Menores desdenham da educação e dizem ganhar mais do que médico vendendo curso para ser influencer

Como identificar e estimular crianças superdotadas
'Influenciadores mirins' tentam atrair outras crianças e adolescentes para um 'trabalho' supostamente rentável de participação nas vendas de cursos dentro da Kiwify e da Cakto. Especialistas veem indícios de trabalho infantil e exploração de imagem. Menores desdenham da educação e dizem ganhar muito dinheiro vendendo cursos
"Qual faculdade você pensa em fazer no futuro? Faculdade? Eu já ganho mais que 5 médicos no mês".
"Não me garanto em muita coisa, mas coloca um celular na minha mão pra ver se eu não faço R$ 50 mil no mês".
Frases como essas são ditas por adolescentes em vídeos publicados em contas com milhares de seguidores no Instagram e no TikTok. O g1 encontrou ao menos 33 perfis com esse tipo de conteúdo nas duas redes e monitorou essas contas nos últimos três meses.
Foram encontradas contas de pessoas que vivem em São Paulo, no Paraná e no Pará.
O conteúdo delas se resume a postagens que minimizam a importância do estudo e onde os "influencers mirins" vendem a ideia de um trabalho fácil, mostram maços de dinheiro, citam altas cifras de faturamento na bio, mas não revelam a fonte da suposta riqueza.
Eles pedem que os interessados em saber a "receita" do sucesso mandem uma DM (mensagem privada) ou acessem um link. Ali é revelado que o caminho para "ter" uma vida como a deles começa por comprar um curso hospedado nas plataformas de marketing de afiliados Kiwify e Cakto, amplamente divulgadas pelos adolescentes.
🔎 O que é marketing de afiliados: é uma estratégia de vendas em que uma empresa ou pessoa (também conhecida como infoprodutor) cria e disponibiliza seu curso ou produto em plataformas dedicadas para isso. Outras pessoas, então, divulgam esses conteúdos com links exclusivos e ganham uma porcentagem em cima da venda delas.
Os cursos, que prometem ensinar a ganhar dinheiro com a participação em vendas desses mesmos cursos, têm nomes chamativos como "O Tesouro do Tráfego Orgânico" e "Acelerador de resultados".
Eles são ministrados por outras pessoas que não os influencers. Por exemplo, no curso adquirido pelo g1, o irmão de uma menina que ostenta nas redes é quem dá as aulas.
Os conteúdos custam entre R$ 10 e R$ 200. Com isso, é necessário vender de 250 a 5 mil cursos para obter um faturamento de R$ 50 mil.
A pedido do g1, advogados especializados em direito da criança e do adolescente analisaram as postagens e disseram que podem ser casos de trabalho infantil on-line (veja o que dizem as regras abaixo).
Os adolescentes podem estar sendo usados por indivíduos mal-intencionados para praticar fraude (estelionato), avalia Kelli Angelini, advogada especialista em educação digital e autora do livro "Segredos da internet que crianças e adolescentes ainda são sabem".
A legislação brasileira define o crime de estelionato (Art. 171) como a tentativa de "obter, para si ou para outrem, vantagem ilícita, em prejuízo alheio, induzindo ou mantendo alguém em erro, mediante artifício, ardil ou qualquer outro meio fraudulento".
Neste caso, os menores podem estar sendo usados para vender cursos que prometem alto retorno, o que, na realidade, pode não se concretizar.
"É um caso gravíssimo porque as crianças que divulgam e as que assistem a isso são as verdadeiras vítimas. E o mais preocupante é como isso vem influenciando outras crianças a desvalorizar os estudos", diz Denise Auad, da comissão dos direitos da criança e do adolescente da Ordem dos Advogados do Brasil em São Paulo (OAB SP).
O g1 procurou a Promotoria da Infância e Juventude do Ministério Público de São Paulo, o Ministério Público do Trabalho e o Ministério do Trabalho e Emprego, que informaram ter repassado o caso para os setores responsáveis.
As plataformas Kiwify e a Cakto, as mais divulgadas pelos "influencers mirins", dizem não ter relação entre si.
No site Reclame Aqui, existem vários relatos citando a Kiwify e a Cakto feitos por clientes que não conseguem cancelar a compra de serviços oferecidos. Isso porque eles não conseguem encontrar os canais oficiais de atendimento ou porque os responsáveis não respondem.
Ao serem procuradas pelo g1 para falar sobre os perfis dos adolescentes que as divulgam, ambas as empresas informaram que menores de idade não estão autorizados a usar seus serviços (leia os comunicados na íntegra, ao final da reportagem).
Apesar disso, adolescentes exibem em vídeos placas comemorativas enviadas pelas plataformas para quem atinge um marco nas vendas, geralmente R$ 100 mil.
Dois deles mostraram, além das placas, cestas da Kiwify e da Cakto que incluem um espumante, bebida alcoólica cujo consumo é proibido para menores de 18 anos no Brasil. Alguns também se filmaram em eventos da Kiwify.
Pessoas ligadas aos cursos afirmaram ao g1, em condição de anonimato, que a regra da maioridade é burlada porque os registros nessas plataformas são feitos com os dados dos responsáveis pela criança ou adolescente que divulga os cursos.
No YouTube, é possível encontrar alguns vídeos que ensinam como burlar as regras da Kiwify e criar uma conta para menores de idade. O g1 procurou a plataforma de vídeos para apresentar esses casos, mas não obteve retorno até a última atualização desta reportagem.
➡️ Abaixo, você verá:
Quem são os influencers que ostentam
A tática de posts provocativos e bebida como 'prêmio'
O que tem nos cursos
As regras de trabalho e o que chama a atenção de advogados
Quem são os influencers que ostentam
Apesar de serem desinibidas para falar sobre uma suposta vida de luxo, as crianças revelam poucas informações pessoais. Não falam as idades, nem a cidade ou estado onde vivem.
Criança que recebeu um kit por ter faturado R$ 100 mil na Kiwify.
Reprodução/Instagram
Os perfis costumam se seguir, o que indica que os envolvidos se conhecem, ao menos no ambiente virtual.
As informações disponíveis nas contas seguem a mesma tática dos vídeos: na bio, elas citam o suposto faturamento do influencer e incitam os seguidores a procurá-las se quiserem ter a mesma vida.
Em alguns poucos vídeos, crianças e adolescentes dizem estar com o pai ou a mãe e até presenteiam familiares. Nas filmagens, os supostos responsáveis sempre demonstram surpresa com o trabalho altamente rentável do filho.
O g1 localizou os pais de uma menina de Minas Gerais que divulga esses cursos. No Instagram, ela tem mais de 230 mil seguidores e os vídeos publicados contam com milhares de visualizações.
O pai dela inicialmente demonstrou interesse em dar entrevista, mas logo parou de responder aos contatos.
