Ainda não sabemos que fatores mais afetam o declínio cognitivo quando envelhecemos

Contato com a natureza ajuda a melhorar o bem-estar dos idosos
No entanto, a atividade física, em qualquer idade, está associada ao melhor funcionamento do cérebro na velhice Pesquisadores da Ohio State University publicaram estudo, no começo do mês, no qual utilizaram modelos estatísticos para tentar relacionar fatores de risco para o declínio cognitivo em idosos norte-americanos. O objetivo era buscar um modelo que ajudasse a superar as lacunas que impedem ações preventivas mais eficazes. Nos EUA, milhões enfrentam algum tipo de declínio cognitivo na velhice, mas apenas 41% podem ser diagnosticados como demência, como as doenças de Alzheimer ou por corpos de Lewy. Pesquisas anteriores haviam identificado diversos motivos que contribuem para esse quadro, mas seu impacto permanecia pouco claro.
Idosos em mesa de bar: pesquisas tentam mapear fatores de risco que mais afetam o declínio cognitivo
Thomas G para Pixabay
Hui Zheng e seus colegas analisaram dados de 7.068 indivíduos nascidos entre 1931 e 1941 que já participavam de um grande estudo longitudinal (Health and Retirement Study). Sua capacidade mental foi regularmente avaliada entre 1996 e 2016 e, além disso, também eram coletadas informações que abrangiam de condições de saúde e socioeconômicas ao hábito de se exercitar.
Ao todo, os chamados fatores de risco respondiam por 38% da variação de pontuação que os participantes recebiam sobre suas funções cognitivas quando tinham 54 anos. Os quesitos que mais faziam diferença eram nível de escolaridade, etnia, renda, ocupação e depressão, sendo que o cenário no começo de vida tinha maior peso que doenças e comportamentos na fase adulta – como sedentarismo e tabagismo. Entretanto, os mesmos fatores só correspondiam a 5.6% na variação da pontuação na faixa entre 54 e 85 anos.
O levantamento foi divulgado na revista científica “PLOS One” e, embora não traga respostas definitivas, aponta na direção da importância da situação socioeconômica para a manutenção da capacidade intelectual. E não está sozinho: outro trabalho mostrou que uma condição econômica desfavorável está ligada a uma chance maior do surgimento de um quadro de distúrbio mental na maturidade. De acordo com esta pesquisa, publicada no “Journal of Epidemiology and Community Health”, 58% das pessoas com baixo nível de escolaridade e instabilidade econômica na faixa dos 30 desenvolviam algum tipo de distúrbio aos 52 anos.
No entanto, a atividade física, em qualquer idade, está associada ao melhor funcionamento do cérebro na velhice. Um estudo, divulgado na semana passada pelo “Journal of Neurology, Neurosurgery and Psychiatry”, afirma que, embora qualquer tipo de exercício seja benéfico, uma rotina de treinos ajuda a preservar a acuidade mental. Os pesquisadores usaram as informações de 1.417 britânicos nascidos em 1946 que eram monitorados. Relacionaram os testes cognitivos realizados quando eles tinham 69 anos com os relatos sobre atividade física aos 36, 43, 53, 60 a 64 e 69 anos. A pontuação variava de zero (sedentário em todas as idades) a cinco (ativo ao longo desse tempo) e os adeptos dos exercícios se saíram melhor na avaliação.

