Muito TikTok (ou Instagram etc.) faz mal ao cérebro: os benefícios de trocar as redes sociais por um livro

O livro ‘obsceno’ que chegou a ser banido e depois virou best-seller mundial
Neste artigo, Carmen de Labra Pinedo, professora de fisiologia da Universidade da Corunha, na Espanha, explica que a leitura melhora a memória e a capacidade de reter informações. Aluno usando o celular para jogar em sala de aula.
TV Globo/Reprodução
Está ali na mesa de cabeceira, olhando para nós de forma acusadora, aquele livro que ganhamos no Natal passado, que nos disseram que iríamos amar, que sabemos que vamos gostar, mas… chegou a hora do (aplicativo) BeReal e, depois disso, começamos a verificar o que os amigos estavam dizendo no WhatsApp.
Além disso, lemos o suficiente para a aula, ou para o trabalho… Pensamos: “Vou relaxar um pouco e depois ler (o livro)”. Porém, antes que percebamos, mais de uma hora se passou e não há mais tempo para a literatura.
Esta situação lhe parece familiar? Na era das redes sociais, o tempo que passamos lendo um livro diminuiu significativamente, principalmente entre crianças e adolescentes que têm maior probabilidade de passar horas em plataformas como TikTok ou Instagram.
📖No entanto, a neurociência revela que a leitura de livros tem efeitos muito mais positivos e duradouros no cérebro em comparação com o consumo de conteúdo nas redes.
Este artigo examina, do ponto de vista neurocientífico, porque ler um livro produz efeitos benéficos em áreas como memória, empatia e capacidade de concentração, enquanto a utilização de mídias sociais, embora gratificante a curto prazo, pode ter efeitos negativos a longo prazo.
O Brasil que lê menos: pesquisa aponta perda de quase 7 milhões de leitores em 4 anos; veja raio X
🧠Melhorar a memória e a concentração
A leitura de um livro envolve um processamento cognitivo profundo. Durante o processo, nosso cérebro ativa áreas como o córtex pré-frontal e o hipocampo, responsáveis por funções como planejamento, reflexão e memória de longo prazo. Conhecer a história e compreender um texto força o cérebro a conectar ideias e refletir sobre os temas levantados, o que fortalece os circuitos neurais associados à atenção e aprendizagem.
Além disso, este esforço intelectual promove a criação de conexões sinápticas no hipocampo, o que melhora a nossa memória e a nossa capacidade de reter informações.
🧠Diferentes tipos de gratificação
Por outro lado, o conteúdo das redes sociais é muito breve e estimulante para o nosso sentido de visão, que ativa áreas do cérebro como o núcleo accumbens, que está relacionado à gratificação imediata. Este tipo de processamento rápido e fragmentado enfraquece a nossa capacidade de concentração e a nossa capacidade de memorizar. Como consequência, este consumo de redes sociais, em vez de produzir uma aprendizagem profunda, produz uma dependência do tipo de estimulação rápida e superficial.
🧠Dosagem de dopamina
Se levarmos em conta o nosso sistema neurotransmissor, sabemos que a dopamina é o neurotransmissor que o cérebro libera em resposta a uma experiência prazerosa, e seu funcionamento difere acentuadamente quando lemos um livro e quando consumimos mídias sociais.
No primeiro caso, a dopamina é liberada de forma gradual e contínua à medida que avançamos na narrativa do livro, promovendo uma recompensa que é vivenciada no longo prazo. Esta gratificação ajuda a desenvolver a capacidade de autocontrole e a adiar o prazer imediato, habilidades essenciais na regulação emocional e na tomada de decisões conscientes.
Em contraste, as redes são projetadas para oferecer recompensas instantâneas. Cada “curtida” gera um rápido pico de dopamina no núcleo accumbens, criando um ciclo de gratificação imediata. Embora esta sensação de prazer seja intensa, ela desaparece rapidamente, e o usuário pode desenvolver uma dependência desta estimulação constante .
A longo prazo, esta dinâmica pode reduzir a tolerância à frustração e enfraquecer o autocontrole, especialmente em crianças e adolescentes.
