Fóssil interestelar: entenda por que o Meteorito Santa Filomena é tão importante para a ciência

33 homens para cada mulher: por que urologia é especialidade tão masculina?
Corpo celeste foi encontrado no telhado de uma casa na cidade no interior de Pernambuco. Meteorito Santa Filomena fará parte de exposição no Museu Nacional
Cristina Boeckel/g1 Rio
Primeiro meteorito recuperado no Brasil desde o incêndio do Museu Nacional, o Santa Filomena foi apresentado esta semana e passou a integrar o acervo da instituição, no Rio de Janeiro.
Parece uma pedra comum, mas os 2,8 quilos têm mais história do que qualquer outra coisa na Terra. Até fósseis de dinossauro 🦕 são “bebês” 👶 perto dessa rocha, na escala astronômica.
Isso porque o Santa Filomena tem 4,56 bilhões de anos! ⌛
O Santa Filomena é formado por poeira que, aglomerada, sofreu derretimento devido às altas temperaturas próximas à estrela que se formava. Entretanto, alguns grãos se mantiveram intactos e foram incorporados em meteoritos. Esses grãos trazem informações sobre as estrelas que morreram antes do nosso Sol 🌞.
Então, tocar no Santa Filomena é tocar no passado!
Role a página e desbrave esse fóssil interestelar:

De onde veio?
📍 Por falar em vizinhos, o meteorito que caiu em Pernambuco veio de bem longe: numa região entre os planetas Marte e Júpiter, chamado de Cinturão de Asteroides.
Mas calhou de o caminho do Santa Filomena cruzar com o da Terra, e na tarde de 19 de agosto de 2020, houve o impacto 💥.
Essa pedrinha anciã estava no telhado de uma casa. Quem achou foi uma senhora, moradora da cidade. As pesquisadoras Elizabeth Zucolotto e Amanda Tosi foram as primeiras a chegar na cidade e adquirir o pedaço para o acervo do Museu Nacional.
Escrito nas estrelas
O Santa Filomena conta histórias por dentro e por fora.
A análise mineralógica da pedra não só comprova a idade. O laboratório descobriu no meteorito um componente que nem existe na Terra! É a troilita, literalmente um material extraterrestre. 👽
Do lado de fora, uma aula de astronomia: o Santa Filomena tem todos os traços de um corpo que caiu do céu — a 54.000 km/h! 🚀
Uma crosta escurecida, causada pela “queimadura” no atrito com a atmosfera.
Regmaglitos, marcas que parecem feitas com dedos, mas que são microerosões.
Linhas de fluxo, também cicatrizes da entrada na Terra, mas nas laterais da rocha — como se a incandescência fluísse por canaizinhos.
E uma “fratura exposta”, que prova que o interior é claro como o de uma pedra terrestre, possivelmente resultado do choque no telhado — mas não forte o suficiente para rompê-lo.
Luta contra as intempéries
Não à toa uma pedra é confundida com um meteorito: “São os menteoritos”, brinca Maria Elizabeth Zucolotto, do time Meteorísticas, que localizou, estudou e agora apresentou o Santa Filomena.
Elizabeth explica que “99% dos supostos meteoritos não são”. Aí a gente criou o termo menteorito. No inglês existem os meteowrongs, ante os meteorites, ou ‘meteorights’.
Exatamente porque é tão difícil achar um objeto que não seja um menteorito, Amanda Tosi explica que todo o tempo é pouco.
“Um dos fatores mais importantes quando um meteorito cai é a gente ir em busca logo em seguida”, disse.
“Esse fragmento está ‘fresco’, não vai sofrer com as intempéries, como chuva, a erosão. Tanto que o meteorito rochoso, quando ele cai e ninguém recupera, fica meses ou anos e acaba parecendo muito uma rocha terrestre”, explicou.
Um meteorito fará parte da nova coleção do Museu Nacional

Um cérebro à prova de envelhecimento

33 homens para cada mulher: por que urologia é especialidade tão masculina?
