Primeira fase do vestibular do ITA é realizada neste domingo (13); prova será aplicada em diversas cidades do país

Sem celular na escola: alunos citam ‘crises de abstinência’, melhora nas notas e mais socialização; ‘como a saída de um vício’, diz professora
Mais de 9,7 mil pessoas se inscreveram para disputar as 180 vagas disponíveis. Primeira fase do vestibular do ITA é realizada neste domingo (8).
Divulgação/ITA
Um dos vestibulares mais concorridos do país, a primeira fase do vestibular do Instituto de Tecnologia Aeronáutica (ITA) será realizada neste domingo (13). A prova começa às 13h (horário de Brasília), em várias cidades do país. Mais de 9,7 mil candidatos estão inscritos para as 180 vagas disponíveis.
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A prova da primeira fase é realizada em um único dia, com 48 questões de múltipla escolha de matemática, física, química e inglês.
Além de São José dos Campos, onde 970 candidatos se inscreveram, as provas acontecem em pelo menos outras 24 cidades brasileiras, sendo 19 capitais.
A segunda fase, com questões dissertativas, acontece do dia 5 ao dia 8 de novembro, sendo cada dia para as seguintes disciplinas respectivamente: matemática, química, física e português.
O ITA oferece oito especialidades de engenharia: Engenharia Aeronáutica, Engenharia Eletrônica, Engenharia Mecânica-Aeronáutica, Engenharia Civil-Aeronáutica, Engenharia de Computação, Engenharia Aeroespacial, Engenharia de Energia e Engenharia de Sistemas.
Foram 9.781 inscritos, sendo 7.598 candidatos do sexo masculino e 2.183 do sexo feminino. Desse total, 1.824 são "treineiros".
A divulgação da relação dos candidatos classificados para a segunda fase deve ser divulgada no dia 28 de outubro.
Ao todo, são 140 vagas voltadas para candidatos que queiram atuar como civis e 40 voltadas à carreira militar. Em ambos os casos, 20% das vagas são reservadas para candidatos negros.
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‘Você sacrificaria 1 pessoa para salvar 5?’: como decidimos dilemas morais

Sem celular na escola: alunos citam ‘crises de abstinência’, melhora nas notas e mais socialização; ‘como a saída de um vício’, diz professora
Os dilemas morais apresentam situações hipotéticas diante das quais devemos agir. O fato de estarem em nosso idioma nativo ou em um segundo idioma pode influenciar o tipo de resposta que damos.
GETTY IMAGES via BBC
Você sacrificaria uma pessoa para salvar cinco? Esta é a pergunta do clássico dilema do bonde, no qual um trem desgovernado segue em direção a cinco pessoas que estão trabalhando nos trilhos.
Foi demonstrado que diferentes características dos dilemas morais levam a respostas diferentes.
Uma resposta que é aceitável para muita gente é puxar uma alavanca para desviar o trem para outro trilho, onde há apenas uma pessoa trabalhando.
Isso é o que se chama de resposta utilitarista, porque se baseia no menor mal. Aceitamos a morte de um trabalhador para evitar a morte de cinco.
O dilema do bonde tem outra versão, na qual as opções são deixar o trem seguir seu curso e atropelar as cinco pessoas que estão trabalhando nos trilhos, ou empurrar uma única pessoa nos trilhos para que o trem descarrile antes.
Esta segunda opção envolve uma atuação mais pessoal do que puxar uma alavanca, portanto, esta versão do dilema costuma levar a uma resposta deontológica: a maioria das pessoas decide não fazer nada e deixar o vagão seguir seu curso.
Como são duas abordagens éticas diferentes, não há de fato uma resposta certa.
A resposta depende da avaliação individual de custo-benefício.
Por exemplo, as pessoas religiosas tendem a dar uma resposta deontológica, talvez porque causar danos voluntariamente seja mais oneroso do que permitir que "seja o que Deus quiser".
Em algumas variações do dilema, também pode ser que a pessoa sozinha no trilho seja um ente querido, e aí a avaliação de custo-benefício também muda.
O que você faria?
GETTY IMAGES via BBC
As características de cada pessoa também influenciam nestas decisões.
Por exemplo, descobriu-se que as pessoas bilíngues respondem de maneira diferente, dependendo se usam sua primeira ou segunda língua quando confrontadas com um dilema moral.
Se o dilema for apresentado na sua língua materna, elas tendem a dar uma resposta deontológica.
Por outro lado, na sua segunda língua, tendem a responder de forma utilitarista.
Efeito da segunda língua
Este "efeito da língua estrangeira" acontece mesmo quando as pessoas aprenderam o segundo idioma quando eram muito jovens.
Também ocorre em línguas aparentadas, como italiano e veneziano.
Nosso grupo de pesquisa realizou um estudo para esclarecer se isso também acontecia com outro par de línguas românicas. Especificamente, em pessoas bilíngues de catalão-castelhano.
Todos os participantes do nosso estudo consideravam que a sua língua materna (L1) era o catalão — e que possuíam uma segunda língua que, embora aprendida desde cedo, não era nativa (L2, castelhano).
Assim, apresentamos aos participantes uma série de dilemas morais semelhantes ao famoso dilema do bonde.
Como vimos, com base em diferentes fatores (como o envolvimento pessoal), o mesmo dilema pode ter diferentes versões.
Então, diferentes versões de um dilema poderiam ser apresentadas em cada idioma.
Surpreendentemente, não encontramos uma diferença significativa nas decisões morais tomadas em catalão em comparação com as tomadas em castelhano.
Nossas descobertas sugerem que os bilíngues de catalão-castelhano não apresentam o efeito da segunda língua.
As pessoas bilíngues podem responder de maneira diferente, dependendo se usam a primeira ou a segunda língua, quando enfrentam um dilema moral.
GETTY IMAGES via BBC
Traços de personalidade psicopática
Existe a hipótese de que nos distanciamos mais emocionalmente em uma segunda língua.