🧠Desenvolvimento emocional
A leitura de um livro permite ao leitor explorar emoções e perspectivas através dos personagens, o que ativa áreas cerebrais associadas à empatia, como o sulco temporal superior e o córtex pré-frontal medial, contribuindo para um desenvolvimento emocional mais saudável.
O conteúdo da mídia social também gera respostas emocionais, mas, elas tendem a ser passageiras e não envolvem uma reflexão profunda. Muitas vezes, incentivam comparações sociais e podem desencadear respostas emocionais como ansiedade e baixa autoestima. Esses tipos de emoções, quando não acompanhados de um entendimento profundo, podem reduzir a resiliência emocional e dificultar o desenvolvimento da autocompreensão em crianças e adolescentes.
🧠Memória de longo prazo
O impacto na memória de ler um livro ou da navegação nas redes sociais também é muito diferente. A primeira experiência ativa constantemente o hipocampo, o que facilita a consolidação da capacidade de raciocínio, inclusive futuro. À medida que uma história se desenrola, o leitor deve reter e lembrar detalhes, personagens e acontecimentos importantes, fortalecendo a memória episódica e semântica.
Acrescente-se a isso que o processo de compreensão da leitura permite o desenvolvimento de habilidades de pensamento crítico. Já o rápido consumo de conteúdo em plataformas como TikTok ou Instagram promove uma memória de curto prazo muito limitada. O cérebro recebe uma grande quantidade de estímulos visuais e fragmentos de informações sem o tempo adequado para processá-los e integrá-los.
Como resultado, a plasticidade sináptica é afetada e a capacidade de reter informações diminui. O uso frequente das redes sociais pode, portanto, afetar negativamente as habilidades de aprendizagem e memória a longo prazo.
🧠Criação de novos neurônios
Com o tempo, a prática regular de leitura também promove a neurogênese (criação de novos neurônios) e ajuda a preservar a saúde do cérebro, reduzindo o risco de declínio cognitivo e emocional à medida que envelhecemos.
Mas o uso prolongado das redes sociais pode ter efeitos prejudiciais nestes aspectos. Isso significa que o consumo excessivo está ligado à diminuição da capacidade de atenção, ao aumento da impulsividade e, em alguns casos, a problemas de saúde mental, como ansiedade e depressão.
Para alcançar o desenvolvimento saudável do cérebro, somente a leitura oferece benefícios sólidos e sustentáveis, por isso, é fundamental que crianças e adolescentes cultivem esse hábito, deixando de lado o uso das mídias sociais. Então, sabendo tudo o que sabemos: ainda seremos preguiçosos demais para deixar nossos celulares na gaveta e abrir aquele livro que nos espera na mesinha de cabeceira? Como disse Cícero, “uma casa sem livros é como um corpo sem alma”.
Este texto foi publicado originalmente no site do The Conversation Brasil.

Festival LED Belém

Pela primeira vez, festival será realizado no Norte do país; evento vai reunir mais de 25 especialistas em 5 palestras. Eles irão debater como democratizar a educação no Brasil. Festival LED Belém Pela primeira vez, festival será realizado no Norte do país; evento vai reunir mais de 25 especialistas em 5 palestras. Eles irão debater como democratizar a educação no Brasil. Fafá de Belém, Thaynara OG, Sandra Annenberg, Mítico, Poliana Abritta, Dona Onete são alguns dos nomes confirmados para o Festival;. Gratuito, evento será realizando na Estação das Docas, no dia 27 de novembro

O que esperar do concurso nacional do MEC para professores? Estudo mostra fragilidades dos processos seletivos atuais e aponta direção

O livro ‘obsceno’ que chegou a ser banido e depois virou best-seller mundial
Ministro Camilo Santana deve dar detalhes ainda em novembro. Pesquisa da ONG Todos Pela Educação destaca que, nos concursos mais recentes, apenas 4 redes estaduais exigiram que professores dessem demonstração de aula antes de serem contratados. Concurso unificado para professores deve ser anunciado pelo MEC ainda em novembro
Divulgação
O ministro da Educação, Camilo Santana, deverá anunciar, ainda em novembro, um concurso nacional e unificado para a seleção de professores da rede pública. Por meio da mesma avaliação, será possível que um docente se candidate tanto para uma vaga de um município no Sul do país quanto para uma oportunidade no Nordeste, por exemplo.
