‘Não consigo ver as horas no relógio ou decorar meu telefone’: a rotina de quem vive com discalculia

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Intitulado discalculia, o transtorno de aprendizado consiste em uma dificuldade fora do normal da pessoa entender e manipular números e conceitos matemáticos. Estima que entre 6% e 7% dos brasileiros em idade escolar possuem discalculia.
Getty Images (via BBC)
A incapacidade de ver a hora no relógio de ponteiro, de contar certo o troco do supermercado e de decorar o próprio número de telefone levaram a psicóloga Larissa Pessoa a descobrir que sua dificuldade com os números, a qual acreditava ser comum, era, na verdade, um transtorno de aprendizado.
Intitulado discalculia, o transtorno de aprendizado diagnosticado em Larissa consiste em uma dificuldade fora do normal da pessoa entender e manipular números e conceitos matemáticos. E, por mais, que possa parecer raro é cada vez mais comum entre os brasileiros. Para se ter uma ideia, estudo estima que, entre 6% e 7% dos brasileiros em idade escolar possuem discalculia.
Larissa, de 26 anos, já perdeu as contas de quantas vezes tentou entender um relógio de ponteiro, sem ter que perguntar para alguém como funciona. A dificuldade é apenas uma dentre inúmeras que passa diariamente por ter discalculia.
"Minha dificuldade com números vem desde que eu me conheço por gente. Na escola, sempre era um desafio entender o que meus professores de matemática diziam e mesmo estudando por horas não conseguia compreender”.
Na época, por não conseguir assimilar matemática, professores lhe classificavam como uma aluna rebelde, sem vontade de aprender, o que a fez desistir dos estudos.
Larissa somente concluiu o ensino médio por meio do Encceja — exame destinado àquelas pessoas que não concluíram o ensino fundamental ou médio na idade adequada e fazem a prova para obter o certificado de conclusão.
"Infelizmente, há dez anos, não se falava em discalculia no Brasil. Por isso, muitas pessoas achavam que a minha dificuldade era um ato de rebeldia. Ou que eu não fazia esforço para aprender."
"Tanto que somente descobri que tinha discalculia aos 18 anos. Lembro que ao pesquisar o termo na internet, boa parte do que aparecia eram de reportagens ou artigos em inglês, porque não no Brasil nem se falava deste transtorno de aprendizado", conta a psicóloga.
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'As pessoas acham que sou de outro mundo'
Quem viveu situação parecida na escola foi Isabela Aquino, de 20 anos. A estudante de artes visuais conta que além da dificuldade em matemática, outro dilema que enfrenta até hoje é de como as pessoas encaram sua dificuldade.
"Muita gente quando vê alguém que não consegue entender relógio de ponteiro ou têm dificuldade para fazer operações simples de matemática em uma calculadora acham que somos de outro mundo", diz.
O problema é que essa dificuldade com os números não impacta apenas os estudos, mas também interfere na vida financeira de quem tem discalculia.
A publicitária Jenifer Mendes, de 36 anos, conta que por ter dificuldades em operações básicas de matemática, devido ao diagnóstico de discalculia, é comum errar o valor das compras.
"Já tive situação de achar estar gastando R$ 100 em uma loja e no momento de chegar no caixa descobrir que tudo era R$ 1.000. Tudo pela minha dificuldade de fazer cálculos."
"Nessas situações não tem como não se sentir constrangida."
Outra dificuldade comum por quem tem discalculia acontece na hora de fazer uma simples receita de bolo.
"Já tive situações de não conseguir fazer um bolo porque não conseguir colocar em prática o um quarto de determinando ingrediente", diz Larissa.
"Até mesmo lembrar que número corresponde ao mês é difícil. Por exemplo, sei que três refere-se ao mês de março, porque é até onde eu consigo. Mas se você perguntar que número corresponde a outubro, não sei."
Ana Helena Guimarães, 21 anos, estudante de educação física, conta que por ter o transtorno de aprendizado passou a criar mecanismos para sofrer menos no dia-dia.
