Livro de Machado de Assis faz americana viralizar no Tik Tok: ‘O que fazer da vida depois que terminá-lo?’

Governo anuncia isenção para candidatos do Rio Grande do Sul em inscrição para o Enem
Courtney Henning Novak, de 45 anos, lançou um desafio pessoal: ler um livro de cada país do mundo. Ainda faltam 100 páginas para ela terminar o representante brasileiro, 'Memórias Póstumas de Brás Cubas', mas já enfrenta praticamente uma crise de abstinência literária. Courtney viralizou no TikTok ao falar de livro de Machado de Assis: 'Brasil, precisamos conversar'
Reprodução/TikTok
“Preciso ter uma conversa com o pessoal do Brasil. Por que não me avisaram antes que este é o melhor livro já escrito? O que vou fazer do resto da minha vida depois que terminá-lo?”
Esse desespero apaixonado vem de Courtney Henning Novak, escritora e podcaster americana que, aos 45 anos, diz estar totalmente obcecada por “Memórias Póstumas de Brás Cubas”, obra publicada pelo autor brasileiro Machado de Assis (1839-1908) em 1881.
📖Em um projeto pessoal, Courtney propôs-se a ler um livro de cada lugar do mundo, seguindo a ordem alfabética da lista de países, e contar suas impressões no TikTok. O vídeo sobre “Memórias”, por exemplo, já ultrapassou as 740 mil visualizações entre o último sábado (18), quando foi postado, e esta segunda-feira (20).
A americana está preocupada: ainda está no começo da letra “B” e já conheceu a genialidade de Machado. “Ainda tenho de ler de Brunei até Zimbábue!”, brincou.
Abaixo, nesta reportagem, confira:
o que faz do livro “Memórias Póstumas de Brás Cubas” algo tão arrebatador;
por que ler resumos ou adaptações é “abrir mão de uma herança milionária”.
Não é a primeira vez que o talento de Machado de Assis é reconhecido internacionalmente, claro. Para citar um exemplo deste século, o escritor americano Philip Roth (1933-2018) declarou sua admiração pelo brasileiro em 2008, comparando-o ao dramaturgo irlandês Samuel Beckett (1906-1989).
➡️“Machado de Assis tem bastante prestígio internacional, que só fez crescer a partir da segunda metade do século 20, principalmente nos meios acadêmicos e mais cultos. Hoje, suas principais obras estão traduzidas para praticamente todas as línguas modernas e publicadas por boas editoras de vários países”, explica Hélio de Seixas Guimarães, professor de literatura brasileira na Universidade de São Paulo (USP).
Guimarães também é vice-diretor da Biblioteca Brasiliana Guita e José Mindlin, em São Paulo, e coordenador da coleção “Todos os livros de Machado de Assis”, da Todavia/Itaú Cultural.
E uma curiosidade: foi justamente a tradução de Flora Thompson-DeVeax para o inglês – versão lida por Courtney – que ampliou o alcance de “Memórias Póstumas” no exterior.
“Machado sempre atingiu um público restrito fora do Brasil. Isso talvez tenha começado a mudar com a tradução recente de Thomson-DeVeaux, que teve um lançamento bem-sucedido e agora chegou às redes sociais. Tomara que isso ajude Machado de Assis a entrar em circuitos mais amplos de leitura”, diz Guimarães.
☠️Por que é um livro tão arrebatador?
“Memórias Póstumas de Brás Cubas” é contado por um “defunto-autor”: o personagem principal, Brás Cubas, traça sua própria biografia direto do túmulo. A dedicatória, apresentada logo no início da história, já deixa evidente a mistura entre ironia, humor e horror:
“Ao verme que primeiro roeu as frias carnes do meu cadáver dedico como saudosa lembrança estas memórias póstumas.”
Não vamos aqui dar nenhum spoiler, claro. Mas veja aspectos de destaque da obra, que ajudam a explicar por que Courtney estava quase terminando as 300 páginas em um só fim de semana:
✏️Irreverência na linguagem:
“Penso que o próprio livro diz o que há nele de muito especial: a mistura muito peculiar de galhofa e melancolia, de riso e seriedade. Consegue o feito de ser muito profundo, em muitos sentidos terrível, e ao mesmo tempo muito engraçado e divertido de ler. Há ali uma irreverência e uma liberdade de espírito que só encontramos muito raramente na literatura de qualquer tempo e lugar”, diz Hélio de Seixas Guimarães.
