‘Escolhi esperar’: por que só campanha de abstinência sexual não evita gravidez na adolescência

Número de queimadas no Amazonas em 2021 já é o terceiro pior da história
Nos últimos anos, campanhas e projetos que incentivam os jovens a atrasarem a primeira relação foram avaliados por cidades, estados e até pelo Governo Federal. Entenda porque essa estratégia sozinha não é eficiente e pode piorar ainda mais a situação. As estatísticas sobre casos de gestação durante a adolescência no Brasil revelam uma realidade assustadora e pouco divulgada
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O raciocínio parece ter uma lógica irrefutável: o melhor método para evitar uma gestação é não fazer sexo.
Na prática, porém, essa questão é muito mais complicada, especialmente quando falamos de adolescentes.
Entre os especialistas, já é consenso que a prevenção da gravidez em meninas de 10 a 19 anos passa necessariamente por uma série de fatores, que envolvem a educação, a disponibilidade de métodos contraceptivos e a existência de perspectivas profissionais e sociais.
Mas as políticas públicas brasileiras nessa área parecem querer ir na contramão das evidências científicas. Prova disso é a recente discussão que aconteceu na cidade de São Paulo, em que o vereador Rinaldi Digilio (PSL) propôs a criação da "Semana Escolhi Esperar".
A ideia é instituir datas para que o tema da prevenção da gravidez na adolescência seja discutido nas escolas da capital paulista.
O projeto ganhou aval da própria Prefeitura de São Paulo, comandada por Ricardo Nunes (MDB).
Embora não cite diretamente a abstinência sexual, a escolha do nome "Escolhi Esperar" para a iniciativa chamou atenção por ser o mesmo mote usado em campanhas de grupos religiosos cristãos, que entendem que a relação sexual só pode acontecer após o casamento.
O debate na Câmara Municipal paulista pode até ser o mais recente, mas não é o único: em outras cidades e estados, vereadores, deputados, prefeitos e governadores também abraçaram a ideia e já lançaram emendas e projetos de lei similares, que tentam até promover a abstinência sexual como método contraceptivo para os jovens brasileiros.
No Governo Federal, o Ministério da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos chegou a lançar, com apoio do Ministério da Saúde, uma campanha no início de 2020 que abordava o tema e tentava retardar a idade da primeira transa.
Em fevereiro de 2020, Damares Alves (à esquerda), ministra da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos, e Luiz Henrique Mandetta (à direita), então ministro da Saúde, lançaram um programa para diminuir as gestações entre os mais jovens com o lema 'Adolescência primeiro, gravidez depois – tudo tem o seu tempo'. Campanha foi criticada e acabou saindo do foco com a chegada da pandemia
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Numa série de coletivas e notas à imprensa, representantes dos ministérios prometiam que o objetivo era colocar a abstinência como um método complementar, e que a distribuição de camisinhas e outros contraceptivos não seria prejudicada ou ignorada.
À época, a abordagem foi muito criticada por especialistas em políticas públicas. O tema, porém, acabou ficando em segundo plano com a chegada e o agravamento da Covid-19 ao país.
Um sério problema de saúde pública
As estatísticas sobre casos de gestação durante a adolescência no Brasil revelam uma realidade assustadora e pouco divulgada.
Segundo um relatório feito pela Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia (Febrasgo), a taxa anual de gravidez precoce no mundo é de 44 nascimentos a cada mil adolescentes de 15 a 19 anos.
No Brasil, esse índice sobe para 62 nascimentos a cada mil adolescentes.
O Brasil, inclusive, faz parte do grupo de sete nações que respondem por metade de todas as gestações precoces registradas no planeta (os outros são Bangladesh, República Democrática do Congo, Etiópia, Índia, Nigéria e Estados Unidos).
Olhando para a situação interna, de cada seis crianças que nascem em solo brasileiro, uma é filha de mãe adolescente.
Para piorar, um terço das meninas brasileiras que tem um bebê ficam grávidas novamente após 12 meses, enquanto o tempo mínimo recomendado entre uma gestação e outra é de 18 meses.
Outro dado que chama a atenção: 65% dos partos de adolescentes brasileiras não foram planejados.
Vale ressaltar que a maioria desses dados leva em conta a faixa etária que vai dos 15 aos 19 anos — quando a gravidez ocorre antes disso (dos 10 aos 14 anos), esses casos são geralmente considerados "estupros presumidos".
