Investimento social privado transforma a realidade de milhares de crianças e adolescentes

Escolas devem combater bullying machista e homotransfóbico, decide STF
Fundação Bradesco foi precursora desse movimento e hoje é o maior projeto do Brasil Fundação Bradesco – Movimento LED
Marco Flávio
Como podemos ajudar a mudar a sociedade e reduzir as diferenças em um país com grande desigualdade de renda, como o Brasil, onde nem todos nascem e crescem com as mesmas oportunidades? A resposta é simples: oferecendo uma educação de qualidade. É nesse cenário em que o investimento social privado ganha uma importância significativa ao promover a educação, em especial a Educação Básica, entre crianças e adolescentes com pouca ou nenhuma oportunidade de acesso à escola, amparadas por dificuldades financeiras e/ou por distâncias das unidades de ensino.
Hoje muito se fala no investimento social, pauta quase que obrigatória entre instituições privadas que trazem em seus relatórios números robustos e destacados. Mas, voltando ao passado, mais precisamente há cerca de 67 anos, o tema não era tão constante.
Neste âmbito, o papel da Fundação Bradesco ganha destaque. Desde sua criação, em 1956, a Fundação defende a educação como a maior propulsora para a transformação social. Seu fundador, Amador Aguiar, se comprometeu em contribuir ativamente com a sociedade brasileira proporcionando a outros, algo que outrora lhe faltou: o acesso a uma educação de qualidade – ele estudou até o antigo quarto ano no ensino primário, quando precisou interromper os estudos e trabalhar para ajudar sua família, realidade
ainda muito comum entre tantas crianças do nosso País. Autodidata e dedicado ao trabalho, Amador iniciou as atividades do Bradesco e decidiu fazer a diferença: instituiu em 1956 a Fundação São Paulo de Piratininga, que mais tarde passou a se chamar Fundação Bradesco.
Na década de 50, a Educação Básica era realidade para poucos, principalmente para quem passava por dificuldades financeiras e morava em regiões de difícil acesso. “Para nós, que moramos em grandes cidades, em uma década marcada pela facilidade proporcionada pela tecnologia, acaba sendo inimaginável pensar em um cenário em que, para chegar até a escola mais próxima, é preciso percorrer quilômetros de distância. Apesar disso, ainda hoje esse é o caso de milhares de brasileiros que moram em zonas rurais de difícil acesso, a exemplo do que acontece com nossos alunos residentes em Canuanã (TO) e Bodoquena (MT)”, relata Murilo Nogueira, Diretor da Fundação Bradesco, referindo-se a duas das 40 unidades escolares da Fundação Bradesco que estão localizadas nesses dois estados.
A primeira das 40 escolas foi construída seis anos depois da criação da Fundação, na Cidade de Deus, em Osasco (SP), onde se localiza a matriz do Bradesco. Ao longo do tempo, se expandiu, incluindo a educação escolar em diversos níveis e ampliando sua presença em áreas de vulnerabilidade socioeconômica, em todo o Brasil. São milhares de vidas impactadas, seja pela Educação Básica ou pelas demais frentes de atuação da Fundação Bradesco. Além disso, a Fundação Bradesco possui unidades que são moradas para alunos provenientes das zonas rurais do entorno. Tais unidades, que são verdadeiras escolas que são lares, funcionam em regime de internato e recebem crianças e adolescentes que possuem família em áreas rurais de difícil acesso.
Junto à educação que a Fundação Bradesco leva para as localidades onde atua, é importante considerar o impacto social positivo como um todo, já que essas escolas fomentam geração de renda e estimulam gestores públicos a ampliar o transporte público e investir em áreas anteriormente menos desenvolvidas. Isso sem falar nas oportunidades que os estudantes da instituição alcançam com a formação acadêmica, a qual possibilita eles estarem em diferentes lugares ocupando os mais variados cargos. “Não é raro encontrar ex-alunos em cargos de liderança nas especialidades que optaram por seguir ou no próprio Banco”, conta orgulhoso, Nogueira.
Para preservar esse legado, a Fundação é hoje detentora majoritária das ações do Bradesco, o que permite que todos os recursos investidos por ela provenham de seu próprio patrimônio.
Amador Aguiar faleceu em 1991 e seu comprometimento social, marcado pela inovação e pelo pioneirismo, permanece até hoje. Como então garantir a perpetuidade do projeto? “Nós gostamos de falar que nosso maior desafio é inovar todos os dias para continuarmos sendo a mesma escola, capaz de promover vivências que colaborem para a formação de indivíduos que consigam transpor os desafios inerentes a sociedade em que vivemos. Desde a nossa constituição, o mundo mudou e muito, bem como as práticas pedagógicas. Nos mantemos sempre atentos para continuar entregando uma educação de excelência”, responde o diretor.
Superar o próprio limite é um desses muitos desafios a que a Fundação Bradesco se propõe. “Nós queremos que as pessoas nos procurem não só pela gratuidade, mas principalmente pela qualidade de ensino que oferecemos e pelas oportunidades que se abrem por meio dessa educação transformadora que promovemos em nossas escolas”, completa Nogueira.
Denise Aguiar, Diretora Geral da Fundação Bradesco, assumiu a responsabilidade para dar prosseguimento à iniciativa precursora do avô. Desde a década de 90, a instituição se consolidou e se aperfeiçoou nas práticas pedagógicas e na gestão escolar. A Fundação Bradesco continua investindo no fortalecimento de sua proposta educacional e na proposição de modelos inovadores para impulsionar a aprendizagem e formar cidadãos, transformando assim a realidade em que vivem.
“A reinvenção da Fundação Bradesco é constante e esse processo existe desde sua instituição. Nossa missão é fazer com que nossos alunos voem cada vez mais alto e isso é possível por causa do nosso olhar atento à inovação contínua. Para manter essa evolução, promovemos e defendemos uma escola que converse com as necessidades atuais, estimulando a atenção e curiosidade dos alunos, seja por meio de novas metodologias de ensino, seja pela utilização de recursos tecnológicos para tornar as aulas mais interessantes”, finaliza o diretor.
Atualmente, mais de 42 mil alunos são atendidos pela Fundação Bradesco, que possui mais de 3.600 mil colaboradores comprometidos com a promoção da inclusão e da transformação social.
Amador Aguiar, idealizador da Fundação, deixou um legado que inspirou, inclusive, ao longo de todos esses anos, outras instituições privadas, a investir no ensino gratuito e de qualidade. Segundo Murilo Nogueira, Diretor da Fundação Bradesco, essa responsabilidade de ser considerada referência para outras iniciativas educacionais é
motivo de orgulho. “São anos de dedicação e muito trabalho e nós esperamos que, a partir do reconhecimento do nosso propósito, muitas outras instituições se sintam inspiradas a fomentar projetos tão importantes para contribuir positivamente com a sociedade”, diz.
A Fundação Bradesco continua sendo uma fonte de inspiração para iniciativas educacionais, impulsionando a transformação social através da educação gratuita e de qualidade.
Saiba mais.

Surrealismo é ‘pesadelo pós-feijoada’, e Romantismo, ‘homem sofrendo’: tiktoker viraliza com resumo de movimentos artísticos; faça QUIZ

Em brincadeira nas redes, Helen Chaves ofereceu 'minicurso' de 1,5 minuto para ajudar brasileiros a 'bater os olhos' em um quadro de museu e já saber a qual estilo de arte ele pertence. Teste seus conhecimentos sobre arte em questões rápidas que caíram em vestibulares e no Enem. TikToker viraliza com explicações bem-humoradas de movimentos artísticos
🎨"Se [o quadro] tiver um nenê fofinho, é Barroco. Agora, se o nenê for um pouco mal-diagramado, aí é Medieval. Se tiver gente rica se divertindo ao ar livre, com carinha de quem vai tomar o chá das 5, é Rococó. Se parecer uma produção de teatro de baixo orçamento, então é Neoclássico."