É possível que isso tenha a ver com a habilidade ou competência específica nesta segunda língua, mas no nosso estudo não fica claro.
Embora os participantes tenham aprendido cedo a segunda língua e fossem altamente proficientes em ambos os idiomas, havia diferenças significativas entre a proficiência linguística da segunda língua em comparação com a língua materna.
Então, que outras variáveis podem estar envolvidas em um maior distanciamento emocional?
Nosso estudo analisou a influência dos traços de personalidade psicopática nas decisões morais. Foram avaliadas a ousadia, a desinibição e a malevolência.
Estes traços de personalidade estão presentes em todas as pessoas, sem necessariamente serem consideradas psicopatas.
Por exemplo, quem nunca furou a fila do supermercado ou insultou alguém, não é mesmo? Esta falta de empatia, quando damos mais importância ao nosso tempo ou ferimos alguém, mesmo que seja verbalmente, tem a ver com a malevolência.
Pessoas com mais traços psicopáticos são mais propensas a tomar decisões utilitaristas.
GETTY IMAGES via BBC
Neste sentido, nosso estudo mostra que a malevolência está significativamente associada a uma maior proporção de decisões utilitaristas, independentemente do idioma em que o dilema é apresentado.
Isso está alinhado com estudos anteriores que sugerem que pessoas com traços psicopáticos mais elevados são mais propensas a tomar decisões utilitaristas, priorizando o bem maior em detrimento do dano individual.
Variáveis dos dilemas
Além disso, nosso estudo analisou como as diferenças entre os dilemas poderiam determinar diferentes decisões morais.
Por exemplo, os dilemas podem ser percebidos como mais ou menos plausíveis, ou mais ou menos perturbadores para o leitor. Assim, dilemas mais inquietantes, percebidos como mais vívidos e realistas, tinham mais chance de levar a respostas utilitaristas.
Este foi particularmente o caso em pessoas com pontuações mais altas de malevolência.
Outros resultados do nosso estudo enfatizam a importância de considerar o envolvimento pessoal, que já discutimos, mas também outras características dos dilemas.
Por exemplo, dilemas formulados de maneira que o protagonista se salve com a ação (benefício próprio) obtêm uma porcentagem maior de respostas utilitaristas.
Também acontece quando a pessoa lesada iria morrer de qualquer maneira (morte inevitável).
Todos estes resultados estão em consonância com estudos anteriores realizados com este tipo de dilema validado em vários idiomas.
Importância do contexto
A ausência do efeito da segunda língua em pessoas bilíngues de catalão-castelhano desde cedo pode ser atribuída à forte relação linguística e cultural entre o catalão e o castelhano.
Ambas são línguas românicas utilizadas de forma intercambiável na maioria dos contextos sociais e educacionais da ilha de Maiorca.
Será que esta riqueza linguística "protege" a população de Maiorca do efeito da segunda língua? É uma hipótese a ser testada em pesquisas futuras.
Por enquanto, nosso estudo oferece novos dados sobre os fatores que influenciam a tomada de decisões morais.
Ele destaca o papel dos traços de personalidade, como a malevolência, na resposta aos dilemas morais. Também lembra o papel da linguagem e dos fatores inerentes ao dilema ou percebidos pelo leitor.
Embora talvez não tenhamos plena consciência disso, nossa resposta aos dilemas morais depende não apenas do nosso raciocínio, mas também das nossas emoções, da nossa linguagem e da nossa personalidade.
Saber disso pode não nos levar a tomar decisões melhores, porque não há uma decisão mais correta do que outras, mas pode nos ajudar a entender nossas respostas.
*Albert Flexas Oliver, Daniel Adrover Roig, Eva Aguilar Mediavilla e Raúl López-Penadés são professores de psicologia na Universidade das Ilhas Baleares, na Espanha.
Este artigo foi publicado originalmente no site de notícias acadêmicas The Conversation e republicado aqui sob uma licença Creative Commons. Leia aqui a versão original (em espanhol).
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O que os nudes falsos em Itararé ensinam sobre o aumento de casos de deepfakes pornográficos em escolas

Sem celular na escola: alunos citam ‘crises de abstinência’, melhora nas notas e mais socialização; ‘como a saída de um vício’, diz professora
Pelo menos 40 pessoas, entre elas, 36 menores de 18 anos, foram vítimas de montagens pornográficas na cidade do interior de São Paulo. Casos semelhantes ocorreram em Maceió, Salvador e Cuiabá. Estudantes têm usado ferramentas de inteligência artificial para criar falsos nudes de colegas e professores. Na imagem, uma mão segura um celular com tela branca.
Freepik
O uso de ferramentas de inteligência artificial, as famosas IAs, para a criação de montagens pornográficas de menores está se tornado cada vez mais comum, inclusive no ambiente escolar.
Em caso recente, ocorrido em Itararé, no interior de São Paulo, dezenas de jovens e adolescentes tiveram seus rostos colocados em nudes digitais que passaram a ser compartilhados por estudantes de uma escola estadual por meio das redes sociais.
O g1 apurou que 36 adolescentes de 13 a 17 anos, e outras quatro pessoas maiores de 18 anos (incluindo uma professora) foram vítimas das montagens. As investigações continuam e o número de vítimas ainda pode aumentar. Oito jovens, todos menores, estão sendo investigados por envolvimento na criação e compartilhamento das imagens.
Casos parecidos foram registrados neste ano e no ano passado em Cuiabá, em Salvador, em Maceió e no Rio de Janeiro. Em todos os casos, os investigados por fazer e distribuir as montagens eram adolescentes que frequentavam a mesma escola que as vítimas.
De acordo com o artigo 241-C do Estatuto da Criança e do Adolescente, é crime “simular a participação de criança ou adolescente em cena de sexo explícito ou pornográfica por meio de adulteração, montagem ou modificação de fotografia, vídeo ou qualquer outra forma de representação visual”.
