Terapia celular e genética, um mercado estimado em R$ 300 bi

The Last of Us: é possível que uma pandemia de fungos crie zumbis na vida real?
O desafio é democratizar o acesso de todos a essa nova fronteira da saúde, para que não se torne território exclusivo de milionários A física reinou absoluta no século XX, em aviões e computadores, mas agora a revolução científica acontece numa nova fronteira: a da biologia. A terapia celular e genética é a menina dos olhos da indústria farmacêutica, um segmento que valia US$ 7 bilhões em 2021 e que deve alcançar US$ 58 bi em 2026 (mais de R$ 300 bilhões). Nesse ecossistema – com o qual a maioria de nós tem intimidade zero – é possível, através da terapia gênica, introduzir, substituir ou remover genes de células, ajudando no tratamento de doenças até então incuráveis. Ou optar por terapias de RNA, que não causam mudanças permanentes no DNA: como acontece na vacina contra a Covid desenvolvida pela Pfizer, o RNA mensageiro transporta uma cópia de instruções genéticas com “orientações” que são utilizadas na produção de proteínas que vão atuar no combate à enfermidade.
Pesquisadora em laboratório: mercado da terapia celular e genética é estimado em 300 bilhões de reais
Michal Jarmoluk para Pixabay
Um ótimo exemplo do que, há apenas uma década, seria visto como ficção científica é o de uma vacina que, simultaneamente, destrói tumores no cérebro e treina o sistema imunológico para impedir a recorrência da enfermidade. O trabalho, divulgado no começo do mês na revista “Science Translational Medicine”, é desenvolvido no Brigham and Women´s Hospital, da Harvard University. Os testes ainda estão sendo realizados em cobaias, com resultados promissores, avalia Khalid Shah, vice-diretor de pesquisas no Departamento de Neurocirurgia:
“Estamos usando engenharia genética para reprogramar células cancerosas de forma que se tornem a própria vacina que vai combater o câncer e estimular o sistema imunológico para destruir tumores primários e prevenir a doença”.
As empresas de biofármacos apostam num leque de aplicações terapêuticas e a área da oncologia é a que recebe o maior volume de investimentos, seguida pelas pesquisas envolvendo problemas no sistema nervoso central e a oftalmologia. A Anvisa já aprovou produtos de terapia gênica: o Zolgensma, usado para tratar crianças com atrofia muscular espinhal (ao custo de R$ 6.5 milhões, é conhecido como o remédio mais caro do mundo); o Luxturna, indicado para distrofias hereditárias da retina; e o Kymriah, para o câncer hematológico. Quando o mercado ganhar escala, são esperadas drogas para um número ampliado de distúrbios, inclusive aqueles que afetam uma parcela significativa da população, como altos índices de colesterol.
No entanto, essa nova fronteira da ciência embute uma questão ética: esse território será exclusivo para milionários? A revista científica “The Lancet” lançou mês passado uma série de estudos alertando que racismo, xenofobia e discriminação são ameaças à saúde pública e devem ser objeto de mobilização mundial. De acordo com os cientistas, das doenças cardiovasculares à Covid-19, questões raciais e étnicas estão listadas como fatores de risco. Pior: a desigualdade tem criado distorções como se o produto de séculos de iniquidade fosse um aspecto genético e imutável. A série desafia isso, mostrando como privações socioeconômicas – e não características fisiológicas – são a causa de morbidades. Basta pensar numa penca de atributos que impactam a existência do ser humano: más condições de moradia, violência, poluição atmosférica, alimentação de má qualidade, falta de acesso a saúde, educação, espaços verdes, lazer…

Foco no paciente reduz o risco de readmissão hospitalar

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Cuidados devem levar em conta as características de cada pessoa e sua vulnerabilidade social No fim de dezembro, “The New England Journal of Medicine” publicou um amplo material sobre as medidas a serem tomadas para diminuir as chances de um paciente voltar a ser internado depois de receber alta, a chamada readmissão hospitalar. A “receita” não é difícil de adivinhar: é preciso levar em conta todas as características da pessoa, incluindo uma avaliação da sua vulnerabilidade social, em vez de utilizar uma mesma métrica para todos.
