Enem 2024: g1 faz plantão tira-dúvidas ao vivo

Transmissão será nesta quinta-feira (31), às 15h. Professores vão discutir assuntos que podem cair na prova. Enem 2024: g1 faz plantão tira-dúvidas ao vivo Transmissão será nesta quinta-feira (31), às 15h. Professores vão discutir assuntos que podem cair na prova. A primeira prova do Enem 2024 é neste domingo (3).. O g1 receberá professores para comentar temas que podem cair na prova.

Metade dos ministros da Educação no mundo deixa o cargo antes de cumprir 2 anos na função, diz Unesco

Cidade pobre, educação boa – qual o segredo e o futuro dos bons resultados no Ceará?
Relatório levou em conta os titulares de 211 países, de 2010 a 2023. No Brasil, 14 homens foram chefes do MEC nesse período (quatro só no governo Bolsonaro). Abraham Weintraub foi um dos quatro ministros da Educação no governo Bolsonaro
JN
De janeiro de 2010 a outubro de 2023, 51% dos ministros da Educação de 211 países abandonaram o cargo antes de completarem 2 anos na função. Essa alta rotatividade prejudica a implementação de reformas educacionais e dificulta melhorias nos índices de aprendizagem (leia mais abaixo).
É o que aponta o relatório de Monitoramento Global da Educação, divulgado nesta quinta-feira (31) pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco). O levantamento analisou as gestões de 1.412 ministros e concluiu que apenas 1 a cada 5 manteve-se no poder por pelo menos 4 anos.
➡️No Brasil, ao longo desse mesmo período (2010-2023), 14 homens foram titulares do MEC, considerando os 5 mandatos presidenciais (de Lula, Dilma Rousseff, Michel Temer, Jair Bolsonaro e novamente Lula) e incluindo Luiz Cláudio Costa, interino em 2015. A contagem não considera o nome de Carlos Decotelli, que foi nomeado para a pasta em 2020, mas não chegou a tomar posse – o currículo dele continha informações falsas sobre titulações acadêmicas.
Por que a troca frequente de ministros é um problema?
Segundo a Unesco, é possível afirmar que:
diante do alto número de demandas na educação, não há tempo hábil para desenvolver programas de relevância;
quando um líder é sucedido por alguém que tem opiniões divergentes da sua, as iniciativas educacionais podem voltar “à estaca zero” (o ideal seria ter uma política de continuidade, com diálogo e aliança para reformas);
quanto maior a rotatividade ministerial, pior é o desempenho de projetos nacionais na área, de acordo com análise do Banco Mundial em 114 países.
A pesquisa também destaca que apenas 23% dos ministros da Educação que assumiram a função entre 2010 e 2023 tinham alguma experiência prévia relacionada a ensino em escolas.
👩‍🏫Questões de gênero: poucas ministras mulheres
Considerando todas as lideranças políticas na área, as parlamentares mulheres deram maior prioridade aos investimentos em educação, mostra o relatório da Unesco.
Ainda assim, a presença delas continua sendo inferior à deles nos cargos de gestão: entre 2010 e 2013, 23% dos titulares de ministérios da Educação eram do sexo feminino; de 2020 a 2023, 30%. Em outras palavras: no mundo, de cada 10 ministros da Educação, 7 eram homens, mostram os dados referentes ao ano passado.
🔴Programas de formação de gestores escolares são incompletos, diz Unesco
Evidentemente, os ministros não são a única autoridade decisiva para o sucesso das escolas. O relatório da Unesco reforça a importância de um nível hierárquico local: os diretores de cada colégio.
Analisando os programas de formação oferecidos a eles antes de assumirem o cargo ou durante a gestão, nota-se que apenas 20% contemplaram as quatro habilidades essenciais:
definir expectativas (de professores, funcionários e alunos);
focar na aprendizagem dos estudantes;
promover a colaboração entre todos;
desenvolver os recursos humanos (ao proporcionar melhores condições de trabalho na escola).
