‘Pacto de sangue’ e ‘velha atropelada’: os pontos do livro ‘Menino Marrom’, de Ziraldo, suspenso em escolas de MG

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Obra de 1986 discute amizade e diversidade étnica ao contar a história de dois meninos, um negro e um branco, que juntos dividem a infância e suas descobertas. Partes do livro foram considerados 'agressivas' por alguns pais. Uma das capas de "O Menino Marrom", livro de Ziraldo.
Editora Melhoramentos
O livro "O Menino Marrom", obra de Ziraldo publicada em 1986, conta a história de dois meninos, um negro – o menino marrom – e um branco – o menino cor-de-rosa – que juntos tentam compreender melhor as cores.
Na obra, Ziraldo se utiliza de diversas brincadeiras para falar sobre as cores e fazer a oposição entre o preto e o branco, tratando de questões como a amizade verdadeira, a diversidade étnica e a construção da personalidade. Os meninos, ao longo do livro, buscam entender "se o branco é o contrário do preto", enquanto o narrador debate questões como a inexistência de algo que poderia ser chamado de "cor de pele", entre outros temas.
Nas redes sociais, pais consideraram o conteúdo da obra "agressivo" e que induziria as crianças a "fazer maldade". Após as críticas, a Secretaria Municipal de Educação de Conselheiro Lafaiete, na Região Central de Minas Gerais, suspendeu atividades relacionadas ao livro.
➡️Os comentários apontam, principalmente, duas passagens do livro como sendo "agressivas":
O desejo o menino marrom de que uma senhora fosse atropelada, após ela rejeitar sua ajuda para atravessar a rua;
A ideia dos meninos de realizarem um pacto de sangue para selarem a amizade.
Além disso, os meninos também protagonizam uma discussão em certo ponto do livro, "que os deixou separados e de mal por um tempo enorme".
Segundo Zoara Failla, socióloga e coordenadora da pesquisa Retratos da Leitura no Brasil, do Instituto Pró-Livro, afirma que o pedido de suspensão reflete uma má interpretação da obra por parte dos pais.
"Ziraldo, ao trazer dilemas vividos por duas crianças, possibilita a reflexão, orientada por pais ou professores, sobre temas como diversidade racial, preconceito, amizade e o respeito às diferenças", analisa.
Abaixo, nesta reportagem, você entende um pouco mais sobre cada um dos trechos e suas possíveis interpretações.
'Eu quero ver ela ser atropelada'
Página de "O Menino Marrom" cujo conteúdo foi criticado por pais de Conselheiro Lafaiete
Reprodução/Melhoramentos
Em uma das passagens do livro criticadas pelos pais, o "menino marrom" – que não recebe um nome próprio – revela para o "menino cor-de-rosa" que gostaria que uma velhinha fosse atropelada.
Apesar do trecho poder parecer que induz à violência, é preciso analisar o contexto.
"É fundamental entender o contexto de uma obra. Como compreender os dilemas de um personagem se não identificarmos os costumes, valores e crenças que orientam seu comportamento?", questiona Zoara.
Pouco antes de fazer o comentário com o amigo, é relatado pelo narrador que o menino marrom passou a acordar cedo em algumas manhãs. Sozinho no meio da rua, viu uma velhinha atravessando a rua a caminho da missa das seis e, querendo fazer uma boa ação, corre para guiar a senhora.
A velhinha, entretanto, é ríspida com o menino, lhe dá um tapa na mão e atravessa a rua sozinha, deixando o menino desapontado e sem entender o que havia feito de errado.
Nas manhãs seguintes, então, ele, acompanhado do amigo, passa a sentar na calçada e observar a senhora fazer sempre o mesmo caminho sozinha. Só então revela ao menino cor-de-rosa seu desejo com relação à velhinha.
A fala é logo acompanhada de um questionamento do próprio narrador:
"Como pode durar esse jogo de deus e de diabo em peito de menino?"
