Conselho da Amazônia se reúne pela 1ª vez no ano, mas não adota novas ações contra desmatamento

Desmatamento da floresta no mês passado foi o maior para meses de abril em 15 anos. Reunião do conselho teve a presença de governadores dos estados da Amazônia Legal. O Conselho Nacional da Amazônia Legal teve o primeiro encontro de 2022 nesta quarta-feira (11). Mesmo após mais de duas horas de reunião, o vice-presidente da República, Hamilton Mourão, que também preside o colegiado, não apresentou novas ações do governo federal para desacelerar o ritmo do desmatamento na floresta.
Mourão conversou com jornalistas depois da reunião e citou apenas medidas que já estão sendo adotadas para combater o desmatamento ilegal na região, como a Operação Guardiões do Bioma – de responsabilidade dos ministérios do Meio Ambiente e da Justiça.
LEIA TAMBÉM:
Alertas de desmatamento batem recorde para o mês de abril
Cai número de autuações e aumenta taxa de desmatamento
“Os diferentes ministérios apresentaram toda a gama de atividades que estão realizando principalmente na questão do desenvolvimento da Amazônia. Assim como o Ministério do Meio Ambiente, o Ministério da Justiça expôs seu planejamento quanto ao combate aos ilícitos ambientais que ocorrem na Amazônia e que estão sob o guarda-chuva da Operação Guardiões do Bioma”, apontou o vice-presidente.
Mourão também destacou a ação da Polícia Federal na repressão dos crimes no bioma e citou que, até o momento, foram realizadas 66 operações.
Entidades enviam carta aos EUA por verba contra desmatamento
Desmatamento em abril
Dados do Instituto do Homem e Meio Ambiente da Amazônia (Imazon), divulgados nesta quarta-feira (11), mostram uma perda de 1.197 km² de vegetação na Amazônia em abril, 54% a mais do que o registrado no mesmo mês de 2021. Esse foi o pior abril dos últimos 15 anos, desde que o instituto iniciou o monitoramento por satélites, em 2008.
Esses números confirmam as informações apresentadas pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais há cinco dias. Segundo aferição do sistema Deter, os alertas de desmatamento na Amazônia passaram de 1 mil km² em abril e bateram recorde para o período.
Desta vez, a reunião contou com a presença dos governadores da Amazônia Legal. Até então, por conta de decretos editados pela Presidência da República, em 2020, os gestores tinham sido excluídos do conselho. No entanto, uma decisão do Supremo Tribunal Federal em abril determinou a retomada da participação dos governadores no colegiado.
Os cinco estados com maior área sob alertas de desmatamento em abril foram:
Amazonas – 346.89 km²
Pará – 241.92 km²
Mato Grosso – 286.68 km²
Rondônia – 107.86 km²
Garimpo em terras yanomamis
Questionado sobre as ameaças que os indígenas yanomamis e ONGs ambientais vêm enfrentando nos últimos meses, Mourão respondeu que os números de garimpeiros na região são “fantasiosos”:
“Existem alguns dados que, muitas vezes, são fantasiados, como aquela história de que tem 20 garimpeiros lá dentro, não é? A nossa avaliação é que temos na faixa de 3 mil, que já é extremamente fora daquilo que se destina à terra indígena.”
A Terra Yanomami é a maior reserva indígena do país em extensão territorial e há décadas é alvo de exploradores ilegais que buscam ouro, cassiterita e outros minérios.
A Hutukara Associação Yanomami (HAY) estima que, atualmente, há 20 mil garimpeiros explorando ilegalmente a região.
Segundo o relatório "Yanomami sob ataque", divulgado em abril pela HAY, o garimpo ilegal avançou 46% na região no ano passado, a maior devastação da história desde a demarcação e homologação do território há quase 30 anos.
Em 2021, a degradação chegou à marca de 3.272 hectares, frente aos 2.234 hectares de 2020 — 1.038 hectares a mais em um ano.