E mesmo nessas idades ainda mais precoces a situação também é assustadora: um artigo de especialistas da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) e de outras quatro instituições revela que o Brasil registrou, entre 2006 e 2015, mais de 278 mil nascimentos de bebês cujas mães haviam acabado de sair da infância e entrado na adolescência.
Embora a taxa de gestações entre garotas de 10 a 14 anos tenha caído ano após ano em boa parte do país, houve um crescimento de mais de 20% dos partos nesta faixa etária entre residentes da região Norte.
Em seu parecer, a Febrasgo ainda aponta que essas estatísticas brasileiras tão altas e díspares estão relacionadas a "uma série de fatores que interagem entre si".
Entre eles, a entidade destaca o início precoce da vida sexual, a pobreza, a baixa escolaridade, ter a maternidade como a única opção de vida, relações familiares conflituosas, falta de diálogo, o não uso (ou o uso inadequado) de métodos contraceptivos, a violência sexual, o casamento precoce, a falta de informação, a ausência de educação sexual nas escolas, a dificuldade de acesso aos serviços de saúde e a pressão dos colegas.
"Estamos falando, portanto, de um problema multifatorial, que vai interferir significativamente na vida da adolescente dali em diante", assinala o ginecologista Agnaldo Lopes, presidente da Febrasgo.
Futuro em xeque
É de se esperar, portanto, que um cenário tão complicado como esse tenha as mais diversas repercussões para a adolescente, o bebê, a família e toda a sociedade.
O relatório da Febrasgo destaca que gestações em idades tão tenras estão associadas com maior risco de parto prematuro, recém-nascido com baixo peso, o aparecimento de transtornos mentais (como depressão) na adolescente e até morte por complicações na hora de fazer um aborto inseguro ou durante o parto.
A necessidade de cuidar do filho também está diretamente relacionada com o abandono escolar e a perda de oportunidades de empregos, o que, segundo o texto da Febrasgo, "perpetua o ciclo da pobreza".
Os dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) apontam que seis em cada dez adolescentes grávidas no país não trabalham e nem estudam.
E isso repercute na vida delas e também na economia como um todo: um estudo assinado pelo Banco Mundial revela que o Brasil teria um incremento de 3,5 bilhões de dólares (R$18 bilhões) em produtividade anual se essas meninas tivessem a gestação só após os 20 anos.
Como combater
Mas, diante de tal problema, como é possível resolvê-lo?
E a ciência já tem bons caminhos a oferecer: a ginecologista Carolina Sales Vieira, chefe do Serviço de Anticoncepção da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo (USP), explica que as abordagens mais bem-sucedidas combinam uma série de estratégias.
"E isso inclui projetos de transferência de renda, não incentivar o casamento precoce, melhorar a educação sexual nas escolas, aprimorar o acesso aos métodos anticoncepcionais…", enumera a médica.
A especialista também defende a necessidade de dar perspectivas futuras para as meninas brasileiras, especialmente das camadas mais pobres.
"Se elas não têm razão para estudar, se não possuem algum objetivo de carreira, por que atrasariam uma gestação para outro momento da vida?", questiona.
E, ao contrário do que se pensa, falar mais sobre saúde sexual nas escolas não estimula os jovens a transarem de forma desenfreada.
"As aulas precisam falar sobre o autocuidado, os problemas de ser mãe precocemente, o que fazer se estiver em risco de abuso e, claro, como se proteger durante a relação para não apenas evitar um filho, mas também uma infecção sexualmente transmissível (IST)", exemplifica Vieira.
E essas aulas não devem focar apenas no sexo feminino, segundo a especialista. Os meninos também precisam saber de suas responsabilidades e entender todos os aspectos da reprodução, do prazer e todos os aspectos relacionados ao tema.
O problema está justamente na falta de informações: quando os jovens não conhecem o próprio corpo, o que acontece durante o sexo e como se resguardar adequadamente, eles acabam se colocando em situações de risco.
Segundo a ginecologista, tratar da sexualidade de forma aberta e sem tabus, respeitando os limites de cada faixa etária, está relacionado, inclusive, a um início sexual mais tardio, pois os jovens se sentem mais empoderados para tomar uma decisão consciente e sabem reconhecer melhor possíveis abusos.
