UFSCar abre inscrição para vagas restantes da graduação; veja como se candidatar

Redação nota mil no Enem 2023: únicos 4 alunos de escola pública que atingiram pontuação máxima dão dicas
São 294 vagas em 23 cursos que estão distribuídos nos quatro campi: Araras, Lagoa do Sino, Sorocaba e São Carlos (SP). Entrada do campus da UFSCar em São Carlos
Reprodução EPTV
A Universidade Federal de São Carlos (UFSCar) abriu inscrição para as vagas restantes e formação de cadastro reserva para ingresso nos cursos de graduação, ainda em 2024. São 294 vagas em 23 cursos que estão distribuídos nos quatro campi: Araras, Lagoa do Sino, Sorocaba e São Carlos (SP).
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Os interessados precisam preencher um FORMULÁRIO ELETRÔNICO DE INSCRIÇÃO, que está disponível no site da UFSCar, até as 23h59 da terça-feira (2).
UFSCar abre inscrição para vagas restantes da graduação; veja como se candidatar
Para concorrer as vagas, é necessário que o candidato cumpra os seguintes requisitos:
ter concluído o ensino médio;
ter obtido resultado superior a zero em cada uma das 5 notas do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem), em provas realizadas entre os anos de 2019 e 2023.
Estudantes com matrícula ativa em cursos presenciais ou EaD (Ensino a Distância) de graduação da UFSCar não podem realizar inscrição para este edital.
Confira o edital completo aqui
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Quadro preliminar de vagas
Campus Araras
Agroecologia (Integral) – 11 vagas;
Biotecnologia (Integral) – Cadastro reserva;
Ciências Biológicas – Licenciatura (Noturno) – Cadastro reserva;
Física – Licenciatura (Noturno) – 21 vagas;
Química – Licenciatura (Noturno) – 14 vagas.
Campus Lagoa do Sino
Administração (Integral) – 26 vagas;
Ciências Biológicas (Integral) – Cadastro reserva;
Engenharia Ambiental (Integral) – 32 vagas;
Engenharia de Alimentos (Integral) – 28 vagas.
Campus Sorocaba
Ciências Biológicas – Licenciatura (Integral) – Cadastro reserva;
Ciências Biológicas – Licenciatura (Noturno) – Cadastro reserva;
Engenharia Florestal (Integral) – 13 vagas;
Física – Licenciatura (Noturno) – Cadastro reserva;
Geografia – Licenciatura (Noturno) – 10 vagas;
Matemática – Licenciatura (Noturno) – 5 vagas ;
Química – Licenciatura (Noturno) – Cadastro reserva;
Turismo (Integral) – 20 vagas.
Campus São Carlos – Sede
Biblioteconomia e Ciência da Informação (Noturno) – 3 vagas;
Ciências Sociais (Integral) – 10 vagas;
Engenharia Elétrica (Integral) – Cadastro reserva;
Engenharia Física (Integral) – Cadastro reserva;
Engenharia Mecânica (Integral) – Cadastro reserva;
Engenharia Química (Integral) – Cadastro reserva;
Filosofia (Noturno) – 3 vagas;
Física – Bacharelado (Integral) – Cadastro reserva;
Física – Licenciatura (Noturno) – 9 vagas ;
Física – Licenciatura (Integral) – 8 vagas ;
Gerontologia (Integral) – Cadastro reserva;
Letras Espanhol (Noturno) – Cadastro reserva;
Letras Inglês (Noturno) – Cadastro reserva;
Linguística (Vespertino) – 16 vagas;
ABI Matemática (Integral) – 20 vagas;
Matemática – Licenciatura (Noturno) – 20 vagas;
Música – Licenciatura (Integral) – 6 vagas;
Química (Integral) – Cadastro reserva;
Química – Licenciatura (Noturno) – 8 vagas;
Tradução e Interpretação em Língua Brasileira de Sinais (Integral) – 11 vagas.
Cronograma das vagas restantes de graduação na UFSCar
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Em um ano, 200 mil alunos com autismo foram matriculados em escolas comuns; falta de apoio a professores ainda é obstáculo

Redação nota mil no Enem 2023: únicos 4 alunos de escola pública que atingiram pontuação máxima dão dicas
Colégios são proibidos de recusar a matrícula de um aluno com deficiência, mas ainda há desrespeito à lei, mesmo que de maneira velada. No Dia da Consciência do Autismo, entenda por que, apesar do avanço no número de estudantes com TEA, o Brasil ainda não pratica a inclusão plena de pessoas do espectro. Em um ano, 200 mil alunos com autismo foram matriculados em escolas comuns
De 2022 a 2023, no Brasil, o número de crianças e adolescentes com Transtorno do Espectro Autista (TEA) matriculados em salas de aula comuns — ou seja, junto com alunos sem deficiência — aumentou 50%: saltou de 405.056 para 607.144, segundo dados do Censo de Educação Básica.
A presença desse grupo nas escolas vem crescendo a um ritmo acelerado, como é possível observar no gráfico abaixo. Em 2017, o total de alunos com TEA em escolas públicas e privadas não chegava nem a 100 mil, mostra o Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep). Agora, de um ano para outro, surgiram 200 mil novas matrículas.
Há duas explicações principais para esse aumento:
maior capacidade diagnóstica das equipes de saúde;
conscientização sobre a importância e a obrigatoriedade de acolher as crianças com TEA (leia mais abaixo).

➡️Cientistas e profissionais da educação reforçam que a convivência entre pessoas com e sem deficiência é benéfica para todos – tanto do ponto de vista social (compreensão das diferenças, cidadania, melhora na capacidade de comunicação) quanto do cognitivo (a escola deve apresentar os conteúdos de maneira que todos os estudantes possam aprender e desenvolver o pensamento lógico, o raciocínio matemático ou conhecimento histórico, por exemplo).
👎O problema é que a matrícula é só o primeiro passo – e as etapas subsequentes ainda deixam a desejar. Não basta “permitir” a entrada da criança.
“Precisamos garantir o acesso, a permanência, a participação e a aprendizagem. O aluno deve frequentar as aulas, aprender e participar das atividades. Incluir é muito mais do que colocar todo mundo na mesma sala”, afirma Renata Tibyriça, defensora pública do Estado de São Paulo.
No entanto, pelo que o g1 apurou a partir de entrevistas com professores, pesquisadores, defensores públicos, familiares de pessoas com autismo e os próprios indivíduos com TEA, há ainda os seguintes obstáculos:
formação frágil de docentes e funcionários, que acabam indo atrás de preparo por iniciativa própria, sem apoio da escola ou do governo;
falta de adaptação de atividades e aulas;
desconhecimento sobre como agir diante de surtos de agressividade e de outros possíveis sintomas;
bullying;
cobrança de taxas extras na mensalidade (prática ilegal);
descumprimento do direito a um acompanhante contratado pelo colégio;
evasão escolar e ausência de recursos para lidar com os diferentes tempos de aprendizagem.
Antes de ver os detalhes dos obstáculos acima, entenda:
📈O que está levando ao crescimento das matrículas de pessoas com autismo?
O Transtorno do Espectro Autista é um grande "guarda-chuva" que abarca pessoas com quadros bem diferentes – há desde aquelas de “grau 1”, que são mais independentes e precisam de menos suporte, até as de “grau 3”, que precisam de maior auxílio e não falam, por exemplo.
Em geral, os sintomas principais giram em torno de:
dificuldades de interação social,
problemas na comunicação
e alteração nos interesses (como resistência a mudanças de rotinas ou maneiras diferentes de brincar).
Como resumido mais acima, há duas explicações principais para o aumento de casos de TEA no mundo:
Maior capacidade diagnóstica:

O Brasil não tem, por enquanto, estatísticas próprias sobre o número de cidadãos com autismo no país. Mas, nos EUA, o Centers for Disease Control and Prevention (CDC) calcula que 1 em cada 36 crianças de 8 anos seja autista. Em 2000, era 1 em 150.