Nova York vai testar um projeto piloto em escolas contra o etarismo

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Estudantes do Ensino Médio terão aulas sobre o preconceito estrutural contra idosos Entre uma aula de álgebra e outra de literatura, alunos do Ensino Médio de 13 escolas do Brooklyn, em Nova York, terão aulas sobre etarismo ou ageísmo, isto é, o preconceito contra os mais velhos. Trata-se de um projeto piloto desenvolvido em parceria por dois departamentos (o equivalente a nossas secretarias): de Educação e do Envelhecimento.
Lorraine Cortés-Vázquez, responsável pelo Departamento de Envelhecimento de Nova York
Divulgação
Lorraine Cortés-Vázquez, responsável pelas ações voltadas para os cerca de 1.64 milhão de idosos de Nova York, espera que a iniciativa se espalhe por toda a cidade e ajude a aumentar a consciência sobre o preconceito. Na sua opinião, os adolescentes estão numa posição excepcional para entender a extensão dos efeitos adversos do etarismo:
“Muitos jovens já experimentaram algum tipo de preconceito e, se você sabe o que é ser ferido, marginalizado e não ter privilégios, vai refletir sobre o que significa causar esse tipo de dor”.
O programa exibirá vídeos para derrubar estereótipos negativos sobre a velhice e prevê entrevistas com idosos. Cortés-Vázquez quer ir além, promovendo o que chama de “uma conversa” entre jovens e velhos. No último verão, uma ação com adolescentes – que se inscreveram na prefeitura para uma espécie de intensivão sobre etarismo – convenceu os funcionários da secretaria a investir nos estudantes.
“Perguntamos a eles se o curso havia mudado seu modo de ver as coisas e o retorno foi surpreendente, com depoimentos emocionados”, disse Cortés-Vázquez. Michael Prayor, superintendente das escolas de Ensino Médio no Brooklyn, afirmou que o piloto representa uma “questão pessoal” para ele: “penso no meu pai, que tem 93 anos. Quero que ele viva numa sociedade na qual seja respeitado, amado e cuidado. A melhor maneira de começar a mudança é através dos jovens”.

“Não valorizamos os cuidadores porque não valorizamos as pessoas que são cuidadas por eles”

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Laura Mauldin, professora de sociologia da Universidade de Connecticut, vai lançar livro sobre a crise nessa área de atendimento Laura Mauldin é professora de sociologia da Universidade de Connecticut e pesquisa como ciência, tecnologia e medicina moldam a sociedade, mas com um enfoque que me interessou muito: o dia a dia dos indivíduos com algum tipo de deficiência e, por extensão, os cuidados que recebem e seus cuidadores. Um enorme grupo que, na sua opinião, é vítima de preconceito e falta de empatia. Antes da pandemia, ela planejou fazer um amplo levantamento das casas de portadores de alguma limitação, incluindo doenças crônicas, para documentar como o espaço era adaptado de acordo com suas necessidades. A quarentena mudou seus planos e a fez substituir as visitas por chamadas de vídeo, pedindo que as pessoas mandassem fotos acompanhadas de uma descrição.
Etiquetas nas portas dos armários para identificar seu conteúdo
Disability at Home
“Eu me deparei com soluções criativas e inovadoras para adequar as casas. Tudo fora do radar, escondido na intimidade doméstica, e logo pensei que era importante compartilhar meu achado com mais gente”, explicou.
Foi assim que criou o site Disability at Home, dividido em seções que correspondem aos cômodos de uma moradia, apresentando as adaptações – o banheiro é o lugar onde há o maior número de arranjos. São coisas simples, como adesivos nas portas dos armários da cozinha indicando o que há no seu interior, para quem é portador de demência; ou um pequeno carrinho acoplado à cadeira de rodas para que seu ocupante possa levar coisas de um canto para o outro.
Carrinho acoplado a cadeira de rodas para transportar coisas pela casa
Disability at Home
A estimativa é de que 24% dos indivíduos entre 45 e 64 anos, nos EUA, sejam cuidadores informais ou não remunerados, muitos sem recursos e em busca de soluções para as dificuldades que enfrentam. Além disso, menos de 5% das habitações são acessíveis para quem tem dificuldades moderadas de locomoção.
Mauldin sabe do que fala: aos 27 anos, se tornou cuidadora da namorada, que teve leucemia e, até a morte, sofreu com severas complicações da doença do enxerto contra o hospedeiro, depois de realizar um transplante de medula. Em 2025, vai lançar “Care Nation” (“Nação do cuidado”), sobre a falta de suporte para portadores de deficiências e seus cuidadores. Numa entrevista dada ao Stat, site norte-americano voltado à cobertura de saúde, falou sobre seu objetivo com a obra:
“Não valorizamos os cuidadores porque não valorizamos as pessoas que são cuidadas por eles. Nesse livro, quero mostrar como a crise na área do cuidado na verdade aponta para a falta de empatia e até ódio pelos doentes e portadores de deficiência. As duas coisas estão ligadas”.
Laura Mauldin, professora da Universidade de Connecticut
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Carta de uma mulher de 40 anos para seu médico