Focar só em abstinência também não ajuda em nada, aponta a médica.
"Os estudos nos mostram que os jovens acabam tendo relação sexual do mesmo jeito e ainda ficam mais vulneráveis à gravidez e às ISTs", resume Vieira.
"Não basta dizer para não ter relação sexual. É preciso instruir os jovens a escolher o momento oportuno, em que as coisas são feitas de forma consciente e segura", entende Lopes.
"Fora que essa abordagem do 'escolhi esperar' não reconhece o papel da violência sexual na gravidez durante a adolescência: uma gestação dos 10 aos 14 anos muitas vezes é fruto de um estupro presumido. Será que essas meninas só engravidam porque não falaram 'eu escolhi esperar'?", aponta a especialista.
"Muitas vezes, a questão não é querer fazer sexo. Elas são obrigadas", completa.
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Somado à educação sexual e o combate às mais variadas formas de violência, especialistas argumentam ser necessário ampliar o acesso aos métodos contraceptivos no sistema público de saúde brasileiro.
Segundo eles, não se trata apenas dos preservativos, mas de alternativas de longa duração que prescindem da memória e da ação direta dos adolescentes na hora do sexo, como é o caso dos dispositivos intrauterinos (conhecidos pela sigla DIU), dos implantes hormonais e das injeções mensais ou trimestrais.
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Embora não atuem contra as ISTs como Aids, sífilis e gonorreia, as pesquisas mostram que essas ferramentas têm uma alta eficácia na prevenção da gravidez.
Nesse sentido, uma das experiências mais bem-sucedidas de redução nos casos de gestação na adolescência aconteceu no Reino Unido. Seis anos após a implementação de um programa amplo, que envolveu os métodos contraceptivos e a educação sexual, foi registrada uma queda de 42% na taxa de meninas grávidas por lá.
Em comparação, o Brasil não realizou nenhuma mudança significativa nas políticas públicas de sexualidade entre os mais jovens. O resultado foi uma queda de apenas 13,5% nos números de adolescentes que esperavam um filho entre 2006 e 2015.
Seguindo as evidências, portanto, pensar que a abstinência será a solução para todos os problemas soa, no mínimo, estranho, na opinião de especialistas.
"Na verdade, quando a gente não usa as evidências científicas disponíveis para criar políticas de saúde pública realmente efetivas, corremos o risco de gastar dinheiro e não alcançar o resultado desejado, a não ser atender os anseios de uma base eleitoral ou perpetuar candidatos no poder", critica Vieira.
"Quando nós temos a evidência de que algo funciona e seguimos por outro caminho com motivações religiosas ou morais, estamos correndo o risco de desperdiçar dinheiro público, que é um de nossos grandes males junto da corrupção", completa a ginecologista.
Respostas, versões e posicionamentos
A BBC News Brasil procurou diversas entidades, representantes políticos e instâncias governamentais que foram citados ao longo desta reportagem.
A Prefeitura de São Paulo respondeu por meio de uma nota de esclarecimento, enviada pela assessoria de imprensa.
Nela, os responsáveis pela capital paulista informam que o parecer da Secretaria Municipal de Saúde, que deu uma sinalização positiva ao projeto da "Semana Escolhi Esperar", "é técnico, portanto não autoriza nenhuma ilação político-ideológica".
A proposta segue em discussão na Câmara Municipal da cidade.
"A Secretaria Municipal da Saúde (SMS) ressalta que as ações de prevenção da gravidez na adolescência desenvolvidas pela rede municipal são baseadas na autonomia do adolescente, preconizada pelo Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), e também no direito à informação e acesso a métodos contraceptivos, inclusive para redução da incidência de segunda gravidez na adolescência", continua a nota, que informa uma queda de 9,2% na taxa de gestações entre paulistanas de 10 a 20 anos ao longo do ano passado.
Procurados pela BBC News Brasil, nem o vereador Rinaldi Digilio, autor do projeto, nem o Ministério da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos, se manifestaram.
