da Paraíba (IFPB).
Pernambuco: a greve afeta pelo menos a Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), a Universidade Federal Rural de Pernambuco (UFRPE) e o Instituto Federal de Pernambuco (IFPE).
Piauí: dois campi do Instituto Federal do Piauí e a Universidade Federal do Piauí (UFPI) Campus Teresina estão em greve.
Rio Grande do Norte: o Instituto Federal do Rio Grande do Norte (IFRN), a Universidade Federal Rural do Semiárido (Ufersa) e a Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN) aderiram à paralisação.
Sergipe: estão paralisados o Instituto Federal de Sergipe (IFS) e a Universidade Federal de Sergipe (UFS).
Sul
Rio Grande do Sul: a Universidade Federal de Pelotas (UFPel), a Universidade Federal do Rio Grande (FURG), a Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), a Universidade Federal de Ciências da Saúde de Porto Alegre (UFCSPA), a Universidade Federal de Santa Maria (UFSM) e três campi do Instituto Federal do RS estão paralisados.
Paraná: a Universidade Federal do Paraná (UFPR), a Universidade Tecnológica Federal do Paraná (UTFPR), a Universidade Federal da Integração Latino-Americana (UNILA), a Universidade Federal da Fronteira Sul (UFFS) e o Instituto Federal do Paraná (IFPR) também estão em greve.
Santa Catarina: estão em greve servidores da Universidade Federal de SC (UFSC), da Universidade Federal da Fronteira Sul (UFFS), do Instituto Federal Catarinense (IFC) e do Instituto Federal de Santa Catarina (IFSC)
Sudeste
Espírito Santo: tanto o Instituto Federal do Espírito Santo (IFES) quanto a Universidade Federal do Espírito Santo (UFES) estão em greve.
Minas Gerais: estão em greve a Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF), a Universidade Federal de São João del Rei (UFSJ), a Universidade Federal de Viçosa (UFV), a Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), a Universidade Federal de Ouro Preto (UFOP), o Centro Federal de Educação Tecnológica (Cetef), quatro campi do Instituto Federal de Minas Gerais, quatro do IF do Sul de Minas e o Instituto Federal do Triângulo Mineiro (IFTM). Universidade Federal de Alfenas (Unifal) e Universidade Federal de Lavras (Ufla) também aderiram.
Rio de Janeiro: os técnicos-administrativos da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), da Universidade Federal Fluminense (UFF), da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ), e da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (Unirio) estão em greve; no Colégio Pedro II os professores estão em greve. Docentes e técnicos-administrativos do Instituto Federal do Rio de Janeiro (IFRJ) também aderiram.
São Paulo: seis campi do Instituto Federal de São Paulo e a Universidade Federal de São Carlos (UFSCar) foram afetados pela paralisação dos servidores.
Centro-Oeste
Distrito Federal: a Universidade de Brasília (UnB) está paralisada.
Mato Grosso: 18 campi do Instituto Federal do Mato Grosso também aderiram à paralisação, assim como a Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT).
Mato Grosso do Sul: o Instituto Federal de Mato Grosso do Sul (IFMS) e a Universidade Federal da Grande Dourados (UFGD) estão em greve.
Goiás: servidores administrativos da Universidade Federal de Goiás (UFG), da Universidade Federal de Catalão (UFCat), e da Universidade Federal de Jataí (UFJ), e dois campi do Instituto Federal de Goiás também estão em greve.
G1 no DF1: Professores da UnB decidem entrar em greve
VÍDEOS DE EDUCAÇÃO

Youtubers ensinam como lucrar com uso de inteligência artificial para criar vídeos e livros infantis ‘em minutos’

Ministério da Educação estuda criar universidade indígena
Produtos infantis feitos em massa preocupam especialistas por baixa qualidade pedagógica. 'Basta ter cores chamativas', diz um influencer em um dos vídeos. Youtubers ensinam a lucrar com uso de inteligência artificial para criar vídeos e livros
Em vídeos com milhares de visualizações, youtubers ensinam como criar vídeos e livros infantis com uso de inteligência artificial (IA).
