O que é melhor para a saúde, leite de vaca ou ‘alternativos’?

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Organizações como o Serviço Nacional de Saúde do Reino Unido recomendam que crianças entre um e três anos consumam 350 miligramas de cálcio por dia – pouco mais de meio litro de leite. Quando se trata de adultos, entretanto, as pesquisas sobre o efeito do leite de vaca são conflitantes. Intolerância à lactose e alergia ao leite, restrições que ainda causam confusão.
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Os humanos são os únicos seres vivos que bebem o leite de outra espécie. A maioria dos animais para de tomar leite ainda filhotes, quando começam a precisar de alimentos mais complexos.
Por que com os humanos é diferente?
As pessoas que vivem em partes do mundo onde as vacas foram domesticadas – começando no sudoeste da Ásia e se espalhando pela Europa – só passaram a serem capazes de digerir a lactose cerca de 10 mil anos atrás.
O resultado é que apenas cerca de 30% da população mundial continua produzindo lactase, a enzima necessária para ser capaz de digerir lactose até a idade adulta. O restante reduz sua produção após a fase de desmame da infância.
Cápsulas imitam o funcionamento da lactase; enzima que já temos no corpo
A maioria das pessoas torna-se intolerante à lactose, tornando os europeus que bebem leite, junto com algumas populações africanas, do Oriente Médio e do sul da Ásia, a exceção – e não a regra.
Mesmo aqueles que conseguem digeri-la podem querer reduzir a ingestão de leite por causa de outras preocupações, como saúde e os custos ambientais da pecuária, que têm impulsionado o crescimento do consumo de alternativas ao leite de vaca.
Mas existem benefícios para a saúde de trocar o leite de vaca por outra bebida, ou o leite de vaca fornece nutrientes vitais que não podemos obter de outras fontes? E o leite realmente agrava a intolerância à lactose da maioria das pessoas?
O leite de vaca é uma boa fonte de proteína e cálcio, além de nutrientes, incluindo vitamina B12 e iodo. Ele também contém magnésio, que é importante para o desenvolvimento ósseo e para a função muscular, e soro e caseína, que desempenham um papel importante na redução da pressão arterial.
O Serviço Nacional de Saúde do Reino Unido recomenda que crianças entre um e três anos consumam 350 miligramas de cálcio por dia, o que significa pouco mais de meio litro de leite.
Mas quando se trata de adultos, as pesquisas sobre o efeito do leite de vaca são conflitantes.
Embora o cálcio seja necessário para manter os ossos saudáveis, não está claro se uma dieta rica em cálcio aumenta a resistência a fraturas, por exemplo.
Vários estudos não encontraram redução significativa no risco de fratura por beber leite, enquanto alguns indicam que o leite pode, na verdade, aumentar a probabilidade.
Uma pesquisa realizada na Suécia descobriu que mulheres que bebiam mais de 200 mililitros de leite por dia – menos de um copo – apresentavam maior risco de fraturas. Nesse caso, entretanto, os autores ponderaram que as descobertas não necessariamente indicavam uma relação de causalidade. Pode ser que pessoas mais propensas a fraturas tendam a beber mais leite, alertam.
Mas o cálcio é crucial durante a adolescência para o desenvolvimento da força óssea, diz Ian Givens, especialista em nutrição da Universidade de Reading, na Inglaterra.
"Se você não tem o desenvolvimento ósseo correto na adolescência, corre um risco maior de ter fraqueza óssea mais adiante na vida, principalmente mulheres após a menopausa, quando perdem os benefícios do estrogênio", diz Givens.
Preocupações com a saúde
Outra preocupação com o leite nas últimas décadas são os hormônios que ele tem.
As vacas são ordenhadas durante a gravidez, quando seus níveis de estrogênio aumentam 20 vezes. Embora um estudo tenha vinculado esses níveis de estrogênio ao câncer de mama, de ovário e uterino, Laura Hernandez, que estuda biologia da lactação na Universidade de Wisconsin, nos EUA, diz que a ingestão de hormônios através do leite de vaca não é motivo de preocupação.
Afinal, "o leite humano também contém hormônios – faz parte de ser um mamífero", diz ela.
Uma revisão mais recente de estudos que investigam se a quantidade de estrogênio consumida via leite é prejudicial não encontrou motivo para preocupação.
Os pesquisadores descobriram que os níveis de estrogênio só começam a afetar os sistemas reprodutivos dos ratos quando estão presentes em 100 vezes os níveis encontrados no leite de vaca. Os pesquisadores só detectaram um aumento nos níveis de estrogênio em camundongos fêmeas e uma diminuição dos níveis de testosterona em camundongos machos após a dosagem atingir mil vezes os níveis normais.
É muito improvável que os humanos sejam mil vezes mais sensíveis aos níveis de estrogênio no leite do que os ratos, diz o autor do estudo, Gregor Majdic, pesquisador do Centro de Genômica Animal da Universidade de Liubliana, na Eslovênia.
Estudos também descobriram uma ligação entre a ingestão de leite e doenças cardíacas, devido ao conteúdo de gordura saturada. Mas o leite integral contém apenas cerca de 3,5% de gordura, o semidesnatado, em torno de 1,5% e o leite desnatado, 0,3%. As bebidas sem açúcar feitas de soja, amêndoa, cânhamo, coco, aveia e arroz têm níveis mais baixos de gordura que o leite integral.
Em um estudo, os pesquisadores dividiram os participantes em quatro grupos com base na quantidade de leite que consumiam e descobriram que apenas aqueles que bebiam mais – quase um litro por dia – tinham um risco aumentado de doença cardíaca. A associação pode ser porque aqueles que bebem tanto leite não têm uma dieta saudável, diz Jyrkia Virtanen, epidemiologista nutricional da Universidade do Leste da Finlândia.