📓Revolução na literatura de seu tempo:
Fernando Marcílio, professor de literatura do Curso Anglo (SP), explica como Machado de Assis quebrou o padrão do Romantismo da época.
“Com ‘Memórias Póstumas de Brás Cubas’, Machado foi iniciador de uma nova estética no Brasil: o Realismo. A gente costuma dizer que ele foi um gênio porque questionou as bases da literatura de seu próprio tempo ao escrever um romance realista – realista nas bases do século XIX, desnudando a realidade humana e desfazendo as ilusões românticas", diz.
"Por exemplo: Brás Cubas mede o envolvimento com uma mulher a partir do dinheiro que gastou com ela. Quer algo menos ‘amor romântico’ do que isso?”
🌎Representação do ser humano (de qualquer lugar do mundo):
As críticas sociais em “Memórias” não são explícitas como em “O Cortiço”, por exemplo, de Aluísio Azevedo. Mas isso não significa que não haja uma representação dos seres humanos (e da sociedade brasileira).
“As personagens machadianas querem parecer algo que não são. Brás Cubas, por exemplo, vive da aparência. E nós tínhamos, no Brasil, a mesma hipocrisia: um discurso liberal, mas em uma sociedade ainda escravocrata”, afirma Marcílio.
O professor Hélio Guimarães reforça a universalidade do que é retratado na obra.
“Um livro como ‘Memórias póstumas de Brás Cubas’ permite conhecer melhor não só a história e a cultura brasileiras, mas a espécie humana, pela visão de uma das pessoas mais inteligentes, sensíveis e cultas que já viveram no Brasil”, afirma.
E, por mais que a representação seja fiel à realidade do século XIX, não deixa de ser atual e de gerar identificação com os novos leitores.
“Lendo a obra, os jovens podem tomar consciência e enxergar a raiz e o problema de dilemas sociais com que vivemos até hoje. Os personagens são pessoas que conhecemos. Todos nós temos referências de Brás Cubas ou Marcelas [outra personagem] nas nossas vidas”, diz Heric José Palos, coordenador de literatura do Curso Etapa (SP).
🆘Por que você deve fugir dos resumos?
“Memórias Póstumas de Brás Cubas” frequentemente integra a lista de obras obrigatórias de vestibulares. Esteve, por exemplo, na relação de livros da Fuvest, da Universidade de São Paulo (USP), por longos períodos, como de 2013 a 2019.
Na internet, é possível encontrar dezenas de resumos da obra. Bom, você deve imaginar que nenhum professor aprovará a ideia de trocar a leitura de um livro por uma página de síntese.
“É importante ler Machado, porque foi o melhor autor que produzimos no Brasil em todos os tempos. É como alguém deixar uma herança milionária, mas você recusar. Recusar Machado é recusar o que de melhor foi produzido na nossa cultura”, diz Fernando Marcílio.
“O que está por trás das adaptações e dos resumos é só o que acontece, e não como acontece. É um rebaixamento do leitor. Existem edições originais com notas de rodapé explicativas que podem ser úteis para aprender e entender o desconhecido.”
Heric, do Etapa, afirma também que o resumo limita qualquer percepção mais ampla ou crítica do estudante.
“É fácil resumir: o livro é a história de um cara morto que conta sua própria vida. Mas não é só isso o que interessa. Não é o que ele faz, e sim por que ele faz. Lendo a íntegra, o leitor vai ter uma visão mais profunda dos personagens, com a linguagem refinada, sagaz e elegante de Machado de Assis.”
Vídeos
Abaixo, veja a correção de uma questão do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) 2023 sobre Machado de Assis:
Enem 2023: correção da questão de Filosofia sobre texto de Machado de Assis

Conheça o livro de Machado de Assis que fez americana viralizar no Tik Tok: ‘O que fazer pelo resto da minha vida?’