Dias depois, também por mensagens, a mãe confirmou que a filha tem 13 anos e considera que aquilo é um trabalho, o que pode ser indício de trabalho infantil, analisa Denise Auad, da comissão dos direitos da criança e do adolescente da OAB SP.
A mãe disse ainda que a menina "tira um bom dinheiro no digital", sem informar valores. E que os pais preferem deixar o montante guardado, para que a filha administre melhor, no futuro.
Não foi possível saber se a adolescente tem autorização judicial para divulgar esses conteúdos (entenda as regras ao fim da reportagem).
Durante vários dias, o g1 tentou marcar uma entrevista com a mãe. Mas, num último contato, ela disse que conversou com o marido e eles decidiram que não queriam mais falar, para "não expor muito a imagem da filha".
Não é possível saber a idade exata das demais crianças e adolescentes que aparecem nos vídeos. Também é difícil conseguir localizar os responsáveis, ainda que o Instagram afirme em sua política de uso que contas de menores de 13 anos precisam informar na bio que aquele perfil é gerenciado pelo pai, mãe ou responsável. O TikTok não tem essa exigência.
"As próprias redes sociais admitem que seus serviços não são voltados para crianças, mas, ao mesmo tempo, elas não conseguem garantir que esse público não esteja ali", diz Isabella Henriques, diretora-executiva do Instituto Alana (ONG voltada à proteção dos direitos das crianças) e presidente da comissão de defesa dos direitos da criança e do adolescente da OAB SP.
A tática de posts provocativos e bebida como 'prêmio'
Para João Francisco Coelho, advogado do programa Criança e Consumo do Instituto Alana, existe um "modus operandi" muito claro e bem delimitado quanto ao tipo de conteúdo que vai ser publicado por essas crianças e a linguagem que vai ser utilizada.
Crianças são usadas para vender cursos de marketing digital e ostentam vida de luxo nas redes sociais.
Reprodução/Instagram
Todos os perfis analisados usam a mesma abordagem, voltada para outras crianças:
➡️ destacam que trabalham pouco tempo por dia e faturam alto:
"No meu melhor mês, eu fiz R$ 55 mil e já faturei R$ 106 mil. Eu trabalho uns 30, 40 minutos por dia. A gente até trabalha muito e estou pensando em reduzir essa carga horária", diz uma das crianças no Instagram, em tom de ironia.
➡️ relatam uma mudança de vida, dizendo que agora conseguem comprar celular caro, casa ou mesmo pagar o aluguel dos pais e tirar a família da pobreza.
➡️ não costumam mostrar esses bens materiais, apenas falam deles.
➡️ ironizam quem não está no esquema supostamente lucrativo:
"Fala mal do meu trabalho, mas depende dos pais até para cortar o cabelo", diz a legenda de um vídeo publicado no Instagram em que aparece uma menina.
➡️ citam o suposto faturamento alto no link da bio e exibem notas de dinheiro ou número de faturamento na tela dos apps da Kiwify e da Cakto.
Postagens publicadas nas redes sociais.
Reprodução/Instagram
Os influencers não dizem qual é a porcentagem que estão ganhando em cima da venda desses materiais.
Em seu site, a Kiwify afirma ficar com 8,99% e mais R$ 2,49 de cada venda de curso realizada em sua plataforma. A Cakto promete taxa zero sobre as vendas realizadas no PIX. Se for feita no cartão de crédito, a plataforma fica com 3,25%. Independente do método de pagamento, ela ainda cobra R$ 2,49 por venda.
Os preços desses cursos variam, mas geralmente costumam ficar entre R$ 10 e R$ 200.
No caso do adquirido pelo g1, que custa R$ 50, para faturar entre R$ 70 mil e R$ 100 mil por mês, como os influencers dizem conseguir, seria preciso que eles vendessem entre 1.300 a 2 mil unidades por mês desse conteúdo. Ou 46 vendas por dia — isso se as crianças recebessem integralmente o valor de cada curso.
No entanto, se elas ganham apenas uma comissão, a quantidade teria que ser ainda maior para atingir números expressivos de faturamento mensal.
Os influencers também aparecem com brindes recebidos das plataformas para celebrar marcos de vendas. Em um dos posts no Instagram, uma menina com 457 mil seguidores mostra a cesta de comidas enviada pela Kiwify. O kit tem um espumante.
A Cakto também costuma enviar brindes e mandou um espumante para essa mesma criança. Na publicação da menina, Caio Martins, CEO da Cakto, chegou a comentar: "Só não pode beber esse Chandon kkkkkkk" (veja na imagem abaixo).
Cakto também enviou espumante para a mesma menina que recebeu da Kiwify.
Reprodução/Instagram
Além dela, o g1 localizou o perfil de um outro adolescente que também exibe a cesta com a bebida, novamente enviada pela Kiwify.
Adolescente abre kit com espumante enviado pela empresa Kiwify
Reprodução/Instagram
Procurada para comentar sobre o envio do brinde, a Cakto voltou a dizer que "todos os cadastros na plataforma são realizados exclusivamente por maiores de idade e vinculados a um responsável legal". A empresa não comentou sobre o posicionamento do CEO.
A Kiwify, que negou ter enviado esses prêmios diretamente para menores, disse que vai implementar "uma revisão operacional para evitar a recorrência de situações semelhantes a essa".
"A premiação é padrão e concedida a todos os produtores que atingem o faturamento de R$ 100 mil, não havendo distinções ou privilégios para indivíduos específicos", completou a empresa.
Segundo a Kiwify, ambas as contas identificadas que receberam a bebida alcoólica pertencem a adultos.
"Essas contas estão sendo preventivamente bloqueadas para maiores investigações devido ao potencial compartilhamento indevido de login e senha", disse a Kiwify, sobre os perfis que exibiram bebidas entre os brindes recebidos.
Alguns influencers também filmaram sua presença em eventos de marketing digital da Kiwify (veja no vídeo na abertura da reportagem). Sem dar mais detalhes, a empresa disse ao g1 que "não realizou nenhum convite a eles".
O que tem nos cursos
Nem todas as crianças vendem os mesmos cursos e também não há informações detalhadas do que o consumidor verá antes de comprar.
O g1 comprou um dos cursos divulgados por meio do link afiliado disponibilizado em um dos perfis. O material, chamado "O Tesouro do Tráfego Orgânico", custou R$ 49,87 e a compra também incluía dois PDFs com dicas básicas sobre "como viralizar" no TikTok e no Instagram .
Kauã Araújo, que diz ter 20 anos, ensina na plataforma da Cakto a como ganhar muito dinheiro com afiliados.
Reprodução/Kiwify
No curso ao qual o g1 assistiu, hospedado pela Cakto, foram disponibilizadas aulas pré-gravadas dadas por um rapaz que diz ter 20 anos. Ele promete ensinar a ganhar muito dinheiro com links afiliados.