"Inteligência artificial insana, que cria livros infantis em segundos, e tem conexão para você vender direto na Amazon e começar a ganhar dinheiro aqui na internet. E quer mais? Grátis", diz um dos vídeos.
🚨 No entanto, produtos infantis feitos em massa preocupam especialistas. Baixa qualidade pedagógica, ponto de vista enviesado e pouca diversidade (refletida, por exemplo, na ausência de personagens negros) são alguns dos problemas apontados. (Veja mais abaixo.)
Além disso, os canais ou conteúdos criados muitas vezes não informam ao público quando houve uso de inteligência artificial.
'Simples de criar e que monetiza rápido', diz canal
Os tutoriais foram publicados no último ano, após o surgimento e popularização de ferramentas de inteligência artificial.
Os vídeos mais vistos passam de 300 mil visualizações. Neles, os youtubers explicam, em minutos ou até segundos, como o espectador pode criar um ebook (livro digital) ou um vídeo para o público infantil – na maioria das vezes gratuitamente.
Um dos vídeos mais acessados sobre o assunto tem como título: "Ganhe dinheiro no YouTube com esse canal dark simples de criar e que monetiza rápido". Nele, o youtuber diz:
"Se você sonha em ter um canal dark no YouTube, este é o caminho! Canais semelhantes estão ganhando dinheiro no youtube e você não pode perder essa chance de começar a transformar suas ideias em sucesso".
🎥 O termo "dark" é usado para chamar os canais em que o youtuber não aparece. Ou seja, a página possui apenas conteúdos como animação, gravação de tela do computador, etc.
🤑 Os produtores de conteúdo ensinam como criar os vídeos e também como ganhar dinheiro com eles.
Em um vídeo publicado em agosto de 2023 e que já passa de 60 mil visualizações, o dono do canal @ganhandonoautomatico alega que o conteúdo criado tem "conexão" com a Amazon.
O canal @ReinaldoeMayara tem três livros digitais feitos com IA a venda na Amazon, com valor médio de R$ 67,03 (veja imagem abaixo). Desde junho, eles publicaram 42 vídeos voltados para a criação de conteúdo com inteligência artificial, sendo sete desses direcionados para crianças.
O g1 entrou em contato com os youtubers para saber quantos livros foram vendidos desde que foram anunciados – dois deles em dezembro e um janeiro de 2024 –, mas não teve retorno até a publicação desta reportagem.
Livros anunciados na Amazon feitos por inteligência artificial
Reprodução/Amazon
'Basta ter cores chamativas', orienta um dos tutoriais
✏️ Na maioria dos vídeos, os youtubers explicam comandos que os espectadores precisam seguir, como pedir ao ChatGPT para que escreva a história.
🎨 Além das diretrizes tecnológicas, os youtubers também apontam detalhes específicos que devem existir no conteúdo infantil, como a locução e as cores.
"Galera, lembrando que como é canal e vídeo infantil basta ter cores chamativas, músicas animadas e movimento que já vai fazer sucesso, não precisa ser tão detalhista ta?".
Sobre a locução, eles indicam que o espectador utilize uma voz infantil para captar a atenção das crianças. Uma das tecnologias sugeridas pelos youtubers é o Kreado.AI – a tecnologia oferece 140 idiomas, mais de mil tipos de vozes e reproduz 800 caracteres em áudios.
Quanto às cores, eles ressaltam que é preciso ser chamativo para reter a atenção da criança.
O g1 entrou em contato com o YouTube para confirmar quantos vídeos infantis são produzidos com o uso de inteligência artificial e quantos vídeos que ensinam sobre como criar esse tipo de conteúdo existem na plataforma, mas a rede social não se posicionou até a publicação desta reportagem.
