Filósofos africanos consideram que a palavra “África” é uma injúria racial, e que continente deveria ser renomeado

Brasil gasta anualmente US$ 3,6 mil por aluno da rede pública; média de países da OCDE passa de US$ 11 mil
Neste texto, pesquisadores da Universidade de Pretória, na África do Sul, discutem a origem da palavra 'África' e defendem uma reflexão sobre a mudança do nome do continente. A essência do projeto de categorização de cores da humanidade era estabelecer a hierarquia racial como parte de uma tentativa de defender o racismo científico e justificar a escravidão, a opressão colonial e a exploração
Jéssica Alves/G1
Os africanos devem ser chamados de negros ou a categorização das pessoas pela cor da pele é uma prática racista? E quanto à África? O nome do continente é uma injúria racial porque foi escolhido pelos exploradores europeus e baseado no clima, e não nas pessoas, e deveria ser renomeado?
Essas são perguntas que o estudioso de filosofia africana Jonathan Okeke Chimakonam considera em sua pesquisa. O The Conversation perguntou o que ele e seu coautor concluíram.
Quem batizou a África e qual o significado do nome?
O nome África foi dado ao continente pelos exploradores, escravagistas e colonizadores europeus que chegaram como comerciantes e exploradores nos anos 1400. Acredita-se que “África” tenha sido tirado do grego aphrike, que significa sem frio; em latim, traduz-se para aprica, que significa ensolarado.
Você sabe como é. Os seres humanos costumam dar nomes a estranhos ou a novos lugares que encontram. Em geral, isso ocorre para que possam identificar essas pessoas ou lugares. Mas a história também mostra que esses “batizados” geralmente não são agradáveis devido ao espírito doentio de competição que naturalmente caracteriza as novas descobertas.
De fato, em muitos casos, os nomes são calúnias destinadas a rebaixar essas pessoas ou lugares. Por exemplo, aprendemos com os relatos de Homero, o antigo poeta grego, que, quando os gregos encontraram pela primeira vez os povos do leste da África, eles os chamaram de aethiops ou Aithiops, que significa rosto queimado pelo sol.
Os antigos judeus se referiam a pessoas de outras nações e crenças como gentios, o que era uma calúnia porque os identificavam como forasteiros. Os antigos chineses se referiam aos povos da Mongólia como bárbaros, e a lista continua.
Às vezes, o insulto não se dirige diretamente às pessoas – por exemplo, quando a cultura e os povos do continente são ignorados na nomeação, como África ou África do Sul. Aphrike se refere ao clima; África do Sul se refere à geografia. O que os dois exemplos têm em comum é o silêncio sobre os habitantes, sua cultura e realizações. Isso implica que a história do lugar começou com o nomeador, como se fosse desabitado antes da chegada dele.
Muamba, bunda, dengo: você usa palavras de línguas africanas sem perceber; faça 'quiz sonoro'
O nome África é uma injúria racial?
A nomenclatura é uma ferramenta que usamos para identificar objetos e dar sentido ao mundo ao nosso redor. Até esse ponto, é uma coisa boa e poderosa. O problema é quando algumas pessoas decidem transformá-la em uma arma, como, por exemplo, usar insultos para desonrar outras pessoas.
A escravidão, o colonialismo e as ideologias racializadas, como o apartheid na África do Sul, continuam sendo algumas das piores armas de utilização de nomes por meio de difamações.
Meu coautor e eu argumentamos em nosso artigo que o nome África é uma injúria racial. Aphrike ou aprica refere-se ao clima quente do continente, talvez em exagero, com a falsa impressão de que o continente é “sem frio”. Se o continente é quente e não tem frio, isso o tornaria o proverbial fogo do inferno, não é mesmo?
Veja o significado de aethiops. Aqui, as pessoas encontradas no continente chamado ensolarado, ou sem frio, tornaram-se pessoas com rostos queimados pelo sol. A dedução é que o sol implacável queimou a pele dos habitantes. Quando algo está queimado ou carbonizado, nós o chamamos de preto.
Alguém se pergunta por que os defensores do racismo científico em algumas universidades europeias nos anos 1700 e 1800, especialmente na Universidade de Göttingen, na Alemanha, decidiram classificar os povos indígenas africanos com a cor preta, os índios americanos com o vermelho, alguns povos asiáticos com o marrom, outros com o amarelo e os europeus com o branco?
Argumentamos que esses são vários níveis de degeneração, com exceção da cor branca, que é intocada, pura e imaculada. Em nossa opinião, identificar um ser humano com qualquer cor é racismo. Identificar-se como branco é desconsiderar os outros como não brancos, o que é racismo indireto, e chamar alguém de qualquer outra cor – como negro – é uma subordinação racial direta.
A essência do projeto de categorização de cores da humanidade era estabelecer a hierarquia racial como parte de uma tentativa de defender o racismo científico e justificar a escravidão, a opressão colonial e a exploração.
O novo 'oceano' que pode estar se abrindo na África e partindo o continente em dois
Vocês defendem que o nome da África seja mudado?
Sim, defendemos. Acreditamos que é uma coisa hedionda um continente inteiro ser chamado por uma calúnia. Muitos países da África, como Zâmbia (Rodésia do Norte), Zimbábue (Rodésia do Sul), Burkina Faso (Alto Volta), Gana (Costa do Ouro), mudaram seus nomes após a independência política porque eram alcunhas que rebaixavam sua cultura e negavam suas realizações como civilizações.
Argumentamos que é isso que o continente também deve fazer. Neste caso, é ainda mais pertinente porque o nome África tem alguns cognatos (nomes que têm a mesma natureza ou origem semelhante) realmente terríveis, como aethiops e black (negro), que são a base da moderna segregação racial antiafricana nos Estados Unidos, do apartheid na África do Sul e da contínua subjugação racial em outras partes do mundo.
Em nosso artigo de pesquisa, propusemos pensar em um nome como Anaesia – derivado de duas palavras Igbo-Africanas, ana e esi, que significam terra ou local de origem – como um substituto para o nome África. Um nome como Anaesia fala aos fatos da história sobre o continente como o primeiro lar de todos os seres humanos e onde a primeira língua humana foi falada.
*Jonathan O. Chimakonam é professor associado do Departamento de Filosofia da Universidade de Pretória.
**Este texto foi publicado originalmente no site da The Conversation Brasil.
Dengo, xingar, moleque…Palavras do nosso dia a dia vieram de línguas africanas