Foi com explicações assim que a tiktoker Helen Chaves viralizou nas redes sociais ao oferecer um bem-humorado "minicurso de belas artes" de um minuto e meio (veja vídeo acima). A intenção, segundo ela, é fazer com que você vá a uma exposição, "bata os olhos" em uma obra e já saiba a qual movimento ela pertence.
Teste seus conhecimentos sobre artes mais abaixo, com 6 perguntas rápidas de vestibulares.
“Minha profissão não tem nada a ver com artes: sou do mercado financeiro, mas sempre tive interesse na parte de humanas. Vou pesquisando e procurando aprender mais”, conta Helen ao g1.
"A ideia foi mostrar que não precisamos ter um conhecimento tão aprofundado para poder dizer que gostamos de uma obra. O que importa é o sentimento que ela causa na gente."
Em tempos de "cancelamento" virtual, a tiktoker fez questão de dizer que tudo é só uma brincadeira. O público aprovou: "resumiu os 4 semestres de história da arte que tive na faculdade!", escreveu uma usuária do TikTok; "eu, como artista plástica, estou rindo horrores e concordando com tudo", disse outra.
Quiz: você manda bem em artes?
🖌️Abaixo, teste seus conhecimentos com 6 rápidas questões sobre movimentos artísticos que já caíram em vestibulares e no Exame Nacional do Ensino Médio (Enem). Em seguida, veja um resumo de cada escola citada e seus principais artistas.
Surrealismo? Romantismo? 6 questões de Enem e vestibulares sobre movimentos artísticos
🎨Barroco
Na brincadeira: "Tem nenê fofinho."
O que é: Estilo surgido na Europa, no século XVI, a partir da necessidade de catequizar fiéis. Maior parte das pinturas representa situações bíblicas.
Artistas: Caravaggio, Diego Velázquez
🎨Arte Medieval
Na brincadeira: "Neném é um pouco mal-diagramado."
O que é: Movimento surgido na Idade Média e fortemente associado à Igreja Católica, colocando sempre Deus no centro das obras. É formado por dois estilos principais: gótico e românico (neste último, as deformações nas imagens são mais comuns).
Artistas: Pietro Lorenzetti, Simone Martini, Taddeo Gaddi
🎨Impressionismo
Na brincadeira: "Parece que você tem de visitar o 'oftalmo'."
O que é: Foi criado no século XIX, na França, durante a Belle Époque. Há predominância de temas relacionados à natureza e à vida ao ar livre, com valorização de cores, luzes e sombras. A intenção é captar o movimento e o instante da cena retratada.
Artistas: Claude Monet, Edgar Degas, Édouard Manet, Pierre-Auguste Renoir
🎨Cubismo
Na brincadeira: "Se parece com a bagunça da sua gaveta de vasilhas."
O que é: Movimento inaugurado pela obra "As senhoritas de Avignon", de Picasso, em momento de tensão política antes da I Guerra Mundial. Caracteriza-se pelo geometrismo e pela fragmentação.
Artistas: Pablo Picasso, Paul Cézanne, Tarsila do Amaral
🎨Maneirismo
Na brincadeira: "As pessoas são muito grandes. Esse neném aqui nasceu com 1,70m."
O que é: Inaugurado entre 1515 e 1610, é uma reação aos valores clássicos do Renascimento. Efeitos de alongamento das figuras humanas são comuns nas pinturas.
Artistas: El Greco, Giorgio Vasari, Rosso Fiorentino, Francesco Mazzola
🎨Renascimento nórdico
Na brincadeira: "Tem o dia a dia dos camponeses."
O que é: O termo "nórdico" refere-se ao Renascimento europeu principalmente na Alemanha, na França e na Holanda. As obras costumam ser apresentadas sem idealizações.
Artistas: Albrecht Dürer, Jan van Eyck
🎨Realismo
Na brincadeira: "Tem camponeses sofrendo."
O que é: Movimento com predominância de temas do cotidiano, com destaque para o retrato de trabalhadores no século XIX. Temas sociais, como desigualdade econômica, estão presentes.
Artistas: Gustave Courbet, Jean-François Millet
🎨Pontilhismo
Na brincadeira: "Parece que você pegou uma imagem de baixa resolução e ampliou."
O que é: Técnica de pintura surgida na França, no fim do século XIX, derivada do Impressionismo. Pequenos pontos ou manchas formam os desenhos da pintura.
Artistas: George Seurat, Belmiro de Almeida, Paul Signac
🎨Romantismo alemão
Na brincadeira: "Parece com um homem querendo mostrar que está chateado com você."
O que é: Movimento que surgiu como contraponto ao Iluminismo. Em vez de priorizar a razão, passa a enfatizar a emoção e subjetividade.
Artistas: Caspar David Friedrich, Carl Gustav Carus, Philipp Otto Runge
🎨Rococó
Na brincadeira: "Tem gente rica se divertindo ao ar livre, com carinha de quem vai tomar o chá das 5."
O que é: Nascido no século XVIII, na França, acompanhou o Iluminismo e contrapôs-se ao barroco: em vez de usar cores escuras e valorizar o que é feio, prioriza tons claros e reforça a importância da beleza.
Artistas: Jean-Honoré Fragonard, François Boucher, Antoine Watteau
🎨Renascença
Na brincadeira: "Você mal pode acreditar que é uma pintura que está na parede de uma igreja."
O que é: Movimento cultural surgido na Itália, no século XIV, caracterizado pelo antropocentrismo (o homem no centro de tudo), racionalismo e valorização da ciência, por exemplo.
Artistas: Leonardo da Vinci, Michelangelo, Rafael Sanzio
🎨Neoclássico
Na brincadeira: "Parece uma produção de teatro de baixo orçamento."
O que é: O neoclassicismo nasceu na Europa ocidental, no século XVIII, com pintores que pretendem retratar a realidade de forma fiel, com objetividade, simplicidade e referências greco-romanas.
Artistas: Angelica Kauffmann, Nicolas-Antoine Taunay, Marie-Guillemine Benoist
🎨Art Noveau
Na brincadeira: "Parece o desenho de uma carta de tarô."
O que é: Movimento surgido na Europa, no fim do século XIX, com domínio de formas sinuosas, presença de figuras femininas e domínio de elementos orgânicos (como flores e folhagens).
Artistas: Alfons Maria Mucha, Gustav Klimt, Egon Schiele
🎨Surrealismo
Na brincadeira: "Parece um pesadelo que você teve domingo à tarde, depois de almoçar feijoada."
O que é: Do século XX, é um dos movimentos europeus de vanguarda surgidos no pós-guerra. Como oposição ao realismo, apresenta imagens irreais, que valorizam o mundo dos sonhos e do inconsciente.
Artistas: Salvador Dalí, Max Ernst, Joan Miró
🎨Dadaísmo
Na brincadeira: "Você está na dúvida se é obra de arte."
O que é: Assim como o Surrealismo, também é um dos movimentos europeus de vanguarda no século XX. Seu lema é "destruição também é criação" (ou seja, busca questionar a arte, romper com os valores tradicionais, retratar a desordem e ser irreverente).
Artistas: Max Ernst, Hugo Ball, Hans Arp, Tristan Tzara, Marcel Duchamp, Francis Picabia
🎨Arte psicodélica
Na brincadeira: "Parece com a sensação de ficar perdido da sua mãe no supermercado quando você tinha 5 anos."
O que é: Estilo artístico surgido na década de 1960 em que são usadas formas geométricas de modo que pareçam tridimensionais e "vivas". O objetivo é retratar alucinações motivadas por drogas psicodélicas.
Artistas: Alex Grey, Wes Wilson
🎨Modernismo brasileiro
Na brincadeira: "Parece com a sensação de chegar ao interior para visitar sua vó."
O que é: Movimento nascido no Brasil após a I Guerra Mundial como influência das inovações estéticas trazidas pela vanguarda europeia (Cubismo, Dadaísmo, Surrealismo etc.). Começa na Semana de Arte Moderna (1922) e se estende até 1960, em três diferentes fases.