O estudo considerou o sistema educacional de 92 países. Na metade dos casos analisados, só um dos itens acima é abordado ao formar diretores.
✏️E por que é tão importante que os diretores escolares sejam capacitados?
Nos Estados Unidos, bons líderes escolares foram responsáveis por uma melhoria de 27% no rendimento dos estudantes de seus respectivos colégios. O único fator que produziu mais impacto do que isso foi a formação dos professores, diz a Unesco.
Os gestores podem garantir um ambiente mais saudável a todos, prevenindo práticas de bullying e proporcionando segurança a alunos e funcionários.
Eles são essenciais para a implementação eficaz de reformas na escola.
A Unesco reforça que cabe aos diretores compartilhar a liderança e promover um ambiente colaborativo, em que os docentes tenham autonomia e participação nas decisões.
“Para que um sistema educacional funcione bem, os líderes em diferentes níveis hierárquicos devem trabalhar na mesma direção para alcançar seus objetivos”, diz o documento.
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US$ 55 por aluno: quantia investida em 2 dias por países ricos é a mesma de um ano inteiro em nações pobres

Cidade pobre, educação boa – qual o segredo e o futuro dos bons resultados no Ceará?
Desigualdade mostra situação crítica da educação especialmente em países africanos. Grupo econômico do qual Brasil faz parte fica em faixa intermediária: investiu 1.273 dólares por criança em 2022, mostra relatório divulgado nesta quinta (30). Na zona rural de Uganda, crianças percorrem trechos longos a pé para chegar à escola
Escola em Uganda
Países de baixíssima renda, como Afeganistão, Etiópia, Guiné-Bissau e Mali, gastaram, durante o ano inteiro de 2022, apenas 55 dólares (cerca de R$ 318, na cotação atual) com cada criança em idade escolar. Já nas nações cuja população tem salários mais altos (EUA, Reino Unido, Itália e Alemanha, por exemplo), o investimento público foi de 8.532 dólares (R$ 49,3 mil) por aluno.
💰A título de comparação: a quantia que um país africano gasta ao longo de 12 meses com um estudante é equivalente à que os ricos despendem… em cerca de 2 dias da vida escolar de uma criança.
➡️As informações estão no relatório “Education Finance Watch” (Observatório do Financiamento Educacional), divulgado nesta quinta-feira (31) e formulado a partir da colaboração entre o Banco Mundial, o Global Education Monitoring (GEM) e o Instituto de Estatísticas da Unesco.
Nos critérios do BM, o Brasil está em uma faixa intermediária de renda, junto com China, África do Sul e Colômbia, entre outros. Nesse grupo, o investimento anual por aluno em 2022 foi de 1.273 dólares (R$ 7,3 mil), apenas 2 dólares a mais do que em 2021.
O assunto foi tema de um debate entre ministros do G20 em Fortaleza, no início desta semana. Segundo o ministro da Educação brasileiro, Camilo Santana, a principal conclusão do encontro é a necessidade de priorizar o financiamento educacional em todos os países.
“[Os valores] ainda são insuficientes na maior parte do mundo para garantir a universalização e a equidade. Esse é um espaço importante para discutir esses temas", disse o titular do MEC, na quarta-feira (30).
Segundo o “Education Finance Watch”, os gastos em educação são essenciais para compensar todas as perdas no processo de aprendizagem ocorridas durante a pandemia – as habilidades de leitura e de matemática entre jovens de 15 anos caiu de 4 a 9 pontos percentuais em relação a 2018, antes da Covid.
Em países pobres, a escassez de dados não permite avaliar qual o tamanho exato do “estrago” trazido pela crise econômica e pelo longo período de fechamento das escolas.
Recursos são usados de maneira ineficiente pelos governos, diz relatório
É preciso aumentar os recursos para:
melhorar a aprendizagem dos estudantes no contexto de transformações digitais e ambientais;
alcançar os objetivos nacionais e internacionais na área (como reduzir o analfabetismo e a evasão escolar);
proporcionar um ensino inclusivo e equitativo para toda a população.