Esse crescimento na prevalência do transtorno está diretamente relacionado a um maior preparo dos profissionais de saúde para detectar casos de TEA. É possível, portanto, que entre os 200 mil novos estudantes com autismo de 2022 para 2023, estejam crianças que já estavam matriculadas em 2021, mas ainda sem diagnóstico.
Ainda que o corpo médico esteja mais instrumentalizado, há um caminho a percorrer, explica Patrícia Braga, professora associada da Universidade de São Paulo (USP) e pesquisadora da plataforma científica Pasteur USP.
“Estamos capacitando mais médicos agora, mas é um processo em construção que está muito aquém do necessário no Brasil. A idade média [da criança diagnosticada] é de 5 anos aqui, enquanto é de 3 anos na Europa”, explica.
Anita Brito, pesquisadora do Instituto de Ciências Biomédicas (ICB) da USP, conta que não encontrou psicólogos ou médicos especializados em autismo quando começou a investigar o caso de Nicolas, seu filho.
“Ele tem 25 anos e é um autista ‘clássico’ [com os sintomas mais característicos de TEA], mas só foi diagnosticado aos 5. Eu mesma só descobri que também era autista em 2014, já adulta. Na minha casa, antes, a gente tinha rótulo de louco. Diziam que meu pai tinha o demônio no corpo.”
➡️Observação: Atualmente, cientistas estudam se, além do aumento da capacidade diagnóstica, existem elementos ambientais que podem estar elevando os casos de autismo, como determinadas infecções virais em grávidas. Mas não caia em fake news: a ciência já comprovou que as vacinas não levam ao autismo.
Maior conscientização e acesso aos direitos previstos em lei
“Uma escola que recusa a matrícula de um aluno com autismo está cometendo um crime”, explica a defensora Tibyriça.
Por exemplo:
A Lei nº 7.583/1989, artigo 8º afirma que “constitui crime punível com reclusão de 2 (dois) a 5 (cinco) anos e multa: I – recusar, cobrar valores adicionais, suspender, procrastinar, cancelar ou fazer cessar inscrição de aluno em estabelecimento de ensino de qualquer curso ou grau, público ou privado, em razão de sua deficiência”;
E a Lei nº 12.764/2012, artigo 7º, diz que “o gestor escolar, ou autoridade competente, que recusar a matrícula de aluno com transtorno do espectro autista, ou qualquer outro tipo de deficiência, será punido com multa de 3 (três) a 20 (vinte) salários-mínimos.”
O aumento no número de matrículas mostra que há um melhor entendimento de que aceitar um aluno autista na escola não é nenhum favor. É uma obrigação legal.
Mas, mesmo diante desses avanços, ainda há, segundo a defensora pública, casos de escolas que recusam a entrada do aluno de maneira velada.
📢De repente, não tem mais vaga?
Filho de Emanuel faz atividade com professora em escola comum
Arquivo pessoal
“O que tem acontecido é que, quando as famílias dizem que o filho é autista, o colégio particular diz que não tem mais vaga. E aí fica muito difícil provar que foi uma decisão motivada pela deficiência. Os pais só descobrem depois, quando veem que outra criança sem autismo conseguiu entrar na escola”, conta Tybiriça.
“Outra situação clássica é a direção tentar convencer de que não conseguirá oferecer o atendimento adequado. Expõe as dificuldades e tenta desencorajar a família."
O psicopedagogo Lucelmo Lacerda, professor da Especialização em Análise do Comportamento Aplicada (ABA) do CBI of Miami, passou por uma situação parecida com um de seus filhos, que tem autismo e foi matriculado em uma instituição de ensino comum.
“Chamavam várias e várias vezes a gente para ir buscá-lo. Havia a intenção clara de fazer com que ele não fosse mais [para as aulas], até que ele acabou mesmo saindo [do colégio]. A escola inclusiva precisa dar condições de permanência. Estar matriculado não é estar com tudo resolvido.”
Ao g1, Cláudio Vinícius Dornas, diretor da Confederação Nacional dos Estabelecimentos de Ensino (que representa cerca de 48 mil escolas privadas do país), afirmou que:
os autistas estão “em mais evidência em relação a outras deficiências, o que já traz um grande problema (…), trazendo a falsa impressão de que as outras são secundárias e de pouca importância”;
embora os colégios sejam proibidos de negar matrícula a pessoas com deficiência, não são obrigados a “elaborar um projeto pedagógico específico (…) [nem] receber de forma indiscriminada todo e qualquer tipo de pessoa deficiente [o termo ‘deficiente’ não é mais usado, e sim ‘pessoa com deficiência]”;
dependendo do grau da deficiência, “é impossível o estabelecimento de ensino suprir a demanda pedagógica daquele aluno singular” e que as escolas devem ter "uma conversa franca” com os pais, para “evitar frustrar a expectativa deles”.
A defensora pública Renata Tibyriça, no entanto, explica mais uma vez que “a escola privada, assim como a pública, não pode recusar matrícula ou apoio para os alunos com deficiência. A recusa de matrícula é crime, com penalidade administrativa e possibilidade de ação indenizatória”.
Ela diz também que a Lei Brasileira de Inclusão prevê a obrigação de realizar estudo de caso e plano de atendimento educacional especializado, e de oferecer todas as formas de apoio. “A Confenen tentou evitar a aplicação disso às escolas privadas com uma ação direta de inconstitucionalidade”, conta a defensora.
O Supremo Tribunal Federal decidiu, no entanto, em 2016, que as normas se aplicam a todos, inclusive da rede privada.
Mais abaixo, você lerá também sobre outras dificuldades para a inclusão plena.
✏️‘Eu tinha 4 autistas na sala, mas nenhuma capacitação. Eu mesma procurei uma pós’, diz professora
Os professores ouvidos pela reportagem pediram para não ser identificados e tiveram seus nomes trocados.
Mariana*, da rede pública de uma grande capital, chegou a ter quatro alunos com autismo na mesma turma.
"Um era diferente do outro: um só mexia as mãozinhas sem parar; outro era bem agressivo e jogava a mesa e a cadeira, por exemplo. Eu não queria deixar ninguém no canto da sala. A coordenação me ajudou, mas acabei correndo atrás de formação por conta própria”, relata.
“Foi um choque. O que eu ia fazer com aquelas crianças? Fui atrás de uma pós-graduação no assunto, porque sabia que ia encontrar mais alunos que precisavam de apoio.”
Ela não teve nenhuma ajuda de custo para pagar os estudos.
“Nós não temos nada: não recebemos capacitação, não temos materiais didáticos apropriados. A escola não tem verba. Queremos desenvolver nosso trabalho, mas falta auxílio do governo. O gratificante é ver, no fim do ano, que os pais não se sentiram abandonados e que a criança conseguiu se desenvolver.”
Luana*, quando estudava em um curso de formação de professores, fazia estágio obrigatório e não remunerado em uma escola pública. Aos 17 anos, mesmo sem experiência ou conhecimento adequado, ela passou a ser acompanhante de um aluno autista de 13 anos.
“A pessoa responsável parou de ir, aí me colocaram no lugar. Eu fiquei com medo, estava insegura, não tinha preparo nenhum. Ninguém quer saber se temos suporte e se o aluno vai ser bem atendido. As escolas estão cada vez mais lotadas de alunos com deficiência, mas não vejo gente qualificada em número suficiente”, conta. “Na teoria, tudo é lindo. Na prática, ninguém quer saber.”
Assim como Mariana, Luana também decidiu se instrumentalizar por conta própria e entrou na faculdade de psicologia. Atualmente, aos 23 anos, ela trabalha como mediadora de conhecimentos de um menino com TEA de 4 anos, em uma escola particular. “A família dele que me contratou, para que eu tenha contato com todas as terapeutas que o atendem. Agora, sim, me sinto mais preparada.” [entenda mais abaixo se essa prática é permitida]
No ensino médio de uma rede estadual, a professora Noêmia diz que está exausta. “Não dispomos de materiais adequados. É uma inclusão de faz de conta. Quando dá certo, é porque o professor buscou sozinho [recursos].”