Este tipo de exposição pode causar às vítimas depressão, baixa autoestima, ansiedade, agressividade, medo e outros sentimentos negativos. Por isso, mesmo havendo previsão legal para o crime, muitos pais se preocupam e questionam sobre a maneira correta de proteger os filhos e evitar que sejam vítimas deste tipo de montagem.
Abaixo, confira as principais informações sobre como agir em casos de deepfakes pornográficos, e saiba como proteger os adolescentes.
Como as montagens são feitas
De acordo com as mães de duas das vítimas das montagens de Itararé, que não quiseram se identificar para proteger a identidade das filhas, as montagens foram feitas a partir de fotos publicadas pelas menores nas redes sociais. As vítimas têm 13 e 15 anos.
As imagens originais, que não expunham os corpos das adolescentes, foram baixadas das redes sociais e colocadas em um software de inteligência artificial que gera corpos a partir do rosto.
O que diz a lei
O ECA determina pena de um a três anos de reclusão, e multa, para quem cria, vende, expõe à venda, disponibiliza, distribui, publica ou divulga por qualquer meio, adquire, possui ou armazena montagens pornográficas de menores.
A Constituição Federal diz que "são invioláveis a intimidade, a vida privada, a honra e a imagem das pessoas, assegurado o direito a indenização pelo dano material ou moral decorrente de sua violação".
O Código Penal prevê a responsabilização para maiores de 18 anos por crimes contra a honra, incluindo calúnia, difamação e injúria. Danos morais e pornografia infantil também são crimes previstos e aplicáveis para casos como estes.
Se os responsáveis forem menores de idade, eles não podem responder criminalmente, mas podem sofrer medidas socioeducativas. Neste caso, a pena pode variar de advertência à internação em estabelecimento educacional, o que seria uma versão para menores da reclusão aplicada a adultos.
A pena pode variar de caso a caso e deve ser estabelecida em juízo. Para isso, os responsáveis pelas vítimas ou representantes da escola (caso haja envolvimento direto — entenda mais abaixo) devem registrar o boletim de ocorrência na delegacia ou fazer uma denúncia no Ministério Público.
Além disso, segundo o advogado especializado em direito educacional Fabiano Ferreira, os pais dos infratores menores de idade também podem ser responsabilizados legalmente pela ação dos filhos.
“A família pode pleitear reparação por danos morais sofridos pela vítima. A depender do caso, a ação pode ser movida contra o Estado e, eventualmente, contra o gestor da escola que não tenha promovido os devidos encaminhamentos legais, e contra os responsáveis pelas montagens, representados pelos pais caso sejam menores de idade”, explica o especialista.
Papel da escola
E qual a responsabilidade da escola em casos de montagens pornográficas de menores que ocorram nas suas dependências? Segundo especialistas, a instituição pode ter tanto um envolvimento direto, cabendo responsabilização legal, quanto ter um envolvimento indireto.
O envolvimento direto acontece quando a manipulação das imagens acontece dentro das dependências da escola e/ou com utilização de equipamentos escolares.
O envolvimento indireto acontece quando a escola não é um fator decisivo para a produção e/ou distribuição das imagens.
Fachada da Escola Estadual Dr. Epaminondas Ferreira Lobo, em Itararé (SP), onde ocorreu caso de deepfake pornográfico.
Reprodução/Google Street View
Segundo Ana Paula Siqueira, advogada, doutoranda em cyberbullying e presidente da Associação SOS Bullying, em ambos os casos, é de responsabilidade da escola:
Assegurar um ambiente escolar seguro e acolhedor, livre de agressões físicas, psicológicas ou virtuais, como a criação e disseminação de montagens.
Incluir toda a comunidade escolar na solução do problema, envolvendo pais, alunos, professores e funcionários para uma resposta coordenada.
Apurar os fatos de maneira cuidadosa e documentada, preservando provas e estabelecendo a responsabilidade dos envolvidos – medidas de compliance escolar documentadas
Oferecer suporte jurídico, social e pedagógico tanto para a vítima quanto para os envolvidos na criação ou distribuição das montagens. Isso inclui orientação jurídica sobre os direitos e responsabilidades, assistência social para apoiar emocionalmente a vítima e suas famílias, além de suporte pedagógico para a reintegração e aprendizado.
Aplicar sanções disciplinares adequadas de acordo com o regimento interno da escola, que podem variar desde advertências até a suspensão ou expulsão dos responsáveis.
Garantir acompanhamento psicológico à vítima para lidar com o impacto emocional da agressão, promovendo a recuperação e o bem-estar no ambiente escolar.
Caso haja envolvimento direto da instituição de ensino, também é dever da gestão escolar informar as autoridades policiais e tutelares, e os pais e responsáveis dos envolvidos, sobre o caso.
Papel dos pais das vítimas
Os pais e responsáveis de vítimas menores de idade devem agir rapidamente para proteger os filhos, e buscar responsabilização dos envolvidos, segundo Ana Paula Siqueira. As recomendações são:
Registrar um boletim de ocorrência: Diante de qualquer agressão virtual, os pais devem ir a uma delegacia, preferencialmente especializada em crimes cibernéticos ou contra crianças e adolescentes, para formalizar a denúncia.
Procurar suporte jurídico: Consultar um advogado especializado em direito digital, bullying e crimes contra menores é essencial para buscar medidas legais contra os responsáveis, seja por danos morais ou difamação, e para assegurar que os envolvidos respondam judicialmente.
Procurar apoio psicológico para a vítima: É crucial que a criança ou adolescente tenha acompanhamento psicológico para enfrentar os impactos emocionais do bullying, minimizando os danos e auxiliando na recuperação da autoestima e bem-estar.
Monitorar a resposta da escola e as ações judiciais: Os pais devem acompanhar de perto tanto a resposta da escola quanto os desdobramentos das ações judiciais, garantindo que todas as medidas necessárias sejam tomadas para proteger a criança e punir os responsáveis.
Papel dos pais dos responsáveis
Os pais ou responsáveis legais dos menores que se envolvem em atos de criação ou distribuição de montagens pornográficas ou qualquer tipo de bullying digital devem agir de forma rápida e responsável para minimizar as consequências jurídicas e sociais.
