O ano que durou 445 dias por confusão no calendário

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Para domar um calendário romano irremediavelmente desorganizado, Júlio César acrescentou meses, retirou alguns e introduziu os anos bissextos. Mas todo esse grande projeto quase foi frustrado por um erro básico de contagem.
O projeto de Júlio César de organizar o confuso calendário romano quase naufragou devido a um erro básico de contagem.
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Houve uma época em que o calendário era muito confuso. A festa da celebração da colheita, por exemplo, caía no meio da primavera.
Era o século 1º a.C. Segundo os rituais, deveria haver verduras e legumes prontos para comer durante a festa. Mas bastava o agricultor olhar para o campo e ficava claro que ainda faltavam vários meses para a colheita.
O motivo era o primeiro calendário romano. Ele ficou tão desregulado que importantes festivais anuais tinham cada vez menos semelhança com o que acontecia no mundo real. Até que Júlio César (100 a.C.-44 a.C.) quis corrigir esse sistema que não fazia mais sentido.
Não era uma tarefa fácil. Era preciso acertar o calendário do Império Romano e ajustá-lo para a rotação da Terra sobre seu eixo (um dia) e sua órbita em torno do Sol (um ano).
🧮 A solução encontrada por César nos deu o ano mais longo da história. Ele acrescentou meses ao calendário e os retirou em seguida, fixou o calendário às estações e criou o ano bissexto. Foi um projeto enorme, que quase deu errado devido a uma peculiaridade da matemática romana.
Estamos em 46 a.C. – o Ano da Confusão.
Os dias de festa e de jejum, entre outras datas importantes em Roma, eram sujeitos aos caprichos de um calendário que mudava de forma imprevisível ano após ano.
Getty Images via BBC
O ano de 46 a.C. pode ter sido complicado, mas não tanto quanto o anterior, segundo a professora de história Helen Parish, visitante da Universidade de Reading, no Reino Unido.
O primeiro calendário romano era determinado pelos ciclos da Lua e do ano agrícola. Observando com os olhos modernos, a impressão é que está faltando alguma coisa.
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🗓️ O ano tinha apenas 10 meses. Ele começava em março (primavera do hemisfério norte) e o décimo mês do ano – o último – era o que conhecemos hoje como dezembro.
Seis desses meses tinham 30 dias e quatro tinham 31. Ao todo, o ano tinha 304 dias.
Como ficavam, então, os dias restantes?
"Os dois meses do ano em que não havia trabalho a se fazer no campo simplesmente não eram contados", explica Parish.
Em outras palavras, o Sol nascia e se punha, mas oficialmente não havia se passado nenhum dia no primeiro calendário romano. "Foi aí que começaram a surgir as complicações", segundo a professora.
Em 731 a.C., o segundo rei de Roma, Numa Pompílio (753 a.C.-673 a.C.), decidiu melhorar o calendário romano. Ele acrescentou meses adicionais para cobrir o período de inverno.
"Qual o propósito de um calendário que cobre apenas uma parte do ano?", questiona Parish.
A resposta de Pompílio foi acrescentar 51 dias ao calendário, criando os meses que hoje chamamos de janeiro e fevereiro. Esta extensão aumentou o ano-calendário para 355 dias. O número pode parecer estranho, mas foi escolhido de propósito.
Este número faz referência ao ano lunar (12 meses lunares), que tem 354 dias de duração. Mas, "devido à superstição romana com os números pares, foi acrescentado mais um dia, totalizando 355", segundo Parish.
Nesta reorganização, os meses foram dispostos de forma que todos tivessem números ímpares de dias, exceto fevereiro (28).
"Por isso, fevereiro é considerado de má sorte e a época de purificação social, cultural e política", segundo Parish. "É o momento em que você tenta apagar o passado."
Para a professora, o calendário de Pompílio foi um bom progresso, mas ainda faltavam cerca de 11 dias para atingir o ano solar de 365 dias e algumas horas.
👉🏾 "Mesmo esse calendário melhorado de Pompílio ainda fica dessincronizado com as estações com muita facilidade."
Perto do ano 200 a.C., o calendário estava tão adiantado que os romanos registraram como tendo ocorrido em 11 de julho um eclipse solar quase total observado em Roma no que hoje seria o dia 14 de março.
Quando o calendário atingiu esse ponto de "erro tão catastrófico", nas palavras de Parish, o imperador e os sacerdotes romanos recorreram à inserção pontual de um mês "intercalado" adicional, chamado mercedônio, para tentar realinhar o calendário às estações.
O que é o equinócio de outono, por que ele 'muda' a duração do dia e qual sua relação com o eixo da Terra?
Mas isso não funcionou muito bem. Havia, por exemplo, a tendência de acrescentar o mercedônio quando autoridades públicas favorecidas estavam no poder e não para alinhar rigorosamente o calendário às estações.