‘Se garante na beleza?’: crianças participam de desafio que explora suas imagens, viola privacidade e pode alimentar pornografia infantil

Brasil gasta anualmente US$ 3,6 mil por aluno da rede pública; média de países da OCDE passa de US$ 11 mil
Em busca de visibilidade, brasileiros de 8 a 13 anos enviam fotos e vídeos para perfis com milhares de seguidores. Páginas repostam os conteúdos e ainda acrescentam áudios de funks com versos maliciosos. 'Se garante na beleza?': perfis repostam fotos de crianças e acrescentam áudios de funk
Ao som do funk “Piranha, safada, brotou pro combate”, um post público no TikTok mostra um vídeo de uma brasileira de 11 anos sorrindo para a câmera. No Instagram, a trilha sonora da foto de outra menina, de 9 anos, é “Então, vem, vem, b*c*ta criminosa. Eu sei que eu sou feio, mas é só [de] fuzil que tu gosta”.
➡️Esse é o resultado da dinâmica do desafio “Se garante na beleza?”, lançado por dezenas de perfis dedicados exclusivamente a isso nas redes sociais. Nos comentários, estão outras crianças e pré-adolescentes implorando para também aparecerem nessas páginas: “Me escolhe, me escolhe!”.
Funciona assim:
Para ter sua foto divulgada, o interessado (em geral, de 8 a 13 anos, com perfil fechado e poucos seguidores) procura uma conta que proponha esse “concurso”.
Em seguida, envia um “oi” por mensagem privada ao administrador da página.
Começa, então, um período de torcida e de ansiedade para ser escolhido.
Se for selecionado, receberá um “oi” como resposta e terá de dizer seu nome e sua idade, responder o “se garante na beleza?” e enviar uma foto ou vídeo de si mesmo.
O diálogo inteiro (com os dados pessoais e a imagem do pré-adolescente) é postado para centenas ou milhares de seguidores, que avaliarão se quem aparece ali é, de fato, "bonito".
Normalmente, quem reposta a imagem dos “escolhidos” ainda acrescenta um áudio de funk com letras maliciosas e palavrões. E há variações: um dos perfis no Instagram pergunta também à criança da foto se ela é… solteira.
Todos os dados tornam-se públicos e ficam disponíveis para qualquer um com acesso à internet.
🚨O que provavelmente esses jovens não imaginam é que as imagens podem parar em sites de pornografia, em redes de pedofilia ou nas mãos de criadores de deepfake — que fazem montagens maliciosas com áudio e vídeo [leia mais sobre os riscos abaixo].
“Procurei a foto mais bonitinha que eu tinha e mandei. A gente quer participar para ver se outras pessoas — ou até famosos — gostam”, relatou ao g1 uma menina de 11 anos que apareceu em uma dessas páginas. "Não ligo para pessoas assim [mal-intencionadas]."
➡️Veja o exemplo abaixo. Uma garota de 12 anos enviou sua foto e recebeu comentários como “super iria, mas tenho vergonha” e “essa tem doze só de preguiça”.
Perfil compartilha dados de criança de 12 anos
Reprodução/Redes sociais
➡️Neste outro perfil, um garoto de 8 anos escolheu uma imagem sua sem camiseta e comemorou que foi selecionado no desafio: “Eu sou o menino do vídeo, gente, obrigado pelos comentários!”. Quais comentários? Um deles era “quando ele crescer, eu pego para mim”; outro dizia “tem cara de gay”.
Imagem do 'Se garante na beleza?' foi borrada pelo g1 para proteger identidade da criança
Reprodução/Redes sociais
🔴O que alegam as plataformas?
O TikTok e o Instagram estabelecem em seus regulamentos que só aceitam contas de pessoas acima de 13 anos.
Ao g1, a Meta, dona do Instagram, afirmou que não permite “contas e conteúdos que explorem ou coloquem crianças em risco. Usamos uma combinação de tecnologia e revisão humana para identificar e remover interações abusivas em nossos serviços, e cooperamos com autoridades locais nesta área."
Já o Tiktok não havia respondido até a mais recente atualização desta reportagem.
🔴Quais os riscos dessa exposição?
Imagens de crianças são divulgadas sem o consentimento dos pais
Reprodução/Redes sociais