Basicamente o que faz é recomendar o cadastro nos sites de cursos, citando inclusive a Kiwify, e selecionar os conteúdos aos quais o "aluno" deseja ser afiliado, a fim de ganhar uma comissão a cada venda realizada. Segundo o jovem, é assim que as crianças têm enriquecido.
O "professor" é Kauã Araújo, de 20 anos (veja na imagem acima). Ele é do Paraná e administra o Instagram da irmã, que também publica os mesmos vídeos de ostentação e tem pouco mais de 55 mil seguidores na rede social.
No seu próprio Instagram, onde tem quase 40 mil seguidores, Kauã aparece com brindes da Kiwify e da Cakto, mas é bem menos ativo que a irmã no negócio.
Procurado pelo g1, ele mostrou interesse em dar entrevista, mas, depois, passou a ignorar os contatos.
Em uma das aulas, o Kauã menciona que muitas pessoas solicitam o cancelamento da compra: "Tem muita gente que quer reembolso. Tudo bem. Já pediu e não sei o motivo porque eu entrego tudo o que vocês precisam. Mas está tudo certo".
O g1 tentou saber mais detalhes sobre o cancelamento em caso de arrependimento neste curso. No Instagram, a Cakto orientou a procurar quem dá as aulas — no caso, o Kauã Araújo.
Antes de conseguir o WhatsApp do jovem do Paraná, o g1 tentou contato pelo e-mail de suporte dele disponibilizado assim que o comprador adquire o curso, mas não teve retorno.
A regras de trabalho e o que chama a atenção de advogados
Quatro advogados especializados no direito da criança e do adolescente assistiram aos vídeos nos perfis apontados pelo g1 e reforçaram que esses menores tratam o esquema como trabalho. E, pelo que é mostrado, estariam submetidos a trabalho infantil on-line.
No Brasil, o trabalho antes dos 16 anos só é permitido em lei para fins artísticos e com autorização judicial, explica Kelli Angelini, advogada especialista em educação digital. Isso inclui atuar com influenciador nas redes sociais.
Criança usa tom irônico nos conteúdos publicado nas redes sociais
Reprodução/Instagram
Essa autorização acontece por meio de um alvará judicial e o pedido deve ser feito no estado em que a criança mora, explica Angelini.
Desde 2018, por uma decisão do Supremo Tribunal Federal (STF), a competência para conceder esse alvará é da Justiça Comum, e não mais da Justiça do Trabalho. Os processos correm em segredo de justiça, para a proteção da criança ou adolescente envolvido.
O g1 não conseguiu confirmar com nenhuma família se as crianças e adolescentes nos perfis encontrados têm essa autorização.
Mas os especialistas ouvidos afirmaram que, muito provavelmente, um juiz jamais liberaria crianças para fazer o tipo de conteúdo mostrado nessas contas.
A partir dos 14 anos, adolescentes podem trabalhar na condição de Jovem Aprendiz. Essa modalidade está atrelada ao desenvolvimento profissional e pessoal desse jovem, o que não se vê no caso denunciado, avalia João Francisco Coelho, do Alana.
"As atividades apresentadas nos vídeos não estimulam o desenvolvimento profissional dessa criança no futuro. As mensagens passadas são contrários à intelectualidade e à educação", observa.
Denise Auad, da comissão dos Direitos da Criança e do Adolescente da OAB SP, cita outras ilegalidades que os responsáveis podem estar cometendo, como crimes ligados ao trabalho forçado, falsidade ideológica, difamação e golpes virtuais.
"As atividades exibidas nesses conteúdos, como a divulgação de produtos duvidosos, não são lícitas. Analisando os conteúdos, há fortes indícios de se tratar de um golpe, um esquema de pirâmide financeira", diz João Francisco Coelho.
Os especialistas afirmam ainda que a resolução 163 do Conselho Nacional dos Direitos da Criança e do Adolescente (Conanda) e o Conselho Nacional de Autorregulamentação Publicitária (Conar) vetam o tipo de publicidade que é visto nos vídeos.
A propaganda para crianças e adolescentes tem que ocorrer de forma segura e promovendo um impacto positivo para eles, disseram os advogados.
I. Os anúncios deverão refletir cuidados especiais em relação a segurança e às boas maneiras e, ainda, abster-se de: impor a noção de que o consumo do produto proporcione superioridade ou, na sua falta, a inferioridade;
"O conteúdo que essas redes sociais têm é chamativo para essas crianças, que não deveriam estar ali", afirma Isabella Henriques, diretora-executiva do Instituto Alana e presidente da comissão de defesa dos direitos da criança e do adolescente da OAB SP.
"Analisando esses vídeos, é possível ver um modelo de negócio que é um chamariz para que a audiência seja ampliada e em cima de um público que é altamente vulnerável", completa Isabella.
A Meta, dona do Instagram, afirmou que "não vai comentar o tema". O TikToK não havia retornado até a última atualização desta reportagem.
O que diz a Kiwify
"A Kiwify possui uma política clara e rigorosa em relação à idade mínima para o uso da plataforma. De acordo com nossos termos de uso, apenas pessoas físicas com idade mínima de 18 anos ou emancipadas, e que sejam plenamente capazes de exercer direitos e deveres na ordem civil, podem se cadastrar como usuários. Além disso, representantes de pessoas jurídicas devem estar devidamente autorizados a vinculá-las à plataforma. Ou seja, para realizar transações comerciais, é necessário ter mais de 18 anos, e as operações de vendas somente são aceitas perante comprovação de que a conta bancária seja a mesma do titular do cadastro. Os usuários são obrigados a fornecer informações válidas que comprovem sua idade e capacidade civil. Se for identificado que o usuário não atende a esses requisitos, o cadastro é automaticamente bloqueado, impedindo o uso da plataforma.
Nossa política de premiação é estruturada para recompensar o trabalho e o esforço dos infoprodutores, com base em métricas objetivas de faturamento. Esclarecemos que as premiações são enviadas exclusivamente ao titular da conta, partindo da premissa de que a gestão é feita por uma pessoa adulta, com 18 anos ou mais, já que a participação na plataforma e a venda de produtos estão restritas a maiores de idade. A partir deste momento, implementaremos uma revisão operacional para evitar a recorrência de situações semelhantes a essa.
A Kiwify se destaca por facilitar ao máximo o processo de reembolso dos compradores dos cursos de nossos usuários. Tanto que fomos, pelo segundo ano consecutivo, indicados ao prêmio do Reclame Aqui, maior prêmio de reputação e experiência do cliente do Brasil. Além disso, possuímos atualmente uma nota geral de 8.2 ("ótimo") e 83% de índice de solução neste canal.
A Kiwify, seus sócios ou quaisquer outras entidades relacionadas não possuem qualquer vínculo com essa empresa [Cakto]".