Artistas: Anita Malfatti, Di Cavalcanti, Vicente do Rego Monteiro
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Ex-jogador Raí foi ‘capitão’ da turma no mestrado e tremeu na formatura como se fosse uma final; saiba mais

Escolas devem combater bullying machista e homotransfóbico, decide STF
Aos 59 anos, ídolo do São Paulo, da Seleção Brasileira e do Paris Saint-Germain tornou-se mestre em políticas públicas em uma universidade renomada da França. Ao g1, ele fala dos objetivos e dos desafios de escrever uma dissertação sobre a importância das atividades lúdicas para a sociedade. E compara tudo com futebol, claro. Ex-jogador Raí conclui mestrado em políticas públicas: 'Queria provocar meus neurônios'
O que é mais difícil?
a) Apresentar um trabalho para 5 pessoas.
b) Jogar uma partida decisiva de futebol diante de 120 mil torcedores.
Para o ex-jogador Raí, ídolo do São Paulo e da Seleção Brasileira, não há diferença no nervosismo. “É igualzinho: a boca fica seca, a gente treme, não dorme na véspera e chega cedo para se concentrar”, conta.
Aos 59 anos, em entrevista exclusiva ao g1, o atleta descreveu sua trajetória acadêmica na Universidade Sciences Po, em Paris, onde concluiu o mestrado em políticas públicas no início de junho.
Falou ainda, como você poderá ver ao longo da reportagem:
da possibilidade de, depois de se aposentar como jogador, passar a se dedicar aos estudos;
do seu forte lado político (que veio de berço, segundo ele), dos projetos sociais e do combate a governos de extrema direita;
do espírito de liderança que o tornou basicamente um “capitão” da classe;
do sucesso que fez entre colegas e professores na França (foram muitas fotos e autógrafos);
da postura dos jogadores atuais do futebol brasileiro (de Neymar a Vini Jr.);
e, entre outros tópicos de um papo de mais de uma hora, da intenção de implementar o projeto do mestrado em uma cidade pequena do Nordeste.
✏️Raí desenvolveu uma pesquisa sobre a importância de universalizar o acesso da população a atividades lúdicas e criativas. Segundo as conclusões da dissertação, em vez de o esporte, o teatro e a dança serem vistos como “não essenciais” pelos governos, deveriam ser disponibilizados de forma abrangente, para crianças, adultos e idosos:
melhorarem o desempenho cognitivo e físico;
aprenderem novas formas de expressão;
ocuparem espaços públicos;
socializarem mais
e até fortalecerem a democracia (“a primeira coisa que um governo de extrema direita ataca é a cultura, porque ela junta pessoas, abre a cabeça delas e estimula o espírito crítico”, diz o jogador).
🥅Capitão da turma, Raí precisou ‘driblar as dificuldades’
Raí é ídolo do São Paulo após vestir a camisa do clube por quase 10 anos, em duas passagens pelo clube
Acervo TV Globo
O mestrado foi uma jogada planejada, mas que exigiu jogo de cintura para superar os adversários.
“Eu chutava mal de esquerda, né? E trabalhei isso no futebol. Foi assim na universidade também: precisei encarar minhas limitações de estudo, todas as bases literárias que eu não tinha, e driblá-las. Porque drible é isso, é o improviso. Mas foram improvisos com base nas minhas convicções. Isso diminuiu o risco”, conta o ex-atleta.
Nos dois anos de curso, com aulas em francês, Raí foi se tornando o “capitão” da classe. A tática (ou instinto) foi a mesma adotada no São Paulo e na Seleção Brasileira: “Eu chego a um lugar, preciso me adaptar, mas depois acabo virando o líder. Nunca é no começo; é um processo de sedução. Você conquista a confiança dos outros, a sua também, e, com amor, sem grito, faz com que as pessoas te respeitem e te ouçam”.
Será que foram muitos autógrafos e fotos distribuídos entre os colegas e professores, principalmente torcedores do Paris Saint-Germain (clube em que Raí jogou de 1993 e 1998)? Certamente. Mas até quem não gostava tanto de futebol encantou-se por Raí. Em uma das aulas, por exemplo, cada aluno da turma deveria apresentar uma situação de superação de crise de uma instituição.
🤔O que você, leitor, falaria? De uma briga com o chefe? De um problema financeiro na empresa onde trabalha? O ex-jogador analisou nada menos do que sua experiência na Copa de 1994, quando o Brasil conquistou o tetracampeonato mundial. “Apelei”, brinca.
E um bastidor: Raí garante que o grupo do “zap” com o pessoal da universidade ainda vai servir para marcar muitas festas. “Falo até hoje com os amigos do São Paulo, do PSG e da Seleção Brasileira. Vai ser a mesma coisa”, diz.
🏆Paulistão, Libertadores e Mundial x Mestrado, doutorado e 'pós-doc'
Raí fez mestrado na Sciences Po, em Paris
Reprodução/Instagram
Raí já conquistou uma grande tríade no futebol paulista, quando ganhou três importantes campeonatos pelo São Paulo em 1992. Será que um outro pacote de vitórias pode vir nos estudos também, com um doutorado e um pós-doutorado após a conclusão do mestrado?
Ele faz mistério, mas deixa claro que sua intenção vai muito além de colecionar diplomas e de ter títulos (acadêmicos): quer “mexer os neurônios” e se aprofundar mais na área de políticas públicas.
Raí sempre teve uma forte ligação com temas sociais, e a Fundação Gol de Letra, que fundou em 1998 para apoiar a educação de crianças e jovens, continua uma referência para ONGs brasileiras.
“Como atleta, fiquei meio limitado, sem poder desenvolver o lado acadêmico. E minha motivação social é quase de berço, né? Olha os nomes dos meus irmãos: Sócrates, Sófocles e Sóstenes [filósofos gregos]. Já cria uma inquietação intelectual”, afirma, rindo.
📚Como estimular outros jogadores a seguir o caminho de projetos sociais?
Raí criou a Fundação Gol de Letra, projeto social de apoio a crianças e jovens no Brasil
Christian Gavelle/Divulgação
Os ex-jogadores Daniel Alves e Robinho, por exemplo, foram condenados neste ano por crimes sexuais. Outros atletas, como Neymar e Éder Militão, também viraram notícia por declarações polêmicas. O que falta para que mais ídolos do esporte sigam um caminho semelhante ao de Raí?
“Precisam ser estimulados e ter referência. Eles começam a morar nos clubes muito cedo, com 12 ou 13 anos, e necessitam de formação. Mas vejo que agora a sociedade cobra mais da postura [dos jogadores]”, afirma Raí.
“Estamos evoluindo aos poucos: o Vini Júnior, por exemplo, está fazendo uma revolução e se tornando um grande líder de resistência, de luta, de coragem. Ele recebe pouco apoio incisivo dos colegas, mas está influenciando as novas gerações.”
🎭Raí quer transformar cidade do Nordeste em ‘grande Sesc’
Raí quer implementar projeto de ludicidade em município pequeno do Nordeste
Christian Gavelle/Divulgação
No mestrado, como explicado no início da reportagem, o ex-jogador estudou a importância da ludicidade para o desenvolvimento humano e social. Fez estudos de caso para mostrar o impacto na população de ações de incentivo à cultura e ao esporte, mencionando, por exemplo:
o Sesc SP, projeto privado que oferece atividades a todas as faixas etárias, normalmente sem cobrar nada, em centros espalhados pela cidade (peças de teatro, shows [a baixo custo], exposições, oficinas esportivas etc.);
Londres e todo o legado olímpico para a cidade após 2012;
e o Centro Cultural 104, instalado em uma região violenta de Paris para ser uma “usina cultural”. “Nos primeiros anos, as pessoas do bairro não se reconheciam no espaço. Estudei o que o novo diretor fez para conseguir começar a atrair os moradores para lá. Hoje, grupos locais de rap e break dance, por exemplo, ensaiam ao lado de idosos. É um lugar contagiante”, diz.
