Por que ditados não ajudam crianças a aprender palavras e outros erros frequentes no ensino de ortografia

Entenda o que é a linguagem neutra
Existem técnicas tradicionais de ensino de ortografia que não são apenas ineficazes. Elas podem até ser prejudiciais. Como isso é possível? A apresentação de palavras com erros de ortografia dificulta o aprendizado. Na imagem, um menino escreve na lousa.
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Existem técnicas tradicionais de ensino de ortografia que não são apenas ineficazes. Elas podem até ser prejudiciais. Como isso é possível?
Um dos mecanismos utilizados pelo nosso cérebro para aprender a ler e escrever é o chamado "aprendizado estatístico" ou implícito.
Este tipo de aprendizado começa logo que nascemos. Ele se baseia na detecção de padrões regulares em acontecimentos verificados com frequência.
Resumidamente, nós armazenamos o que se apresenta de forma repetida porque nosso cérebro interpreta que isso é importante para nos adaptarmos adequadamente ao ambiente à nossa volta.
Aprender com as repetições
Quando aprendemos a ler e escrever, entra em operação o aprendizado estatístico.
🤔 Um exemplo: como podemos aprender que "hoje" se escreve com "h"?
Uma forma é observar a palavra repetidamente, para que o nosso cérebro possa armazená-la com a letra "h" correspondente. Mas o que aconteceria se a palavra "hoje" fosse, às vezes, apresentada com "h" e, em outras ocasiões, sem a sua letra inicial?
Neste caso, o mecanismo de busca de padrões regulares não funcionaria adequadamente, já que ele deixaria de encontrar essa regularidade.
Para um leitor que seja professor do Ensino Fundamental, pode parecer familiar a sensação de que, quando era mais jovem (antes de exercer a profissão), ele cometia menos erros de ortografia. E que, agora, depois de passar anos observando e corrigindo os erros dos seus alunos, às vezes ele é acometido pela dúvida ao escrever uma dada palavra com "ss" ou "ç", ou se ela leva ou não "h", quando antes a escrevia perfeitamente.
Isso ocorre porque o cérebro do professor já observou muitas vezes palavras escritas de forma errada – como "giboia", por exemplo. Isso faz com que ele passe a ter dúvida se deve escrevê-la com "g" ou com "j".
Especialistas defendem que o ditado é uma prática pouco eficaz para o ensino da ortografia. Na imagem, alunos fazem atividade na escola.
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O problema dos exemplos errados
Uma atividade muito frequente no Ensino Fundamental, em relação à ortografia, é pedir ao aluno que detecte e corrija palavras escritas com erros ortográficos. Nela, o estudante observa uma frase como, por exemplo:
"O aluno pediu para mudar de acento porque não conseguia enchergar a louza" – o coreto é assento e lousa.
Neste caso, a apresentação das palavras com grafia incorreta dificulta a detecção de padrões regulares, impedindo sua observação e armazenamento. Em outras palavras, ela prejudica o aprendizado.
Se, cada vez que observarmos uma palavra específica escrita corretamente, imaginarmos que estamos subindo um degrau para armazenar definitivamente sua forma correta no nosso cérebro, observar a mesma palavra com a grafia fora do padrão nos faz descer vários degraus.
Existem outros exercícios no ensino da ortografia que também podem ser considerados prejudiciais.
Explicar as regras de ortografia reforça o aprendizado das palavras escritas corretamente. Na imagem, uma professora dá aulas de espanhol.
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O problema do ditado
A atividade mais tradicional e de maior uso no dia a dia das escolas talvez seja o ditado. Todos nós fizemos ditado ao longo da nossa vida escolar e, neste exato momento, certamente muitos estudantes estão fazendo este exercício.
Além da sua alta exigência cognitiva e da grande dificuldade de atender à diversidade em sala de aula, é preciso acrescentar uma limitação fundamental: o ditado é uma atividade de avaliação e não de ensinamento.
Se o estudante conhecer bem as palavras que estão sendo ditadas, ele irá escrevê-las corretamente. Mas, se elas não estiverem previamente armazenadas, o ditado não irá servir para fixá-las na memória. É uma atividade didática pouco eficaz.
Quando empregamos o ditado (na sua versão tradicional, em que o docente lê em voz alta um texto que ainda não havia sido apresentado aos estudantes), não estamos ensinando ortografia. Estamos apenas avaliando o conhecimento ortográfico dos alunos.
E, na escola, devemos tentar ensinar muito e avaliar pouco, não o contrário.
Estratégias eficazes
É preciso recordar que o nosso cérebro não entende a ortografia, mas apenas o que é repetido com frequência.