Entre os objetivos, estão: aumentar o número de profissionais efetivos (usando critérios adequados) e elevar a frequência das contratações— sem exigir que cidades pequenas, que usualmente sofrem com problemas logísticos e orçamentários, tenham de organizar seus próprios processos seletivos.
Nesta reportagem, veja:
quais são as principais recomendações para a formulação de provas voltadas para educadores;
o que já se sabe sobre o concurso do MEC.
✏️Por que as provas atuais são consideradas 'frágeis'?
Um estudo do Todos Pela Educação, divulgado com exclusividade ao g1 nesta terça-feira (26), mostra a fragilidade dos exames atuais:
As questões costumam abordar o conteúdo de uma disciplina, mas não as práticas pedagógicas (de que forma ensinar, o que avaliar, quais atividades sugerir para a turma). A avaliação fica quase igual a um vestibular.
Entre os 23 concursos públicos mais recentes para professores de português e matemática, do 6º ao 9º ano do ensino fundamental, só os de 4 estados envolveram testes práticos. Nos demais, os docentes foram contratados sem nenhuma demonstração de aula prévia.
"Pode acontecer de uma pessoa ter muito conhecimento, mas não conseguir transferi-lo aos estudantes. A prova prática abarca isso de forma mais complexa do que exigir respostas em um papel. Mas é uma aplicação mais sofisticada, porque exige banca avaliadora e avaliações individuais", afirma Ivan Gontijo, gerente de políticas educacionais do Todos Pela Educação.
✏️E haverá prova prática no concurso? O que o MEC já confirmou?
📝FORMATO: Uma das propostas analisadas pelo MEC é usar o Exame Nacional de Desempenho dos Estudantes (Enade) no concurso. Essa prova é usualmente aplicada para ingressantes e concluintes de cursos superiores, como forma de avaliar a qualidade das graduações.
No último domingo (24), houve a estreia do Enade específico para as licenciaturas, como tentativa de obter um retrato mais preciso dos pontos fortes e das fragilidades na formação de professores. Os grandes diferenciais são:
a frequência anual (para os outros cursos, é a cada 3 anos);
e a existência de uma segunda etapa, marcada para 2025, com avaliação dos estágios obrigatórios feitos pelos estudantes.
Se o Enade das Licenciaturas for realmente adotado pelo MEC no concurso nacional de professores, as notas da edição atual já poderão ser usadas? Não se sabe. Ao g1, a pasta afirmou que "não há confirmação de datas nem definição de cronograma".
🎓ADESÃO DAS REDES: Durante o encontro de ministros da Educação do G20, em Fortaleza, no fim de outubro, Camilo Santana explicou que cada rede (municipal e estadual) escolherá se quer ou não aderir ao concurso. As que preferirem organizar seu próprio processo seletivo terão o direito de fazê-lo.
📕PROVA PRÁTICA: Até a última atualização desta reportagem, o MEC não havia se pronunciado sobre etapas que iriam além de um teste escrito.
Gontijo, do Todos Pela Educação, afirma que o concurso nacional pode abrir uma oportunidade: "liberar" as redes municipais e estaduais para se concentrarem em uma eventual segunda fase do processo seletivo.
"Seria possível, por exemplo, criar um filtro: aplicar uma prova prática apenas para os candidatos que tiraram a partir de x pontos no Enade", diz.
É algo mais viável (inclusive financeiramente) do que organizar entrevistas e demonstrações de aula com milhares de professores.
🧑‍🎓VANTAGENS: Ivan Gontijo, gerente de políticas educacionais do Todos Pela Educação, explica quais outras oportunidades poderiam surgir a partir de um concurso nacional baseado no Enade:
frequência maior de processos seletivos;
provas mais precisas, com questões bem formuladas (já que passariam pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira – Inep);
incentivo para que concluintes dos cursos de licenciatura trabalhem em sala de aula (a baixa ocorrência dos concursos acaba levando os formandos a outras áreas de atuação);
redução de custos para os estados e os municípios que aderirem à prova.