Ao g1, o MEC afirmou que ações de formação docente têm sido o foco da pasta, para que “a escola seja para todos”. Disse também que ampliou, em novembro de 2023, a Política Nacional de Educação Especial na Perspectiva da Educação Inclusiva, que prevê o preparo de professores, a entrega de ônibus acessíveis e a distribuição de recursos de tecnologia assistiva, por exemplo.
🧑‍🎓Como formar professores?
O psicopedagogo Lucelmo Lacerda diz que a formação continuada (aquela que é feita ao longo da carreira do professor, mesmo depois da licenciatura) não pode ser apenas sustentada por palestras.
“Os melhores resultados vêm de onde os docentes receberam preparo. Aqui no Brasil, ficam falando só de respeitar as diferenças. O preparo vai muito além de ajudar a sensibilizar e tocar o coração dos professores. Existe ciência nisso”, afirma.
Os profissionais da educação devem aprender, tanto na universidade quanto na formação continuada, como adaptar atividades para pessoas com deficiência, de que forma agir para prevenir surtos de agressividade e como integrar os alunos com dificuldade de socialização, por exemplo.
Não existe uma fórmula pronta, até porque cada aluno com autismo é diferente do outro.
“Eu, por exemplo, sou autista nível 1 [que necessita de pouco suporte no dia a dia]. Se eu estivesse na escola, precisaria talvez de um grupo que me ajudasse nas habilidades sociais e prevenisse o bullying”, diz Lucelmo.
“Já meu filho é de nível 3 [muito suporte]. Ele não fala e não entende o que é falado. Precisa de adaptações no conteúdo: não adianta querer ensinar para ele o que é oração coordenada sindética. Tem de ensinar os nomes dos colegas, as letras. Adaptar o conteúdo mesmo.”
➡️O Parecer 50, documento com boas práticas para lidar com alunos com TEA, já foi aprovado pelo Conselho Nacional de Educação (CNE), mas falta a homologação do Ministério da Educação (MEC). Entre os defensores da inclusão, há dois grupos: os que defendem o parecer, por acreditarem que traz o embasamento científico necessário para amparar as escolas, e os que acreditam que faltou debate com educadores para a elaboração do texto.
👨‍👦Desrespeito ao direito a acompanhante
Quando comprovada a necessidade pela escola, os alunos com TEA têm, por lei, direito a dois tipos de acompanhante:
um auxiliar que ajude nas atividades do dia a dia, relacionadas à higiene e à alimentação;
um profissional que foque nas questões pedagógicas e ajude na comunicação, na concentração do estudante e na adaptação de atividades feitas pelo professor titular.
A defensora pública Renata Tibyriça costuma receber casos de pais de alunos que, mesmo mostrando ao colégio a urgência de um acompanhante ou um "mediador", ouvem um “não” como resposta. A Justiça, então, é acionada para garantir que a criança ou o adolescente receba o atendimento adequado.
E atenção: a escola não pode cobrar nenhuma taxa extra dos pais do estudante para que os serviços acima sejam prestados.
Na rede privada, principalmente, tem se tornado comum que a própria família contrate um acompanhante de confiança para estar com o aluno em sala de aula. A legislação, no entanto, reforça que isso deve ficar a cargo da instituição de ensino.
O que se espera da escola?
📝Planejamento pedagógico:
A partir de uma avaliação pedagógica, é necessário avaliar quais as maiores necessidades da criança/adolescente e definir um “plano de atendimento”. Será preciso adaptar materiais? Oferecer mais tempo para prova? Usar tecnologias assistivas?
“O problema é que, em geral, essa avaliação demora para acontecer. Ninguém sabe do que o aluno precisa, e ele acaba ficando jogado no fundo da sala”, afirma Tibyriça.
O ideal é que a escola tenha ao menos um profissional especialista em educação especial para orientar os demais professores e discutir cada caso.
✂️Adaptação de atividades e avaliações:
O importante é adaptar as atividades de acordo com as necessidades de cada aluno. É um desafio que aumenta no decorrer dos anos escolares, quando os conteúdos vão ficando mais abstratos.
Especialistas recomendam que toda a turma esteja envolvida no mesmo tema, mesmo que com diferentes abordagens. Por exemplo: se todos do 6º ano estão aprendendo a fazer contas com algarismos decimais, um aluno com deficiência que ainda não saiba somar pode ser desafiado a fazer um trabalho mais simples, também relacionado a números.
🕹️Anita Brito, citada no início da reportagem, conta que os professores de Nicolas usaram o Super Mario, “ídolo” do menino na infância, para despertar o interesse dele nas disciplinas escolares.
“Na prova de biologia, todo o conteúdo de plantas carnívoras e animais herbívoros tinha relação com o Mario. Na aula de português, meu filho aprendeu pontuação a partir de diálogos do personagem. Depois, a gente foi tirando aos poucos [as referências ao game]”, conta.
Nicolas, que atualmente trabalha como escritor, fotógrafo, artista plástico, palestrante e atendente terapêutico, lembra que o recurso realmente o ajudava a prestar mais atenção.
“Eu gostava muito do Super Mario, aí isso me ajudava a entender a lição de maneira mais clara. Ajudava na dificuldade de interpretação”, diz. “Os professores me passavam lições sem sair do assunto da matéria, mas de forma mais simplificada.”
🗣️Comunicação:
Jary, que tem autismo, estuda em escola comum de Nova Iguaçu (RJ)
Arquivo pessoal
Emanuel Santana, fundador da Adapte (startup de educação inclusiva) e pai de dois meninos com autismo e de uma menina neurotípica, defende o desenvolvimento de recursos de comunicação alternativa (como pictogramas, pranchas visuais, cartões postais, calendários e painéis ilustrativos).
“As pessoas reclamam que os autistas gritam. Mas, se você deixar uma figurinha com o desenho de uma privada, por exemplo, o aluno pode puxá-la e entregá-la para o professor [quando precisar ir ao banheiro]. É uma forma de comunicação que pode funcionar”, diz.
Um recurso semelhante deu certo com Jary, de 7 anos, filho da técnica de segurança Marilene Valladares, em Nova Iguaçu (RJ). “Na primeira escola, ele falava ‘ai, ai’ e ninguém entendia o que era. Ele estava com frio. Depois que passou a usar o tablet como comunicação alternativa, isso melhorou. Ele tem dias mais receptivos, outros menos, mas está superando nossas expectativas aos poucos.”
Questões sensoriais:
Podem ser feitas adaptações que minimizem os incômodos de alunos com TEA (muitos têm sensibilidade auditiva, visual ou tátil, por exemplo). É possível diminuir a luz da sala, colocar cadeiras com rodinhas sobre o carpete (para evitar o barulho de arrastá-las) e comprar apoios para os pés. “Se for uma demanda de mexer as mãos, a escola pode dar aquelas bolinhas de apertar. Ou, se o aluno quiser se balançar na carteira [é um movimento repetitivo comum], alguém pode levá-lo até o balanço do parquinho”, sugere Santana.
Minha experiência foi traumatizante': a importância do combate ao bullying
“Os autistas são vítimas perfeitas do bullying, diz a literatura científica. Não temos sinais físicos de deficiência e apresentamos inabilidade social. Quanto mais leve for o autismo, maior é o risco de outras crianças e jovens praticarem bullying. Nos casos mais severos, com o transtorno mais nítido, acontece menos”, conta o psicopedagogo Lucelmo, que tem TEA.
“Minha experiência foi extremamente traumatizante e violenta. Eu sofri em todas as escolas”, lembra.
Ele diz que as escolas devem investir em:
canais de denúncia de bullying;
palestras sobre diversidade que incluam famílias e alunos;
definição do que será feito caso algum episódio de discriminação aconteça;
treinamento de habilidades sociais para todos os alunos que tenham prejuízos na socialização.