Pesquisador afirma que dormir bem é um dos segredos para se proteger do declínio cognitivo O Centro de Longevidade de Stanford criou um clube do livro para divulgar obras dedicadas ao tema. Foi assim que conheci o cientista e pesquisador Marc Milstein, que, no fim do ano passado, lançou “The age-proof brain” (“O cérebro à prova de envelhecimento”, em tradução livre). Otimista, diz que aprendemos muito nos últimos 20 anos: pelo menos, o suficiente para saber que o declínio cognitivo está fortemente associado ao estilo de vida. Portanto, as escolhas que fazemos têm a maior relevância para nosso futuro. Milstein fez a sua: passou a se empenhar para garantir noites reparadoras.
Marc Milstein, autor de“The age-proof brain”: sono e engajamento social são fundamentais
Divulgação
“Algo muito interessante acontece quando dormimos: o cérebro se retrai, é como se encolhesse. O processo elimina resíduos tóxicos, que são carregados pelo sistema glinfático”, explica.
Simplificando (muito), é como se alguém apertasse uma esponja e a sujeira descesse ralo abaixo, mas precisamos não apenas de um número suficiente de horas de descanso, mas também de um ambiente de escuridão, acrescenta:
“Qualquer fonte de luz, por menor que seja, interfere na capacidade de o cérebro atingir os estágios mais profundos do sono”.
O pesquisador defende que as crianças não deveriam acordar cedo para ir para a escola e enfatiza que o sono de qualidade não é alcançado com remédios: “esse tipo de medicamento impede o processo de limpeza e, a longo prazo, causa danos”.
Sono, comida, exercício. Ele frisa que, antes de apelar para o balcão de uma farmácia, façamos investimentos nessas três frentes, que vão beneficiar todo o organismo. No prato, grãos, legumes, verduras, peixes ricos em ômega 3 e o mínimo possível de ultraprocessados – é a chamada “mind diet”, que protege a mente. Sobre os suplementos, lembra que não há evidências que comprovem seus benefícios: “melhor fazer exame de sangue regularmente. No caso de alguma deficiência, aí a suplementação pode ajudar”. E faz restrições em relação ao álcool, já que a própria Organização Mundial da Saúde alerta que não há uma quantidade segura no que tange à ingestão de bebidas, mesmo que a dieta mediterrânea inclua uma dose diária de vinho.
A receita de Milstein inclui ainda a importância do engajamento social: quem se sente isolado e desconectado do mundo está mais propenso a perdas cognitivas.
Na sua opinião, a boa notícia é que a maioria das coisas que ajudam o cérebro é divertida. “Pense em aprender uma língua, a dançar, a praticar um esporte. Pense também no valor das conexões sociais: conversar e trocar ideias significa aprender com os outros”, afirma. Para ilustrar sua tese, cita um estudo realizado com freiras na faixa dos 80 aos 90 anos. As imagens de ressonância magnética de seus cérebros mostravam placas com acúmulo de proteínas que indicariam um declínio neurológico. No entanto, as religiosas se mantinham ativas e sem sintomas:
“O cérebro sempre busca uma maneira de otimizar seu funcionamento. Nem tudo se resume a uma imagem produzida por um exame e o engajamento social dessas freiras pode ser uma resposta”.
Milstein criou um acrônimo usando as letras da palavra BRAIN (cérebro) para servir como um guia para as pessoas:
Balance (equilíbrio): trabalhe seu equilíbrio e fique alerta a sinais de que ele está falhando.
Recall (lembrar): teste sua memória para mantê-la afiada. Um truque para fixar uma informação é se concentrar durante dez segundos no que quer reter.
Assessment (avaliação): analise com atenção seu próprio estado e o que não está funcionando, para tomar as devidas providências. Um exemplo: quem sofre de apneia noturna, uma condição que pode ser revertida, enfrenta declínio cognitivo dez anos antes do resto da população.
Intensity of walking (intensidade da caminhada): ande num ritmo vigoroso pelo menos entre seis e dez minutos por dia.