"Apenas uma ingestão muito alta de leite pode ser ruim, não há pesquisas sugerindo que a ingestão moderada seja prejudicial", diz ele.
Também é possível que aqueles com intolerância à lactose possam beber pequenas quantidades de leite de vaca. Alguns especialistas argumentam que sintomas adversos – como inchaço e cólicas estomacais – são uma resposta ao acúmulo de lactose no corpo, e cada indivíduo tem um limiar diferente antes de sentir os sintomas.
Christopher Gardner, cientista de nutrição do Stanford Prevention Research Center, na Califórnia, realizou um estudo comparando os sintomas de pessoas com intolerância à lactose quando bebiam duas xícaras de leite de soja, leite cru ou leite comum todos os dias. Ele descobriu que muitos deles não apresentavam sintomas graves.
"Descobrimos que a intolerância à lactose é menos uma dicotomia do que uma coisa gradual, e que muitas pessoas podem tolerar quantidades modestas de laticínios", diz ele.
A crescente demanda por alternativas
Embora existam muitas pesquisas analisando os efeitos do leite de vaca em nossa saúde, há menos pesquisas sobre alternativas ao leite.
Uma olhada no corredor de leite de qualquer supermercado sugere uma demanda crescente por essas alternativas, feitas com soja, amêndoas, castanha de caju, avelã, coco, macadâmia, arroz, aveia ou cânhamo. O ingrediente principal é processado e diluído com água e outros ingredientes, incluindo estabilizadores, como goma de gelana e goma de alfarroba.
O leite de soja é o melhor substituto para o leite de vaca em termos de proteína, pois é o único com conteúdo de proteína comparável. Mas as proteínas em bebidas alternativas podem não ser proteínas "verdadeiras", diz Givens.
"Pode ser uma proteína de qualidade substancialmente mais baixa que o leite, que é um ponto crítico para crianças e idosos em particular, que têm uma necessidade absoluta de proteína de alta qualidade para o desenvolvimento ósseo", diz ele.
Não há pesquisas que sugiram que possamos obter muita nutrição dos principais ingredientes dessas bebidas, diz Sina Gallo, cientista em nutrição do departamento de estudos nutricionais e alimentares da George Mason University, na Virgínia, EUA. Eles podem conter outros micronutrientes, ela acrescenta, mas você não obtém os mesmos benefícios de uma bebida de amêndoa que obteria se comesse amêndoas.
As alternativas ao leite geralmente são enriquecidas com os nutrientes que ocorrem naturalmente no leite de vaca, como o cálcio. Mas os cientistas não sabem se vitaminas e minerais enriquecidos nos dão os mesmos benefícios à saúde que os que ocorrem naturalmente no leite de vaca e afirmam que são necessárias mais pesquisas para estabelecer as consequências da adição de cálcio.
Nos EUA, no entanto, o leite de vaca é enriquecido com vitamina D, e as pesquisas sugerem que isso pode ter efeitos benéficos semelhantes ao obter a vitamina naturalmente da exposição ao sol.
No entanto, especialistas recomendam que não acreditemos que essas alternativas sejam iguais para crianças, diz a nutricionista Charlotte Stirling-Reed – mesmo quando fortificadas. "O leite de vaca é um alimento muito denso em nutrientes, e o leite vegetal enriquecido nem sempre cobre todos os nutrientes", diz ela.
Stirling-Reed argumenta que precisamos de orientações de saúde pública sobre se bebidas alternativas podem ser usadas como substituto do leite de vaca para crianças e idosos.
"Mudar as crianças do leite de vaca para outras bebidas pode gerar um problema de saúde pública, mas ainda não temos muita pesquisa sobre isso."
Também há preocupações sobre o que as alternativas ao leite contêm e o que elas não têm. Embora o leite de vaca contenha lactose, um açúcar que ocorre naturalmente, as alternativas ao leite geralmente contêm açúcar adicionado, o que é mais prejudicial à nossa saúde.
Decidir beber leite de vaca ou uma das muitas alternativas pode nos deixar confusos – em parte porque existem muitas opções. Escolher sua alternativa ao leite deve envolver analisar as informações nutricionais de cada uma e decidir qual bebida é melhor para você individualmente.
Alguém que não é intolerante à lactose, com alto risco de desenvolver osteoporose ou doença cardíaca, por exemplo, pode escolher o leite de vaca com baixo teor de gordura, enquanto alguém que se preocupa com o meio ambiente pode escolher aquele com o menor custo ambiental.
"Você pode decidir qual bebida combina com você e continuar a refinar sua dieta e tomar as decisões certas para o seu contexto", diz Gardner.
Qualquer que seja sua decisão, você não estará perdendo nutrientes vitais se seguir uma dieta equilibrada. Na maioria dos casos, um substituto pode ser usado no lugar do leite. "Embora não seja necessário evitar o leite, também não é necessário que bebamos leite", diz Virtanen.
"Ele pode ser substituído por outros produtos – não há um componente alimentar ou alimento absolutamente necessário para a nossa saúde."
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Como uma dieta equilibrada pode alterar seu humor e evitar até a depressão

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Cientistas têm investigado com mais atenção nos últimos dez anos o quanto os hábitos alimentares contribuem para nosso estado mental. Esforço fez surgir, inclusive, uma área nova do conhecimento: a psiquiatria nutricional. Dieta equilibrada pode alterar seu humor
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Dias ruins mexem com nossa cabeça e apetite. Períodos de estresse fazem não apenas o humor oscilar, mas também a fome. Alguns ficam mais famintos. Outros param de comer. É comum associar ansiedade e depressão a transtornos alimentares.