🧑‍🎓DESAFIOS: Será preciso garantir que as questões, de fato, foquem nas práticas pedagógicas. As provas atuais "desperdiçam" muito espaço com perguntas sobre legislação ou questões administrativas/burocráticas, mostra o estudo do Todos Pela Educação.
Além disso, caberá ao MEC convencer professores mais experientes — que trabalhem há mais de 10 anos como temporários, por exemplo — a fazerem o Enade. A prova tradicionalmente é ligada a estudantes que acabaram de terminar a graduação.
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Por que o alto nº de professores temporários é ruim para o Brasil?

‘Cotista, pobre’; ‘Sou playboy, seu pai é motoboy’: por que luta de classes domina jogos universitários

O livro ‘obsceno’ que chegou a ser banido e depois virou best-seller mundial
Alunos reafirmam-se como 'superiores' por critérios financeiros, étnicas ou intelectuais. Ofensas que dizem respeito a questões de raça, de deficiência ou de origem, por exemplo, são consideradas criminosas. Luta de classes em jogos universitários: torcidas demonstram racismo e preconceito
“Federal, fala baixinho, quem tem 10 mil não envelhece no cursinho!” x “10 mil reais é o preço que se paga por não ter estudado mais!”
“Eu sou solidário, pago seu curso e vou pagar o seu salário” x “Explode o seu cartão, na maior mensalidade, é lindo ver seu pai pagando a tua e a minha faculdade.”
Os versos acima, entoados por estudantes durante jogos universitários no Brasil, evidenciam que uma das modalidades dessas competições é… a luta de classes. Em uma disputa paralela, que frequentemente inclui ofensas preconceituosas (e até racistas) disfarçadas de “brincadeiras”, estão grupos de torcedores que, por razões financeiras, étnicas ou intelectuais, julgam-se superiores aos demais. Mandam um constante lembrete aos seus oponentes: “aqui não é seu lugar”.
“Nos jogos jurídicos do ano passado [em Vassouras, RJ], fiquei chocada. Antes da partida, estudantes [de uma faculdade particular do Rio] jogaram notas falsas de dinheiro na quadra, para mostrar que o pai deles pode pagar uma mensalidade”, diz Thamires Soares, aluna de direito, aprovada por cotas na Universidade Estadual do Rio de Janeiro (Uerj).
“Durante muito tempo, a gente, que é pobre e preto, não acessava a universidade pública. Agora que conseguiu, precisa vivenciar isso? Reforça o sentimento de não pertencimento.”
Na mesma cidade, um ano antes, alunos de medicina da Unig cantaram os versos: “Sou playboy, não tenho culpa se seu pai é motoboy”.
➡️São casos que se assemelham ao que aconteceu em Americana, em 16 de novembro, quando estudantes de direito da PUC-SP, na torcida, gritaram “cotistas” e “pobres” para colegas da USP. Nesta reportagem, o g1 mostra que esses episódios não são novidade nem exceção: reproduzem um comportamento violento e elitista que existe, segundo os especialistas ouvidos, desde a origem do esporte moderno.
Em resumo, você verá que:
A origem do futebol, na Inglaterra, já foi motivada por um conflito de classes.
A desigualdade social e o entendimento de que determinados espaços só podem ser frequentados pela elite (seja a “intelectual” ou a econômica) motivam as ofensas.
A rotina de bebida alcoólica e privação de sono, típica de jogos universitários, inflama ainda mais as intrigas.
Em determinados casos, as provocações não são apenas antiéticas, mas também criminosas (já houve registro de casca de banana sendo jogada em campo, para jogadores negros).
A naturalização da violência verbal nos jogos universitários precisa ser rompida, defendem psicólogos esportivos e juristas: é necessário garantir que os responsáveis enfrentem moralmente e juridicamente as consequências de seus atos.
🔴A luta de classes sempre existiu no esporte moderno, explica pesquisador
Felipe Tavares Paes Lopes, professor da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e pesquisador da violência no futebol, reforça que o que acontece nos jogos universitários segue a mesma lógica já observada na origem dos esportes modernos.
