Com Argentina ‘insustentável’, estudantes de medicina voltam ao Brasil com esperança de concluir o curso

CCJ da Câmara flexibiliza texto e aprova projeto para restringir uso de celulares nas escolas
Reajustes constantes no valor das mensalidades, aumento no curso de vida e cobranças de aluguel em dólar são algumas das mudanças que fizeram com que estudar no país vizinho deixasse de ser vantajoso para jovens brasileiros. Danilo* chegou à Argentina em 2022, aos 25 anos. Ele diz que tudo parecia um sonho, até se tornar um pesadelo neste ano, seu terceiro no país.
“O custo de vida se tornou insustentável, a mensalidade da universidade foi aumentando mês a mês e eu precisei gastar cada vez mais com moradia, transporte, alimentação e até material para a universidade”, diz ele, que hoje tem 28 anos.
O jovem lembra que, até 2023, seus gastos mensais, convertidos em reais, ficavam em torno de R$ 3,5 mil, incluindo a mensalidade da faculdade. Em setembro deste ano, ele já gastava quase o triplo.
Em outubro, Danilo arrumou as malas e voltou para o Brasil.
Casos como o de Danilo se tornaram comuns ao longo deste ano. Até 2023, a Argentina era um dos principais destinos escolhidos por brasileiros que queriam cursar medicina no exterior. Em 2022, mais de 20 mil brasileiros estudavam medicina no país vizinho, segundo um relatório argentino do Ministério do Capital Humano.
No entanto, dezenas de brasileiros estão voltando para o Brasil ou se transferindo para outros países, especialmente o Paraguai.
O principal motivo é o aumento de preços alavancado pelas políticas econômicas do presidente argentino Javier Milei, que impactou todos os setores do país, inclusive o de aluguéis e o de educação.
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Saindo da Argentina
Muitos dos brasileiros que estudavam na Argentina confiavam na desvalorização do peso argentino com relação ao real, e na estabilidade dos preços de serviços e custo de vida em geral no país.
Isso era necessário porque muitos deles ainda mantinham algum vínculo empregatício no Brasil e recebiam em real ou porque recebiam auxílio financeiro da família que havia permanecido no país.
E, por algum tempo, mesmo com o aumento de preços no início do governo Milei, o cenário ainda era viável, já que os gastos totais, incluindo mensalidade das universidades privadas, ficavam abaixo de muitos cursos de medicina privados no Brasil, que podem chegar a custar quase R$ 16 mil por mês.
No entanto, muita coisa mudou de lá para cá:
As universidades passaram a reajustar os preços mensalmente e de maneira imprevisível. Se, em um mês, o aluno pagou R$ 1,2 mil, no outro poderia pagar R$ 1,8 mil, R$ 2 mil ou mais, sem controle ou aviso prévio.
O preço do aluguel disparou, e muitos locatários passaram a cobrar o valor em dólar, para contornar a baixa do peso argentino, e com contratos de apenas 3 meses, com aumentos frequentes.
Houve um aumento nos casos de xenofobia, segundo brasileiros, e frases como “se está achando que aqui está ruim, então volta para o Brasil”, “se a faculdade aqui está cara, vai estudar em uma particular do Brasil”, se tornaram mais comuns.
Tudo isso, somado à pressão de estar um país diferente, falando outro idioma e ficando longe da família, contribuiu para que muitos brasileiros decidissem voltar para o país.
De volta ao Brasil. E agora?
Voltar para o Brasil pode significar uma oportunidade de continuar o sonho da medicina. É o que acredita o mineiro Bruno*, de 33 anos.
Ele voltou ao país após concluir o 5º ano de medicina pela Universidad Abierta Interamericana (UAI). Mesmo faltando um ano para concluir o curso, ele avaliou que voltar era a melhor alternativa.
Para ter a chance de concluir o curso no Brasil, Bruno fez o vestibular de uma universidade privada do interior de São Paulo. Já aprovado, ele agora luta para conseguir a documentação necessárias da universidade argentina para eliminar as disciplinas que já cursou.