'Temos que selar nosso pacto com sangue!'
Página do livro "O Menino Marrom" criticada por pais de Conselheiro Lafaiete: meninos pensam em fazer pacto de sangue, desistem de usar faca e até mesmo um alfinete e acabam selando amizade com tinta de caneta azul.
Reprodução/Melhoramentos
Outro trecho que gerou incômodo é o pacto de sangue que os meninos decidem fazer para selar a amizade.
Determinados a fazer um juramento que duraria para sempre, um deles vai até a cozinha pegar uma faca para "furar os pulsos e misturar o sangue dos amigos eternos".
Sem coragem para fazer nenhum corte, decidem então optar por um alfinete – alternativa que também não inspira confiança.
Incapazes de realizar qualquer ferimento, veem na tinta a solução: sem encontrar a tinta vermelha, que simularia o sangue, é com tinta azul que carimbam um papel e assinam seus nomes para firmar o pacto.
Ainda que a sugestão de um pacto de sangue possa causar certa preocupação, o desfecho acontece sem nenhum corte e com uma relação profunda com o enredo da obra – encontram nas cores uma forma de jurar amizade eterna.
"A atitude desses personagens mostrou que eles mesmo optaram por brincar com uma situação que criaram, um pacto de sangue de um menino branco e um menino negro", comenta Failla.
Compromisso com a educação
Sobre a suspensão do livro "O Menino Marrom", a Editora Melhoramentos, que detém os direitos de publicação, reforça que "tem como principal objetivo promover a cultura por meio da educação e entretenimento, gerando conteúdo para toda a família, especialmente o público infantojuvenil".
Em nota, a editora também reiterou que é reconhecida por sua criteriosa curadoria e avaliação de títulos, mantendo sempre seu legado.
"Ziraldo é um dos autores infantojuvenis de maior expressividade na cultura brasileira. Sua capacidade de equilibrar humor, sensibilidade e temas relevantes como diversidade e inclusão, o destacaram como um mestre na arte de contar histórias", afirmou a editora em nota.
Em nota publicada nas redes sociais, a prefeitura de Conselheiro Lafaiete disse que o livro de Ziraldo "é um recurso valioso na educação, pois promove discussões importantes sobre respeito às diferenças e igualdade" e "aborda de forma sensível e poética temas como diversidade racial, preconceito e amizade".
No entanto, "diante das diversas manifestações e divergência de opiniões", a Secretaria Municipal de Educação solicitou a suspensão temporária dos trabalhos realizados sobre a obra, "a fim de melhor readequação da abordagem pedagógica, evitando assim interpretações equivocadas".
Para a socióloga Zoara Failla, a decisão reflete a dificuldade de interpretação do texto e a incapacidade de perceber a riqueza da obra.
"A leitura dos pais foi equivocada certamente por terem limitações de compreensão da linguagem e da criação da ficção e da arte. Não conseguiram perceber o potencial que essa obra tem de provocar uma leitura crítica e promover o diálogo", lamenta a socióloga.
Menino Maluquinho e Turma do Pererê são os personagens inesquecíveis de Ziraldo

Senado aprova Novo Ensino Médio com mais horas para disciplinas básicas e espanhol obrigatório

Texto foi modificado no Senado, por isso, volta para análise na Câmara dos Deputados, onde foi aprovado em março. Entidade defende mais horas obrigatórias para formação básica. O Senado aprovou nesta quarta-feira (19) o projeto do Novo Ensino Médio, que determina carga horária de 2,4 mil horas, distribuídas em três anos, para as disciplinas obrigatórias, como português e matemática. O texto reestrutura novamente o ensino médio- última etapa da educação básica-, reformado em 2017.
Devido às mudanças feitas pelos senadores, a matéria vai passar por nova votação na Câmara dos Deputados, antes de se tornar lei.
A proposta inclui o espanhol como curso obrigatório, dentro da Base Nacional Comum Curricular (BNCC). Na lei atual, apenas o inglês é exigido como língua estrangeira.