O que médicos, nutricionistas e psiquiatras têm investigado com atenção nos últimos dez anos é o quanto nossos hábitos alimentares contribuem para nossos estados mentais de euforia e tristeza. Surgiu, inclusive, uma área nova do conhecimento: a psiquiatria nutricional.
Experimentos em laboratório com camundongos têm ajudado a desvendar como a alimentação nos deixa mais felizes ou tristes. A origem disso não está só em nossa cabeça: para entender como a comida altera nosso humor, é preciso olhar também para o intestino.
O que a ciência já sabe
Somos o que comemos. A influência da dieta em nosso estado mental é imensa. Há uma farta literatura médica sobre esse assunto.
De modo geral, os especialistas observam o equilíbrio entre dois grupos alimentares: açúcares e gorduras. É com eles que obtemos a maior parte da nossa energia, mas também são eles que, em excesso, causam desequilíbrios importantes.
Comer mal danifica o cérebro, por um processo conhecido como estresse oxidativo — a liberação de radicais livres de oxigênio no corpo acontece naturalmente e se avoluma com a idade, mas a dieta pode acelerar esse acúmulo.
A obesidade induzida por dietas ricas em açúcar e gorduras saturadas promove resistência do nosso organismo à ação da insulina, hormônio responsável por "colocar" a glicose dentro das células. Isso aumenta a glicemia, que é a quantidade de açúcar presente no sangue.
Persistindo nesses hábitos alimentares, pode ocorrer o desenvolvimento de diabetes. Além disso, gorduras saturadas comprometem o fluxo sanguíneo e causam inflamação nos órgãos.
Mas o que faz bem ao cérebro? Alimentos anti-inflamatórios, gorduras simples (monossaturadas ou poli-insaturadas) e antioxidantes, como frutas, legumes, nozes e vinho, parecem ter um efeito restaurador sobre o órgão, protegendo-o do estresse oxidativo e da inflamação, que afeta o equilíbrio entre os neurotransmissores, responsáveis por regular nossas emoções.
"Já sabemos que dietas ricas em gorduras saturadas e/ou açúcares são capazes de alterar o estado de humor tanto em animais de laboratório como em seres humanos. O consumo de alimentos gordurosos, como as típicas 'junk foods', está associado ao aumento de depressão e ansiedade", afirma Cristiano Mendes da Silva, do Laboratório de Neurociência e Nutrição da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp).
A nutricionista Catherine Ássuka Giriko constatou uma correlação entre dietas ricas em gordura e estados de depressão e agressividade numa prole de ratos adultos cujas mães ingeriram alimentos gordurosos enquanto os amamentavam.
"Usando modelos animais, constatamos que uma gestante cuja dieta é rica em gorduras pode gerar uma prole com atraso neurodesenvolvimental e que tem alterações moleculares importantes na região do cérebro envolvida com processos de memória e aprendizado", explica Mendes da Silva.
Dieta mediterrânea Bem Estar (arquivo)
Mariana Garcia/G1
A epidemiologista Camille Lassale, pesquisadora do University College, no Reino Unido, diz que determinados hábitos alimentares podem levar à depressão.
"O vínculo é claro. Não quero dizer que uma dieta ruim nos deixa tristes porque engordamos e nos sentimos mal com o ganho de peso. Nossos hábitos alimentares nos fazem realmente adoecer, mexem com o sistema imunológico, além de afetar a saúde mental."
Lassale fez uma análise, publicada em 2018 no periódico "Nature Molecular Psychiatry", em que comparou dados de 41 artigos científicos sobre o tema. Ela concluiu que incluir alimentos anti-inflamatórios na dieta é mais saudável e pode ajudar a prevenir a depressão.
"Indivíduos que adotam dieta mediterrânea (com mais fibras, azeite, verduras, frutas e legumes in natura e poucos produtos processados) tiveram um risco 33% menor de desenvolver depressão do que aqueles cuja dieta menos se assemelhava à mediterrânea", afirma a cientista.
"De todo modo, creio que a dieta ajuda, sim, a algumas pessoas, e temos agora explicações biológicas de como isso acontece. Dieta e exercícios físicos evitam e combatem a depressão, mas só podem ser vistos como peças de um complexo quebra-cabeças da mente humana."
Deprimir é inflamar
É difícil dizer não a uma colher de brigadeiro quando alguma coisa vai mal em nossas vidas.
Em situações de cansaço, fadiga ou preocupação, o organismo parece pedir uma recompensa química, na forma de uma descarga de serotonina, um neurotransmissor responsável por nossa sensação de bem-estar, produzida a partir da ingestão de açúcares e gorduras.
Quanto mais simples estes alimentos, em termos químicos, mais fáceis de digerir, e maiores os "picos" de euforia. O açúcar refinado das sobremesas chega mais rápido e de forma mais forte ao cérebro do que quando comemos alimentos mais complexos, verduras e grãos integrais.
Mas o prazer é passageiro, e a glicose em excesso pode prejudicar o funcionamento do nosso corpo. Há evidências neurobiológicas que apoiam a "hipótese neuroinflamatória" da depressão, a qual estabelece que comportamentos de ansiedade e depressão podem ser induzidos por dietas ricas em gordura.
Mendes da Silva explica que uma dieta gordurosa e açucarada compromete o fluxo sanguíneo. O colesterol ruim (LDL-colesterol) se oxida e promove um estado pró-inflamatório no interior de vasos sanguíneos, o que pode gerar uma resposta das células de defesa do organismo (monócitos), que irão fagocitar ("comer") essas moléculas até "estourarem".
Isso forma uma camada de gordura de dentro para fora do vaso sanguíneo, conhecida como placa de ateroma, que provocam infarto e acidente vascular cerebral (AVC).