"Hoje, sempre uso cartão de crédito para evitar que alguém me peça dez centavos para facilitar o troco e consequentemente eu fique parada na frente do atendente sem entender", conta Ana Helena.
"Já nas provas da faculdade que tem cálculos, procuro dar o máximo nas questões que não envolvem números para compensar minha dificuldade. Porque sei que mesmo estudando muito, não vou ir bem", completou.
Isabela Aquino conta que, além da dificuldade em matemática, outro dilema que enfrenta até hoje é de como as pessoas encaram sua dificuldade.
Arquivo pessoal (via BBC)
Causas da discalculia
Especialistas ouvidos pela BBC News Brasil explicam que diferente de uma dificuldade em matemática, comum entre os alunos brasileiros – segundo o último Programa Internacional de Avaliação de Estudantes (PISA), que avaliou o desempenho de alunos de 15 anos de 81 países, sete em cada dez estudantes brasileiros não conseguem fazer simples de matemática, como, por exemplo, dizer, quantos reais equivalem a dois dólares, sabendo o valor de um dólar.
Na discalculia, a dificuldade com os números não pode ser suprimida com aulas de reforço, porque o impasse para entendê-los é fruto de um transtorno de neurodesenvolvimento – terminologia utilizada para definir e classificar as alterações do desenvolvimento cerebral que aparecem nos primeiros anos de vida e que persistem até a morte.
"Ou seja, a criança nasce com uma disfunção em áreas cerebrais que processam as habilidades matemáticas", explica Camila León, psicopedagoga e professora convidada da Associação Brasileira de Dislexia (ABD).
Dentro os transtorno de neurodesenvolvimento destacam-se o Transtorno do Espectro do Autismo (TEA), o Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH), e os Transtornos do Desenvolvimento da Aprendizagem (TApr), no qual estão incluídos separadamente os transtornos do aprendizado da leitura (dislexia), da escrita (disgrafia) e o transtorno do desenvolvimento da aprendizagem com prejuízo na matemática (a discalculia).
Patrícia Abreu Pinheiro Crenitte, professora do departamento de fonoaudiologia da USP de Bauru e coordenadora do Grupo de Estudo e Pesquisa em Escrita e Leitura (GREPEL), explica que a discalculia é causada por uma combinação de fatores genéticos, neurológicos e ambientais.
Fatores neurológicos: estudos de neuroimagem indicam que a discalculia pode estar relacionada a diferenças no funcionamento de áreas do cérebro envolvidas no processamento numérico, especialmente no lobo parietal, que é responsável por habilidades espaciais e matemáticas. Além disso, problemas na comunicação entre diferentes áreas do cérebro que processam informações matemáticas e numéricas também podem influenciar a discalculia. Isso inclui dificuldades em conectar os símbolos numéricos (como números e sinais matemáticos) ao que eles representam.
Fatores genéticos: a discalculia também pode ter um componente hereditário. Estudos indicam que familiares de pessoas com discalculia têm maior probabilidade de apresentar dificuldades semelhantes. Isso sugere que fatores genéticos podem influenciar a condição, embora ainda não haja um gene específico identificado como responsável.
Desenvolvimento cognitivo: problemas relacionados à memória de trabalho, habilidades visuo-espaciais e outras funções cognitivas podem contribuir para a discalculia, já que essas funções são importantes para o processamento matemático.
"Embora a discalculia tenha uma base neurológica e genética, fatores ambientais também podem influenciar. Falta de exposição a um ensino adequado de matemática, situações de estresse emocional ou condições socioeconômicas podem agravar ou contribuir para o aparecimento de dificuldades matemáticas. Esses fatores por si só não causam discalculia, mas podem intensificar os sintomas em indivíduos já predispostos", ressaltou Patrícia.
A psicóloga Larissa Pessoa sempre teve dificuldade de ver a hora no relógio de ponteiro, de contar certo o troco do supermercado e de decorar o próprio número de telefone.
