‘Minha mãe tem síndrome de Down’

Meteoros ‘carregados’ com açúcar podem ter sido fundamentais para o surgimento da vida na Terra
Hoje, quase 30 anos após Izabel Rodrigues ter se tornado mãe, os parentes ainda se surpreendem por ela ter conseguido criar a filha: 'Eles ficam admirados por ela ter dado conta de cuidar de mim'. Foto tirada na colação de grau da Cristinna, em fevereiro deste ano
Arquivo pessoal/BBC
Nas fotografias da colação de grau da atendente Cristinna Maria da Silva, o largo sorriso da mãe dela, a dona de casa Izabel Rodrigues, de 66 anos, se destaca. A alegria da idosa demonstra o orgulho que ela sentiu ao ver a única filha concluir o ensino superior.
Junto delas e com um sorriso tímido, o pai de Cristinna, o aposentado José Ribeiro, de 78 anos, também demonstrou felicidade com a conquista da filha, que se formou em Administração.
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A conclusão do ensino superior foi algo distante para os pais de Cristinna, que cresceram na região rural do pequeno município de Morrinhos (GO) — hoje a família vive na área urbana da cidade. Eles estudaram somente até as primeiras séries do ensino fundamental.
O diploma de Cristinna foi também uma conquista para a mãe dela. Izabel tem síndrome de Down e um dos principais desafios que enfrentou na vida foi provar para os parentes que seria capaz de criar a filha.
Muitos duvidavam que a mulher, que tinha amigos imaginários e parecia alheia a tudo, poderia cuidar de uma criança.
A síndrome de Down de Izabel foi descoberta somente quando ela tinha 35 anos. A idosa, que é a caçula de 19 filhos, passou parte da vida sendo considerada pelos familiares como alguém que vivia "no mundo da lua". No passado, parentes e conhecidos não desconfiavam que ela pudesse ter uma alteração genética. Para eles, tratava-se do jeito dela.
Para provar que conseguiria criar a filha, Izabel foi uma mãe extremamente cuidadosa. "Sempre que eu me sujava, ela corria para me limpar. Mesmo que estivesse perto da lama, com as outras crianças sujas, eu sempre estava limpa", diz Cristinna, hoje com 29 anos.
"Ela era a minha bonequinha. Cuidei muito bem dela. Ela era um xodó para mim", conta Izabel, que é de poucas palavras, mas sempre está sorridente.
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Hoje, quase 30 anos após a dona de casa ter se tornado mãe, os parentes ainda se surpreendem por ela ter conseguido criar a filha. "Eles ficam admirados por ela ter dado conta de cuidar de mim", comenta Cristinna.
A síndrome de Down
Izabel nasceu por meio de uma parteira, que era responsável pelos nascimentos dos bebês da região rural de Morrinhos. Na infância, demorou mais que os outros irmãos para aprender a falar e a andar. "Percebiam que ela era mais lenta que os outros, mas achavam que não era nada. Pensavam que era preguiça dela", diz Cristinna.
Desde pequena, a idosa tem dificuldades de compreensão. Logo nos primeiros anos da escola, os pais decidiram retirá-la de lá, porque ela tinha extrema dificuldade de aprendizado. Izabel sabe ler e escrever muito pouco.
Desde o início do casamento, Izabel e José queriam ter filhos
Reprodução/Alex Duarte/BBC
Na adolescência e no início da vida adulta, os parentes notaram que Izabel tinha atitudes diferentes. "Por um período, a minha mãe trabalhou. Ela falava que ia ao banheiro, mas quando iam atrás dela, ela estava no pomar, brincando com amigos imaginários. Diziam que ela não era certa da cabeça", conta Cristinna.
Aos 25 anos, Izabel começou a namorar com José Ribeiro. Eles são primos de segundo grau e moravam em regiões próximas. Com cerca de seis meses de namoro, ele pediu permissão para se casar com ela. "Alguns dos meus tios não queriam deixar a minha mãe se casar, porque falavam que ela não era muito certa. Mas a minha avó permitiu."
Desde o início do casamento, Izabel e José queriam ter filhos. Dez anos depois, parentes do casal levaram a mulher ao médico, para descobrir o motivo de ela não conseguir, até então, engravidar. "Nessa consulta, o médico descobriu a síndrome de Down da minha mãe. Ele disse que ela nunca poderia ter filhos, porque pessoas assim são inférteis", diz Cristinna.
A síndrome de Down é uma alteração genética caracterizada pela presença de três cromossomos 21 nas células do indivíduo. Aqueles que possuem a síndrome têm, ao todo, 47 cromossomos nas células, enquanto a maior parte da população tem 46.
No Brasil, estima-se que haja cerca de 300 mil pessoas com a trissomia do cromossomo 21, como também é conhecida a síndrome de Down. Em todo o mundo, estudos apontam que um a cada 700 mil bebês nascidos vivos possui a característica genética.
Uma das características da síndrome é a infertilidade. Estudos apontam que metade das mulheres que possuem a alteração genética são inférteis. Entre os homens com a síndrome, a infertilidade chega a atingir 80% deles.
Apesar do prognóstico desanimador, Izabel conseguiu engravidar meses após descobrir a síndrome. "Foi uma grande felicidade descobrir que ela estava grávida", comenta José.
Há considerável possibilidade de que o bebê de uma pessoa com síndrome de Down nasça com a mesma característica genética. Em casos de mãe e pai com a síndrome, as chances de a criança ter a alteração genética chegam a 80%.
No caso de Izabel e José, como somente ela possui a síndrome de Down, as chances de a criança ter a mesma característica eram de 50%. Apesar da possibilidade considerável, Cristinna nasceu sem nenhuma alteração genética.