Foco no paciente reduz o risco de readmissão hospitalar depois da alta
Fernando Zhiminaicela para Pixabay
A Corewell Health, rede que reúne 22 hospitais nos Estados Unidos, mapeou que pacientes apresentavam mais probabilidades de enfrentar dificuldades de recuperação; em seguida, criou um plano customizado, de acordo com as necessidades de cada um. Para o grupo considerado vulnerável, foi montado um suporte de transição com a duração de um mês depois da alta. Além da abordagem interdisciplinar, com profissionais de diversas áreas, o trabalho não se limitava aos desafios clínicos: as intervenções abrangiam questões como os determinantes sociais de saúde (por exemplo, as condições da moradia).
O resultado da experiência, que se estendeu por 20 meses, não poderia ser diferente: recuperação mais rápida das pessoas e custos menores para o sistema que conseguiu evitar a reinternação. O que me leva a citar um outro estudo sobre o papel dos hospitais para reduzir a desigualdade na saúde, caso passem a avaliar os pacientes levando em conta suas necessidades sociais, como insegurança alimentar, precariedade de moradia, falta de acesso a transporte, incapacidade de pagar contas básicas e exposição à violência.
Para mudar a situação, os Estados Unidos vão adotar três medidas para produzir uma visão mais abrangente do paciente. A primeira entra em vigor este ano e estabelece o compromisso dos hospitais em cinco frentes: eleger a igualdade na saúde como prioridade estratégica; levantar as informações sociodemográficas dos pacientes; analisar o material; adotar medidas focadas em sanar disparidades na saúde; e, para fechar, exigir o comprometimento das lideranças nesse esforço. A segunda e terceira etapas serão consequências: a obrigatoriedade de os hospitais relatarem a porcentagem de adultos que foram beneficiados por essa abordagem e quantos se enquadravam num perfil vulnerável. Com certeza será preciso padronizar as ferramentas de medição, qualificar a mão de obra das instituições para que o projeto dê certo e azeitar o compartilhamento dos dados para ajustes nas políticas públicas. Torço para que funcione, embora os investimentos necessários possam se tornar um grande desafio.
O blog entra num breve recesso e a coluna voltará a ser publicada no dia 29.

As estratégias que prometem ajudar a ter ‘força de vontade infinita’

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Muitas pessoas acreditam que a força de vontade é fixa e finita. Mas podemos fazê-la crescer com a ajuda de diversas estratégias poderosas. Muitas pessoas acreditam que a força de vontade é fixa e finita. Mas podemos fazê-la crescer com a ajuda de diversas estratégias poderosas
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Todos nós enfrentamos dias difíceis que parecem surgir para testar o nosso autocontrole.
Digamos que você seja um barista, por exemplo, e alguns de seus clientes são particularmente grosseiros e exigentes, mas você consegue manter a elegância ao atendê-los.
Ou você pode estar terminando um projeto importante e precisa ficar concentrado em silêncio, sem desviar sua atenção e sem distrações.
Se você estiver de dieta, talvez você tenha passado as últimas horas resistindo ao pote de biscoitos.
Em cada um desses casos, você fez uso da sua força de vontade – a capacidade de evitar tentações de curto prazo e ignorar pensamentos, impulsos ou sentimentos indesejados, como definem os psicólogos.
Aparentemente, algumas pessoas têm reservas de força de vontade muito maiores do que outras. Elas têm mais facilidade de controlar suas emoções, evitar a procrastinação e permanecer fiéis aos seus objetivos, sempre parecendo controlar com mão de ferro o seu comportamento.
De fato, talvez você conheça alguns sortudos que, depois de um dia de trabalho duro, ainda encontram motivação para fazer algo produtivo, como exercícios físicos.
Nossas reservas de autocontrole e concentração mental são aparentemente moldadas pela mentalidade.
E estudos recentes sugerem estratégias poderosas para que qualquer pessoa consiga aumentar sua força de vontade, com imensos benefícios para a produtividade, saúde e felicidade.
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Esvaziar o ego
Até pouco tempo atrás, a teoria psicológica predominante afirmava que a força de vontade seria como uma espécie de bateria.
Você pode começar o dia com carga total, mas, sempre que precisa controlar seus pensamentos, comportamentos ou sentimentos, você gasta um pouco da energia daquela bateria.
Sem a possibilidade de descansar e recarregar, esses recursos ficam perigosamente baixos, dificultando muito manter sua paciência, concentração e resistência às tentações.