VÍDEOS: notícias de política

Amazônia Bonita: conheça a história do casal missionário que leva o evangelho e alfabetiza mulheres em comunidade carente de Rio Branco

Plantas alimentícias não convencionais agregam para dieta mais rica em nutrientes, dizem especialistas
Quadro Amazônia Bonita é um projeto da Rede Amazônica onde são contadas histórias de pessoas que fazem a diferença na vida de quem mora na região Amazônica. Thiely e Carlos Henrique dão aulas gratuitas para mulheres no Conjunto Habitacional Cidade do Povo
Reprodução/Rede Amazônica Acre
Será que existe idade para recomeçar? Pois é, o casal Thiely Mariano Sá e Carlos Henrique acho que não, que todo dia é dia de aprender, de se reinventar, e foi pensando nisso, em ajudar o próximo, que eles resolveram criar um projeto social que ensina mulheres que moram no Conjunto Habitacional Cidade do Povo, uma das comunidades carentes de Rio Banco, a ler e escrever.
O quadro Amazônia Bonita é um projeto da Rede Amazônica onde vão ser contadas, todos os sábados, histórias de pessoas que fazem a diferença na vida de quem mora na região Amazônica.
Antes de ler um livro, primeiro a pessoa conhece o título, as primeiras palavras que apontam um pouco da história, o apresentado aqui é o Cortiço, um clássico da literatura brasileira. Mas, o título da história contada nesta reportagem ainda está sendo escrito. Só que ela começa com o sonho de pessoas que queriam aprender e a coragem de um casal disposto a ensinar.
Thiely e Carlos Henrique são de uma ONG missionária e desenvolvem um projeto social na Cidade do Povo que atende mulheres que querem aprender a ler e a escrever.
"A gente tem um projeto social que funciona aos domingos e toda vez que a gente falava sobre ler a bíblia, sobre ler alguma coisa, sempre algumas delas levantavam a mão e diziam: ‘e quem não sabe ler?’ E elas começaram a ficar bem constrangidas e a gente até parou de falar sobre ler”, lembra Thiely.
Mulheres do Conjunto Habitacional Cidade do Povo são alfabetizadas por casal missionário
Reprodução/Rede Amazônica Acre
A Thiely não desistiu de pensar em uma forma de ajudar essas mulheres e, a partir daí, criou um projeto junto com o marido que alfabetiza adultos.
"Tem um amigo nosso parceiro que tem o Instituto Ibraema, que é em Recife, e esse Ibraema trabalha com educação de adultos. Nós fomos capacitados no final do ano e eles fornecem todos os livros", diz a missionária.
O projeto funciona há três meses em um prédio cedido pela comunidade. E com poucos materiais, todas às terças-feiras, durante duas horas, o casal ensina mulheres que nunca é tarde para escrever um novo capítulo.
E o que os professores aprendem? Carlos Sá diz que é gratificante poder ajudar o próximo. "A gente aprende quanto é especial cada indivíduo, cada um na sua essência.”
Amazônia Bonita: casal de missionários alflbetiza mulheres na Cidade do Povo
Mais do que livros e cadernos: esperança
Thiely e o marido oferecem muito mais do que livros e cadernos. Eles oferecem esperança para essas mulheres, uma oportunidade que elas precisam para voltar a sonhar. E são muitos os sonhos guardados.
A dona Antônia tem 67 anos e não sabe ler, ela morou na zona rural até os 40 anos e quando se mudou para a zona urbana até chegou a ir à escola, mas desistiu. No projeto, ela já consegue reconhecer as letras.
"Eu já reconheço essas letras todas, só não sei ainda juntar para soletrar, a minha dificuldade é essa", fala.
E os novos professores ganharam um lugar especial na vida da dona Antônia. "Eu tenho eles igual a um pai e uma mãe."
Adriana Cavalcante tem 26 anos e sonha aprender a ler e escrever para poder fazer uma faculdade
Reprodução/Rede Amazônica Acre
A dona de casa Adriana Cavalcante da Silva tem 26 anos e também morou na zona rural. Ela chegou a frequentar a escola, mas não terminou os estudos. Para ela, a leitura é a principal dificuldade. Ela também está aprendendo a ler e escrever o próprio nome, letrinha por letrinha.
“Eu ia formando [palavras] devagarzinho, porque, tipo assim, era pouquinha coisa. É muito ruim a gente não saber direito, eu vi uma porta aberta e aproveitei para aprender mais", afirma.
Por enquanto, o sonho de Adriana é aprender a ler e escrever, porém, ela já tem outros no papel.
"Queria aprender para fazer uma faculdade mais para frente, para eu poder abrir o próprio negócio, como eu já fiz de bolo e pão. Queria fazer e aprender para quando surgir mais oportunidade eu aproveitar."