E as escolas exclusivas para pessoas com deficiência? Podem existir?
Esse é um ponto sem consenso entre os especialistas:
há quem defenda a inclusão incondicional, chamando o ensino exclusivo de “excludente”;
e existem os que acreditam que, para alguns alunos com deficiência, uma instituição especializada pode trazer mais ganhos.
“O aluno tem direito de ir para a escola comum, mas pode ser que, na prática, o formato acabe não sendo tão produtivo em alguns casos. Os educadores têm de considerar essas diferenças. Alguns vão se adaptar bem, outros, não. Cada autista é único”, diz Patrícia Braga, da USP.
Lucelmo concorda e diz que nenhum país do mundo aboliu as escolas especializadas. “Vão dizer o quê? Que a Finlândia é um retrocesso na educação? A Holanda? A Suíça? É um discurso que ganha ares de progressismo, mas que não faz sentido.”
Já a defensora Renata Tibyriça enxerga a existência do ensino especializado como um estágio de transição até que as escolas comuns consigam praticar a inclusão de maneira mais efetiva.
“Talvez, essas instituições desapareçam se a educação comum realmente for para todos. Não pode haver incentivo para um sistema segregado. Essa coexistência [das duas modalidades] pode acontecer agora, mas os investimentos devem ser feitos nas escolas inclusivas.”
Atualmente, o Censo Escolar mostra que apenas 4,5% das pessoas com TEA que estão matriculadas na educação básica foram, de fato, para o ensino voltado apenas para quem tem deficiência.
Um decreto promulgado pelo então presidente Jair Bolsonaro, em setembro de 2020, incentivava a criação de classes e escolas especializadas em educação especial. O texto, criticado por especialistas por supostamente violar o direito à inclusão, foi revogado pelo presidente Lula em janeiro de 2023, assim que assumiu o mandato.
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Total de cursos superiores com avaliação satisfatória é de 26% no EAD e 38% no modelo presencial, diz MEC

Redação nota mil no Enem 2023: únicos 4 alunos de escola pública que atingiram pontuação máxima dão dicas
Índice avalia a qualidade do ensino superior no país e dá notas de 1 a 5 para os cursos. Em 2022, foram avaliados 26 cursos de bacharelado e tecnológicos, principalmente de ciências sociais e humanas, e de gestão. Sala de aula na Universidade Católica Dom Bosco (UCDB)
UCDB/Reprodução
Apenas 450 cursos de ensino superior na modalidade de educação a distância (EAD) conseguiram notas 4 ou 5 no Conceito Preliminar de Curso (CPC) do Ministério da Educação (MEC). Número divulgado nesta terça-feira (2) é referente a 2022 e representa cerca de 26,6% dos cursos EAD avaliados.
No ensino presencial, mais de 38% dos cursos tiveram avaliação 4 e 5, consideradas satisfatórias nos Indicadores de Qualidade da Educação Superior.
👉🏾 CPC é um dos indicadores usados para avaliar a qualidade da educação superior do país. Esse indicador é obtido a partir do desempenho dos alunos no Enade, da qualificação do corpo docente e dos recursos didático-pedagógicos (como laboratórios) da universidade (veja mais abaixo).
📊 É o CPC que indica a qualidade do curso. Por exemplo, quando uma universidade diz que tem um curso de direito nota 5 no MEC, é ao CPC que está se referindo.
Notas no MEC: como descobrir o conceito de um curso ou faculdade?
Em 2022, foram avaliados os seguintes cursos:
Bacharelados
Administração
Administração Pública
Ciências Contáveis
Ciências Econômicas
Comunicação Social (Jornalismo)
Comunicação Social (Publicidade e Propaganda)
Direito
Psicologia
Relações Internacionais
Secretariado Executivo
Serviço Social
Teologia
Turismo
Tecnológicos
Comércio Exterior
Design de Interiores
Design Gráfico
Design de Moda
Gastronomia
Gestão Comercial
Gestão de Qualidade
Gestão Pública
Gestão de Recursos Humanos
Gestão Financeira
Logística
Marketing
Processos Gerenciais
Abaixo, veja como os cursos, divididos por modalidade, foram avaliados em 2022:
🖥️ Cursos EAD
Nota 1 (insatisfatória): 93
Nota 2 (insatisfatória): 124.108
Nota 3 (Regular): 1.155.053
Nota 4 (Satisfatória): 159.529
Nota 5 (Satisfatória): 3.730
👨🏽‍🏫 Cursos presenciais
Nota 1 (insatisfatória): 1.322
Nota 2 (insatisfatória): 112.309
Nota 3 (Regular): 763.413
Nota 4 (Satisfatória): 584.954
Nota 5 (Satisfatória): 58.653
Entenda como é feita a avaliação
✏️O Conceito Preliminar de Curso (CPC) avalia as graduações (administração em determinada faculdade, por exemplo) e considera:
o desempenho dos alunos no Enade 2022 (prova feita no início e no fim da graduação);
a formação dos professores (se são mestres e doutores, por exemplo, e se trabalham em regime de dedicação exclusiva);
a percepção dos estudantes sobre o próprio curso (questionário respondido no Enade);
o Indicador de Diferença entre os Desempenhos Observado e Esperado (IDD), que analisa o desempenho dos alunos concluintes (Enade) e dos alunos ingressantes (Enem), para avaliar o aprendizado absorvido durante o curso.
Matrículas x CPC
Nos cursos avaliados em 2022, o número de matrículas das modalidades EAD e presencial teve pouca diferença, em uma divisão de 49% e 51% respectivamente. O que chama atenção, no entanto, é a diferença nas matrículas por faixa dos cursos.
Dos mais de 1,4 milhão de alunos matriculados em cursos EAD em 2022, apenas 11,3% estavam registrados em cursos de nota 4 ou 5.
Se comparado com o ensino presencial também em 2022, dos mais de 1,5 milhão inscritos na modalidade, 42,3% estavam em cursos de nota 4 e 5.

Portugueses falando ‘brasileiro’? Como variante do idioma usada no Brasil influencia Portugal

Redação nota mil no Enem 2023: únicos 4 alunos de escola pública que atingiram pontuação máxima dão dicas
Para além de manchetes sensacionalistas e relatos anti-imigração, qual o real potencial de crescimento do português do Brasil em Portugal? Arte com as bandeiras do Brasil e de Portugal
Getty Images
No final de janeiro, uma postagem feita por uma página portuguesa de conteúdos anti-imigração no X (antigo Twitter) denunciou a existência de uma placa de trânsito escrita em “português brasileiro” em Sintra, na área metropolitana de Lisboa.
“Sinal rodoviário escrito em português brasileiro diz que é proibida a circulação excepto a ‘trens’ e bicicletas”, diz a postagem, que traz também uma foto da placa que supostamente “assassina a língua de Camões que é o português europeu”.
O grande problema, segundo o autor do post, é que a palavra "trens" teria sido retirada do português usado no Brasil, já que em Portugal o meio de transporte ferroviário é chamado de “comboio”.
O fato, porém, é que a palavra "trem" existe também no português europeu, mas com um significado distinto.
Em Portugal, pode ser “um carro de cavalos destinado ao transporte de pessoas”, ou uma carruagem, de acordo com a definição do dicionário da Porto Editora.
Levando em conta a localização da placa, a palavra "trens" se refere às carruagens puxadas por cavalos que fazem passeios com turistas por Sintra.
O episódio faz eco a muitos outros casos de portugueses "puristas" que cada vez mais rejeitam a presença de vocabulários e construções brasileiras na língua falada em seu país.
Esse repúdio fica claro em muitas das reações às notícias e manchetes de jornal que denunciam há alguns anos a influência dos conteúdos produzidos por brasileiros nas redes sociais e no YouTube nas crianças e jovens portugueses.
Enquanto alguns veem a cobertura da imprensa como exagerada e apontam o peso da xenofobia nas visões propagadas, outros fazem coro às queixas e temem que a presença cada vez maior dos vocábulos importados seja sinal de um "apagamento" da cultura local.