Testes de laboratório aparentemente forneceram provas deste processo. Depois de pedir aos participantes que resistissem à tentação de comer biscoitos mantidos sobre uma mesa, por exemplo, eles exibiam menos persistência para resolver um problema matemático, pois suas reservas de força de vontade haviam se esgotado.
Partindo do termo freudiano que designa a parte da mente que é responsável por controlar nossos impulsos, este processo é conhecido como "esgotamento do ego".
As pessoas com forte autocontrole podem ter maiores reservas iniciais de força de vontade, mas até elas acabam se esgotando quando colocadas sob pressão.
Mas, em 2010, a psicóloga Veronika Job publicou um estudo questionando as bases desta teoria. Ela apresentou evidências fascinantes de que o esgotamento do ego depende das crenças subjacentes das pessoas.
Job é professora de psicologia da motivação da Universidade de Viena, na Áustria. Ela começou o estudo elaborando um questionário para que os participantes avaliassem uma série de afirmações, seguindo uma escala de 1 (concordo totalmente) a 6 (discordo totalmente). As questões incluíram:
• Quando as situações que desafiam você com tentações se acumulam, fica cada vez mais difícil resistir a essas tentações.
• A atividade mental intensa esgota os seus recursos e você precisa reabastecer-se em seguida.
• Quando você acaba de resistir a uma forte tentação, você se sente fortalecido e pode suportar novas tentações.
• Sua resistência mental alimenta a si própria. Mesmo depois de um esforço mental extenuante, você consegue continuar fazendo mais.
Se você se identifica mais com as duas primeiras afirmações, considera-se que você tem uma visão "limitada" da força de vontade. Mas, se você concorda mais com as duas últimas afirmações, sua visão da força de vontade é considerada "ilimitada".
Em seguida, Job forneceu aos participantes do estudo alguns testes padrão de laboratório para examinar sua concentração mental, considerando que a concentração depende das nossas reservas de força de vontade.
Job concluiu que o desempenho das pessoas com mentalidade limitada costuma ser exatamente igual ao que seria previsto pela teoria do esgotamento do ego.
Depois de realizarem uma tarefa que exigia intensa concentração (como a correção trabalhosa de um texto maçante), elas acharam muito mais difícil prestar atenção em uma atividade subsequente do que se tivessem descansado antes.
Já as pessoas com visão ilimitada não demonstravam sinais de esgotamento do ego. Elas não exibiam declínio da sua concentração mental depois de realizarem uma atividade mentalmente exaustiva.
Aparentemente, a mentalidade dos participantes do estudo sobre a força de vontade era uma profecia autorrealizável. Se eles acreditassem que sua força de vontade se esgotava facilmente, sua capacidade de resistir a tentações e distrações se dissolvia com rapidez. Mas, se eles acreditassem que "a resistência mental se autoalimenta", era exatamente o que acontecia.
Job rapidamente reproduziu estes resultados em outros contextos. Trabalhando em conjunto com Krishna Savani, da Universidade Tecnológica Nanyang, em Singapura, ela demonstrou que as crenças sobre a força de vontade aparentemente variam de um país para outro.
Eles concluíram que a mentalidade ilimitada é mais comum entre estudantes indianos do que nos Estados Unidos, o que foi refletido em exames da resistência mental.
Nos últimos anos, alguns cientistas questionaram a confiabilidade dos testes de laboratório de esgotamento do ego. Mas Job também demonstrou que a mentalidade das pessoas sobre a força de vontade apresenta relação com muitos cenários da vida real.
Ela pediu a estudantes universitários que preenchessem questionários sobre suas atividades, duas vezes por dia, ao longo de dois períodos semanais não consecutivos. E, como se poderia esperar, alguns dias eram muito mais difíceis do que outros, gerando sentimentos de exaustão.
A maioria dos participantes recuperava-se até certo ponto durante a noite, mas os que tinham mentalidade ilimitada realmente verificavam aumento da sua produtividade no dia seguinte, como se tivessem sido energizados pelo aumento da pressão.
Novamente, parece que sua crença de que "a resistência mental alimenta a si própria" havia se tornado sua realidade.
Outros estudos demonstraram que a mentalidade sobre a força de vontade pode prever os níveis de procrastinação dos estudantes antes dos exames e suas notas finais.
