Na Câmara, mulher do indigenista Bruno Pereira cobra respostas verdadeiras e concretas das autoridades, diz deputada

Crimes na Amazônia: região sofre com prostituição infantil, tráfico de drogas, pessoas e madeira
Pereira está desaparecido na Amazônia desde o dia 5, junto com o jornalista inglês Dom Phillips. Esposa relatou que nenhuma comunicação de fato oficial foi feita até agora pelo governo. Em audiência na Câmara nesta terça-feira (14), a mulher do indigenista Bruno Pereira, a antropóloga Beatriz Matos, cobrou respostas verdadeiras e concretas sobre o desaparecimento do marido na Amazônia. O relato foi feito para a imprensa, que não pôde gravar a sessão, pela deputada Vivi Reis (PSOL-PA).
Pereira está desaparecido na floresta desde o dia 5, junto com o jornalista inglês Dom Phillips.
Dom e Bruno: o que se sabe sobre o desaparecimento na Amazônia de jornalista britânico e indigenista
"A esposa do Bruno trouxe a sua indignação quanto ao descaso do que está acontecendo, e deixou muito negritado que o que os familiares e amigos querem são respostas concretas, porque muito se preocuparam com os últimos acontecimentos, as últimas notícias, com desencontro de informações", contou a parlamentar.
Servidores da Funai protestam em Brasília, com faixa: "Onde estão Dom Phillips e Bruno Pereira?"
Reis também disse que, segundo Beatriz, as autoridades ainda não fizeram uma comunicação oficial para os familiares sobre o estágio das buscas.
"Não foi feita nenhuma informação de fato oficial. Isso preocupou muitos os familiares. A maior exigência hoje dos familiares, em especial da Beatriz Matos, é que se tenham informações verdadeiras, oficiais, efetivas, e que a Presidência da República, em conjunto com seus ministérios, possa tomar providências sobre isso", disse a deputada.
Dom Phillips e Bruno Pereira

O deputado Orlando Silva (PCdoB-SP), presidente da Comissão de Direitos Humanos, também criticou o que chamou de descaso do governo com as informações a respeito do desaparecimento de Bruno e Dom.
Nesta segunda (13), a mulher de Phillips, Alessandra Sampaio, relatou ter sido avisada pelo cunhado de que a embaixada brasileira em Londres informou que dois corpos haviam sido encontrados na floresta. Depois, ela recebeu uma ligação da Polícia Federal negando a informação. A embaixada pediu desculpa pela ligação com dados incorretos.
“Imagine a dor que a família vive de ter um parente desaparecido e um funcionário da embaixada do Reino Unido, um brasileiro, dar uma informação imprecisa, uma informação inconsistente. São pessoas que estão super tocadas”, disse Silva.
Indígenas nas buscas
O parlamentar defendeu a incorporação de indígenas do Vale do Javari, região por onde passavam Dom e Bruno, nas buscas pelo paradeiro dos dois desaparecidos.
O deputado disse que vai enviar ainda nesta terça-feira ao Ministério da Defesa e ao comando da Polícia Federal um ofício pedindo a adesão oficial dos moradores locais na operação.
"É urgente a incorporação dos povos indígenas dos povos do Javari nas buscas. Eles não estão incorporados plenamente no processo de buscas. Vamos procurar o ministro da Defesa, o comando da PF, que são os órgãos do governo federal que estão nucleando as buscas lá, para que eles incorporem lideranças indígenas, que conhecem como poucos aquela área”, disse Silva.
“A leniência do governo é muito grave. Por isso acreditamos que a defesa possa incorporar as lideranças do Vale do Javari, que são muito importantes nesse momento”, completou.

No Senado, jornalistas relatam aumento de ameaças e agressões e veem risco à liberdade de imprensa

Crimes na Amazônia: região sofre com prostituição infantil, tráfico de drogas, pessoas e madeira
Audiência serviu também para profissionais protestarem contra o desaparecimento do indigenista Bruno Pereira e do jornalista Dom Phillips na Amazônia. Mesa da Comissão de Direitos Humanos do Senado, que recebeu jornalistas para audiência sobre violência sofrida por profissionais de imprensa
Pedro França/Agência Senado
Em audiência na Comissão de Direitos Humanos do Senado nesta quarta-feira (15), jornalistas e associações relataram um aumento na escalada de ameaças e agressões a profissionais de imprensa em todo o país. Esse cenário, segundo os depoimentos, põe em risco a própria liberdade de imprensa, um dos pilares da democracia.