Governo anuncia isenção para candidatos do Rio Grande do Sul em inscrição para o Enem
Courtney Henning Novak, de 45 anos, lançou um desafio pessoal: ler um livro de cada país do mundo. Ainda faltam 100 páginas para ela terminar o representante brasileiro, 'Memórias Póstumas de Brás Cubas', mas já enfrenta praticamente uma crise de abstinência literária. Courtney viralizou no TikTok ao falar de livro de Machado de Assis: 'Brasil, precisamos conversar'
Reprodução/TikTok
“Preciso ter uma conversa com o pessoal do Brasil. Por que não me avisaram antes que este é o melhor livro já escrito? O que vou fazer do resto da minha vida depois que terminá-lo?”
Esse desespero apaixonado vem de Courtney Henning Novak, escritora e podcaster americana que, aos 45 anos, diz estar totalmente obcecada por “Memórias Póstumas de Brás Cubas”, obra publicada pelo autor brasileiro Machado de Assis (1839-1908) em 1881.
📖Em um projeto pessoal, Courtney propôs-se a ler um livro de cada lugar do mundo, seguindo a ordem alfabética da lista de países, e contar suas impressões no TikTok. O vídeo sobre “Memórias”, por exemplo, já ultrapassou as 740 mil visualizações entre o último sábado (18), quando foi postado, e esta segunda-feira (20).
A americana está preocupada: ainda está no começo da letra “B” e já conheceu a genialidade de Machado. “Ainda tenho de ler de Brunei até Zimbábue!”, brincou.
Abaixo, nesta reportagem, confira:
o que faz do livro “Memórias Póstumas de Brás Cubas” algo tão arrebatador;
por que ler resumos ou adaptações é “abrir mão de uma herança milionária”.
Não é a primeira vez que o talento de Machado de Assis é reconhecido internacionalmente, claro. Para citar um exemplo deste século, o escritor americano Philip Roth (1933-2018) declarou sua admiração pelo brasileiro em 2008, comparando-o ao dramaturgo irlandês Samuel Beckett (1906-1989).
➡️“Machado de Assis tem bastante prestígio internacional, que só fez crescer a partir da segunda metade do século 20, principalmente nos meios acadêmicos e mais cultos. Hoje, suas principais obras estão traduzidas para praticamente todas as línguas modernas e publicadas por boas editoras de vários países”, explica Hélio de Seixas Guimarães, professor de literatura brasileira na Universidade de São Paulo (USP).
Guimarães também é vice-diretor da Biblioteca Brasiliana Guita e José Mindlin, em São Paulo, e coordenador da coleção “Todos os livros de Machado de Assis”, da Todavia/Itaú Cultural.
E uma curiosidade: foi justamente a tradução de Flora Thompson-DeVeax para o inglês – versão lida por Courtney – que ampliou o alcance de “Memórias Póstumas” no exterior.
“Machado sempre atingiu um público restrito fora do Brasil. Isso talvez tenha começado a mudar com a tradução recente de Thomson-DeVeaux, que teve um lançamento bem-sucedido e agora chegou às redes sociais. Tomara que isso ajude Machado de Assis a entrar em circuitos mais amplos de leitura”, diz Guimarães.
☠️Por que é um livro tão arrebatador?
“Memórias Póstumas de Brás Cubas” é contado por um “defunto-autor”: o personagem principal, Brás Cubas, traça sua própria biografia direto do túmulo. A dedicatória, apresentada logo no início da história, já deixa evidente a mistura entre ironia, humor e horror:
“Ao verme que primeiro roeu as frias carnes do meu cadáver dedico como saudosa lembrança estas memórias póstumas.”
Não vamos aqui dar nenhum spoiler, claro. Mas veja aspectos de destaque da obra, que ajudam a explicar por que Courtney estava quase terminando as 300 páginas em um só fim de semana:
✏️Irreverência na linguagem:
“Penso que o próprio livro diz o que há nele de muito especial: a mistura muito peculiar de galhofa e melancolia, de riso e seriedade. Consegue o feito de ser muito profundo, em muitos sentidos terrível, e ao mesmo tempo muito engraçado e divertido de ler. Há ali uma irreverência e uma liberdade de espírito que só encontramos muito raramente na literatura de qualquer tempo e lugar”, diz Hélio de Seixas Guimarães.