O mesmo pode ocorrer em nível cerebral: se moléculas desse tipo atravessam a barreira hematoencefálica, que protege o sistema nervoso central, chegam aos neurônios e ativam receptores que disparam uma cascata de reações, entre elas a produção e liberação de moléculas que estimulam a formação de uma inflamação.
"A inflamação reduz os níveis de serotonina, o 'neurotransmissor da felicidade', e aumentam o risco de depressão", diz Mendes da Silva. Ou seja, o mesmo agente da alegria é capaz de perturbar o organismo e causar tristeza depois.
A epidemiologista Débora Estadella, do Instituto de Saúde e Sociedade da Unifesp, afirma que o vilão não são alimentos ou nutrientes isolados, mas sim um padrão alimentar.
Boas refeições equilibram os possíveis efeitos nocivos de uma barrinha de chocolate, por exemplo.
"A maior parte dos estudos de nutrição e epidemiologia relata isso, e o que se investiga são padrões macroalimentares, como a análise comparativa entre vegetarianos ou não vegetarianos, os que comem alimentos processados ou não, as dietas regionais, como a mediterrânea, asiática e as ocidentais", afirma Estadella.
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A influência dos micro-organismos
A relação entre o que acontece no intestino e saúde mental é um dos tópicos mais intrigantes e controversos da pesquisa sobre nossa metagenômica, termo científico para o conjunto de bactérias, vírus e fungos que fazem parte de nosso organismo.
Essa abordagem é bastante recente dentro da Medicina e tem se popularizado nos últimos anos.
Os microorganismos que habitam o corpo humano – calcula-se que sejam mais de 100 trilhões – são fundamentais para a absorção de nutrientes, vitaminas e o equilíbrio químico de neurotransmissores. Isso porque eles "quebram" os nutrientes que ingerimos e criam as moléculas que estimulam atividade neural.
A maior parte desse exército está em nossos intestinos, cujas paredes estão repletas de terminações nervosas, no chamado sistema nervoso entérico.
É no intestino, inclusive, que estão 90% dos receptores de serotonina, que além de interferir no humor e inibir a dor, regulam o sono e o apetite.
Embora haja consenso entre pesquisadores de que a metagenômica seja formada nos primeiros anos de vida de um indivíduo, é possível alterar o ambiente intestinal ao longo da vida. Nossas dietas fazem isso constantemente.
"A complexa comunicação entre intestino e cérebro é orquestrada por diferentes sistemas, incluindo os sistemas nervosos endócrino, imune, autonômico e entérico. As bactérias que vivem em nós têm função essencial para que a conexão aconteça", afirma Estadella.
O trato gastrointestinal secreta dezenas de moléculas diferentes. Essas substâncias podem "ativar" receptores em células do sistema imunológico, permitindo, assim, uma espécie de conversa indireta entre cérebro e intestino.
A relação entre metagenômica, intestino e cérebro tem sido explorada sobretudo em estudos com animais. Mas essas pesquisas dão pistas importantes do que pode ocorrer em nossos organismos.
Um estudo publicado por biólogos belgas no início de 2019, na revista "Nature Microbiology", concluiu que bactérias Faecalibacterium e Coprococcus podem sintetizar no intestino uma substância derivada da dopamina, o "neurotransmissor do prazer".
Outro trabalho, de autoria de Julieta Schachter, do Instituto de Biofísica da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), em colaboração com imunologistas de Taiwan, correlacionou a obesidade, o microbioma intestinal — o conjunto de bactérias que habitam este sistema — e a depressão.
"A diversidade de microbiomas intestinais tem sido fortemente associada a distúrbios do humor, incluindo transtorno depressivo maior.
Pesquisas em roedores mostraram um início de comportamento depressivo após transplantes fecais de pacientes com este transtorno. Por outro lado, a indução de estresse e comportamento depressivo em roedores resultou na redução da riqueza e diversidade do microbioma intestinal", explica Mendes da Silva.
Terapia combinada
A depressão é uma doença de múltiplas causas e prejuízos visíveis. Calcula-se que mais de 300 milhões de pessoas no mundo convivam com o transtorno. A doença atinge mais mulheres que homens. São pessoas que dormem e comem mal, perdem a vontade e a alegria de viver e também a saúde — a Organização Mundial da Saúde afirma que o custo econômico da depressão, em perda de produtividade, é de US$ 1 trilhão ao ano.
Ao longo das últimas décadas, psiquiatras tratam esses pacientes com medicamentos que agem sobre os neurotransmissores. O intuito é reequilibrar a química do cérebro. Apesar do avanço significativo, o tratamento não é eficaz em todos os casos. Além disso, trata-se de uma condição que é frequentemente recorrente. Alguém que tenha tido depressão em alguma fase da vida tem 50% de voltar a tê-la.
Há pouco mais de dez anos, estudos realizados por neurocientistas, nutricionistas e biólogos têm proposto uma abordagem multidisciplinar em relação à doença. A psiquiatria nutricional é um campo emergente que combina descobertas do campo da epidemiologia e dos efeitos das dietas regionais sobre o microbioma no tratamento da depressão.
"Quando alguém recebe uma receita de antidepressivo, os efeitos colaterais mais comuns estão relacionados ao intestino. Muitas pessoas têm náusea, diarreia ou problemas intestinais", diz Lassale. Para ela, a abordagem nutricional é crucial no tratamento da doença.
O pesquisador Wolfgang Max trabalha no Food & Mood, centro de pesquisa multidisciplinar da Universidade Deakin, na Austrália. O instituto reúne diferentes áreas do conhecimento, como psicologia, dietética, biomedicina e psiquiatria, para entender as formas complexas pelas quais os hábitos alimentares influenciam cérebro, humor e saúde mental. Max afirma que o Food & Mood conduz atualmente 20 estudos sobre a relação entre comida e humor em vários níveis, da microbiologia a ensaios clínicos e saúde pública.