Agora, a intenção é implementar um projeto de ludicidade, semelhante aos examinados na dissertação, em algum município pequeno do Nordeste.
“A ideia é formular uma política pública para que a cidade se torne um grande Sesc”, conta Raí.
Ele ainda não sabe qual local receberá o projeto – nas redes sociais, recebeu várias sugestões. Até o cantor Chico César está em franca campanha para que Catolé da Rocha (PB), onde nasceu, seja a escolhida.
“Pode ser uma ideia interessante. Ainda estou na fase de estudos, mas sei que quero um município de 10 a 15 mil habitantes, para conseguir monitorar o impacto das ações na população. E [precisa ser] no Nordeste. Porque meu pai era cearense, e nós íamos todo ano para a periferia de Fortaleza. Tenho no sangue a cultura nordestina”, diz.
⚽Qual foi o gol mais bonito?
Raí comemora título acadêmico
Reprodução/Instagram
Os torcedores são paulinos provavelmente pensarão no gol de falta que Raí marcou contra o Barcelona na final do Mundial de 1992.
Mas o ex-jogador garante que também brilhou na universidade. Sua jogada mais bonita foi “levar para a academia toda a grande riqueza” do que aprendeu na Fundação Gol de Letra.
“O que eu aprendi no futebol e nos projetos sociais sobre realidades difíceis, violência e injustiças precisaria ser colocado nos estudos. Guardar isso só para mim seria um desperdício.”
Raí também fez sucesso no PSG, na França
Reprodução/L'Equipe
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‘A língua que falamos determina como pensamos’: americano que cresceu com indígenas na Amazônia explica relação

Escolas devem combater bullying machista e homotransfóbico, decide STF
Linguista Caleb Everett, que conviveu desde a infância com o povo indígena pirahã em Rondônia, escreveu um livro sobre a diversidade linguística do planeta. Língua do povo indígena pirahã é foco central de um polêmico debate acadêmico há décadas
Daniel Everett via BBC
Todos nós humanos vivemos no mesmo mundo e temos experiências semelhantes. Por isso, todas as línguas faladas no planeta possuem as mesmas categorias básicas para expressar ideias e objetos — refletindo essa experiência humana comum.
Essa noção foi defendida por anos por diversos linguistas, mas para o linguista americano Caleb Everett, quando analisamos os idiomas mais de perto, descobrimos que muitos conceitos básicos não são universais e que falantes de línguas diferentes veem e pensam o mundo de forma diferente.
Em um novo livro, baseado em muitas línguas que ele pesquisou na Amazônia brasileira, Everett mostra que muitas culturas não pensam da mesma forma o tempo, o espaço ou os números.
Algumas línguas têm muitas palavras para descrever um conceito como tempo. Outras, como a Tupi Kawahib, sequer tem uma definição de tempo.
Talvez poucas pessoas estejam mais aptas a pensar sobre esse problema do que Everett. Nascido nos Estados Unidos, ele teve uma infância incomum nos anos 1980, dividindo seu tempo entre seu país natal, escolas públicas em São Paulo e Porto Velho, e aldeias indígenas no interior da Amazônia, em Rondônia.
Caleb é filho do americano Daniel Everett, que veio ao Brasil nos anos 1970 como missionário cristão com o propósito de traduzir a Bíblia para o idioma pirahã — uma língua falada hoje por cerca de 300 indígenas brasileiros.
Daniel veio para ajudar a converter os indígenas, mas acabou ele próprio convertido: abandonou a religião e passou a se dedicar ao estudo do pirahã, com um doutorado em linguística na Unicamp.
Desde cedo, Caleb acompanhou o pai e a mãe (que também era missionária) em missões na Amazônia brasileira. Chegou a viver entre os indígenas, passando parte da infância pescando e brincando com eles na floresta.
Muamba, bunda, dengo: você usa palavras de línguas africanas sem perceber
De volta aos EUA, se formou e foi trabalhar no mercado financeiro. Mas uma questão sempre o perturbou: interessado em psicologia, ele lia em revistas científicas que diziam que a forma que os humanos aprendem e entendem os números é universal.
“Nem todos os humanos pensam assim. Eu tenho o grande privilégio de conhecer alguns dos povos indígenas do Brasil que não pensam assim”, diz Everett.
Cada vez mais interessado em pesquisar sobre os indígenas que conheceu na sua infância, ele resolveu dar uma guinada na sua vida. Abandonou o mundo financeiro, fez doutorado e voltou para Rondônia, onde foi investigar as línguas amazônicas.
Da pesquisa, saiu seu primeiro livro, de 2017, Numbers and the Making of Us: Counting and the Course of Human Cultures (“Os números e a nossa formação: a contagem e o curso das culturas humanas”, em tradução livre). No livro, Caleb Everett defende que os números são um conceito que não é natural ou inato ao ser humano — e varia imensamente de acordo com cada cultura e idioma, ao ponto que é impossível dizer que existe uma forma universal e “natural” para os humanos aprenderem quantidades.
Recentemente, ele lançou outro livro em que volta ao tema. Em A Myriad of Tongues: How Languages Reveal Differences in How We Think (“Uma miríade de línguas: como as línguas revelam diferenças na forma como pensamos”, em tradução livre), Everett diz que nos acostumamos a acreditar que todas as línguas do mundo usam categorias universais para classificar ideias e objetos — já que a experiência humana é limitada a alguns aspectos comuns de todas as culturas.
Afinal, todos nós — independente de onde nascemos — contamos quantidades, lembramos do passado, planejamos o futuro e usamos pontos geográficos para nos localizarmos.
Mas, segundo Everett, nem todas as línguas refletem o mundo dessa forma. Há línguas no mundo — como a pirahã, que ele aprendeu na infância — que sequer têm números precisos. Algumas línguas possuem apenas dois tempos verbais (o futuro e o não-futuro); outras possuem sete.
Essas discrepâncias são muito maiores do que apenas diferenças culturais, argumenta Caleb. Elas determinam de forma profunda como cada ser humano percebe e pensa o mundo.
A diferença é que para um povo, algumas noções de tempo podem ser não só irrelevantes — como quase incompreensíveis. Já outros povos podem ter uma compreensão mais sofisticada de tempo do que outros.
Para entender isso, linguistas como Caleb estão se debruçando sobre muitas línguas que não eram devidamente estudadas no passado — sobretudo na Amazônia. A tecnologia e a facilidade de se viajar no mundo atual acelerou o trabalho dos linguistas.
Mas eles correm contra o tempo, já que a modernidade está "matando" línguas em um ritmo mais acelerado, com povos indígenas tendo cada vez mais dificuldade de se sustentarem sem o aprendizado de outros idiomas.
O estudo das línguas amazônicas também está desafiando noções antigas de intelectuais sobre como os humanos falam. Esse debate traz à tona uma famosa disputa que existe no mundo acadêmico entre seu pai, Daniel, e o linguista americano Noam Chomsky, em torno da língua pirahã, de Rondônia, justamente a que Caleb aprendeu ainda quando criança.
Chomsky é famoso por propor o conceito de “gramática universal” — a ideia de que todas as línguas humanas possuem uma estrutura comum, independente de onde essas línguas se desenvolvem.
Mas Daniel Everett afirma que a língua pirahã desmente a tese de Chomsky. Em pirahã, não existiria a recursividade — algo que Chomsky diz ser inerente a todas as línguas e, portanto, universal. Recursividade é quando se insere uma frase dentro de outra, como em: “O policial que prendeu o bandido que roubou uma casa está na delegacia”.
Esse é um dos debates mais acalorados no mundo da linguística. Chomsky chegou a chamar Daniel Everett de charlatão e sugeriu que sua pesquisa sobre os pirahã era falsificada – já que por anos Daniel foi o único acadêmico a falar a língua.