O que diz a Cakto
"Como preceitua os termos da plataforma Cakto, menores de idade são proibidos de realizar cadastros na plataforma, bem como realizar vendas utilizando a mesma. Para que o cadastro dentro da plataforma seja concluído, é necessário que seja apresentado documento pessoal com foto, do qual passa por uma rigorosa análise pelo setor de compliance. Além disso, contas que são identificadas sendo operadas por menores de idade são suspensas pelo nosso suporte.
A plataforma Cakto segue rigorosamente o que dispõe o código do consumidor quando se fala de solicitações de reembolso. Dessa forma, sempre que um consumidor solicita o reembolso direto a plataforma, o mesmo é atendido prontamente pela equipe.
Vale ressaltar que após o período de arrependimento, a plataforma somente se responsabiliza sobre vícios e problemas com os produtos na plataforma, após esse período de 7 dias o reembolso deve ser solicitado diretamente ao vendedor.
A empresa Cakto não possui qualquer relação com a empresa Kiwify".
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De Alice à Gonzaga de Sá: entenda o que os livros da 2ª fase da Unicamp têm em comum e como se preparar para interpretá-los

Como identificar e estimular crianças superdotadas
Professor de literatura comenta relação entre as histórias e os enredos das obras do vestibular; segunda fase da Unicamp ocorre nos dia 1º e 2 de dezembro. Ilustração presente na versão original de "Alice no País das Maravilhas"
Wikimedia Commons
"Alice no País das Maravilhas", "Olhos d’água", "A vida não é útil", "Vida e morte de M.J. Gonzaga de Sá" e "Niketche – uma História de Poligamia" são algumas das obras literárias indicadas pela Unicamp para o Vestibular 2025 e, embora escritas em épocas diferentes, seus personagens centrais estão mais ligados do que se imagina.
Atravessadas por temas como repressão e opressão, as obras têm aspectos comuns e atuais, que exigem dos candidatos análise de contexto e reflexão crítica, como explicou o professor de redação Kauan Taiar Schiavon, do colégio Oficina do Estudante, em entrevista ao g1 (confira os detalhes abaixo).
✍️ No total, 13.011 estudantes devem prestar a segunda fase do processo seletivo. A prova, que conta com questões de literatura e está marcada para os dias 1º e 2 de dezembro.
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A temática da repressão
Segundo o professor, um ponto em comum nas obras e que deve ser observado com cuidado pelo candidato é a temática de opressão e repressão.
"Quando a gente analisa as obras, todas vão trazer, a partir de uma diversidade econômica, social, ambiental, a ideia de uma repressão, opressão. Por exemplo, na obra da Conceição Evaristo, temos a repressão e opressão da população negra e pobre. A questão racial também é vivida por Gonzaga de Sá, de Lima Barreto".
"Já quando olhamos para Morango Mofados, de Caio Fernando Abreu, nos contos escolhidos pela Unicamp, temos a repressão e a opressão sofridas pelas pessoas homossexuais. No livro de Paulina Chiziane, temos a repressão patriarcal, sofrida pela Rami e, até mesmo a Alice, no País das Maravilhas, é oprimida. E por quê? Porque ela é questionadora".
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Sob a ótica da atualidade
As leituras também podem trazer aspectos relacionáveis a temas da atualidade, como pontua Schiavon.
“A Casa Velha, de Machado, vai trabalhar muito a questão das aparências e dos interesses individuais. Conseguimos associar a obra para o hoje, em como vivemos numa sociedade muito mais individualista, por conta das redes sociais, e muito preocupada com as aparências".
"Esta questão de viver de aparências a gente pode ver já na personagem D. Antônia, que faz de tudo para separar o filho de uma menina que não era de uma família rica. Podemos ver também, de novo, a repressão aparecendo. Então, é muito legal ver como as obras conversam", explica o professor.
Outro aspecto que Schiavon destaca é a questão do consumismo que atravessa as obras de Ailton Krenak e de José Paulo Paes, também indicadas como leituras da Unicamp.
“É importante o aluno pensar em todo o contexto da obra, quando ela foi escrita, por quem foi escrita e o motivo dela estar escrevendo o que está escrito, o motivo por aquele tema estar presente daquela história", completa.
Segunda fase da Unicamp
A segunda fase será realizada nos dias 1 e 2 de dezembro de 2024, com duração de cinco horas em cada dia – o tempo mínimo de permanência é de duas horas.
As avaliações têm uma parte comum para todos os candidatos e uma parte diversificada, de acordo com a área de conhecimento do curso escolhido em 1ª opção.
Cada questão dissertativa vale quatro pontos, cada uma contendo dois itens, valendo dois pontos cada. As questões são dissertativas e seguem a distribuição:
📝 PRIMEIRO DIA – provas comuns a todos os candidatos:
Prova de redação, composta por duas propostas de textos para que o candidato eleja e execute apenas uma proposta;
Prova de língua portuguesa e literaturas de língua portuguesa, com seis questões;
Prova interdisciplinar com duas questões de língua inglesa e duas questões interdisciplinares de ciências da natureza.
📝 SEGUNDO DIA – provas comuns a todos os candidatos:
Prova de matemática, com seis questões para os cursos das áreas de ciências exatas/tecnológicas; quatro questões para os cursos das áreas de ciências biológicas/saúde e quatro questões para os cursos das áreas de ciências humanas/artes;
Prova interdisciplinar com duas questões interdisciplinares de ciências humanas.
📝 SEGUNDO DIA – provas de conhecimentos específicos, conforme a opção de curso:
Candidatos da área de ciências biológicas/saúde: prova de biologia com oito questões; prova de química, com seis questões.
Candidatos da área de ciências exatas/tecnológicas: prova de física, com seis questões; prova de química, com seis questões.
Candidatos da área de ciências humanas/artes: prova de geografia, com seis questões; prova de história, com seis questões; prova de filosofia, com uma questão; prova de sociologia, com uma questão.
Próximas datas
As provas de habilidades específicas para os cursos de arquitetura e urbanismo, artes cênicas, artes visuais e dança, serão realizadas entre os dias 11 e 13 de dezembro, somente em Campinas.
A primeira chamada será divulgada dia 24 de janeiro e os convocados deverão efetivar a matrícula online (não presencial) nos dias 27 e 28 de janeiro, pela página eletrônica da Comvest.
VÍDEOS: Tudo sobre Campinas e Região
Veja mais notícias sobre a região na página do g1 Campinas.

Brancos de classe média atacam cotistas porque perderam privilégio de ser medíocres, diz escritor pioneiro das cotas

Como identificar e estimular crianças superdotadas
Repercussão de casos de preconceito contra cotistas ocorre menos de um mês após o lançamento do novo livro de Jeferson Tenório, De Onde Eles Vêm, que conta história de jovem negro que entrou na universidade pública por meio das cotas. Jeferson Tenório, vencedor do Prêmio Jabuti de Literatura em 2021, foi um dos primeiros estudantes a ingressar por cotas na UFRGS
Divulgação
"Pobre", "cotistas filho da p*, "só podia ser cotista", disseram estudantes de direito da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP) a alunos da Universidade de São Paulo, durante um jogo universitário de handebol.