O historiador e escritor clássico Suetônio (69-c. 141) queixava-se de que "muito tempo atrás, a negligência dos pontífices havia desordenado muito [o calendário], com seu privilégio de acrescentar meses ou dias segundo sua própria vontade, de forma que os festivais da colheita não caíam no verão, nem o das uvas, no outono."
O que nos traz de volta a Júlio César.
No ano de 46 a.C., já estava programada a inclusão de um mercedônio. Mas o astrônomo Sosígenes de Alexandria, consultor de César, afirmou que o mês adicional não seria suficiente daquela vez.
Seguindo o conselho de Sosígenes, César acrescentou mais dois meses nunca vistos antes ao ano de 46 a.C. – um com 33 e outro com 34 dias – para alinhar o calendário ao Sol. Estas adições criaram o ano mais longo da história, com 445 dias, ou 15 meses.
Após 46 a.C., o mercedônio, os dois meses novos e a prática de meses intercalados como um todo foram abandonados. Se tudo corresse bem, eles não seriam mais necessários.
"Então, voltamos a ter um calendário mais parecido com o que reconhecemos", conta Parish. "Excelente! Isso parece familiar e renovador!"
Os eventos agrícolas e as comemorações religiosas eram intimamente relacionados na Roma Antiga. O difícil era acompanhar essas datas com o instável sistema de calendário da época.
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Mas, infelizmente, alinhar o calendário ao Sol é uma coisa – mantê-lo alinhado é outra, bem diferente. O inconveniente é que a quantidade de dias (rotações da Terra) em um ano (órbitas da Terra em torno do Sol) não é um número redondo.
"É onde todo o problema começa", explica o astrônomo Daniel Brown, da Universidade Trent de Nottingham, no Reino Unido. O número de rotações terrestres em uma volta do planeta em torno do Sol é de cerca de 365,2421897… dias.
Em outras palavras, a Terra acrescenta quase um quarto de volta a mais sempre que completa uma órbita em torno do Sol. Por isso, Sosígenes calculou que acrescentar um dia a cada quatro anos – em fevereiro – ajudaria a compensar o desalinhamento.
Este sistema teria funcionado muito bem, pelo menos por algum tempo, não fosse a forma idiossincrática em que os romanos contavam os anos.
"Eles olhavam para os anos e contavam: um, dois, três, quatro", explica Parish. "Depois, eles recomeçavam a partir de quatro – então, eles contavam: quatro, cinco, seis, sete. Depois, eles começavam em sete – eram sete, oito, nove, 10."
"Eles contavam acidentalmente um desses anos duas vezes. Não levou muito tempo para perceber o início do desalinhamento."
Isso foi corrigido no reinado de Augusto. Os anos bissextos passaram a acontecer a cada quatro anos em vez de três e o calendário juliano começou a funcionar bem.
"Júlio César está quase chegando aonde o calendário precisa estar", afirma Parish.
Novas correções
O calendário juliano poderia ter sido o calendário definitivo, se a rotação da Terra, de fato, completasse exatamente um quarto de volta a mais todos os anos. Mas essa diferença é um pouco menor, em cerca de 11 minutos.
"Ou seja, lentamente ainda estamos ficando dessincronizados", segundo Brown.
Os eventos agrícolas e as comemorações religiosas eram intimamente relacionados na Roma Antiga. O difícil era acompanhar essas datas com o instável sistema de calendário da época.
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A solução surgiu apenas muito tempo depois, em 1582, quando o papa Gregório 13 fez novos ajustes no calendário.
"Foi a correção feita pela reforma do calendário gregoriano – observar esse ponto e adaptar um pouco mais o calendário, cuidando para que [o ano bissexto] não seja apenas a cada quatro anos, mas para pular essa regra a cada 100 anos", explica Brown.
"Mas, depois, eles observaram que isso não coincide completamente – a compensação é excessiva. Por isso, a cada 400 anos, você não pula a regra."
É por isso que o ano 2000, por exemplo, foi bissexto: porque ele é divisível por 100 e por 400.
Para Parish, "tudo isso parece muito organizado", mas é aqui que a política começa a influenciar o curso do tempo. "É um calendário implementado por uma bula papal e, na verdade, não tem valor fora da Igreja e da tutela do bispo de Roma."
Houve pessoas que se queixaram de que o papa, na verdade, roubou 10 ou 11 dias do seu tempo ao ajustar o calendário, segundo Parish. Ainda assim, ao longo dos séculos, cada vez mais países passaram a adotar o calendário gregoriano.
"Mas, gloriosamente, eles não adotaram todos ao mesmo tempo", afirma Parish. "Se arrumou o calendário, mas passou a haver calendários em diferentes países seguindo modelos muito distintos."
Essas discrepâncias fazem com que "você possa ter a situação mais bizarra, na qual uma resposta escrita na Inglaterra para uma carta que chegou da Espanha pode parecer ter sido enviada antes da chegada da primeira", explica Parish, "porque a Inglaterra está na frente da Espanha no calendário."