Arquivo pessoal (via BBC)
Sinais de alerta
Julia Beatriz Lopes Silva, professora do departamento de psicologia e coordenadora do laboratório de neuropsicologia do desenvolvimento, ambos da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), alerta que o primeiro sinal que uma pessoa tem discalculia é quando seu desempenho com números é quantitativamente abaixo do esperado para a idade cronológica do indivíduo.
"Os sintomas da discalculia podem se manifestar de maneira diferente em cada faixa etária. Crianças, por exemplo, apresentam dificuldades básicas em aprender a contar, compreender conceitos de quantidade, memorizar tabuadas ou aprender operações matemáticas básicas."
"Já no caso de adolescentes e adultos, é possível observar dificuldade em aplicar matemática em situações práticas do cotidiano, como cálculo de troco, lidar com horários ou gerir finanças pessoais", ressaltou Silva.
Camila León, psicopedagoga e professora convidada da ABD (Associação Brasileira de Dislexia) destaca que geralmente o primeiro a desconfiar que alguém pode ter discalculia é o professor, uma que vez pode comparar o aluno com os demais da sala. O problema é que por ser um transtorno de aprendizado novo, muitos profissionais da educação não o conhecem.
León cita sinais da discalculia em cada etapa do ensino regular. Confira:
Educação infantil (3 a 5 anos)
Dificuldade para aprender a contar;
Dificuldade para reconhecer padrões simples;
Dificuldade para entender o significado dos numerais (como associar o numeral 3 a um conjunto de três objetos ou à palavra oral três);
Dificuldade para entender o conceito de enumeração (associar um número a uma quantidade de objetos).
Ensino fundamental 1 (6 a 9 anos)
Dificuldade de aprender e lembrar fatos numéricos, como 4 + 2 = 6;
Uso excessivo dos dedos para contar, em vez de utilizar métodos mais avançados;
Dificuldade para identificar símbolos matemáticos (como + e -) e usá-los corretamente;
Dificuldade para entender linguagem matemática, como mais que e menos que;
Dificuldade para entender o valor posicional dos algarismos (confundindo 12 e 21, por exemplo).
Ensino fundamental 2 (10 a 14 anos)
Dificuldade para entender conceitos matemáticos, como a propriedade comutativa (3 + 5 é igual a 5 + 3) e a inversão (saber a resposta para 3 + 26 – 26 sem precisar calcular);
Dificuldade de selecionar uma estratégia para resolver problemas matemáticos;
Dificuldade para lembrar o placar em jogos e atividades esportivas;
Dificuldade de calcular o preço total de dois ou mais itens.
Os sintomas da discalculia podem se manifestar de maneira diferente em cada faixa etária.
Getty Images (via BBC)
Como funciona o diagnóstico
O diagnóstico da discalculia é estabelecido por meio de uma avaliação multidisciplinar.
"Por vezes a realização de teste de QI ou exames de imagem serão úteis, mas não para o diagnóstico da discalculia propriamente dita, e sim para excluir outras condições neurológicas que podem estar interferindo no aprendizado."
"Existem também ‘testes de desempenho escolar’, que são padronizados, e tornam-se ferramentas úteis para o diagnóstico", aponta Júlio Koneski, médico neuropediatra e membro do departamento científico de transtornos do neurodesenvolvimento da Sociedade Brasileira de Neurologia Infantil (SBNi).
Segundo Koneski, durante o diagnóstico, o neuropediatra analisa como é a trajetória do aprendizado ao longo dos anos escolares iniciais, e se existe algum grau de dificuldade em outras áreas (leitura e escrita).
"Informações vindas da escola através de relatórios e análise de cadernos, bem como de outros profissionais como psicólogos e pedagogos, podem complementar o diagnóstico."
No Brasil, não existe um "teste específico de discalculia", sendo necessária a utilização de vários testes que avaliem as habilidades matemáticas e de outras habilidades cognitivas associadas ao desempenho com números, como memória, atenção, velocidade de processamento.
Julia Beatriz Lopes Silva, professora da UFMG, ressalta que, em regra, a discalculia pode ser identificada a partir dos 7 anos de idade.