Veja VÍDEOS sobre ciência e saúde:

Criança pode ser vegetariana? Veja o que dizem os especialistas e quais cuidados adotar

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Segundo sociedades de pediatria, alguns nutrientes e minerais importantes podem ficar de fora de uma dieta sem carne e é preciso orientação profissional. Panqueca de couve-flor e couve-flor assada com legumes; pratos feitos pela chef Katty Zapata
Katty Zapata
Quanto maior a variedade dos grupos alimentares que crianças e adolescentes consomem, menor o risco de desenvolverem deficiências nutricionais que irão interferir em seu desenvolvimento. Desde que seja bem balanceada, uma dieta vegetariana pode promover o crescimento adequado.
Contudo, é preciso moderação e ponderação na hora de se adotar qualquer dieta restritiva na infância.
O alerta é da Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP), que segue as diretrizes da Associação Dietética Americana (ADA), Academia Americana de Pediatria (AAP) e Sociedade Canadense de Pediatria (SCP) sobre vegetarianismo infantil.
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Isso porque, se por um lado uma dieta vegetariana tem menores quantidades energéticas e proporção de gorduras saturadas por refeição, além de maior teor de fibras, frutas e vegetais, por outro, o não consumo de alimentos de origem animal podem contribuir para menor ingestão de ferro, vitamina B12, cálcio e zinco. (entenda a importância abaixo)
"Devemos ter mais cuidado quando se trata de crianças e qualquer dieta restritiva deve ser realizada de forma responsável para que não comprometa o futuro delas", afirma a pediatra nutróloga Cláudia Bezerra de Almeida, responsável pelo Ambulatório de Nutrologia Pediátrica da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp).
O vegetariano é, por definição da SBP, o indivíduo que não come nenhum tipo de carne, aves, peixes e seus derivados, podendo ou não utilizar laticínios ou ovos.
Porém, nem toda dieta sem a proteína animal é igual e pode ser classificada de acordo com o consumo de subprodutos animais (ovos e laticínios) em:
Ovolactovegetariano: utiliza ovos, leite e laticínios na alimentação;
Lactovegetariano: não utiliza ovos, mas faz uso de leite e laticínios;
Ovovegetariano: não utiliza laticínios, mas consome ovos;
Vegetariano: não utiliza nenhum derivado animal na sua alimentação
Vegano: não utiliza qualquer alimento derivado de animal na sua alimentação, nem produtos ou roupas contendo estes alimentos
Cuidados e suplementação
Tanto a sociedade pediátrica brasileira, quanto a americana e a canadense alertam que crianças e adolescentes vegetarianos são mais vulneráveis a desenvolverem deficiência de nutrientes e, por isso, não é tão simples quanto parece seguir uma dieta com restrição: a criança e a família precisam ser acompanhados por um profissional da nutrição.
"Nos últimos tempos, tenho visto alguns pais iniciando dietas vegetarianas para crianças pequenas confiando nas mídias sociais, ao invés de procurar profissionais especializados, e chegam crianças com deficiências nutricionais graves e muitas vezes irreversíveis", alerta Almeida.
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Outra questão importante, segundo o pediatra Julio Sérgio Marchini, professor da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo (USP), é a necessidade, nos casos em que ocorre deficiência de nutrientes, de se fazer suplementação.
"A criança que não come carne deve passar por exames de rotina periódicos e receber suplementação, principalmente com relação à vitamina B12, que não existe nas fontes alimentares vegetais", afirma Marchini.
A vitamina B12 é vital para a formação do sangue e o funcionamento do sistema nervoso e a sua falta pode causar anemia e deficiências neurológicas. Carnes e peixes são fontes da vitamina, e as opções de substituição para vegetarianos costumam ser os alimentos enriquecidos como cereais, extratos de levedura e substitutos de carne.
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Por outro lado, quando bem balanceada, a dieta vegetariana costuma ser rica em ácido fólico: nutriente envolvido na síntese de material genético, que atua como coenzima no metabolismo de aminoácidos. O ácido fólico ajuda no crescimento e na imunidade contra infecções. As melhores fontes são os feijões e folhas verdes escuras.
Além da orientação de um profissional, Marchini destaca outro fator que auxiliará a criança a se manter saudável em uma dieta sem proteínas de origem animal: ter passado pelo período mínimo de seis meses de aleitamento materno.
"Se a criança tiver cumprido previamente o período de aleitamento materno e tiver uma orientação nutricional, não vejo problema se não comer carne. Reforço que o aleitamento materno não tem substituto", diz o pediatra, reforçando que mesmo assim ainda é preciso acompanhamento.