“Os recursos financeiros são usados de forma ineficiente. Os governos precisam focar na administração dessas verbas para melhorar a formação de professores, a gerência de escolas e as políticas educacionais mais efetivas”, afirma o documento.
📢Principalmente na África e na Ásia, países estão direcionando mais recursos per capita para pagar os juros da dívida pública do que para investir em educação.
Em 2022, Gana, por exemplo, gastou 166 dólares (R$ 960) por dia, para cada habitante, com os juros. Já para a área educacional, a verba direcionada foi de 64 dólares (R$ 370).
➡️Ainda que a ajuda financeira recebida por parceiros internacionais tenha aumentado em termos absolutos, a parcela direcionada para o segmento educacional diminuiu de 9,3% em 2019 para 7,6% em 2022. As áreas que passaram a ser mais priorizadas pelos “doadores” foram a de energia, de guerra (principalmente no suporte à Ucrânia) e de combate à Covid.
“Estão espremendo o orçamento da educação”, diz o Banco Mundial.
Sul da Ásia e América Latina: casos pontuais de melhorias, mesmo que insuficientes
Ainda que os números continuem sendo extremamente preocupantes, houve uma significativa melhora em casos específicos: no Sul da Ásia, o investimento por aluno dobrou de 2010 (218 dólares; cerca de R$ 1.260) a 2022 (515 dólares; R$ 2.980).
Segundo o relatório, o principal fator que levou a esse aumento foi a elevação no número de matrículas em escolas particulares – com menos estudantes no setor público, “sobrou” mais dinheiro para cada um.
Na América Latina e no Caribe, também houve um sutil crescimento (de 8%) no valor investido por aluno – saltou de 2.290 dólares (2010) para 2.478 dólares (2022).
Vídeos de Educação

Cidade pobre, educação boa – qual o segredo e o futuro dos bons resultados no Ceará?

Cidade pobre, educação boa – qual o segredo e o futuro dos bons resultados no Ceará?
Aulas extras, foco em avaliações e professores próximos da família: a BBC foi até Pires Ferreira (CE) para entender como essa cidade chegou à melhor nota da educação básica no Brasil.
Milena Costa se tornou professora em Pires Ferreira, onde salas são organizadas em forma de "U".
Vitor Serrano/BBC
Em uma casa de uma merendeira e um agricultor na zona rural de Pires Ferreira, no sertão do Ceará, nasceram seis professores.
"Meus pais diziam que educação e o conhecimento ninguém rouba", conta Milena Costa, de 24 anos, a filha mais nova da família e professora da rede municipal.
"Agora, estamos tendo a oportunidade de melhorar de vida."
Recém-aprovada no concurso para professor da cidade, Milena chora ao contar como, um a um, seus irmãos (quatro mulheres e um homem) foram mostrando que o caminho para mudar a realidade, mesmo em uma cidade de poucas oportunidades, passa pela educação.
A história da família Costa ilustra o papel que o ensino tem exercido na cidadezinha cearense de pouco mais de 10 mil habitantes, aos pés da Serra da Ibiapaba, perto da divisa com o Piauí.
O cartão de visitas dali — estampado em muros, placas e uniformes das crianças — é o resultado que a cidade vem registrando nos índices nacionais de educação.
Pires Ferreira recebeu nota 10 no último Índice Nacional de Educação Básica (Ideb) para os anos iniciais do ensino fundamental, a maior nota no Brasil.
O Ideb é o principal índice da educação básica do Brasil e é calculado com base em dois indicadores: a taxa de aprovação escolar; e as médias de desempenho nos exames aplicados pelo Sistema de Avaliação da Educação Básica (Saeb), no quinto e no nono ano do ensino fundamental e terceiro ano do ensino médio.
As cidades com melhor e pior IDEB do país. Dados do Ideb 2023, para os anos iniciais do ensino fundamental
BBC
Ao mesmo tempo, a cidade é uma das mais pobres do Ceará e até do país.