Apesar de não haver cura para esse transtorno de aprendizado, existem intervenções pedagógicas e tratamentos focados em habilidades matemáticas que podem ajudar a melhorar o desempenho e qualidade de vida de quem sofre com o transtorno. Alguns exemplos de intervenções são:
Apoio escolar especializado com métodos adaptados e ferramentas visuais;
Terapia cognitivo-comportamental para ajudar a lidar com o impacto emocional e social das dificuldades;
Tecnologia assistiva, como aplicativos e softwares que facilitam o aprendizado de matemática.
Além da discalculia, existem outros dois transtornos de aprendizado: os transtornos do aprendizado de leitura (dislexia) e o da escrita (disgrafia/ disortografia).
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Outros transtornos de aprendizado
Além da discalculia, existem outros dois transtornos de aprendizado: os transtornos do aprendizado de leitura (dislexia) e o da escrita (disgrafia/ disortografia).
Patrícia Abreu Pinheiro Crenitte, professora da USP de Bauru diz que, dentre eles, a dislexia é o mais comum. Estima-se que ela afete entre 5% e 17% da população mundial, enquanto a discalculia afeta de 3% a 7%.
Indivíduos com dislexia apresentam dificuldades em decodificar palavras, compreender textos, identificar sons da fala (consciência fonológica) e associar letras a seus sons.
Além disso, apresentam dificuldades em reconhecer palavras rapidamente, ler com fluência, decodificar palavras, soletrar corretamente, organizar pensamentos em escrita e compreender o que foi lido.
"Como a leitura e escrita são pilares da educação formal, os problemas relacionados à dislexia são rapidamente notados, ao contrário da discalculia e da disortografia, que afetam a matemática e a escrita, respectivamente, e são menos perceptíveis", apontou Patrícia.
A professora da UFMG, Julia Beatriz Lopes Silva, também ressalta que é comum que pessoas que apresentam dificuldades numéricas (discalculia) também apresentem dificuldades de leitura (dislexia).
"Existem estimativas que entre 30 e 70% de pessoas que apresentam um destes transtornos de aprendizagem também apresentam o outro."
No Brasil, desde 2021, Lei nº 14.254/21 estabelece que as escolas da rede pública e privada devem garantir acompanhamento específico, direcionado à dificuldade e da forma mais precoce possível, aos estudantes com discalculia, disortografia e dislexia.
No caso de candidatos com discalculia, em vestibulares e concursos públicos, eles têm assegurado atendimento especializado no momento de realização da prova, como tempo adicional e até calculadora (fornecida, geralmente, pela própria banca realizadora da prova).
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Lula cita falta de interesse na carreira de professor e fala em criar programa para estimular jovens

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'Ninguém mais quer ser professor', afirmou o petista durante cerimônia no Palácio do Planalto. Dia do Professor foi comemorado nesta terça-feira (15). O presidente Lula durante discurso no Palácio do Planalto
Reprodução/Canal Gov
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) disse nesta quarta-feira (16) que há uma falta de interesse de jovens na profissão de professor e falou em criar um programa para incentivar estudantes a seguirem a carreira.
Lula deu a declaração durante cerimônia no Palácio do Planalto alusiva ao Dia Mundial da Alimentação. Nesta terça-feira (15), foi celebrado o Dia do Professor no país.
"Essa profissão que já foi nobre está sendo destruída porque nós descobrimos que ninguém mais quer ser professor. Nós vamos ter que criar um programa de incentivo para alunos que prestaram o Enem fazerem um curso para se transformarem em professores. Porque ganha muito pouco, tem muito trabalho e as pessoas não querem", afirmou o petista.
Pesquisa da ONG Conectando Saberes, divulgada em 2023, aponta que os baixos salários e a falta de perspectiva de carreira são os principais motivos que levam os professores a desistir da profissão.
Transtornos psicológicos causados pela rotina difícil — e que aumentaram durante a pandemia — também são outros pontos citados.
No pronunciamento desta quarta-feira, o presidente não deu detalhes de como será esse programa de estímulo à formação de professores a partir do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem).