Entre as medidas que devem ser tomadas por eles, estão:
1. Assumir a responsabilidade e procurar orientação jurídica
"Os pais precisam entender que são civil e criminalmente responsáveis pelos atos de seus filhos menores de idade, conforme o artigo 932 do Código Civil, que estipula que os responsáveis devem responder pelos atos ilícitos praticados por seus filhos. A primeira medida é buscar orientação jurídica com um advogado especializado em direito digital ou crimes contra menores, para entender as implicações legais do caso e como proceder adequadamente. Isso é especialmente importante, pois os atos podem configurar infrações graves, como difamação e crimes de pornografia infantil, conforme o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA)."
2. Colaborar com as investigações
"Os pais devem colaborar com a escola e com as autoridades na apuração dos fatos. Isso envolve fornecer as informações necessárias para a investigação, permitindo o acesso ao celular ou ao dispositivo eletrônico do menor, para que se verifique a origem das montagens ou conteúdo disseminado. A colaboração pode ser um fator positivo na avaliação do comportamento dos pais e dos menores envolvidos."
3. Supervisionar e controlar o uso de dispositivos eletrônicos
"Os pais devem adotar medidas mais rígidas de supervisão e controle sobre o uso de celulares e dispositivos eletrônicos pelos filhos. De acordo com o artigo 241-B do ECA, o armazenamento de conteúdo pornográfico envolvendo crianças e adolescentes é crime, e os pais podem ser responsabilizados criminalmente se forem negligentes ao monitorar o que está sendo armazenado ou compartilhado pelos filhos. Se houver conteúdo ilícito no dispositivo de um menor, os responsáveis pela linha telefônica ou pelo equipamento podem ser incriminados."
4. Oferecer suporte psicológico ao menor
"É essencial que os pais ofereçam suporte psicológico ao menor, tanto para lidar com o impacto emocional que possa resultar de sua participação nos atos quanto para conscientizá-lo sobre as consequências de seus comportamentos. Isso ajuda na reeducação e na prevenção de futuros incidentes."
5. Buscar reparação de danos e promover o diálogo
"Além de lidar com as responsabilidades legais, os pais devem promover o diálogo com a família da vítima, buscando formas de reparar os danos causados. A promoção de um acordo pode, em muitos casos, ajudar a reduzir o impacto emocional e evitar que a situação se agrave judicialmente."
A relação entre bullying e suicídio
Como proteger a privacidade do menor na internet
Atualmente, redes sociais como Instagram, Facebook e TikTok permitem a criação de contas para usuários a partir dos 13 anos de idade.
O Instagram, uma das plataformas mais populares entre os adolescentes, disponibiliza uma série de configurações que podem ser ativadas pelos pais para um maior controle na conta dos jovens, e promete que, a partir de 2025, os pais terão um controle maior em contas de usuários de até 16 anos.
Por enquanto, já existem algumas medidas que podem ser tomadas para limitar a exposição da imagem de crianças e adolescentes nas redes sociais, e controlar quem tem acesso às publicações.
O Centro de Estudos, Resposta e Tratamento de Incidentes de Segurança no Brasil (CERT.br) tem uma cartilha com dicas para proteger a privacidade na internet. As principais recomendações são:
📱 Ajuste as configurações de segurança e privacidade: redes sociais costumam ter recursos para controlar quem poderá ver as postagens da conta;
👀 Controle quem poderá seguir a conta: para evitar uma exposição muito grande do que é compartilhado, verifique a identidade da pessoa que pediu para seguir a conta e evite aceitar desconhecidos;
🖼️ Cuidado também fora das redes: apague fotos e vídeos particulares caso seu celular seja usado por terceiros ou proteja os arquivos em pastas com senha.
👥 Respeite o espaço alheio: evite gravar vídeos que possam expor terceiros e peça autorização para postar imagens em que outras pessoas apareçam.
Além disso, é importante que os pais estejam atentos à relação dos jovens com as plataformas digitais, sejam ativos no processo de educação sobre o que podem ou não fazer nestes ambientes, e estimulem o pensamento crítico sobre da proteção da própria imagem e do respeito à imagem do próximo.
O que diz o MEC
Procurado, o Ministério da Educação (MEC) declarou que "vem trabalhando e promovendo ações voltadas ao enfrentamento de violências" como a criação de deepfakes pornográficas em ambiente escolar.
A pasta também listou uma série de ações que adotou para este fim. Dentre elas:
Estratégia Nacional de Escolas Conectadas, que, além de contribuir para a inclusão digital de estudantes de todo o país, tem como objetivo garantir um ambiente mais seguro nas escolas, e promover uma educação digital voltada à cidadania digital;
Publicação de recomendações para as secretarias de educação e escolas, sobre a aplicação de filtros de segurança de rede como parte importante de soluções Wi-Fi nas escolas;
Apoio à formação específica de professores, por meio da publicação Referencial de Saberes Digitais Docentes, que orienta, entre outras coisas, sobre cidadania digital para o uso responsável, seguro e crítico das tecnologias digitais;
Orientação em favor da implementação da educação digital nas escolas, como competência da Base Nacional Comum Curricular (BNCC), para “Compreender, utilizar e criar tecnologias digitais de informação e comunicação de forma crítica, significativa, reflexiva e ética nas diversas práticas sociais (incluindo as escolares).
VÍDEOS DE EDUCAÇÃO

‘Não ensinam isso na escola’: como jovens da periferia apostam nas ‘soft skills’ para impulsionar carreira

Sem celular na escola: alunos citam ‘crises de abstinência’, melhora nas notas e mais socialização; ‘como a saída de um vício’, diz professora
A BBC News Brasil ouviu especialistas em formação e jovens das periferias para entender como eles estão superando algumas das barreiras sociais que dificultam a entrada no mercado de trabalho Estudante de História, Victor Rodrigheri pretende seguir carreira acadêmica
Reinaldo Canato
As chamadas soft skills — ou, em uma tradução para o português, "habilidades socioemocionais" — tornaram-se um fator importante para quem está tentando entrar no mercado de trabalho.