📓Revolução na literatura de seu tempo:
Fernando Marcílio, professor de literatura do Curso Anglo (SP), explica como Machado de Assis quebrou o padrão do Romantismo da época.
“Com ‘Memórias Póstumas de Brás Cubas’, Machado foi iniciador de uma nova estética no Brasil: o Realismo. A gente costuma dizer que ele foi um gênio porque questionou as bases da literatura de seu próprio tempo ao escrever um romance realista – realista nas bases do século XIX, desnudando a realidade humana e desfazendo as ilusões românticas", diz.
"Por exemplo: Brás Cubas mede o envolvimento com uma mulher a partir do dinheiro que gastou com ela. Quer algo menos ‘amor romântico’ do que isso?”
🌎Representação do ser humano (de qualquer lugar do mundo):
As críticas sociais em “Memórias” não são explícitas como em “O Cortiço”, por exemplo, de Aluísio Azevedo. Mas isso não significa que não haja uma representação dos seres humanos (e da sociedade brasileira).
“As personagens machadianas querem parecer algo que não são. Brás Cubas, por exemplo, vive da aparência. E nós tínhamos, no Brasil, a mesma hipocrisia: um discurso liberal, mas em uma sociedade ainda escravocrata”, afirma Marcílio.
O professor Hélio Guimarães reforça a universalidade do que é retratado na obra.
“Um livro como ‘Memórias póstumas de Brás Cubas’ permite conhecer melhor não só a história e a cultura brasileiras, mas a espécie humana, pela visão de uma das pessoas mais inteligentes, sensíveis e cultas que já viveram no Brasil”, afirma.
E, por mais que a representação seja fiel à realidade do século XIX, não deixa de ser atual e de gerar identificação com os novos leitores.
“Lendo a obra, os jovens podem tomar consciência e enxergar a raiz e o problema de dilemas sociais com que vivemos até hoje. Os personagens são pessoas que conhecemos. Todos nós temos referências de Brás Cubas ou Marcelas [outra personagem] nas nossas vidas”, diz Heric José Palos, coordenador de literatura do Curso Etapa (SP).
🆘Por que você deve fugir dos resumos?
“Memórias Póstumas de Brás Cubas” frequentemente integra a lista de obras obrigatórias de vestibulares. Esteve, por exemplo, na relação de livros da Fuvest, da Universidade de São Paulo (USP), por longos períodos, como de 2013 a 2019.
Na internet, é possível encontrar dezenas de resumos da obra. Bom, você deve imaginar que nenhum professor aprovará a ideia de trocar a leitura de um livro por uma página de síntese.
“É importante ler Machado, porque foi o melhor autor que produzimos no Brasil em todos os tempos. É como alguém deixar uma herança milionária, mas você recusar. Recusar Machado é recusar o que de melhor foi produzido na nossa cultura”, diz Fernando Marcílio.
“O que está por trás das adaptações e dos resumos é só o que acontece, e não como acontece. É um rebaixamento do leitor. Existem edições originais com notas de rodapé explicativas que podem ser úteis para aprender e entender o desconhecido.”
Heric, do Etapa, afirma também que o resumo limita qualquer percepção mais ampla ou crítica do estudante.
“É fácil resumir: o livro é a história de um cara morto que conta sua própria vida. Mas não é só isso o que interessa. Não é o que ele faz, e sim por que ele faz. Lendo a íntegra, o leitor vai ter uma visão mais profunda dos personagens, com a linguagem refinada, sagaz e elegante de Machado de Assis.”
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Abaixo, veja a correção de uma questão do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) 2023 sobre Machado de Assis:
Enem 2023: correção da questão de Filosofia sobre texto de Machado de Assis

A onda de agressão a professores no mundo: ‘Ficar perto da porta para sair correndo’

Governo anuncia isenção para candidatos do Rio Grande do Sul em inscrição para o Enem
Em diversos países, tem sido registrada uma alta na violência em escolas, além da pressão de pais de alunos, principalmente desde a pandemia de covid-19. Casos de agressão a professores não se limitam apenas ao Brasil. Na imagem, mesa e cadeira em um aula vazia.