Desde que foi amplamente adotado e sincronizado internacionalmente, o calendário gregoriano passou a oferecer alguns milênios de precisão. Mas ele ainda não é perfeito.
Na verdade, em meados do século 56, "alguém irá coçar a cabeça e dizer, 'espere um minuto, hoje deveria ser segunda, mas na verdade parece terça-feira'", segundo Parish. "Acho que provavelmente é uma margem de erro que iremos acabar aceitando."
Pelo menos, o calendário gregoriano nos fez ganhar algum tempo, até que chegue essa segunda-feira. Ou será que é terça?
Leia a versão original desta reportagem (em inglês) no site BBC Future.
VÍDEOS DE EDUCAÇÃO

Professora com transtorno do espectro autista usa experiência de vida para ensinar sobre diversidade no DF

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Sara Borges desenvolveu a fala aos 10 anos. Aos 37, usa voz para ensinar alunos da rede pública de Brasília. Professora com transtorno do aspectro autista usa experiência de vida para ensinar no DF
Sara Borges desenvolveu a fala aos 10 anos por causa do autismo nível 2 — em uma escala que vai de 1 a 3. Atualmente, aos 37 anos, ela usa a voz para ensinar alunos da rede pública do Distrito Federal.
"Quando eu era criança era difícil me comunicar com as pessoas, falar o que eu sinto. Eu sofria muito bullying na escola e não tinha empatia. Eu pensava 'quando eu crescer, quero ser professora porque eu quero mudar essa realidade'", conta Sara.
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Esse é o primeiro emprego da Sara, aprovada para o concurso de professora da Secretaria de Educação do DF. Além do conteúdo programado, ela aproveita a influência dentro de sala para ensinar sobre tolerância, diversidade e respeito às diferenças.
Sara Borges é professora da rede pública de educação do DF
TV Globo/Reprodução
No início do mês de março, na semana de conscientização e promoção da educação inclusiva, a professora preparou atividades para que os alunos vivenciassem como é ter algum tipo de deficiência (veja o vídeo no começo da reportagem). Os alunos aprovaram.
"A maioria do que a gente faz dentro da sala de aula, a gente faz com muitas brincadeiras. Diferente de todas as professoras, ela presta mais atenção em nós, faz aulas mais divertidas", conta Marina Sofia, de 9 anos.
"Ela é muito divertida. Faz um monte de experimentos e umas aulas muito divertidas", diz Isaac Alves, também de 9 anos.
A coordenadora da Escola Classe da Asa Sul, na região central de Brasília, Jeane Lima, diz que os ensinamentos de Sara vão além da sala de aula.
"A gente poder ver onde a Sara chegou é um exemplo para nós, para os pais da escola e para os professores. A Sara é incrível. Ela consegue ter um domínio de turma, acessar o coração das crianças. Isso, em uma sala de aula, é super importante", diz Jeane.
Sara não está sozinha nessa jornada pela diversidade. Segundo a Secretaria de Educação do Distrito Federal, na rede pública são mais de 30 mil alunos com deficiência. Desse total, são quase 9 mil com transtorno de espectro autista.
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Leia mais notícias sobre a região no g1 DF.

A cidade espanhola nos EUA onde negros eram livres 200 anos antes do fim da escravidão

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Quase 200 anos antes da abolição da escravidão, os negros que escapavam das plantações nos Estados Unidos viajavam para o sul, em direção a um lugar que prometia liberdade. A cidade de Saint Augustine é considerada o assentamento urbano mais antigo dos Estados Unidos
Alamy/BBC
Em outubro de 1687, uma canoa alcançou a costa de Saint Augustine, então um assentamento na Flórida espanhola e hoje a mais antiga cidade continuamente habitada no território continental dos Estados Unidos.
Havia oito homens e duas mulheres na canoa, um dos quais carregava uma criança pequena nos braços. Os viajantes eram fugitivos negros que escaparam da escravidão enquanto viviam em uma plantação de propriedade britânica nas Carolinas, ao norte do país.
Após desembarcarem, seguiram para o centro da cidade em busca de liberdade.
“Eles foram se apresentar diante do governador de Saint Augustine”, disse Jane Landers, professora de história na Universidade Vanderbilt e diretora do Arquivo Digital das Sociedades Escravizadas, que documenta a história dos africanos escravizados e dos seus descendentes.
“Eles lhe explicaram que estavam pedindo sua proteção e que queriam se tornar católicos”, contou a especialista.
👉 O grupo de viajantes tinha ouvido falar que aquele assentamento espanhol era um santuário religioso e oferecia liberdade a qualquer povo anteriormente escravizado que quisesse se converter ao catolicismo. Logo, outros negros escravizados das então colônias britânicas ao norte da Geórgia e das Carolinas começaram a fugir para o sul, em direção a Saint Augustine.