No ranking do Produto Interno Bruto (PIB) per capita, que é a soma das riquezas produzidas pelo município dividido pelo número de habitantes, é o 5477º entre 5570 municípios.
No ranking de renda média de trabalhadores formais, é o 5532º, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).
Os resultados expressivos da educação em Pires Ferreira, porém, fazem com que haja, entre analistas e a própria população, uma expectativa de que a situação da economia local mude no futuro próximo.
"Em algum momento, vai haver retorno", opina Victor Hugo de Oliveira, analista de políticas públicas do Instituto de Pesquisa e Estratégia Econômica do Ceará (Ipece).
É certo que a economia de Pires Ferreira — movida pela pesca, agricultura e pequenas olarias — não vai absorver todos os estudantes que estão se formando e vão alçar voos em universidades e empresas longe dali.
Mas Oliveira argumenta que o resultado do bom desempenho da educação local pode vir de várias formas, seja com a volta de alguns profissionais qualificados ou, em última instância, com o desenvolvimento por tabela que esses filhos da terra levarão ao Estado ou ao país.
Aos pés da Serra de Ibiapaba, Pires Ferreira é uma cidade predominantemente rural.
Vitor Serrano/BBC
Mas, além de Pires Ferreira, o Ceará, de uma forma geral, tem se destacado nos rankings de educação há anos.
Qual o resultado concreto que já pode ser visto? E qual o segredo para se manter no topo?
Neste ano de eleições municipais, a BBC News Brasil visitou municípios que estão em primeiro e último lugar em rankings de indicadores sociais para investigar o que um país desigual como o Brasil pode aprender com seus extremos.
Além de Pires Ferreira, a reportagem foi à cidade pior colocada no ranking do Ideb — Manaquiri, no Amazonas.
Outra equipe visitou os municípios com melhor e pior colocação no Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) — São Caetano do Sul (SP) e Melgaço (PA).
Melhor resultado = mais dinheiro
Patrícia diz que ser uma cidade pequena ajuda, já que todos se conhecem e se apóiam.
Vitor Serrano/BBC
Dona de uma papelaria no centro de Pires Ferreira, a professora Patrícia Marques, de 31 anos, já rodou o Ceará para espalhar a experiência das escolas da cidade.
“Por conta que nós somos uma cidade pequena, as cidades maiores ficam pensando ‘poxa, como assim vocês se destacam? Não faz sentido’", diz Patrícia.
"Mas, para a gente, faz sentido, porque, por ser essa cidade pequena, todo mundo se conhece, então todo mundo se ajuda.”
Patrícia fez parte de um projeto no Ceará em que professores de escolas bem ranqueadas em provas estaduais de avaliação precisam visitar as escolas mal avaliadas para traçar estratégias que as façam se aproximar das metas.
Esse é um dos braços que fez a política educacional cearense ter tido bons resultados nos últimos anos, explica o economista Victor Hugo de Oliveira, do Ipece.
Em Fortaleza, o economista Victor Hugo de Oliveira explica que política educacional do Ceará se tornou suprapartidária.
Vitor Serrano/BBC
Em 2007 e 2008, o Ceará lançou mão de duas importantes medidas que são consideradas pontos de inflexão no contexto da educação.
Primeiro, o chamado programa de Alfabetização na Idade Certa (Paic), que tinha como objetivo priorizar a alfabetização dos alunos até o final do 2º ano do ensino fundamental.
A ideia era oferecer à educação municipal estratégias para esses anos iniciais, além de incentivar as cidades a adotar medidas de cooperação, condicionando isso ao recebimento de prêmios em dinheiro para escolas.
Depois, veio a necessidade de incorporar uma maneira de incentivar municípios a ter melhores resultados de educação.
A ideia veio por meio do repasse do ICMS, o imposto estadual sobre a circulação de mercadorias e a prestação de serviços.
Um Estado é obrigado a repassar parte do que é arrecadado às cidades, mas é livre para escolher os critérios — como o tamanho da população, por exemplo.