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A repercussão dessas imagens ocorre menos de um mês após o lançamento do novo livro de Jeferson Tenório, De Onde Eles Vêm (Companhia das Letras, 2024).
O romance que mergulha na experiência de um jovem negro que entra na universidade pública através do sistema de cotas.
O livro apresenta a história de Joaquim, um homem de 24 anos da periferia de Porto Alegre, com sentimentos conflituosos ao entrar em um mundo novo, branco e elitista.
Para o autor, o episódio dos jogos universitários exemplifica um ressentimento de uma classe média que tem herança escravagista.
"Existe uma elite acostumada a ser servida por pessoas pobres e negras. Em 15 anos, esses subalternizados passaram a ser seus colegas. Quando esses dois mundos se encontram, vemos justamente essas cenas que temos visto no meio acadêmico", diz o escritor.
"Há um sentimento de frustração. Um sentimento de entender que não adianta ter só os meios de produção, que não é mais possível ser mediano e ser medíocre e ter as coisas mais facilitadas como uma classe média sempre teve."
Tenório é vencedor do Prêmio Jabuti de Literatura em 2021 com O Avesso da Pele (Companhia das Letras, 2020), livro com mais de 200 mil exemplares vendidos que explora as relações raciais no Brasil.
A obra que conta a história de Pedro, um jovem negro que reconta a história de seu pai após seu assassinato por policiais, entrou na lista Programa Nacional do Livro Didático.
No entanto, três estados, Paraná, Goiás e Mato Grosso do Sul, pediram o recolhimento de exemplares na rede de ensino. Nas redes sociais, o autor classificou o episódio como "censura".
Ele relata a experiência de ser o primeiro estudante a concluir uma graduação na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) por cotas.
"Antes de me formar, lembro de ouvir nos corredores que seria difícil conseguir emprego, que nenhuma escola contrataria alguém formado por cotas. Diziam também que os cotistas diminuiriam as notas do curso, uma série de preconceitos que não se confirmaram", recorda.
Confira a entrevista abaixo.
BBC News Brasil – Falamos muito nos impactos econômicos da ascensão social. Mas para uma pessoa negra que está ascendendo socialmente, entrando numa universidade, por exemplo, quais são os impactos do ponto de vista psicológico e social dessa ascensão?
Jeferson Tenório – Esses são espaços historicamente marcados pela exclusão. Ao ingressar em um ambiente considerado para poucos, os alunos negros de periferia e de escolas públicas começam a enfrentar diversos conflitos.
O primeiro é a luta pela permanência. Na universidade, o aluno cotista enfrenta obstáculos que seus colegas, em geral, não enfrentam.
Meu livro aborda os primeiros cotistas. Naquela época, não havia redes de acolhimento, coletivos negros, movimentos nos diretórios acadêmicos, ou bolsas de estudo e pesquisa. Tudo era extremamente precário em termos de apoio e acolhimento.
Depois desse choque de realidade, o aluno cotista costuma vivenciar uma solidão. Em um primeiro momento, ele sente vergonha e até medo de dizer que é cotista.
Essa vergonha está ligada ao discurso de desvalorização, que questiona a capacidade desses estudantes, e ao medo de ser tratado de forma diferente por professores ou sofrer retaliações.
Um terceiro estágio surge quando o aluno cotista começa a se apropriar do ambiente acadêmico, mas também acaba sendo cooptado por ele. Nesse ponto, ele pode deixar de reconhecer as pessoas e os espaços de onde veio. Ele não consegue mais se identificar com o ambiente da periferia, nem enxergar seus antigos amigos como pares.
Isso pode levar este estudante a adotar comportamentos refratários ao lugar onde cresceu, criando uma sensação de estar dividido entre dois mundos, quase como se tivesse traído suas origens.
Meu livro explora essa questão: até que ponto esses alunos cotistas precisam ser aceitos, e qual é o preço de buscar aceitação em um ambiente tão branco, burguês e elitista?
BBC News Brasil – Já se passaram mais de dez anos da implementação das cotas e hoje, como você disse, já temos uma rede maior de apoio, por exemplo, nas universidades. Mas este ano vimos episódios como insultos a alunos cotistas ou mesmo o suicídio de um aluno bolsista de um colégio de elite em São Paulo. Por que esse ambiente continua tão hostil?
Tenório – É um ambiente hostil, porque é a natureza da universidade. É um ambiente competitivo, frio, anti afetuoso. É um lugar em que se privilegia muito mais a questão da razão. Como se não houvesse espaço para outro tipo de relação com o conhecimento.
Este caso recente aconteceu nos jogos universitários, que sabemos que têm um histórico de gritos misóginos, preconceituosos já há algum tempo. Esse ambiente esportivo também é quase como se fosse uma autorização para dizer e fazer qualquer coisa.
Também são alunos que muitas vezes ainda são calouros que ainda não fizeram uma discussão a partir de pressupostos teóricos. Ou seja, ainda não teve essa experiência e ainda vem com essa bagagem preconceituosa e racistas.
Mas existe um embate também com alunos que passam a conviver com alunos cotistas, que tem a ver também com uma herança escravagista.
Existe uma elite acostumada a ser servida por pessoas pobres e negras. Em 15 anos, esses subalternizados passaram a ser seus colegas. Quando esses dois mundos se encontram, vemos justamente essas cenas que temos visto no meio acadêmico.
É um ressentimento de uma branquitude e medo da perda de um espaço que é desigual. E um desejo de uma manutenção dessa desigualdade, que se demonstra a partir de um desses marcadores sociais.
Como disseram alunos de medicina em 2022, também em um evento esportivo: "Sou playboy, não tenho culpa que seu pai é motoboy". Ou dizer que é pobre e cotista, como nesse episódio recente.
É uma forma de desvalorizar o que, na verdade, é um direito e uma conquista. Há essa inversão de valores justamente por esse medo e receio de uma perda de espaço.
BBC News Brasil – A raiz deste ressentimento da classe média é a mudança promovida pelas cotas?
Tenório – O filme Que Horas Ela Volta? (2015) explicita bem o início disso. Como a filha da empregada passa num dos vestibulares mais concorridos para arquitetura, e o filho da patroa, que tem tudo, não consegue passar?
Há um sentimento de frustração. Um sentimento de entender que não adianta ter só os meios de produção, que não é mais possível ser mediano e ser medíocre e ter as coisas mais facilitadas como uma classe média sempre teve. É um momento também dessa branquitude ser educada pela presença de cotistas.
Essa ideia de que é a universidade precisa ser diversa, ela tem que acontecer na prática. As cotas propiciam que haja justamente esses contatos. Essa convivência que faz bem para todo mundo.