Ninguém deveria expor um menor de idade sem o consentimento formal dos pais ou dos responsáveis, explica Humberto Sandman, professor de Sistemas de Informação da ESPM e especialista em cibersegurança.
“As gerações mais novas não ligam tanto para a privacidade, talvez por não terem noção da tragédia que pode acontecer a partir da divulgação das fotos”, diz.
Segundo Sandman, as imagens podem:
ser matéria-prima para atos ilícitos de criminosos na internet;
gerar deepfakes, quando a inteligência artificial combina o rosto da foto com áudios ou imagens de outro contexto, produzindo uma cena falsa;
virar posts de sites ou fóruns de pornografia;
circular entre redes de pedofilia;
servir como meme em redes sociais;
gerar comentários depreciativos.
“Esse ‘desafio’ pode difamar crianças que não fazem ideia de para onde estão indo suas fotos”, afirma o professor.
🔴Mas por que o ‘se garante na beleza?’ cresceu tanto?
Desafio 'Se garante na beleza?' expõe fotos de crianças e pré-adolescentes
Reprodução/Redes sociais
A pesquisadora Andréa Jotta, especialista da PUC-SP em comportamentos relacionados à saúde mental no uso de tecnologias, explica que a autoestima das crianças e dos pré-adolescentes está cada vez mais associada às redes sociais: quantos comentários elogiosos eles vão receber? Quantos seguidores ganharão se aparecerem em um perfil de maior alcance?
“Esse é o valor que está sendo incutido nos jovens. Sem perceber, os pais acabam contribuindo para isso desde cedo, postando fotos e vídeos dos filhos o tempo inteiro. As crianças crescem codependentes da internet e dos ‘likes’”, diz.
O que pode ter começado como uma brincadeira de escola tomou proporções maiores e gerou dezenas de perfis de “se garante na beleza?”. Por quê? Segundo a pesquisadora, o desafio envolve justamente necessidades que costumam acometer os pré-adolescentes: de se reafirmar, de fazer parte de um grupo e de mostrar aos outros que “foi escolhido”.
“A gente não tem como mensurar as consequências disso. Quem disse que os donos das páginas são mesmo crianças [como afirmam as descrições dos perfis], e não pedófilos? Para cada foto postada ali, outras 1.000 não foram escolhidas. O que foi feito com elas?”, questiona Jotta.
'Fui colocada em deepfake pornô pelo meu melhor amigo'
O que é deepfake e como ele é usado para distorcer realidade
🔴Como evitar que seu filho participe do desafio?
Crianças imploram para serem escolhidas no desafio
Reprodução/Redes sociais
De acordo com os especialistas ouvidos pelo g1, o primeiro passo é respeitar a norma de que crianças com menos de 13 anos não usem redes sociais.
É claro que haverá um risco de elas criarem um perfil sem os pais ou responsáveis saberem. Entra aí a importância da supervisão: já que é quase inevitável que seu filho não tenha contato com telas, você precisa estar sempre por perto nesses momentos. Qual jogo ele baixou no celular? A que vídeos assiste no Youtube? Costuma abrir o TikTok e o Instagram, mesmo que logado na conta de um adulto?
“O pessoal não percebe que a internet é a nossa ágora, a praça que está ali na frente de casa. Abandonar uma criança em frente à tela de forma desnecessária é deixá-la aberta a qualquer coisa do mundo. Por mais que você diga que não tem tempo [para supervisionar], será o responsável pelo que acontecer com seu filho”, explica Sandman.
O recomendado, segundo o especialista em cibersegurança, é ter uma conversa sincera em família, “explicando que a internet é, sim, uma ótima ferramenta em muitos sentidos”, mas que “o mundo também tem pessoas com más intenções”.
E o debate não precisa ficar só em casa: as escolas devem trazer à tona assuntos de segurança digital e privacidade em atividades com os alunos.
"Essas modinhas costumam se disseminar exatamente no âmbito escolar. Todos precisam estar envolvidos na prevenção", diz Andréa Jotta.
Outros vídeos