Por isso, a premissa do ensino da ortografia é oferecer às crianças exemplos corretos das palavras que elas precisam aprender.
Além disso, é necessário apresentar esses exemplos de forma repetida, para estimular, potencializar e facilitar o desenvolvimento adequado dos processos de aprendizado estatístico.
Neste sentido, é importante garantir apresentações repetidas das palavras mais complexas do ponto de vista ortográfico, ou seja, palavras que o estudante precisa empregar muito no seu dia a dia, mas que possuem ortografia complexa.
Um exemplo de paradigma é o verbo "haver" – e sua semelhança com o parônimo "a ver", que tanta dor de cabeça costuma causar entre os estudantes.
Uma atividade bastante fácil de ser aplicada é a chamada "caixa de palavras". Esta técnica consiste em criar uma caixa, na qual os alunos vão incluindo palavras difíceis, cada uma em um cartão separado.
Assim, eles terão essas palavras sempre acessíveis e poderão observá-las com frequência. E, quando os alunos as escreverem corretamente, poderão retirá-las da caixa, abrindo espaço para aprender novas palavras.
No caso de expressões homófonas, como "haver" e "a ver", podemos acrescentar esta informação ao cartão, ou qualquer outro dado que considerarmos estimulante para o aprendizado profundo, como eventuais regras que facilitem a memorização ou palavras derivadas que mantêm ou não aquela complexidade ortográfica.
A "caixa de palavras" é uma boa estratégia para superar dificuldades de ortografia.
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Separar a ortografia das demais habilidades
É importante sermos específicos, abordando a ortografia de forma independente do restante das habilidades de escrita.
Quando nosso foco for colocar ideias em ordem, usar conectores ou revisar textos, é recomendável deixar a ortografia de lado. Se quisermos que os estudantes melhorem sua gramática, sintaxe, planejamento e ortografia ao mesmo tempo, muito provavelmente não conseguiremos aperfeiçoar nenhum destes aspectos.
Por isso, se o nosso objetivo for a ortografia, vamos nos concentrar unicamente nela.
Neste sentido, complementando a apresentação correta e frequente das palavras impulsionadas pelo aprendizado estatístico, também é benéfico ensinar explicitamente as regras ortográficas ("os prefixos 'pós', 'pré' e 'pró' exigem hífen", por exemplo). Este é um exemplo de prática tradicional recomendável.
Uma alternativa ao ditado tradicional é a "cópia diferida". Ela consiste em apresentar aos alunos uma frase que contenha dificuldades ortográficas e explicá-las, pedindo em seguida que eles escrevam aquela frase.
Cada complexidade ortográfica escrita corretamente é reforçada com pontos e os alunos têm a oportunidade de voltar a escrevê-la, se desejarem obter a pontuação máxima.
Minimizar a possibilidade de erro
A leitura pode melhorar a ortografia, exatamente porque ela nos expõe a muitas palavras de uso frequente, escritas corretamente.
Mas, com as palavras menos frequentes, é necessário reforçá-las com estratégias em sala de aula. Ler muito pode ser o melhor para escrever corretamente, mas os alunos mais jovens não tiveram tempo de leitura suficiente. Por isso, eles precisam de apoio e reforço durante as aulas.
Por fim, precisamos considerar que, como explica a pesquisadora espanhola Mercedes Rueda, os professores deveriam minimizar a possibilidade de erros na escrita – e, se eles ocorrerem, oferecer retroalimentação imediata.
Não devemos esperar que a criança se engane, precisamos antecipá-la. Se uma criança perguntar "professor, 'hiena' tem 'h'?", não devemos responder "o que você acha? como parece melhor?"
O mais eficaz é responder claramente à pergunta, sem titubear, expondo a forma ortográfica correta da palavra. Devemos responder claramente: "sim, é com 'h'". E só.
* Gracia Jiménez Fernández é professora titular do Departamento de Psicologia Evolutiva e Educação da Universidade de Granada, na Espanha.
Este artigo foi publicado originalmente no site de notícias acadêmicas The Conversation e republicado sob licença Creative Commons. Leia aqui a versão original em espanhol.
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Unesp aplica neste domingo a primeira fase do vestibular de meio de ano

Entenda o que é a linguagem neutra
São 1.675 candidatos concorrendo a 160 vagas nos cursos das engenharias agronômica, civil, elétrica e mecânica de Ilha Solteira. Campus da Unesp
Paola Patriarca/ g1
A Unesp vai aplicar neste domingo (26) a primeira fase do vestibular do meio do ano. As provas serão feitas em São Paulo e no interior paulista, como Bauru, Ilha Solteira, São José dos Campos e São José do Rio Preto.