O grupo, do qual faz parte a cientista Felice Jacka, pioneira nos estudos que associaram a qualidade da dieta e a saúde mental de crianças e adolescentes, recomendou recentemente que a psiquiatria nutricional "se torne parte rotineira da prática clínica em saúde mental".
Max investiga como os polifenóis, compostos encontrados em pimentas, frutas e verduras, agem sobre o microbioma e a saúde mental. "Há nutrientes complexos em alimentos crus ou pouco processados. Carnes magras e outras fontes de zinco, ferro e ômega-3 garantem a ação antioxidante benéfica ao cérebro."
Estadella, da Unifesp, diz haver evidências fortes de que o consumo de certos peixes e frutos do mar está ligado a uma menor probabilidade de o indivíduo ter depressão, por serem alimentos que contêm o ácido graxo ômega-3. "Ele melhora a fluidez das membranas neuronais. Alguns estudos utilizaram ômega-3 junto com antidepressivos e tiveram resultados positivos", afirma a pesquisadora.
Mas ela afirma que, antes de mexer com os intestinos e adotar o consumo frequente de alimentos prebióticos, que servem de comida para nossos micro-organismos, e probióticos, que contêm estes micro-organismos, é importante corrigir a dieta e evitar alimentos ultraprocessados e refinados e preferir os integrais.

Lei de Parkinson, a curiosa norma social que explica por que não temos tempo para nada 

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Um historiador britânico escreveu que o trabalho se expande para preencher o tempo disponível. O conceito da Lei de Parkinson, acerca da burocratização das empresas e do serviço público, foi criado em 1955
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"O trabalho se expande de modo a preencher o tempo disponível para a sua realização". O historiador Cyril Northcote Parkinson, especialista na Marinha Britânica, cunhou essa frase para a abertura de um ensaio para a revista The Economist, em 1955. O conceito, conhecido como 'Lei de Parkinson', ainda vale hoje em dia.
Aparentemente, não sou o único para quem essa sentença soa verdadeira. A "Lei de Parkinson" ganhou vida própria, formando a base de vários outros ensaios e até um livro do historiador. Depois, ele viajou o mundo dando palestras públicas sobre o assunto.
Mas o que pessoas não sabem é que a intenção original de Parkinson não era mirar escritores ou jornalistas como eu, mas um tipo diferente de ineficiência: a burocratização do Estado britânico.
Em seu ensaio original, ele apontou que, embora o número de navios da Marinha tenha diminuído em dois terços e o pessoal em um terço, entre 1914 e 1928, a quantidade de burocratas no serviço havia aumentado quase 6% ao ano. Havia menos pessoas e menos trabalho para gerenciar, mas o gerenciamento em si ainda estava em expansão. Parkinson argumentou que isso se devia a fatores independentes das necessidades operacionais da Marinha.
Obtenha mais subordinados, crie mais trabalho
Stefan Thurner, professor de Ciência de Sistemas Complexos da Universidade Médica de Viena, é um estudioso que analisou a lei de Parkinson com seriedade. Thurner se interessou pelo conceito quando a faculdade de medicina da Universidade de Viena se tornou independente, em 2004.
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Dentro de alguns anos, ele diz, a Universidade Médica de Viena passou de 15 para 100 funcionários, enquanto o número de cientistas permaneceu o mesmo. "Eu queria entender o que estava acontecendo lá e por que minha carga burocrática não diminuiu. Pelo contrário, aumentou", diz ele.
Por acaso, ele leu o livro de Parkinson na mesma época. Então, decidiu transformá-lo em um modelo matemático que poderia ser manipulado e testado, juntamente com os co-autores Peter Klimek e Rudolf Hanel.
"Parkinson argumentou que, se você tem numa empresa a taxa de crescimento de 6% do departamento administrativo, mais cedo ou mais tarde a empresa morrerá. Eles terão toda a sua força de trabalho concentrada na burocracia e nenhuma na produção."
Parkinson apontou dois elementos críticos que levam à burocratização: 1) o que ele chamou de lei da multiplicação de subordinados, ou seja, a tendência de gerentes de contratar dois ou mais subordinados para se reportarem a ele — e que nenhum deles esteja em concorrência direta com esse chefe; e 2) o fato de os burocratas criarem trabalho para outros burocratas.
Thurner diz que as empresas geralmente começam com uma hierarquia plana, com dois engenheiros, por exemplo. À medida que ela cresce, eles contratam assistentes, que são promovidos e contratam seus próprios subordinados.
"Uma pirâmide começa a crescer. Pode-se adicionar camadas artificiais que não têm outra finalidade senão a introdução de hierarquia, que ajudam a promover as pessoas para agradá-las e mantê-las motivadas. Quando a pirâmide fica muito grande e cara, pode consumir todos os lucros da empresa. Se o órgão burocrático não for drasticamente reduzido nessa fase, a empresa vai morrer."
Gabinete gigante, governo ineficiente
Thurner também analisou as ineficiências no contexto original de Parkinson: os governos. Em outro estudo, ele e seus colegas examinaram o tamanho de gabinetes estatais de quase 200 países.
Eles descobriram que o tamanho do gabinete estava negativamente correlacionado com a eficácia do governo, estabilidade política, responsabilidade fiscal, além conhecimento, expectativa e padrão de vida. Esses dados são medidos pelas Nações Unidas.
Para testar como o tamanho de um grupo afeta sua capacidade de tomar decisões, eles criaram um modelo baseado em redes de fluxo de informações e descobriram que ocorreu uma mudança significativa quando os grupos atingiram 20 pessoas.