Jornalistas e associações também comentaram o caso do jornalista inglês Dom Phillips, do jornal The Guardian, e do indigenista Bruno Pereira, desaparecidos desde 5 de junho, após uma incursão no Vale do Javari, região da Amazônia. Para os profissionais da imprensa, uma eventual agressão não seria um caso isolado, dado o clima de constantes ameaças no país.
“Antes de mais nada, eu queria manifestar minha solidariedade às famílias do Bruno Pereira e do Dom Phillips. Eu também gostaria de manifestar a minha revolta pessoal e a minha indignação. É obrigação, sim, do Estado colocar todos os meios necessários para buscá-los, mas a busca é também pelos nossos direitos, e é isso que está em jogo nessas buscas”, afirmou o jornalista Jamil Chade.
A presidente da Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji), Natália Mazotte, cobrou “respostas institucionais” para o desaparecimento na Amazônia. Disse ainda que o caso é uma "amostra extrema" do ambiente de insegurança para jornalistas e defensores dos direitos humanos que se criou no país.
“Esse caso joga a luz ao ambiente de insegurança que se instaurou no país para comunicadores e defensores de direitos humanos. O caso de Dom Phillips é uma amostra extrema desse ambiente de insegurança que o Brasil passou a ter para jornalistas. Desaparecimentos e assassinatos são casos extremos, mas o cerceamento à liberdade de imprensa vai muito além disso”, disse Mazotte.
Polícia leva um dos suspeitos pelo desaparecimento de Bruno e Dom para local de buscas
Liberdade de imprensa e democracia
Na audiência, a presidente da Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj), Maria José Braga, afirmou que há uma correlação entre os ataques à liberdade de imprensa e os ataques à democracia. Para ela, quem não quer a democracia plena busca intimidar a imprensa.
“É preciso que todos nós saibamos que os jornalistas são agredidos pelo bom trabalho que fazem, e não por erros cometidos. É assim que nós somos vítimas de toda a ordem de agressões: pelo que fazemos para garantir o direito do cidadão e da cidadã à informação jornalística, que é uma informação apurada, verificada e, portanto, verdadeira. O jornalismo tem um papel fundamental e é por isso que nós o chamamos de pilar da democracia. E são exatamente grupos e pessoas que não querem a democracia participativa, a democracia verdadeira, que atacam jornalistas e atacam o jornalismo”, afirmou.
Associações relatam agressões
A presidente da Abraji ressaltou que entre janeiro e abril de 2022 foram registrados mais de 150 casos de agressões física e verbais ou outras formas de cerceamento ao trabalho jornalístico – número que representa um aumento de 27% em relação ao mesmo período no ano passado.
Mazotte acrescentou que, em 2021, foram mais de 450 ataques contra comunicadores e meios de comunicação, sendo que 69% deles foram provocados por autoridades públicas.
A presidente da Federação Nacional de Jornalistas (Fenaj) afirmou que a partir de 2019 houve um aumento de 56% da violência contra a imprensa e, em 2020, esse número saltou para 130%. Em 2021, disse Maria José Braga, chegou-se ao recorde de 432 agressões a jornalistas e a veículos de comunicação.
Risco à liberdade de imprensa
Coordenadora de Incidência da Repórteres sem Fronteiras (RSF) para América Latina, Bia Barbosa afirmou que o Brasil está “longe” de apresentar “dados razoáveis” de liberdade de imprensa.
“O ranking da Repórteres sem Fronteiras lançado este ano coloca o Brasil na posição 110, mas, quando a gente olha para o indicador de segurança, a gente está num quadro ainda pior, na posição 124 entre 181 países do mundo. Ao longo da última década, pelo menos 30 jornalistas foram assassinados no Brasil. Nós somos o segundo país mais letal da região nesse período para jornalistas, atrás somente do México”, afirmou.