Casos de filhos de pai ou mãe com síndrome de Down que nascem sem a alteração genética são considerados incomuns.
O nascimento da filha
Desde o início da gravidez, os parentes de Izabel tinham receio sobre a capacidade dela para cuidar de um bebê. Em razão disso, logo após o nascimento de Cristinna, uma irmã da dona de casa a auxiliou nos cuidados com a recém-nascida.
"Os meus tios não queriam deixar a minha mãe sozinha comigo e decidiram que alguém precisava acompanhá-la nos primeiros dias, depois que ela saísse do hospital. Essa minha tia, que já tinha filhos, ficou na minha casa durante o meu primeiro mês de vida. Depois ela foi embora, porque a minha mãe já tinha aprendido o que tinha que aprender", relata Cristinna.
"Meu pai passava o dia trabalhando, então ficávamos eu e a minha mãe. Ela é muito determinada quando quer alguma coisa e sempre quis mostrar que poderia cuidar de mim. Ela teve muita capacidade para me criar", declara.
Casamento de Izabel e José
Reprodução/Alex Duarte/BBC
Uma das grandes dificuldades enfrentadas pelas pessoas com síndrome de Down é a crença de que são incapazes. Apesar da deficiência intelectual, que pode se manifestar em diferentes níveis, especialistas orientam que é importante estimular o desenvolvimento dessas pessoas para que elas possam se tornar cada vez mais independentes.
"Hoje, a deficiência intelectual e as dificuldades de desenvolvimento das pessoas com síndrome de Down são condições acolhidas de forma melhor pela sociedade. Mas a gente percebe que muitas pessoas não querem que o indivíduo com síndrome de Down se desenvolva, porque têm a crença de que serão eternas crianças", afirma a neuropsicóloga Karyny Ferro, que atua no Instituto Jô Clemente (antiga Apae de São Paulo).
"A deficiência intelectual é uma questão genética. Mas existe uma questão social. É importante que as pessoas tratem o indivíduo com Down conforme a idade cronológica dele, para que culturalmente ele consiga lidar com a autoimagem, porque querendo ou não, é uma pessoa que está envelhecendo", acrescenta.
Especialistas frisam que uma pessoa com síndrome de Down pode ser capaz de criar um filho. Em alguns casos, pode necessitar de maior apoio externo, mas é fundamental que não menosprezem a capacidade daquele indivíduo e estimulem a independência.
Questões referentes à autonomia e desenvolvimento de uma pessoa com síndrome de Down tornam-se ainda mais importantes atualmente. Isso porque a expectativa de vida deles, que em décadas atrás era de 35 anos, hoje corresponde a, aproximadamente, 63 anos.
Entre os pontos de desenvolvimento de pessoas com a síndrome de Down, o geneticista e pediatra Zan Mustacchi ressalta a importância de entender que esses indivíduos podem ter uma vida sexual comum. Ele afirma que é fundamental falar sobre sexualidade com eles.
"O problema é que a sociedade não assumiu esse tipo de abertura. Dizem que por eles terem dificuldades intelectuais, não podem ter uma vida sexual. Isso faz com que esse indivíduo seja despreparado e, consequentemente, possa até sofrer abusos. A sexualidade deles é comum, como qualquer outra", pontua Mustacchi.
Especialistas afirmam que para que o indivíduo com síndrome de Down tenha uma vida produtiva e inclusiva em todos os aspectos, é preciso haver apoio dos familiares e de diferentes profissionais, como fonoaudiólogo e psicólogo.
Uma mãe extremamente zelosa
Diferente do que costuma ser orientado por especialistas, Izabel nunca teve nenhum tipo de acompanhamento em razão da síndrome de Down. "Ela nunca procurou ajuda ou quis algum acompanhamento, até porque a gente mora em uma cidade pequena. Ela diz que esse diagnóstico não mudou em nada a vida dela", conta Cristinna.
A síndrome de Down não afetou a criação que recebeu da mãe, afirma Cristinna. "Ela sempre foi muito amorosa e cuidadosa. Muita gente me pergunta qual é a diferença em ter uma mãe com síndrome de Down, mas para mim isso nunca mudou nada."
Os pais e Cristinna quando era bebê
Reprodução/Alex Duarte/BBC
"Sempre cuidei muito bem da minha filha. Eu a levava e buscava na escola. Gostava muito de passear com ela", diz Izabel.
Um dos poucos momentos em que Cristinna se viu com medo em relação à alteração genética da mãe foi durante a adolescência. "Eu estava na sétima série. Estávamos estudando sobre cromossomos e uma professora explicou sobre a síndrome de Down. Na época, eu desconhecia sobre o assunto e disse que minha mãe tinha. Nisso, minha professora garantiu que a minha mãe não tinha, porque as pessoas com essa síndrome são inférteis."
"Eu fiquei abalada, porque comecei a pensar que pudesse ser adotada. Procurei meu tio, que tinha me falado sobre a síndrome, e ele me mostrou fotos da minha mãe grávida. Até falei com um médico da cidade e ele também me disse que, apesar de ser incomum uma pessoa com síndrome de Down ter filhos, eu era filha da minha mãe", relembra.
Os netos
Há alguns anos, Cristinna deixou a casa dos pais para morar com o marido. Hoje, ela é mãe de dois garotos, de seis e 10 anos, e está grávida de seis meses.
A atendente se recorda que o primeiro momento em que duvidou da capacidade da mãe, em razão da síndrome de Down, foi logo após o nascimento do primogênito. "Eu não deixei que ela desse banho no meu filho nos primeiros meses dele, porque fiquei pensando que ela não fosse capaz. Para que ela não ficasse magoada, também não deixei que a outra avó fizesse isso. Eu mesma dei os banhos nele", diz.