De acordo com a Unesp, são 1.675 candidatos concorrendo para 160 vagas nos cursos das engenharias agronômica, civil, elétrica e mecânica de Ilha Solteira.
Os candidatos podem consultar o local de prova no site da Fundação Vunesp, responsável pela seleção.
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Aplicação da prova
Na primeira fase a prova terá 90 questões de múltipla escolha das áreas de Linguagens e suas Tecnologias, Ciências Humanas e Sociais Aplicadas, Ciências da Natureza e suas Tecnologias e Matemática e suas Tecnologias. A prova poderá conter questões interdisciplinares.
Os portões dos prédios serão fechados às 14h, por isso os candidatos devem se apresentar a partir das 13h com documento de identidade. Também devem levar caneta esferográfica com tinta preta e régua transparente.
O exame terá duração de cinco horas, com permissão para alimentação e hidratação durante sua realização.
Resultados
O resultado da primeira fase será divulgado em 14 de junho. Já a aplicação da segunda fase será em 23 e 24 de junho, e a divulgação do resultado final será em 12 de julho.
O calendário completo está disponível no Manual do Candidato, acessível nos sites da Unesp e da Vunesp.

Candidatos de medicina gastam até R$ 18 mil para conseguir Fies na Justiça, mesmo sem nota suficiente no Enem; entenda riscos

Entenda o que é a linguagem neutra
Advogados usam 'brecha' da legislação para defender que o programa de financiamento não deve levar em conta o desempenho dos alunos no Enem. MEC e universidades, por outro lado, afirmam que liberar vaga por liminar pode comprometer orçamento do Fies. 'Surfando na onda', há escritórios de advocacia que prometem 'causa ganha', mas só levam estudantes a assumirem ainda mais dívidas. FIES na justiça: É possível obter financiamento mesmo sem atingir nota de corte no Enem?
Em Colmeia (TO), os pais de Isadora de Sousa, de 18 anos, pagaram R$ 7,5 mil a um escritório de advocacia para que a jovem tivesse a chance de estudar medicina pelo Sistema de Financiamento Estudantil (Fies).
Ela não havia cumprido o pré-requisito de atingir a nota de corte no Exame Nacional do Ensino Médio (Enem), mas o advogado contratado prometeu que, por meio de uma “brecha” na legislação [entenda mais abaixo], Isadora poderia financiar as altas mensalidades do curso sem depender de seu desempenho na prova.
“Disseram que ia ser ‘causa ganha’ e que eu poderia me matricular na faculdade, porque teria o financiamento dali a no máximo três meses”, conta Isadora.
“Bateu um medo, porque o semestre custava R$ 80 mil. Bom, seis meses se passaram, meu pai se matando para pagar meu curso… e perdemos a causa na Justiça. Tive de trancar a faculdade, porque não temos mais como arcar [com as despesas]. Estou traumatizada — me prometeram algo que era, na verdade, incerto.”
➡️Qual é a tal “brecha” na legislação? Em resumo: a lei que criou o Fies, em 2011, não mencionava o Enem como critério de seleção para o financiamento. Essa regra de considerar as notas da prova só passou a valer em 2015, após uma portaria do Ministério da Educação (MEC).
Diante disso, desde 2020, advogados passaram a defender a ideia de que, como leis “valem mais” do que portarias, nenhum aluno pode ser barrado só porque não teve um bom desempenho no exame.
Cobrando até R$ 18 mil, escritórios de advocacia começaram a processar a União, a Caixa Econômica Federal (que opera o Fies) e o Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação (FNDE), reivindicando o financiamento para os clientes.
👨‍⚖️Resultados divergentes: Já houve situações em que candidatos conseguiram uma vaga no Fies com base nessa teoria, por meio de liminar – mas, na maioria das vezes, a história acaba em frustração e em mais dívidas. A Justiça, em geral, afirma que a portaria do MEC deve, sim, ser respeitada, e que liberar o financiamento para tantos alunos seria impossível do ponto de vista orçamentário.
➡️Maré de processos: Segundo o MEC afirmou ao g1, só entre janeiro e fevereiro de 2023, mais de 600 brasileiros entraram com processos judiciais pedindo que fossem aprovados no Fies mesmo sem terem alcançado a nota necessária no Enem. Não há um balanço de quantos pedidos foram deferidos (ou seja, “deram certo”).
Foi uma “chuva” tão grande de processos – movidos especialmente por candidatos aos cursos de medicina –, e com tantos posicionamentos diferentes de juízes e desembargadores, que o Tribunal Regional Federal da 1ª Região (TRF-1) deve decidir, até o fim do ano, uma resposta única para todos os casos (pelo chamado Incidente de Resolução de Demandas Repetitivas – IRDR) .