Para Marcela*, de 32 anos, o retorno tem um sabor mais agridoce. Ela conta que os quase 6 anos que passou na Argentina deixaram marcas psicológicas profundas, e retornar para seu país natal foi uma maneira de autocuidado.
"Eu voltei em outubro para o Brasil, faltava só um ano para eu me formar, mas além da questão financeira, voltei também por minha saúde mental. Lá, infelizmente, sofremos muita xenofobia, discriminação, inclusive na faculdade, e aguentar tudo isso por anos longe da família não é fácil", confidencia.
Já formada em administração de empresa, a potiguar agora espera poder retomar os estudos e concluir sua gradação dos sonhos.
"Quero tentar me transferir para alguma universidade daqui, fazer um financiamento se for preciso, e terminar. Porque hoje, lá, quem faz uma [universidade] particular gasta, ao todo, cerca de R$ 7 mil, R$ 8 mil, e a esse preço, a gente faz um esforço e estuda no nosso país", avalia.
@adynenogueiraa conta no TikTok sobre sua experiência de ter transferido o curso de medicina da Argentina para o Brasil.
Reprodução
Tanto Bruno quanto Marcela já desapegaram da ideia de estudar fora, e mesmo que a condição econômica da Argentina voltasse a ficar favorável para os brasileiros, eles acreditam que não voltariam.
Hoje, se alguém me diz que quer estudar medicina na Argentina, eu falo para pensar duas vezes. Falo que Buenos Aires é uma cidade maravilhosa, que o ensino é muito bom, porém, com essa questão financeira, não acho que vale mais a pena.
Transferência não é fácil
Apesar da esperança que voltar ao Brasil dá a muitos estudantes, o processo de transferência para instituições nacionais não é simples. O pricipal desafio é conseguir o acesso rápido à documentação que comprova quais disciplinas foram estudadas até ali.
Esse documento é importante pois, sem ele, o candidato que tentar transferir o curso para o Brasil pode precisar reiniciar a graduação. Em contrapartida, com a documentação, é possível que o estudante elimine algumas disciplinas. Quase sempre, há algum prejuízo de tempo de pelo menos um semestre, mas é a melhor solução.
Atualmente, segundo estudantes ouvidos pelo g1, o tempo mínimo informado pelas universidades para envio deste documento é de 6 meses, podendo passar de um ano. A informação teria sido confirmada pelo Ministério da Educação argentino, que teria justificado como "demanda muito alta".
O g1 procurou a pasta e universidades argentinas para confirmar o período de espera, mas não obteve resposta até a publicação da reportagem.
Para tentar reduzir o tempo de espera pela documentação, muitos estudantes estão entrado com representação judicial contra as universidades.
Por lá, o desafio continua
A estudante Ana Clara Gazoli, de 21 anos, conitinua na Argentina, apesar das dificuldade de permanência para os brasileiros. Ela conta que até pensa em voltar para o Brasil e terminar o curso por aqui, mas ainda não conseguiu levar o plano para a frente por questões burocráticas que envolvem o filho de 10 meses.
O que pesou na escolha de Ana Clara Gazoli, de 21 anos, estudar medicina na Argentina foi o valor das mensalidades e o reconhecimento internacional da qualidade dos cursos da área no país.
Ela começou o curso pela Universidade de Buenos Aires (UBA), uma instituição pública, mas optou por se transferir para a universidade privada Maimónides, onde precisou reiniciar o curso de ingresso, também chamado de pré-grad.
Quando começou na Maimónides, as mensalidades ficavam cerca de R$ 1,5 mil. Agora, ao final do 2º ano do curso, ela paga quase R$ 4 mil.
O custo aqui está um absurdo. Quando cheguei na Argentina, eu gastava R$ 2 mil em média e conseguia ‘luxar’ pagando aluguel, pagando convênio, conseguia sair e fazer bastante coisa; Hoje em dia, só com aluguel, pago R$ 4 mil, sem falar em internet, gás, luz e outras necessidades.