"Encontramos um padrão realista de vinculação de pessoas e demos aleatoriamente a comitês artificiais algumas opiniões sobre os assuntos", diz ele. "Com 20 pessoas, você vê uma forte diferença na construção de coalizões. Grupos menores se formam e se bloqueiam, o que explica por que é extremamente difícil tomar decisões unânimes."
Produtividade x tempo
Hoje, embora alguns pesquisadores possam rir da menção à "lei" que passou a significar muito mais do que a intenção original do autor, também não há dúvida de que eles sabem a que ela se refere. Existe alguma verdade na noção de que, sem tempo estipulado, perdemos tempo e nosso trabalho demora mais para ser concluído?
De fato, estudos realizados nas décadas seguintes ao ensaio de Parkinson mostraram que ele tem algum mérito. Na década de 1960, os pesquisadores mostraram que, quando os indivíduos recebiam "acidentalmente" tempo extra para concluir uma tarefa, o trabalho levava mais tempo para ser concluído.
Em outros estudos de 1999, indivíduos foram convidados a avaliar quatro conjuntos de fotos. Quando eles disseram que o quarto grupo foi cancelado, passaram mais tempo "brincando" no terceiro, em vez de apenas concluir a tarefa mais rapidamente.
Em um teste surpresa, pesquisadores também descobriram que o tempo extra gasto em uma tarefa — nesse caso, contando o número de letras em uma frase — não levou a uma maior precisão.
Então, isso significa que, como escritor, devo definir meus prazos mais cedo ou limitar o trabalho que faço em cada história? Em geral, deveríamos impor restrições de tempo mais rigorosas para melhorar nossa produtividade?
Os seres humanos têm uma capacidade limitada de memória, atenção e fadiga — ou largura de banda mental, de acordo com Eldar Shafir, professor de Princeton e coautor de Escassez, um livro que mostra como as pessoas e as organizações ao redor do mundo podem lidar com a falta de recursos.
"Como nossa capacidade de atenção é limitada, nós a dividimos esporadicamente da melhor maneira possível ao longo da vida cotidiana", diz ele. Mas, às vezes, por necessidade, precisamos nos unir.
Em seu livro, ele e o co-autor, Sendhil Mullainathan, falam sobre a concentração em um projeto às custas de outras tarefas.
"Quando você tem um prazo, é como uma tempestade à sua frente ou um caminhão na esquina. É ameaçador e está se aproximando, então você se concentra bastante na tarefa", diz.
E você pode conseguir um ótimo trabalho, mas o problema é que todo o resto é transferido para a periferia. "Se você está se concentrando tanto em um grande projeto, pode ao mesmo tempo esquecer de coisas como pegar o seu filho na escola, o aniversário da sua mãe, alimentar o cachorro etc. Esse pode ser o preço que você paga pelo sucesso que deseja alcançar."
E sempre há a chance de que correr para realizar uma tarefa em poucas horas também pode ter desvantagens, principalmente se o prazo for definido por outra pessoa.
"Se o seu prazo for muito curto e você entrar em pânico, terá sacrificado outras coisas e poderá trabalhar de maneira ineficiente, e as coisas poderão dar errado de qualquer maneira", diz ele.
"As pessoas gostam de dizer que, se não fosse no último minuto, nada teria sido feito. Mas pesquisas mostram que a produtividade das pessoas não é linear ", diz Elizabeth Tenney, professora-assistente da Escola de Negócios Eccles da Universidade de Utah, nos Estados Unidos.
Tenney é pesquisadora e autora de diversos ensaios sobre a relação entre a pressão imposta por prazos definidos e produtividade.
"Quando as pessoas se sentam para realizar uma tarefa, elas se esforçam muito inicialmente. Em algum momento, passará a obter retornos decrescentes ao esforço extra. Para otimizar a produtividade, você precisa maximizar os benefícios, minimizar os custos e encontrar esse ponto de inflexão entre eles."
Isso pode não significar ocupar o tempo todo designado para tarefa ou trabalhar até o prazo final, diz ela.
E quanto à hipotética velhinha de Parkinson escrevendo cartas? Se ela tivesse se dado um prazo mais apertado, provavelmente terminaria mais rapidamente. Mas sem mais nada para fazer o dia todo, ela terminou bem em cima do prazo.

O que é o assoalho pélvico e por que é importante exercitá-lo

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Cuidar dessa estrutura evita problemas como a incontinência urinária e aumenta o prazer sexual. Práticas como o pilates ajudam a fortalecer a estrutura pélvica
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Para manter a saúde em dia, muita gente procura a academia para tonificar bíceps, tríceps, quadríceps, glúteos e o que mais o preparador físico recomendar. Mas existe uma parte do corpo que precisa ser exercitada pelas mulheres desde a adolescência e que não está na ficha do treino: o assoalho pélvico.
O que é o assoalho pélvico?
O assoalho pélvico é um conjunto de estruturas formado por músculos, ligamentos e fáscias [tecidos que envolvem os músculos] que serve para segurar os órgãos da pelve como útero, bexiga, reto e próstata. Nos homens, o enfraquecimento desse conjunto não é comum, mas, nas mulheres, a presença do orifício do canal vaginal deixa o assoalho mais frágil.
Assoalho pélvico é a musculatura responsável por segurar os órgãos abdominais
Sem o devido cuidado, os órgãos que deveriam ser sustentados por essa estrutura podem se deslocar ou mesmo cair. A consequência são problemas que costumam ser muito desconfortáveis e até constrangedores, como incontinência urinária e fecal, bexiga hiperativa e dor na relação sexual.
“São lesões que ocorrem no longo prazo e normalmente aparecem depois da menopausa, já que a queda dos níveis de estrogênio aceleram o enfraquecimento muscular e a perda de colágeno”, afirma o ginecologista Rodrigo de Aquino Castro, do Hospital Samaritano Higienópolis.