Cristinna confessa que se arrependeu da atitude. "Eu fiquei pensando: a minha mãe conseguiu cuidar de mim e me deu banho sozinha. Por que não conseguiria fazer isso com meu filho? Então, quando tive meu segundo filho, o primeiro banho, fora do hospital, foi dado por ela. Foi uma forma de me redimir", conta.
Atualmente, Izabel cuida dos netos durante o período da manhã, enquanto a filha trabalha. "Ela é uma avó muito carinhosa", comenta Cristinna.
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'Fiz questão de dar esse orgulho para eles'
Izabel e José moram na mesma casa, em um conjunto habitacional de Morrinhos, há mais de 30 anos. Hoje, vivem com a aposentadoria do idoso, que é um salário mínimo, e com a renda de tapetes que fazem para vender. "O dinheiro deles é escasso, mas nunca passaram necessidade. Eu ajudo quando eles precisam de algo. Como a família deles é muito grande, sempre ajuda também", conta Cristinna.
"Nós tentamos aposentar a minha mãe por invalidez, mas não conseguimos, porque a Justiça alega que o benefício só pode ser concedido se a renda familiar for inferior a 1/4 do salário mínimo por pessoa. Como ela é casada com o meu pai e eles têm o salário mínimo dele, o juiz entendeu que a renda dela é maior que 1/4", diz Cristinna. Segundo ela, o caso segue na Justiça.
A preocupação de Cristinna com Izabel e José é constante. Ela conta que desde criança soube que teria que ter muito cuidado com eles. "Os meus tios sempre falaram que vim ao mundo para ajudar os meus pais."
Ao relembrar tudo o que viveu com os pais até hoje, ela cita que um dos momentos mais importantes foi o dia da sua colação de grau, em fevereiro deste ano. Orgulhosos, Izabel e José posaram para diversas fotos ao lado da filha. O momento especial causou comoção em parentes ao ser compartilhado por Cristinna nas redes sociais.
"Uma prima, muito mais velha que eu, comentou que ninguém acreditava que meus pais dariam conta de cuidar de mim, muito menos de me formar. Ninguém nunca acreditou que eles fossem capazes. Mas fiz questão de dar esse orgulho para eles."

Como dormir melhor (e em menos tempo)

Meteoros ‘carregados’ com açúcar podem ter sido fundamentais para o surgimento da vida na Terra
Você já ouviu falar nas técnicas de 'otimização do sono'? Existe todo um novo segmento de mercado investindo nisso. É comum o pouco tempo de sono ser usado como motivo de orgulho, como uma espécie de prova de que se leva uma vida extremamente agitada.
Personalidades como Thomas Edison, Margaret Thatcher, Martha Stewart e Donald Trump relataram dormir de quatro a cinco horas por noite — muito menos que o período de sete a nove horas de sono recomendado para adultos.
A gigante da eletrônica Philips também está entrando no jogo da assistência ao sono
Getty Images/BBC
Muitos de nós estão seguindo o exemplo daquelas personalidades: de acordo com os Centros de Controle e Prevenção de Doenças dos Estados Unidos, mais de um terço dos adultos americanos não conseguem dormir o suficiente regularmente.
As consequências disso, como problemas de memória e maior propensão a infecções e obesidade, são bem conhecidas — mas fáceis de ignorar. Quando há muito o que fazer durante o dia, o sono ainda é o principal sacrificado.
Mas e se pudéssemos simplesmente otimizar a experiência do sono para que desfrutássemos da maioria dos benefícios do sono profundo, só que em menos tempo?
Essa possibilidade pode estar mais próxima do que parece, graças a novas técnicas de "otimização do sono". Algumas experiências em diferentes partes do mundo mostraram que é possível aumentar a eficiência da atividade noturna do cérebro — acelerando a chegada ao sono profundo e melhorando o descanso quando chegamos lá.
Parece quase bom demais para ser verdade. Mas é isso mesmo?
Uma batida mais lenta
Em uma noite normal, o cérebro passa por estágios diferentes do sono, cada um com um padrão característico de ondas cerebrais, em que neurônios de diferentes regiões do cérebro atuam juntos, em sincronia, em um ritmo específico. É como uma multidão cantando ou tocando alguma batida em uníssono.
Durante a fase R.E.M., do "movimento rápido dos olhos" (tradução livre), esse ritmo é bastante rápido. É também este o período mais provável em que sonhemos.
Mas, em certos momentos, nossos olhos deixam de se mover, nossos sonhos desaparecem e o ritmo das ondas cerebrais cai para menos de uma "batida" por segundo — momento em que entramos em nosso estado de inconsciência mais profundo, chamado "sono de ondas lentas".
É este estágio que tem sido de particular interesse para os cientistas que investigam a possibilidade da otimização do sono.
Algumas experiências já mostraram que é possível aumentar a eficiência da atividade noturna do cérebro
Getty Images/BBC
Desde os anos 1980, pesquisas vêm mostrando que o sono de ondas lentas é essencial para a manutenção do cérebro. Ele permite que as regiões cerebrais transmitam nossas memórias do armazenamento de curto ao longo prazo — para que não esqueçamos o que aprendemos.
"As ondas lentas facilitam a transmissão de informações", diz Jan Born, diretor do Departamento de Psicologia Médica e Neurobiologia Comportamental da Universidade de Tübingen, Alemanha.
As ondas lentas também podem desencadear o fluxo de sangue e líquido cefalorraquidiano (material que circula entre o cérebro e a medula espinhal) pelo cérebro, liberando detritos potencialmente prejudiciais que poderiam causar danos neurais. Elas também reduzem o hormônio associado ao estresse, o cortisol, e ajudam a rejuvenescer o sistema imunológico.