Novo Ensino Médio: relatora reduz carga horária das disciplinas básicas e torna espanhol obrigatório
Estados apontam dificuldade para cumprir a regra pois não terão meios para contratar novos professores. Secretários de Educação afirmaram que alguns entes estão em regime de recuperação fiscal e, por isso, "impossibilitados de criar novos cargos ou realizar concurso público".
A relatora, senadora Professora Dorinha Seabra (União-TO), possibilitou que outro idioma seja ofertado, em substituição ao inglês ou ao espanhol. Isso acontecerá em situações em que escolas fronteiriças já ofereçam um outro idiomal, considerando o cenário regional. Um exemplo é o estado do Amapá, que faz fronteira com a Guiana Francesa.
Conforme o projeto, o ensino de língua francesa será admitido para respeitar o contexto histórico do local, e caso as instituições não consigam incluir um terceiro idioma no currículo, como o espanhol, que agora será obrigatório.
O Exame Nacional do Ensino Médio (Enem), para acesso ao ensino superior, só vai considerar o currículo comum (BNCC).
Carga horária
Hoje, a lei determina 3 mil horas para cursar todo o ensino médio- 1,8 mil horas dedicadas para as matérias essenciais, sobrando 1,2 mil horas para cursos opcionais. As únicas matérias que precisam constar obrigatoriamente nos três anos são português e matemática. São mil horas de aulas por ano.
A organização da sociedade civil Todos Pela Educação explica que o modelo atual fixa um "teto" de 1,8 mil horas para a formação básica. De acordo com a entidade, esse patamar é "excessivamente baixo", o que causou um "achatamento de disciplinas básicas e fundantes".
O projeto muda a lógica e, ao invés de um teto, prevê um piso, ou seja, um mínimo de horas que precisarão ser reservadas ao conhecimento essencial.
Pelo texto, os alunos vão dedicar, 2,4 mil horas para a formação geral básica e 600 horas para disciplinas optativas- quando o aluno se aprofunda em alguma área do conhecimento. A proposta ainda abre espaço para que a carga horária mínima anual cresça até 1,4 mil horas.
O projeto estabelece que 70% do período será reservado às disciplinas obrigatórias e 30% aos cursos de aprimoramento, à escolha do estudante.
O Conselho Nacional de Secretários de Educação (Consed) criticou na segunda (17) esse último ponto, argumentou que isso limitará a "flexibilidade da organização curricular diversificada do ensino médio".
No caso da formação técnica e profissional, o piso para as disciplinas obrigatórias será de 2,2 mil horas até 2028. A partir de 2029, a carga horária mínima para as matérias básicas vai chegar a 2,4 mil horas.

Comissão de Educação do Senado aprova Novo Ensino Médio; projeto vai ao plenário

Relatório aprovado prevê 2,4 mil horas para carga horária de disciplinas obrigatórias no ensino médio regular e regra de transição para ensino técnico. A Comissão de Educação e Cultura do Senado aprovou, em votação simbólica, nesta quarta-feira (19) o projeto de lei que institui mudanças no Novo Ensino Médio.
O texto foi enviado pelo governo ao Congresso em outubro do ano passado e aprovado pela Câmara dos Deputados em março deste ano e foi encaminhado ao Senado.
Agora, após aprovação na Comissão de Educação, o projeto segue para análise do plenário do Senado.
Novo Ensino Médio: relatora reduz carga horária das disciplinas básicas e torna espanhol obrigatório
O texto aprovado na Comissão foi o do relatório da professora Dorinha Seabra (União-TO), que foi lido pela primeira vez na semana passada.
Nesta terça-feira (18), estava prevista a votação do projeto, no entanto, emendas ao texto foram apresentadas e a senadora fez algumas alterações no texto, entre elas, retomou a carga horária básica de 2,4 mil horas de formação básica (FGB) para o ensino médio (veja mais abaixo).