Inclusive, para essa classe burguesa branca, que muitas vezes é alienada, muitas vezes não se dá conta, ou seja, não tem uma postura ética em relação ao outro, não se preocupa com o outro.
As cotas vão muito além de beneficiar pessoas negras e pobres, mas também ajudam nessa educação da branquitude.
BBC News Brasil – É inegável que houve uma efervescência no debate racial no país. Mas esse avanço alcançou as pessoas brancas? Elas também se engajaram em reflexões sobre a branquitude? Onde você enxerga que o debate racial avançou?
Tenório – Tivemos sim um avanço nas discussões raciais na universidade. É muito difícil hoje em dia que um professor, seja qual for a disciplina, em algum momento não passa por isso por esses temas, mesmo nos núcleos mais duros, como física, matemática, medicina.
Nesse sentido, houve um avanço e há quase uma naturalização já desse discurso na universidade. O que acontece é que a universidade não dá conta de como esse discurso chega na sociedade. Nisso, avançamos pouco.
O debate na universidade é muito efervescente, muito vivo, mas quando vai para a sociedade, para o grande público, fizemos pouca coisa. Para usar uma expressão da moda, estamos numa bolha.
Quem se importa que um estudante tenha dito aquelas coisas, quem acha que é que o que ele disse é racista, preconceituoso, é uma bolha. O grande público não está preocupado com isso.
Tenório levanta como bandeira a formação de novos leitores
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BBC News Brasil – Você é de uma geração que lutou pelas cotas e também foi beneficiada por elas. Como foi sua experiência pessoal nesses ambientes?
Tenório – Entrei na universidade pública em 2004, no Bacharelado em Letras, sem as cotas. Na época, o sistema ainda não existia na UFRGS.
Não era exatamente o curso que eu queria, mas não consegui trocar. Trabalhei muito durante esse período e continuei no curso. Estudava para ser tradutor, mas o que eu realmente queria era ser professor.
Em 2007, começou o movimento na UFRGS pela implementação das cotas. Foi uma discussão intensa, com ocupações da reitoria.
Em 2008, as cotas foram finalmente implantadas, e fiz o vestibular novamente. Passei para o curso que queria: Licenciatura em Letras.
Me formei em 2010, aproveitando as disciplinas já cursadas. Com isso, me tornei o primeiro cotista negro a concluir a graduação na UFRGS.
Antes de me formar, lembro de ouvir nos corredores que seria difícil conseguir emprego, que nenhuma escola contrataria alguém formado por cotas. Diziam também que os cotistas diminuiriam as notas do curso, uma série de preconceitos que não se confirmaram.
Logo após me formar, fui contratado por uma escola particular em Porto Alegre. Durante a entrevista, mencionei que era cotista, e a diretora respondeu: "É exatamente esse perfil que queremos para nossa escola. Estamos trabalhando com questões antirracistas e queremos um professor que tenha essa experiência".
Nada do que disseram sobre as cotas se confirmou. Pelo contrário, minha trajetória como cotista foi um diferencial positivo.
BBC News Brasil – Era também um ambiente hostil para você?
Tenório – A universidade sempre foi um espaço hostil, antes e depois das cotas. Nunca foi acolhedora, especialmente para quem vem de onde viemos — das periferias, com outra bagagem e outra experiência de vida.
Demorei muito para perceber as violências que sofria dentro desse ambiente. Elas não eram apenas explícitas, mas também estavam nos discursos de alguns professores, que não legitimavam determinados conteúdos ou autores.
Por exemplo, só descobri que Machado de Assis era negro durante o mestrado, em 2013. Foi nessa mesma época que li Carolina Maria de Jesus pela primeira vez.
Essa invisibilidade é uma violência. A universidade oferece um tipo de conhecimento como se fosse universal e único, desconsiderando outros saberes.
A minha experiência não foi tão dura quanto a do Joaquim, personagem do meu livro, porque, quando entrei pelas cotas, já conhecia minimamente os mecanismos da universidade. Já tinha alguma experiência acadêmica, o que ajudou a diminuir o impacto inicial. Ainda assim, foi uma vivência hostil.
BBC News Brasil – No seu livro, você usa a expressão "eterno estrangeiro", que remete a ideia de um não lugar. Hoje, como escritor negro, sente isso?
Tenório – Hoje, compreendo melhor minha trajetória, e isso me tranquiliza. Entendi que nossas origens são, em grande parte, inventadas ou imaginadas. Não temos uma origem documentada. Não sei quem foi meu tataravô ou de qual país africano vieram meus ancestrais.
Isso nos obriga a inventar uma história, criar uma ideia de origem que, na realidade, não existe. Essa compreensão me levou a aceitar que temos uma "raiz movente". É como se tivéssemos raízes, mas elas estão em constante movimento.
Quando entendi isso, percebi que me apegar a uma origem fixa não faria de mim uma pessoa melhor. Precisamos construir e reconhecer nossas histórias, mesmo sabendo que muitas delas são imaginadas.
Isso também me ajudou a lidar com o conhecimento ocidental, que é branco e dominante. Decidi aproveitar o que ele tem de melhor e criticar o que há de pior. Continuo fazendo isso.
Em De Onde Eles Vêm, isso é evidente no Joaquim: ele lê autores brancos e europeus consagrados, mas também os questiona. E, ao mesmo tempo, busca se aproximar de uma literatura produzida por autores negros. Esse movimento, para mim, é uma forma de retorno às origens, mesmo reconhecendo que essas origens são, em parte, fruto de uma construção imaginada.
BBC News Brasil – Na terça-feira (19/11), uma pesquisa mostrou que, pela primeira vez, a maioria das pessoas no Brasil não são leitoras. Como você recebe esse dado?
Tenório – É um dado assustador, sem dúvida. E, se compararmos com outros países, a situação é ainda mais alarmante. Na França, por exemplo, a média é de 22 ou 23 livros por pessoa por ano. Aqui no Brasil, estamos em torno de 2,1 livros por ano. É um número muito baixo.
Por outro lado, precisamos refletir sobre o que significa ler. Será que a leitura se restringe a livros? A música, por exemplo, não pode ser considerada também uma forma de letramento?
O rap, o hip hop, o slam… Estou citando a música porque ela foi uma parte importante da minha formação como leitor. Na minha infância e adolescência, não tinha livros por perto, mas a música foi meu primeiro letramento estético. Ela também me educou sentimentalmente. E, pensando nos adolescentes de hoje, quando estão nas redes sociais, o que estão fazendo? Apenas consumindo vídeos ou também escrevendo e lendo?
Talvez ainda tenhamos a ideia de um "leitor ideal", aquele que senta sozinho com um livro, mas há outras formas de letramento acontecendo. Hoje, temos podcasts, que são um sucesso no Brasil, e audiolivros, que, embora menos populares, também têm um público. A leitura não é só com os olhos; pode ser também com os ouvidos.