Os participantes com visão ilimitada desperdiçavam menos tempo. E, ao enfrentar a alta pressão das suas aulas, os estudantes com visão ilimitada também apresentaram melhor capacidade de manter o autocontrole em outras áreas da vida. Eles demonstravam menos propensão a comer bobagens ou gastar por impulso, por exemplo.
Já os que acreditavam que sua força de vontade se esgotava facilmente com seu trabalho eram mais propensos a cometer esses vícios, talvez porque sentissem que suas reservas de autocontrole já haviam sido esgotadas pelo trabalho acadêmico.
A influência da mentalidade sobre a força de vontade também pode estender-se a muitos domínios, como os exercícios físicos.
Navin Kaushal, professor de ciências da saúde da Universidade de Indiana, nos Estados Unidos, e seus colegas demonstraram que a mentalidade pode influenciar os hábitos de exercícios das pessoas.
Aquelas que têm crenças ilimitadas sobre a força de vontade, por exemplo, têm mais facilidade de reunir a motivação para exercitar-se.
E um estudo da professora de psicologia Zoë Francis, da Universidade de Fraser Valley, no Canadá, chegou a resultados surpreendentemente similares.
Depois de acompanhar mais de 300 participantes ao longo de três semanas, ela concluiu que pessoas com mentalidade ilimitada apresentam maior disposição para exercitar-se e menos propensão a comer bobagens do que as pessoas com mentalidade limitada.
É algo revelador que essas diferenças sejam particularmente pronunciadas à noite, quando as exigências das tarefas diárias começaram a cobrar a conta daqueles que acreditam que seu autocontrole pode esgotar-se facilmente.
Como aumentar a força de vontade
Se você já tiver mentalidade ilimitada sobre a força de vontade, estas conclusões podem deixar você satisfeito. Mas o que podemos fazer se vivemos acreditando que nossas reservas de autocontrole se esgotam facilmente?
Os estudos de Job indicam que simplesmente aprender sobre estes estudos científicos de ponta, lendo textos curtos e acessíveis, pode ajudar a mudar a crença das pessoas, pelo menos no curto prazo.
Aparentemente, conhecimento é poder. Se isso for verdade, a simples leitura desta reportagem pode já ter começado a fortalecer sua resistência mental.
Você pode acelerar este processo contando a outras pessoas o que você aprendeu. Pesquisas indicam que compartilhar informações ajuda a consolidar a nossa própria mudança de mentalidade. Este fenômeno é conhecido como o efeito "falar é acreditar" e também ajuda a disseminar o comportamento positivo entre as pessoas.
As lições sobre a natureza ilimitada da força de vontade podem ser aprendidas desde a infância.
Pesquisadores da Universidade Stanford e da Universidade da Pensilvânia, ambas nos Estados Unidos, elaboraram recentemente um livro infantil para ensinar às crianças em idade pré-escolar a ideia de que exercitar a força de vontade pode ser energizante, e não exaustivo, e que o autocontrole pode aumentar quanto mais o praticarmos.
As crianças que ouviram a história demonstraram maior autocontrole em um teste de "gratificação postergada" que foi aplicado em seguida, em comparação com seus colegas que haviam ouvido uma história diferente.
O teste ofereceu a elas a possibilidade de dispensar um pequeno presente no momento para receber um brinde maior posteriormente.
Uma estratégia útil para mudar sua mentalidade pode ser relembrar uma ocasião em que você trabalhou em uma tarefa mentalmente desgastante pelo puro prazer da atividade.
Pode ter sido uma tarefa no trabalho, por exemplo, que outras pessoas aparentemente achavam difícil, mas que você achou gratificante. Ou, talvez, um hobby, como aprender uma nova música no piano, que exige intensa concentração, mas parece simples para você.
Um estudo recente concluiu que praticar este tipo de recordação altera naturalmente as crenças das pessoas em direção à mentalidade ilimitada, já que elas conseguem ver provas da sua própria resistência mental.
Para obter mais evidências, você pode começar com pequenos testes de autocontrole que tragam uma mudança desejada na sua vida – como evitar comer bobagens por duas semanas, afastar-se das redes sociais durante o trabalho ou demonstrar mais paciência com um ente querido irritante, por exemplo.