“Quanto mais pressão você tem na barriga, mais risco. Isso inclui fatores como obesidade, tosse crônica, exercícios físicos muito intensos e várias gestações, independentemente do tipo de parto. Tudo isso aumenta a pressão na barriga e pode empurrar os órgãos para baixo se você não tem um fortalecimento adequado dessas estruturas”, explica a uroginecologista Lilian Fiorelli, da Sociedade Beneficente Israelita Brasileira Albert Einstein.
O parto normal é uma das principais causas de lesão no assoalho pélvico, mas isso não significa que as mulheres precisam optar pela cesariana para evitar o problema. Um preparo adequado, com exercícios de fortalecimento, reduz os riscos de prejudicar as estruturas.
Cuidar bem do assoalho pélvico não serve “apenas” para evitar a queda e o deslocamento dos órgãos. Essa prática contribui muito para a qualidade da vida sexual das mulheres – e, consequentemente, de seus parceiros. “Vejo um aumento muito grande na satisfação sexual das mulheres que passam a preparar bem o assoalho pélvico. A sensibilidade na região aumenta, pois há mais circulação sanguínea no local, a lubrificação fica melhor e a mulher consegue englobar mais o pênis, o que aumenta o prazer. Isso tudo faz muito bem para a libido e o desejo”, relata Lilian.
Mulheres que querem engravidar devem fortalecer o assoalho pélvico
Como malhar seu assoalho pélvico
Falar com seu treinador e pedir para incluir o assoalho pélvico na lista de exercícios não é o caminho para cuidar da saúde dessa estrutura.
O primeiro profissional que você deve procurar é o ginecologista, que poderá avaliar se você tem consciência corporal e consegue contrair o local certo.
“Sair fazendo exercício sem a devida orientação pode até ser prejudicial, pois a mulher pensa que está contraindo o assoalho pélvico mas está exercitando outros músculos que pioram o prolapso vaginal e a incontinência”, alerta Lilian Fiorelli, do Albert Einstein.
Depois dessa orientação inicial, a mulher pode procurar um fisioterapeuta pélvico, que é o profissional especializado nesse tipo de cuidado. Outra alternativa são práticas como ioga e pilates, que englobam exercícios para fortalecer o local. É possível até contar com a ajuda de aplicativos e jogos no celular: dispositivos conectados ao aparelho são colocados na vagina, e a mulher interage no game contraindo o assoalho pélvico.
O pompoarismo, técnica que tem como objetivo fortalecer os músculos do assoalho pélvico, também é recomendado, mas costuma exigir um pouco mais de experiência e consciência corporal para ser aplicado.
'Pílula de Bem Estar': como fortalecer o assoalho pélvico

Vício em exercícios físicos: como o esporte pode se tornar uma obsessão nada saudável

Vício em exercícios físicos: como o esporte pode se tornar uma obsessão nada saudável
O que fazer quando algo que faz bem ao corpo e à mente se torna um problema? E como os aparelhos e aplicativos que monitoram a atividade física podem contribuir para agravar essa situação? A corrida tornou-se uma obsessão na vida de Valeria e prejudicou seus relacionamentos
BBC
Correndo em um parque, Valerie Stephan parece estar em paz ao cumprir seu ritual matinal. "Quando corro, sinto que estou ficando mais rápida, mais forte. É como uma série de pequenas vitórias", diz a atleta amadora.
Há dez anos, Valerie começou a correr para melhorar sua forma física. Ela se inscreveu em uma prova de 5 km. Depois, passou para as corridas de 10 km e conseguiu completar uma maratona.
Precisamos realmente dar 10 mil passos por dia?
'Fui viciada em drogas, agora, sou viciada em corrida'
Mas, então, ela começou a acordar cedo todas as manhãs para treinar e a priorizar o esporte acima de tudo. "O exercício me controlava, em vez de eu controlar o exercício. Isso rapidamente se tornou uma obsessão e prejudicou meu trabalho, minha família, todos os aspectos da minha vida", diz.
À medida que o vício aumentava, ela se isolava cada vez mais, até mesmo de pessoas próximas. "Algumas pessoas simplesmente não entendiam por que eu tinha de me exercitar. Elas me achavam um pouco louca."
Depois de anos forçando os limites do seu corpo e da sua mente, Valerie ficou deprimida e esgotada
BBC
Atrasar-se para os compromisso ou reagendá-los e cancelá-los tornou-se a regra. Valerie passou a combinar de se encontrar com os amigos com a condição de que fossem jogar squash ou nadar, relaxando apenas quando atingia seu objetivo no dia. "Eles pensavam que não queria vê-los. Eu queria, mas tinha de treinar muito antes para não me sentir culpada."
Sua obsessão também afetou outros relacionamentos importantes. "Eu nunca conseguia descansar. Estava sempre correndo. Nunca queria passar um tempo em casa."
Depois de anos forçando os limites do seu corpo e da sua mente, Valerie ficou deprimida e esgotada. Precisou parar com tudo para se recuperar e ficou quatro meses sem trabalhar.
"Tudo o que eu queria era mostrar que era uma super-humana que tinha controle total. Não conseguia demonstrar o quanto aquilo era difícil emocionalmente para mim", afirma Valerie.
O que é o vício em exercício?
Psicólogos dizem que a dependência em exercício se enquadra em uma categoria de vício na qual um comportamento se torna compulsivo e causa problemas na vida de uma pessoa.
Estima-se que isso afete cerca de 3% da população em geral, mas chegue a 10% entre os praticantes de corrida de alto desempenho.
Normalmente, os mais propensos ao vício ​são os atletas amadores que, como Valerie, buscam na atividade física alívio para algum sofrimento interno, diz a psicóloga Chetna Kang, do Hospital The Priory, em Londres, no Reino Unido.