Agora, mais do que nunca, Clara conta que precisa da ajuda do pai para permanecer no país. "Eu trabalho, mas o que ganho é para manter o meu filho. Quem me mantém aqui é meu pai", diz ela.
E, apesar de as universidades argentinas continuarem entre as mais reconhecidas do mundo, a jovem avalia que vale a pena para poucos.
"Se a pessoa quer sair de casa, estudar em outro país, conhecer outras culturas, conhecer outras pessoas, sair de onde vive, mas tem condições, venha. Vem e vai ser incrível. Porém, se a pessoa está vindo pensando na questão financeira, econômica, não vale a pena, não está valendo a pena estar na Argentina. Não mais", conclui.
*Estudante pediu para não ser identificado por medo de retaliação.
VÍDEOS DE EDUCAÇÃO

Guerra do Paraguai, 160 anos: as descobertas que contradizem o que a escola ensinou sobre o conflito sangrento

CCJ da Câmara flexibiliza texto e aprova projeto para restringir uso de celulares nas escolas
Guerra do Paraguai foi ensinada como um exemplo de imperialismo britânico tentando arrasar uma potência em ascensão. Mas essa visão foi revisada por historiadores. Francisco Solano López (1827-1870) foi o autor da declaração de guerra que tornaria o conflito entre os países sul-americanos inevitável.
Domínio público
Ao longo de pelo menos duas décadas, a maior parte dos estudantes brasileiros aprendeu uma história errada sobre a Guerra do Paraguai, o maior e mais sangrento conflito armado internacional já ocorrido na América Latina.
A versão mais contada pelos professores de história era aquela popularizada pelos ideólogos de esquerda que faziam oposição ao regime militar que comandou o Brasil durante a ditadura, de 1964 a 1985. Com foco em uma aversão ao imperialismo estrangeiro e qualquer interferência das grandes potências nos destinos sul-americanos, vendia-se a narrativa de que o conflito do século 19 havia sido causado, financiado e indiretamente capitaneado pela Grã-Bretanha.
Nessa história, o Paraguai ascendia como um país que caminhava para ser considerado desenvolvido, com industrialização, justiça social e uma produção de riquezas sem igual, de forma independente, configurando assim uma exceção naquele contexto de novos países americanos que estavam conseguindo autonomia frente aos colonizadores a preço de uma dependência econômica de nações ricas.
Vendo-se ameaçados por aquele paisinho que se tornaria um concorrente de sua influência, sobretudo no Brasil e na Argentina, os ingleses despejaram dinheiro e reforços bélicos. O resultado: um massacre que teria condenado ao Paraguai à pobreza e ao subdesenvolvimento. Fim do sonho sul-americano.
"Onde está qualquer documento que prove que foi a Inglaterra? Não existe um documento oficial, não existe nada que mostre que o governo inglês tinha interesse em fazer uma guerra na região", diz o historiador Francisco Doratioto, professor aposentado da Universidade de Brasília (UnB). O especialista concedeu entrevista à BBC News Brasil na manhã de terça-feira (10/12).
A visão contemporânea que se tem do conflito, deflagrado oficialmente com a declaração de guerra do Paraguai ao Brasil em 13 de dezembro de 1864, véspera da invasão das forças do país vizinho à então província do Mato Grosso, é aquela que foi construída por historiadores como Doratioto depois de minuciosa pesquisa em documentos históricos paraguaios, brasileiros, argentinos, uruguaios e ingleses.
Em 2002, o historiador lançou seu mais conhecido livro: Maldita Guerra: Nova História da Guerra do Paraguai, consolidando-se como autoridade no tema. Outros estudiosos que foram reconhecidos pela reescrita da história dessa guerra foram os historiadores Ricardo Salles (1950-2021) e, de forma pioneira, Moniz Bandeira (1935-2017).