Tais resultados levaram cientistas, incluindo Born, a considerar que aumentar a produção dessas ondas lentas poderia impulsionar os benefícios do sono e melhorar nossa atividade diurna.
Uma das técnicas mais promissoras para isso funciona um pouco como um metrônomo que conduz a atividade no cérebro ao ritmo certo. Em experimento, participantes dormem usando um dispositivo preso à cabeça que acompanha a atividade cerebral e é capaz de notar o início da produção de ondas lentas. Nesse momento, o dispositivo emite pulsos curtos de som suave em intervalos regulares durante a noite, em sincronia com as ondas lentas naturais do cérebro. Os sons são silenciosos o suficiente para evitar acordar o participante, mas altos o suficiente para serem registrados, inconscientemente, pelo cérebro.
Born liderou grande parte do trabalho experimental, descobrindo que esse estímulo auditivo suave é apenas o suficiente para reforçar os ritmos cerebrais necessários. Os participantes que usaram o dispositivo tiveram um desempenho melhor nos testes de memória, mostrando uma melhor capacidade de recordar o que haviam aprendido no dia anterior. Também foram observadas melhoras no equilíbrio hormonal, com redução nos níveis de cortisol; e no sistema imunológico.
Nos testes realizados até agora, os participantes ainda não relataram consequências indesejadas.
"Não podemos ter certeza, mas até agora não há efeitos colaterais óbvios", diz Born.
Dormir melhor em uma loja perto de você
A maioria dos estudos que tentam incrementar o sono de ondas lentas foi realizada em pequenos grupos de participantes jovens e saudáveis. Para ter certeza dos benefícios dessas técnicas, precisaríamos assistir a experimentos maiores em grupos mais diversos. Mas essas evidências já existentes permitiram à chegada ao mercado de um punhado de dispositivos para auxiliar o sono, principalmente na forma de faixas de cabeça para serem usadas durante a noite.
A start-up francesa Dreem, por exemplo, produziu uma faixa (disponível por cerca de € 400 ou R$ 1,8 mil) que também usa a estimulação auditiva para estimular o sono de ondas lentas, com uma configuração semelhante à dos experimentos científicos — que foram confirmados por outros estudos.
O Dreem também se conecta a um aplicativo que analisa os padrões de sono e oferece conselhos e exercícios práticos, como meditação, para favorecer uma melhor noite de sono.
A faixa de cabeça para sono profundo SmartSleep, da Philips, explicita buscar contornar os efeitos negativos da privação de sono — para pessoas "que, por qualquer que seja o motivo, simplesmente não estão se dando uma oportunidade adequada de sono", diz David White, diretor científico da Philips.
Esse produto foi lançado pela primeira vez em 2018 e, como o Dreem, trata-se de uma faixa para a cabeça que detecta a atividade elétrica do cérebro e reproduz periodicamente pequenos impulsos de som para estimular as oscilações lentas que são características do sono profundo. O dispositivo conta com um software que controla cuidadosamente o volume do som ao longo do tempo para garantir que ele dê o nível ideal de estímulo para cada usuário. Hoje, o produto está disponível apenas nos EUA por cerca de US$ 399 (cerca de R$ 1,6 mil).
Mais empresas estão buscando ferramentas para facilitar o acesso ao sono profundo, essencial para a manutenção da memória e do cérebro
Getty Images/BBC
White concorda que o dispositivo não pode substituir completamente uma noite de sono, mas lembra que é notoriamente difícil convencer as pessoas que costumam dormir pouco a fazer as mudanças necessárias no estilo de vida. Ao ampliar os benefícios do sono, esse aparelho ao menos contribui para a atividade cotidiana. Nesse sentido, as próprias experiências da Philips confirmaram que o SmartSleep aumenta o sono de ondas lentas em pessoas privadas de sono e atenua alguns dos efeitos imediatos dessa situação, como uma pior consolidação da memória.
Pesquisas futuras podem sugerir ainda mais maneiras inovadoras de otimizar o sono. Aurore Perrault, da Universidade de Concordia, no Canadá, testou recentemente uma cama de balanço suave que oscilava para frente e para trás a cada quatro segundos.
Ela diz que a técnica foi inspirada no bebê recém-nascido de um colega sendo ninado para dormir, levando a equipe a se perguntar se os adultos também podem se beneficiar desses movimentos suaves. Eles descobriram que participantes de testes entravam mais rápido na fase das ondas lentas e passavam mais tempo nela quando as ondas cerebrais se sincronizavam com o movimento externo. Como era de se esperar, eles também relataram sentir-se mais relaxados no final da noite, e isso foi novamente acompanhado pelos benefícios esperados para sua memória e aprendizado.
Como diferenciar uma dificuldade para dormir e a insônia?
"Essa foi a cereja do bolo", diz Perrault.
Se uma cama desse tipo for lançada no mercado, ela deverá ter um propósito semelhante às faixas de cabeça que estimulam sons. Perrault está particularmente interessado em ajudar as pessoas mais velhas, já que a quantidade de tempo no sono profundo parece diminuir à medida que envelhecemos, contribuindo potencialmente para alguns problemas de memória relacionados à idade.
Ainda assim, procure dormir
Embora o campo ainda esteja em sua infância, esses estudos mostram que há muitas promessas no ramo da otimização do sono.
Perrault e Born são otimistas quanto ao potencial dos produtos comerciais que recorrem a pulsos sonoros para estimular essas ondas lentas regenerativas. Perrault enfatiza que ainda precisamos de estudos mais amplos para garantir sua eficácia fora das condições controladas do laboratório — mas ela comemora a perspectiva de beneficiar uma população maior.