Raimunda Silva quer aprender a ler e escrever para ajudar os filhos nas tarefas da escola
Reprodução/Rede Amazônica Acre
A trajetória da dona de casa Raimunda da Silva de Souza, de 47 anos, é parecida com a da dona Antônia e a de Adriana. Ela morou na zona rural, onde era mais difícil ir à escola. Dona Raimunda conta que sabe ler um pouco, mas que a escrita é um obstáculo. "Não sei escrever, não sei fazer meu nome direito, não sei.”
Raimunda tem 11 filhos e todos estão na escola. Ela fala que quando eles pedem ajuda nas tarefas, roga por sabedoria.
"Quando vem um filho e pede, 'mãe, me ensina essa tarefa'? Aí eu digo, ô meu Deus, me dê sabedoria para eu ensinar meus filhos, para que eu possa ensinar, eu não sei! Aí ele diz, 'tá bom, mãe'! Aí as outras [irmãs] vão e ensinam e fica tudo bem. Mas eu digo que vou aprender um dia e vou ensinar vocês", garante.
A recompensa para o casal de professores que leva conhecimento para essas mulheres é bem simples.
"O amor, cara, o amor, a gente está se reunindo como pode, a gente não espera ter para fazer, a gente faz com o que tem, cadeiras emprestadas, quadro em cima da cadeira, um pincel que a gente vai na papelaria e traz e começa ali, a dar esperança para as pessoas."
A história do livro que começou a ser escrito pela Thiely, Carlos Henrique, dona Antônia, Adriana, dona Raimunda e essas outras mulheres pode não ter título ainda, mas pode virar uma pergunta. Será que existe idade para recomeçar?
Casal diz que ajuda as mulheres apenas por amor ao próximo e que não existe recompensa melhor do que essa
Reprodução/Rede Amazônica Acre
Reveja os telejornais do Acre

Oceanógrafo de Noronha que negou transferência para Sertão é demitido do ICMBio: ‘me sinto perseguido’, diz

Plantas alimentícias não convencionais agregam para dieta mais rica em nutrientes, dizem especialistas
Demissão do oceanógrafo José Martins da Silva Júnior foi publicada no Diário Oficial da União nesta quinta-feira (2). José Martins foi demitido do ICMBio
Ana Clara Marinho/TV Globo
José Martins foi demitido do ICMBio
Ana Clara Marinho/TV Globo
A demissão do oceanógrafo José Martins da Silva Júnior, do Instituto Chico Mendes da Biodiversidade (ICMBio), em Fernando de Noronha, foi publicada no Diário Oficial da União desta quinta (2). O agora ex-servidor negou uma transferência para a unidade de conservação Floresta Nacional de Negreiros, em Serrita, no Sertão de Pernambuco . "Eu me sinto perseguido", disse.
Os problemas entre o governo federal e o oceanógrafo começaram em 2019. A determinação de transferência para o Sertão pernambucano ocorreu após o ex-ministro do Meio Ambiente Ricardo Salles visitar a ilha em julho daquele ano.
Na época, o o instituto justificou a transferência, alegando "desproporcionalidade no número de servidores nas unidades de conservação".
José Martins é considerado um crítico do aumento da visitação em Noronha. Ele disse que o aumento, "antes sazonal, passou a ocorrer em todos os meses do ano".
O servidor conseguiu na Justiça uma liminar que deu a ele o direito a permanecer em Noronha. A presidência do ICMBio recorreu da decisão e também deu início a uma investigação interna sobre o servidor.
"“A minha demissão é uma continuação do processo que se iniciou com a minha remoção para a catinga. São as mesmas pessoas e o mesmo grupo”, declarou José Martins, em entrevista ao g1.
Compartilhe no WhatsApp
Compartilhe no Telegram
Portaria com demissão de José Martins
Reprodução/Ana Clara Marinho
José Martins chegou a ser afastado por dois meses das atividades no início do processo, mas retornou ao trabalho até a conclusão da investigação.
Ele exercia a função de analista ambiental do ICMBio. O oceanógrafo é criador do Projeto Golfinho Rotador. Mora em Fernando de Noronha desde 1990 e passou a trabalhar no instituto em 2007, após ser aprovado em concurso.