No Império Espanhol, o conceito de escravidão era muito mais flexível do que no Império Britânico e não se baseava na raça
Getty Images/BBC
Perigos por mar e terra
A jornada para a liberdade poderia levar uma semana ou mais e era perigosa.
Os fugitivos navegaram por pântanos e águas costeiras cheias de perigos. Jacarés, panteras e cobras venenosas os aguardavam no deserto. Nas cidades e vilas, os caçadores de escravizados rondavam as ruas.
O sol era implacável, assim como os mosquitos, e muitas vezes era difícil encontrar comida e água. Ainda assim, para muitos, a promessa de liberdade valia o risco. Às vezes, os nativos americanos Yamassee que viviam na Geórgia e nas Carolinas ajudavam os fugitivos, essencialmente criando um precursor da "Ferrovia Subterrânea" (a rede subterrânea organizada no século 19 para ajudar os escravizados a escapar das plantações do sul).
➡️ Esses 10 viajantes de canoa originais foram os primeiros a pedir asilo religioso documentado em Saint Augustine e, sem o conhecimento deles na época, lançaram as bases para uma sociedade mais justa e igualitária.
Durante os 76 anos seguintes, uma pequena comunidade de americanos negros anteriormente escravizados viveu em Saint Augustine como pessoas livres, o que transformou a cidade em um lugar diferente de qualquer outro local no sul dos Estados Unidos.
Fé acima da cor da pele
Ao contrário do sistema de escravidão baseado na raça utilizado nas colônias britânicas, a Espanha via a instituição da escravidão de forma diferente. Seguia a antiga lei romana, segundo a qual qualquer pessoa, independentemente da cor da pele, poderia ser escravizada se tivesse sido condenada ou capturada em guerras.
No entanto, de acordo com este código espanhol, as pessoas escravizadas tinham certos direitos e proteções, como o direito de serem tratadas com humanidade e de poderem recuperar a sua liberdade, por meio do serviço militar ou da conversão ao catolicismo.
Os proprietários de escravizados espanhóis também não tinham permissão para separar famílias ou vender crianças para longe dos pais.
Não se trata de cor de pele ou raça. De acordo com a lei romana, você tem direitos. Você pode denunciar maus proprietários que o maltratam e pode pedir uma mudança de propriedade.
Além da religião, a política também desempenhou um papel na visão diferente da escravatura na Espanha, uma vez que os espanhóis precisavam de mais pessoas para defender o seu território contra os britânicos, que continuaram a atacar os seus assentamentos a partir do norte.
O governador de Saint Augustine ouviu aqueles 10 pedidos de asilo e permitiu que eles ficassem por ali.
À medida que mais negros anteriormente escravizados chegavam nos anos seguintes, o rei da Espanha emitiu uma proclamação em 1693. "Se alguém foge de uma colônia protestante e chega a uma colônia católica solicitando a 'verdadeira fé', como a chamavam, essa pessoa deve ser recebida e protegida", disse Landers, que estudou registros de arquivos na Espanha para sua tese sobre o tema
“Para os britânicos, tudo girava em torno da raça e da cor da pele. Já os espanhóis diziam: 'Você é católico ou não?'”, explicou.
Protegendo sua nova casa
Em 1693, Saint Augustine era uma pequena cidade fronteiriça frequentemente atacada por piratas e tropas britânicas. Na altura em que esses primeiros requerentes de liberdade fugiram para o assentamento, o governo local decidiu ter um lugar no norte para monitorar os seus vizinhos britânicos e alertar os residentes caso tivessem de procurar abrigo.
Em março de 1738, o governador Manuel Joaquín de Montiano construiu um posto avançado ao norte de Saint Augustine chamado García Real de Santa Teresa de Mose.
Na época, cerca de 100 negros livres viviam em Saint Augustine e gozavam dos mesmos direitos que os seus vizinhos europeus. Eles ajudaram os espanhóis a construir as poucas cabanas de palha cercadas por muros de terra que se tornariam o Forte Mose.
O forte abrigava 38 homens e suas famílias, a maioria negra. Os homens serviram à milícia do Forte Mose explorando a área circundante: alguns a cavalo, alguns em canoas e alguns a pé.
Embora um oficial espanhol estivesse nominalmente encarregado do forte, um homem negro chamado Francisco Menéndez, que havia escapado de uma plantação na Carolina do Sul, era o seu capitão e líder militar de fato.
Hoje, a cidade e o Forte Mose são considerados o primeiro assentamento negro livre legalmente sancionado no que mais tarde se tornaria os EUA. Um museu interativo atualmente destaca a história do forte e exibe artefatos descobertos durante a escavação do local.
Dois anos após a construção do Forte Mose, as tropas britânicas atacaram, tomaram o local e o destruíram.