No futuro, será interessante ver se a otimização do sono também pode trazer benefícios a longo prazo. Sabemos que a perda crônica de sono pode aumentar o risco de doenças como diabetes e até Alzheimer — mas não está claro se essas novas técnicas ajudarão a reduzir tais riscos.
Por enquanto, a única maneira garantida de colher todos os benefícios do sono — tanto a curto quanto a longo prazo — é garantir que você tenha o suficiente dele. Independentemente de você decidir experimentar esses dispositivos, é desejável ir dormir mais cedo e evitar álcool, cafeína e uso de telas antes de dormir, fatores esses conhecidos por prejudicar a qualidade do sono.
Nosso cérebro não pode funcionar sem recarga — e qualquer pessoa que deseje viver uma vida feliz, saudável e produtiva precisa acordar para esse fato.

O inovador método de imunoterapia que traz esperanças para pacientes com câncer avançado na próstata

Meteoros ‘carregados’ com açúcar podem ter sido fundamentais para o surgimento da vida na Terra
Embora número de beneficiados seja relativamente pequeno, estudo constatou que alguns homens ganharam anos extras de vida. Um amplo estudo clínico para testar um medicamento de imunoterapia mostrou que a droga pode ser eficaz em alguns homens com câncer de próstata avançado.
Os pacientes que participaram da pesquisa tinham parado de responder às principais opções de tratamento.
E o estudo, publicado na revista científica "Journal of Clinical Oncology", mostrou que uma pequena parcela dos participantes permaneceu bem mesmo após o término dos testes, apesar de ter recebido um prognóstico pessimista antes do tratamento.
Na semana passada, foi divulgado que o mesmo medicamento se mostrou eficaz no tratamento de câncer de cabeça e pescoço avançado.
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Sebastião Santos/PMU
O que é imunoterapia?
A imunoterapia usa nosso próprio sistema imunológico para reconhecer e atacar células cancerígenas.
Já é usada como tratamento padrão para alguns tipos de câncer, como melanomas — e está sendo testada também como medicamento para muitas outras formas de câncer.
O tratamento parte da premissa de que o desenvolvimento de um câncer promove uma redução da atividade do sistema imunológico, uma vez que as células tumorais não são reconhecidas por ele e começam a crescer de forma descontrolada.
Para superar isso, pesquisadores descobriram maneiras de reverter o processo, ou seja, de ajudar o sistema imunológico a reconhecer as células tumorais e, ao mesmo tempo, aumentar sua resposta, causando a morte das "invasoras".
O que o estudo descobriu?
A pesquisa mostrou que um em cada 20 homens com câncer de próstata avançado respondeu ao medicamento pembrolizumabe — seus tumores diminuíram ou desapareceram por completo.
Embora o número seja relativamente pequeno, o estudo constatou que alguns pacientes ganharam anos extras de vida.
Outros 19% apresentaram alguma evidência de melhora.
Mas a maioria dos pacientes do estudo viveu em média oito meses usando o medicamento.
O ensaio clínico de fase II, conduzido pelo "Institute of Cancer Research" e pela fundação Royal Marsden, ambos no Reino Unido, contou com a participação de 258 homens com câncer de próstata avançado que não respondiam mais a outras opções de tratamento.
Qual o próximo passo?
As respostas mais satisfatórias foram observadas em pacientes cujos tumores apresentavam mutações nos genes envolvidos na reparação do DNA.
Os pesquisadores estão investigando agora se esse grupo pode se beneficiar mais da imunoterapia em um ensaio clínico mais amplo.
Mas, antes de tudo, será necessário realizar um teste para identificar que pacientes responderão melhor à medicação.
O que os especialistas dizem?
"A imunoterapia apresentou enormes benefícios para alguns pacientes com câncer, e é uma notícia fantástica saber que, até no caso do câncer de próstata, em que não vemos muita atividade imunológica, uma proporção de homens tenha respondido bem ao tratamento", diz o professor Paul Workman, diretor-executivo do Institute of Cancer Research.
"Uma limitação da imunoterapia é que não existe um teste ideal para selecionar aqueles com maior probabilidade de resposta (ao tratamento)."
"É encorajador saber que testes para mutações na reparação do DNA podem identificar pacientes com maior probabilidade de responder (ao tratamento). Estou ansioso para ver como será o estudo mais amplo que vai ser realizado com esse grupo de pacientes", acrescenta.
O professor Johann de Bono, oncologista da fundação Royal Marsden, do sistema de saúde público do Reino Unido (NHS, na sigla em inglês), foi um dos responsáveis ​​pelo estudo.
"Não vemos muita atividade do sistema imunológico em tumores da próstata, por isso muitos oncologistas pensavam que a imunoterapia não funcionaria para esse tipo de câncer", diz Bono.
"Mas nosso estudo mostra que uma pequena proporção de homens com câncer em estágio final responde (à imunoterapia) e, essencialmente, que alguns desses homens se saíram muito bem de fato."
"Descobrimos que homens com mutações nos genes de reparação do DNA respondem especialmente bem à imunoterapia, incluindo dois pacientes meus que agora estão tomando o medicamento há mais de dois anos", completa.
Na semana passada, um outro estudo mostrou que o mesmo medicamento manteve sob controle o câncer de cabeça e pescoço em estágio avançado de alguns pacientes por uma média de dois anos — cinco vezes mais que a quimioterapia.
Ambos os estudos fazem parte de um campo de pesquisa em ascensão que sugere que a imunoterapia pode oferecer esperança a um número cada vez maior de pacientes com câncer.
Especialista alerta sobre importância da prevenção do câncer de próstata
O que é a próstata?