Getty Images (via BBC)
"Sinto uma forte pressão no peito. É como se estivesse me afogando. Sinto que vou cair. Nem sequer sei onde estou."
Duas semanas após escrever isso, Lee-Min so, uma professora primária da Coreia do Sul, se suicidou.
Embora o suicídio seja um incidente decorrente de vários fatores (leia abaixo onde procurar ajuda no Brasil), a família dela descobriu ao ler seus diários que ela estava sendo oprimida e perseguida por pais de alunos.
👉🏾 A notícia desencadeou uma onda de indignação entre os professores do país, que exigiram mais proteção.
Trata-se da face mais extrema de um problema que os professores vivenciam em diversas partes do mundo: o aumento das agressões e da pressão por parte de pais e alunos.
O Brasil tem registrado diversos casos de ataques violentos a professores.
No ano passado, uma professora morreu e quatro pessoas ficaram feridas em ataque a escola estadual em São Paulo.
Uma pesquisa realizada em 2023 pela Nova Escola e instituto Ame Sua Mente mostrou que 7 em cada 10 educadores notaram um aumento da violência e agressividade entre os alunos em 2023.
O levantamento ouviu professores em escolas públicas e privadas no Brasil, em diferentes níveis de ensino. E também mostrou que 7 em cada 10 afirmam já ter tido conhecimento de algum caso de violência por parte dos alunos nas escolas onde trabalham.
Enquanto isso, o que acontece em outros países?
Na Inglaterra, quase um em cada cinco professores foi agredido por um aluno neste ano, segundo dados de um levantamento encomendado pela BBC, no qual 9 mil professores foram entrevistados nos últimos dois meses.
Na Espanha, uma professora do ensino médio de um centro de Valência foi agredida com socos e pontapés por um aluno neste ano.
Em Bogotá, na Colômbia, uma professora denunciou nas redes sociais a surra brutal que levou de uma aluna, depois de pedir a ela que não usasse o celular.
Em Santiago, no Chile, um professor ficou inconsciente após ser espancado por um aluno, ao comunicar a ele, ao lado da mãe, que repetiria de ano.
Mais agressões do que há dois anos
Lorraine Meah, professora há 35 anos, afirma que o mau comportamento aumentou até mesmo entre as crianças mais novas.
BBC
Lorraine Meah é professora de escola primária no Reino Unido há 35 anos. E, na experiência dela, o comportamento dos alunos piorou nos últimos anos.
Ela conta que testemunhou alunos do jardim de infância “cuspirem e xingarem” — e que o pior comportamento foi demonstrado por crianças de 5 e 6 anos, que apresentaram “tendências perigosas”, como atirar cadeiras.
“Quando, em uma turma de 30 crianças, há três ou quatro que apresentam um comportamento desafiador, é difícil de lidar”, afirma Meah à BBC.
No Chile, o Colégio de Professores e Professoras, organização nacional que conta com mais de 100 mil membros, realizou uma pesquisa que mostrou que 86,8% dos professores foram vítimas de insultos e ameaças feitas, principalmente, por alunos e responsáveis — ou seja, pais, mães ou representantes.
No país, a ocorrência de situações deste tipo quase dobrou desde 2018.
O vínculo entre professores e alunos se deteriorou, apontam especialistas.
Getty Images (via BBC)
Para María Elena Duarte, psicóloga chilena especializada na área educacional e clínica, uma das causas deste fenômeno é a mudança na forma como a escola e o vínculo entre professores e alunos são percebidos.
“Antes era um espaço respeitado, embora este respeito tivesse a ver, na minha perspectiva, com autoritarismo e, em alguns casos, com abusos. O fim deste modelo é bom, mas, com o tempo, passamos para outro, no qual a escola perde todo o significado como instituição”, argumenta.
Duarte acredita que o atual acesso a tanta informação e tecnologia tem a ver com o que chama de uma perda de significado.
Segundo ela, em um mundo em que é cada vez mais fácil ter acesso a conteúdos, as escolas deveriam se adaptar e defender o processo de aprendizagem e desenvolvimento, fortalecendo o vínculo entre professores e alunos.