Especialistas afirmam que o vício em exerícios não é comum, mas está se tornando mais frequente
BBC
"Muitas vezes, as pessoas chegam com problemas de relacionamento, ansiedade, depressão. Mas, quando você começa a analisar, percebe que o excesso de exercício é o motivo. Isso não é extremamente comum, mas está se tornando cada vez mais", diz Kang.
Caz Nahman, psiquiatra de crianças e adolescentes especializada em distúrbios alimentares, diz que excesso de exercício é uma condição frequente entre seus pacientes.
"O exercício geralmente é benéfico para a saúde mental. É uma ótima maneira de gerenciar a depressão leve ou a ansiedade severa. Mas o excesso pode ter um impacto negativo", afirma Nahman.
Os sintomas incluem lesões como fraturas por estresse, tendinite e falhas do sistema imunológico. Em mulheres, pode levar à interrupção da menstruação, osteoporose e distúrbios alimentares. Nos homens, provoca redução da libido.
Martin Turner, psicólogo de esportes da Universidade Metropolitana de Manchester, no Reino Unido, estuda atletas há dez anos e encontra regularmente pessoas que são dominadas por esse aspecto de suas vidas.
Lidar com a falta da adrenalina e das endorfinas liberadas pelo esporte pode ser particularmente difícil
BBC
"Elas criam uma ideia de que o sucesso como atleta reflete seu valor como ser humano. 'Se falho como atleta, sou inútil'. Quando correr se torna um elemento central de quem a pessoa é, ela pensa: 'Se eu não correr, quem eu sou?'."
Os estudos de Turner mostram que essas ideias estão geralmente associadas a um maior grau de dependência de exercícios, depressão, raiva, ansiedade e esgotamento.
"Existem três razões principais pelas quais essas crenças não fazem sentido. Primeiro, impedem o bem-estar, em vez de contribuir para isso. Segundo, refletem uma motivação de curto prazo. As pessoas correm para evitar a culpa e não pela atividade em si. Terceiro, isso não condiz com a realidade: uma pessoa precisa respirar, comer, se hidratar e dormir, mas não precisa correr", diz o psicólogo.
Sintomas de abstinência
Enfrentar a abstinência da adrenalina e da endorfina liberadas pelo esporte pode ser particularmente difícil. Valerie tentou reduzir a carga de exercícios, mas isso teve um forte impacto sobre seu bem-estar, fazendo com que se sentisse mais inquieta.
Ela diz que isso a manteve presa em um ciclo vicioso. "Fico ansiosa quando não consigo treinar. Não consigo dormir, tenho dores de cabeça. Se não sair para me exercitar, parece que estou em uma prisão."
Especialistas apontam que aparelhos ou aplicativos que monitoram o volume de exercício praticado podem alimentar este vício, especialmente se a pessoa é motivada por conquistas e perfeccionismo.
Usar esses dispositivos e compartilhar o desempenho pelas redes sociais faz com que essa prática se torne pública e competitiva, e torna ainda mais difícil reduzir a carga.
Compartilhar o desempenho pelas redes sociais faz com que a prática de exercícios se torne pública e competitiva
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Valerie diz que adora estes aplicativos e os usa todos os dias para monitorar seu ritmo de corrida, volume de treino e seu progresso. "Você recebe elogios e vê como melhorou e o que seus amigos estão fazendo. Mas, se tenho uma maratona chegando e meu amigo está treinando mais, me sinto pressionada."
Turner diz que estas ferramentas podem aumentar a obsessão e prejudicar a recuperação. "Elas podem ser uma injeção de autoestima. O problema é se te dizem que você ficou aquém de alguma forma. Você não foi tão bom quanto da última vez, não foi tão bom quanto seu amigo. Você fica constantemente competindo com os outros", afirma o psicólogo.
A situação pode piorar ainda mais se a autoestima de uma pessoa estiver diretamente atrelada às suas realizações na prática de exercícios, diz Turner. "Se o aplicativo te diz que você não foi tão bem e você pensa que isso te torna um fracasso completo, é algo pode ser ainda mais problemático."
O caminho para a recuperação
A treinadora de triatlo britânica Audrey Livingstone diz que estes aplicativos e aparelhos estimulam um comportamento doentio entre seus atletas.
"Alguns deles ficam muito ocupados checando o que os outros estão fazendo. Digo a eles que só precisam fazer melhor do que fizeram da última vez. 'Concentre-se no seu próprio desempenho'", diz ela.
Livingstone afirma que busca, nestes casos, reduzir a carga de exercícios dos seus atletas por uma semana. "Eles não gostam, questionam e lutam contra isso. Simplesmente, não entendem por que precisam descansar às vezes."
A treinadora de triatlo Audrey Livingstone diz que aplicativos e aparelhos que monitoram exercícios estimulam um comportamento obsessivo
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Como com qualquer outro tipo de vício, interromper o ciclo vicioso e dar os primeiros passos rumo à recuperação pode ser um processo demorado e complicado. Turner acredita que, antes, é preciso reconhecer que há um problema.
"Uma das coisas que os atletas devem fazer é refletir sobre seus pensamentos, motivações e crenças. É importante ser realista e flexível e dizer 'se não treinar hoje, pode ser ruim, mas certamente não é a pior coisa do mundo' e reconhecer que só porque não treinou, isso não faz da pessoa uma perdedora."
Para Valerie, buscar um equilíbrio entre exercícios e descanso é um desafio contínuo. Agora, com o apoio de parentes e amigos, acredita que está conseguindo se recuperar.
"Entender que aquilo se tornou um vício levou muito tempo. Precisei aprender a abrir mão de me exercitar, não ficar obcecada com isso e que não posso controlar tudo, ao dizer para mim mesma: 'Você não precisa ser perfeita."
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