No Ceará, ficou decidido que os resultados educacionais seriam um fator para a escolha de qual município ganha mais.
“A ideia foi: o Ceará vai incentivar os municípios a melhorar a educação com aporte de mais recursos com melhores resultados, mas, ao mesmo tempo, vai prover um caminho para eles conseguirem melhorar”, explica Oliveira.
Esse valor não precisa ser obrigatoriamente reaplicado na educação. Pode ser direcionado a qualquer área da cidade.
Os resultados dessa política, que não foi descontinuada desde então e foi incorporada pelas próprias cidades, têm ajudado o Ceará a sanar deficiências históricas.
Cearenses superam a média nacional no número de anos de estudos em 2024. Dados da PNAD Contínua Trimestral/IBGE
BBC
Um exemplo é a média de anos de estudo da população cearense. Entre os jovens de 15 a 24 anos — ou seja, os que já foram de fato atingidos por essa política educacional —, a quantidade de anos de escola superou a média do Brasil pela primeira vez em 2024.
"Nossa cidade agora está tendo a oportunidade que aqueles mais velhos, como os meus pais, há alguns anos infelizmente não tiveram", conta a professora Milena Costa.
O Ceará também tem tido sucesso em reverter maus resultados históricos da chamada distorção idade-série, que avalia os alunos que estão fora da faixa etária adequada para sua série.
Uma análise da Fundação Getúlio Vargas (FGV) baseada em dados do Censo Escolar 2023 mostra que o Ceará hoje tem a menor taxa média dessa distorção no Nordeste e também já está em melhor situação que a média nacional.
Em Pires Ferreira, essa taxa é perto de zero. Ou seja, quase toda criança está na série em que deveria estar.
Aula extra e ranking de alunos
A rede municipal de ensino de Pires Ferreira é pequena. São 1.966 alunos e 17 escolas, incluindo a educação de jovens e adultos (EJA).
Mesmo sendo uma cidade espalhada, com 70% da população vivendo em distritos rurais, as crianças não precisam percorrer distâncias muito longas para chegar aos colégios.
Isso também quer dizer que as comunidades escolares têm uma relação de proximidade (física e emocional) com as famílias.
Na escola do pequeno povoado de Marruás dos Rosas, muitos dos professores são nascidos e criados ali, assim como a própria coordenadora.
Alunos de Pires Ferreira, como Lorena, são incentivados a participar de olimpíadas de conhecimento e recebem medalhas.
Vitor Serrano/BBC
Mãe de Lorena, uma das alunas, a dona de casa Antônia Solange Oliveira acredita que esse é um dos diferenciais dali.
"Como conhecem, eles estão sempre atentos às crianças. A gente vê que as professoras correm atrás dos melhores, junto com as famílias", diz.
Lorena, que, aos 10 anos, sonha em ser jogadora de futebol, guarda e mostra com orgulho dezenas de medalhas que ganha em competições locais e nacionais.
Participar dessas olimpíadas de conhecimento é um incentivo constante na cidade — nas casas, é comum encontrar as medalhas penduradas na sala.
Em Pires Ferreira, as escolas também fazem uma avaliação bimestral para saber se os alunos estão aprendendo o conteúdo.
Caso o aprendizado não seja o ideal, os estudantes passam a ter aulas de reforço —ou seja, se estudam de manhã, à tarde ficam com outro professor, em turmas pequenas, para aulas extras. Se necessário, esses alunos também têm aulas nas férias.
Nas salas de aula, quadros colocam alunos em rankings de acordo com resultados.
Certamente, esse foco em resultado e exercícios tem dado a Pires Ferreira sua boa colocação — já que o Ideb leva em conta resultados de provas de português e matemática e a taxa de aprovação escolar.
Mas alguns educadores do Ceará têm se tornado vozes dissonantes desta política de metas e avaliações.
A pedagoga e pesquisadora Karlane Holanda dedicou anos de pesquisa conversando com alunos em escolas por todo o Estado para entender como as crianças entendem o que ela chama de "circuito de pressão pelos resultados".