Por isso, mulheres que estão amamentando precisam garantir que estão consumindo a quantidade suficiente de vitamina B12 para passar ao filho através do leite materno.
Nutrientes para ficar atento
Além da vitamina B12, existem outros nutrientes rico nas carnes e peixe que as famílias de vegetarianos devem ficar atentos.
"Quando não recebem orientação especializada, as crianças que não consome carne, assim como filhos de mães vegetarianas desde a gestação, têm maior risco para deficiências de vitaminas e minerais como a vitamina B12, o zinco, o iodo, o ferro e o cálcio. A ingestão inadequada nessas crianças pode levar a deficiências nutricionais graves e consequências a longo prazo. Cabe destacar o atraso cognitivo, a baixa estatura, a alteração do apetite e a anemia", explica Almeida.
Os nutrientes geralmente baixos neste tipo de dieta:
Ferro: tem como função o transporte e reserva de oxigênio, desempenho cognitivo, função imunológica. A carência pode causar anemia ferropriva e é prejudicial ao crescimento e desenvolvimento físico e mental. A melhor fonte de ferro é a carne vermelha, mas também é encontrada nos feijões e nas folhas verdes escuras.
Zinco: importante para a imunidade. Falta de zinco está relacionada ao retardo da maturação sexual, retardo do crescimento e queda de cabelo. A melhor fonte é carne, frango e peixe, mas também há zinco em semente de abóbora, gema de ovo e castanha de caju.
Iodo: tem como função a síntese dos hormônios tireoidianos T3 e T4. A carência está relacionada com o bócio, cretinismo, retardo mental irreversível. Fonte natural é a água do mar, por isso os peixes marinhos têm iodo, mas o que consumimos no sal iodado costuma ser o suficiente.
Vitamina A: é antioxidante e atua no crescimento e desenvolvimento, na manutenção das células da pele e das mucosas e ajuda no sistema imunológico. Também é importante para a saúde dos olhos. A carência provoca diminuição no crescimento, falta de apetite e cegueira noturna. Entre as fontes estão a carne, fígado e ovo de galinha, mas também está nos vegetais e frutas de cor alaranjada como cenoura, abobora e manga.
Por que a recusa
Não há dados sobre a quantidade de crianças e adolescentes vegetarianos no Brasil, mas uma pesquisa do Ipec publicada em agosto revelou que quase metade dos brasileiros, 46%, já deixam de comer carne uma vez por semana por vontade própria.
A pesquisa não ouviu menores de 16 anos, mas, segundo Almeida, tem se tornado comum atender famílias com crianças que rejeitam ou que não comem carne por algum outro motivo.
"Tenho observado uma alta frequência de crianças que não querem comer carne", conta Almeida.
Além do fator escolha consciente no caso de crianças maiores e adolescentes, que não comem carne por dó do animal ou por alguma convicção sua ou da família, a pediatra relata que a recusa a comer carne pode ser o início de um transtorno alimentar. Por isso, é recomendado identificar o que motivou a criança a iniciar este comportamento.
"Devemos observar se a recusa é apenas uma preferência da criança quanto ao paladar, ou se existe dificuldade em lidar com a textura da carne podendo estar relacionada com dificuldades sensoriais ou de oclusão, por exemplo. A recusa também pode ter origem comportamental, podendo estar associada a alguma experiência negativa com o alimento, mas também pode ser apenas uma recusa transitória, comum em crianças de 1 a 3 anos", diz a pediatra nutróloga da Unifesp.

Por que as conversas triviais são tão importantes para nossa saúde mental

Número de queimadas no Amazonas em 2021 já é o terceiro pior da história
As trocas de palavras com estranhos sobre nada importante em particular, curiosamente, são as que nos ajudam a se sentir conectados com o mundo. Voltar ao local de trabalho tem algumas vantagens. Falar com os colegas sobre coisas sem importância é uma delas.
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É típico. Existem coisas que nós não valorizamos, a não ser depois que as perdemos.
E uma das coisas que nós perdemos, pelo menos temporariamente, durante a pandemia, e muitos de nós começamos a estranhar, é aquilo que em inglês é chamado de "small talk" — ou, a conversinha, aquele bate-papo superficial.