Ela acrescentou que a instituição monitora na internet hostilidades contra jornalistas e comunicadores e que, em avaliação feita ao longo de três meses em 2021, foram coletadas mais de 500.000 publicações atacando a imprensa.
Durante a audiência, o jornalista Sylvio Costa, fundador do portal Congresso em Foco, relatou casos de profissionais que foram alvos de ameaças virtuais.
Um dos episódios mais recentes envolveu o jornalista Lucas Neiva, que denunciou no site que um fórum anônimo na internet estava sendo usado para discutir a produção de informações falsas para favorecer a eleição do presidente Jair Bolsonaro. A produção dessas informações seria paga com criptomoedas.
Após a publicação da denúncia de Neiva, uma série de ameaças foram dirigidas ao jornalista, e o site sofreu ataques virtuais, ficando fora do ar.
“É difícil dizer se essas pessoas estão apenas blefando. Na grande maioria dos casos, segundo os peritos no monitoramento desses ambientes digitais tóxicos, a ameaça não passa de blefe. Mas também houve casos, no Brasil e no mundo, em que fóruns anônimos foram origem de crimes bárbaros (…) Nossa opção não poderia ser outra: levamos as ameaças a sério, divulgamos as ameaças, procuramos a polícia, buscamos assistência jurídica, criamos o comitê de crise e estamos reforçando nossos mecanismos de segurança digital, pessoal e patrimonial”, disse Costa.

Madeira ilegal levada após grupo barrar ação da polícia é localizada em serraria de Cujubim, RO

Crimes na Amazônia: região sofre com prostituição infantil, tráfico de drogas, pessoas e madeira
Grupo de pelo menos 30 pessoas impediu que Polícia Ambiental apreendesse o carregamento ilegal durante operação. Madeira teria sido retirada de unidades de conservação de Rondônia. Madeira ilegal perdida é localizada e apreendida em RO
Polícia Militar/Divulgação
A Polícia Militar Ambiental confirmou, nesta quinta-feira (16), que o carregamento de madeira ilegal que tinha sido "levado" após um grupo de pessoas impedir a ação de policiais, durante uma operação, foi encontrado e apreendido em Cujubim (RO).
A barreira para impedir a execução da Operação Arigós aconteceu na terça-feira (14). Na ocasião, a Polícia Ambiental escoltava o carregamento até uma área segura, quando um grupo de cerca de 30 pessoas fechou a estrada com carros e impediu a passagem da viatura policial (veja no vídeo abaixo).
Vídeo mostra grupo impedindo ação de equipes de fiscalização ambiental em Rondônia
Com a distração, o motorista do caminhão com a madeira ilegal conseguiu fugir. Segundo a Polícia Militar (PM), os militares ambientais reagiram de forma pacífica na ação e deixaram que o condutor fosse embora, por segurança.
Porém, depois da ação criminosa, os policiais chamaram reforços e iniciaram investigação para localizar o carregamento da madeira.
Na quarta-feira (15), menos de 24 horas depois, as madeiras foram encontradas escondidas em uma serraria desativada no município de Cujubim (RO), a 220 km de Porto Velho.
O material foi levado até a sede do Batalhão de Polícia Ambiental em Candeias do Jamari (RO). O motorista não estava no local.
Segundo a PM, todos os envolvidos de participar da “barreira” de carros foram identificados. Alguns deles já foram localizados e ouvidos na delegacia e as investigações seguem para encontrar os outros suspeitos.
A Operação Arigós
Um grupo suspeito de praticar crimes ambientais na unidade de conservação Estação Ecológica Soldados da Borracha, em Porto Velho e Cujubim, é alvo da operação. Chamada de Arigós, a ação busca apurar e combater grandes desmatamentos na região e nesta etapa os agentes cumpriram cinco mandados de busca e apreensão em áreas urbana e rural.
Novas imagens de apreensão da operação 'Arigó' são divulgadas pela polícia ambiental
O grupo criminoso investigado já causou um dano ambiental de 9.684 hectares, o equivalente a quase 9 mil campos de futebol. O dano ambiental praticado pelo grupo já pode chegar aos R$ 345 milhões.