As mudanças foram lidas na terça e o senador Marcos Rogério (PL-RO) pediu vista, ou seja, mais tempo para analisar o texto.
Nesta quarta, a senadora acatou mais algumas emendas sobre o projeto. Além do relatório favorável à proposta, também foi aprovado durante a reunião da comissão um requerimento de urgência para que o texto vá com mais rapidez para análise do plenário.
Confusão
Um estudante, que acompanhava a votação do projeto na comissão, foi retirado do local pelos seguranças da Polícia legislativa.
De acordo com estudantes ouvidos pelo g1, o jovem estava segurando uma placa pedindo a revogação do novo ensino médio e foi abordado pelo segurança que solicitou que ele baixasse a placa.
Homem é retirado de Comissão de Educação e Cultura do Senado
Diante da negativa do jovem, ele foi retirado do local e a reunião chegou a ser pausada. Na retomada, o presidente do colegiado, senador Flávio Arns (PSB-PR), comentou o ocorrido.
“Na comissão existe a manifestação de alguma pessoa com alguma placa. A segurança pede para não ter isto. Então, da minha parte também a pessoa não estava atrapalhando, nem vi que ele estava com a placa”, afirmou.
“A gente lamenta que tenha acontecido isso e, na sequência, vamos falar com a segurança para que a gente possa ter um encaminhamento uniforme nessas situações”, concluiu.
Carga horária obrigatória
Na versão proposta pelo governo e aprovada pela Câmara em março, que previa 2,4 mil horas para o currículo comum (obrigatório) e 600 horas para as matérias específicas.
No relatório apresentado na semana passada, a senadora professora Dorinha estabeleceu 2,2 mil horas para a formação geral básica e 800 horas para disciplinas optativas — quando o aluno se aprofunda em alguma área do conhecimento ou investe em formação técnica e profissional.
Após uma reunião com o Ministério da Educação (MEC), no documento lido nesta terça, a senadora retornou com as 2,4 mil horas para a formação geral básica.
Em relação ao ensino técnico, o texto Câmara previa 2,1 mil horas de formação geral básica e 900 horas para matérias específicas.
No relatório foi estabelecido o mínimo de 2,2 mil horas de formação geral básica no Ensino Médio Técnico a partir de 2025.
O relatório também estabeleceu que a partir de 2029 as cargas horárias totais de cursos de ensino médio técnico deverão “ser expandidas de 3 mil horas para 3,2 mil, 3,4 mil e 3,6 mil horas, quando se configurarem, respectivamente, como cursos técnicos de 800, 1 mil e 1,2 mil horas”.
Espanhol obrigatório
Em relação a inclusão de espanhol como curso obrigatório do ensino médio, dentro da da Base Nacional Comum Curricular (BNCC), a senadora manteve a novidade trazida no relatório anterior.

‘Pega o carro, vai na farmácia’: pedir coisas de adulto a crianças para filmar reação vira ‘trend’, mas especialistas alertam para riscos

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No viral, pais ou responsáveis pedem para crianças desempenharem coisas de adulto (como ir ao mercado ou ir à farmácia) e filmam a reação delas. Imagem ilustrativo de banco de fotos mostra uma criança brincando no chão
Freepik
Sentir uma dor de cabeça e pedir para alguém ir a uma farmácia comprar um remédio não é algo que tende a soar como um problema. Mas e se for para uma criança pequena? Esse tipo de pedido virou "trend" nas redes sociais, especialmente no TikTok, onde centenas de vídeos com a brincadeira podem ser encontrados.
📱Qual é a "brincadeira"? Pais ou responsáveis pedem para crianças desempenharem coisas de adulto (como ir ao mercado ou à farmácia) e dão instruções (como pegar a chave do carro, por exemplo), depois filmam a reação.
🧸Como as crianças reagem? Os vídeos mostram que as crianças demonstram ter entendimento do pedido, mas também, em geral, parecem ter consciência de que não são capazes de desempenhá-lo. Algumas chegam a afirmar que são crianças e até perguntam se o pedido não seria perigoso.