O g1 procurou a chefe do ICMBio em Noronha, Carla Guaitanele, para saber motivos da demissão do servidor, mas a gestora informou que "não tem detalhes do processo" e que "o caso é de responsabilidade da direção do órgão, em Brasília".
Também entrou em contato com a Assessoria de Comunicação do ICMBio e solicitou informações do processo, mas, até a última atualização desta matéria, não obteve resposta.
VÍDEOS: mais vistos de Pernambuco nos últimos 7 dias
m

Dia do Meio Ambiente: relembre os principais projetos e polêmicas da área no Acre

Plantas alimentícias não convencionais agregam para dieta mais rica em nutrientes, dizem especialistas
O g1 listou algumas polêmicas envolvendo meio ambiente no estado. Relembre cada uma delas.
Dia do Meio Ambiente: relembre os principais projetos e polêmicas da área no Acre
Arquivo/BP-AC
No Dia Mundial do Meio Ambiente, celebrado neste domingo (5), o g1 AC fez um apanhado de algumas polêmicas que envolvem a área no estado. Listando assim alguns projetos que dividem opiniões no estado e também alguns outros sobre o meio ambiente. Vamos relembrar?
Localizado na ponta do Brasil, o Acre é um dos estados com maior diversidade de fauna e flora do país e tem quase 50% do seu território composto por terras protegidas por lei ambiental. De acordo com dados da Divisão de Áreas Naturais Protegidas e Biodiversidade (DapBio), o Acre possui um território com 16.422.136 de hectares, sendo que deste total 7.774.440 de hectares, ou seja, 47,3% é composto por unidades de conservação (federais, estaduais e municipais).
Já na categoria de proteção integral e uso sustentável e terra indígenas, são 2.390.112 de hectares, ou seja, 14,55 %, criadas para proteção e uso sustentável do bioma amazônico.
Florestas públicas
E logo de início falando de áreas protegidas, o primeiro projeto que vamos relembrar, que ainda é debatido no âmbito do estado, é a concessão das florestas públicas.
Em 2021, o governo chegou a debater um projeto de lei que regulariza a exploração de florestas públicas por empresas privadas no Acre. Isso porque, segundo o governo, o controle dessas terras acaba sendo um desafio para o estado que acaba tendo que lidar com invasões e crimes ambientais nessas áreas. ]
A gestão alega que essa medida implicaria em maior controle e preservação dessas áreas. Na época do debate, ambientalistas chegaram a dizer que o projeto era “aterrorizante”. Atualmente, o projeto está parado.
Entenda o impasse
Projeto quer retirar proteção integral do Parque Nacional da Serra do Divisor
Reprodução/Rede Amazônica Acre
Estrada na Serra do Divisor
Outro projeto que tem dado o que falar é um apresentado pela pela deputada federal Mara Rocha (PSDB-AC), que tira a proteção integral da Serra do Divisor no Vale do Juruá, no interior do Acre e altera os limites da Reserva Extrativista Chico Mendes (Resex).
Atualmente o projeto tramita na Câmara dos Deputados e está guardando parecer do relator na Comissão de Integração Nacional, Desenvolvimento Regional e da Amazônia (Cindra.). Mas, ja foi alvo de críticas de ambientalistas, estudioso,associações de moradores de reservas extrativistas e indígenas.
Há ainda pelo menos duas petições on-line contra o projeto. Já do lado dos parlamentares, a alegação é que essa mudança levaria progresso à região.
Entenda o projeto
Estrada entre Acre e Peru
Aliada a essa mudança na conservação da Serra do Divisor, está a construção de uma estrada entre Acre e Peru. O estudo de viabilidade econômica do projeto rodoviário Pucallpa – Cruzeiro do Sul apontou que o projeto não é economicamente viável, sendo que a construção geraria mais custos do que benefícios aos usuários.
O projeto, segundo a análise, também afetaria negativamente as comunidades indígenas, incluindo indígenas em isolamento voluntário, e áreas importantes em termos de significância ecológica, como o Parque Nacional da Serra do Divisor.
As comunidades indígenas do estado estão representadas por 15 povos, distribuídos em três famílias linguísticas (Pano, Arawak e Arawa). São 17.070 indígenas vivendo em 197 aldeias, distribuídos em 36 terras, situados em 11 municípios do estado do Acre. Destaca-se ainda 3 povos isolados, segundo o relatório.