A próstata é uma glândula do tamanho de uma bola de pingue-pongue, localizada dentro da virilha, entre a base do pênis e o reto.
Sua principal função é fornecer o líquido prostático ou seminal que se mistura com o esperma nos testículos, para que os espermatozoides possam sobreviver e serem expulsos durante a ejaculação.
E o câncer de próstata?
O câncer de próstata se desenvolve quando ocorre crescimento e reprodução anormais de células da glândula.
Uma vez que o tumor se desenvolve, se alimenta dos hormônios masculinos.
No Brasil, é o segundo tipo de câncer mais comum entre os homens, segundo o Instituto Nacional de Câncer (Inca) — ficando atrás apenas do câncer de pele não-melanoma.
O número de pessoas diagnosticadas com a doença tem crescido nos últimos anos.
Isso se deve parcialmente ao aumento da expectativa de vida e à evolução dos exames de rotina para diagnosticar o tumor.
Cerca de 30% dos homens com câncer de próstata avançado ou estágio 4 sobrevivem por cinco anos ou mais após o diagnóstico.
Exames de rotina
Ao se aproximar dos 50 anos — ou a partir dos 40, se houver histórico familiar da doença — todos os homens devem começar a fazer exames de rotina para a detecção de câncer de próstata.
De acordo com a Prostate Cancer Foundation, há dois tipos simples e relativamente indolores: o exame retal, em que o médico insere um dedo lubrificado e protegido por uma luva no reto para verificar se a glândula tem um crescimento ou forma irregular; e a coleta de sangue, usada para medir níveis de uma proteína produzida pela próstata — se estiverem elevados, pode ser um sinal de câncer.

‘Voltei a andar 5 anos após fazer uma cirurgia bariátrica’

Meteoros ‘carregados’ com açúcar podem ter sido fundamentais para o surgimento da vida na Terra
Sem conseguir se alimentar e com a deficiência de vitaminas do complexo B, Raquel perdeu o movimento das pernas e chegou a pesar menos de 40 kg. Cinco anos depois do procedimento, começou a dar os primeiros passos: 'Momento mais feliz da vida'. "Foi o momento mais feliz da vida": Raquel voltou a caminhar sozinha 5 anos após passar por uma cirurgia bariátrica
Arquivo pessoal/BBC
Pouco menos de dois anos após fazer uma cirurgia bariátrica, a estudante carioca Raquel Guimarães, então com 22 anos, já tinha perdido mais de 70 kg. Mas o que podia parecer uma história de recuperação bem sucedida, na verdade, era o início de um pesadelo que levou médicos a desenganá-la e a obrigou a reaprender a andar.
Raquel saiu dos seus 120 kg para um quadro de desnutrição grave, com menos de 40 kg. Sem conseguir se alimentar, sofreu deficiência das vitaminas B1 e B12 — e, com isso, perdeu o movimento das pernas, apresentou quadro de confusão mental e até problemas de visão.
O pai da estudante – que àquela altura, em 2016, via a filha sobreviver graças a transfusões de sangue e alimentação por sonda — ouviu dos médicos a pior notícia: que a filha "não teria mais jeito".
Em 2019, cinco anos após o procedimento em um hospital particular na zona oeste do Rio de Janeiro, a jovem voltou a dar os primeiros passos sozinha, compartilhando as conquistas nas redes sociais: "Foi o momento mais feliz da minha vida".
Médico explica a diferença entre os tipos de cirurgia bariátrica
Cirurgia bariátrica: quando é a hora de fazer?
Saiba como é feita a cirurgia de redução do estômago
O procedimento a que Raquel foi submetida é conhecido como bypass gástrico, o tipo de cirurgia bariátrica mais comum no Brasil e que provoca uma grande alteração no sistema digestivo, com a redução do estômago e efeitos sobre os intestinos.
Com problemas para se alimentar no pós-operatório, Raquel acabou desenvolvendo a chamada encefalopatia de Wernicke, provocada pela deficiência grave de vitaminas do complexo B.
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O caso da jovem é considerado raro pela Sociedade Brasileira de Cirurgia Bariátrica e Metabólica (SBCBM). O presidente da organização, o médico Marcos Vilas Bôas, diz que a evolução da paciente é algo totalmente "atípico" e mais raro até do que óbitos decorrentes do procedimento.
No Brasil, foram realizadas em 2018 cerca de 65 mil cirurgias bariátricas, segundo a SBCBM — e mais de 13 milhões de brasileiros são considerados "elegíveis" para o procedimento. O índice de mortalidade, segundo Vilas Bôas, é de cerca de 0,2% dos casos.
Mas o médico alerta para cuidados no pós-operatório. "Hoje a cirurgia é muito segura. Mas é extremamente importante que todos façam um acompanhamento com equipes multidisciplinares, com aconselhamento médico, nutricionistas. E precisam informar imediatamente se sentirem qualquer coisa que não esteja adequada com a recuperação", diz.
'Queria comprar a roupa que eu quisesse'
Para Raquel, que durante anos lutou com a balança, a decisão de realizar a cirurgia aconteceu naturalmente.
"Pagava personal (trainer), ia na academia certinho, ia para o endocrinologista. Quando começava a emagrecer, dava problema no tornozelo e precisava imobilizar. Sem ir à academia, engordava tudo de novo. Poxa, uma jovem de 20 anos, se esforçava tanto, mas o resultado não vinha."
Assim, a mãe de Raquel, a professora Valdinere Guimarães, explica por que o assunto da cirurgia bariátrica chegou à mesa de jantar da casa da família, em Bangu, zona oeste do Rio.
Os casos bem-sucedidos estavam por todos os lados. Na família e na vizinhança, os Guimarães tinham exemplos do bem que o procedimento poderia fazer a Raquel.