Segundo o petista, o assunto entrará na pauta de discussão do governo no fim deste mês depois da participação de Lula na cúpula dos Brics na Rússia.
"Lembro que quando aprovamos o piso salarial dos professores, muitos governadores não quiseram pagar porque diziam que não tinham dinheiro. Olha que é um salário merreca para alguém que toma conta de 40 crianças dentro de uma sala de aula, ou de 50", declarou.
Com baixos salários e falta de perspectiva de carreira, professores desistem da profissão
Investimentos em educação não são 'gastos', diz Lula
Durante o discurso, Lula voltou a reclamar de quem critica o aumento de despesas públicas nas áreas de saúde e educação. Para o petista, políticas nesses segmentos são "investimentos" e não "gastos".
Segundo o presidente, um governante precisa elencar prioridades ao gerir um país como o Brasil, que tem 213 milhões de habitantes, dos quais 81 milhões ganham no máximo três salários mínimos.
“Não existe outra alternativa para alguém que queira governar um país do tamanho do Brasil se não a gente ter preferência na hora de utilizar o dinheiro”, disse.
Para o presidente, as críticas ao aumento de recursos para saúde e educação são um “problema” com repercussão na impressão e no mercado.
"Toda vez que a gente está cuidando de fazer política social é tratado como gasto. Toda vez. É inacreditável. Não é à toa. Foi uma doutrina de palavras criadas pra induzir a gente a determinados erros", pontuou.
Nesta terça, durante entrevista, a ministra do Planejamento e Orçamento, Simone Tebet, defendeu uma revisão de gastos estruturais no país. Segundo a emedebista, chegou a hora de levar essa questão "a sério" no país.
Nesta quarta-feira, Lula tem reunião com representantes da Federação Brasileira de Bancos (Febraban) no Palácio do Planalto.

Costa Rica é o país com mais bullying no mundo, revela levantamento; Brasil fica em 16º lugar

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Especialistas apontam que fatores como desigualdade social e violência urbana agravam a situação, mas a maior conscientização também pode explicar o aumento das denúncias. O país com mais bullying no mundo
A Costa Rica é o país com mais bullying no mundo, de acordo com dados de 2022 do Programa Internacional de Avaliação de Estudantes (PISA, na sigla em inglês). 44% dos estudantes do país dizem já ter sofrido bullying em algum momento na escola. E os efeitos disso são bastante preocupantes.
"Tive três tentativas de suicídio. A mais forte foi a segunda, e me arrependo de ter tentado a terceira porque, a partir da segunda, entendi que isso era muito egoísta", diz Deiran Campos, estudante da Costa Rica.
"Isso me deixou com muitos problemas de confiança, acho difícil confiar nas pessoas ao meu redor", afirma outro estudante.
Bullying em escola.
Reprodução/EPTV
👉🏾 O bullying é caracterizado por agressões verbais, físicas e psicológicas que se repetem por algum período e podem ter danos de longo prazo – como a depressão, por exemplo.
Mas o fato de a Costa Rica estar no topo da lista do bullying chama a atenção, porque o país possui bons indicadores de desenvolvimento.
As autoridades dizem que isso se deve a uma maior conscientização e disposição para denunciar, e ao fato de as escolas estarem se esforçando para combater a violência.
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América Latina no ranking
Além da Costa Rica, outros países latino-americanos estão entre os 20 com mais relatos de bullying entre os estudantes.
Colômbia aparece em 11º, com 23% dos casos.
16º ao 18º lugar estão respectivamente o Brasil, Peru e Chile, empatados com 20%.
Mas por que tantos casos de bullying nas escolas da América Latina?
Especialistas acreditam que algumas características da região podem estar contribuindo para o aumento dessa violência entre os jovens. Podem estar na raiz do problema:
a desigualdade social;
a violência crônica em algumas cidades; e
e a falta de recursos.
PODCAST E VÍDEOS DE EDUCAÇÃO

Professor usa Pink Floyd, cabo de guerra e fogo para ‘desconstruir’ física em aulas: ‘Só quero que aprendam’

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Jean Silva estava quase prestando vestibular para direito quando descobriu que queria ser professor. Mais de 20 anos depois, ele quer que seus alunos percam o medo da física enquanto se divertem. O professor Jean Silva em sala durante aula de física.