⚽“O futebol emerge de uma luta de classes entre professores e alunos na Inglaterra do século XVIII e XIX. Os docentes vinham de classes sociais inferiores, enquanto os estudantes das escolas públicas eram da elite, da aristocracia. Era uma competição extremamente violenta, e o controle da disciplina na escola era difícil, por causa dessa estratificação da sociedade”, afirma o pesquisador.
Ele conta que foi feito um “pacto social”: os jovens poderiam jogar futebol e organizar os espaços de lazer nos colégios, desde que, dentro da sala de aula, obedecessem aos mestres.
🏉No rugby, também na Inglaterra do século XIX, uma divergência por questões financeiras acabou levando à criação de duas ligas diferentes: uma para times da aristocracia, que defendiam que o esporte fosse apenas voltado ao lazer, sem remuneração aos jogadores; e uma para os clubes do proletariado, que reivindicavam o pagamento de alguma compensação aos atletas, já que eles tinham de faltar no emprego para jogar.
“É sempre importante lembrar que os pobres foram historicamente alijados das práticas esportivas”, diz Katia Rubio, professora da Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo (USP). “A competição é a metáfora de um conflito que não se realiza de forma concreta. É a metáfora da guerra.”
No Brasil, esses atritos sociais já eram observados no início do século XX, quando, por exemplo, torcedores da zona sul do Rio de Janeiro, de bairros mais “nobres”, eram recebidos de forma hostil no subúrbio carioca, explica Lopes, da Unicamp.
🔴Jogos universitários: bebida 'incendeia', mas câmeras intimidam
“Fui técnico de time universitário por muitos anos, e esses conflitos são seculares. Sempre aconteceram”, diz Flavio Venucini, professor da USP e membro do laboratório de psicologia do esporte da Unesp de Rio Claro (SP).
“Em grupo, tudo é potencializado, porque os jovens se sentem protegidos. E pense: são muitas baladas, bebida alcoólica; as coisas vão ficando piores no avançar dos dias da competição. O ambiente já está contaminado, aí você soma isso com a privação de sono e os preconceitos existentes. A situação sai do controle. É um efeito manada.”
A psicóloga Rita Calegari também reforça que, “de forma solitária, provavelmente os alunos não estariam agindo assim”. “O grupo acaba motivando um comportamento disruptivo. Um jovem sozinho tem menos potência e menos predisposição do que coletivamente a fazer comportamentos discriminatórios", afirma.
📱Venucini diz que, há algumas décadas, os xingamentos que ouvia nesses jogos eram ainda mais “pesados”, com misoginia mais ostensiva e palavrões. Ele acredita que, com a popularização dos smartphones e o avanço das redes sociais, os jovens tenham ficado mais receosos de serem flagrados proferindo alguma ofensa.
Os estudantes da PUC-SP, por exemplo, perderam o emprego em escritórios importantes de advocacia depois que o vídeo dos xingamentos viralizou na internet.
“O conflito entre faculdades públicas e privadas sempre existiu. Mas vemos uma mudança de pauta. Os temas sensíveis foram modificados, sempre em função da vulnerabilidade de cada grupo. Agora, é focado em diminuir os cotistas ou, do outro lado, os ‘filhinhos de papai’. São ataques multilaterais”, afirma o professor.
🚨Mas é importante notar que há uma diferença entre os tipos de provocação:
Quando a ofensa resvala em questões de gênero, de raça, de nacionalidade, de deficiência ou de idade (no caso de idosos), há um crime de discriminação, previsto tanto no Código Penal e na Lei nº 7.716 (sobre preconceito de raça ou de cor) como também no Código Brasileiro de Justiça Desportiva, explica a advogada Amanda Sato.
Se as “piadas” forem sobre um ser supostamente mais inteligente do que o outro, deixam de ser um problema do direito, afirma Wallace Corbo, professor de direito constitucional da UERJ e da FGV .
“‘Você é burro, você tem Q.I. menor que o meu.’ Se isso for entre pessoas da mesma raça, por exemplo, ou do mesmo gênero, que estejam querendo se ofender assim, vira uma questão de imoralidade e de incivilidade. O que me preocupa mais é quando vai para o lado de ‘sou melhor porque sou rico, porque sou branco; você está aí de favor”, diz.