Em entrevista para a BBC News Brasil, Caleb disse acreditar que este debate está ficando no passado, com os avanços tecnológicos que estão acontecendo no mundo da linguística. No mundo de hoje, são faladas mais de 7 mil línguas — e graças a avanços como ciência de dados e aprendizado de máquina, linguistas estão conseguindo expandir sua compreensão desses idiomas em uma velocidade inédita.
O resultado, segundo Caleb, é que algumas noções clássicas do mundo da linguística dos anos 1970 estão finalmente podendo ser colocadas à prova — e muitas delas não estão sendo aprovadas no teste.
Confira abaixo a entrevista que Caleb Everett deu à BBC News Brasil na qual fala sobre suas experiências na Amazônia brasileira, o debate sobre como as línguas moldam o mundo que experimentamos e os avanços no estudo dos idiomas nos dias de hoje.
BBC News Brasil: Seu livro sugere que estamos tendo uma melhor compreensão das mais de 7 mil línguas que hoje são faladas no mundo. O que os linguistas estão aprendendo com essas línguas menos conhecidas?
Caleb Everett: Estamos aprendendo muito. O que está claro é que as línguas são muito mais diferentes entre si do que pensávamos. Nós costumávamos supor que existia essa diversidade entre as línguas, mas que por trás delas haveria algum tipo de componente universal — algo que todas as línguas compartilhavam.
E o que estamos descobrindo, à medida que olhamos para mais e mais línguas, é que elas são diferentes em maneiras muito profundas, que não foram previstas em alguns dos modelos teóricos da linguística dos anos 1960 e 1970.
Existem alguns pontos em comum, é claro. Todos nós temos os mesmos ouvidos, as mesmas bocas e os mesmos cérebros.
Há essas semelhanças entre as línguas, mas não é porque existe algo geneticamente programado dentro da linguagem.
BBC: Muito do seu trabalho é baseado em línguas amazônicas que você estuda há muito tempo. O que você aprendeu especificamente com elas?
Everett: A Amazônia é realmente fascinante, porque embora existam outras regiões do mundo, como a Nova Guiné ou a África Ocidental, que têm mais línguas, as línguas da Amazônia são totalmente não relacionadas entre si.
Existem algumas centenas de línguas, mas existem dezenas de famílias linguísticas, como tupi ou aruaque ou algumas outras línguas isoladas que não têm ‘parentes’ conhecidos.
Algumas são totalmente distintas entre si e estão a apenas 100 quilômetros de distância uma da outra.
A Amazônia é uma espécie de microcosmo fascinante da diversidade linguística que existe no mundo.
E podemos aprender muito sobre as diversas formas como os humanos se comunicam olhando apenas para as pessoas na Amazônia.
Muitas vezes, eu acho, nós somos culpados no Ocidente de uma espécie de homogeneização desses grupos. Nós meio que os colocamos suas línguas, suas culturas no mesmo bojo.
BBC: Na Amazônia, o que você descobriu que sustenta essa ideia de que as pessoas pensam diferente porque falam diferente?
Everett: Uma forma pela qual as línguas dessa região produziram insights é como as pessoas pensam sobre o tempo.
Em inglês e em muitas línguas, temos a tendência, por exemplo, de usar metáforas em que o futuro está na nossa frente e o passado está atrás de nós.
Mas existem alguns grupos na Amazônia que não falam sobre o tempo dessa forma.
Há um caso famoso de língua Tupi Kawahib, onde eles nem falam sobre tempo em termos de espaço.
Quando uma língua como o inglês tem três tempos, algumas línguas têm até sete tempos. Elas dividem o tempo de maneiras muito diferentes.
Então não se trata apenas de coisas superficiais, como “eles falam sobre plantas e animais de forma diferente”.
E isso é verdade até certo ponto. Mas o que mais me interessa, e o foco do livro, são esses aspectos fundamentais do pensamento humano.
Como pensamos sobre as quantidades, como pensamos sobre o espaço, como pensamos sobre o tempo e como os humanos desenvolvem essas capacidades, e como isso parece variar em alguns aspectos entre culturas.
BBC: No seu livro, você dá o exemplo de uma frase em inglês com muitas referências ao tempo: “Na segunda-feira passada eu corri por meia hora, como eu faço todas as semanas”. Você disse que algumas das línguas que estuda não têm todos os recursos para enquadrar o tempo dessa forma. Já outras têm sete tempos verbais. Essas línguas são menos ou mais sofisticadas do que as que estamos acostumados?
Everett: Você vê idiomas que talvez prestem atenção ao tempo e às maneiras que nós não fazemos.
Se você tiver na sua língua apenas passado, presente ou futuro, quando você estiver falando, basta indicar se foi em um desses três tempos.
Mas se você tem sete tempos que podem incluir algo como passado muito distante ou um futuro muito distante, então você deve prestar atenção a esses aspectos temporais e talvez a formas mais sutis.
BBC: Em que idioma foi isso?
Everett: É uma linguagem chamada yagua [falada na Amazônia peruana]. Embora existam muitas línguas que possuem cinco ou seis tempos, há algumas que não possuem nenhum tempo verbal.
Uma das línguas que trabalhei na Amazônia, Karitiana, tem dois tempos: futuro e não futuro. Essa é uma língua falada no Estado de Rondônia. Esse é um sistema de tempo bastante comum. Mas o exemplo que você lembrou, sobre uma corrida que fiz de 30 minutos ontem ou na semana passada. Vamos pensar sobre essa frase. O que são 30 minutos? Minutos é algo muito definido cultural e linguisticamente. O minuto vem de um sistema numérico de base 60 que remonta à Mesopotâmia, e é por isso que dividimos a nossa hora 60 — e depois dividimos novamente para ter segundos. São coisas culturais muito arbitrárias que aprendemos, e parecem naturais para nós à medida que aprendemos a contar as horas.
Mas é realmente antinatural para muitas pessoas.
Então você pode imaginar se estiver conversando com um amazônico que nunca topou com o conceito de horas, minutos ou semana, que também é culturalmente construída. Há tantas tradições culturais muito específicas incorporadas apenas nessa frase que impactam como pensamos.
Pense no quanto o seu dia é ditado olhando os relógios e pensando onde você tem que estar em um determinado horário e em determinados minutos. Isso tudo é arbitrário.
Muitas culturas prescindem completamente destas noções. Estas coisas são codificadas na linguagem aprendida pelas crianças desde cedo, que moldam a forma como pensamos sobre a passagem do tempo. E isso parece totalmente natural para nós até que você seja confrontado com alguém para quem esses conceitos sejam totalmente antinaturais e você percebe "este é um humano inteligente e eles não precisam desses conceitos.”
Isso não quer dizer que eles sejam inúteis. Acho que são muito úteis, mas são úteis no nosso contexto cultural. E são apenas uma maneira diferente de pensar sobre o mundo. Eles não são “a” maneira de pensar sobre o mundo.
BBC: Vamos pegar, por exemplo, o idioma que você mencionou que tem sete tempos. O que você percebe que é diferente na maneira como eles pensam ou na forma como sua sociedade é?
Everett: Parte disso, eu diria, é arbitrário.
Mas o que alguns pesquisadores tentaram fazer é um teste experimental: será que estas diferenças linguísticas têm impacto na forma como as pessoas pensam sobre o tempo em geral, mesmo quando não estão falando?
E há uma boa quantidade de evidências agora de que isso acontece.
Como no exemplo do futuro estando à sua frente no passado, atrás de você.
Há uma boa quantidade de evidências experimentais agora de que, mesmo quando as pessoas nessas línguas estavam, o passado está à sua frente e o futuro está atrás de você, há uma boa quantidade de evidências de que as pessoas pensam sobre o tempo de maneira diferente, mesmo quando elas não estão falando.
Experiências básicas mostraram que quando as pessoas falam sobre o futuro em algumas destas línguas, elas apontam para trás, e quando falam sobre o passado, apontam para a frente, enquanto os falantes de inglês fazem o inverso.