São essas conversas casuais que mantemos com estranhos ou gente que apenas conhecemos de vista, na fila do ônibus, numa loja, no parque passeando com o cachorro ou do lado da impressora do escritório e que são sobre… nada.
Mesmo aqueles que dizem odiar essas interações banais — que no Reino Unido giram principalmente em torno do clima — admitiram, durante o confinamento imposto pela covid-19, que lamentavam sua ausência.
E por que essas conversas nos fazem falta? Que papel elas desempenham no nosso bem-estar?
Conectados com o mundo
Esse tipo de interação costuma "nos deixar de bom humor. Isso ocorre, em parte, porque elas nos ajudam a nos sentirmos conectados com outras pessoas, e isso é algo realmente importante para os seres humanos", disse à BBC Mundo Gillia Sandstrom, professora de psicologia da Universidade de Essex, no Reino Unido.
Sandstrom investigou o impacto que as relações fracas (em oposição aos laços profundos) têm sobre nós.
"Nós precisamos sentir que somos parte de um grupo e parte de algo maior", ela acrescenta.
Falar sobre trivialidades com estranhos nos faz sentir que podemos "confiar nas pessoas e que o mundo em geral é um lugar seguro, como a nossa comunidade". Mas, além desses benefícios, diz a especialista, essas conversas rápidas nos ajudam a aprender coisas novas.
Não espere que alguém inicie a conversa, você pode tomar a iniciativa
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"Não aprendemos muito com as pessoas que estão mais perto de nós, porque de algum modo sabemos o que elas sabem. Assim, ironicamente, adquirimos mais informação nova de conhecidos e estranhos do que daqueles que são mais próximos de nós."
A ausência desses encontros durante os confinamentos fez com sentíssemos falta dessa sensação de novidade, destaque Sandstrom.
Essas conversas "trazem algo de novo e imprevisível à nossa vida. Quando conversamos com um estranho não sabemos qual direção que a conversa vai tomar ou de que vamos falar. Isso pode assustar um pouco e é uma das razões pelas quais a gente evita falar com estranhos".
"Mas essa imprevisibilidade é também um dos grandes prazeres que existem", afirma.
Podemos notar também que, quando não estamos com um ânimo bom, nós não tendemos a mostrar isso durante um desses encontros casuais.
Isso ocorre porque nós tratamos de apresentar nosso melhor lado a quem não nos conhece bem, já que queremos que esse intercâmbio seja bem-sucedido.
"Ao agir como se estivéssemos de bom humor, isso acaba fazendo com que nos sintamos melhor", explica Sandstrom, que acredita que todos esses efeitos "sejam acumulativos".
No trabalho
Essas conversas superficiais não apenas nos fazem nos sentir mais à vontade no âmbito pessoal, mas também nos permitem crescer e nos sentirmos mais seguros no ambiente profissional.
O que seria da vida sem bate-papo no salão?
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"Imaginemos que você seja minha chefe e me dê um trabalho para fazer. Se cada vez que nós interagirmos você me der tarefas e nem sequer me perguntar como estou, como foi meu fim de semana etc, se não faz nada para iniciar uma conversa casual, eu não terei nenhuma conexão com você", diz Fine.
E isso fará com que eventualmente alguém procure emprego onde as pessoas se preocupam mais com o funcionário ou paguem mais, por exemplo.
"As conversas superficiais geram conexão, e isso faz com que a gente se preocupe com as coisas."
Por outro lado, um estudo mencionado por Sandstrom verificou que as pessoas que tem mais laços fracos, ou seja, mais conhecidos no trabalho são consideradas mais criativas por seus superiores. Elas são fundamentais "para a colaboração e para gerar confiança", assegura Debra Fine, autora do livro The Fine Art of Small Talk (em português, A Delicada Arte da Conversa Trivial).
Falar sobre o clima é um hábito comum aos britânicos
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"Isso está vinculado à ideia de que uma pessoas tem acesso a mais tipo de informação: se ela fala com gente de departamentos diferentes na empresa, ela pode aprender um pouco mais — e organiza as coisas de forma diferente — que alguém que somente fala com as mesmas três pessoas", argumenta a psicóloga da Universidade de Essex.
Apesar de isso ser mais comum em algumas culturas que em outras, a grande maioria participa desse tipo de rituais.