Number (número): que idade você se dá? Pesquisa mostrou que pessoas que se sentiam mais novas do que a idade cronológica que tinham exibiam um cérebro mais jovem nas imagens de ressonância magnética.
Capa do livro: como ajudar o cérebro a envelhecer de forma saudável
Reprodução

‘Ciência Aberta’: centro que abriga o Sirius terá dia exclusivo para receber escolas e grupos de alunos; saiba como se inscrever

33 homens para cada mulher: por que urologia é especialidade tão masculina?
Pela 1ª vez, evento que apresenta curiosidades e atrações da ciência terá data reservada para instituições de ensino. No sábado, 10 de agosto, CNPEM abre as portas ao público em geral. Sirius, laboratório de luz síncrotron de 4ª geração, reforça a ciência no enfrentamento do novo coronavírus
Nelson Kon
Um dos maiores centros de produção científica do Brasil, o Centro Nacional de Pesquisa em Energia e Materiais (CNPEM), que abriga o superlaboratório Sirius, em Campinas (SP), promove em agosto a 6ª edição do "Ciência Aberta", evento gratuito que oferece contato direto entre público e cientistas.
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A novidade deste ano é que o evento que apresenta curiosidades e atrações da ciência será realizado em dois dias, sendo que um deles, a sexta-feira, 9 de agosto, será excluviso para receber excursões de instituições de ensino e grupos de alunos de todo o Brasil.
As escolas e grupos interessados devem preencher o formulário na página do evento.
No sábado, dia 10 de agosto, o evento seguirá o mesmo molde das outras edições, sendo aberto ao público geral, sem necessidade de cadastramento prévio. Em 2023, o CNPEM recebeu 16 mil vistantes, que percorreram 85 atrações.
Além de atividades no Laboratório Nacional de Luz Síncrotron (LNLS), que abriga o Sirius, acelerador de partículas brasileiro, o evento apresenta atrações nas áreas de biociências, nanotecnologia e biorrenováveis.
“Tem sido muito gratificante acompanhar o crescente interesse de crianças, jovens e adultos por ciência e constatar o encantamento que toda a estrutura e o trabalho desenvolvido no CNPEM provoca nas pessoas”, comentou, em nota, Antonio José Roque da Silva, diretor-geral do CNPEM.
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"Ciência Aberta" abre as portas do CNPEM ao público
Arquivo CNPEM
O que é o Sirius?
Principal projeto científico brasileiro, o Sirius é um laboratório de luz síncrotron de 4ª geração, que atua como uma espécie de "raio X superpotente" que analisa diversos tipos de materiais em escalas de átomos e moléculas.
Para observar as estruturas, os cientistas aceleram os elétrons quase na velocidade da luz, fazendo com que percorram o túnel de 500 metros de comprimento 600 mil vezes por segundo. Depois, os elétrons são desviados para uma das estações de pesquisa, ou linhas de luz, para os experimentos.
Esse desvio é realizado com a ajuda de ímãs superpotentes, e eles são responsáveis por gerar a luz síncrotron. Apesar de extremamente brilhante, ela é invisível a olho nu. Segundo os cientistas, o feixe é 30 vezes mais fino que o diâmetro de um fio de cabelo.
Ciência Aberta – CNPEM
Dias: 9 e 10 de agosto
Local: Rua Giuseppe Máximo Scolfaro, 10.000, Polo II de Alta Tecnologia de Campinas, Campinas
Horário: no sábado, 10 de agosto, a partir das 9h, e com último horário de admissão às 15h.
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Mayaro e o que mais? Unicamp aponta possível transmissão urbana do vírus em Roraima e vê indícios de novas ameaças

33 homens para cada mulher: por que urologia é especialidade tão masculina?