Há ainda quem aponte o grande e crescente fluxo migratório — havia 360 mil brasileiros em Portugal em 2022, segundo o Itamaraty — como outro fator que contribui para isso.
Mas por que a possibilidade da variante usada no Brasil ser encontrada em Portugal provoca tanta indignação entre alguns cidadãos? E qual a verdadeira extensão dessa influência?
Para Fernando Venâncio, linguista português que estuda o tema há décadas, há sim uma presença cada vez maior de traços importados do outro lado do Atlântico no idioma falado em terras portuguesas. Mas isso não é novidade.
“Desde finais dos anos 1970 e princípios dos anos 1980, houve uma aquisição de brasileirismos gigantesca”, diz Venâncio, autor do livro O Português à Descoberta do Brasileiro.
Na época, isso foi um reflexo principalmente do sucesso das novelas brasileiras em Portugal, explica o linguista. Agora, há um fenômeno novo em curso, que envolve principalmente as crianças e adolescentes.
"Em Portugal, eles veem cada vez mais youtubers brasileiros, às vezes, por muitas horas”, diz Venâncio.
‘Aficionada pelos youtubers brasileiros’
"É exagero dizer que as crianças portuguesas passaram a falar ‘brasileiro’", diz linguista português
Getty Images
A portuguesa Paula Lourenço é professora de escolas de ensino fundamental em Sintra há 24 anos.
Ela dá aulas para crianças entre 9 e 10 anos e diz que o uso de expressões e palavras brasileiras pelos seus alunos é cada vez mais evidente.
“Neste momento, na escola, tenho um caso de um aluno que fala ‘brasileiro’ apesar de os pais serem portugueses”, conta.
A professora relata que esse aluno começou a ser vítima de uma espécie de bullying, com colegas implicando com a forma como ele fala.
"Por fim, descobrimos que ele ficava até altas horas da noite sem supervisão a ver vídeos, principalmente aqueles shorts [vídeos curtos] que são reproduzidos um atrás do outro.”
Segundo Paula, o gosto pelos vídeos produzidos por influenciadores e youtubers do Brasil é compartilhado por praticamente todos os seus alunos.
“Houve um boom principalmente durante a pandemia. Até eu já estou um pouco aficionada pelos youtubers brasileiros, porque comecei a ver para acompanhar o que meus alunos gostam”, diz a professora.
Mesmo nas aulas de inglês, a professora Teresa de Gruyter nota a repetição dos “brasileirismos”.
“Usamos muito a palavra ‘giro’ em Portugal quando queremos falar de uma coisa que achamos engraçada ou interessante. Mas quase não ouço mais. Hoje em dia, utiliza-se mais ‘é bonitinho’, que é muito mais brasileiro”, conta a portuguesa, que dá aulas principalmente para adolescentes em uma escola de línguas em Cascais.
Teresa nasceu em Portugal e se mudou para a África do Sul na década de 1990.
“Quando saí do país há 25 anos, estávamos muitos expostos ao português brasileiro através das telenovelas e das músicas", diz.
"Mas, desde a minha volta há menos de 10 anos, começo a notar que todo este mundo dos youtubers e tiktokers [produtores de conteúdo da rede social TikTok] influenciam muito mais a maneira de estar e a maneira de falar das crianças no geral.”
Graça Rio-Torto, professora de Linguística da Universidade de Coimbra, vê, no entanto, as novas construções e palavras aprendidas pelas crianças e jovens portugueses como aprendizados positivos.
“Essas palavras novas enriquecem o léxico dessas crianças e não há mal nenhum nisso”, diz ela.
"Mas se os pais portugueses têm preocupação com o fato dos seus filhos estarem a falar mais abrasileirado, lamento. Mas os responsáveis são eles. Não é tanto o contato com colegas brasileiros na escola que fazem com que elas falem assim, mas o número de horas que os pais permitem que elas fiquem na internet."
A professora Paula Lourenço concorda: “Essa influência é boa pelos conhecimentos que transmite na área no enriquecimento do vocabulário, da globalização e de conhecer outras culturas”.
“O problema são os casos extremos em que já não sabem utilizar as expressões corretas nem no português do Brasil, nem de Portugal”, afirma Lourenço.
Para a professora, são o uso excessivo de telas sem supervisão e o isolamento das crianças e adolescentes que prejudicam o aprendizado e a compreensão de textos.
Venâncio diz que o fato de jovens portugueses usarem expressões brasileiras não deveria ser motivo de alarde.
“As crianças deixam sair uma ou outra palavra que ouviram no YouTube, mas é exagero dizer que passaram a falar ‘brasileiro’.”
A cidade espanhola nos EUA onde negros eram livres 200 anos antes do fim da escravidão
‘Uma deturpação do português’
Letras penduradas no teto, em exposição no Museu da Língua Portuguesa
Renata Bitar/g1
Entre os destaques do YouTube que servem de referência para o sucesso brasileiro em Portugal estão os canais dos irmãos Felipe e Luccas Neto, com respectivamente 46 e 42 milhões de inscritos.
Ao mesmo tempo, o canal de humor Porta dos Fundos atrai o público adulto português há alguns anos.
Para a linguista brasileira Jana Behling, doutoranda na Universidade de Coimbra que estuda o tema, o “impacto do brasileiro” também pode ser notado por meio da popularidade de cantores como Marília Mendonça e até da literatura produzida por autores contemporâneos, de Itamar Vieira Júnior a livros com conteúdo religioso.
“Coimbra é sempre mais conservadora, mas ainda assim desfila o ‘brasileiro’ no Poetry SLAM, que é uma competição em que poetas leem ou recitam um trabalho original”, ressalta.
Esse sucesso não acontece sem conflitos. Apesar dos consecutivos shows esgotados em Portugal, Luccas Neto já foi repudiado por popularizar na fala portuguesa palavras brasileiras, como "geladeira" no lugar de "frigorífico", "ônibus" no lugar de "autocarro" e assim por diante.
“Alguns portugueses enxergam essa popularidade como se emporcalhasse a língua europeia”, avalia Behling.
“Isso sem falar nas gírias, típicas do despojamento de qualquer língua, mas que as xenofobias ainda olham com desdém.”
As professoras Paula Lourenço e Teresa de Gruyter afirmam ouvir com frequência reclamações de pais sobre as novas expressões adotadas pelos filhos.
“Alguns pais mais tradicionais reclamam ou corrigem os filhos quando os ouvem dizer palavras mais à brasileira”, diz de Gruyter.
“Mas tem outros pais que são bastante flexíveis, principalmente na zona do país onde eu vivo, em que existem tantos estrangeiros”.
Lourenço acrescenta que, por outro lado, muitos pais não dão atenção a isso.
“As pessoas estão tão sobrecarregadas com o trabalho que deixam os filhos ficarem horas na frente das telas e não percebem como isso os está influenciando.”
O linguista Xoán Lagares, professor da Universidade Federal Fluminense (UFF), nota que ainda “há muito preconceito em relação ao português do Brasil porque ele se diferencia em muitos pontos, sobretudo na sintaxe do que é a tradição normativa portuguesa constituída em Portugal”.
“Então, para muitos portugueses, as diferenças são identificadas como erros, como uma deturpação do português”.
Mas, segundo Lagares, especialista em história social e cultural das línguas, não existe uma versão mais correta da língua.
“No caso do português, não há uma gramática oficial. Há uma tradição normativa que se manifesta em gramáticas e dicionários”, explica.
Essa tradição tem sua origem em Portugal e foi elaborada a partir dos usos considerados de prestígio no país.
“O que aconteceu é que no Brasil foram se desenvolvendo outros usos de prestígio em relação à gramática”, diz o professor.
Por isso, vigora hoje no Brasil uma tradição normativa autoral e interpretativa, que pode variar conforme a gramática e a visão dos seus autores.