Arquivo pessoal
“Sou professor de física, mas não sou de exatas.” É assim que o catarinense Jean Silva, de 48 anos, se apresenta em conversa com o g1.
Ele leciona para alunos do ensino médio em um colégio particular de Florianópolis, e também dá aula em um cursinho preparatório para vestibular na capital e em Criciúma.
Jean diz ser um professor como qualquer outro, mas nas redes sociais, onde compartilha “teasers” de suas aulas, ele mostra que não é bem assim.
Nos vídeos, ele leva os alunos para a quadra esportiva para explicar impulso, quantidade de movimento e força de atrito, fala de rock e explica a relação de Pink Floyd com a refração da luz, ou ainda, brinca com fogo para contextualizar termodinâmica, eletrodinâmica e propagação de calor.
Professor de Santa Catarina ensina física de um jeito descontraído.
Reprodução/Instagram @profjeansilva
O professor diz que tem dois objetivos:
deixar uma marca nos alunos, fazendo-os se interessar pela física para que compreendam que a disciplina não é tão complicada ou tão teórica quanto parece.
se divertir enquanto leciona.
Eu quero que meus alunos possam dizer: ‘Eu tive um professor louco, mas muito legal, que me ensinou tal conceito de física’. ‘Ensinou’, porque quero que eles aprendam.
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‘Físico’ desde criança
Jean conta que sempre teve curiosidade de entender como as coisas funcionam.
“Quando eu era criança, fazia pipa, carretilha, arminhas de brinquedo. Sempre tive essa ‘manha’ de mexer nas coisas, de desmontar e remontar tudo que conseguia.”
Apesar dessa conexão com a física desde cedo, o catarinense não planejou transformar a afinidade em profissão. “Na verdade, antes de tudo, eu queria ser advogado.”
Foi enquanto fazia cursinho para prestar direito que vislumbrou outra alternativa. “Eu virei mentor no cursinho, dava mentoria de química, física e matemática. Um professor de matemática dizia que eu não seria advogado, e sim professor. Aquilo me marcou, e quando prestei vestibular, não foi para direito”, lembra ele.
Jean Silva, professor de física, durante aula sobre indução eletromagnética.
Arquivo pessoal
Professor em formação
Mas Jean conta que foi só após concluir a licenciatura em Física pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) em 2002, que ele começou a se formar verdadeiramente professor.
“Não é desde sempre [que leciono dessa maneira]. Precisei de tempo e experiência para entender o tipo de professor que eu queria e podia ser. Mas sempre fui proativo, para frente, e acho que sempre marquei os alunos [que assistiam minhas aulas]. Mas, agora, acho que estou na minha melhor fase.”
Apesar disso, o professor conta que sua técnica de ensino só dá certo se os alunos participarem da aula. E, para isso, ele precisa ganhar a confiança deles.
Eu gosto de pensar que existe professor profissional. Para ser um professor profissional, é preciso separar a parte pessoal da profissional. Por exemplo, se eu tenho algum problema em casa, não vou levá-lo para minha sala de aula. Na sala, eu preciso ensinar física e preciso estar disponível para o aluno, não importa o que aconteça. Eu digo que, se estou disponível, eu não erro.
Segundo a experiência do professor, isso é o suficiente para fazer os jovens baixarem a guarda e darem uma chance para a física.
“Muitos deles chegam à escola com medo de física. E tem uma parte teórica que exige cálculo, tem aulas que eles precisam copiar o que eu passo no quadro e fazer a lição. Mas eu garanto para eles que, nas aulas práticas, eles vão entender aquelas teorias e vão se divertir enquanto estudam. E, claro, eu me divirto junto.”
Quando perguntado se acredita que sua forma de lecionar se distaca de alguma maneira, o professor não é tão incisivo.