Os agentes de fiscalização buscam identificar quem são os mentores e beneficiários do desmatamento feito dentro da unidade de conservação ambiental.
A ação tem a participação do Ministério Público de Rondônia (MP-RO), Delegacia de Repressão aos Crimes contra o Meio Ambiente (DERCCMA), Batalhão de Policiamento Ambiental (BPA), Secretaria de Estado de Desenvolvimento Ambiental (Sedam), Núcleo de Operações Aéreas da Secretaria de Estado de Segurança, Defesa e Cidadania (NOA) e Batalhão de Operações Especiais da Polícia Militar (Bope).

‘Enquanto eles matam, levantamos mais vozes’, diz filha de Chico Mendes

Crimes na Amazônia: região sofre com prostituição infantil, tráfico de drogas, pessoas e madeira
Filha de ativista assassinado por defender a floresta, Angela Mendes diz que morte do indigenista Bruno Pereira e do jornalista Dom Phillips fortalecerá movimento pela proteção da Amazônia. A ambientalista Angela Mendes vê similaridades entre a trajetória de seu pai e as do indigenista Bruno Pereira e do jornalista britânico Dom Phillips
Reuters via BBC
Filha do seringueiro Chico Mendes, assassinado em 1988 por se contrapor ao avanço destrutivo de grileiros e fazendeiros na Amazônia, a ambientalista Angela Mendes vê similaridades entre a trajetória de seu pai e as do indigenista Bruno Pereira e do jornalista britânico Dom Phillips, mortos no início do mês no Amazonas.
"Eles têm o mesmo propósito, a mesma causa coletiva: a luta pela preservação do meio ambiente e das populações que estão nesse meio", diz Ângela em entrevista à BBC News Brasil.
"Se você considera o cenário de extremos ataques a essas populações e territórios, que têm como pano de fundo a exploração mineral, a retirada de madeira, (a criação do) gado, no final das contas, a realidade do Chico é a mesma que enfrentavam o Bruno e o Dom", ela afirma.
Bruno Pereira e Dom Phillips foram assassinados quando viajavam pelas proximidades da Terra Indígena Vale do Javari, no início do mês.
Dom, que estava escrevendo um livro sobre como salvar a Amazônia, visitava a região para conhecer o trabalho de Bruno junto a uma associação indígena local, que vinha se contrapondo a garimpeiros, madeireiros, pescadores e caçadores ilegais.
Segundo a polícia, Bruno havia sofrido ameaças por causa do trabalho — assim como também enfrentava ameaças o seringueiro Chico Mendes antes de ele ser morto em Xapuri, no Acre, em 1988.
Chico Mendes liderava um sindicato que criou a estratégia dos chamados "empates", nos quais seringueiros desmontavam acampamentos de peões contratados por fazendeiros para derrubar as matas.
Por causa das ações, foi assassinado com um tiro de espingarda quando se preparava para tomar banho em sua própria casa.
Angélica e Ângela Mendes, neta e filha do seringueiro
André D'Elia via BBC
A filha do seringueiro, que tinha 19 anos quando o pai foi morto, conta que já imaginava que Dom e Bruno pudessem ter sido assassinados quando soube do desaparecimento da dupla, na última segunda-feira (06/05).
Ela lembra que o Brasil figura entre os primeiros colocados nos rankings de países onde mais ativistas ambientais são mortos.
"A gente sabe que, com o cenário que está posto, de intenso incentivo (a crimes contra ativistas ambientais) e impunidade, o fim não poderia ser outro", afirma.
"Dom e Bruno se somam a muitas outras pessoas cuja morte não teve tanta divulgação, mas que também fazem parte dessa terrível lista", diz.
Angela vê semelhanças entre as quadrilhas que atuam no Vale do Javari, onde Dom e Bruno morreram, e as que estão presentes na Reserva Extrativista (Resex) Chico Mendes, criada após a ação de seu pai.
A polícia diz suspeitar que um grupo de pescadores ilegais vinculado ao narcotráfico esteja por trás das mortes de Dom e Bruno.
Na reserva Chico Mendes, diz Angela, desmatadores também "estão agindo aliados ao narcotráfico".