Para alguns linguistas, as diferenças entre as variedades que se estabeleceram dos dois lados do Atlântico já são tão grandes que deveria haver uma separação definitiva entre o português e o brasileiro.
“Não dá mais para dizer que falamos português do Brasil”, opina a linguista Jana Behling.
“Dou aula de 'brasileiro' hoje em dia, porque algumas pessoas acham o brasileiro mais fácil do que o português. Isso para mim indica uma ruptura.”
Xoán Lagares, porém, afirma que ainda é difícil falar em suas línguas separadas.
“Em termos de descrição linguística, não há um critério para dizer em que momento duas variantes se tornam línguas diferentes. Esse é um problema em várias partes do mundo. Por isso, muitas vezes, é apenas uma questão política.”
‘É uma moda como outra qualquer’
Mas qual a real influência do português do Brasil em Portugal, para além das críticas embutidas nas manchetes de jornais e dos "brasileirismos" denunciados nas redes sociais?
Segundo os especialistas consultados pela BBC News Brasil, é difícil prever o impacto que isso pode ter ao longo do tempo.
Até o momento, há poucas pesquisas publicadas que analisam o fenômeno – e novas expressões, palavras e estrangeirismos surgem e desaparecem nas línguas a todo tempo.
“Alguns youtubers brasileiros têm muita qualidade, e não é por acaso que as crianças assistem e também aprendem com eles”, diz Fernando Venâncio.
“Mas é impossível dizer se esse fenômeno novo vai ter futuro, porque também há alguns youtubers portugueses que estão a aprender bastante com os brasileiros e estão a produzir mais coisas com alguma qualidade.”
Para Xoán Lagares, a influência atual se dá sobretudo na sintaxe e a partir de algumas construções específicas. Ou seja, não engloba toda a língua.
“É difícil que eles mudem, por exemplo, a colocação pronominal por conta da forma usada no Brasil. Essas coisas demoram e são difíceis de acontecer”, diz.
“Veja no Brasil, onde ensinamos a questão da ênclise e até hoje não se consolidou, muitos alunos precisam ser corrigidos na escola e em redações.”
O linguista afirma ainda que o próprio preconceito demonstrado por alguns portugueses em relação à variedade brasileira deve barrar qualquer influência maior.
“Há muitas questões identitárias, de reconhecimento da própria variedade e de lealdade linguística envolvidas”, afirma.
Por sua vez, a linguista Graça Rio-Torto avalia que o inglês exerça uma influência hoje mais forte em Portugal do que o português falado no Brasil, sobretudo nas linguagens técnicas e da área de informática.
Ela é categórica ao afirmar que o português falado em Portugal não sofrerá mudanças profundas e permanentes a partir dessa influência, ao menos por enquanto.
Para ilustrar seu argumento, ela ressalta que Portugal passou por séculos de dominação estrangeira e foi colonizado por árabes e espanhóis.
"Esses fatos tiveram alguma influência sobre a língua, mas não alteraram o rumo principal das mudanças linguísticas em curso”, diz ela.
"Como linguistas, não esperaríamos que em tão pouco tempo e em um conjunto numericamente não tão significativo assim de falantes pudesse ter uma influência decisiva sobre a língua."
Havia essa mesma preocupação, segundo ela, nos anos 1970, quando as novelas brasileiras eram muito populares.
"Também se dizia que muitas construções lexicais e até gramaticais iriam ser introduzidas na variedade portuguesa. Mas não foi tanto assim", diz.
"É uma moda como outra qualquer, circunscrita no tempo."
Esta reportagem foi publicada originalmente em https://www.bbc.com/portuguese/articles/c6pkzze6484o
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Redação nota mil no Enem 2023: únicos 4 alunos de escola pública que atingiram pontuação máxima dão dicas

Redação nota mil no Enem 2023: únicos 4 alunos de escola pública que atingiram pontuação máxima dão dicas
Contagem do Inep considera apenas os que se formaram em 2023. Jovens recomendam, por exemplo, que candidatos se atentem à estrutura da redação, treinem a escrita, memorizem repertórios socioculturais e cuidem da saúde mental. Redação nota mil no Enem: alunos de escola pública que atingiram pontuação dão dicas
Entre os 2,7 milhões de candidatos que fizeram o Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) 2023, 60 tiraram a nota máxima na redação. E nesse grupo, apenas quatro – sim, isso mesmo, quatro – eram estudantes de escola pública.
Que dicas eles dão para que esse time aumente na próxima edição da prova? É claro que o ideal seria uma melhoria na qualidade dos colégios estaduais e federais – maiores investimentos em infraestrutura, aumento salarial para os professores, formação docente de qualidade e redução no número de alunos por turma, por exemplo. Mas, no âmbito individual, como se preparar para a redação e chegar ao tão sonhado "mil"?
🎖️Abaixo, veja as estratégias dos quatro “medalhistas”, conheça mais da história deles e, em seguida, leia as íntegras dos textos que escreveram no Enem.
E um detalhe: na classificação de “aluno de escola pública”, o Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep) considerou apenas os que:
concluíram o ensino médio em 2023;
e cursaram ao menos um dos três anos dessa etapa na rede pública.
Apenas quatro alunos de escola pública tiraram nota mil na redação do Enem 2023
Arquivo pessoal
1- Estude a estrutura da redação do Enem.
Gabriela Gurgel está no grupo dos únicos quatro ex-alunos de escola pública que tiraram nota mil na redação do Enem 2023
Arquivo pessoal
Gabriela Gurgel, de Natal, fez o ensino médio no Instituto Federal do Rio Grande do Norte (IFRN) e prestou o Enem como treineira em 2019, 2021 e 2022.
Foram anos de preparo para que, em 2023, ela tivesse um bom desempenho na edição que finalmente valeria uma vaga na universidade.
“Escrevia uma redação por semana e mandava para uma professora da escola, para que ela corrigisse. Ela me sugeria alguns temas; outros, eu pegava ‘por fora’”, conta Gabriela, de 20 anos.
“Uma dica para os candidatos? Eu diria para ninguém esquecer que a redação do Enem tem uma estrutura básica. Eu revisava essa parte teórica por vídeos no Youtube.”
📝Resumo da estrutura:
Texto dissertativo-argumentativo, em escrita formal da língua portuguesa (ou seja, o estudante deve argumentar para defender um ponto de vista).
Introdução: apresentação da tese e contextualização da situação-problema.
Desenvolvimento: no mínimo, dois argumentos que sustentem a tese (caprichando em exemplos e em citações de livros, filmes ou filósofos, por exemplo).
Conclusão: elaboração de uma proposta de intervenção completa (com ação, agente, meio de execução, finalidade e detalhamento), pensada para solucionar o problema proposto naquela edição da prova.
LEIA TAMBÉM: Como deve ser a conclusão perfeita de uma redação? Faça o quiz
2- Memorize previamente exemplos de repertórios culturais.
Amanda tirou nota mil na redação do Enem 2023
Arquivo pessoal
Na argumentação, como explicado acima, é importante que o candidato demonstre ter repertório sociocultural. Ou seja: ele deve citar referências que, de alguma forma, contribuam para reforçar os argumentos defendidos. Isso pode ser feito por meio de menções a filósofos, a obras de arte, a séries de TV ou a músicas, por exemplo.
Amanda Teixeira (veja vídeo no início da reportagem), de 18 anos, garantiu a nota máxima na dissertação do Enem ao caprichar nessas citações. Foi uma dica que ela aprendeu em um cursinho on-line de redação no qual estudou por um ano, enquanto terminava o ensino médio em um colégio estadual em Muqui (ES).
“Já fui para a prova com algumas ideias em mente de livros ou músicas que poderiam servir para vários temas. Acabei escolhendo citar Lévi-Strauss [antropólogo francês – 1908-2009] e Thomas Hobbes [filósofo e teórico político inglês – 1588-1679)”, conta.
A aluna explica que foram dois “divisores de águas” em seu preparo:
o curso on-line, que proporcionou conhecimentos específicos sobre redação;
e a estrutura de sua escola pública, que ofereceu aulas de reforço em português e matemática.