Entenda o projeto
Geração de créditos de carbono em terra indígena
No ano passado, um estudo apontou que seria possível tornar as terras dos puyanawas em uma grande potência geradora de carbono e, além da preservação ambiental, conseguir gerar renda a esses povos. A terra indígena possui área de mais de 24, 4 mil hectares e apenas 5,8% desse território foi alterado.
Confira o estudo
Imagens mostram avanço do desmatamento na fronteira do Acre e Peru
Arquivo pessoal
Invasão de terras protegidas
Também no ano passado, um dossiê apresentado pelas entidades indígenas do Acre e do Peru alerta para o avanço do desmatamento na fronteira e que ameaça as comunidades indígenas e moradores da Reserva Extrativista do Alto Juruá, no interior do Acre.
O documento intitulado: “Uma grande ameaça para os povos indígenas do Yurua, Alto Tamaya e Alto Juruá” foi assinado pela Associação Ashaninka do Rio Amônia (Apiwtxa); Comissão Pró-Índio do Acre (CPI-Acre) e Organização dos Povos Indígenas do Rio Juruá (OPIRJ), além de mais oito entidades indígenas peruanas.
Nas denúncias, os indígenas falam sobre abertura ilegal do trecho da estrada UC-105 que vai de Nueva Italia a Puerto Breu, no Peru, por empresas madeireiras e outros grupos. O dossiê também expõe uma série de documentos oficiais, mapas e falas das lideranças, que mostram o risco que este empreendimento representa para os povos indígenas e comunidades tradicionais da região.
Eles alertam para o possível crescimento do narcotráfico na região, além da ameaça ao meio ambiente e aos povos originários.
Relembre o caso
Reveja os telejornais do Acre
P

Plantas alimentícias não convencionais agregam para dieta mais rica em nutrientes, dizem especialistas

Plantas alimentícias não convencionais agregam para dieta mais rica em nutrientes, dizem especialistas
Conhecidas como PANCs, espécies conseguem se desenvolver no quintal de casa e no meio de florestas, mas oferta ainda é irregular e sazonal por não possuírem cadeias produtivas estruturadas. Biólogo diz que ao menos 10% da biodiversidade do planeta é comestível. PANC como celósia é encontrada na Amazônia
Mayara Subtil/Rede Amazônica
Jambu, cuxá, ora-pro-nóbis e os espinafres indianos, d'água e amazônico. Tem também inhame, celósia, caapeba-amazônica e cipó kupá. Esses são alguns exemplos de plantas alimentícias não convencionais (PANCs) encontradas na Amazônia, seja em feirinhas locais da região ou no meio da mata.
Segundo pesquisadores, um prato típico da dieta do brasileiro pode se tornar mais nutritivo com a inserção de PANCs, pois há uma enorme variedade de espécies passíveis de consumo. Porém, são pouco conhecidas.
"[PANCs] são todos aqueles alimentos que não são comuns, que não são corriqueiros, que não são do dia a dia, que não têm cadeia produtiva estabelecida, estruturada pelo menos. Aqueles alimentos que a gente encontra no supermercado de 1º de janeiro a 31 de dezembro, esses são os alimentos convencionais. Tudo o que não for dessa linha convencional é PANC", explicou o pesquisador Nuno Madeira, da Embrapa Hortaliças.
Algumas dessas plantas alimentícias não convencionais se desenvolvem em ambientes como o bioma amazônico. Também se adaptam bem ao cultivo no quintal de casa. Contam com uma, duas ou mais partes aptas a complementarem o cardápio diário e são utilizadas por indígenas, quilombolas e pequenos agricultores.
Espécie como cará-moela pode ajudar a diversificar e deixar mais nutritiva a dieta diária
Mayara Subtil/Rede Amazônica
Para a engenheira agrônoma Julceia Camillo, "quanto mais diversificada for a alimentação em PANCs, mais diversificadas serão as fontes de nutrientes, de proteínas, de sais minerais, de todos os nutrientes essenciais que a gente precisa no nosso dia a dia".
Mas a oferta dessas espécies ainda é irregular e sazonal por lapsos na cadeia produtiva. Ainda não dividem espaço com outros vegetais nas gôndolas dos supermercados, nem mesmo se somam às refeições do dia a dia, compostas basicamente por arroz, feijão, tomate e alface. O pesquisador Nuno Madeira acredita que a mudança no padrão de vida das pessoas pode ter influenciado na falta de conhecimento dessas espécies.