A Guerra do Paraguai durou de dezembro de 1864 a março de 1870. De um lado estava a pequena República do Paraguai, com cerca de 400 mil habitantes. De outro, a Tríplice Aliança formada por Brasil, Argentina e Uruguai — juntos, somavam pouco mais de 11 milhões de habitantes.
O resultado foi arrasador. Calcula-se que a população paraguaia tenha se reduzido para menos de 190 mil pessoas. "90% dos homens morreram", afirma Doratioto. "Do sexo masculino, sobraram apenas idosos e crianças."
Versão da história atribuiu ao Duque de Caxias, comandante das tropas brasileiras, atrocidades na guerra com o Paraguai.
Getty Images via BBC
Guerra de versões
Doratioto explica que a versão outrora ensinada no Brasil acabou se tornando a mais conhecida e difundida no país, sobretudo por conta da ditadura militar. E seu registro mais popular foi o livro Genocídio Americano: A Guerra do Paraguai, publicado em 1979, de autoria do jornalista Júlio José Chiavenato.
"Ele não é historiador e comete erros de metodologia que qualquer aluno de graduação [se o fizesse] não seria aprovado na matéria", aponta Doratioto. "Mas tem o grande mérito de reviver o tema que estava abandonado pelos historiadores e por militares que vinham com uma visão ufanista e oficial da guerra."
Nessa obra, nota-se que o autor tenta passar sua indignação pelas crueldades cometidas pela guerra. "Ele vai pelos corações e ganha pela emoção", analisa Doratioto. "Na época, ao ler aquilo, eu achei correto."
Tanto que o historiador foi um dentre a imensa maioria de sua geração que contava essa versão nas salas de aula, quando professor de colégios em São Paulo.
"Eu ensinei isso", admite. "Lembro-me que tinha um aluno brilhante que, no final de uma aula, me perguntou: mas, professor, se a Inglaterra queria acesso ao mercado paraguaio e fez a guerra para ter esse acesso, qual era a lógica de destruir esse mercado?"
O revisionismo que trouxe à tona essa narrativa, na época, tinha um foco: desmoralizar os militares que autoritariamente chefiavam o país. E, de quebra, criticar a influência imperialista de forças estrangeiras.
"No momento histórico em que aquilo foi escrito, em pleno regime militar, os setores democráticos da sociedade tinham perdido o espaço", contextualiza.
"De repente apareceu um livro que dizia que o Caxias, que é o patrono do exército brasileiro, tinha feito crimes de guerra praticamente, mandando jogar cadáveres coléricos no rio Paraguai para contaminar tropas paraguaias", comenta Doratioto. "O livro desmoralizava os ícones do regime militar. Dava à guerra ideológica uma vantagem contra o regime militar."
Nesse exemplo trazido pelo historiador, a narrativa é de que o marechal Luís Alves de Lima e Silva (1803-1880), o Duque de Caxias, que comandava as tropas brasileiras no Paraguai, teria determinado que os corpos daqueles que haviam morrido por uma epidemia de cólera que matou 4 mil de seus soldados fossem jogados no rio Paraguai, nos arredores de Humaitá, para que contaminassem os soldados paraguaios entrincheirados a quilômetros ali, em uma guerra biológica.
Mas Doratioto aponta contradições: a primeira, de cunho geográfico. O sentido em que corre o rio é contrário ao que faria sentido nessa narrativa. "Os cadáveres nadaram contra a corrente? Isto é absurdo", provoca o historiador.
O outro é o fato de que os militares tinham o costume de queimar ou enterrar os que morriam durante as campanhas. "Como era uma região pantanosa, a água do rio acabou contaminada. E isso provocou a epidemia que matou ainda mais soldados brasileiros", explica ele.
Em carta destinada à mulher, Caxias lamentou que havia perdido "um exército" antes mesmo de entrar em combate, já que quase 4 mil soldados brasileiros morreram de cólera no episódio.
Outro problema da narrativa difundida por Chiavenato foi pintar o Paraguai como um país em outro patamar de desenvolvimento, com industrialização avançada, ferrovias e uma sociedade baseada na justiça social.