“É um colégio com boa gestão, que sabe aproveitar os recursos que tem e lidar com os problemas que surgem. O que ajuda também é que a minha cidade não tem problemas de grandes metrópoles, como criminalidade. Isso influencia no funcionamento das escolas”, afirma Amanda.
3- Foque em uma estratégia só.
Amanda acrescenta mais uma dica: no desespero de buscar mais fontes de informação, o ideal é não “atirar para todos os lados”.
“Quer fazer um curso? Foque no curso. Não adianta ficar atrás de vários criadores de conteúdo, porque eles vão acabar falando de coisas que você nem está estudando ainda. Bagunça a mente, sabe? O excesso de informação vai atrapalhando”, diz.
4- Leia redações nota mil de outros anos.
Maria Luiza Januzzi também tirou mil na redação do Enem 2023
Arquivo pessoal
A terceira ex-aluna de escola pública que tirou nota mil na redação do Enem 2023 foi Maria Luiza Januzzi, de Valença (RJ).
Ela conta que o colégio estadual no qual estudou tinha um diferencial: fora do horário normal, os alunos podiam tirar dúvidas ou aprender conteúdos extras com os professores.
“Era uma diferença muito grande em relação a outras escolas da região. A equipe inteira estava sempre disposta a nos ajudar”, conta. “Houve corte de verbas e turmas fechadas. Se o apoio fosse maior, ainda mais oportunidades teriam surgido [para os alunos].”
Para aumentar ainda mais as chances de uma boa nota na redação, Maria Luiza organizou sua própria rotina de estudos em casa. Chegava do colégio à tarde e cuidava de seu irmão de 2 anos durante a tarde. À noite, então, mergulhava nas videoaulas e nos treinos de escrita.
“O que fez diferença foi buscar textos ‘nota mil’ de determinado tema e comparar com o que eu havia escrito. Fui aprendendo com os meus erros.”
Leia redações nota mil do Enem 2023
5- Treine e preste atenção aos erros que você comete.
Matheus Barros cursou o ensino médio parcialmente em escola pública
Arquivo pessoal
Matheus Barros, de 17 anos, entrou no grupo de quatro ex-alunos de escola pública na contagem do Inep, mas estudou apenas o primeiro ano do ensino médio em um colégio estadual.
“Mudei para uma escola particular no meio [da etapa], porque quero fazer medicina e precisava de um estudo de mais qualidade”, explica o jovem, morador de Paraíso do Tocantins (TO).
A estratégia de preparo que ele adotou rendeu bons resultados na redação: sua nota saltou de 780 pontos para 1.000, de um ano para outro.
“Eu passava a maior parte do dia na escola. Quando não estava lá, fazia exercícios em casa. E esta é minha dica: aproveitar esse tempo de estudos para treinar e corrigir os próprios erros. Foi o que fez com que eu melhorasse tanto meu desempenho”, diz.
Amanda também seguiu essa estratégia. “É importante ter alguém que aponte suas falhas. Eu sempre errava na competência 3, porque colocava argumentos e não os desenvolvia. Mas consegui evoluir ao longo do tempo”, conta.
6- Não viva só em função dos estudos.
Passar pela maratona de Enem e vestibulares é também um desafio emocional de controlar a ansiedade. “É uma rotina estressante, associada a um medo muito grande de não passar na faculdade. É um dia a dia de privação: a gente deixa de sair, deixa de ver nossas séries”, descreve Gabriela.
Amanda também passou por esse período de estresse, e, por isso mesmo, recomenda que os candidatos do próximo Enem tentem “pegar mais leve”. Ela buscou apoio nos pais, trabalhadores rurais de Muqui.
“É preciso estudar com estratégia e não perder as coisas mais importantes da vida, como curtir a família e os amigos”, aconselha. “Não dá para viver só em função dos estudos; precisa espairecer a mente.”
É claro que não é fácil achar o equilíbrio. Maria Luiza, também do “clubinho dos nota mil”, diz que foi difícil conciliar os estudos com as obrigações do dia a dia, e ainda ter momentos de lazer.
“Mas é gratificante. Vou ser a primeira pessoa da minha família a poder fazer faculdade. Estou feliz de poder mudar esse padrão”, conta ela, que busca uma vaga em medicina.
Íntegras dos textos
Abaixo, leia as redações nota mil de Gabriela, Amanda, Maria Luiza e Matheus:
✏️Gabriela Gurgel, de Natal (RN)
Trecho da redação nota mil de Gabriela Gurgel no Enem 2023
Reprodução/Inep
A filósofa contemporânea Hannah Arendt constata, por meio do conceito denominado “banalidade do mal”, a tendência existente nas sociedades no que tange à naturalização das mazelas presentes na coletividade. Nessa vertente, percebe-se que, na realidade brasileira atual, a proposição teórica mencionada se torna evidente, sobretudo quando são considerados os entraves para o enfrentamento da invisibilidade do trabalho de cuidado realizado pelas mulheres. Com efeito, hão de ser analisados os principais intensificadores da temática em questão: o machismo estrutural e a omissão estatal.
Diante desse cenário, a persistência de um ideário preconceituoso contra o público feminino potencializa a desvalorização de atividades relacionadas ao cuidado. Nesse viés, cabe citar que durante o Período Colonial, houve a estruturação da família brasileira com valores patriarcais, de modo a haver a restrição do papel social da mulher à reprodução e aos afazeres domésticos. No entanto, apesar do lapso temporal, tais convenções ainda estão presentes no território nacional, haja vista que, segundo os dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), as mulheres se dedicariam mais que o dobro de horas semanais, em 2019, em comparação aos homens, às tarefas de cuidado. Nessa linha de raciocínio, atividades desse tipo – que incluem o trabalho com crianças, idosos, e pessoas com deficiência, assim como as demandas domésticas – são comumente vistas como uma obrigação feminina, mas, lamentavelmente, recebem um grau inferior de reconhecimento e importância. Isso se torna ainda mais claro pelo fato de muitas tarefas dessa natureza serem mal pagas ou não remuneradas, o que é extremamente preocupante em um país como o Brasil – o qual apresenta, em sua Constituição Federal de 1988, o direito à igualdade laboral.
Ademais, é imperioso mostrar a postura inerte do Estado brasileiro quanto à tentativa de invisibilização que acomete a problemática. Sob tal ótica, o sociólogo polonês Zigmunt Bauman define como “Instituições Zumbi” aquelas entidades que mantêm suas estruturas vigentes, contudo não cumprem adequadamente seus papéis sociais. Nesse sentido, o aparato estatal nacional pode ser enquadrado na visão baumaniana, tendo em vista que o trabalho do cuidado colocado em prática pelas mulheres é decorrente, em muitos contextos, da intersecção das desigualdades socioeconômicas e étnicas. Dessa forma, enquanto não for combatida a conjuntura precária vivenciada por tantas meninas e mulheres, as quais se encontram, principalmente, em situação de pobreza e de vulnerabilidade, elas continuarão inseridas em um trabalho de cuidado sem o amparo estatal necessário.
Portanto, fazem-se urgentes medidas de enfrentamento aos impasses da temática supracitada. Assim, o Ministério do Trabalho e Emprego deve realizar um registro das principais áreas com presença do trabalho de cuidado. Tal iniciativa será efetivada por intermédio de profissionais do IBGE, os quais, em parceria com o Poder Executivo, irão às residências onde as mulheres exercem suas atividades e organizarão um auxílio financeiro para ajudá-las a garantir suas dignidades enquanto cidadão. Isso poderá proporcionar melhores perspectivas de vida para o público feminino, de maneira a fragilizar o machismo e ampliar a igualdade.