Tendemos a pensar que estamos caminhando em direção ao futuro, enquanto para muitas dessas culturas é o contrário. E se você pensar bem, faz sentido. Porque você pode ver o passado. Você vê o que comeu no café da manhã. Você sabe o que aconteceu ontem. Mas o futuro é meio desconhecido para nós, então esse tipo de metáfora básica de visão e ver o passado, não ver o futuro, é a base de como as pessoas pensam sobre o tempo. E algumas dessas culturas e essa forma de pensar sobre o tempo surge mesmo em contextos não linguísticos.
BBC: Você teve uma infância muito interessante e inusitada, tendo passado grande parte do tempo com indígenas no Brasil. Como foi essa experiência?
Everett: Tenho boas lembranças da minha infância e do Brasil. Passei grande parte da minha infância na aldeia pirahã com minhas duas irmãs e meus pais.
Mas também passei um tempo em escolas públicas brasileiras, indo e voltando e ocasionalmente visitando os EUA.
Minha infância foi uma mistura de estar na aldeia no meio da selva, estar em cidades brasileiras e depois estar ocasionalmente em cidades americanas.
Em Porto Velho e São Paulo, porque meu pai acabou fazendo doutorado na Unicamp e assim em Campinas e em São Paulo.
As memórias de estar na selva são geralmente muito boas. Eu olho para trás agora e penso que nunca faria isso com meu filho (risos), quando penso nos riscos que corremos. Todos nós contraímos malária. É fácil olhar para trás com carinho quando todos sobreviveram.
Mas porque todos nós sobrevivemos e eu tenho boas lembranças de estar na aldeia nadando no rio com meus amigos indígenas, de caçar ou pescar com minhas irmãs, mas também alguns dos aspectos negativos, como a exploração dos indígenas por comerciantes locais.
No geral, foi uma infância muito positiva e tenho ótimas lembranças de estar na selva.
BBC: Você mencionou a língua pirahã e esse tem sido um debate bastante famoso no mundo linguístico entre seu pai e o famoso linguista americano Noam Chomsky. Esse debate intelectual chegou a ser bastante feroz na troca de palavras. O seu trabalho parece estar muito relacionado a essa questão que é central no mundo da linguística. Como você vê esse debate tão polêmico?
Everett: É um debate muito polêmico. Gosto de pensar que, de certa forma, a ciência superou alguns desses debates e o campo se tornou mais empírico. Meu pai foi certamente uma das pessoas que contribuiu para isso. Muitos pesquisadores nas últimas décadas trouxeram dados de diferentes idiomas na Austrália, na Amazônia e na África, que não parecem estar de acordo com os modelos que Chomsky e que outros promoveram nas décadas de 60 e 70. E esses modelos se tornaram muito influentes.
Na defesa desses modelos, eles parecem ter funcionado muito bem no começo.Mas na medida em que surgem mais e mais exceções, as coisas simplesmente não parecem se encaixar. E você tem que perguntar qual é a utilidade desse modelo?
O modelo é baseado, em grande parte, no inglês.
A nova safra de pesquisadores — a minha geração e a geração seguinte — não está muito satisfeita com os modelos dos anos 60 e 70. E isso não é um insulto.
Isso acontece em muitos campos. As coisas evoluem.
E agora acho que já ultrapassamos isso de uma forma que não é mais o debate central da linguística.
BBC: Mas ele ainda desperta muitas emoções fortes. Você acha que o mundo da linguística vai acabar deixando a gramática universal para trás?
Everett: A ideia de gramática universal mudou muito. Se você voltar e olhar os estudos dos anos 60 e 70, eles fizeram previsões muito grandes. Agora as previsões são quase impossíveis de serem provadas falsas.
Eles dizem: todos os humanos têm uma linguagem e então deve haver uma gramática universal.
É algo tão vago que não se pode discordar, mas que já não ajuda a se fazer nenhuma previsão, na minha opinião.
Mas digo isso também porque os pesquisadores que realmente respeito agora, que são talvez 10 anos mais novos que eu, certo, que estão fazendo pesquisas de ponta, eles não parecem estar levando em conta esse debate no seu trabalho.
Em vez disso, eles estão focados em realizar experimentos realmente bons, usando big data, ciência de dados e programação de computador, que se tornaram central para o trabalho que fazemos.
E isso não é verdade apenas na pesquisa linguística.
Quando as pessoas investem décadas de suas vidas em qualquer modelo teórico específico em qualquer disciplina, elas tendem a ser indivíduos bastante tendenciosos.
E então existe uma velha expressão que diz: a ciência muda uma aposentadoria por vez. E, de certa forma, acho que isso é verdade, que leva tempo.
Gostamos de pensar que somos objetivos, mas na verdade não somos, depois que investimos décadas em uma determinada visão e a promovemos, é preciso ser uma pessoa realmente grande para dizer “sabe: eu estive errado nos últimos 30 anos e preciso reconhecer isso diante de tantas evidências".
Eu não vou ficar parado esperando isso acontecer. Eu acho que é apenas uma mudança social gradual em uma disciplina.
BBC: A tecnologia recente acelerou o estudo das línguas. Mas muitas dessas línguas estão morrendo rapidamente também. Existe uma corrida contra o tempo para estudá-las antes que morram?
Everett: Sim. Eu acho que há muita documentação linguística ao redor do mundo e às vezes eu acho que na verdade somos meio egoístas como pesquisadores, queremos obter todos esses dados antes que eles desapareçam ou queremos manter as pessoas falando suas línguas.
Na Amazônia, por exemplo, você vê que existem alguns grupos indígenas que realmente importam muito para eles manterem sua língua e para alguns deles isso não parece importar muito.
E quem somos nós para dizer a eles que isso deveria importar?
Acho que às vezes isso é importante para mim porque eu tenho um interesse egoísta de querer mais idiomas e é uma coisa fascinante para mim e para minha carreira olhar para esses dados.
Mas sim, infelizmente, para alguns, as línguas estão morrendo.
Elas estão morrendo principalmente hoje em dia por razões econômicas, na medida em que grupos de pessoas que estão no Brasil e em outros lugares, se quiserem que seus filhos possam ser economicamente viáveis diante do encolhimento das reservas e da dificuldade cada vez maior de sobreviver da caça e da pesca, essas pessoas têm que falar português, espanhol ou inglês.
Dependendo do contexto em que se encontram, as pressões econômicas são tão fortes sobre alguns destes grupos individuais que a maioria dos modelos sugere que muitas destas línguas desaparecerão nos próximos 100 anos.
BBC: Ao longo da sua vida, você viu línguas amazônicas morrerem ou prestes a morrer?
Everett: Sim. Um exemplo que me vem à mente é o idioma suruí que também é falado em Rondônia e ainda há falantes. O missionário que foi um dos primeiros a contatá-los nos anos 60 falava que era um idioma vibrante em termos linguísticos, mas agora muitas dessas pessoas falam principalmente português.
E se você olhar a proporção de crianças que estão aprendendo a língua como primeira língua e vê que isso está diminuindo. Esse é geralmente o melhor indicador de se uma linguagem sobreviverá ou não.
Para muitas destas línguas, simplesmente não há muitas crianças a aprendê-las.
Existem outras línguas que vimos morrer completamente.
Uma que me vem à mente é uma língua chamada Orouim, que era falada na fronteira brasileira com a Bolívia.
Mas há muitos exemplos de línguas que acabaram morrendo. Ou de línguas onde ainda há muitos falantes, mas a proporção de número de falantes de português aumentou muito entre as crianças. Você vê isso no parque Xingu, por exemplo. Muitas das línguas ainda são faladas, mas muitas vezes as crianças falam principalmente português.
BBC: E com a morte das línguas a humanidade está perdendo diversidade na forma de se pensar o mundo?
Everett: Uma das coisas que descobrimos e que é mencionada no livro é que há vários grupos que demonstraram ter vocabulários ricos sobre cheiros.
Isso é outra coisa que costumávamos pensar: “nós, humanos, não temos palavras abstratas para cheiros”.