🔴Preconceitos aflorados: ‘aqui não é seu lugar’
Casca de banana foi jogada contra aluno negro da UCP
Reprodução/Redes sociais
Em 2018, alunos da PUC-Rio perderam o título de campeões após denúncias de terem cometido racismo nos jogos jurídicos em Petrópolis, na região serrana do estado. Uma torcedora da universidade jogou uma casca de banana em direção a um atleta negro da UCP, e outros estudantes da mesma universidade foram flagrados imitando macacos e ofendendo integrantes da Uerj.
“O Brasil é profundamente marcado por uma desigualdade social que separa ricos de pobres e que estabelece um lugar privilegiado para quem tem melhores condições financeiras. Ao chamar uma pessoa de ‘cotista’ [como no caso de novembro de 2024], evoca-se um ‘devolvam essa pessoa para o lugar dela’”, diz Corbo.
“É uma ideia de não pertencimento, de negação de igualdade. Os jovens estão com o ânimo à flor da pele [durante os jogos] e se valem de algo mais profundo, que são os obstáculos sociais, para afirmarem que só o grupo deles pertence àquele espaço [da universidade]. Isso gera traumas nos outros. E sabemos que os cotistas são, muitas vezes, negros. No caso brasileiro, é algo que conversa com o racismo.”
Ana Júlia Viegas, de 23 anos, estuda direito na Uerj e é a primeira pessoa da família a acessar o ensino superior. Nos jogos jurídicos de 2023, no fim da competição, ela ouviu de torcedores de uma universidade particular: “sua mãe trabalha para a minha”.
“Sei que é uma ofensa para o grupo, mas levo para o pessoal. Afeta minha história. Sempre fui uma das únicas negras da sala na escola [particular], porque era bolsista. É como se as mesmas meninas que me excluíram no colégio estivessem de novo comigo na universidade, repetindo o ciclo”, diz.
Ela conta que se sente desconfortável nessas competições universitárias, mas que não deixará de participar delas. “Acho importante estar lá. Sei que são grupos específicos [que xingam], mas se você está ao lado deles e não os repreende, é conivente com o que está acontecendo”, afirma Ana Júlia. “Temos iniciativas no coletivo negro para jogos sem racismo e para a centralização de denúncias.”
Ana Júlia Viegas ouviu gritos preconceituosos durante jogos universitários
Arquivo pessoal
🔴Há soberba intelectual, dizem estudiosos
Soberba intelectual também marca gritos de torcida
Reprodução/Redes sociais
Além da questão financeira e da racial, há outro recurso de suposta superioridade para ser lançado pelas torcidas: a “inteligência”.
“Essa supremacia intelectual nada mais é do que um desejo muito infantil e imaturo de ser melhor do que o outro”, afirma Calegari.
Postada em redes sociais, uma música cantada por alunos de uma faculdade federal diz: “Chuta, cola, deixa a redação pra lá, sou semianalfabeto e faço Estácio de Sá”, em uma referência a uma instituição de ensino privada que cobra mensalidades mais baratas.
Julia Bevictori, de 29 anos, fez a graduação e a pós-graduação na Estácio. Ao ver um dos vídeos com esses versos, conta que ficou absurdada.
“Para muitas pessoas, a faculdade particular é a única opção: tem horários compatíveis com trabalho, em locais de fácil acesso para chegar a tempo depois do expediente. A maioria é pobre com cota, com Fies, com Prouni. Como fazer um curso integral? Eu nem prestei o Enem, porque não tinha base para isso nem tempo para fazer cursinho”, diz.
“Escutar de adolescentes que toda a minha luta, de ter aula até 23h20, é coisa de ‘analfabeto’ é humilhante e ofensivo. E nunca fui pra jogos universitários: trabalhava durante o dia e estudava à noite.”
🔴Como sair disso?
Universidades juntam-se para combater racismo em jogos universitários
Arquivo pessoal
Katia Rubio explica como o esporte profissional também colabora para a troca de ofensas nos jogos universitários.
“Os estádios são espaços em que palavrões e ataques são permitidos. Existe uma mensagem subliminar de que ali pode tudo. Mas é preciso ter fair play, ou seja, uma atitude respeitosa com o adversário. Não adianta que o discurso seja de esporte limpo, se a prática tem ficado cada vez mais contaminada pela falta de educação”, afirma.