✏️Maria Luiza Januzzi, de Valença (RJ)
Trecho de redação nota mil de Maria Luiza Jannuzzi no Enem 2023
Reprodução/Inep
De acordo com a pensadora brasileira Djamila Ribeiro, o primeiro passo a ser tomado para solucionar uma questão é tirá-la da invisibilidade. Porém, no contexto atual do Brasil, as mulheres enfrentam diversos desafios para que seu trabalho de cuidado seja reconhecido, gerando graves impactos em suas vidas, como a falta de destaque. Nesse sentido, essa problemática ocorre em virtude da omissão governamental e da influência midiática.
Dessa forma, em primeiro plano, é preciso atentar para o descaso estatal em relação aos obstáculos enfrentados diariamente por mulheres que trabalham como cuidadoras. Segundo John Locke, “as leis fizeram-se para os homens e não para as leis”. No entanto, a inércia governamental direcionada à tais pessoas não cumpre com o previsto na Carta Magna, visto que a falta de investimento em políticas públicas causa dificuldades no âmbito profissional deste setor – como a desvalorização salarial. Isso contribui para que suas necessidades sejam cada vez mais negligenciadas.
Além disso, a influência dos meios digitais é um fator agravante no que tange ao problema. Para Chimamanda Adichie, mudar o “status quo” – o estado atual das coisas – é sempre penoso. Essa conjuntura pode ser observada no papel que a mídia possui na luta diária de mulheres que exercem o trabalho do cuidado ou doméstico, uma vez que ela auxilia no fortalecimento de uma mentalidade social machista no país. Isso ocasionou o silenciamento da população feminina, enraizando a lógica do patriarcado na sociedade. Diante do exposto, as mulheres perdem a voz na busca por direitos profissionais na área de cuidado, ao ser propagada a ideia de que essa função é sua, e somente sua, obrigação.
Portanto, é necessário que esta situação seja dissolvida. Para isso, o governo, órgão responsável por garantir a condição e existência de todos, deve prover apoio psicológico e financeiro às cuidadoras, por meio de investimentos e pelo exercício das leis, a fim de sanar a vulnerabilidade socioeconômica existente no cotidiano desses grupos. Paralelamente, os meios de comunicação precisam combater a lógica de inferioridade e a concepção machista agregadas a este trabalho. Assim, será possível solucionar esta questão, pois será retirada do cenário de invisibilidade, como propõe Djamila.
✏️Amanda Teixeira, de Muqui (ES)
Trecho de redação nota mil de Amanda Teixeira no Enem 2023
Reprodução/Inep
Na obra intitulada “Brasil, País do Futuro”, Stefan Zweig, autor austríaco, em sua visita ao Brasil, defendeu a ideia de que o país estava destinado a ser um dos mais importantes países do mundo no futuro. No entanto, 80 anos depois, as previsões do autor ainda não se concretizaram e os desafios para enfrentar a invisibilidade do trabalho de cuidado — realizado por mulheres — são entraves para isso. Observa-se, assim, que isso ocorre porque a negligência governamental e a permanência histórica impedem a resolução da questão.
Sob esse viés, é preciso atentar para a omissão estatal presente nessa problemática. Nessa perspectiva, o pensador Thomas Hobbes afirma que o Estado é responsável por garantir o bem-estar da população. Entretanto, isso não ocorre no Brasil, pois a falta de atuação das autoridades corrobora a permanência do trabalho de cuidado não remunerado e mal pago realizado, principalmente, por mulheres — que inclui cuidar de crianças e idosos, bem como os afazeres domésticos — , visto que o governo não tem cumprido seu papel no sentido de assegurar os direitos básicos a esse grupo social, como o direito a um salário digno. Assim, as funções sociais e estatais são descumpridas, agravando o problema.
Outrossim, a permanência histórica é fator importante como constituinte desse imbróglio. Nesse sentido, consoante ao pensamento do antropólogo Claude Lévi-Strauss, só é possível compreender adequadamente as ações coletivas por meio do entendimento dos eventos históricos. Desse modo, a questão da invisibilidade do trabalho de cuidado feito por mulheres majoritariamente pobres e vítimas de descriminação de gênero, mesmo que fortemente presente no século XXI, apresenta raízes indissociáveis à história brasileira — que foi marcado pelo machismo e pelo patriarcado —, uma vez que as atividades domésticas não pagas ainda não delegadas as pessoas do sexo feminino de forma quase que exclusiva.
Faz-se necessário, portanto, que meios sejam criados para intervir nesse óbice. Logo, o Governo Federal — órgão responsável pela administração federal em todo território nacional — deve estabelecer políticas públicas que garantam a remuneração e a valorização do trabalho de cuidado, por meio da utilização de verbas governamentais para o pagamento de salários. Tal ação deve ser realizada com a finalidade de mitigar a invisibilidade dos afazeres domésticos realizados pela mulher na sociedade brasileira e, consequentemente, combater as raízes históricas presentes nessa questão. Dessarte, o Brasil poderá se tornar um “País do Futuro”, como defendido por Stefan Zweig.
✏️Matheus Almeida Barros, de Paraíso (TO)
Trecho de redação de Matheus Barros, nota mil no Enem 2023
Reprodução/Inep
Por meio do seu livro "Brasil, país do futuro" – publicado no último século – o escritor austríaco Stefan Zweig expressou a sua confiança de que a nação cresceria e se desenvolveria exponencialmente. Para além disso, nos dias atuais, a sociedade brasileira vivencia uma situação inversa, uma vez que a constante invisibilidade feminina relacionada ao trabalho de cuidado e seus impactos negativos na contemporaneidade não são características de um "país do futuro". Desse modo, algumas negligências governamentais impulsionam a desvalorização trabalhista de cuidado desempenhado pela mulher brasileira e promovem o desenvolvimento de diversas desigualdades econômicas. Logo, tanto a inefetividade das leis direcionadas ao público feminino quanto a escassez de investimentos na educação capacitiva são suscitadores da problemática.
Em primeiro plano, é imprescindível destacar a baixa eficiência das leis relacionadas ao trabalho da mulher como um fato que potencializa a invisibilidade do esforço doméstico e de cuidados desse grupo. Nesse sentido, o escritor brasileiro Gilberto Dimenstein defende que a legislação brasileira funciona somente no papel e, na prática, é ineficiente. A partir disso, tal tese pode ser comprovada por meio da má aplicação das leis trabalhistas femininas, uma vez que tais documentos não garantem, efetivamente, os direitos fundamentais da mulher, especialmente no âmbito do trabalho, e geram uma dependência dessa parcela ao cuidado doméstico, que é amplamente desvalorizado e, muitas vezes, não remunerado. Logo, tal insuficiência do sistema legislativo promove uma exploração exagerada da população feminina no país.
Além disso, vale ressaltar, ainda, a falta de verbas destinadas à educação como um fator que agrava e desvaloriza o trabalho de cuidado exercido pela mulher brasileira. Nesse sentido, o filósofo esloveno Slavoj Zizek afirma que os políticos liberais modernos priorizam interesses mercadológicos e menosprezam atitudes que beneficiem a coletividade. Dessa maneira, verifica-se uma imprudência estatal que, por sua vez, despreza a importância da educação ao não investir na capacitação feminina, o que impede a entrada desse grupo no mercado de trabalho e obriga a mulher a realizar os desvalorizados "trabalhos de cuidado". Com isso, atitudes que visem ampliar a qualidade do sistema educacional brasileiro mostram-se amplamente necessárias.
Portanto, vistos os fatores que impactam negativamente na valorização do trabalho de cuidado feminino, medidas são necessárias para combatê-los. Cabe ao governo federal a realização de fiscalizações legislativas e, por meio de inspeções e vistorias em residências de risco, verificar se as leis trabalhistas femininas estão sendo devidamente aplicadas, a fim de garantir a não exploração da mulher doméstica. Ademais, o Ministério da Educação deve, através do FUNDEB – o Fundo Nacional de Educação Básica destinar investimentos às escolas, visando promover uma capacitação geral e inserir as mulheres em um mercado de trabalho justo. Somente assim, o público feminino conquistará a devida visibilidade no âmbito do trabalho.
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