"É uma situação muito difícil para a gente, e quem está no território está sendo dominado, oprimido. Sabemos que pessoas nesses lugares estão sendo ameaçadas", afirma.
Ela também vê similaridades, ainda que com variações, entre a relação que o governo federal mantém com a Amazônia hoje e a que mantinha nos tempos de seu pai.
Chico Mendes se tornou um ativista durante a ditadura militar, quando o governo encampava na Amazônia os lemas "integrar para não entregar" e "uma terra sem homens para homens sem terra", estimulando a ocupação da floresta sob o pretexto de garantir a soberania nacional sobre o território.
Retrato de Chico Mendes na casa que ele viveu, em Xapuri (AC)
Yasuyoshi Chiba/AFP via Getty Images (via BBC)
No entanto, diz Angela, "ao chegarem aqui, os 'proprietários' se deparavam com uma floresta viva, cheia de gente, pessoas que vieram principalmente do Nordeste para o cultivo do látex, e começaram a expulsar e matar essas pessoas, que aqui já estavam há 30, 40, 50 anos".
O governo atual, diz Angela, "é a interface do governo militar da ditadura".
"Seja através de suas manifestações, seja através dos atos, ele (governo) estimula esse estado de violência. Ele usa um código que as pessoas ouvem e começam enlouquecidamente a fazer coisas", diz a ativista.
Ela lembra o episódio conhecido como o Dia do Fogo, em 2019, quando fazendeiros no Pará se organizaram para queimar áreas de floresta no mesmo dia para dificultar a fiscalização.
Segundo ela, o grupo se sentiu encorajado por declarações do presidente Jair Bolsonaro críticas a órgãos de fiscalização. "Esse tipo de atitude incentiva e banaliza a violência", afirma.
A BBC enviou as críticas de Angela à Presidência da República, mas não houve resposta até a publicação desta reportagem.
Proteção a ativistas
Angela afirmou que a morte de Dom e Bruno reforça a urgência da entrada em vigor, no Brasil, do Acordo de Escazú, um tratado internacional que cria proteções para defensores ambientais.
Assinado por 24 países caribenhos e latino-americanos, dos quais 12 já o ratificaram, o tratado busca garantir segurança a quem denuncie crimes ambientais e ampliar a participação social em órgãos de fiscalização, entre outros pontos.
O Brasil assinou o acordo em 2018, mas ainda não o ratificou.
A ratificação do acordo, diz Angela Mendes, pode inclusive ajudar a tornar mais transparentes as investigações do crime contra Dom e Bruno.
Apesar da comoção gerada pela morte da dupla, ela afirma que o caso tende a fortalecer o movimento pela proteção da floresta.
"Enquanto eles vão matando, a gente vai vivendo e levantando mais vozes", diz.
Angela lembra a frase de um amigo de seu pai. "Ele dizia que aqueles que atiraram no Chico erraram o tiro. Pensaram que tinham matado, mas não mataram, porque as ideias dele estão aí, ele continua sendo falado. E, se ele continua sendo falado, é porque ainda está vivo".
A morte de Bruno e de Dom — assim como a da freira americana Dorothy Stang, assassinada em 2005 por defender agricultores sem-terra em Anapu (PA) — terá efeito similar, diz ela.
"Hoje a gente tem muito mais Chicos, e com certeza teremos mais Doms, Brunos e Dorothies", afirma.

Crimes na Amazônia: região sofre com prostituição infantil, tráfico de drogas, pessoas e madeira

Crimes na Amazônia: região sofre com prostituição infantil, tráfico de drogas, pessoas e madeira
Rota para escoamento de cocaína, garimpo de ouro e extração ilegal de madeira movimentam a criminalidade e acirram conflitos na Amazônia. Em 2019, o então superintendente da Polícia Federal no Amazonas disse que ao menos 90% da madeira exportada é ilegal
Reuters via BBC
Uma vasta diversidade de animais, rios e mata compõem um dos mais ricos e complexos biomas do mundo. A Floresta Amazônica é considerada um tesouro natural brasileiro, descrita por veículos de imprensa internacional como os pulmões do mundo. Mas tanta riqueza atrai os olhares e interesses de muitos criminosos.