Pesquisa de mestrado confirmou a circulação do vírus em humanos, mas também jogou luz sobre o surgimento de novos patógenos em uma região que tem sofrido com o desequilíbrio ambiental. Imagem de imunofluorescência do vírus mayaro em amostra de paciente de Roraima (RR) analisada por pesquisadores da Unicamp
Reprodução/Unicamp
Um estudo desenvolvido por pesquisadores do Instituto de Biologia (IB) da Unicamp confirmou a circulação do vírus mayaro entre humanos no estado de Roraima (RR). Mais do que isso, apontou uma possível transmissão urbana da doença, que provoca sintomas semelhantes aos da chikungunya, sendo identificada em moradores que não relataram qualquer atividade em áreas de mata.
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Das 822 amostras de pacientes em estado febril coletadas pelo Laboratório Central de Saúde Pública de Roraima (Lacen), entre 2018 e 2021, foram identificadas a presença do mayaro em 3,4% delas, mas em 60% dos casos, as pessoas testaram negativo para os oito vírus analisados, o que pode ser indício de circulação de novos patógenos.
"Havia o indicativo de que aquelas pessoas estavam doentes. Alguma coisa elas tiveram, a gente que não conseguiu achar", explica José Luiz Proença Módena, coordenador do Laboratório de Estudos de Vírus Emergentes (LEVE) da Unicamp.
Impacto ambiental
Vista aérea de Boa Vista, em Roraima, no dia 27 de janeiro de 2024.
Rede Amazônica
Tanto a descoberta da circulação do mayaro entre humanos em Roraima, fruto do mestrado da bióloga Julia Forato, divulgado pela revista Emerging Infectious Diseases, publicação do Centro para Controle e Prevenção de Doenças dos Estados Unidos (ou CDC, na sigla em inglês), quanto a hipótese de novas ameaças virais jogam luz sobre o mesmo problema: o desequilíbrio ambiental.
"Tudo está relacionado com o impacto ambiental. Onde tem vírus? Onde tem vida. Então falamos de uma diversidade enorme, que ainda não conhecemos. A partir do momento que o homem impacta e entra em contato com essas áreas, derruba, queima, tem um gargalo de seleção em que um desses vírus passa a infectar quem está entrando naquele ambiente", explica Módena, que complementa:
"A gente está se pondo lá. Alguns serão extintos, mas os vírus têm uma capacidade enorme de adaptação, alta taxa de mutação, e ocorre uma seleção de um que seja capaz de infectar e transmitir entre pessoas".
Em Roraima, a combinação entre áreas que sofrem com desmatamento, queimadas e exploração ilegal, como os garimpos, aliado a fluxos migratórios intensos nos últimos anos, potencializa a disseminação de vírus ou surgimento de novas ameaças.
De acordo com os pesquisadores, os dados obtidos no estudo mostram, ainda que poucos casos foram confirmados, que há um indício importante do ciclo urbano do mayaro, mas esse processo ainda precisa ser estabelecido.
Febre do Mayaro é transmitida pelo mosquito do gênero Haemagogus, mas já houve comprovação em laboratório da possiblidade de infecção do Aedes aegypti pelo MAYV
Pixabay/Divulgação
O mayaro tem como vetor o Haemagogus janthinomys, mosquito silvestre que é conhecido por disseminar a febre amarela. Em laboratório, já houve a comprovação de que é possível que outro mosquito, bem conhecido nos meios urbanos, transmitir o vírus.
Por isso mesmo, há o temor de que seja possível estabelecer uma cadeia de transmissão pelo Aedes aegypti, em evidência pelos casos de dengue, mas que também já foi um vetor da febre amarela, por exemplo.
"Essa é a principal preocupação, se o Aedes, que é mosquito urbano, é capaz de disseminar. A partir do momento que sabermos que isso acontece, não se sabe o impacto diante de uma população que nunca teve contato com esse vírus", destaca Júlia Forato.
O que se sabe sobre a doença
Mayaro: veja o que se sabe sobre o vírus que circula no Brasil
O mayaro é uma espécie de 'primo' da chikungunya e provoca as mesmas reações nos pacientes, como as febres e intensas dores musculares e articulares que podem se prolongar por meses. Há registros de complicações sérias, como hemorragia, problemas neurológicos e até a morte. Ainda não há imunização ou tratamento específico para a doença.