Depois de provar a si próprio que a sua força de vontade pode aumentar, pode ficar mais fácil resistir a outros tipos de tentação ou distrações.
Você não pode esperar que aconteça um milagre imediatamente. Mas, com perseverança, você deve observar sua mudança de mentalidade e, com ela, o aumento da capacidade de controlar seus pensamentos, sensações e comportamento. Assim, suas ações irão impulsionar você rumo aos seus objetivos.
* David Robson é escritor de ciências e autor do livro O efeito da expectativa: como o seu pensamento pode transformar sua vida (em tradução livre do inglês), publicado no Reino Unido pela editora Canongate e, nos EUA, pela Henry Holt. Sua conta no Twitter é @d_a_robson.
Leia a versão original desta reportagem (em inglês) no site BBC Worklife.

Parabéns pelos 100 anos!

The Last of Us: é possível que uma pandemia de fungos crie zumbis na vida real?
Centenários deveriam receber homenagens especiais no dia do seu aniversário No Reino Unido, o cargo de monarca agora é de Charles III, mas um compromisso assumido pela rainha Elizabeth II, em sete décadas de reinado, se mantém inalterado: quem chega aos 100 recebe uma mensagem de congratulação pela data. Há inclusive um “Escritório de Aniversários”, que funciona no Palácio de Buckingham, dedicado ao assunto. As regras são claras: tem direito à cartinha quem completa 100 e 105 anos. Depois dos 105, a pessoa alcança um status especial e é agraciada com o mimo até o fim da vida.
Chegar aos 100: marca de longevidade deveria render homenagens
Rostislav Uzunov para Pixabay
Quem é pensionista e mora no Reino Unido não precisa sequer fazer o pedido para ser lembrado, porque o sistema se encarrega de tudo. No entanto, mesmo quem não se enquadra nesse perfil pode requisitar a mensagem do rei (e da rainha consorte) escrevendo para o escritório, o que inclui habitantes de Austrália, Canadá e Nova Zelândia. Casais que festejam 60, 65 e 70 anos de casamento também são presenteados – depois do 70º. aniversário de bodas, anualmente.
De acordo com a Organização das Nações Unidas, há 400 mil centenários no mundo. Os Estados Unidos reúnem o maior número deles: quase 100 mil, embora o Japão seja o país com o maior percentual da população na faixa etária acima dos 100. No Brasil, a estimativa é de cerca de 25 mil. Se a pessoa chega aos 110 anos, torna-se um supercentenário.
No estado norte-americano de Oklahoma, um grupo de voluntários se desloca para as cidades dos aniversariantes para garantir que ninguém chegue aos 100 sem a devida comemoração. Criada em 1991, a Centenarians of Oklahoma prestou homenagens a mais de 2.700 idosos. A presidente da entidade é Gloria Helmuth, que ainda está longe da marca mas, aos 82 anos, já participou de centenas de tributos. O presente consiste em biografia, certificado e pin.
Quando um centenário morre, os voluntários encaminham seus dados biográficos para a biblioteca da universidade estadual. A organização vem colecionando conselhos que eles dão sobre longevidade. Há desde frases como “trabalhe duro e economize” a tiradas filosóficas, como “não se preocupe com o que você não pode mudar”. Eu proponho que façamos o mesmo com os bravos guerreiros e guerreiras que alcancem esse marco!

The Last of Us: é possível que uma pandemia de fungos crie zumbis na vida real?

The Last of Us: é possível que uma pandemia de fungos crie zumbis na vida real?
Os fungos do gênero Cordyceps, retratados na série, existem de verdade. E, na vida real, eles de fato transformam suas vítimas em 'zumbis'. A serie The Last of Us imagina como seria uma contaminação por fungos Cordyceps em humanos
DIVULGAÇÃO/HBO/WARNER MEDIA/LIANE HENTSCHER
A nova série The Last of US, da HBO, apresenta um cenário pós-apocalíptico em que há milhares de pessoas transformadas em zumbis após uma infecção por um fungo se tornar uma pandemia. A série foi a segunda maior estreia deste ano da plataforma HBO MAX e o terceiro episódio fica disponível neste domingo (28).
O cenário pode ser fantasioso, mas o tipo de fungo representado na série existe de verdade. São fungos dos gêneros Cordyceps e Ophiocordyceps e na vida real eles realmente transformam suas vítimas em zumbis.