Em alguns casos, na hora de contratar, as empresas levam esses elementos mais em conta do que a competência técnica dos candidatos.
➡️Mas como fica o jovem pobre, morador de regiões periféricas, com poucas oportunidades de educação e que pouco teve contato com uma formação específica em habilidades como "resolução de problemas", "resiliência emocional", "adaptabilidade" e "comunicação efetiva"?
Nos últimos dias, a BBC News Brasil ouviu especialistas em capacitação e jovens das periferias do Rio de Janeiro, São Paulo e Ceará para entender como eles estão superando algumas dessas barreiras sociais que dificultam a entrada no mercado de trabalho.
A faixa etária entre 18 e 24 anos representa 30% dos 7,5 milhões de desempregados no Brasil, segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) relativos ao segundo trimestre de 2024.
No total, são 2,2 milhões de pessoas sem trabalho nessa camada — 6,9% da população brasileira está desempregada.
"Para mim, a chave mais importante foi aprender como me comunicar melhor, como não ficar nervoso na entrevista, como usar as mãos para passar mais segurança quando falo sobre minhas ideias", explica o estudante universitário Victor Rodrigheri, de 20 anos, criado em Caçapava, no interior de São Paulo, e hoje morador do Jardim Bonfiglioli, periferia da Zona Oeste paulistana.
Rodrigheri fez o ensino fundamental em uma escola pública. Quando terminou o ensino médio — ele tinha bolsa em um colégio particular —, precisava de um emprego para se manter e continuar os estudos.
Mas uma barreira o atrapalhava na hora da disputa por uma vaga de trabalho:
"Eu era uma pessoa muito tímida, e tinha muita dificuldade em me expressar. Então, fazer uma entrevista de emprego, ou falar em público, era uma coisa muito difícil. E isso não é algo que ensinam na escola", diz.
Para tentar resolver o problema, o jovem então se inscreveu em um programa de capacitação profissional da Fundação Wadhwani, uma organização sem fins lucrativos criada pelo bilionário indiano-americano Romesh Wadhwani.
Depois do curso, Rodrigheri passou em sua primeira entrevista de emprego em uma fábrica. E, no início deste ano, entrou em História na Universidade de São Paulo (USP).
"Hoje vejo que essas habilidades me ajudam até na universidade, como quando falo com um professor ou na hora de apresentar um trabalho", diz ele, que pretende seguir carreira acadêmica e se tornar professor.
O que são 'soft skills'
O que são soft skills?
Getty Images/via BBC
Em atuação no Brasil desde 2020, a Fundação Wadhwani faz parcerias com escolas e entidades de ensino locais para dar cursos de capacitação em soft skills a jovens periféricos de cidades como São Paulo e Rio de Janeiro.
"Soft skills são habilidades de comunicação, resolução de problemas, trabalho em equipe, pensamento crítico e mentalidade empreendedora", resume Thiago Françoso, vice-presidente da fundação no Brasil.
"O que escutamos dos empregadores é que, muitas vezes, o jovem da periferia chega bem preparado, com curso técnico e outras qualificações, mas tem dificuldades básicas, como escrever um e-mail e se expressar em uma reunião."
Uma pesquisa da Fundação Wadhwani com mais de 200 empresas de vários países apontou que as soft skills têm uma importância relativa de 45% na hora da contratação, frente aos 55% das habilidades técnicas.
No Brasil, a "comunicação" foi apontada por 84% dos empregadores ouvidos como a habilidade essencial de um candidato a uma vaga — 44% também falaram em "resiliência"; 40% em "trabalho em equipe"; 32% disseram considerar a qualidade do "atendimento ao cliente"; e 24% citaram "liderança" e "responsabilidade".
"Em nossos cursos, ensinamos desde o básico, que é escrever um email e o tom de voz no trabalho, até a gestão de emoções como o estresse em um ambiente competitivo", explica Françoso.
Como ser mais criativo
Ana Lívia Marques pretende atuar na área de tecnologia voltada ao esporte
Divulgação
A BBC News Brasil ouviu outras duas jovens de periferias sobre suas experiências com o aprendizado das soft skills.
A estudante Ana Lívia Marques, de 20 anos, também moradora de Caçapava, acredita que aprender a se comunicar melhor com o público foi fundamental para conseguir o estágio na recepção de um consultório médico da cidade.
"Tento mostrar para o cliente que sou o elo entre ele e a empresa. E que estou disposta a entender a demanda e encontrar a melhor forma de resolvê-la", diz Ana Lívia, que sempre estudou em escolas públicas e também participou de um programa de formação da Fundação Wadhwani.
Técnica em Administração, a jovem pretende continuar atuando na área por um período. Mas sonha em trabalhar com saúde e tecnologia no esporte.
"Penso em me formar em biotecnologia para trabalhar com vôlei, que pratiquei quando era mais jovem e é meu esporte preferido. O vôlei foi muito importante na minha vida, por ser um esporte coletivo em que todas as pessoas são importantes", diz ela.
Para Ana Clara Mendes, de 20 anos, do bairro Deodoro, periferia da Zona Norte carioca, organizar as próprias ideias e colocá-las em prática são habilidades que ela está desenvolvendo em um curso de capacitação do Coletivo Aprendiz.
O programa, que oferece formação em habilidades socioemocionais para jovens periféricos do Rio de Janeiro, Vitória e São Paulo, é um dos braços educacionais da ONG Centro Integrado de Estudos e Programas de Desenvolvimento Sustentável (Cieds).
"Me acho uma pessoa criativa, mas penso demais, elaboro demais e, às vezes, não consigo tirar do papel. Meu professor sempre me fala: 'Ana, muito boa essa sua ideia, mas como você pode ser mais dinâmica para fazer tudo funcionar?'", conta Mendes, que recentemente conseguiu uma vaga como menor aprendiz em uma empresa de saneamento.