Mas apenas 16 dias depois, membros da milícia Forte Mose liderada por negros e guerreiros Yamasee se juntaram num ataque surpresa matinal para derrotar os britânicos no que hoje é conhecido como a Batalha de Bloody Mose.
Esses soldados negros e nativos se sentiram obrigados a defender o seu território, mas também os seus direitos, que sabiam que seriam melhor protegidos sob o domínio espanhol do que sob o domínio britânico.
O fim do sonho
Enquanto o Forte Mose estava em ruínas, seus ex-residentes negros retornaram para Saint Augustine, onde se casaram e se integraram à sociedade.
“Era uma comunidade muito diversificada, cultural e etnicamente, em todos os sentidos”, disse Regina Gayle Phillips, diretora executiva do Museu e Centro Cultural Lincolnville, instalado na primeira escola pública negra da região.
As exposições do lugar abrangem 450 anos, desde os impérios da África Ocidental, a presença negra na Flórida colonial e também os dias atuais.
Em 1752, o Forte Mose foi reconstruído em um local ligeiramente diferente e o governo espanhol pediu novamente a alguns residentes negros de Saint Augustine que protegessem o posto.
Quando não policiavam os britânicos, os residentes também cultivavam, caçavam, pescavam e tinham os mesmos direitos que os brancos.
Mas 11 anos depois, em 1763, os espanhóis venderam a Florida aos britânicos em um tratado de paz, extinguindo efetivamente essa pequena ilha de liberdade no que viria a ser o Sul dos Estados Unidos.
“Todos tiveram que fazer as malas e partir porque sabiam que os ingleses viriam e estabeleceriam o mesmo tipo severo de escravidão, onde seriam considerados nada mais do que propriedade”, disse Landers.
E eles fizeram as malas, partiram e seguiram para Cuba, que permaneceu sob o domínio espanhol no tratado.
“Todos em Saint Augustine se foram, até mesmo os nativos americanos”, disse Kathleen Deagan, arqueóloga e professora associada de Antropologia e História na Universidade da Flórida, que passou quase meio século desenterrando o passado de Saint Augustin.
A partir dos documentos temos a sensação de que o que eles realmente não queriam era viver sob o domínio protestante, mas certamente não queriam viver com os britânicos, os seus antigos escravizadores.
Como resultado, o Forte Mose logo foi abandonado e esquecido.
Um renascimento, mas com problemas
Quando a escravidão terminou após o fim da Guerra Civil Americana em 1865, os negros que foram trazidos para Saint Augustine sob o domínio britânico formaram uma comunidade livre.
O bairro foi inicialmente chamado de Pequena África, mas logo foi renomeado como Lincolnville, em homenagem ao presidente assassinado, Abraham Lincoln. Homens e mulheres livres alugaram terras ao longo das margens pantanosas do riacho María Sánchez, fazendo com que elas se tornassem seus lares.
“Havia laranjais, que eram divididos e alugados para pessoas a partir de US$ 1 por ano. Alguns descendentes das famílias ainda moram aqui”, disse Phillips.
Lincolnville foi listada no Registro Nacional de Locais Históricos em 1991 e hoje, o bairro de 45 quarteirões abriga muitas casas e empresas vitorianas que remontam à sua fundação por negros libertos.
Saint Augustine e seus residentes também desempenharam um papel fundamental no movimento pelos direitos civis. Em 1964, o ativista local Robert B. Hayling convidou Martin Luther King Jr. para unir forças com os moradores da cidade.
Em 9 de junho de 1964, King foi preso após se recusar a sair de um restaurante segregado em um dos hotéis da cidade, o que virou notícia nacional.
Mais tarde, seu assessor, Andrew Young, liderou uma marcha noturna de Lincolnville até a Praça da Constituição da cidade (o espaço público mais antigo dos EUA), onde foram atacados por uma multidão enfurecida, o que também foi amplamente divulgado pela mídia.
Uma escultura de bronze no extremo leste da praça exibe orgulhosamente os rostos daqueles que protestaram pacificamente durante o movimento pelos direitos civis em Saint Augustine, enquanto no extremo oeste, os visitantes podem visitar a marcha de Young pelos direitos civis seguindo as pegadas de bronze na calçada.
Um farol de liberdade
Poucos dias depois, o gerente do hotel foi fotografado derramando ácido em uma piscina onde pessoas negras e brancas nadavam juntas para protestar contra a segregação. O incidente gerou protestos que duraram dias, foram transmitidos pela televisão e chegaram às primeiras páginas dos jornais de todo o mundo.
Finalmente, em 2 de Julho, o presidente Lyndon Johnson sancionou a Lei dos Direitos Civis, que proibia a discriminação com base na raça, cor, religião, sexo ou origem nacional e inaugurou a integração de escolas e outras instalações públicas.