Até lá, os estados dessa jurisdição (AC, AP, AM, BA, GO, MA, MT, PA, PI, RO, RR e TO, além do DF) ficarão com as decisões “congeladas”.
Há advogados que apresentam uma perspectiva mais realista e explicam ao cliente, desde o início, que pleitear uma vaga do Fies por liminar pode funcionar, mas envolve um alto risco de perder o processo, dependendo da interpretação da Justiça. Outros especialistas, porém, fazem propaganda nas redes sociais (“vaga de medicina já!!”) e garantem — de forma irresponsável — que haverá sucesso.
Márcia*, mãe de uma aluna que há anos busca uma forma de cursar medicina, quase acreditou em uma dessas promessas. “O primeiro escritório com que conversei disse que era certeza de sucesso. A sorte é que falei com outra advogada antes e soube que era algo incerto. Eu não poderia abrir mão de R$ 5 mil [valor cobrado para entrar com o processo], por mais que fosse o sonho da minha filha. Fiquei com muito medo”, diz.
Nesta reportagem, entenda:
os detalhes da tal “brecha” na legislação e por que, em casos pontuais, ela já foi capaz de dar uma vaga no Fies para quem não cumpria os pré-requisitos do programa;
por que a maioria dos juízes e desembargadores não concede o Fies nessas situações;
quais os riscos de buscar uma vaga por via judicial.
🖊️Mas o Enem não é obrigatório para quem busca o financiamento?
Em tese, sim. Quem quiser pleitear esse “empréstimo” para pagar as mensalidades de uma faculdade privada precisa ter:
renda familiar per capita de até 3 salários mínimos;
nota superior a 450 pontos (média geral) nas questões do Enem e maior do que zero na redação.
Dependendo do número de inscritos para determinado curso/universidade, é calculada uma nota de corte para selecionar quem será aprovado (priorizam-se os melhores desempenhos, especialmente de quem ainda não fez faculdade). As graduações em medicina são as mais concorridas.
🤔Em que se baseia essa tentativa de conseguir a vaga sem o Enem, então?
Como citado no início da reportagem, desde 2020, escritórios de advocacia vêm apresentando uma teoria para embasar essa reivindicação: reforçam que a lei que criou o Fies, em 2011, não menciona o Enem entre os critérios de exigência. A necessidade de prestar o exame e atingir determinado desempenho só passou a existir em 2015, por meio de uma portaria criada pelo MEC.
“Uma portaria não tem poder superior à lei federal. E outro ponto: depois que um país cria acesso a um direito social, não pode retroceder. Seria o mesmo que criar o SUS e depois passar a cobrar pelos serviços", afirma o advogado Henrique Rodrigues, responsável por um dos primeiros casos em que um aluno conseguiu o financiamento via judicial.
"Por isso, se move uma ação contra o MEC, o FNDE e o governo federal [para pleitear a vaga via judicial].
Por outro lado, o MEC e instituições de ensino superior explicam que as regras que introduziram o Enem no processo seletivo do Fies existem justamente para dar sustentabilidade financeira ao programa. Seria impossível, segundo eles, dar uma vaga e uma oportunidade de financiamento a todos os alunos inscritos.
“Esse tipo de judicialização quebra a lógica da política de ingresso na educação superior e gera uma competitividade desleal em relação ao aluno que se esforçou e prestou o Enem. Quem vai atrás de advogado para conseguir a vaga está furando a fila”, afirma Bruno Caetano, consultor jurídico da Associação Brasileira de Mantenedoras de Ensino Superior (Abmes).
Em um dos casos nos quais a vaga foi negada, o Superior Tribunal de Justiça manifestou preocupação a respeito da “real probabilidade de haver sério comprometimento da viabilidade econômico-financeira do Fies, dado o crescente número de medidas de natureza liminar que têm reconhecido direito a estudantes que, de acordo com as normas vigentes, não o teriam”.
E há mais uma consequência temida por quem se opõe à via judicial para conseguir o Fies: em alguns casos, a Justiça concedeu não só o financiamento, mas também a vaga para um estudante que sequer estava matriculado em uma instituição de ensino. “Acaba se formando um excedente em relação ao número [de alunos] planejado inicialmente. Isso impacta a organização das atividades práticas e dos estágios”, explica Caetano, da Abmes.
🔴‘Meu pedido foi indeferido, e estou devendo R$ 60 mil’
Larissa Valença, de 21 anos, havia sido aprovada em medicina em uma faculdade privada de Olinda, mas não conseguiria bancar as mensalidades – a única alternativa, segundo ela, seria financiar o curso pelo Fies e pagar as parcelas depois da formatura.