Ela diz que a proximidade entre sua casa e o trabalho (cerca de 30 minutos de ônibus) foi um dos pontos que facilitaram sua contratação.
A carioca Ana Clara Mendes pretende trabalhar com atletas de alto rendimento
Arquivo pessoal
"Muitas vezes, quando você mora em um bairro da periferia, não te contratam porque a empresa terá mais custos com transporte. E, se você mora a duas horas do trabalho, precisa acordar quatro horas antes para se arrumar. E ainda tem o ônibus que demora, trânsito… Você pode chegar atrasada, e ainda tem mais sete horas de trabalho… E depois mais duas horas no ônibus voltando para casa. É uma rotina muito difícil."
Ana Clara era atleta de judô até os 18 anos, quando sofreu uma contusão no joelho e precisou abandonar as competições. "Sempre achei que seria uma atleta profissional. Mas, de repente, veio esse baque. Então precisei pensar: 'e agora, o que vou fazer da vida?'"
Mesmo longe do judô, ela ainda pretende trabalhar com o esporte. "Comecei como menor aprendiz com o objetivo de pagar meus estudos em educação física. Quero trabalhar com atletas de alto rendimento. Quero fazer mestrado, doutorado. Esse é meu sonho, vou conseguir", diz.
'Duplo foco'
Mas o quanto as habilidades socioemocionais realmente fazem a diferença na trajetória de um estudante?
A cidade de Sobral, no Ceará, um dos municípios brasileiros com nota mais alta no Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb), decidiu tornar as soft skills parte do currículo dos 35 mil alunos do ensino fundamental.
Com auxílio do Instituto Ayrton Senna, que realizou pesquisas acadêmicas e ajudou na elaboração do projeto, a prefeitura criou uma nova carreira no ensino municipal: a de psicólogo.
Em 2017, momento em que a cidade vivia uma onda de violência em bairros periféricos, cada uma das 90 escolas recebeu um profissional — eles foram contratados por meio de um concurso público.
"Mesmo com ótimos indicadores, percebemos que faltava aos nossos alunos uma formação mais cidadã", explica Herbert Lima, secretário de Educação de Sobral.
O psicólogo passou a auxiliar os professores durante as aulas.
"Trabalhamos com um duplo foco. O professor desenvolve os conteúdos das aulas, como a leitura ou matemática, junto a competências socioemocionais, como tolerância, empatia e respeito", diz Lima.
Segundo o secretário, o projeto produziu um aumento das notas do município em avaliações do ensino, como o Ideb, mas também uma "melhora na relação entre alunos e professores".
Uma dessas psicólogas é Bruna Pereira Farias, que passou a trabalhar em uma escola de Sobral em 2021.
"Nós tínhamos os melhores índices de educação do Brasil, mas estávamos perdendo nossos jovens para a violência. Então, um dos nossos desafios é trabalhar o aluno em diferentes situações, não apenas na escola, mas também no território, em questões culturais e sociais. Eles precisam aprender a conviver entre si. Fazemos muitas rodas de conversas", diz a psicóloga.
"O aluno não é só um resultado. Ele precisa estar bem emocionalmente para se desenvolver em outras áreas. E a escola precisa ser acolhedora, ter pessoas disponíveis a ouvir o aluno e ajudá-lo a ter um projeto de vida", diz Bruna.
Ela cita um exemplo do uso das soft skills em sala. "Em uma aula sobre mapas de rios, abordamos tanto a questão geográfica, como a situação social dos ribeirinhos, o contexto cultural da região e a importância de se preservar aquele meio ambiente. O objetivo é que o aluno entenda as questões sociais envolvidas, criando empatia e cidadania", diz.
Autoestima e pertencimento
Alunos de escolas públicas de Sobral (CE) têm rodas de conversas durante as aulas
Divulgação
Mas o jovem da periferia é menos preparado para assumir cargos em empresas do que os concorrentes?
O economista Vandre Brilhante, presidente do Cieds, acredita justamente no contrário disso.
"Nossa experiência mostra que, comparativamente, o jovem do asfalto, da comunidade, costuma se destacar mais nas empresas quando tem oportunidades".
Ele cita alguns motivos:
"O jovem da periferia tem um potencial muito maior do que o da classe média. Ele tem mais habilidade para resolver conflitos, porque faz isso desde criança na comunidade, tendo de tomar decisões sozinho. Não foi criado em um condomínio fechado, com os pais ali o tempo todo para socorrê-lo. Ele tem essa vivência da rua, de quem sabe se virar diante dos desafios", diz.
"Outro fator é a força de vontade. Quem vem da periferia costuma se agarrar mais à oportunidade, porque muitas vezes ela é a única da vida. O jovem da Zona Sul do Rio, da classe média, sabe que se ele sair da empresa, não terá muita dificuldade de conseguir outro emprego, pois sempre teve muitas oportunidades", explica.
Segundo Brilhante, um empecilho para o jovem periférico é a autoestima. "Quem vem da periferia tem dificuldade de enxergar o próprio potencial e receio de frequentar espaços de outras regiões mais ricas, porque não se vê como parte daquele lugar. Em nossos cursos, a gente sempre tenta fazer com que ele pense: 'eu pertenço a esse lugar, e esse lugar me pertence'".
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Sem celular na escola: alunos citam ‘crises de abstinência’, melhora nas notas e mais socialização; ‘como a saída de um vício’, diz professora

Sem celular na escola: alunos citam ‘crises de abstinência’, melhora nas notas e mais socialização; ‘como a saída de um vício’, diz professora
O Ministério da Educação apresentará um projeto de lei para vetar aparelhos em todas as instituições de ensino. g1 visitou três colégios que, mesmo antes da decisão da pasta, já implementam a regra — os smartphones não são permitidos nem na hora do recreio. Celular proibido nas escolas?