Com base em informações recebidas por fontes como promotores, policiais, jornalistas e militares, a BBC News Brasil listou alguns dos principais grupos criminosos que atuam no maior Estado do país, o Amazonas. Entre eles, estão o garimpo e pesca ilegais, prostituição infantil, as facções criminosas e a desmatamento causado pelos madeireiros.
De acordo com levantamentos e fontes ouvidas pela reportagem, a maior parte do que é extraído da floresta é exportado para a América do Norte e países da Europa. Alguns especialistas que atuam na região ainda relatam laços entre traficantes, pescadores e caçadores.
Cartéis do tráfico de drogas
A Floresta Amazônica se tornou uma das mais conhecidas e disputadas rotas para o tráfico de cocaína.
O rio Amazonas serve de escoamento para a maior parte da cocaína refinada nos maiores produtores do mundo: Peru e Colômbia, que formam uma tríplice fronteira com o Brasil.
O comandante do Exército Colombiano disse em entrevista à BBC News Brasil em 2017 que, a cada 80 kg de cocaína, as mulas, como são chamados os homens que fazem a travessia dessa fronteira, ganhavam em torno de 2 milhões de pesos colombianos (ou R$ 2 mil).
Na outra ponta, principalmente na Europa, a mercadoria chega a ser vendida por preços 20 vezes maiores.
O rio Amazonas serve de escoamento para a maior parte da cocaína refinada nos maiores produtores do mundo: Peru e Colômbia
Felpe Souza/ BBC Brasil
Os incontáveis igarapés e braços do rio Amazonas facilitam bastante o trabalho dos traficantes de escoar a produção de cocaína na Amazônia. Ali é a origem da maior parte da cocaína exportada para a Europa, por meio de portos da região Norte, e também distribuída no Brasil. Com isso, a região se tornou um ponto vital para o tráfico e difícil de ser observada.
Em 2017, se todos os barcos do Exército fossem colocados na água ao mesmo tempo, cada um teria uma área de 45 km para vigiar.
Garimpo ilegal
Em busca de ouro e pedras preciosas, o garimpo ilegal se expande na Amazônia.
De acordo com o Ministério Público Federal no Amazonas, em pouco mais de dois anos (2018 – 2020), uma única indústria joalheira de Manaus recebeu 316 kg de ouro de origem ilícita, vindos de garimpos em Roraima, Rondônia e interior do Amazonas, para transformação em joias e barras de ouro.
Segundo o órgão, cada quilo de ouro extraído ilegalmente na Amazônia produz, pelo menos, R$1,7 milhão em danos ambientais.
Um balanço do projeto MapBiomas apontou que 94% da área com mineração artesanal e industrial no país está na Amazônia. O garimpo representa 101,1 mil hectares, o equivalente a 68% desse total.
Segundo o mesmo levantamento, entre 2010 e 2020, a área de garimpos em terras indígenas cresceu 495%.
Madeireiros ilegais
Um levantamento da Rede Simex, que engloba as organizações Imazon, Idesam, Imaflora e ICV, 71.091 hectares sofreram a ação de madeireiros no Amazonas. Ao menos 18.992 hectares, um quarto desse total, ocorreu em locais não permitidos, como terras indígenas e unidades de conservação de proteção integral.
Em 2019, o então superintendente da Polícia Federal no Amazonas disse que ao menos 90% da madeira exportada é ilegal.
Segundo o instituto Imazon, uma área quase três vezes maior do que a cidade de São Paulo teve exploração madeireira na Amazônia entre agosto de 2019 e julho de 2020.
Segundo a Imazon, uma área quase três vezes maior do que a cidade de São Paulo teve exploração madeireira na Amazônia entre agosto de 2019 e julho de 2020
EPA via BBC
Pesca e caça ilegal
Uma pesquisa realizada entre 2013 e 2014 pelo Center for International Forestry Research (Cifor), entidade baseada na Indonésia, estimou que 278 toneladas de carne de caça são vendidas por ano nas cidades de Benjamin Constant, Tabatinga, Letícia (Colômbia) e Caballococha (Peru), na Tríplice Fronteira entre Brasil, Peru e Colômbia.