Só que, com a nota que a jovem havia tirado no Enem e com a renda de sua família, ela ficaria fora do processo seletivo.
“Liguei para uma advogada, e ela me explicou que eu nem precisaria pagar a primeira mensalidade, porque a decisão judicial [que concederia o Fies] sairia em questão de 15 a 20 dias, antes da emissão do boleto”, lembra a jovem.
Segundo Larissa, a profissional ainda sugeriu que a aluna apresentasse apenas o comprovante de renda da mãe – e omitisse o do pai, para não ultrapassar o limite de renda do Fies.
Os tais 20 dias de prazo se passaram, mas a família de Larissa não recebeu nenhum retorno.
“Começou a me bater um desespero, porque eu já estava até fazendo prova na faculdade. Na metade do 1º período [do curso], ficava vendo meus boletos vencendo, e nada de me falarem da decisão. A advogada pediu mais tempo e disse que nunca tinha perdido um processo deste”, conta Larissa.
Só que, dois meses depois, em uma busca na internet, a jovem descobriu que o caso havia sido julgado como improcedente. “[No escritório], sabiam que o juiz tinha negado, porque até entraram com recurso, mas não me avisaram.”
Pelas regras da faculdade, ela não pôde sequer trancar a matrícula, porque tinha cursado apenas um semestre.
“Tive de abandonar o curso e voltar a estudar para o Enem. Só que estou devendo R$ 60 mil [todas as mensalidades não pagas]. Sou muito nova para uma dívida dessa. Medicina é um sonho, tentei por 3 anos, só passei a respirar quando fui aprovada. Agora, parece que parei de respirar de novo.”
🔴‘Já vendi brigadeiro e rifa para me manter’, diz estudante de medicina que trancou curso no 8º período
Everton Delgado, de 32 anos, trancou o curso de medicina porque não conseguiu o financiamento
Arquivo pessoal
Everton Delgado, de 32 anos, já era formado em direito, mas queria estudar medicina.
Depois de ser aprovado em uma faculdade privada, começou a pagar as altas mensalidades, na esperança de, em algum momento, conseguir uma vaga no Fies. No entanto, como o programa prioriza os candidatos que ainda não têm diploma, Everton ia automaticamente para o fim da fila.
“Por quatro anos, paguei mais de R$ 8 mil por mês [na universidade], com a ajuda da família inteira, cada um dando um pouco. Só que tivemos problemas financeiros e não conseguimos mais”, diz Everton.
Foi aí que, em julho de 2023, ele tentou a via judicial para conseguir o financiamento. Mas:
A liminar (que é a ordem provisória, tomada logo no início do processo por um juiz) foi negada.
Depois, no tribunal, os desembargadores proferiram a sentença: também negativa.
Agora, Everton aguarda a decisão final, após recorrer e entrar com recurso no Superior Tribunal de Justiça.
“O advogado foi muito sincero comigo e me avisou dos riscos. Mas eu quis tentar”, diz. “Tranquei o curso. Estou fazendo bico até conseguir achar uma solução. Já vendi brigadeiro e rifa para me manter.”
🔴‘Não me avisaram que os processos estavam congelados’
Patrícia Campos, de 37 anos, é formada em nutrição e, para mudar de carreira, prestou vestibular para medicina. Foi aprovada, mas não sabia se conseguiria bancar as mensalidades até o fim do curso. Quando viu a live de um influenciador no Instagram, descobriu que poderia tentar uma vaga no Fies por via judicial.
“Minha faculdade nem tem contrato com o Fies, mas o advogado disse que a liminar poderia sair em 15 dias, e aí, eu poderia escolher outra [instituição de ensino] e me matricular. Paguei R$ 3 mil logo de cara, mas nada de vir um resultado”, conta.
“Três meses depois, entrei em contato e descobri que a liminar tinha sido negada."
Patrícia mora em Goiânia, que faz parte do TRF-1 – como explicado no início da reportagem, todos os processos de Goiás (e de outros estados que estão no mesmo "guarda-chuva") estão paralisados. A decisão provisória até pode ser emitida pelo juiz, mas a definitiva só sairá depois que o tribunal chegar a um consenso geral sobre o assunto.
“Ninguém me avisou disso. Me venderam uma falsa esperança, porque sabiam que estava tudo bloqueado. Caí em um conto de fadas”, diz.
🔴Liminar x sentença: e se as respostas forem diferentes?