"É fácil ir encontrar uma aula melhor que a minha no YouTube. Também sei que a realidade média dos professores do Brasil é diferente da minha. Não tenho a pretenção de dizer que minha aula é melhor, que sou um professor melhor, ou que meus alunos aprendem mais. Eu só faço desse jeito e funciona para mim e para meus alunos. Para mim, é isso que importa."
VÍDEOS DE EDUCAÇÃO

Dever de Casa: essencial ou superado? O que dizem os especialistas e como isso impacta a rotina do seu filho

Dever de Casa: essencial ou superado? O que dizem os especialistas e como isso impacta a rotina do seu filho
No modelo de escola integral, o dever se casa poderia ser dispensável, mas enquanto esta não é uma realidade para a maioria dos estudantes brasileiros, é importante que esta tarefa seja mais prazerosa e explicada previamente. Dever de casa precisa estimular o raciocínio crítico independente da quantidade, defendem especialistas
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📝 Para alguns, um sacrifício, para outros, essencial. Afinal, qual é a importância do dever de casa? Especialistas ouvidos pelo g1 afirmam que, no modelo de educação ideal, – a escola integral – a tarefa de casa seria até dispensável, pelo fato de as crianças já passarem 7 ou mais horas na instituição de ensino. E o que hoje é chamado dever de casa já seria feito pelos estudantes na própria escola.
🕠 🏫 Mas como a escola integral ainda é uma realidade distante para a maioria dos estudantes, o dever de casa ainda tem uma relevância e precisa respeitar alguns critérios, para que atinja seus objetivos. O ideal, segundo especialistas, é que esses deveres:
Não sejam repetitivos;
Não estimulem a decoreba, mas sim a criatividade e a curiosidade;
Estimulem o raciocínio crítico;
Precisam ser previamente explicados em sala para que a criança tenha condições de realizá-los sozinha, com autonomia;
Precisam ser prazerosos;
Não podem exigir um tempo longo demais para serem realizados;
Precisam ser feitos em ambiente adequado, de modo que dificulte a dispersão.
📗A lição de casa pode ser um instrumento que ajuda no desenvolvimento da criança, mas a porcentagem dos que têm uma condição favorável para realizá-la é baixa, segundo o professor de psicologia educacional da Unicamp Sergio Leite.
“No ensino fundamental, em que a criança está desenvolvendo uma relação afetiva com a própria escola, a presença do adulto é extremamente necessária. Dificilmente uma criança sozinha dá conta de uma lição, mesmo que seja um reforço do que teve em sala de aula”, afirma o professor.
Leite diz ainda que não há consenso na literatura sobre o dever de casa. Mas que geralmente os profissionais da rede pública são a favor da cobrança dessas tarefas. Isso porque a lição de casa possibilita desenvolver hábitos de estudo, responsabilidade, disciplina e aproxima as famílias da escola e do conteúdo pedagógico.
Por outro lado, os professores que não valorizam tanto o dever de casa o fazem principalmente devido à diversidade socioeconômica do país. Como muitos pais não têm condições de ajudar os filhos nas atividades escolares, essas tarefas podem perpetuar a situação de injustiça.
Como os pais são responsáveis por oferecer apoio e garantir o espaço e materiais necessários para a realização da tarefa, a lição de casa precisa ser discutida na reunião de pais, defende a mestre em Educação e coordenadora pedagógica na Roda Educativa Angela Luiz Lopes.
A educadora acrescenta que antes da Base Nacional Comum Curricular (BNCC), o currículo era muito mais pautado em conteúdo. Hoje, ele favorece e apoia processos de desenvolvimento de competências e habilidades.
Ela defende ainda que não só o tipo de dever de casa precisa ser revisto, mas também os grupamentos na sala de aula, de forma a promover mais dinamismo. Por exemplo: não ter somente aluno sentado atrás de aluno, mas também atividades em grupos e em círculos.