"Aquela doença que classicamente é leve, febril, em que uma parte das pessoas vai ter artrite, isso ocorre no contexto de poucos infectados. Com muitos infectados, começam a aparecer as complicações, os quadro neurológicos. Os problemas graves aparecerem", alerta Módena.
O vírus mayaro foi isolado pela primeira vez na década de 1950 a partir de amostras de sangue de pacientes infectados em Trinidad e Tobago, na América Central.
Mayaro, dengue, zika e chikungunya: veja semelhanças e diferenças entre os vírus transmitidos por mosquitos
Casos no Brasil foram registrados já em 1955, em um surto em Belém (PA), e posteriormente em outras partes da Amazônia e do Centro-Oeste. Houve registro de casos no Rio de Janeiro, em 2019, e um estudo da USP apontou a circulação do mayaro no interior de São Paulo.
No caso do mayaro, mamíferos – incluindo os humanos – e até aves já foram descritos como hospedeiros para o vírus, ou seja, são "reservatórios" cujo material infectado é transmitido pelos mosquitos – os insetos do gênero Haemagogus são o principal vetor.
Importância da ciência
Imagem da estrutura do vírus Mayaro. Na imagem, a partícula viral está em parte aberta para possibilitar a visualização de todas suas proteínas. Cada uma das proteínas que forma a partícula viral está representada por uma cor (verde, cinza e vermelho). Os açúcares que são ligados as proteínas estão em cor laranja.
CNPEM/MCTI
Os pesquisadores da Unicamp reforçam que o trabalho, desenvolvido com apoio de outras instituições do Brasil e do exterior, reforça a necessidade de investimento na ciência para monitoramento e conhecimento sobre os vírus emergentes.
O coordenador do LEVE ressalta que o Brasil, em virtude da sua enorme biodiversidade, é considerado pelos grandes órgãos internacionais, incluindo a Organização Mundial de Saúde (OMS), um dos hotspots, ou zona quente, para o surgimento de novos vírus.
"Por exemplo, nas amostras desse estudo, muitas foram negativas. Eram pacientes com sintomas, mas que não houve confirmação de nenhum dos oito vírus que a gente testou. A gente não sabe o que está circulando ali. Não sabemos se pode ter um vírus com potencial para provocar alguma coisa maior", alerta Módena.
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33 homens para cada mulher: por que urologia é especialidade tão masculina?

33 homens para cada mulher: por que urologia é especialidade tão masculina?
Mulheres caminham para ser maioria no exercício da Medicina no Brasil, mas na área que cuida dos órgãos do sistema urinário e reprodutivo elas ainda são ampla minoria. Urulogia abrange um espectro mais amplo de cuidados, incluindo o trato urinário e problemas relacionados, tanto em homens quanto em mulheres.
Getty Images/via BBC
Em 1990, a médica Karin Anzolch, tornou-se a primeira mulher a conquistar o primeiro lugar na prova de título de especialista em urologia, área que cuida dos órgãos do sistema urinário e reprodutivo.
Foram 12 anos de formação: cinco anos de faculdade de Medicina, mais três anos de residência em cirurgia – já que a urologia exige a especialização por englobar procedimentos cirúrgicos – e finalmente mais 3 anos de residência em urologia.
Apesar de um currículo bastante completo em mãos, sua busca pelo primeiro emprego só resultava em negativas.
"Passei meses procurando uma colocação, sem entender porque ninguém me aceitava", diz Karin.
"Depois de mais de um ano de procura, escutei de uma mulher responsável por contratar médicos para uma clínica: 'Seu currículo é ótimo, mas ninguém quer uma mulher urologista atendendo seus executivos. Você ainda é jovem, deveria considerar outra especialidade'."
Brasil tem 545,4 mil médicos; mais da metade está concentrada somente nas capitais
Karin Anzolch, de 60 anos, é urologista e atua em Porto Alegre (RS)
Arquivo Pessoal/via BBC
Assim como em outras áreas profissionais que historicamente foram consideradas ‘masculinas’, a medicina e a cirurgia enfrentaram uma evolução gradual para incluir mais mulheres.