Há cerca de um século, o pai da antropologia social, o polonês-britânico Bronislaw Malinowski, argumentou que a "small talk" não era de domínio exclusivo das sociedades ocidentais, e seu objetivo não era comunicar ideias, mas sim cumprir uma função social: estabelecer vínculos pessoais.
Isso mesmo que a temática — assim como as normas sobre o que é aceitável e o que não é — varie segundo a cultura e a região do mundo.
Dessa forma, enquanto no Reino Unido, como mencionamos antes, uma clássica maneira de ter conversas superficiais é falar sobre o tempo, e outros países é comum iniciar um bate-papo em torno de uma reclamação (quanto tempo o ônibus demora para chegar, como é ruim o serviço de um estabelecimento etc).
Aprendizado
Nem todo mundo se sente como um peixe dentro d'água quando se trata de entrar nesse tipo de diálogo com pessoas que não pertencem a seu círculo mais próximo.
Lembro-me de uma amiga que costumava olhar, cuidadosamente, pelo olho mágico e colocar o ouvido na porta de sua casa antes de sair para não cruzar com algum de seus vizinhos.
Na maioria das vezes, aqueles que evitam essas conexões fazem isso por falta de interesse em outras pessoas.
Para muitos, é uma questão de personalidade: ficar cercada de outras pessoas provoca ansiedade porque temem uma reação negativa.
Falar sobre o clima é um hábito comum aos britânicos
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Mas muitos também evitam essas interações simplesmente porque não sabem como se comportar.
"Ao menos que já tenha nascido com esse dom e que isso saia de forma natural, a maioria não faz isso bem", explica Fine.
Mesmo assim, trata-se de uma habilidade que se pode adquirir por meio da observação e, sobretudo, da prática.
Conselhos para iniciar uma conversa trivial
A primeira coisa que é preciso lembrar é que o início de uma conversa depende de você mesmo.
"Não se pode esperar que alguém fale com você numa festa ou num evento da escola. É você que precisa estar disposto a assumir o risco", diz Fine.
Ao menos que você esteja num evento profissional, não pergunte "No que você trabalha?". É melhor perguntar "O que você faz?", e a outra pessoa pode te responder o que ela quiser lhe dizer.
"O importante é mostrar interesse de uma maneira que a outra pessoa lhe dê uma resposta verdadeira e que exija dela uma resposta de mais de uma palavra", afirma a especialista na arte da conversação.
Por exemplo: em vez de "Como foi seu fim de semana?", a que alguém pode responder simplesmente com um "bem, obrigado", você pode dizer: "Me conta sobre o que de mais interessante você fez no fim de semana".
É possível seguir dicas sobre como iniciar uma conversa aleatória e encerrar o papo sem ser mal educado
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Outra ferramenta disponível é o que Fine chama de informação "gratuita".
Se você está num encontro social, a outra pessoa certamente conhecerá o anfitrião, assim como você, e você pode perguntar como eles se conheceram, por exemplo.
Se você participa de um evento como voluntário, você pode perguntar a um outro voluntário coo foi que se ele se envolveu nessa organização.
Você deve evitar todo tipo de pergunta que matam a conversa.
Em situações em que você não conhece muito bem a outra pessoa, não faça perguntas sobre as quais você não sabe o tipo de resposta que podem gerar, recomenda Fine.
Ou seja, é melhor perguntar "E a vida? Alguma novidade?", em vez de algo sobre seu marido, que você viu faz um ano, porque você não sabe se eles continuam juntos, por exemplo.
E o mesmo vale para o trabalho: não parta do pressuposto de que a pessoa continua no mesmo emprego.
"É muito melhor pedir a ela "Me fala sobre as novidades do trabalho", já que a outra pessoa lhe contará o que ela quiser contar sobre esse assunto.
Outra recomendação que Fine faz é que você não entre em competição enquanto conversa, coisa que muitos de nós fazemos sem que percebamos.
Isso significa que, se alguém lhe fala sobre como se sentiu mal trabalhando sozinho em casa durante a pandemia, não responda dizendo que para você foi pior porque, além disso, tinha seus filhos o tempo todo em casa.
É muito melhor responder: "Parece que foi bem difícil para você mesmo. Já consegue ver uma luz no fim do túnel?".