"Veio esse mercado trazendo facilmente algumas espécies que desenvolveram cadeias produtivas muito fortes, muito estruturadas, trazendo facilidade de acesso. Então a gente acha que foi essa mudança no padrão de vida do brasileiro. Uma população isolada tem que se virar. Ela tem que produzir seu arroz, seu feijão", complementou o pesquisador.
Espécie de cipó kupá, tradicional alimento dos indígenas
Mayara Subtil/Rede Amazônica
Nascida na tese de doutorado do pesquisador e biológo Valdely Kinupp, a expressão PANC começou a ser adotada há 12 anos. Mas Kinupp lembra que, por mais que uma determinada espécie vegetal seja tradicional em uma localidade, "o tradicional está anos luz do convencional", já que são plantas disponíveis em qualquer lugar.
"Trabalhamos para que os chefes de cozinha, os nutricionistas, as cozinheiras, os cozinheiros, os comensais, como todo ser humano heterotrófico tem que comer, passarem a conhecer esses recursos alimentícios diferenciados para mudar seus hábitos alimentares", reforçou.
"A ideia das PANCs não é deixar de comer arroz, trigo, maçã, banana, alface. Só acho muito repetitivo e que causa um impacto econômico, ambiental e social muito grande a restrição a esses impérios agroalimentares e a ditadura das monoculturas e dos grandes supermercados que nos impõe esses alimentos tanto frescos e, principalmente, processados e ultraprocessados baseados nas mesmas plantas", explicou Valdely Kinupp.
Preservação e tendência de mercado
Parte 1: Saiba mais sobre as plantas alimentícias não convencionais
A Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO) detalha que ao menos 400 mil plantas já foram identificadas em todo mundo. Dessas, 30 mil estão aptas a comporem o cardápio diário. Mas cerca de 6 mil apenas foram cultivadas para produzir alimentos e, atualmente, se usa por volta de 170 em escala comercial significativa. Valdely Kinupp estima que, no mínimo, 10% da biodiversidade do planeta seja comestível.
"Essas plantas precisam ser garimpadas. Precisam ser pesquisadas. Muitas delas já têm algum estudo, outras não têm nada, outras não são nem descritas pela ciência botânica e já são comestíveis. Biodiversidade que gera emprego, biodiversidade que tem liquidez é biodiversidade que entra pela boca, no caso das alimentícias", complementou Valdely Kinupp.
A agrônoma Thelma Pontes viveu 10 anos na Amazônia trabalhando com hortaliças não convencionais, legumes e verduras que fazem parte de um subgrupo das PANCs. Segundo ela, esse garimpo, mencionado por Kinupp, de pesquisas e informações sobre as PANCs ainda é escasso, principalmente no que diz respeito aos vegetais nativos. Cita também que expandir o conhecimento sobre essas plantas alimentícias é sinônimo de preservação.
A oferta dessas espécies ainda é irregular e sazonal por lapsos na cadeia produtiva, dizem pesquisadores
Mayara Subtil/Rede Amazônica
"Esse interesse em cultivar essas plantas, em estudar essas plantas, as suas propriedades nutricionais, valorizar a culinária, está diretamente ligada a preservação dos biomas. A preservação da Amazônia, a preservação da cultura dos povos tradicionais, mas também a preservação da Mata Atlântica, do Cerrado, da Caatinga, de todos os biomas que a gente tem no Brasil porque essas plantas são locais, apresentam uma rusticidade", explicou a pesquisadora.
No Amazonas, a Rede Maniva de Agroecologia (Rema) tenta suprir a falta de conhecimento e expandir essas espécies vegetais em feiras e mercadinhos do estado há 15 anos por meio de parcerias entre agricultores, ribeirinhos e cerca de 30 organizações. Para Renata Peixe-Boi, membro do movimento social, as plantas alimentícias não convencionais têm potencial para se tornarem tendência no mercado.
"Na Amazônia existem condições que são extremamente específicas e, para isso, a gente precisa também de uma agricultura que seja específica, voltada pra essa região para que haja um desenvolvimento socioeconômico. Com isso, as plantas alimentícias não convencionais são um recurso bem estratégico que, muitas vezes, já fazem parte do consumo tradicional das comunidades", concluiu Renata.