Mas acontece que houve uma série de línguas documentadas nos últimos 10 anos que possuem palavras ricas e abstratas para cheiros.
À medida que essas línguas morrem e algumas delas estão à beira da extinção, estamos perdendo algo crítico sobre como os humanos pensam sobre cheiros e como eles podem falar sobre cheiros. Se perdemos isso, nós perderemos um pouco de como os humanos pensam sobre os cheiros que sentem.
Na medida em que as línguas morrem, estamos perdendo algo básico de nossa compreensão de como os humanos pensam sobre as sensações que sentem.
BBC: Você compara línguas amplamente faladas com línguas pouco conhecidas para ilustrar como pessoas podem pensar de formas diferentes. Mas existe essa diferença na forma de pensar o mundo mesmo entre línguas amplamente faladas? Por exemplo, um chinês pensa o mundo diferente de um alemão, por conta da língua que fala?
Everett: É sempre difícil saber quanto disso é a cultura e quanto disso é a linguagem. Mas no caso chinês, por exemplo, tem havido algumas pesquisas fascinantes mostrando que os falantes de mandarim parecem pensar sobre o tempo de maneiras diferentes dos falantes de inglês, porque as metáforas que usam para o tempo são um pouco diferentes.
Os chineses usam metáforas verticais, em que o tempo está caindo, em oposição à metáfora horizontal do futuro estar diante de você, como no inglês.
Outro exemplo com falantes de chinês é o da cognição quantitativa — como as pessoas pensam sobre quantidades.
Os falantes de inglês, por exemplo, tendem ser um pouco mais lentos do que os falantes de chinês no aprendizado de números, por causa como de números como 11 (“eleven”) e 12 (“twelve”).
No inglês, nas dezenas de 13 em diante, existe um padrão previsível: “thirteen” (13) e “fourteen” (14) são a junção do número três e quatro com a dezena (“teen”). Mas isso não acontece com as palavras “eleven” (11) e “twelve” (12).
Em idiomas como o chinês isso é mais transparente. Na parte das dezenas, você aprende a junção “um-dezena”, dois-dezena", etc.
Isso ajudaria a explicar por que as crianças chinesas se saem um pouco melhor mais cedo em alguns exercícios de adição do que as crianças que falam inglês.
BBC: Um exemplo que se costuma dar em linguística é que os esquimós têm mais de 50 palavras para neve, já que é algo importante na cultura deles. Mas isso é um exemplo errado?
Everett: Isso se tornou uma coisa divertida para os linguistas zombarem.
Chegou ao ponto de o New York Times publicar um artigo que dizia que os esquimós têm centenas de palavras para neve e isso simplesmente não é verdade.
No entanto, a ideia central por trás dessa mentira não é imprecisa, que é a de que as pessoas vivem em ambientes muito diferentes. Não é de surpreender que alguns grupos amazônicos não tenham palavras para neve.
Há algumas evidências agora de que alguns destes termos que existem no ambiente podem ter impacto na forma como as pessoas pensam sobre algumas destas coisas externas.
BBC: Você menciona que as sociedades WEIRD (sigla em inglês para sociedades ocidentais, educadas, industrializadas, ricas e democráticas) não são uma população boa para se generalizar as capacidades da humanidade. Por que isso?
Everett: Foram pesquisadores de psicologia há cerca de 15 anos que inventaram essa sigla para WEIRD.
E eu acho que é uma maneira muito inteligente de fazer isso. As pessoas estão cientes hoje em dia que, se existem cerca de 7.000 línguas e culturas distintas no mundo, é problemático nós ficarmos nos debruçando repetidamente apenas no que pensam os americanos, os britânicos ou até mesmo os japoneses, e generalizar que é assim que os humanos pensam.
Nós [dos países WEIRD] somos uma pequena amostra da diversidade humana.
E além disso não somos representativos.
Um dos motivos disso é que estudos mostram que a alfabetização, por exemplo, muda a composição do cérebro.
Á medida que as pessoas aprendem a ler e escrever e ficam focadas em imagens bidimensionais. As crianças fazem isso repetidas vezes com livros e telas e isso tem alguns efeitos cognitivos.
Mas na perspectiva da história humana, se pensarmos em escalas de tempo maiores, os humanos deixaram a África há cerca de 100.000 anos, aproximadamente em ondas diferentes.
Eles caminharam por todo o mundo e chegaram a diversos lugares, incluindo o sul da América do Sul, há 20 mil anos.
Durante esse tempo, desenvolvemos formas muito diferentes de pensar.
Na vertente europeia, a agricultura tem apenas cerca de 8.000 anos e a industrialização tem apenas alguns 100 anos.
E a alfabetização generalizada — em que se espera que todas as pessoas leiam e escrevam — é um fenômeno recente.
Quando usamos as pessoas dos países WEIRD para generalizar como os humanos pensam, estamos olhando apenas para uma vertente específica de humanos que se desenvolveu em uma determinada parte do mundo durante apenas alguns mil anos de toda essa história de 100 mil anos.
É uma parte muito pequena da história de uma perspectiva histórica.
Obviamente, hoje é incrivelmente influente porque estes grupos tornaram-se potências colonizadoras e mudaram a forma como o mundo funciona.
Mas de uma perspectiva histórica e antropológica, isso é apenas uma parte do quadro. E às vezes é uma parte não representativa.
Temos que buscar uma amostragem menos tendenciosa de como os humanos falam e pensam.
BBC: Você convive há anos com indígenas brasileiros. Na sua visão, a vida deles melhorou ou piorou ao longo dos anos?
Everett: Essa é uma pergunta difícil. Depende do contexto. Acho que em muitos aspectos a vida deles piorou. Mas depende de com quem você fala. E não gosto de projetar minha opinião sobre se a situação piorou.
Obviamente, o maior acontecimento na história das populações indígenas no Brasil e em outros lugares foi a introdução de doenças que dizimaram muitas delas e, de muitas maneiras, elas nunca se recuperaram dessa devastação.
Isso segue algo muito importante: ter acesso a bons remédios. Quando você conhece qualquer mãe indígena, independente da formação cultural, ela quer a saúde do filho.
E a saúde continua realmente inadequada. Alguns criticaram e acho que com razão, o governo brasileiro por isso, por não priorizar o suficiente, a saúde dos povos indígenas, apesar da criação de diferentes agências que tentaram fazer isso.
BBC: As comunidades indígenas estão tendo poder para conduzir seus rumos? Ou elas estão sendo conduzidas por outros?
Everett: Minha opinião é que eles estão sendo mais conduzidos. Os poderes que atuam em suas vidas são muito maiores do que qualquer tipo de liberdade que eles tenham.
É o caso, por exemplo, do povo que eu conheço bem, os karitianas. Eles têm uma reserva enorme. Alguns dos brasileiros que são pobres chegam a ter inveja deles e pensam: “por que eles têm tanta terra e eu não?”
Mas se você pegar uma reserva assim, ela é cercada pelos brasileiros. Isso significa que a caça, os animais e a pesca simplesmente não são mais o que eram. Mesmo sendo um grande pedaço de terra, não há animais e peixes suficientes para subsistir.
Então agora essas pessoas são forçadas a ir a locais como o Porto Velho para tentar ganhar a vida vendendo artefatos. Isso cria todos os tipos de problemas e cria pessoas que agora estão interagindo na cultura brasileira com aspectos dela que talvez não estivessem preparados. Às vezes eles podem não ter tolerância ao álcool ou enfrentar coisas que não enfrentaram na aldeia, e agora você tem filhos que estão lá fora. É uma coisa fundamentalmente econômica.
Alguns deles eu sei que querem viver na reserva e ter uma vida mais tradicional. Até mesmo para alguns dos mais jovens. Mas simplesmente não é viável.
BBC: Como é o dia a dia do trabalho de um linguista no Brasil?
Everett: Muito do trabalho envolve eu sentado em frente a um computador fazendo programação. Com isso, eu meio que me afastei do trabalho de campo, mas isso também aconteceu porque tive um filho e não queríamos ficar levando ele para a aldeia.