“Os acontecimentos em Saint Augustine foram fundamentais (para a aprovação da lei)”, disse Phillips.
Hoje, o histórico Forte Mose foi reconstruído em seu segundo local. Os visitantes podem ver representações do forte original no Museu Fort Mose e também traçar a história do primeiro assentamento africano livre legalmente sancionado em exposições interativas.
Ao longo de fevereiro, durante o Mês da História Negra, e em junho (o mês em que os britânicos atacaram o forte), atores locais reconstituem a Batalha de Bloody Mose. O Museu e Centro Cultural de Lincolnville também apresenta exposições sobre as origens da comunidade e a era dos direitos civis na cidade.
Centenas de objetos e fotografias destacam as histórias de moradores e manifestantes locais de Lincolnville, incluindo um cartão de impressões digitais da polícia que documenta a prisão de Martin Luther King.
Estamos apenas tentando garantir que as pessoas entendam a riqueza da história que começou aqui há mais de 450 anos.
Este artigo foi publicado na BBC Travel. Para ler a versão original (em inglês), clique aqui.

Desafio LED: prazo de inscrição termina neste domingo; veja o que é preciso para concorrer a até R$ 85 mil

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Prêmio total é de R$ 300 mil, que será dividido entre os participantes que apresentarem os melhores projetos com soluções para problemas da educação brasileira. Participantes do Desafio LED 2022.
Weverton Alves/Arquivo pessoal
Termina às 23h59 deste domingo (31) o período de inscrição do Desafio LED + g1 2024. A iniciativa quer ajudar estudantes com mais de 18 anos a desenvolver projetos e soluções para problemas da educação no país. As cinco melhores soluções serão premiadas em um total de R$ 300 mil.
💡 O "Desafio LED" é uma ação do Movimento LED – Luz na Educação, iniciativa da Globo e da Fundação Roberto Marinho em parceria com a escola Mastertech.
Para se inscrever, é preciso preencher o formulário oficial. Os participantes precisam ter 18 anos ou mais e estar matriculado em um curso com pelo menos 100 horas de carga horária. (Veja outros detalhes mais abaixo.)
Em sua terceira edição, o Desafio LED vai dividir o prêmio total de R$ 300 mil entre as cinco melhores ideias inscritas:
1º e 2º lugar: R$ 85 mil cada;
3º: R$ 60 mil;
4º: R$ 40 mil;
5º: R$ 30 mil.
Mas, apesar do prêmio em dinheiro, vencedores das edições anteriores da iniciativa acreditam que o maior prêmio veio da experiência como um todo.
Entre os principais benefícios listados pelos ex-participantes, estão:
Reconhecimento de capacidades e orientação para o pleno desenvolvimento das ideias;
Disponibilização de conhecimentos e ferramentas para definir e buscar os objetivos dos projetos;
Oportunidade de colocar a mão na massa;
Oportunidade de conhecer e interagir com outros jovens atuantes;
Chance de superar desafios e ampliar os horizontes.
Como montar uma ideia que tenha chances de ser a vencedora? Quais projetos já foram selecionados em concursos anteriores?
👉🏾 Veja EXEMPLOS DE PROJETOS VENCEDORES em edições anteriores:
Plataforma que conecta estudantes que usam transporte público e fazem percursos parecidos para reduzir a vulnerabilidade nas ruas – (Maria Eduarda de Carvalho – 1º lugar na edição de 2023);
Plataforma para doação, venda e aluguel de materiais de graduação entre os estudantes de faculdades públicas – (Lorena Trigueiro Rocha – 5º lugar na edição de 2023);
Projeto de mentoria para jovens de baixa renda desenvolverem planos de ação voltados para a conclusão dos estudos e para a entrada no mercado de trabalho – (Weverton Alves, 2º lugar na edição de 2022).
Desafio LED: veja como criar proposta para problemas da educação e concorra a até R$85 mil
👉🏾 Por onde COMEÇAR A MONTAR um projeto?

Camila Achutti, sócia da Mastertech, dá a primeira dica: encontrar uma ideia que tenha conexão com a própria realidade de quem vai inscrevê-la. Essa proposta precisa ter uma abordagem objetiva, ou seja, ela deve ser algo possível de colocar em prática.
Sempre esperamos ver ideias claras e viáveis, capazes de impactar positivamente milhares de pessoas.
Camila Achutti sugere que o tema seja pessoal e familiar. "Se concentre em uma experiência pessoal que o tenha levado a pensar na ideia. Esse é sempre um caminho mais seguro, pois existe um conhecimento próprio que legitima o direito de discutir a questão em questão", afirma Camila.
Maria Eduarda de Carvalho, que levou o 1º lugar em 2023, criou a "Entre Pontos", uma plataforma para conectar jovens estudantes que compartilham trajetos e rotas parecidas a fim de reduzir a vulnerabilidade nas ruas e ampliar o acesso às instituições de ensino.