"Eu queria comprar não uma roupa que coubesse mim, mas a roupa que eu quisesse vestir", argumentava Raquel. "Por que não fazer, então?", concluiu Valdirene ao apoiar a filha, então com 20 anos e estudante de fisioterapia.
Raquel chegou a pesar menos de 40 kg e passou meses internada no hospital
Arquivo pessoal/BBC
De acordo com a SBCBM, pessoas entre 18 e 65 anos estão em uma faixa etária sem restrições para o procedimento.
Além da perda de peso, a cirurgia é indicada para a remissão de doenças associadas à obesidade, como diabetes e hipertensão, e diminuição do risco de mortalidade. "Muitos não veem a obesidade como uma doença grave, mas é grave", alerta Vilas Bôas.
Com a decisão tomada, a família Guimarães conseguiu os R$ 22 mil necessários para o procedimento particular. Em setembro de 2014, a cirurgia foi feita, sem complicações iniciais. Mas tudo mudou dois meses depois.
"Eu não conseguia comer nada, com vômitos e diarreia. Comecei a ter formigamentos, cãibras, dormência nas pernas. Esquecia das coisas, falava coisas confusas. Os médicos chegaram a dizer que era falta de potássio e que não tinha a ver com cirurgia. Então, voltei para casa", conta Raquel.
Os sintomas que a estudante sentia já eram sinais de que algo não ia bem na recuperação. Faltava a Raquel, segundo os relatos da família e de um médico que a acompanhou o caso consultado pela BBC News Brasil, tiamina (a vitamina B1) e vitamina B12.
A deficiência vitamínica havia evoluído para um caso de encefalopatia de Wernicke, frequentemente causada pela má alimentação ou pelo consumo excessivo de álcool, e para uma polineuropatia, um distúrbio simultâneo de nervos periféricos em todo o organismo que pode ser causado pela falta desses nutrientes.
Em dezembro de 2014, Raquel estava em casa, em pé, quando desabou, sem força nas pernas. Levada ao hospital, foi identificada a falta de vitaminas, segundo a família. A jovem foi internada no CTI para repor os nutrientes, mas recebeu um diagnóstico que assustou: já não voltaria a andar.
"Esse foi o começo da nossa luta", conta Raquel.
Após um mês internada, mas ainda sem andar, a jovem teve alta. Em casa, não conseguia se alimentar. O que comia, vomitava. E chegou a pesar menos de 40kg no momento mais crítico. "Eu olhava para ela e pensava: "minha filha não está viva. Eu estava vendo uma caveira na cama", relata a mãe.
O quadro se agravou para anemia grave e desnutrição. Em dezembro de 2015, Raquel foi novamente internada para receber transfusões de sangue e passou a se alimentar por meio de sonda. Ao pai da estudante, os médicos chegaram a pedir que reunisse a família porque a jovem "não teria mais jeito".
"Eu ouvi uma voz dizer 'vai salvar sua filha'. Eu obedeci e me prometi que faria de tudo para salvá-la", contou a mãe, Valdirene.
Novo pai, nova filha
Foram incontáveis os exames realizados em Raquel para tentar descobrir por que ela não conseguia se alimentar, mesmo mais de um ano após a cirurgia.
A jovem definhava na cama do hospital, ao ponto de não conseguir mais levantar o braço. A mãe dormia todos os dias num sofá, ao lado do leito, vivendo à base de analgésicos para dores causadas por noites mal dormidas.
"Quando vi uma menina tão nova com um quadro daquele, numa cama, vi que algo não batia. Aquela complicação não era normal. Muitos exames foram feitos, a anatomia da cirurgia estava correta. Mas eu resolvi insistir", relata o clínico médico Edward Pinto de Lima Júnior, que até hoje chama Raquel de "filha" e é chamado por ela de "pai".
Contrariando sugestões de outros colegas, que falavam que não havia mais nada a ser feito, o clínico resolveu investigar. As idas ao hospital passaram e ser diárias, e a relação com os Guimarães virou quase familiar. "É algo muito raro de acontecer na profissão, mas eu passei a amar essa menina. Eu apenas não podia perder ela", conta Lima Júnior.
Um exame chamado enterografia mostrou que Raquel havia tido uma resposta de estenose exacerbada — quando ocorre um estreitamento do trato digestivo no momento da cicatrização interna da cirurgia. No caso da jovem, o problema, que é como se fosse a formação de uma "queloide" interna que impedia a passagem de alimentos, estava no intestino delgado.
O estudante compartilha o 'antes e depois' da cirurgia nas redes sociais
Arquivo pessoal/BBC
"A estenose não é fixa, ela vai acontecendo. Os outros exames não identificaram esse problema e, infelizmente, não dá para saber se a estenose não existia na ocasião ou se apenas as imagens não mostraram", explica Lima Júnior. Segundo o presidente da SBCBM, o médico Marcos Vilas Bôas, quando identificada uma estenose, procedimentos simples de dilatação da região costumam resolver o problema.
Para Raquel, o procedimento foi o início de uma nova fase. Ela voltou a se alimentar pela boca, tomar água e, finalmente, iniciou a recuperação. Ganhou peso e voltou a sentir as pernas. ""Eu achava que não ia conseguir, estava exausta. Pensava: 'não vou andar mesmo, não adianta nem fazer fisioterapia'. A virada foi quando comecei a sentir as pernas. Eu pensei: 'espera aí, tem chance sim de eu começar a voltar a andar'", conta.
Apesar de sentir os membros inferiores, Raquel não conseguia mais andar. Sem movimento e sem fisioterapia durante o período de internação no hospital e da recuperação, as pernas ficaram atrofiadas. "Primeiro cuidamos de uma coisa e aí passamos a precisar cuidar de outra", conta Valdirene.