A especialidade da urologia, situada dentro dessas disciplinas, ainda reflete resquícios dessa concepção, reforçados pela ideia limitada de que urologistas tratam apenas do aparelho genital masculino, quando na verdade abrange um espectro mais amplo de cuidados, incluindo o trato urinário e problemas relacionados, tanto em homens quanto em mulheres.
Segundo a Demografia Médica de 2023, é a especialidade médica com menos profissionais do gênero feminino.
👩‍⚕️ São 171 mulheres e 5.649 homens — ou seja, há 33 homens para cada mulher na área.
O levantamento foi feito pela AMB (Associação Médica Brasileira) e pelo Departamento de Medicina Preventiva da FMUSP (Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo), e se baseia no registro profissional de médicos e em outros estudos e levantamentos sobre os profissionais.
🩺 A urologia se destaca com a maior disparidade de gênero. Em seguida, a ortopedia e traumatologia apresentam uma relação de 12,5 homens para cada especialista mulher, enquanto na neurocirurgia, essa proporção é de 9,6 homens para cada mulher.
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Especialidades onde a equiparação já aconteceu ou está muito próxima incluem a oncologia clínica, nutrologia e gastroenterologia. Já a pediatria, dermatologia e genética médica são campos onde as especialistas são majoritariamente mulheres.
Percentual de homens na especialidade urologia
Arte BBC News Brasil
Karin diz que a resistência que recebeu como urologista recém-formada por parte dos empregadores, às vezes, se estendia aos próprios pacientes.
"Alguns ficavam surpresos ao me ver no consultório, relutavam em ser atendidos por uma mulher, e uma minoria fazia comentários desrespeitosos."
Mais de 30 anos depois, o mesmo acontecia com Fernanda Orellana, médica urologista que se tornou especialista em 2020.
🏥 "Era mais comum durante a residência, no SUS [Sistema Único de Saúde], quando os pacientes não podiam escolher o médico e não esperavam encontrar uma mulher", conta Fernanda.
"Mas, em geral, com empatia e paciência, conseguia contornar a situação. Depois de uma primeira consulta, já era comum que o paciente procurasse por mim."
Ouvindo suas colegas médicas, Karin diz perceber avanços significativos, mas que ainda hoje tem dificuldade para conseguir credibilidade.
"As decisões são questionadas e, por vezes, a liderança de uma mulher não é bem aceita. Trabalhamos para ter a credibilidade necessária, enquanto os homens muitas vezes obtêm só por serem homens", afirma.
"Atender pacientes que me procuram pelo meu trabalho, independentemente do gênero, facilita muito as coisas."
Fernanda Orellana, de 35, é medica urologista em São Paulo (SP)
Arquivo Pessoal/via BBC News Brasil
Por que a urologia é tão masculina?
A presença das mulheres na profissão médica aumentou bem gradualmente no Brasil, como aponta um artigo científico a respeito dos desafios e barreiras que médicas enfrentam em áreas dominadas por homens.
Foi só em 2009, após mais de 200 anos de existência do curso no Brasil, que o número de novas médicas superou o de novos médicos, aponta a pesquisa, apresentada em um congresso da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) – e essa tendência continua.
⚕️A Demografia Médica estima que mulheres serão maioria, quando somadas todas as especialidades, a partir de 2024.
Ainda assim, em algumas áreas, como a urologia, a diferença ainda é muito grande.
Um dos motivos está na formação exigida para se especializar neste campo.
Estudo aponta desproporção entre população e número de médicos pelo país
🥼 O primeiro passo, após se graduar em medicina, é completar uma residência de cirurgia-geral, na qual as mulheres são a minoria (23,4%) dos profissionais.
"Durante toda a graduação, sempre quis me tornar cirurgiã, e, nos anos 1980, a ideia era ainda mais desafiadora", diz Karin Anzolch, que hoje tem mais de quatro décadas de carreira como urologista.
"Fui desaconselhada por colegas e familiares, porque era considerada uma especialidade difícil demais."