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Uma conversa que todas deveriam ter com o ginecologista ao se aproximar da menopausa. Carta para o ginecologista: uma amiga ouviu do médico que, dali em diante, “era a descida da ladeira”
StockSnap para Pixabay
Há um ano, no Dia Internacional da Mulher, eu lançava o livro “Menopausa: o momento de fazer as escolhas certas para o resto da sua vida”. Nesta coluna, faço uma homenagem a todas e volto ao tema através de uma carta fictícia, de uma paciente para o ginecologista, que põe em discussão uma etapa crucial na trajetória feminina: a menopausa.
Querido doutor E.:
Há quanto tempo nos conhecemos? Com certeza, perto de 20 anos. Você acompanhou meus namoros e a angústia sobre como praticar sexo com segurança. Esteve do meu lado durante a gestação da minha filha e trouxe ao mundo o maior presente que a vida me deu. Agora estamos a caminho de entrar numa nova etapa e precisamos ter uma conversa séria sobre o que nos espera: a menopausa.
Prefiro me antecipar antes que surjam questões que provoquem algum tipo de estresse entre nós. Uma querida amiga, dez anos mais velha que eu, ouviu do médico que, dali em diante, não tinha jeito: “era a descida da ladeira”.
Minha mãe, que nunca havia tocado no assunto, foi enfática depois das muitas perguntas que lhe fiz: “nunca me senti tão mal em minha vida. Tinha fogachos de dia e à noite, dormia pouco e me sentia deprimida, sem ânimo para nada”. Para seu ginecologista, este era o “esperado” na sua “condição”.
Bem, meu caro doutor E., quero me preparar para que isso não aconteça comigo. Acabei de me casar de novo, consegui uma promoção no trabalho, estou a mil e meus planos são de continuar assim. Comecei a pesquisar e descobri que, quando a produção do estrogênio, o principal hormônio feminino, entra em declínio, o corpo da mulher fica numa espécie de estado de privação com sérias consequências. A lista me deixou zonza: alterações no humor e libido, risco aumentado de infarto, osteoporose e síndrome metabólica, que engloba hipertensão arterial, excesso de gordura em torno da cintura e níveis elevados de colesterol e de açúcar no sangue. O tsunami vai cobrir praticamente todo o meu ser, com a honrosa exceção do clitóris – esse, felizmente, seguirá prestando seus inestimáveis serviços.
Então, vamos falar de terapia hormonal da menopausa que, simplificando, conhecemos como reposição hormonal. A não ser em casos específicos, quando é contraindicada, seus benefícios superam os riscos. Infelizmente, até hoje há médicos que citam um estudo realizado há duas décadas que alertava sobre o risco aumentado para câncer, sem refletir sobre as críticas feitas ao trabalho posteriormente: entre elas, a de que foram administradas doses muito altas de hormônio e um número significativo de participantes tinha mais de 60 anos e já estava na pós-menopausa. Hoje a reposição pode ser iniciada na "janela de tempo" antes do fim da menstruação, com grande eficácia no controle dos sintomas tão desagradáveis dessa fase.
O médico de uma prima jogou o problema no colo dela: “você decide o que quer fazer”. Como S. cursou engenharia, e não medicina, e ouviu mais considerações sobre riscos do que sobre benefícios, foi protelando a decisão e, aos 55, dez anos depois de entrar na menopausa, tinha deixado passar a tal “janela”. A ciência está do nosso lado e os tratamentos são personalizados. Entendo se disser que o mundo dos hormônios não é a sua praia, porque, convenhamos, ginecologia e obstetrícia abrangem um amplo universo de conhecimentos. Com certeza poderá me indicar, por exemplo, uma endocrinologista – cuja praia é exatamente a complexidade dos hormônios. Não pense que vou abandoná-lo. É claro que continuarei sendo assídua frequentadora do seu consultório, mantendo em dia meus exames preventivos. Mas sinto que preciso ampliar a rede de pessoas de confiança para me acompanhar daqui para a frente. Com respeito e admiração, S.