Dos clínicos e nutricionistas, a jovem passou a frequentar mais agora consultórios de ortopedistas. Até que, em setembro de 2017, passou por um procedimento cirúgico para colocar um fixador externo na perna direita. Um ano depois, foi a vez da perna esquerda.
A fisioterapia virou rotina em casa. Movimentos na cama, na piscina, com um andador… Com o tratamento, em julho de 2019, Raquel conseguiu se soltar do apoio e ficar em pé sozinha, pela primeira vez desde o dia em que caiu no meio de casa — quase 5 anos depois de passar pela cirurgia e pelo "martírio" que se seguiu.
"Depois de cinco anos sem abraçar minha filha em pé, eu consegui. Foi a coisa mais emocionante. Eu não queria soltar. Fiquei agarrada com ela, uma sensação maravilhosa", relembra Valdirene.
Um dos primeiros a receber o vídeo com a conquista foi o "pai" Edward Júnior, que recebe até hoje frequentemente mensagens sobre a evolução de sua "filha". "Foi um espetáculo de obstinação, não só dela mas de toda família. Ela ensinou todo mundo, mesmo quando fraquejava."
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Nas redes sociais, Raquel hoje mostra, além de sua recuperação, aquilo que muitos jovens que se submetem ao tipo de procedimento costumam fazer: o "antes e depois". Não só da perda de peso, mas também o antes e depois de "dar ruim", como ela mesma se refere às complicações.
"Parece que eu bebi a noite inteira? Sim… porém, são cinco anos sem saber como é andar, então peguem leve", escreveu num vídeo em que mostra os primeiros passos sozinha.
Aos 25 anos, com 1,72 meto e 58 kg, Raquel prepara um livro de memórias, com o título Caminhando nas Estrelas. Nele, vai relatar o momento do qual poucos podem se lembrar: qual é a sensação de aprender a andar? "Um passo de cada vez e a gente chega lá."

Meteoros ‘carregados’ com açúcar podem ter sido fundamentais para o surgimento da vida na Terra

Meteoros ‘carregados’ com açúcar podem ter sido fundamentais para o surgimento da vida na Terra
Ilustração artística de como teria sido a Terra na época do 'Grande Bombardeio'
Nasa
Mas como é? Sim, é mais ou menos isso, de acordo com pesquisadores da Universidade Tohoku no Japão e da Nasa.
No fim da semana passada, pesquisadores das duas instituições publicaram os resultados de um estudo que afirma ter encontrado um tipo de açúcar essencial para a criação de vida em fragmentos de meteoritos. Os meteoritos foram recolhidos em diversos lugares da Terra e o açúcar em questão é a ribose, um constituinte essencial do ácido ribonucleico, ou RNA.
O RNA é um tipo de ácido nucleico formado por unidades menores chamadas nucleotídeos. Mas o mais importante é que o RNA participa de várias funções biológicas, como a codificação genética e a o reconhecimento de proteínas.
O RNA é uma das macromoléculas essenciais à vida, como é o ácido desoxirribonucleico (DNA), as proteínas, os lipídeos e os carboidratos. O RNA “informa” ao DNA como os organismos devem produzir as proteínas, por exemplo.
Estrutura de uma molécula de ribose e um meteorito estudado
Yoshihiro Furukawa/Arquivo Pessoal
De acordo com Yoshihiro Furukawa, o líder desse estudo, o RNA deve ter sido o responsável pelo surgimento e desenvolvimento inicial da vida na Terra: ele tem uma molécula muito mais simples e que tem a capacidade de se replicar sem a ajuda de outras moléculas, ao contrário do DNA.
Além disso, os açúcares que compõem o DNA ainda não foram encontrados em meteoritos. Ou seja, muito antes da formação da molécula de DNA, já havia condições para a formação da molécula de RNA.
Uma das consequências deste estudo é que a química essencial à vida tem condições de ser processada em asteroides e meteoros ao longo de bilhões de anos. Os asteroides e meteoros, assim como cometas também, poderiam transportar esses ingredientes pelo espaço e ao atingir um planeta com condições favoráveis, fazer com que a vida surja, ou se desenvolva mais rápido.
No início do Sistema Solar, havia muitos objetos como meteoros e asteroides vagando por entre os planetas ainda em formação. Nessa época a Terra passou por um período de intenso bombardeio sendo alvo desses asteroides de diversos tamanhos.
Concepção artística de um asteroide no cinturão de Kuiper, no limite do nosso Sistema Solar
NASA
Por essa época a vida pode ter surgido na Terra, ou mesmo ter sido trazida de fora, mas a frequência e a violência desses impactos impediram que ela florescesse. A isso soma-se o fato de não haver, ainda, uma substância essencial à vida: a água.
A própria água deve ter sido trazida de carona em cometas na época do ‘Grande Bombardeio’, de acordo com as teorias mais aceitas. Assim que a frequência e a violência dos impactos se reduziram, a água pode se condensar formando lagos e oceanos. Com a entrega da ribose através de asteroides, teria sido possível formar RNA numa época pré biótica na Terra e a partir disso a vida pode surgir e evoluir.
Essa é uma questão fundamental da astrobiologia, se a vida surgiu na Terra a partir de elementos disponíveis, digamos, naturalmente, ou surgiu com a contaminação de substâncias vindas de fora.
Ainda vai demorar muito tempo até que se tenha certeza de qual situação deve ter prevalecido, mas ao que tudo indica, tivemos uma ajudinha de um açúcar extraterrestre!
Cientistas anunciam descoberta de água na atmosfera de um planeta fora do sistema solar