“Como isso não acontece, uma vez que a escola, em teoria, não oferece um valor agregado, temos muitos alunos que nos dizem que assistem às aulas 'porque têm que' (assistir), mas não querem”, acrescenta.
E, ao mesmo tempo, “o trabalho de potencializar o vínculo emocional e afetivo entre professores e alunos se perdeu”.
“Por um lado, temos professores saturados, com condições cada vez menos ideais de trabalho, sobrecarregados. Por outro, alunos desmotivados, que não querem estar nas salas de aula… Isso não ajuda nenhuma das partes”, explica.
Esta mudança social levou, em muitos casos, a uma perda de respeito — algo que, em alguns lugares, estão tentando reverter pela força da lei.
Por exemplo, em várias comunidades autônomas da Espanha, os professores se tornaram figuras de autoridade por lei, como um policial. Portanto, agredir um professor equivale a desacato à autoridade.
Mas isso não impediu que as agressões aos professores também aumentassem na Espanha.
Protesto de professores no Chile contra, entre outras coisas, a violência nas salas de aula.
Getty Images (via BBC)
Novas formas de agressão
Na Espanha, 91% dos professores de escolas públicas afirmaram ter problemas de convivência nas salas de aula — e oito em cada 10 sofreram agressões físicas ou verbais, segundo estudo realizado pela CSIF (acrônimo em espanhol para Central Sindical Independente e de Funcionários).
Os mais frequentes são ataques físicos, como empurrões, pancadas na nuca, arremessos de objetos e denúncias falsas.
Somam-se a isso novas formas de maus-tratos fora da sala de aula, como a prática de bullying online com os professores.
Por trás das estatísticas, estão profissionais que têm medo de entrar nas salas de aula, como conta Teresa Hernández, coordenadora do serviço de defesa dos professores da ANPE, sindicato do magistério na Espanha, à BBC News Mundo, serviço de notícias em espanhol da BBC.
“Um professor me disse que o que ele pensa quando entra na sala de aula é se posicionar mais perto da porta, caso tenha que sair correndo”, afirma.
E, segundo ela, hoje não há uma maneira fácil de lidar com um conflito com um estudante.
“O professor tem que garantir que não será afetado porque colocaram a perna para ele tropeçar ou riram dele porque, depois de passado um episódio de agressão, ele deve voltar para a sala de aula no dia seguinte e ser profissional, porque, além disso, mexe com ele ver o aluno na sala de aula de novo… Não é fácil”, ressalta.
Isso se traduz em altos níveis de ansiedade.
Hernández afirma que, dos professores que atende, cerca de 80% sofrem com ansiedade — e um grande número já está afastado com sintomas de depressão.
“São dados que nos preocupam muito.”
O fenômeno é semelhante no Chile, onde o número de licenças médicas associadas ao estresse aumentou no ano passado.
“Muitos pensam em abandonar a profissão, e isso é grave porque é uma profissão muito bonita, vocacional e necessária”, afirma Hernández.
As novas tecnologias representam novos desafios nas salas de aula.
Getty Images (via BBC)
Agravantes
As pesquisas, os estudos e as especialistas consultadas concordam que, embora o conflito em sala de aula não seja um fenômeno novo, houve algo que o fez aumentar: a pandemia de covid-19.
“A partir daí, vemos que há mais problemas de saúde mental, mais distúrbios mentais, mais comportamentos agressivos nas redes sociais”, observa Teresa Hernández.
“Foi um fator de estresse gigantesco, não só porque as nossas vidas estavam em risco, mas porque o lockdown nos obrigou a olhar para nós mesmos — e ver como gerimos as nossas emoções e rotinas. E se não houver essa gestão, a situação explode como uma bomba”, acrescenta Duarte.
A falta de desenvolvimento emocional acaba resultando em problemas comportamentais.
“Nos últimos anos, temos chamado a atenção na ANPE para a necessidade de abordar a saúde mental da comunidade educacional, neste caso dos alunos, desde que ocorreu a pandemia”, diz Hernández.
María Elena Duarte, psicóloga clínica e especialista em educação, vê os ataques a professores no Chile como um problema crescente.