⚠️ Especialistas ouvidos pelo g1 alertam para os riscos da trend. Renata Bento, psicóloga especialista em família, explica que isso pode ter impacto inclusive nos sentimentos das crianças:
"A criança não tem condição de se defender. Ela precisa de um adulto que vai fazer isso para ela. Quando se inverte esse papel, o que a gente percebe é que a criança fica com medo. Ela fica com medo, ansiosa, com dúvidas…".
🤔 Como mostram vídeos da trend, em muitos casos as crianças olham confusas para os adultos, como se esperassem ouvir que é uma brincadeira, algo "de mentirinha".
"A questão não é a criança fazer uma coisa de adulto. A questão que está em jogo, na verdade, é pedir para a criança algo que parece ser uma brincadeira, mas não é. É justamente você colocar a criança diante das próprias fragilidades e vulnerabilidades", complementa Renata.
Renata lembra que a criança, principalmente nessa fase, precisa de segurança e de vínculos confiáveis. E, nessa situação da trend, o que o adulto faz é exatamente o contrário: "É mostrar 'não confie em mim, porque eu brinco com os seus sentimentos'".
A brincadeira pode levantar ainda outras questões: o quanto trends expõem as crianças?
"Eu tenho uma questão com trends, com a exposição da criança nessa situação de 'o que tá acontecendo? Você tá me deixando confusa'", diz Nanda Perim, psicóloga, autora e criadora da página Psimama no Instagram.
"É tão desrespeitoso quanto uma trend de você dar susto em adultos e postar sem a permissão deles. Você deixa a pessoa confusa, perdida e usa a imagem dela para engajar em redes sociais."
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Embora pareça menos inofensiva que a trend do palavrão, na qual a brincadeira era deixar a criança em um espaço no qual ela pudesse falar palavras "proibidas", a pegadinha do momento pode confundir a cabeça dos pequenos.
"É muito mais uma atitude que vai promover uma desregulação emocional na criança à toa", avalia Renata.
Ver um viral de redes sociais e submeter a criança ao que é proposto pela trend do momento não é a mesma coisa que brincar de "faz de conta" e simular coisas do dia a dia, como cozinhar ou limpar a casa.
"Se você chamar a criança para falar assim 'olha, imagina se eu pego a chave do carro e dou para você ir até a farmácia. É uma coisa de adulto, como você vai se sentir?' Aí a gente está falando de brincar de imaginar, você está favorecendo a criança ter imaginação", complementa Renata.
Seja qual for a brincadeira, é importante observar a reação da criança e, acima de tudo, respeitar. Será que ela se sente confortável sendo filmada e ao perceber que adultos riem?
"O desafio, na minha visão, é essa falta de permissão, o tanto que você deixa a criança confusa em qualquer uma dessas trends. No momento que a criança percebe que isso está sendo feito para as pessoas rirem da reação dela, para as pessoas rirem dela, qual é a sensação que isso passa?", questiona Nanda.
"Qual é, por exemplo, para um adulto? Simbolicamente, isso é uma humilhação, certo? Dependendo do humor, ele vai achar engraçado, vai achar divertido… Dependendo do humor, ele vai se sentir ofendido, envergonhado, humilhado… E aí que entra a parte da permissão. O que a gente está ensinando para essas crianças com relação à permissão, ao direito de imagem delas?", diz Nanda.

Festa junina, das tradições ou da colheita? Como a visão de evangélicos e de progressistas muda nome e formato do evento nas escolas

Festa junina, das tradições ou da colheita? Como a visão de evangélicos e de progressistas muda nome e formato do evento nas escolas
Diante do avanço das religiões neopentecostais, é mais comum ver crianças 'proibidas' pelos pais de ir a festas que, por essência, celebram santos católicos. Em instituições de ensino 'progressistas', tendência é de ampliar recorte e incluir outras culturas na comemoração. Fim das festas juninas nas escolas?