…e para encerrar o papo sem ser mal-educado
Por último, encerrar uma conversa é tão importante como começá-la, sobretudo se não quisermos ficar presos num papo que parece não ter fim. Porém, também não querermos ofender ou ferir os sentimentos de nosso interlocutor.
Fine recomenda indicar que a conversa está prestes a chega ao final exibindo o que chama de "bandeira branca", em referência à que se usa nas corridas automobilísticas para indicar ao condutor que estamos entrando na última volta.
As conversas triviais são tão importantes na vida pessoal quanto no trabalho
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Ela dá exemplos de frases de "bandeira branca": "Me diga uma coisa, antes de eu sair", ou "Eu queria te fazer uma última pergunta", ou "Eu vou ter que sair, mas me explica uma coisa" etc.
Outro ponto importante, afirma Fine, é que se você diz que vai sair daquela interação para fazer alguma coisa, que você realmente faça isso.
"Se você acaba de dizer a alguém 'foi ótimo falar com você, mas estou desesperada para comprar um café', e no caminho à cafeteria você encontra outra pessoa, e seu interlocutor vê como você está falando longamente com ela, vai ficar ofendido, e isso pode queimar pontes."
"A essa nova pessoa, diga simplesmente que você vai comprar um café e que ela te acompanhe, ou então que você está indo comprar um café e já volta."
São todas regras muito simples, que podemos colocar em prática para nos conectarmos mais facilmente com as pessoas que nos rodeiam e, com isso, nos sentirmos melhor.

Número de queimadas no Amazonas em 2021 já é o terceiro pior da história

Número de queimadas no Amazonas em 2021 já é o terceiro pior da história
Entre janeiro e os primeiros dias de novembro, mais de 14 mil focos de incêndio já foram registrados pelo Instituto Nacional de Pesquisa Espacial (Inpe), no estado. Queimadas registradas em Humaitá, no interior do Amazonas.
Raolin Magalhães/Rede Amazônica
O ano de 2021 já é o terceiro ano com o pior índice de queimadas registradas no Amazonas, segundo dados divulgados pelo Instituto Nacional de Pesquisa Espacial (Inpe). Entre janeiro e os primeiros dias de novembro, mais de 14 mil focos de incêndio já foram registrados pelo órgão no estado.
De acordo com os dados divulgados pelo Inpe, de janeiro até o dia 3 de novembro de 2021, já foram registrados 14.617 focos de incêndio. Desde 1998, quando o órgão começou a registrar as queimadas, só dois anos tiveram números maiores. 2005, com 15.644 focos e 2020 com 16.729, em todo o ano.
O mês de outubro de 2021 teve o maior número de queimadas no Amazonas nos últimos cinco anos. Foram 1.773 focos registrados pelo Inpe. A última vez que o mês havia tido números tão altos foi em 2016, quando foram registrados 1.913 focos.
Durante o ano, outubro é o terceiro mês com maior número de queimadas, segundo o levantamento feito pelo órgão. Os meses que registraram maiores índices foram agosto, com 8.588 e setembro, com 2.799 focos de queimadas registradas no Amazonas.
O g1 entrou em contato com o Governo do Amazonas para saber quais medidas estão sendo tomadas para combater o avanço de queimadas no estado e aguarda resposta.
Agosto registrou recorde histórico
Em agosto de 2021, os registros de queimadas no Amazonas atingiram um recorde histórico para o mês, pelo terceiro ano consecutivo. Nos primeiros 26 dias do mês, foram registrados 8.172 focos de incêndios.
No ano passado, agosto registrou 8.030 focos de incêndios ao longo do ano. Em 2019, foram 6.668 registros pelo Inpe.
Vista aérea de área queimada na Amazônia, perto de Apuí, no Amazonas, no dia 11 de agosto.
Ueslei Marcelino/Reuters
Na ocasião, o pesquisador do Programa de Queimadas do Inpe, Alberto Setzer, informou em entrevista ao g1 que as queimadas no Amazonas começam a ganhar força no mês de julho. Historicamente, os meses com maior ocorrência de queimadas no Amazonas são agosto, setembro e outubro.
"O fogo aí nessa região não tem como começar sozinho. Então são todos atos ilícitos ou de novos desmatamentos ou de queima de áreas já desmatadas no passado, ou de renovação de pastagens, as vezes acidentes, entre outras razões", informou Setzer na época.
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