Em um dos experimentos para o doutorado na Universidade Federal do Ceará (UFC), ela analisou um momento de entrega de medalhas para o "aluno nota 10" em uma sala de aula.
"A gente queria ver como as outras crianças se sentiam. Vimos situação de choro, agressividade, crianças batendo a porta ou esmurrando a parede em casa com raiva", diz Holanda, que hoje forma professores no Instituto Federal do Ceará (IFCE) em Paracuru, no litoral do Estado.
"O sistema aqui no Estado tem fortalecido essa ideia de ranqueamento. A avaliação em provas está balizando o que os professores estão ensinando. Isso deveria ser apenas um instrumento, não um fim em si mesmo."
As famílias com quem a BBC News Brasil conversou disseram que não se incomodam com o foco em provas e competições da educação em Pires Ferreira.
A professora Milena Costa diz que a ideia não é colocar um aluno contra o outro.
"A gente conversa com os alunos em dificuldade. Não é só reconhecer os melhores resultados, a gente também entrega medalhas ao destaque do mês, que é um reconhecimento ao aluno que mostrou uma evolução, mesmo pequena, em relação à avaliação anterior."
Estado + município
Prefeita Lívia Muniz (PSB) defende união entre Estado e municípios no Ceará.
Vitor Serrano/BBC
Para a prefeita reeleita de Pires Ferreira, Lívia Muniz (PSB), o Ceará tem se destacado nos últimos anos, porque o Estado conseguiu fazer com que os municípios se engajassem em sua política educacional.
"Os prefeitos se conversam para trocar boas experiências", diz a prefeita, destacando conexões com cidades vizinhas que também têm apresentado bons indicadores, como é o caso de Sobral.
"Tenho certeza de que novas administrações virão e que isso vai continuar", completa.
Mas, além dos índices educacionais, o Ceará e seus municípios terão mudanças na realidade socioeconômico?
Victor Hugo de Oliveira, do Ipece, acredita que a resposta mais clara surgirá nos próximos anos, quando alunos que começaram a ser alvo das intervenções na educação estarão chegando ao mercado de trabalho.
O analista espera ver os dados de emprego e renda dessa geração, mas já acredita que verá resultados.
"O grande resultado de uma política educacional é dar oportunidade melhor para esses jovens, seja em Pires Ferreira ou em outro local. Esse é o legado que a educação vai deixar", diz Oliveira.
A prefeita Lívia Muniz diz que espera que os jovens retornem: "Não temos hoje grandes investimentos na cidade, mas a gente acredita que essa melhoria vai vir, porque tendo uma melhor educação, a gente vai ter melhores empregos e pessoas investindo aqui".
O economista Naercio Menezes Filho, professor do Insper e da Universidade de São Paulo, diz que alunos de cidades como Pires Ferreira, com bons índices e pouca repetência, tendem a alcançar melhores vagas no futuro.
Ele fez um estudo que mostra que esses jovens "vão trabalhar mais no setor formal da economia e entrar mais em faculdades".
Mas Menezes Filho avalia que, se a cidade não tiver condições adequadas, pode não conseguir segurar essa força de trabalho jovem.
"Mas tudo bem, não vai resolver o problema da cidade, mas o país como um todo está ganhando com pessoas mais bem formadas, né?"
Para a professora Milena Costa, não importa qual será a escolha de seus alunos, hoje no sexto ano do ensino fundamental. "Meu sonho é que eles continuem sonhando", diz.
"Pode ser que eles virem meus colegas de profissão, assim como eu virei das minhas professoras."
Em Pires Ferreira, ser professor também é sonho de crianças como Nara Ellen, de 12 anos, moradora do distrito de Otavilândia.
"Sinto que professor é uma pessoa muito importante na nossa vida. Então, eu quero fazer pedagogia, ser uma professora e ser importante na vida de muitas crianças", diz.
Nara Ellen sonha em ser professora em Pires Ferreira.
Vitor Serrano/BBC