“Como que eu amadureço um conjunto de habilidades e ela se torna uma competência? A gente ainda está patinando muito em melhorar as práticas de sala de aula. Precisamos de práticas mais pautadas na resolução de problemas, no protagonismo dos estudantes em agrupamentos diversificados. E a atividade de casa é só mais um elemento nesse processo e precisa de alguma maneira ser uma extensão ou apoio ao que está sendo proposto em sala de aula. Quando a gente tem um problema para resolver, a gente senta e pensa junto. E a escola precisa entrar nesse lugar também”, reflete a educadora.
Especialistas defendem que o dever de casa tenha uma frequência diária para que ocorra a criação do hábito de estudo, mas o ideal é que ele não seja passado de um dia para o outro, para que o aluno tenha mais chances de realizá-lo.
Por exemplo: uma tarefa passada numa segunda-feira pode ser entregue na quarta ou na quinta. E uma tarefa passada na sexta pode ser entregue na segunda ou na terça. Além disso, é extremamente importante que a tarefa seja corrigida logo no início da aula:
“Pior do que não dar lição de casa é dar uma tarefa e não fazer nada com ela. Se eu dei uma leitura, eu preciso começar a aula retomando o que eles fizeram. Só assim que aquele aluno que não se dedicou tanto vai entender que fazer a lição de casa é importante para ele se posicionar na aula. Se todo mundo leu o texto e eu não li, o que eu vou comentar?”, questiona Lopes.
Sempre que a família sentir qualquer sinal de resistência, insatisfação ou tristeza, é importante que os pais conversem com a escola. E se os professores sentirem que a adesão ao dever é pequena, também é importante que eles chamem os pais para conversar.
Fazer os alunos cumprirem a tarefa de casa com entusiasmo é um desafio para os professores, mas defendido como determinante para especialistas:
“Ressignificar a tarefa de casa na direção de desenvolver a ‘curiosidade epistemológica’ apontada por Paulo Freire no livro Pedagogia da Autonomia parece-nos urgente para que a motivação intrínseca e a habilidade para pesquisar sejam desenvolvidas e, assim, a tarefa de casa possa ser cumprida com entusiasmo e que possa resultar em aprendizagem e sucesso escolar”, afirma a professora da PUC Campinas Monica Piccione Gomes Rios.
Nem muito nem pouco?
Há pais que sentem falta de mais deveres para que as crianças consigam fixar melhor o conteúdo dado em sala. O advogado carioca Marcelo Almeida, que tem filho em escola pública, diz que tem semana que só chegam duas folhas para casa, no máximo.
“Acho que poderia ter um pouco mais. Meu filho acaba não se sentando para estudar por conta própria por não ter a obrigação. Acho que não precisaria ser tanto dever, mas poderia ter uma frequência diária, no mínimo”.
Por outro lado, a advogada carioca Mylene Brasil reclama da quantidade exagerada de deveres que seu filho leva para casa. O menino de 10 anos está no 4° ano do ensino fundamental e é aluno de escola particular. Ela sente que a criança acaba tendo pouco tempo para brincar por conta também de outras atividades, como esportes.
“Às vezes são 3 folhas de uma matéria e 4 de outra no mesmo dia. Por mais que seja para datas diferentes, como tem dever encaminhado todo dia, se não fizer a medida em que eles vão sendo mandados, acaba acumulando de alguma forma.
Dever de casa deve acabar ou diminuir quando o ensino integral for uma realidade
O professor Sérgio Leite destaca que o futuro da lição de casa está demarcado, porque a política de escola integral é inevitável. A meta 6 do Plano Nacional de Educação (PNE) é oferecer educação em tempo integral em, no mínimo, 50% das escolas públicas, de forma a atender pelo menos 25% dos alunos da educação básica.
Mas enquanto o ensino integral não é realidade para a maioria das escolas, é importante que as tarefas de casa sejam adequadas para terem adesão e engajamento.
Uma pesquisa da Secretaria Estadual de Educação de São Paulo realizada em 2015 apontou que 85% dos responsáveis participam de alguma forma do dever de casa.
Sem celular na escola: alunos citam 'crises de abstinência', melhora nas notas e mais socialização; 'como a saída de um vício', diz professora
Reforço escolar auxilia estudantes com dificuldades na hora de fazer o dever de casa