O estudo da Unicamp descreve que "acredita-se, ainda hoje, que os homens são mais aptos a exercer as áreas cirúrgicas que demandam mais concentração, tempo de dedicação dos profissionais e força física".
Outro fator desestimulante, aponta o documento, é a "dupla jornada [que] também está presente na realidade da maioria das médicas, já que, além de se dedicar à carreira, a maioria ainda tem que atuar no cuidado e educação dos filhos e no cuidado da casa".
"Existem estudos que mostram que as mulheres, para serem consideradas equivalentes aos homens em termos de trabalho e competência, muitas vezes precisam ter uma titulação duas vezes maior", diz a urologista Fernanda Orellana.
"Isso varia, mas às vezes, realmente precisamos fazer mais para alcançar o mesmo reconhecimento."
Há ainda outra barreira: a ideia de que a urologia trata exclusivamente de questões relacionadas ao sistema reprodutivo masculino.
A especialidade trata de condições que afetam tanto homens quanto mulheres, como problemas nos rins, bexiga, uretra, incluindo distúrbios urinários, pedras nos rins, infecções do trato urinário, câncer urológico e incontinência urinária — tanto em homens quanto em mulheres.
"Algumas mulheres, inclusive, preferem ser atendidas por médicas, o que nos proporciona uma vantagem", diz Karin.
"Muitas urologistas acabam se dedicando à urologia funcional e feminina para atender a essa demanda específica."
Grupo de apoio
Para apoiarem umas às outras nesta área onde são minoria, as mulheres urologistas criaram um grupo carinhosamente chamado de "As Orquídeas".
Segundo Karin, o nome do grupo começou como uma brincadeira, mas hoje carrega um significado importante.
"A orquídea, apesar de ter esse aspecto de delicadeza, é uma das mais resistentes na natureza", diz.
"Os locais onde cresce e se desenvolve, muitas vezes com muito poucos nutrientes, representa cada uma de nós, em sua diversidade, resiliência e singularidades."
O grupo se reúne em congressos de Urologia e tem um canal no Whatsapp para troca de ideias, discussão de casos, dúvidas e experiências.
Com a desconstrução gradual do estigma de 'especialidade masculina', a médica observa um aumento no interesse de médicas e cirurgiãs recém-formadas pela urologia.
"É uma comunidade que oferece apoio médico, aconselhamento e até mesmo indicações de profissionais", diz Fernanda Orellana.
"Pode ser útil para médicas em formação ou residentes que têm dúvidas sobre a escolha de subáreas dentro da urologia, por exemplo."
Hoje, há 144 profissionais registradas no Orquídeas, entre médicas formadas e residentes. "No WhatsApp, esse número é maior, somos 276", diz Fernanda.
O levantamento também aponta que o Sul tem o maior número de profissionais, e o Norte, o menor.
Acre, Amapá, Rondônia e Tocantins são Estados onde não há nenhuma urologista mulher como integrante do grupo.
A maior concentração está em São Paulo (35), Rio Grande do Sul (21), Rio de Janeiro e Minas Gerais (ambos com 14 urologistas registradas).
Onde estão as urologistas mulheres
Arte BBC
As áreas mais comuns de atuação de participantes do grupo são urologia geral, urolitíase (que trata pedras nos rins) e disfunções miccionais (que trata alterações no ato de urinar).
A presença de médicas mulheres é menor na estética masculina e na uroginecologia (que foca problemas relacionados ao útero, reto, intestino e bexiga nas mulheres).
Às estudantes e novas médicas que podem se interessar pela Urologia, Karin Anzolch deixa uma mensagem encorajadora.
"No início, era como navegar por uma floresta escura. Hoje, as mulheres na urologia já conquistaram muito espaço", diz
"Se você se encantar pela urologia, ela também é para você. Quanto mais mulheres se destacarem e contribuírem para a especialidade, melhores serão as oportunidades para todas."
Levantamento comprova a distribuição desigual de médicos nas cinco regiões do Brasil