Pirarucu, tracajá, queixada e anta estão entre os animais mais procurados pelos caçadores, mas a lista de espécies consumidas é extensa e inclui espécies como onça pintada e sucuri, segundo o estudo.
Enquanto um tracajá custa ao menos R$ 100 na região, um pirarucu pode ser vendido por mais de R$ 1 mil, de acordo com uma reportagem publicada pela BBC em 2019. Pela lei brasileira, no entanto, só povos indígenas e populações tradicionais podem caçar animais silvestres, e a atividade deve se voltar à subsistência dos grupos.
Em abril de 2020, a Polícia Federal de Tabatinga prendeu dez homens que haviam caçado e pescado na Terra Indígena Vale do Javari peixes e animais que somavam cerca de 300 quilos, como veado, jacaré e macaco.
A extensão do território e a abundância de sua fauna na Amazônia são chamarizes para pescadores e caçadores. Nos últimos anos, houve vários ataques na região atribuídos a pescadores e caçadores ilegais. Os atos foram interpretados como represálias a tentativas de reprimir a ação dos grupos na terra indígena.
Entre 2018 e 2019, uma base da Funai que controla o acesso à Terra Indígena Vale do Javari foi alvejada em oito ocasiões distintas.
Também em 2019, o colaborador da Funai Maxciel dos Santos Pereira foi morto a tiros em Tabatinga, a maior cidade da região. Meses antes, ele havia participado de uma operação que apreendeu grande quantidade de pesca e caça ilegal.
Não houve prisões nem condenações pelo crime.
Guerra entre facções
Em meio à disputa pela rota da cocaína na Amazônia, facções travam uma sangrenta batalha. As principais siglas que atuam na região são a Família do Norte (FDN), Primeiro Comando da Capital (PCC) e Comando Vermelho (CV).
Segundo a Secretaria da Segurança Pública do Amazonas, 56 pessoas morreram em um conflito entre membros de duas facções criminosas no Complexo Penitenciário Anísio Jobim (Compaj), em Manaus, durante um motim que durou cerca de 17 horas. Segundo denúncia do MP do Amazonas, a matança teria sido cometida por integrantes da facção criminosa FDN porque seu comando "entendeu que devia exterminar a concorrência dentro do Compaj".
Mas esses conflitos extrapolam os muros dos presídios. Nas ruas, os assassinatos cometidos para eliminar membros de facções rivais e tomar o controle da venda de drogas são constantes em diversos bairros de Manaus.
De acordo com pesquisadores, a criação da Família do Norte ocorreu em 2006 justamente para conter a tentativa do PCC de monopolizar o comércio de drogas no Norte do país.
Tráfico de pessoas e prostituição infantil
Mas a Tríplice Fronteira não é usada apenas pelos criminosos que exportam drogas. A região também é conhecida por ser um ponto de exploração humana. São diversos pontos onde adultos prostituem crianças e adolescentes, muitas vezes os próprios filhos, e traficam homens e mulheres para o exterior.
Em apenas uma ação policial em maio de 2021, a polícia resgatou 16 crianças e adolescentes em feiras, porto, rodoviária, embarcações, quitinetes e casas noturnas nas zonas sul, centro-sul e leste de Manaus.
Ao todo, 9 milhões de crianças vivem na Amazônia Legal, região formada por Acre, Amapá, Pará, Amazonas, Rondônia, Roraima e parte dos Estados de Maranhão, Tocantins e Mato Grosso. Os indicadores apontam que, de todas as regiões do país, é ali o pior lugar do Brasil para ser criança, destaca relatório do Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef). São de lá os mais altos níveis nacionais de mortalidade infantil.
Nos nove Estados da Amazônia Legal, cerca de 43% das crianças e dos adolescentes vivem em domicílios com renda per capita insuficiente para adquirir uma cesta básica de bens, contra 34,3% da média nacional. Além disso, muitas meninas e muitos meninos amazônicos não têm atendidos seus direitos a educação, água, saneamento, moradia, informação e proteção contra o trabalho infantil.
Segundo informações de conselheiros tutelares que atuam em São Paulo, muitas dessas crianças são "alugadas" por caminhoneiros. Os motoristas viajam a outros Estados acompanhados pelas crianças enquanto cometem abusos durante todo o trajeto.