Apesar desse cenário, não acredito que seja "terra arrasada". Claro que me preocupo, porque sou apaixonado por livros, pelo objeto em si. Por isso, meu trabalho é como o de uma formiguinha: tento formar leitores, especialmente de livros.
BBC News Brasil – Seu novo livro se estrutura em capítulos curtos e uma linguagem fluida. Hoje vivemos nesta disputa pela atenção no ambiente digital, textos cada vez mais curtos… Isso te influenciou para atrair novos leitores?
Tenório – Na verdade, a inspiração veio do Machado de Assis. Em Memórias Póstumas de Brás Cubas, por exemplo, ele usa capítulos curtos, muitas vezes com apenas metade de uma página. Isso tinha a ver com a época, já que os textos eram publicados em folhetins e precisavam ser rápidos para atrair o leitor do jornal.
Se pensarmos bem, a lógica de hoje não é tão diferente. A rapidez está presente, mas ampliada, como no TikTok, onde temos apenas segundos para captar a atenção. Mais do que a estrutura dos capítulos, minha estratégia é criar uma linguagem acessível, sem barreiras linguísticas.
Evito palavras muito sofisticadas ou inversões gramaticais complicadas, buscando uma fluidez que atraia até mesmo quem nunca leu um livro inteiro. Sempre escrevo pensando no que gostaria de ler quando era jovem e não tinha tantas oportunidades.

Vestibular Unificado UFSC/IFSC/IFC: locais de prova e cursos com maior concorrência são divulgados

Como identificar e estimular crianças superdotadas
Seleção única que oferta 6,7 mil vagas para as três instituições tem 23.961 inscritos. Provas acontecem em 7 e 8 de dezembro. UFSC, IFSC e IFC
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Os 23.961 inscritos no Vestibular Unificado UFSC/IFSC/IFC 2025 já podem consultar os locais de prova e a relação candidato/vaga para cursos de ensino superior ofertados pela Universidade de Santa Catarina (UFSC), Instituto Federal de Santa Catarina (IFSC) e Instituto Federal Catarinense (IFC).
A liberação da consulta aos locais de prova e da concorrência pelos cursos foi feita nesta sexta-feira (22). São 6,7 mil vagas para 204 cursos em 34 cidades-sede.
As provas acontecem em 7 e 8 de dezembro e o resultado será válido para o ingresso em cursos de graduação das três instituições.
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Confira o EDITAL do vestibular unificado
Os locais de prova podem ser consultados pelo candidato na página do vestibular. É necessário fazer login no cadastro feito para a inscrição.
Cursos mais concorridos
UFSC: medicina é o mais concorrido nos três campi em que é ofertado. No Campus de Florianópolis a relação candidato/vaga é de 67,01; no Campus de Araranguá a disputa é de 43,14 e no Campus de Curitibanos, onde é ofertado pela primeira vez, o índice é de 50,17.
IFSC: o curso de graduação mais procurado é análise e desenvolvimento de sistemas, turma noturna, no campus de São José, com índice de 7,15.
IFC: o mais disputado é medicina veterinária, em Araquari, com a relação candidato/vaga em 5,25.
Horários das provas
13h: acesso liberado aos locais de prova
13h45: fechamento dos portões
14h: início das provas
16h30: horário mínimo para que o candidato deixe a sala
19h: término do horário de realização das provas
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Como identificar e estimular crianças superdotadas

Como identificar e estimular crianças superdotadas
Especialistas alertam para a importância do diagnóstico precoce e do suporte adequado às necessidades de crianças com habilidades excepcionais. Identificar superdotação em bebês e crianças envolve observar uma série de características que os diferenciam dos demais.
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A advogada Marcela Monfredini não esperava que seu filho Diógenes, de seis anos, fosse uma criança que, antes mesmo de chegar ao primeiro ano do ensino regular, conseguisse fazer multiplicações e até desenhasse o alfabeto grego.
Ela conta que desde pequeno o menino sempre gostou de placas, e quando ainda era bebê já identificava algumas letras.
"Na parte da piscina do prédio tinha uma placa bem grande de manutenção e ele já começava a soletrar, inclusive com os acentos", relembra.
Mesmo diante desse avanço intelectual, a advogada conta que o filho era muito introspectivo, não brincava com outras crianças e ficava sempre mais recluso. Marcela chegou a pensar que o garoto era autista ou sofria com transtorno do déficit de atenção com hiperatividade (TDAH).
Quando o menino começou a frequentar a escola, os bilhetes sobre seu comportamento também não eram positivos.
"Eram relatórios ruins, que diziam que ele era uma criança que não se adequava e que só queria ficar com adultos", relembra.
Foi então que Marcela começou a ir atrás de mais informações. Ela viu uma reportagem sobre crianças superdotadas e, a partir daí, procurou clínicas que realizavam testes específicos para ver se o filho se encaixava nessa classificação.
No primeiro exame, quando ainda tinha três anos, ele foi diagnosticado com superdotação e com o dobro da idade intelectual. Na época, ela e o marido chegaram a mudar o menino de escola, pois acreditavam que o local "estava sabotando" as habilidades do garoto.
"Quando informei, as professoras disseram que já sabiam e eu questionei por que não haviam me falado nada", afirma.
Após um ano e meio, a criança realizou novos testes. Os resultados indicaram um aumento em sua capacidade cognitiva, e ele foi admitido na Mensa, organização internacional para pessoas com alto QI, presente em diversos países e com mais de 150 mil membros. A entidade funciona como um apoio ou mentoria para indivíduos superdotados.
Para ingressar na organização, é preciso demonstrar capacidade intelectual acima de 98% da população geral. A admissão se dá por meio de testes de QI, aplicados por profissionais credenciados. Na Europa, a Mensa utiliza testes próprios, enquanto países como EUA e Brasil adotam testes padronizados, aprovados por órgãos reguladores locais. Cada país membro da Mensa possui regras específicas para aplicação dos testes, adequadas à legislação local.
A comparação de resultados entre diferentes testes não é válida, dada a variação de parâmetros. O critério de admissão se baseia no percentil do candidato, que deve estar acima de 98. Em alguns países, o número aceito pode ser até de 89.
Brasil pode ter milhares de superdotados que não sabem de seu alto QI
Diagnóstico de altas habilidades
Identificar superdotação em bebês e crianças envolve observar uma série de características que os diferenciam dos demais. Renata Yamasaki, neuropsicóloga pela Unifesp, explica que "bebês superdotados geralmente apresentam um desenvolvimento cognitivo acelerado em comparação a seus pares".
Esse público pode demonstrar atenção prolongada, capacidade de resolver problemas e habilidades de memória acima da média para a idade. Isso se reflete em marcos de desenvolvimento, como a fala e a caminhada precoces, além de alta curiosidade e reatividade sensorial.