Ilustração mostra um acampamento de militares brasileiros durante a Guerra do Paraguai.
Domínio público
"Indústria pesada no Paraguai em 1864? Praticamente não existia. Tinha uma fundição. Protossocialismo? Como protossocialismo? Era uma estrutura de exploração do camponês que colhia erva-mate e mesmo pela lógica marxista havia uma, entre aspas, mais-valia apropriada pelo Estado paraguaio do camponês", exemplifica.
Para Doratioto, a ideia de mirar no imperialismo inglês e vilanizá-lo pelas crueldades da guerra também encontra justificativa no cenário da ditadura. A esquerda ideológica brasileira tinha como inimigo o imperialismo norte-americano, pois os Estados Unidos financiaram o golpe de 1964 e eram apoiadores dos governos militares. Assim, mudava-se o protagonista, mas havia uma mesma semântica para configurar o "inimigo".
Se essa versão revisionista da história se tornou popular no Brasil por conta da esquerda, o curioso é que na Argentina ela se consolidou pela direita.
"[No país vizinho, essa narrativa] É basicamente o pensamento autoritário da direita xenófoba que vem desde as década de 1920 e 1930, um pensamento que se constrói contra os ingleses, contra o imperialismo inglês", afirma. "E no Brasil ele é reciclado frente a um sentimento anti-Estados Unidos."
Por que a guerra?
Desde a sua independência, em 1811, o Paraguai vivia uma situação atípica. Encurralado e sem acesso ao mar, tinha dificuldade para escoar internacionalmente seus produtos — erva-mate e madeira, basicamente.
No centro do continente e sem oferecer as riquezas que eram importantes no mundo colonial, ou seja, metais preciosos, o Paraguai já havia experimentado um certo isolamento durante o domínio espanhol. Isso impactou na formação de sua sociedade.
"Era e ainda é a única sociedade na América do Sul bilíngue, com a cultura guarani entranhada na cultura do colonizador", exemplifica Doratioto.
Além disso, a população feminina era maior do que a masculina. Isso se dava justamente porque, com a falta de ouro e prata, o território acabou se tornando ponto de passagem para o contrabando — as mulheres se fixavam, mas os homens iam e vinham.
Com a independência das antigas colônias hispânicas, a elite de Buenos Aires "tentou se tornar um centro de poder", explica o historiador. "Eles buscavam manter subordinadas a ela todas as províncias do antigo Vice-reino do Rio da Prata, ou seja, Uruguai, Bolívia e Paraguai", diz ele.
O Paraguai se recusou e acabou sozinho.
No comando do país estava o ditador Gaspar de Francia (1766-1840). "Ele estabeleceu uma ditadura impressionante, quase surrealista", analisa Doratioto. "Para se ter uma ideia, ele rompeu com Roma e estabeleceu uma Igreja Católica própria. E proibiu casamento interculturais, prendeu parte da elite…"
Foto antiga mostra o Exército brasileiro na Guerra do Paraguai.
Domínio público
O isolamento sul-americano só fortaleceu seu regime, pois acabava justificando a necessidade de seu poder autoritário e centralizado.
Seu sucessor foi Carlos Antonio López (1790-1882) que, segundo Doratioto, "tinha uma visão muito clara da situação" complicada que enfrentava o país. "Ele tenta abrir o Paraguai, controladamente", comenta.
Nesse processo, ganhou o apoio do Império Brasileiro. Que também tinha seus interesses: não queria que a Argentina fosse tão poderosa, no xadrez geopolítico que se desenhava na América do Sul.
López decidiu criar uma elite preparada em seu país. Financiou o envio de duas dezenas de jovens para estudar na Europa, contratou uma empresa inglesa para representar os interesses paraguaios junto às grandes potências e começava a investir em material bélico. Ele também contratou técnicos ingleses para fazer obras pontuais de infraestrutura em seu território.