Basta lembrar alguns exemplos recentes: cabeça de porco sendo jogada no campo, torcedores preparando emboscadas nas estradas para os adversários e brigas entre rivais terminando em morte.
Quando os jogadores ainda são amadores, sem preparo emocional para ouvir os ataques, “tudo incendeia”, diz o psicólogo esportivo Venucini. “São jovens que não aprenderam a lidar com as emoções de um ambiente hostil. Atletas profissionais são treinados para não se abalar”, explica.
Segundo os especialistas ouvidos pelo g1, para frear os constantes ataques, intolerâncias e confusões, é necessário:
acabar com a impunidade e garantir que os gestos terão consequências;
trabalhar a mediação de conflitos entre os torcedores, como o que foi feito na Alemanha, no futebol profissional;
proporcionar letramento racial principalmente nos cursos mais elitistas, como direito e medicina;
investir em ações afirmativas que tornem os ambientes acadêmicos cada vez mais plurais, tanto no corpo discente quanto no docente.
“Quanto mais cotistas e negros estiverem na universidade, maior será o contrangimento [de quem se opuser a eles]. É preciso que todos entendam que aquele lugar é, sim, de todos. E não adianta dizer que [os xingamentos] são liberdade de expressão do calor do momento. Nossa lei não abarca essa ideia”, afirma Wallace Corbo.
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O livro ‘obsceno’ que chegou a ser banido e depois virou best-seller mundial

O livro ‘obsceno’ que chegou a ser banido e depois virou best-seller mundial
O julgamento do livro O Amante de Lady Chatterley, no Reino Unido, acabou promovendo a obra — e levou a uma corrida às livrarias para conferir o motivo de tanto alvoroço. O julgamento do livro O Amante de Lady Chatterley, no Reino Unido, acabou promovendo a obra — e levou a uma corrida às livrarias para conferir o motivo de tanto alvoroço
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Até novembro de 1960, os britânicos eram impedidos de ler o romance O amante de Lady Chatterley por uma lei que criminalizava a publicação de textos considerados indecentes e imorais.
Mas a editora britânica Penguin Books decidiu desafiar a Lei de Publicações Obscenas imprimindo uma edição completa e sem censura do livro do escritor D.H. Lawrence.
O julgamento do processo resultante simbolizou as mudanças sociais que vinham ocorrendo nos anos que se seguiram à Segunda Guerra Mundial — e evidenciou o abismo entre o público e aqueles que se consideravam guardiões da moral estabelecida.
O Amante de Lady Chatterley havia sido publicado reservadamente na Itália e na França no fim da década de 1920, mas depois disso foi proibido em vários países ao redor do mundo, incluindo nos Estados Unidos, Austrália e Japão.
Nos anos que antecederam o julgamento, escritores e editoras do Reino Unido estavam cada vez mais preocupados com o número de livros que estavam sendo alvo de processo por obscenidade.
Em uma tentativa de apaziguar estes temores, o Parlamento britânico apresentou uma nova Lei de Publicações Obscenas em 1959, que prometia "providenciar a proteção da literatura e fortalecer a lei relativa à pornografia".
Esta emenda forneceu uma defesa para qualquer pessoa acusada de publicar um "livro indecente". Permitiu que argumentassem que uma obra deveria ser publicada se tivesse mérito literário, mesmo que a pessoa comum achasse seu material chocante.
O Amante de Lady Chatterley foi considerado controverso porque retratava um relacionamento apaixonado entre uma mulher da alta sociedade, Lady Constance Chatterley, e um homem da classe trabalhadora, Oliver Mellors.
O romance inclui palavrões e descrições explícitas de sexo, além de retratar o prazer sexual feminino.
O júri absolveu a Penguin Books, e o romance virou um sucesso.
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Lawrence disse que esperava postular o sexo como algo aceitável na literatura. Ele queria "tornar as relações sexuais [no romance] válidas e preciosas, em vez de vergonhosas".
Em 1960, a Penguin Books estava pronta para testar a Lei de Publicações Obscenas. A editora escreveu para o diretor de processos públicos (DPP, na sigla em inglês) e avisou que publicaria uma versão original do livro.