Roberta Zunega, neuropsicopedagoga e especialista em Neurociência Aplicada à Educação pela Santa Casa de São Paulo, complementa: "Desde a infância, costumam exibir um alto grau de atenção e curiosidade, conseguindo focar em objetos e indivíduos por períodos mais longos do que a média."
Marcela confirma que o hiperfoco era algo frequente na vida do filho antes do diagnóstico. Muitas vezes, relata, ele se concentrava em uma atividade específica e não conseguia parar de reproduzir determinado movimento ou palavra.
"Ele tinha um hiperfoco gritante. Ficava rodando, contava em inglês e rodava, querendo mostrar para as pessoas. Mas tinha semana que era só o alfabeto", relembra a advogada.
Esse comportamento repetitivo melhorou depois que Diógenes começou a fazer psicoterapia e outras atividades como terapia ocupacional.
A memória aprimorada também é uma característica comum, com esses bebês mostrando habilidade em guardar informações ou identificar padrões e rostos desde cedo, recordando lugares e brinquedos ou relacionando acontecimentos.
"Com quatro anos de idade, ele já escrevia frases em inglês que aprendia em desenhos, fazia contas de multiplicação", afirma Marcela.
Testes para identificar alto QI
O reconhecimento de superdotação na primeira infância permite que as crianças recebam um acompanhamento adequado para desenvolver suas habilidades.
Yamasaki enfatiza, contudo, que esse diagnóstico deve ser feito com cautela para evitar enganos e pressão indevida sobre a criança.
Geralmente, para chegar a uma conclusão são realizados testes específicos, feitos por neuropsicólogos, nos quais a criança é submetida a diversas atividades e exercícios. Detalhamos alguns deles abaixo:
Escala Bayley de Desenvolvimento Infantil: Amplamente utilizada para avaliar o desenvolvimento cognitivo, motor e socioemocional em bebês de 1 a 42 meses, abrangendo habilidades como resolução de problemas, coordenação motora e desenvolvimento linguístico.
Escala de Desenvolvimento Infantil de Griffiths: Avalia uma ampla gama de habilidades em bebês e crianças até 8 anos, incluindo desenvolvimento locomotor, pessoal-social e habilidades de coordenação. É frequentemente utilizada para detecção precoce de superdotação e atrasos no desenvolvimento.
Inventário de Desenvolvimento de Denver II: Ferramenta de triagem para avaliar fases do desenvolvimento motor, linguístico e social em crianças de 0 a 6 anos.
Escalas Wechsler Pré-escolar e Primária de Inteligência (WPPSI): Com "subtestes" adaptáveis para crianças menores, oferece uma visão do funcionamento cognitivo, como compreensão verbal e capacidade visual-espacial. Segundo Yamasaki, é o mais aplicado no Brasil.
Escala de Comportamento Adaptativo de Vineland: mede o desenvolvimento de habilidades adaptativas, como comunicação, habilidades sociais e motoras.
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Dificuldade de acesso e dados
A Mensa destaca o Brasil como o primeiro país da América Latina com o maior número de membros e o vigésimo no ranking mundial, evidenciando um interesse crescente em superdotação. Atualmente, o país com mais membros registrados na entidade são os Estados Unidos, com aproximadamente 50 mil inscritos, seguidos por Inglaterra (17 mil membros) e Alemanha (16 mil membros).
Contudo, ainda há obstáculos significativos na identificação precoce de habilidades excepcionais e na orientação para o suporte adequado dessas crianças no país. Segundo o presidente da Mensa Brasil, Carlos Eduardo Fonseca, falta incentivo e políticas públicas que facilitem o diagnóstico.
"Hoje, a Mensa tem membros em quase todos Estados, menos no Acre. Conseguimos credenciar somente agora uma psicóloga nesse Estado. Nossa dimensão tão gigantesca acaba inibindo um superdotado no interior da Bahia, ou no interior de Minas Gerais, por exemplo. Quanto mais perto das capitais, mais fácil. Além disso, são poucas escolas que vão ter uma oferta de ensino especial", diz.
Para ele, os países ricos e desenvolvidos conseguem aproveitar melhor indivíduos com altas habilidades, facilitando o acesso a testes e convívios com especialistas nos primeiros anos de vida.
"Os EUA têm um outro incentivo ali e a gama é mais alta. Não depende só de política pública. A República Tcheca, por exemplo, é a única Mensa no mundo que tem uma escola para superdotados. No Brasil, a gente está engatinhando", afirma Fonseca.
Segundo Yamasaki, crianças de famílias mais abastadas geralmente têm mais acesso a ambientes estimulantes, o que pode facilitar a identificação precoce. "Já em contextos de vulnerabilidade, a superdotação pode ser subdiagnosticada devido à falta de recursos e oportunidades", pontua.
O aspecto socioeconômico também foi sentido por Marcela ao acompanhar o filho. Após a mudança de escola e o diagnóstico, o menino passou a ter acompanhamento profissional e reforço escolar. "A gente gasta muito dinheiro com ele. Só de psicólogo e terapia ocupacional é R$ 1,7 mil. A nova escola é muito mais cara", enumera.
Outro ponto abordado por Fonseca é a subnotificação de indivíduos superdotados em famílias sem condições financeiras ou acesso à informação.
O próprio Fonseca ouviu a vida inteira que era um gênio antes de descobrir, aos 35 anos e depois da morte do pai, que tinha um QI alto. "Eu sofri muito bullying e acabei desenvolvendo alguma malícia para lidar com isso", diz.
O papel da escola e métodos de ensino
Para crianças superdotadas, ambientes de ensino adaptados ao ritmo e às necessidades de aprendizado são essenciais. Segundo Yamasaki, práticas como projetos por interesse, aceleração e agrupamento por habilidades ajudam a equilibrar o desenvolvimento acadêmico e emocional. "Essas abordagens permitem flexibilidade curricular, beneficiando tanto o avanço cognitivo quanto o desenvolvimento socioemocional desses alunos", diz.
O método Montessori e a abordagem Reggio Emilia podem ser importantes para esse público, ressalta Zunega.
O objetivo deve ser dar autonomia à criança, permitindo que ela escolha atividades conforme seus interesses e capacidades, o que reforça a responsabilidade pelo próprio aprendizado. Ambientes que incentivam a independência e o raciocínio criativo também são particularmente úteis, apontam as especialistas.
Para Yamasaki, além das metodologias, atividades extracurriculares e suporte socioemocional são necessários para um desenvolvimento equilibrado, já que esses alunos frequentemente enfrentam desafios afetivos proporcionais ao seu desenvolvimento cognitivo.
"Contar com especialistas em psicologia infantil pode auxiliar no enfrentamento de problemas como perfeccionismo, autoexigência excessiva, receio do insucesso e obstáculos na socialização", aponta Zunega.
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