Contato com a natureza ajuda a melhorar o bem-estar dos idosos

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No Japão, o termo shinrin-yoku, o equivalente a banho de floresta, está associado à qualidade de vida dos mais velhos Sabemos dos benefícios de estar em contato com a natureza: além de respirar um ar menos poluído, trata-se de um poderoso antídoto contra o estresse. Pesquisadores de três universidades (Penn State, nos EUA, e National Open University e Lunghwa University of Science and Technology, ambas de Taiwan) se propuseram a averiguar o que poderia ser feito para maximizar os ganhos físicos e psicológicos que esse ambiente proporciona para pessoas acima dos 65 anos. O time se debruçou sobre crenças e ações de idosos que costumavam, com regularidade, estar perto da natureza. A principal descoberta do estudo foi que aqueles que aliavam tal hábito com atividades que também envolviam suas relações sociais eram os que usufruíam de maior bem-estar.
Estar em contato com a natureza: incremento no sentimento de propósito para a vida
Mariza Tavares
No Japão, o termo shinrin-yoku, o equivalente a banho de floresta, significa engajar todos os sentidos nessa experiência: sentir o cheiro, tocar as árvores, ouvir os sons de animais e riachos. Não é preciso ser adepto de longas caminhadas, ou subir encostas íngremes, apenas estar ali, 100% presente e integrado.
Quem não tem uma floresta para chamar de sua pode vivenciar o encontro com a natureza em parques ou lugares arborizados – sem contar a opção magnífica dos que vivem em cidades com praias ou nas regiões serranas. Os pesquisadores entrevistaram os frequentadores de uma área de preservação ambiental em Taiwan que costumavam ir ao local pelo menos uma vez por semana. Curiosamente, aqueles com maior ligação com o lugar – e que tinham o hábito de falar sobre suas experiências com amigos ou conhecidos que os acompanhavam nos passeios – eram os que relatavam um sentimento mais forte de que suas vidas tinham propósito e significado.
Para John Dattilo, professor da Penn State e um dos autores do trabalho, políticas públicas deveriam garantir o acesso de idosos a tais vivências: “muitos são impedidos de frequentar parques ou jardins botânicos porque moram longe, não dispõem de meios ou têm problemas de locomoção. Cabe ao Estado providenciar transporte e oportunidades para que os mais velhos possam interagir com outras pessoas, incrementando seus laços sociais”. Ele acrescentou que o levantamento também foi realizado em ambientes de dança e karaokê, atividades bastante comuns para essa faixa etária na Ásia, mas nada se comparou aos benefícios de estar próximo da natureza.
Para reforçar a importância das relações interpessoais, pesquisa envolvendo 28 mil chineses e divulgada dia 6 no “Journal of Epidemiology & Community Health”, trata do papel crucial da socialização para a longevidade. Os participantes integram um estudo de longo prazo, que começou em 1998 e passou a avaliar a qualidade do engajamento social das pessoas a partir de 2002.
Os idosos, na faixa dos 80 anos, informavam com que frequência estavam em programas em grupo, numa gradação que ia de diariamente a nunca. O monitoramento era feito por cinco anos ou até a morte do indivíduo. As taxas de mortalidade eram de 18.4 em cada 100 para os que nunca socializavam; 8.8 entre os que o faziam apenas esporadicamente; 8.3 para quem relatava alguma atividade pelo menos uma vez por mês; 7.5 para semanais; e 7.3 mortes em cada 100 para os mais sociáveis.