Em agosto daquele ano, Reginald Manningham-Buller, o principal consultor jurídico da Coroa, leu os primeiros quatro capítulos do romance enquanto viajava em um trem para pegar um barco para Southampton. Ele escreveu para o DPP, aprovando a abertura de um processo judicial contra a Penguin Books. "Espero que vocês sejam condenados", ele disse.
Allen Lane, o fundador da Penguin Books, estava na Espanha enquanto os acontecimentos se desenrolavam. Seus colegas o aconselharam a voltar para casa imediatamente.
O julgamento do livro O Amante de Lady Chatterley foi o primeiro do tipo sob a nova legislação, e o cenário estava pronto para um confronto entre o establishment e aqueles com visões mais liberais.
Para sustentar seus argumentos a favor da publicação do romance, a Penguin Books convocou uma série de testemunhas especializadas, incluindo 35 escritores e políticos proeminentes.
Allen Lane, o fundador da Penguin Books, editora processada por publicar a obra
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Entre eles, estava Richard Hoggart, um acadêmico e autor influente que era visto como uma testemunha chave. Ele argumentou que o romance era uma obra essencialmente moral e "puritana", que apenas incluía palavras que ele havia ouvido em um canteiro de obras a caminho do tribunal.
Em contrapartida, Mervyn Griffith-Jones, que liderou a acusação, argumentou que o sexo no livro era pornografia gratuita.
"Quando vocês virem o livro, perguntem-se: Vocês aprovariam que seus filhos e filhas lessem?", Griffith-Jones perguntou ao júri.
"Vocês o deixariam largado pela casa? É um livro que vocês gostariam que suas esposas e empregados lessem?"
Ele também listou quase 100 usos de palavrões em suas páginas. O juiz Byrne, que presidiu o julgamento, ressaltou que o baixo preço do livro significava que ele "estaria disponível para todos lerem".
Essas declarações são frequentemente citadas como representativas das atitudes ultrapassadas do establishment britânico da época.
Em 2 de novembro de 1960, após um julgamento de seis dias, o júri levou três horas para deliberar e chegou a uma decisão unânime. A Penguin Books foi considerada "inocente" perante a lei.
O livro O Amante de Lady Chatterley foi colocado à venda logo depois, uma vez que a editora havia se preparado para distribuí-lo em caso de absolvição.
A Penguin Books teve que trabalhar com uma nova gráfica, porque a gráfica habitual se recusou a tocar no livro. Mas o julgamento teve o efeito de promover a obra — seus 200 mil exemplares esgotaram no primeiro dia da publicação. A obra vendeu três milhões de cópias em três meses.
Poucos dias depois de ser colocado à venda, Donati, dono de uma livraria na Inglaterra, conversou com a BBC News sobre a popularidade imediata do romance.
"Pedimos 1.000 exemplares para começar", ele disse. "Tínhamos muita esperança de recebê-los, claro, mas, no caso, o pedido foi reduzido à metade. Recebemos 500 exemplares. Abrimos bem cedo, às 8h55, e imagino que já vendemos 50 ou 60 [exemplares]… Acho que vamos ter que esperar pelo menos três semanas [para receber mais estoque]."
Ainda assim, a reticência tradicional inglesa não havia desaparecido da noite para o dia. Muitos clientes tinham vergonha de pedir o romance escandaloso pelo nome, contou um livreiro à BBC.
"Alguns pedem apenas "Lady C", outros só te dão o dinheiro contado."
Como observou o jornalista, "é bem diferente de vender um livro comum".
Naquela época, O Amante de Lady Chatterley não era um livro comum. Ao ser publicado na íntegra, ele se tornaria um símbolo da liberdade de expressão e um sinal de que a cena cultural britânica estava mudando.
O poeta Philip Larkin capturou seu significado no poema Annus Mirabilis:
"Sexual intercourse began
In nineteen sixty-three
(which was rather late for me) –
Between the end of the Chatterley ban
And the Beatles' first LP."
Os versos podem ser traduzidos como:
"As relações sexuais começaram
Em mil novecentos e sessenta e três
(o que foi um pouco tarde para mim) –
Entre o fim da proibição de Chatterley
E o primeiro LP dos Beatles."