Em campanha salarial, professores das universidades estaduais da Bahia voltam a paralisar atividades nesta quarta-feira

Os professores das Universidades Estaduais da Bahia (Uebas) voltaram a paralisar as atividades nesta quarta-feira (11) após não entrarem em acordo com o Governo do Estado sobre a proposta de recomposição salarial.
Não terão aula nesta quarta-feira na: Universidade Estadual da Bahia (Uneb), Universidade Estadual de Feira de Santana (Uefs), Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia (Uesb) e Universidade Estadual de Santa Cruz (Uesc).
Também em forma de protesto, um ato unificado é realizado no Campus I da Universidade do Estado da Bahia (Uneb) desde 6h30, no bairro do Cabula.
Segundo a Associação dos Docentes da Uneb (Aduneb), a negociação sobre o reajuste está no quarto ciclo de discussão e, durante a paralisação, a partir das 15h, ocorrerá uma nova reunião do Fórum das Associações Docentes (FAD) com a Secretaria de Educação (SEC).
Também está previsto no calendário de mobilização do movimento docente a realização de assembleias no dia 16 de setembro para a discussão sobre deflagração de greve.
Histórico do impasse
Em abril deste ano, as associações docentes começaram a negociar com o governo um plano de recomposição salarial.
De acordo com o sindicato da categoria, o governo só cedeu à mesa de negociação após a decisão das assembleias docentes pelo indicativo de greve, aprovado em junho.
A Aduneb informou que a proposta de reajuste salarial do movimento docente é de três reajustes de 5,7%, nos meses de janeiro de 2025 e 2026, além de dezembro do ano que vem, respectivamente, totalizando 17,42% em dois anos (2025 e 2026), com data-base em janeiro.
Em nota, o Governo da Bahia informou que mantém permanentemente reuniões com as representações das universidades estaduais e continua aberto ao processo diálogo com a categoria.
De acordo com o governo, por "entender a importância do fortalecimento do ensino superior público, o governo do estado vem continuamente investindo nas universidades estaduais, com destaque para valorização de seus docentes e técnicos".
Em 2023, conforme o governo do estado, mais de 500 professores das quatro universidades públicas estaduais (Uefs, Uneb, Uesc e Uesb) foram contemplados com promoções, graças a uma revisão no quadro de vagas da carreira que permitirá a ampliação do fluxo.
Segundo o governo, os ganhos médios variam de 7,83% a 9,69%. Os docentes universitários também tiveram um reajuste complementar de 2,53% e com acréscimos de 0,73% a 2,52%, em função da recomposição dos interstícios (variações percentuais) entre as classes da carreira do magistério superior.
Já os professores do magistério superior foram contemplados, ainda, com a conversão da licença-prêmio em vantagem financeira (pecúnia). Além disso, como todas as carreiras da administração direta e indireta, eles tiveram o reajuste linear de 4%, retroativo a fevereiro de 2023.
Os técnicos e analistas universitários também receberam, além do reajuste de 4%, o acréscimo de 2,53%, bem como tiveram garantido, através do conjunto de projetos de lei aprovado pela Assembleia Legislativa da Bahia (Alba), o novo quadro de vagas.
Reportagem em atualização

Câmara aprova projeto que obriga escolas a instalarem ‘botão do pânico’ para acionar autoridades

Projeto prevê treinamento dos funcionários para acionamento do botão e destina recursos do Fundo Nacional de Segurança Pública para as adaptações. A Câmara dos Deputados aprovou nesta terça-feira (10) projeto que obriga escolas a instalarem um "botão do pânico", dispositivo que pode ser acionado emergencialmente para contatar autoridades diante de situação de violência em escolas. O projeto segue agora para o Senado.
O projeto também estabelece que as escolas devem oferecer treinamento aos seus funcionários para que saibam acionar corretamente o dispositivo, além de conduta adequada para lidar com situações de violência.
Desafios Municipais: mais da metade das escolas brasileiras não tem laboratórios
O projeto também estipula que, ao menos, 2% dos recursos do Fundo Nacional de Segurança Pública (FNSP) para essas adaptações que buscam coibir a violência nas escolas.
A Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) coloca o Brasil entre os de índices mais altos do mundo no ranking das agressões contra professores — índice que tem se mantido estável nos últimos anos.