A ideia surgiu da vivência pessoal de Maria Eduarda. Quando aluna do ensino médio, ela saía de casa muito cedo e se sentia vulnerável nas ruas Niterói, no Rio de Janeiro, onde mora.
"Primeiro, me surgiu a ideia de desenvolver um aplicativo de caronas, mas já existe uma ideia parecida. Então decidi migrar do transporte privado, da carona, para o transporte público, que é onde estava minha dor", explica Maria Eduarda.
Tenho uma ideia, quais os próximos passos?
Os alunos interessados em se inscrever na iniciativa precisam responder, em até 2 mil caracteres, a seguinte pergunta:
Partindo da sua experiência pessoal, qual solução você desenvolveria para melhorar a utilização da tecnologia na educação?
Pergunta motivadora do Desafio LED 2024.
Reprodução
A proposta deve ter:
Qual o problema a ser resolvido;
Como ele atinge as pessoas e afeta o cenário educacional;
Qual a proposta para resolver este problema.
A proposta deverá ser inscrita no formulário oficial do desafio (https://bit.ly/DESAFIO-LED-2024).
Quantas são as etapas e como é a seleção?
O Desafio LED possui cinco etapas, desde a inscrição até a definição dos cinco grandes vencedores. A princípio, são escolhidos 80 participantes dentre as inscrições submetidas. Ao longo das etapas, o número de participante é reduzido até restar apenas os 10 finalistas.
A cada etapa, os participantes participarão de mentorias e oficinas online que os ajudarão a descobrir e demarcar os demais objetivos e a aplicabilidade de sua ideia. Isso vai ajudar definir o formato do projeto para a apresentação final.
Durante a apresentação final dos projetos no Festival LED, no Rio de Janeiro, os ganhadores descobrirão suas respectivas colocações e seus prêmios em dinheiro, que vão de R$ 30 mil a R$ 85 mil.
Todas essas etapas são acompanhadas pelos sócios da Mastertech. Enquanto a avaliação das fases eliminatórias é liderada por Fabio Ribeiro, Camila Achutti é responsável pela liderança pedagógica do Desafio.
Cronograma e detalhamento das etapas do Desafio LED
🙋🏾‍♀️ Quem pode participar? Estudantes com mais de 18 anos. É preciso morar no Brasil e estar com matrícula ativa no primeiro semestre de 2024. São válidas matrículas em cursos livres, técnicos, de graduação ou de extensão, nacionais ou internacionais, formais ou não formais, com grade curricular mínima de 100 horas/aula.
🏆 5 ideias serão premiadas com um valor total de R$ 300 mil:
1º e 2º lugar: R$ 85 mil cada;
3º: R$ 60 mil;
4º: R$ 40 mil;
5º: R$ 30 mil.
📑 Confira em detalhes as CINCO ETAPAS do Desafio LED + g1:
Inscrição: de 1º de fevereiro a 31 de março. Nesta etapa, os candidatos preenchem o formulário de inscrição (https://bit.ly/DESAFIO-LED-2024) e respondem à pergunta “Partindo da sua experiência pessoal, qual solução você desenvolveria para melhorar a utilização da tecnologia na educação?”.
Seleção das histórias: A princípio, são escolhidas 80 participantes para a primeira oficina de inovação. Após a oficina, os candidatos fazem uma nova submissão da ideia e os 40 melhores projetos avançam para a próxima etapa.
Seleção dos projetos: é realizada uma nova oficina de inovação, com o objetivo de idealizar os protótipos dos 40 projetos. Após a oficina, os candidatos fazem uma nova submissão da ideia e os 20 melhores projetos avançam para a próxima etapa.
Seleção dos protótipos: acontece a terceira oficina de inovação, com foco em storytelling, para os candidatos adequem a apresentação dos protótipos ao evento final. Após a oficina, os candidatos fazem uma nova submissão da ideia e os 10 melhores projetos avançam para a próxima etapa.
Fase final: é feita uma mentoria individual para os 10 candidatos finais e uma apresentação para a banca, que seleciona os 5 finalistas. Os escolhidos participarão presencialmente do encerramento do Desafio LED no Rio de Janeiro, onde receberão as respectivas premiações.
📅 A seleção dos 80 participantes iniciais deve acontecer até 10 de abril, e as demais etapas ocorrem ao longo dos meses seguintes, até a seleção e divulgação dos finalistas em 8 de junho. A apresentação final do Desafio e a premiação individual acontece em 22 de junho, durante o Festival LED.