O advogado Henrique Rodrigues explica que é possível haver divergências:
SITUAÇÃO 1: não conseguir a liminar (ordem provisória do juiz, que precisa ser cumprida rapidamente), mas "vencer" na sentença (por decisão dos desembargadores) e garantir o Fies.
Nicole Arbex, de 20 anos, conseguiu o financiamento no Fies mesmo sem a nota de corte no Enem
Arquivo pessoal
Foi o caso de Nicole Arbex, de 20 anos, que não atingiu nota suficiente no Enem para ser aprovada em medicina nas instituições federais. Por poucos pontos, também não passou no Prouni ou no Fies.
Na Justiça, ela tentou pleitear o financiamento com o argumento de que a lei original do programa não mencionava a prova como critério de seleção. O juiz, no entanto, negou a liminar. Depois, em segunda instância, a sentença dos desembargadores foi positiva, e Nicole pôde iniciar os trâmites do Fies.
“Foi bastante conturbado e cansativo, mas é uma luta por algo que era meu de direito. O custo inicial do processo é pesado, mas, se der certo, vale a pena”, diz.
SITUAÇÃO 2: ganhar a liminar, mas depois "perder" na sentença e ficar sem o financiamento.
O perigo, nesta segunda hipótese, é o aluno usar a liminar para já começar a estudar, mesmo antes de sair a sentença final. Nesse intervalo, ele estará assumindo uma dívida sem a garantia de que realmente terá o financiamento garantido até o fim do curso. Se o desembargador, meses depois, indeferir o pedido, o estudante perderá o Fies e terá de pagar as mensalidades anteriores.
Esse é o temor de Júlio*, de 29 anos, que conseguiu o Fies via liminar em 2022.
“Depois de 6 meses e com muita burocracia no MEC, assinei o contrato e comecei a estudar. Mas, desde então, tenho muita dificuldade para fazer os aditamentos [renovações], porque o TRF-1 derrubou minha liminar duas vezes já. Hoje, meu processo está em julgamento final. Não sei se vou continuar estudando”, conta.
“Se derrubarem minha liminar, fico sem estudar e com uma dívida que eu não tinha antes. Nem sei de quanto. É tudo muito incerto neste processo, porque os julgamentos variam de um desembargador para outro. Fico triste, porque quem é de baixa renda e não recebeu ensino de qualidade tem cada vez mais dificuldade de conseguir o Fies. Mesmo com tudo isso, não me arrependo da via judicial. Era minha esperança.”
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Livro de Machado de Assis faz americana viralizar no TikTok: ‘O que fazer da vida depois que terminá-lo?’

Entenda o que é a linguagem neutra
Courtney Henning Novak, de 45 anos, lançou um desafio pessoal: ler um livro de cada país do mundo. Ainda faltam 100 páginas para ela terminar o representante brasileiro, 'Memórias Póstumas de Brás Cubas', mas já enfrenta praticamente uma crise de abstinência literária. Courtney viralizou no TikTok ao falar de livro de Machado de Assis: 'Brasil, precisamos conversar'
Reprodução/TikTok
“Preciso ter uma conversa com o pessoal do Brasil. Por que não me avisaram antes que este é o melhor livro já escrito? O que vou fazer do resto da minha vida depois que terminá-lo?”
Esse desespero apaixonado vem de Courtney Henning Novak, escritora e podcaster americana que, aos 45 anos, diz estar totalmente obcecada por “Memórias Póstumas de Brás Cubas”, obra publicada pelo autor brasileiro Machado de Assis (1839-1908) em 1881.
📖 Em um projeto pessoal, Courtney propôs-se a ler um livro de cada lugar do mundo, seguindo a ordem alfabética da lista de países, e contar suas impressões no TikTok. O vídeo sobre “Memórias”, por exemplo, já ultrapassou as 740 mil visualizações entre o último sábado (18), quando foi postado, e esta segunda-feira (20).
A americana está preocupada: ainda está no começo da letra “B” e já conheceu a genialidade de Machado. “Ainda tenho de ler de Brunei até Zimbábue!”, brincou.
Abaixo, nesta reportagem, confira:
o que faz do livro “Memórias Póstumas de Brás Cubas” algo tão arrebatador;
por que ler resumos ou adaptações é “abrir mão de uma herança milionária”.
Não é a primeira vez que o talento de Machado de Assis é reconhecido internacionalmente, claro. Para citar um exemplo deste século, o escritor americano Philip Roth (1933-2018) declarou sua admiração pelo brasileiro em 2008, comparando-o ao dramaturgo irlandês Samuel Beckett (1906-1989).