Os esporos deste tipo de fungo entram no corpo da vítima, onde o fungo cresce e começa a sequestrar a mente de seu hospedeiro até que ele perca o controle e seja compelido a subir para um terreno mais alto. O fungo parasita devora sua vítima por dentro, extraindo até o último nutriente, enquanto se prepara para seu grande ato final.
Então – em uma cena mais perturbadora do que o filme de terror mais assustador – um tentáculo de morte irrompe da cabeça. Este corpo do fungo espalha esporos em tudo ao seu redor – condenando outras vítimas ao mesmo destino se estiverem próximas para serem infectadas.
Para nossa sorte, os fungos deste gênero são capazes de contaminar apenas formigas – e somente algumas espécies. Outros fungos similares contaminam outras espécies de inseto, de maneira parecida. Este documentário da BBC (em inglês) mostra uma formiga contaminada pelo fungo.
Estalador da série de 'The Last of Us'
Reprodução/YouTube/HBO Max Brasil
O funcionamento desses fungos parasitas inspirou o jogo de videogame The Last of US, no qual a série da HBO foi baseada.
Assista ao trailer da série 'The Last of Us'
Na trama dessas obras de ficção, fungos Cordyceps passam a se tornar capazes de infectar humanos e causam uma pandemia capaz de levar ao colapso da sociedade.
Mas no mundo real, uma pandemia de Cordyceps – ou causada por outro fungo – é algo que realmente poderia acontecer?
"Acho que subestimamos as infecções fúngicas por nossa conta e risco", diz o médico Neil Stone, principal especialista em fungos do Hospital de Doenças Tropicais de Londres. "Já fizemos isso por muito tempo e estamos completamente despreparados para lidar com uma pandemia fúngica."
Lista de fungos perigosos para humanos
No final de outubro do ano passado, a Organização Mundial da Saúde (OMS) divulgou sua primeira lista de fungos com maior risco para a saúde pública.
Os fungos da lista são realmente ameaçadores, mas – pra nosso alívio – não existe na lista nenhum capaz de transformar humanos em zumbis.
Por que não?
A microbióloga Charissa de Bekker, da Universidade de Utrecht, no Reino Unido, estuda como os fungos Cordyceps zumbificam as formigas e diz que não vê como isso poderia acontecer com pessoas.
"A nossa temperatura corporal é simplesmente muito alta para a maioria dos fungos, incluindo o Cordyceps", explica. "O sistema nervoso deles é mais simples do que o nosso, então é muito mais fácil sequestrar o cérebro de um inseto do que o complexo cérebro humano."
Uma lagarta consumida por um fungo parasita – as protuberâncias liberam esporos
Getty Images via BBC
Além disso, explica ela, os sistemas imunológicos deles são muito diferentes dos nossos, o que também dificultaria esse "sequestro".
A maior parte das espécies parasitas de Cordyceps evoluiu ao longo de milhares de anos para se especializar em infectar apenas uma espécie de inseto. A maioria não pula de um inseto para o outro.
"Para esse fungo ser capaz de ir de um inseto para nós e conseguir nos infectar da mesma forma, é uma distância muito grande", diz Bekker.
Ameaças mortais
No entanto, a ameaça de uma pandemia fúngica é muito real, embora tenha sido subestimada por um longo tempo. "As pessoas pensam em fungos como algo trivial, superficial ou sem importância", diz o médico Neil Stone.
Apenas algumas das milhões de espécies de fungos causam doenças em seres humanos. No entanto, algumas dessas podem ser muito piores do que uma unha infectada ou uma frieira.
Pedro Pascal e Bella Ramsey em 'The Last of Us'
Divulgação
Os fungos matam cerca de 1,7 milhão de pessoas por ano – cerca de três vezes mais que a malária.
A OMS identificou 19 fungos diferentes que considera preocupantes.
Os mais graves são a Candida auris, o Cryptococcus neoformans e o Mucormycetes – que come nossa carne tão rapidamente que leva a graves lesões faciais.
A ameaça global da cândida auris
A Candida auris é uma levedura – e libera o mesmo cheiro de fermentação de uma cervejaria ou de uma massa de pão.
Mas, diferentemente das leveduras benéficas que usamos para a comida, a Candida auris é um parasita terrível.