‘Nheengatu App’: conheça o 1º aplicativo voltado para o ensino de língua indígena no Brasil

‘Nheengatu App’: conheça o 1º aplicativo voltado para o ensino de língua indígena no Brasil
Ferramenta foi apresentada na Campus Party Brasília. Segundo desenvolvedora, Nheengatu já foi língua mais falada da região amazônica. Veja como funciona o 'Nheengatu App'
Além do português, estima-se que mais de 250 línguas sejam faladas no Brasil, segundo o Instituto do Patrimonio Histórico e Artístico Nacional (Iphan). Sobrevivendo ao tempo, os idiomas indígenas são parte importante da identidade do país e, pensando nisso, a pesquisadora Suellen Tobler criou o primeiro aplicativo voltado para o ensino de um idioma indígena brasileiro: o Nheengatu App.
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📱A ferramenta foi apresentada na 6ª edição da Campus Party Brasília, festival de tecnologia, criatividade e inovação que termina neste domingo (31), no Estádio Mané Garrincha;
📱Funciona assim: depois de baixar a ferramenta, o usuário tem acesso a vários exercícios com imagens, para aprender diferentes palavras e frases (veja vídeo acima);
📱Os áudios dos exercícios são feitos por George Borari, professor de Nheengatu da Escola Indígena Borari de Alter do Chão, no Baixo Tapajós;
🗣 O Nheengatu tem origem no tronco linguístico do tupi, com algumas influências do português, assim como o português brasileiro tem influências do tupi.
Segundo a desenvolvedora, o Nheengatu já foi a língua mais falada da região amazônica. "Ela já foi conhecida como 'língua geral amazônica'", diz.
"Lancei o aplicativo em outubro de 2021. Desde então, ele tem sido usado dentro de salas de aula de escolas indígenas da região do Baixo Tapajós. Essa primeira versão do aplicativo contempla apenas a variação 'Nheengatu Tapajowara', que é língua da região do Baixo Tapajós, mas existem outras variações", explica Suellen Tobler.
Ela conta que depois do lançamento do Nheengatu App, muitos povos indígenas que estão na luta pela permanência de suas culturas ficaram interessados em também fazer um aplicativo para suas próprias línguas.
"Algumas comunidades me procuraram e felizmente conseguimos viabilizar outros dois aplicativos que estão em desenvolvimento", comemora a pesquisadora.
Imagem mostra diferentes tipos de exercícios do Nheengatu App
Reprodução
Ao todo, o aplicativo conta com 6 diferentes exercícios: de memória, de selecionar palavras, de completar frases, de selecionar frases, de escrever frases, e de formar pares (veja figura acima).
Como tudo começou
A pesquisadora Suellen Tobler, à direita, e a professora Dailza Araújo, à esquerda
Arquivo pessoal
A desenvolvedora do projeto, Suellen Tobler, conta que tudo começou com o livro "Nheengatu Tapajowara", que ela ganhou de presente da professora Dailza Araújo, da escola indígena Suraraitá Tupinambá, na Aldeia São Francisco, em Santarém, no Pará.
"Fui olhar o livro e percebi que a língua Nheengatu tinha certa semelhanças com o alemão, então eu fiquei muito curiosa e resolvi procurar cursos através de aplicativos para línguas, mas não achei nenhum voltado para línguas indígenas de povos do Brasil. Mas curiosamente, achei muitos aplicativos da Bíblia Judaico Cristã traduzida para diversas línguas indígenas. Foi quando eu percebi essa problemática", conta Suellen.
O Nheengatu App foi lançado em outubro de 2021, com o apoio da Lei Aldir Blanc e da Secretaria de Cultura do Pará. Segundo Suellen, até setembro do ano passado, cerca de 2,2 mil usuários únicos da ferramenta já haviam sido registrados, mas nas comunidades, o uso do aplicativo costuma ser coletivo.
"Em sala de aula, em algumas escolas indígenas, o app é usado através do projetor. Também não são todas as pessoas que possuem dispositivos móveis, então elas costumam compartilhar os aparelhos", diz a pesquisadora.
'Quanto maior o número de falantes, mais viva a língua estará'
Imagem animada mostra funcionamento do Nheengatu App
Reprodução
Suellen conta que viajou por muitas aldeias e comunidades ribeirinhas para fazer oficinas de produção de conteúdo digital por meio de aplicativos gratuitos para celular. Assim, ela percebeu que era grande a demanda por materiais que pudessem documentar e apoiar a retomada linguística nessas regiões.
"São os anciões das comunidades que preservam o conhecimento da língua, e poucos são os jovens que falam, atualmente", explica a pesquisadora.
Suellen pontua que os jovens, não apenas os de comunidades indígenas, falam a linguagem da tecnologia. Ou seja, a informação digitalizada chega muito mais rápido para as novas gerações e este fator é fundamental para o processo de retomada linguística.
Na página inicial do Nheengatu App, o usuário vê a seguinte frase: "Com a pressão linguística civilizatória, essa língua foi silenciada ao longo do tempo, mas continua viva. Quanto maior o número de falantes, mais viva ela estará!"
👉 A ferramenta de aprendizagem está disponível para download no celular, e também pode ser acessada por meio do site.
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