➡️Hélio de Seixas Guimarães, professor de literatura brasileira na Universidade de São Paulo (USP), conta que as principais obras de Machado "estão traduzidas para praticamente todas as línguas modernas e publicadas por boas editoras de vários países".
"Machado de Assis tem bastante prestígio internacional, que só fez crescer a partir da segunda metade do século 20, principalmente nos meios acadêmicos e mais cultos", explica Guimarães, que também é vice-diretor da Biblioteca Brasiliana Guita e José Mindlin, em São Paulo, e coordenador da coleção “Todos os livros de Machado de Assis”, da Todavia/Itaú Cultural.
E uma curiosidade: foi justamente a tradução da americana Flora Thompson-DeVeax para o inglês – versão lida por Courtney – que ampliou o alcance de “Memórias Póstumas” no exterior.
“Machado sempre atingiu um público restrito fora do Brasil. Isso talvez tenha começado a mudar com a tradução recente de Thomson-DeVeaux, que teve um lançamento bem-sucedido e agora chegou às redes sociais. Tomara que isso ajude Machado de Assis a entrar em circuitos mais amplos de leitura”, diz Guimarães.
A tradutora comemorou o sucesso de seu trabalho no TikTok. No Twitter, Flora postou: "Eu vi o vídeo [da Courtney], gente! Fiquei feliz demais de ver alguém tendo a mesma reação que eu quando eu li 'Brás Cubas' pela primeira vez com meu português precário: espanto e indignação de não ter convivido com o Machado desde sempre". E aconselhou: "presenteiem os amigos gringos, espalhem essa alegria!".
☠️Por que é um livro tão arrebatador?
“Memórias Póstumas de Brás Cubas” é contado por um “defunto-autor”: o personagem principal, Brás Cubas, traça sua própria biografia direto do túmulo. A dedicatória, apresentada logo no início da história, já deixa evidente a mistura entre ironia, humor e horror:
“Ao verme que primeiro roeu as frias carnes do meu cadáver dedico como saudosa lembrança estas memórias póstumas.”
Não vamos aqui dar nenhum spoiler, claro. Mas veja aspectos de destaque da obra, que ajudam a explicar por que Courtney estava quase terminando as 300 páginas em um só fim de semana:
✏️Irreverência na linguagem:
“Penso que o próprio livro diz o que há nele de muito especial: a mistura muito peculiar de galhofa e melancolia, de riso e seriedade. Consegue o feito de ser muito profundo, em muitos sentidos terrível, e ao mesmo tempo muito engraçado e divertido de ler. Há ali uma irreverência e uma liberdade de espírito que só encontramos muito raramente na literatura de qualquer tempo e lugar”, diz Hélio de Seixas Guimarães.
📓Revolução na literatura de seu tempo:
Fernando Marcílio, professor de literatura do Curso Anglo (SP), explica como Machado de Assis quebrou o padrão do Romantismo da época.
“Com ‘Memórias Póstumas de Brás Cubas’, Machado foi iniciador de uma nova estética no Brasil: o Realismo. A gente costuma dizer que ele foi um gênio porque questionou as bases da literatura de seu próprio tempo ao escrever um romance realista – realista nas bases do século XIX, desnudando a realidade humana e desfazendo as ilusões românticas", diz.
"Por exemplo: Brás Cubas mede o envolvimento com uma mulher a partir do dinheiro que gastou com ela. Quer algo menos ‘amor romântico’ do que isso?”
🌎Representação do ser humano (de qualquer lugar do mundo):
As críticas sociais em “Memórias” não são explícitas como em “O Cortiço”, por exemplo, de Aluísio Azevedo. Mas isso não significa que não haja uma representação dos seres humanos (e da sociedade brasileira).
“As personagens machadianas querem parecer algo que não são. Brás Cubas, por exemplo, vive da aparência. E nós tínhamos, no Brasil, a mesma hipocrisia: um discurso liberal, mas em uma sociedade ainda escravocrata”, afirma Marcílio.
O professor Hélio Guimarães reforça a universalidade do que é retratado na obra.
“Um livro como ‘Memórias póstumas de Brás Cubas’ permite conhecer melhor não só a história e a cultura brasileiras, mas a espécie humana, pela visão de uma das pessoas mais inteligentes, sensíveis e cultas que já viveram no Brasil”, afirma.
E, por mais que a representação seja fiel à realidade do século XIX, não deixa de ser atual e de gerar identificação com os novos leitores.
“Lendo a obra, os jovens podem tomar consciência e enxergar a raiz e o problema de dilemas sociais com que vivemos até hoje. Os personagens são pessoas que conhecemos. Todos nós temos referências de Brás Cubas ou Marcelas [outra personagem] nas nossas vidas”, diz Heric José Palos, coordenador de literatura do Curso Etapa (SP).