Por que as festas juninas das escolas estão recebendo outros nomes nos últimos anos, como “festa da colheita” e “festa da tradição”? E por qual motivo alguns colégios até desistiram de juntar as crianças para dançar quadrilha e brincar de pescaria?
São duas razões principais:
⛪Em tese, a cerimônia homenageia santos católicos (São João, Santo Antônio e São Pedro), que não são cultuados por famílias evangélicas [entenda mais abaixo].
Com o crescimento das religiões neopentecostais no Brasil, o número de alunos que não são liberados pelos pais para participar das festas tende a aumentar. Ao trocar o nome da comemoração ou cancelá-la, a escola tenta evitar que parte dos estudantes se sinta excluída.
Festas juninas têm sofrido mudanças nas escolas brasileiras
Acervo TV Globo
A professora Rebeca Café, de 29 anos, por exemplo, nunca pôde participar da festa junina da escola quando era criança. “Tentavam explicar para os meus pais, evangélicos, que a gente só ia comer comida gostosa e dançar, mas não tinha jeito, eles achavam que era um culto a santos da Igreja Católica. Eu e mais quatro alunos da classe ficávamos de fora”, diz.
“Agora, na escola [pública] onde trabalho, só três crianças da minha turma não são evangélicas. A alteração [do nome da festa] se fez necessária. Mas ainda acho que precisamos conhecer a história do nosso país, não importa a religião.”
💃No outro extremo, em menor escala, colégios mais “progressistas” têm tentado transformar as tradicionais festas juninas em cerimônias mais abrangentes, para “celebrar outras crenças e culturas” do país.
Na Escola Vera Cruz (SP), por exemplo, o evento para o ensino médio passou a incluir outras tradições culturais brasileiras — o ponto alto não será a quadrilha, e sim um cortejo afro inspirado em São Luís do Paraitinga.
➡️Para Amailton Azevedo, professor de história da PUC-SP, não importa qual seja a razão de “abandonar” a festa junina: será um equívoco do ponto de vista histórico e pedagógico.
“Deixar de comemorar é dar de ombros para uma tradição secular da cultura brasileira, trazida pelos portugueses no século XVI, mas que assumiu marcas próprias e incorporou elementos culturais afro-indígenas”, explica.
“As festas juninas são um patrimônio imaterial riquíssimo do ponto de vista histórico e cultural. É um erro abandoná-las e impedir as crianças de brincar. Esse conservadorismo é retrógrado.”
Ele também critica a postura de dissolver a festa junina (e todas as suas variantes regionais) e transformá-la em qualquer outra comemoração. “A celebração de outras culturas pode ocorrer em qualquer outra data do calendário escolar. Temos uma enorme gama de festividades brasileiras e internacionais.”
➡️Já a antropóloga Denise Pimenta, da Universidade de São Paulo (USP), reforça que não faz sentido resistirmos às mudanças. “A gente vê uma ascensão do início de um estado evangélico. A escola vai deixar de reforçar tradições católicas. Acho muito difícil que a festa desapareça, mas não vai mais se pautar por São João. Vai chamar, por exemplo, festa das tradições”, afirma.
“No fim, foi isso o que o catolicismo fez. Era uma festa pagã que foi atrelada pela Igreja aos santos. Essas mudanças acontecem. A tradição não está morrendo: está se adaptando para continuar viva.”
E um lembrete: outras comemorações, mesmo que com motivações não religiosas, já foram alteradas no dia a dia das escolas, como o Dia das Mães e o Dia dos Pais. Para abarcar famílias com casais homoafetivos ou para não entristecer os alunos órfãos/abandonados, as datas são trocadas por “Dia da Família”, por exemplo.
🌎De onde veio a festa junina?
A festa junina, a princípio, era pagã e servia para os europeus comemorarem a colheita e o solstício de verão (no hemisfério Norte, ele ocorre em junho).