Ela contamina o sangue, o sistema nervoso e os órgãos internos. A OMS estima que metade das pessoas infectadas por Candida auris morrem.
Neil Stone afirma que a Candida auris deve ser nossa principal preocupação
JAMES GALLAGHER via BBC
O primeiro caso documentado foi no ouvido de um paciente do Hospital Geriátrico Metropolitano de Tóquio em 2009, e desde então o fungo tem se espalhado pelo mundo.
A Candida auris é muito difícil de ser combatida – algumas cepas são resistentes a todos os medicamentos antifúngicos que temos. Por isso muitas vezes ela é chamada de "superfungo".
A transmissão ocorre principalmente através de superfícies contaminadas em hospitais – é um fungo realmente difícil de limpar completamente. Muitas vezes, a solução é fechar alas inteiras de hospitais, algo que já aconteceu no Reino Unidos.
Neil Stone diz que a Candida auris é o tipo de fungo mais preocupante e que não podemos ignorá-lo, pois uma pandemia causada por ele poderia levar ao colapso dos sistemas de saúde.
Fungo mortal
Outro fungo mortal – o Cryptococcus neoformans – é capaz de entrar no sistema nervoso das pessoas e causar uma meningite devastadora.
Os britânicos Sid e Ellie tiveram contato com a doença nos primeiros dias de sua lua de mel na Costa Rica. Elle começou a passar mal e seus sintomas iniciais – dores de cabeça e náuseas – foram atribuídos ao excesso de sol. Mas depois ela começou a ter espasmos e convulsões fortíssimas.
"Nunca vi algo pior, me senti tão impotente", diz Sid à BBC.
Exames feitos mostraram inflamação em seu cérebro e identificaram o Cryptococcus como a causa. Felizmente, Ellie respondeu ao tratamento e saiu do coma após 12 dias em respirador.
"Só me lembro de gritar", diz ela, que tinha delírios quando estava infectada.
Agora ela está se recuperando bem.
Ellie diz que "nunca" pensou que um fungo pudesse fazer isso com uma pessoa. "Você não acha que vai quase morrer na sua lua de mel."
Fungo negro
Outra ameaça à saúde pública é o Mucormycetes, também conhecido como fungo negro. Ele causa uma doença gravíssima chamada mucormicose, que normalmente atinge pessoas com o sistema imunológico comprometido.
Ele se reproduz tão rapidamente que, se estiver sendo cultivado em laboratório, é capaz de fazer a tampa da placa petri pular.
"Quando deixa um pedaço de fruta estragar e no dia seguinte ela virou uma papa, é porque havia um fungo mucormycetes dentro dela", diz a médica Rebecca Gorton, cientista do HSL, o laboratório de serviços de saúde em Londres.
Ela diz que a infecção é rara em humanos, mas pode ser realmente grave quando acontece.
O fungo ataca o rosto, os olhos e o cérebro e pode ser fatal ou deixar as pessoas gravemente desfiguradas. Uma infecção se espalha tão rapidamente no corpo quanto nas frutas ou no laboratório, afirma Gorton.
Durante a pandemia de covid, houve uma explosão de casos de fungo negro na Índia. Mais de 4.000 pessoas morreram. Acredita-se que o enfraquecimento do sistema imunológico das pessoas e os altos níveis de diabetes no país ajudaram na proliferação do fungo. Cerca de 30 casos de contaminação por mucormicose foram registrados no Brasil em 2021, durante a pandemia de covid.
Devemos levar os fungos mais a sério?
Os fungos geram infecções muito diferentes das provocadas por bactérias ou vírus. Quando um fungo nos deixa doentes, ele quase sempre é captado do ambiente, em vez de se espalhar por meio de tosses e espirros.
Estamos todos expostos a fungos o tempo todo, mas eles geralmente precisam de um sistema imunológico enfraquecido para conseguirem se desenvolver.
Stone diz que uma pandemia fúngica provavelmente seria muito diferente da pandemia de covid – tanto na forma como se espalha quanto no tipo de pessoa que infecta.
Ele acha que a ameaça existe por causa "do volume de fungos que existem no meio ambiente" e por causa de "mudanças climáticas, viagens internacionais, número crescente de casos e do profundo descaso que temos em termos de tratamentos".
Esta reportagem foi originalmente publicada em – https://www.bbc.com/portuguese/geral-64442967