🆘Por que você deve fugir dos resumos?
“Memórias Póstumas de Brás Cubas” frequentemente integra a lista de obras obrigatórias de vestibulares. Esteve, por exemplo, na relação de livros da Fuvest, da Universidade de São Paulo (USP), por longos períodos, como de 2013 a 2019.
Na internet, é possível encontrar dezenas de resumos da obra. Bom, você deve imaginar que nenhum professor aprovará a ideia de trocar a leitura de um livro por uma página de síntese.
“É importante ler Machado, porque foi o melhor autor que produzimos no Brasil em todos os tempos. É como alguém deixar uma herança milionária, mas você recusar. Recusar Machado é recusar o que de melhor foi produzido na nossa cultura”, diz Fernando Marcílio.
“O que está por trás das adaptações e dos resumos é só o que acontece, e não como acontece. É um rebaixamento do leitor. Existem edições originais com notas de rodapé explicativas que podem ser úteis para aprender e entender o desconhecido.”
Heric, do Etapa, afirma também que o resumo limita qualquer percepção mais ampla ou crítica do estudante.
“É fácil resumir: o livro é a história de um cara morto que conta sua própria vida. Mas não é só isso o que interessa. Não é o que ele faz, e sim por que ele faz. Lendo a íntegra, o leitor vai ter uma visão mais profunda dos personagens, com a linguagem refinada, sagaz e elegante de Machado de Assis.”
Vídeos
Abaixo, veja a correção de uma questão do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) 2023 sobre Machado de Assis:
Enem 2023: correção da questão de Filosofia sobre texto de Machado de Assis

Entenda o que é a linguagem neutra

Entenda o que é a linguagem neutra
Comunicação é adotada a fim de incluir membros da comunidade LGBTQIA+ que não se identificam como homem ou mulher. Nesta segunda (20), Moraes suspendeu leis que proíbem uso e ensino de linguagem neutra em cidades de MG e GO. Saiba o que é a linguagem neutra e como ela é usada para incluir pessoas LGBTQIA+.
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Linguagem neutra é o nome dado à comunicação oral ou escrita que aplica um gênero neutro em vez do feminino ou masculino. Oralmente, isso é feito, geralmente, substituindo os artigos masculino e feminino por um artigo neutro, que pode ser "e" ou "u", a depender da palavra.
Dessa forma, ele ou ela pode virar "elu", amigo ou amiga pode virar "amigue", todos ou todas pode ser "todes", e assim por diante.
➡️ Contexto… O ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), suspendeu, nesta segunda-feira (20), duas leis municipais dos municípios de Ibirité (MG) e de Águas Lindas (GO) que proíbem o uso e o ensino da linguagem neutra na administração pública e nas escolas públicas e privadas.
📚 Na decisão, Moraes afirmou que a competência para legislar sobre normas gerais sobre educação e ensino é da União e lembrou que já há uma lei sobre o tema – a Lei de Diretrizes e Bases da educação (leia mais aqui).
Na forma escrita da linguagem neutra, também é comum o uso de outras letras ou de elementos gráficos para neutralizar palavras femininas ou masculinas, como "todxs", "amig@", por exemplo.
Migues, vamos entender o que é gênero neutro
Esse tipo de comunicação é adotado a fim de incluir membros da comunidade LGBTQIA+, como pessoas trans, não-binárias ou intersexo, que não se identificam como homem ou mulher, para que se sintam representados na sociedade.
Muito popular na internet e entre a população LGBTQIA+, o gênero neutro ainda não tem um modelo definido.
A linguagem neutra é correta ou oficial?
De acordo com a norma padrão da língua portuguesa, o papel de pronome neutro no plural é feito pelo artigo masculino. Por exemplo, se um grupo de pessoas é composto por homens e mulheres, mesmo que majoritariamente feminino, pode-se referir às pessoas do grupo como "eles" ou "todos".
Por isso, vestibulares ou concursos públicos que exigem a usa da norma culta da língua não permitem o uso do gênero neutro.
Mas, apesar de não ser padrão ou oficial, não significa que a aplicação da linguagem neutra seja errada (a menos que expressamente especificada). Ou até que ela não vai ser oficializada em algum momento.
Em entrevista ao g1 em 2022, Jonathan Moura, que é professor de língua portuguesa, disse que não é impossível que a linguagem passe a integrar o idioma futuramente, mas alertou que isso depende da adesão pública.
Uma linguagem precisa ser praticada para se manter viva, ou, neste caso, viver. Só assim ela passa a fazer parte do cotidiano das pessoas.