Estou de volta ao início dos anos 2000, quando estava fazendo meu doutorado, passei muito tempo na cidade de Porto Velho pesquisando todos os dias com amigos que falavam a língua e gravando suas vozes, analisando. Fiquei focado principalmente em padrões sonoros que achei bastante interessantes.
Então você pode analisar isso com um software acústico, mas meu dia a dia era andar de moto, andar pela selva, conversar com eles, entrevistá-los. Foi muito divertido.
A pesquisa em si, voltando ao computador e observando esses padrões — porque a linguagem é realmente complexa em certos aspectos —, é tentar descobrir alguns desses padrões. Mesmo que algumas pessoas tenham estudado a linguagem antes, é realmente muito desgastante mentalmente.
BBC: Você ainda mantém contato com amigos lá?
Everett: Sim. Eu não volto tanto, embora espere voltar no próximo ano por um longo tempo.
Eu tenho contato por e-mail com algumas dessas pessoas e muitas delas estão no Facebook agora.
O engraçado é que não estou muito nas redes sociais, mas elas estão. Então, se eu quiser segui-los, talvez eu tenha que entrar no Facebook pela primeira vez em anos e ver o que está acontecendo. Mas mantenho contato por e-mail.
BBC: Em português?
Everett: Sim, em português. Às vezes eles escrevem na língua deles e eu tenho que tentar lembrar, porque estou sem prática. E isso não é algo que você pode clicar no Google Tradutor para te ajudar (risos).
BBC: A inteligência artificial está ajudando a estudar novas línguas. Mas ela também está mudando as línguas que falamos. Quais os perigos da inteligência artificial para as nossas línguas?
Everett: Acho que isso está exacerbando a tendência que já existe há muito tempo, de que as maiores línguas estão se tornando ainda mais influentes.
Isso acontece, por exemplo, com os large language models, que são a base de tecnologias como o Chat GPT.
Esses modelos são abastecidos com muitos dados e isso só pode ser feito com poucas línguas no mundo que são muito faladas.
O mundo tem cerca de 7,4 mil línguas e só algumas poucas dezenas delas possuem dados suficientes para informar esses modelos.
Talvez um dia haja uma maneira de coletar dados suficientes e isso me deixa otimista de que existem maneiras pelas quais a inteligência artificial poderia ser usada para substituir os trabalhadores linguísticos de campo para coletar apenas grandes quantidades de dados desses grupos indígenas, assumindo que eles estão eles concordam com isso para registrar e depois analisar e novas maneiras suas linguagens.
Essa parte ainda não é possível, mas há uma parte de mim que está otimista de que isso será possível nas próximas décadas e que poderá realmente ajudar a preservar algumas destas línguas.
Mas agora eu diria que grande parte da tecnologia baseada em grandes modelos de linguagem apenas cria um pool maior para essas linguagens muito grandes.
Dengo, xingar, moleque…Palavras do nosso dia a dia vieram de línguas africanas

Escolas devem combater bullying machista e homotransfóbico, decide STF

Tribunal julgou ação do PSOL contra Plano Nacional de Educação, de 2014. Ministros seguiram voto do relator, Edson Fachin, que apontou o papel da escola no combate à discriminação. O Supremo Tribunal Federal decidiu que as redes de ensino pública e privada são obrigadas a tomar medidas para combater, no ambiente escolar, a discriminação de crianças e adolescentes por gênero e orientação sexual – por exemplo, o bullying machista e homotransfóbico.
A questão foi definida em plenário virtual, e o julgamento terminou nesta sexta-feira (28).
Prevaleceu o posicionamento do relator do caso, ministro Edson Fachin, relator de uma ação do PSOL sobre o tema. O ministro Nunes Marques divergiu.
O partido questionou pontos do Plano Nacional de Educação, aprovado em lei em 2014. A sigla sustentou que é preciso garantir que as escolas ensinem crianças e adolescentes a conviverem com a diversidade, em uma sociedade plural.
Fachin argumentou que o texto do PNE traz, como uma de suas diretrizes, a erradicação de todas as formas de discriminação – mas é necessário deixar mais claro que isso implica combater, também, discriminações de gênero e orientação sexual.
A ideia é evitar uma "insuficiência de proteção" a direitos constitucionais.
"Entendo fazer-se necessária a explicitação, no Plano Nacional de Educação, de que a lei está orientada para a finalidade de combate às discriminações de gênero e de orientação sexual, porquanto todo déficit de clareza quanto a estes objetivos conduz a um correspondente decréscimo de adequação técnica da norma".
Fachin votou, então, para "reconhecer a obrigação, por parte das escolas públicas e particulares, de coibir as discriminações por gênero, por identidade de gênero e por orientação sexual, coibindo também o bullying e as discriminações em geral de cunho machista (contra meninas cisgêneras e transgêneras) e homotransfóbicas (contra gays, lésbicas, bissexuais, travestis e transexuais)".
Os ministros Alexandre de Moraes, Dias Toffoli, Luiz Fux e Luís Roberto Barroso acompanharam integralmente a posição do relator, assim como a ministra Cármen Lúcia.
Os ministros Cristiano Zanin, Gilmar Mendes, André Mendonça e Flávio Dino também entendem que as escolas devem atuar para combater as discriminações, mas foram além.
Fixaram, nos votos, que isso deve ocorrer de acordo com orientações pedagógicas, com a "adequação do conteúdo e da metodologia aos diferentes níveis de compreensão e maturidade, de acordo com as faixas etárias e ciclos educacionais".
Nunes Marques diverge
O ministro Nunes Marques divergiu. Votou para rejeitar a ação, considerando as diretrizes do PNE constitucionais. Marques entendeu que o tema é de competência dos Poderes Executivo e Legislativo.
"Para além de diploma normativo, há arcabouço legal, que trata do Plano Nacional de Educação, de forma detalhada, o que indica que o debate sobre tais questões deve ser feito, de forma primordial, pelo Legislativo e, posteriormente, pelo Executivo, por seu respectivo Ministério da Educação", ponderou.
"Adentrar em tal seara, a meu sentir, é se distanciar do Princípio da Separação dos Poderes. Antes, ao Judiciário compete conviver de forma harmônica com os demais Poderes, Legislativo e Executivo. Ademais, as diversas questões envolvendo o tema da educação em escolas públicas e particulares é altamente complexo e multifacetário, a indicar que compete aos Poderes Legislativo e, posteriormente, ao Executivo, tratar tal matéria", acrescentou.
Lei de Blumenau sobre "ideologia de gênero"
A Corte também invalidou uma lei de Blumenau (SC) que proibiu a inclusão das expressões “ideologia de gênero”, “identidade de gênero” e “orientação de gênero” em qualquer documento relacionado ao Plano Municipal de Educação.
A maioria dos ministros seguiu o voto do ministro Edson Fachin, que também é o relator deste caso.
"Figura-me inviável e completamente atentatório ao princípio da dignidade da pessoa humana proibir que o Estado fale, aborde, debata e, acima de tudo, pluralize as múltiplas formas de expressão do gênero e da sexualidade", afirmou o ministro.
"O enclausuramento em face do diferente furta o colorido da vivência cotidiana, privando-nos da estupefação diante do que se coloca como novo, como diferente. É somente com o convívio com a diferença e com o seu necessário acolhimento que pode haver a construção de uma sociedade livre, justa e solidária, em que o bem de todos seja promovido sem preconceitos de origem, raça, sexo, cor, idade e quaisquer outras formas de discriminação", completou.
Seguem o posicionamento os ministros Alexandre de Moraes, Flávio Dino, Dias Toffoli, Gilmar Mendes, Luiz Fux, Cármen Lúcia, Cristiano Zanin, Luís Roberto Barroso.
Os ministros André Mendonça e Nunes Marques seguiram o relator, mas ressaltaram que a inconstitucionalidade ocorre por invasão da competência da União para legislar sobre o tema.