Vídeos no YouTube que ensinam a fazer conteúdos para crianças com IA
Reprodução/YouTube
Falta de representatividade e moral da história repetida
Apesar da facilidade e rapidez tecnológica, os conteúdos para crianças feitos com IA são criticados por especialistas, especialmente por dois motivos: personagens em sua maioria brancos e moral da história sempre igual.
Os personagens criados por IA são na maioria das vezes muito parecidos e pouco diversos. E, segundo os especialistas, isso ajuda na predisposição das crianças desenvolverem algum preconceito.
“Se você procurar uma imagem de princesa, provavelmente receberá personagens brancas, loiras e de olhos claros. Dificilmente aparecerá outras etnias ou raças”, explica Agnaldo Arraio, professor de faculdade de Educação da Universidade de São Paulo (USP).
Por exemplo, no vídeo: "Criar vídeos animados digitando texto com inteligência artificial gratuita", com 61 mil visualizações, do canal @chamadatech, a IA criou uma menina branca, sendo que o youtuber pediu apenas que a personagem tivesse "cabelos cacheados cor de mel e olhos que brilhavam como estrelas". No último ano, este canal publicou 21 vídeos ensinando como criar conteúdos infantis.
Em outro canal, do @thiagofelizola, o vídeo: "Como criar desenhos animados usando IA & ChatGPT [Grátis]" mostra que a tecnologia criou um menino branco, sendo que não havia nenhum pedido específico sobre o tom de pele. (veja imagens abaixo).
Procurados pelo g1, o dono do canal, Thiago Felizola, afirmou que não pensa na cor de pele dos personagens para criar os vídeos. "Peço de maneira genérica e (a inteligência artificial) me mostra isso mesmo". Já o @chamadatech não respondeu até a publicação desta reportagem.
"Na prática, esses personagens (sempre brancos) podem induzir crianças a padrões que não as ajudem a reconhecer ou valorizar outras culturas", diz o professor de pedagogia da USP. "Mas ele ressalta que, a depender de como a tecnologia é usada, (os pais e as crianças) podem ter experiências diferentes na educação. Mas é preciso usar a IA com pensamento crítico".
Personagens brancos nos conteúdos criados por IA para crianças
@chamadatech e @thiagofelizola/YouTube
Outro problema pedagógico apontado é que os textos produzidos pela inteligência artificial são muito semelhantes – ou seja, a "moral da história" é muitas vezes a mesma, prejudicando o aprendizado infantil.
Em uma nota divulgada em 2021, a diretora-geral da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO), Audrey Azoulay, afirmou que ler muitos livros – consequentemente, com diferentes narrativas – ajuda explorar várias ideias e culturas.
No vídeo do @chamadatech, o ChatGPT criou uma história sobre Sofia, uma garota que encontra uma árvore mágica e pede para que seu animal comece a falar para poderem brincar juntos, e o desejo é realizado. A história, segundo o vídeo, tem a moral de que o amor e o companheirismo não têm barreiras.
O tema foi abordado de forma parecida no vídeo do @thiagofelizola. O youtuber pediu apenas que a inteligência artificial criasse uma história "infantil e emocionante" com aproximadamente 200 palavras.
A tecnologia produziu a história de um menino chamado Leo, que sonhava em tocar as estrelas. Então, uma estrela-cadente caiu em suas mãos, e ele a ajudou, "com amor e companheirismo" a fazer com que ela voltasse para o céu.
"Ensinamos a criar histórias morais de amor e amizade, bem melhor do que muitos desenhos que ensinam sobre bruxas fantasmas, etc", diz o canal @ReinaldoeMayara, que também explica como fazer conteúdo infantil com IA aos seus espectadores.
O g1 entrou em contato com o ChatGPT para entender por que as histórias sugeridas são parecidas, mas não teve retorno até a publicação desta reportagem.
Conteúdos não informam que foram criados com IA
Além de problemas pedagógicos, os especialistas destacam outra desvantagem – e dessa vez focado nos pais: a falta identificação de quais livros digitais ou vídeos foram criados por IA. Isso porque ainda não há regras específicas para desenhos infantis na Amazon ou no YouTube, por exemplo.