Brasil gasta anualmente US$ 3,6 mil por aluno da rede pública; média de países da OCDE passa de US$ 11 mil

Brasil gasta anualmente US$ 3,6 mil por aluno da rede pública; média de países da OCDE passa de US$ 11 mil
Levantamento 'Education at a Glance' compara índices educacionais de países que são referência em desenvolvimento humano, como Luxemburgo, Suíça e Noruega. Brasil não integra o grupo, mas participa do estudo como parceiro. Gastos por aluno no Brasil são inferiores aos da OCDE
Wilson Dias/Agência Brasil
Quanto o governo investe, por ano, em cada aluno da rede pública na educação básica e nas universidades? No Brasil, a média é de US$ 3.668 (cerca de R$ 20,5 mil). Já entre os países da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), que são referência em desenvolvimento humano, o patamar é mais do que o triplo disso: US$ 11.914 (R$ 66,5 mil).
É o que indica o relatório "Education at a Glance 2024", divulgado nesta terça-feira (10) para trazer as atualizações dos indicadores internacionais ligados à educação.
No topo do ranking, está Luxemburgo, que gasta mais de US$ 25 mil por aluno (R$ 139,5 mil), seguido por Suíça e Noruega.
Na lista de 40 países, o Brasil ficou à frente (por muito pouco) apenas da Romênia, da Turquia, da África do Sul, do México e do Peru.
Veja outros destaques:
💰Gastos com educação vêm caindo a cada ano (2016 a 2022)
Entre 2015 e 2021, durante os governos de Dilma Roussef (até agosto de 2016), Michel Temer (2016 -2018) e Jair Bolsonaro (2019 – 2022), o Brasil apresentou uma queda de 2,5% ao ano nos gastos com educação.
Na OCDE, a tendência foi oposta, com aumento anual de 2,1%, mesmo com todo o impacto econômico da pandemia.
Observação: Apesar de os gastos por estudante estarem muito abaixo dos registrados pelos demais países, houve uma melhora significativa nos investimentos relacionados à primeira infância: de 2015 a 2015, o Brasil teve um aumento de 29% no valor dedicado a cada aluno de 0 a 3 anos. Essa etapa da educação é vista por especialistas como fundamental para a redução das desigualdades sociais e econômicas.
🤷‍♀️Geração 'nem-nem' encolheu
Considerando os jovens de 18 a 24 anos no Brasil, a parcela dos que não trabalham nem estudam caiu de 29,4% (2016) para 24% (2023). Entre os países da OCDE, a redução foi de 15,8% para 13,8%.
É importante lembrar que não necessariamente são pessoas que "passam o dia olhando para o teto, mexendo em redes sociais" — entram na conta aqueles que trabalham informalmente, sem registro profissional, ou que precisam abandonar os estudos para cuidar dos irmãos mais novos.
🧑‍🎓Quem não tem formação superior é prejudicado na carreira
Segundo o relatório "Education at a Glance", os adultos de 25 a 34 anos que não têm ensino superior acabam enfrentando condições piores no mercado de trabalho:
No Brasil, 36% dos jovens sem diploma técnico ou universitário estão desempregados (na OCDE, são 25%).
Os salários de quem não tem qualificação também são mais baixos: entre os brasileiros de 25 a 64 anos que não terminaram o ensino médio, 59% ganham menos do que a média da população.
Os impactos negativos são mais sentidos entre as mulheres. Entre as brasileiras que não concluíram a educação básica, apenas 44% estão empregadas. Já entre os os homens, o patamar chega a 80%.
Em geral, entre os parceiros e membros da OCDE, mulheres que cursaram o ensino superior recebem salários menores do que homens que ocupam exatamente a mesma função que elas. No Brasil, elas ganham o equivalente a 75% do valor pago a eles (nas outras nações do grupo, a média é de 83%).
📚 O que é o relatório 'Education at a Glance 2023'?
Divulgado anualmente pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), o relatório “Education at a Glance” reúne e compara os principais indicadores internacionais ligados à educação.
Os números mostram a realidade de quase 50 países, incluindo membros da OCDE e parceiros (como o Brasil).
Os dados são fornecidos pelos próprios países.
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