Poderia ser o começo de um “Globo Repórter”: como vivem os alunos que não podem usar celular na escola? O que fazem? Como se relacionam? Você descobrirá as respostas ao longo desta reportagem, mas já adiantamos que:
🤯As primeiras semanas após a proibição são “um pesadelo”, com “crises de abstinência” entre os jovens e choro de bebês que não aceitam nem comer, nem trocar a fralda sem a tela.
✌️Em pouco tempo, a maioria consegue se adaptar e passa a prestar bem mais atenção às aulas. Os menores reaprendem a brincar, e os adolescentes trocam os chats de Whatsapp por esportes e por interações “à moda antiga”, cara a cara.
“É como a saída de um vício”, afirma Maristela Costa, professora de português da escola Alef Peritz (SP), onde, há sete meses, os celulares dos alunos começaram a ser diariamente “trancados” em pochetes magnéticas [leia mais abaixo].
📈Contexto: O Ministério da Educação (MEC) anunciou que, em outubro, lançará um projeto de lei para proibir o aparelho nos colégios do país. Embora, por enquanto, não haja uma determinação nacional, 28% das instituições de ensino urbanas e rurais já implementaram restrições rígidas em relação aos smartphones, segundo a pesquisa TIC Educação 2023, divulgada em agosto deste ano pelo Comitê Gestor da Internet no Brasil.
Para prever como será o dia a dia dos estudantes caso o PL seja aprovado, o g1 visitou três escolas em que os estudantes não têm autorização de mexer no celular em sala de aula e durante o recreio.
Veja o que mudou na rotina deles:
😫Primeira etapa: revolta e resistência
Sala de aula na Escola Tarsila do Amaral, em São Paulo
Luiza Tenente/g1
Tentativas de 'arrombamento' em pochetes
No início do ano, em São Paulo, a escola judaica Alef Peritz optou por importar dos Estados Unidos um modelo de pochete magnética, que fica trancada por meio de uma peça semelhante aos alarmes usados em lojas de roupas. Só depois da última aula, um funcionário usa um “desmagnetizador” para abrir as bolsas.
“Ficamos revoltadíssimos com a chegada das bolsinhas. Não poder usar celular nem no recreio é um pouco extremo”, diz o aluno Leo Gerchfeld, do 2º ano do ensino médio.
Segundo o coordenador Antonio Arruda, foram necessárias três semanas para que os jovens conseguissem “sofrer menos”. “Alguns sentiram abstinência do celular na hora do intervalo. Eles ficavam perguntando: ‘o que vou ficar fazendo?’”, conta.
As manifestações de desespero deixaram marcas nas pochetes – houve tentativas de “arrombamento” que estragaram o fecho delas. Nesses casos, os estudantes responsáveis foram obrigados a pagar novamente a taxa de R$ 170 para adquirir uma nova bolsinha.
Ao g1, alunos do nono ano dessa escola judaica contaram que tentam usar o truque do “celular do ladrão”: colocam um aparelho antigo na pochete lacrada e deixam o “verdadeiro” escondido embaixo da mesa. Um dos meninos chegou até a tentar trancar uma caixa de baralho na bolsinha, fingindo que seria o celular. São jogadas de risco: quando flagrados, os adolescentes são suspensos.
Bebês dependentes de tela
E não pense que o problema do vício existe apenas entre os adolescentes. Na Escola Tarsila do Amaral (SP), que atende crianças da educação infantil e do ensino fundamental I, não é permitido nem passar pela porta de entrada com tablets ou smartphones. Entre os novos alunos, principalmente bebês, já foi necessário montar um sistema de “desmame” para que conseguissem se adaptar ao cotidiano sem telas.
“Nos primeiros dias de aula, a gente descobre que determinada criança só aceita comer se estiver vendo vídeo. Sem isso, ela nem olha para o prato. Depois de conversarmos com a família, fazemos gradativamente uma transição. Oferecemos o vídeo só no comecinho e logo já substituímos por um brinquedo, como massinha. Até que tiramos tudo”, explica a coordenadora Patrícia Bignardi.
O objetivo é que o aluno aprenda que a refeição o é um momento social gostoso, de conversa com os outros amiguinhos.
Celulares dentro de caixas
O uso de celulares em sala de aula já estava proibido nas escolas públicas municipais do Rio desde 2023. Em 2024, o decreto n° 53.918, do prefeito Eduardo Paes, endureceu a regra: os aparelhos foram banidos também na hora do intervalo. Só podem ser acessados em atividades pedagógicas específicas.
Para facilitar o controle, instituições de ensino como o GEO Martin Luther King, na zona norte da cidade, pedem que os alunos entreguem os celulares a um funcionário, que guarda tudo em uma caixa.
“Eu já vivi situações bem tristes, de você tentar impedir o uso do telefone e o aluno se comportar de uma maneira até meio assustadora”, afirma Aluisio Barreto da Silva, professor de história da rede municipal de ensino do Rio. "Um menino de 12 anos levantou, começou a chutar as cadeiras pela frente e saiu da sala.”
Um semestre após a proibição, 62% das escolas tiveram plena adesão à medida, e 38% enfrentaram dificuldades no processo de adaptação, informa a Secretaria Municipal de Educação.
⚽Menos Whatsapp e joguinhos, mais brincadeiras e esportes
Crianças brincam na hora do recreio na Escola Tarsila do Amaral, onde celulares são vetados
Luiza Tenente/g1
Quando o g1 perguntou aos alunos da educação infantil e do fundamental I quem gostaria de levar o celular para a hora do recreio, as reações foram diversas: “Não! Não é coisa de criança! A gente adora brincar e ficar juntas”, gritou Clara Lemos, enquanto pulava sem parar ao lado das amigas. “Eu queria poder jogar [no celular]!!’, reclamou Lorenzo Varanelli, embora parecesse bem entretido ao montar um castelo de legos com outros meninos.
A impressão é que a Escola Tarsila do Amaral seria bem mais silenciosa se os smartphones fossem liberados. Mesmo as crianças que dizem sentir falta dos aparelhos estavam correndo, montando duelos de miniaturas de animais, cantando a música-tema da série que acompanham na TV ou pintando desenhos no jardim.