Divulgação (via BBC)
No Reino Unido, Patrick Roach, secretário-geral do sindicato de professores NASUWT (sigla em inglês), disse à BBC que esta situação de mal-estar mental "foi agravada pelos cortes nos serviços especializados em saúde mental para crianças — que deixou nas mãos dos professores o papel de ter de suprir estas lacunas".
Em alguns casos, estes serviços nem sequer existiam antes da pandemia.
Duarte afirma que para muitas crianças e adolescentes o lockdown significou perder uma etapa com aprendizados valiosos: de como conviver com os colegas, e como lidar com limites.
E, além disso, tiveram que gerenciar a socialização por meio das redes sociais.
“Voltamos então ao espaço social com toda essa carga, e sem um trabalho de transição para nos conectar com o outro. E depois, no pós-pandemia, nos deparamos com essas situações de abuso.”
Os pais também têm um papel na situação que existe nas salas de aula.
Getty images (via BBC)
Pais: um problema adicional?
Na relação entre professores e alunos, existe um terceiro eixo que influencia muito, apontam especialistas: os pais e as mães.
Atualmente, há uma tendência a reduzir a autoridade dos professores, de superproteger os filhos, e dar razão a eles em quase tudo, culpando até mesmo os professores.
A psicopedagoga Mar Romera acredita que isso tem a ver, em parte, com a queda nas taxas de natalidade.
“O fator determinante é que temos poucos filhos, e se você tem um jardim com 200 gerânios e uma orquídea, você foca em cuidar da orquídea. E há uma superproteção”, compara Romera.
“Se os pais defendem antes de tudo os filhos, sem questionar nada, esses filhos fazem o que querem nas aulas sem consequências. O trabalho dos pais não é realizado corretamente em muitos casos, e isso nos preocupa”, afirma Teresa Hernández.
Ela ressalta que o trabalho de educar as crianças e adolescentes para que se desenvolvam não pode ser responsabilidade exclusiva dos professores.
“Também precisa vir de casa.”
Manifestação de profissionais da área de educação na Espanha.
Getty Images (via BBC)
María Elena Duarte insiste que existe um problema de vínculo entre professores e alunos, que deve ser trabalhado, assim como um pai ou uma mãe deve cultivar o vínculo com os filhos.
Por um lado, deve haver um trabalho socioemocional com os professores, diz ela. Mas, por outro, é preciso perceber o que está acontecendo com os alunos.
“Há maus-tratos aos professores, sim, mas isso também acontece entre os alunos, que cada vez mais se tratam pior. É um problema de convivência em geral”, afirma Duarte.
E, como ela diz, é uma via de mão dupla:
“Se temos crianças e adolescentes que hoje não são capazes de fazer esta gestão emocional, é também porque temos adultos que não conseguiram visualizar a importância disso.”
No fim das contas, tudo depende da saúde mental de todos.
“Precisamos estar muito bem mentalmente, tanto os alunos, quanto as famílias e os professores. Os problemas em sala de aula são cada vez mais graves”, afirma Teresa Hernández.
Os especialistas advertem que, se esta situação não for remediada e não forem criados protocolos de convivência adequados, este problema não vai ter fim.
*Com reportagem adicional de Lauren Moss e Elaine Dunkley.
Caso seja ou conheça alguém que apresente sinais de alerta relacionados ao suicídio, confira alguns locais para pedir ajuda:
O Centro de Valorização da Vida (CVV), por meio do telefone 188, oferece atendimento gratuito 24h por dia; há também a opção de conversa por chat, e-mail e busca por postos de atendimento ao redor do Brasil;
Para jovens de 13 a 24 anos, a Unicef oferece também o chat Pode Falar;
Em casos de emergência, outra recomendação de especialistas é ligar para os Bombeiros (telefone 193) ou para a Polícia Militar (telefone 190);
Outra opção é ligar para o SAMU, pelo telefone 192;
Na rede pública local, é possível buscar ajuda também nos Centros de Atenção Psicossocial (CAPS), em Unidades Básicas de Saúde (UBS) e Unidades de Pronto Atendimento (UPA) 24h;
Confira também o Mapa da Saúde Mental, que ajuda a encontrar atendimento em saúde mental gratuito em todo o Brasil.