Os três livros digitais do canal @ReinaldoeMayara disponíveis na Amazon não informam que são feitos por inteligência artificial. Os youtubers apenas disseram em um dos vídeos disponíveis no YouTube que usaram IA para criar os ebooks.
E para o livro digital não ser detectado como feito por IA, o canal ressalta que:
"(Depois que pedir para o ChatGPT criar o conteúdo), você deve reescrever a sua história, (e então) usar a plataforma Smodin, para detectar se o texto foi gerado por humanos ou não. Você pode ir trocando as palavras, mudando alguns sentidos", diz a youtuber, no vídeo "Como Criar um livro de história infantil corretamente para vender na Amazon KDP".
A Amazon solicita que o autor apenas informe se o produto foi totalmente gerado por IA. Segundo o documento de diretrizes da empresa, caso as ferramentas tecnológicas tenham sido usadas para auxiliar na escrita ou edição, por exemplo, não há necessidade da comunicação do uso da ferramenta.
O g1 entrou em contato com a empresa para entender se existe alguma perspectiva de mudança nas regras, mas não teve retorno até a publicação desta reportagem.
Print do vídeo "Ganhe dinheiro no YouTube com esse canal dark simples de criar e que monetiza rápido"
Reprodução/YouTube/@CanalClaYOliveiraOficial
O YouTube, por sua vez, criou em março um selo que obriga o youtuber a informar se houve o uso de IA apenas em determinadas situações, como a troca do rosto de uma pessoa por outra ou a representação realista de eventos fictícios. "O objetivo é fortalecer a transparência com os espectadores e construir confiança entre os criadores e seu público", informou a empresa em nota.
Porém, até o momento, a plataforma de vídeos não exige que os criadores informem se a inteligência artificial foi usada na etapa de produção, como a geração de roteiros, ideias de conteúdo ou quando a mídia for irrealista – como um desenho infantil.

Ministério da Educação estuda criar universidade indígena

Ministério da Educação estuda criar universidade indígena
Portaria criou grupo de trabalho para analisar viabilidade técnica e orçamentária da instituição. Proposta semelhante já foi discutida em 2014. Candidatos durante vestibular indígena da Unicamp
Antoninho Perri
O Ministério da Educação (MEC) criou um grupo de trabalho para estudar a criação da "Universidade Indígena". Uma portaria com a medida foi publicada na edição do Diário Oficial da União desta quarta-feira (17).
Essa não é a primeira vez que uma equipe é formada pelo governo federal para discutir o assunto. Em 2014, durante a gestão de Dilma Rousseff, o MEC criou um grupo de trabalho para debater uma proposta semelhante.
Em dezembro de 2023, representantes dos povos indígenas participaram de uma audiência pública na Câmara dos Deputados onde pediram a criação de uma universidade própria.
Durante a audiência, os líderes de povos originários defenderam a implementação de uma instituição com políticas educacionais voltadas para os povos indígenas.
Atualmente, países como Bolívia e México possuem universidades indígenas. A unidade mexicana, por exemplo, oferece cursos como Direito, Biotecnologia e Sistemas Computacionais, além de mestrados e doutorados.
Ao menos 51 universidades federais e 79 institutos estão em greve
O grupo de trabalho
A equipe criada pelo MEC terá como objetivo fazer estudos para subsidiar a criação da instituição e implementar a universidade. Um relatório deve ser apresentado em um prazo de até 180 dias.
Além de estudos técnicos, o grupo também terá de:
analisar o impacto orçamentário da criação da universidade;
fazer um relatório que aponte a viabilidade técnica da instituição;
avaliar se existem riscos na implementação da unidade.
Serão nomeadas seis pessoas para fazer parte do grupo de trabalho, incluindo um representante da Secretaria de Educação Superior e outro do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais (Inep).
Além disso, a portaria autoriza que a equipe convide representantes de entidades indígenas e indigenistas para participar das reuniões.
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