Depois, com o avanço do cristianismo na Europa, a Igreja Católica apropriou-se da tradição e incluiu a celebração dos santos.
Com a vinda de portugueses para o Brasil, no início do século XVI, a festa veio “na bagagem”, mas foi adaptada à nossa realidade.
A dança, por exemplo, varia em cada região do Brasil, mas nada tem a ver com o que era apresentado pelas cortes europeias no passado. O pisado forte na terra, por exemplo, no piseiro ou no forró, é uma herança indígena, e os ritmos e instrumentos musicais têm influência africana.
Evangélicos são proibidos de ir a festas juninas?
Por que evangélicos não costumam ir a festas juninas?
Acervo TV Globo
Não adiantou trocar o nome de “festa junina” por “festa cultural”: na escola onde Esther* dá aula, os pais de uma aluna evangélica não liberaram a criança para o evento.
“Entrei na sala e vi uma das crianças do 1º ano [do ensino fundamental] chorando, porque a família dela não ia deixar que ela participasse da dança. Ela e a amiga estavam discutindo se festa ‘é ou não de Deus’”, diz.
“Tentei intervir e explicar para a turma que estávamos seguindo uma tradição cultural, e não religiosa. Mas não adiantou. A mãe da aluna mandou um recado na agenda e avisou que a menina está proibida de participar de qualquer atividade relacionada a festas juninas.”
➡️Por quê? Os evangélicos não acreditam em santos, como explicado no início da reportagem. Na interpretação que esses religiosos fazem da Bíblia, somente Deus deve ser adorado.
Talvez você esteja pensando que as festas da escola raramente mencionam os nomes dos santos — em geral, giram em torno das músicas, brincadeiras e comidinhas. Seria realmente “errado”, do ponto de vista dos não católicos, participar das danças e comer pipoca, paçoca e milho?
Não há uma resposta definitiva — dependerá da interpretação de cada fiel e da orientação das igrejas. Nas redes sociais, principalmente no TikTok, há vídeos de pastores esclarecendo exatamente este tipo de dúvida de seguidores evangélicos: “Meu filho pode participar da festa junina da escola ou será pecado?”.
Vamos ver abaixo dois pontos de vista diferentes de pastores ouvidos pelo g1:
1- ‘Existe algo de espiritual ali; é preciso fugir da experiência do mal’
O pastor Lúcio Andres, da Igreja Oceano da Graça (DF), recomendou nas redes que os pais evangélicos procurem a escola e informem educadamente que o filho não participará da festa junina.
Ao g1, ele disse que é preciso “dar a estrutura bíblica para a criança em casa, para que ela entenda a decisão” de não comparecer ao evento.
“Não é possível se apegar à pressão dos professores e das outras famílias. Existe algo espiritual na festa, é a consagração dos santos. É preciso fugir da experiência do mal”, afirmou.
Ele sugere que, em círculos evangélicos, as tradicionais festas sejam adaptadas e passem a dar ênfase exclusivamente a Jesus Cristo.
“Precisa ter um suporte espiritual favorável à Bíblia, com músicas evangélicas e de adoração, mesmo que em outros ritmos. Os santos não são mencionados e não há bebida alcoólica nem nenhum tipo de permissividade”, diz o pastor.
2- ‘Não é só a memória de um santo, é a nossa cultura’
Já o pastor Hermes Fernandes, mentor do grupo Ninho de Fênix, defende uma postura mais aberta dos fiéis. Para ele, não há problema frequentar uma festa junina mesmo sendo evangélico.
“Posso não ter devoção aos santos, mas celebrar a vida que tiveram", diz.
"Quando eu era criança, me sentia mal e excluído quando ficava de fora. Já adulto, com meus filhos, [que puderam ir à festa,] me diverti os vendo pintados, de chapéu de palha. É uma celebração da nossa cultura, que é de uma riqueza extraordinária."
* O sobrenome da entrevistada foi omitido a pedido dela.
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