VÍDEOS E PODCAST

Governo anuncia isenção para candidatos do Rio Grande do Sul em inscrições para o Enem

Segundo ministro da Educação, Camilo Santana, estado seguirá calendário exclusivo para candidaturas. Cronograma, no entanto, ainda não foi divulgado. Demais alunos têm de 27 de maio a 7 de junho para se inscreverem no exame. O ministro da Educação, Camilo Santana, disse nesta segunda-feira (20) que candidatos do Rio Grande do Sul terão isenção na inscrição do Enem — mesmo aqueles que não se enquadram nos critérios tradicionais para receber o benefício (leia mais abaixo).
Segundo o ministro, cerca de 40 mil alunos serão assistidos, o que daria algo em torno de R$ 3,5 milhões em custos para o governo.
Ainda segundo Santana, o Rio Grande do Sul terá um calendário exclusivo para novas inscrições. Mas, para que isso aconteça, será necessário esperar a situação do estado evoluir — com relação aos temporais e cheias que atingem o Rio Grande do Sul desde 29 de abril.
Enem 2024: veja datas de inscrição e de aplicação das provas
O governo, no entanto, não deu data para divulgar esse novo calendário. O anúncio foi após reunião entre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e ministros no Palácio do Planalto, em Brasília.
Enem 2024
As inscrições para o Enem 2024 vão de 27 de maio a 7 de junho para todo o Brasil. Já as provas serão aplicadas em 3 e 10 de novembro.
Diante do anúncio desta segunda, no entanto, o cronograma de inscrições para os gaúchos deve ser diferenciado.
Camilo Santana afirmou também que o Ministério da Educação ainda não trabalha com a possibilidade de realização das provas em outras datas no Rio Grande do Sul.
Segundo o ministro, como as provas estão marcadas para serem realizadas em novembro, ainda não há como avaliar se cidades gaúchas terão condições ou não de aplicar o teste.
Os resultados dos pedidos de isenção da taxa de inscrição (R$ 85) do Enem foram divulgados na segunda passada (13) pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais (Inep) — órgão responsável pelo exame.
Quem tem direito à isenção?
Participantes que estão no último ano do ensino médio de escolas públicas;
alunos que estudaram durante todo o ensino médio na rede pública ou como bolsistas integrais da rede privada, desde que tenham renda familiar per capita igual ou inferior a 1,5 salário mínimo (R$ 2.118);
cidadãos em vulnerabilidade social, com inscrição no Cadastro Único para Programas Sociais do Governo Federal (CadÚnico).
Agora, além desses grupos, os moradores do Rio Grande do Sul também terão direito.

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Segundo o ministro, cerca de 40 mil alunos serão assistidos, o que daria algo em torno de R$ 3,5 milhões em custos para o governo.
Ainda segundo Santana, o Rio Grande do Sul terá um calendário exclusivo para novas inscrições. Mas, para que isso aconteça, será necessário esperar a situação do estado evoluir — com relação aos temporais e cheias que atingem o Rio Grande do Sul desde 29 de abril.
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Diante do anúncio desta segunda, no entanto, o cronograma de inscrições para os gaúchos deve ser diferenciado.
Camilo Santana afirmou também que o Ministério da Educação ainda não trabalha com a possibilidade de realização das provas em outras datas no Rio Grande do Sul.
Segundo o ministro, como as provas estão marcadas para serem realizadas em novembro, ainda não há como avaliar se cidades gaúchas terão condições ou não de aplicar o teste.
Os resultados dos pedidos de isenção da taxa de inscrição (R$ 85) do Enem foram divulgados na segunda passada (13) pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais (Inep) — órgão responsável pelo exame.
Quem tem direito à isenção?
Participantes que estão no último ano do ensino médio de escolas públicas;
alunos que estudaram durante todo o ensino médio na rede pública ou como bolsistas integrais da rede privada, desde que tenham renda familiar per capita igual ou inferior a 1,5 salário mínimo (R$ 2.118);
cidadãos em vulnerabilidade social, com inscrição no Cadastro Único para Programas Sociais do Governo Federal (CadÚnico).
Agora, além desses grupos, os moradores do Rio Grande do Sul também terão direito.
– Esta reportagem está em atualização