Renan Menezes, pai de Maria Carolina, de 6 anos, acredita que o fato de ninguém estar com o celular na escola seja um fator decisivo para que a menina brinque mais com as amigas.
“Em casa, ela fica com o nosso celular em poucos momentos, só para ver conteúdos de artesanato ou joguinhos infantis. A dificuldade é quando encontra outras crianças da mesma idade, que já têm seus próprios aparelhos, como o primo dela. Aí, começa a questionar: ‘por que ele tem e eu não tenho?’”, conta.
“Ela já falou que quer pedir para o Papai Noel um celular. Já expliquei que os duendes ainda não aprenderam a fazer”, brinca.
➡️Entre os adolescentes, a dinâmica do intervalo mudou totalmente depois da proibição dos smartphones. Ninguém mais consegue conversar com amigos de fora da escola pelo Whatsapp, postar stories no Instagram ou usar os aplicativos de jogos – mas as conversas “cara a cara” e a prática de esportes tornaram-se mais frequentes.
“Foi muito difícil de se acostumar. A gente vai pegar o celular, mas não está lá, sabe? É estranho. Não dá para pagar o lanche [usando o aparelho] nem falar com os nossos pais para combinar o horário de saída. Tudo precisa falar com a coordenação, para avisarem nossa família”, diz Clara Wroclawski, aluna do ensino médio na Alef Peritz.
Ela e as amigas contam que, sete meses após a implementação das bolsinhas, já estão mais adaptadas à restrição. “A gente passou a ficar mais juntas. Todo mundo está mais junto. Porque não tem muito o que fazer, né? Agora, acabo não sentindo mais tanta falta do celular”, diz Nina Herz, da mesma turma.
Já os meninos intensificaram o uso das quadras no recreio.
“[Nosso dia] Melhorou muito, estamos jogando mais futebol, conversando. Ficou mais produtivo e divertido, mesmo a gente não percebendo isso no começo e achando que ia ser infernal”, afirma o aluno Joseph Spuch, logo após a partida terminar.
🧑‍🏫Sem as notificações, maior foco nas aulas
Aluno no celular enquanto professor escreve no quadro
Pixabay/Reprodução
Os próprios estudantes reconhecem que a medida de proibir os celulares teve reflexos diretos na aprendizagem.
“Para mim, meu mundo tinha acabado. Mas a proibição foi fundamental e essencial para que a gente pudesse evoluir. Hoje, eu leio muito mais. O telefone estava tirando a minha concentração”, conta Kamilly Luanni, de 13 anos, aluna da escola municipal Martin Luther King.
Pelas dezenas de relatos colhidos pelo g1, as “vilãs” das aulas eram as notificações no celular. Como continuar atento ao professor e ignorar uma mensagem?
“Quando [o aparelho] vibrava, a gente parava de prestar atenção na aula. Com o celular na caixa, dá para se concentrar melhor”, diz a estudante carioca Julia Abrahão, de 15 anos.
Em São Paulo, Joseph, do 2º ano do ensino médio, sentiu a mesma mudança. “Às vezes, tem aula em que você está muito cansado, não dormiu direito e quer mexer no celular porque é um passatempo, mas não dá. Aí, acaba prestando atenção na aula. É incômodo, porque é um vício, mas a proibição me ajudou muito na questão acadêmica.”
Os estudantes ouvidos pela reportagem contam ainda que houve uma mudança de hábitos mesmo fora do colégio: eles passaram a usar o celular menos vezes em casa. No balanço geral, o tempo diário de uso de telas chegou a cair 4 horas em relação ao período antes da proibição.
🧑‍🧑‍🧒Os pais aprovaram a restrição?
Nas três escolas visitadas pelo g1, houve apoio da maioria dos pais para a restrição dos celulares. Os que ficaram mais receosos focaram em três fatores:
Comunicação com os filhos
Os responsáveis não conseguem mais trocar mensagens com os adolescentes enquanto eles estão nas aulas. Essa função, como exemplificado mais acima, ficou a cargo da própria escola, como nos velhos tempos: é a coordenação que faz o “meio de campo”. Na Escola Tarsila do Amaral, os pais que quiserem notícias das crianças podem usar o Whatsapp do colégio, para uma resposta mais ágil dos professores.
Proteção dos celulares
Há famílias que se preocupam com a segurança dos celulares (principalmente daqueles que custam caro). Como solução, a ideia das instituições de ensino é evitar que os funcionários tenham de ficar com os aparelhos dos alunos. A bolsinha que “tranca” os smartphones pode ficar na mochila dos próprios estudantes. Já no Rio, no esquema de guardar tudo na caixa, os equipamentos ficam no campo de visão da turma inteira, para que ninguém se sinta inseguro em relação a quedas ou furtos.
Contato com tecnologia
A coordenadora da Escola Tarsila do Amaral relata que, há alguns anos, havia uma preocupação com o letramento digital das crianças. Atualmente, elas chegam às aulas já dominando totalmente as ferramentas tecnológicas – o desafio é ensiná-las a segurar um lápis ou brincar longe das telas. Por isso, o colégio opta por propiciar pouco contato dos alunos com computadores e tablets.
Entre os alunos mais velhos, tanto no Rio quanto em São Paulo, os gadgets estão presentes no dia a dia escolar, mas apenas para fins pedagógicos. É possível usar um tablet para acompanhar a leitura de um texto, por exemplo, criar um filme a partir do telefone ou ler o enunciado da questão de matemática. Pela rede de WiFi, todos os sites de redes sociais são bloqueados.
“A escola não pode caminhar na contramão da sociedade. A gente vive num mundo conectado, e os aparatos tecnológicos podem potencializar a aprendizagem dos alunos. Não é só proibir por proibir. Nosso objetivo é equilibrar o uso desse aparelho”, explica Joana Possidônio, diretora da escola Martin Luther King.
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