"Mas o Paraguai era um país agrícola, não tinha escolas em nível superior, tinha apenas uma fundição de ferro e uma pequena ferrovia que ligava Assunção a um acampamento militar e que foi a terceira da América Latina", aponta.
A modernização experimentada pelo Paraguai, segundo o historiador, tinha finalidades apenas militares, de defesa. Não visava a uma sociedade igualitária ou à justiça social.
Com sua morte, a presidência foi assumida pelo filho, Francisco Solano López (1827-1870). Que, menos pragmático do que o pai, acabou sendo o autor da declaração de guerra que tornaria o conflito entre os países sul-americanos inevitável.
De acordo com o historiador Moniz Bandeira, a motivação do conflito foi de natureza econômica. Naquela década de 1860, o isolado Paraguai estava sem caixa para continuar o tímido porém calculado projeto de modernização empreendido pelo López pai.
"Para aumentar as exportação, o Paraguai precisava achar uma saída para o mar", resume Doratioto. O historiador, contudo, comenta que mesmo se esse acesso fosse possível o país teria dificuldades. "Era um pequeno país de agricultura de técnicas medievais. E nenhum agricultor [paraguaio] tinha interesse em produzir mais para a exportação. Eram agricultores de subsistência, em um nível muito baixo."
O investimento inglês
Um dos achados de Doratioto que indicam que a Grã-Bretanha não queria uma guerra na América do Sul é uma carta do diplomata Edward Thornton, então o embaixador britânico na Argentina e no Paraguai — baseado em Buenos Aires, já que Assunção não contava com este posto.
Dirigindo-se ao chanceler paraguaio José Berges, o inglês escreveu que "a Inglaterra também está em atritos com o Brasil" e que "particularmente sim, se puder servir, no mínimo que seja, para contribuir para a reconciliação dos dois países [Paraguai e Brasil], espero que Vossa Excelência não hesite em me utilizar".
A carta é datada de 7 de dezembro de 1864, cinco dias antes da declaração de guerra emitida pelo governo paraguaio.
Um dos principais pontos da historiografia revisionista é dizer que a prova do interesse e do envolvimento inglês seria o fato de que houve financiamento da potência europeia nas campanhas brasileira e argentina que acabariam dizimando metade do Paraguai.
De fato, esses empréstimos ocorreram. Mas Doratioto tem argumentos para contextualizar esse fato. "A lógica do capital não tem nacionalidade nem patriotismo. O capital está em busca de remuneração e garantia", pontua. "Banqueiros ingleses emprestaram para o Brasil e para a Argentina, claro. Vão emprestar para o Paraguai, um país isolado no interior do continente, sem acesso ao mercado externo, sem ouro e fazendo guerra contra três países por iniciativa própria?"
Ele ainda lembra que esse financiamento inglês nem foi tão representativo como se imagina para o lado brasileiro da guerra. Segundo o historiador, cerca de 12% das despesas de guerra do Brasil foram bancadas com empréstimos estrangeiros, apenas.
Violência militar
Brasil cometeu atrocidades na Guerra do Paraguai, mas elas também foram usadas para manchar a imagem do patrono do Exército, diz o historiador.
Domínio público
Sobre as atrocidades da guerra cometidas por Duque de Caxias e suas tropas, Doratioto concorda que elas foram ressaltadas para manchar a imagem do patrono do exército no contexto da ditadura. Mas ele as confirma.
Em seu livro, por exemplo, o historiador conta que os combatentes brasileiros chegaram a matar crianças que se passavam por soldados nas trincheiras paraguaias.
"Guerra é sempre uma selvageria. As acusações contra o Caxias fazem parte de uma dialética da guerras: todos os chefes militares em combate deram ordem para matar, até a Segunda Guerra vencia uma guerra quem matava mais", argumenta.
Doratioto avalia que a figura histórica do Duque de Caxias "até hoje não foi suficientemente explorada pelos historiadores". E entende que "desmoralizá-lo", na época da ditadura, "era desmoralizar o regime militar".
* Edison Veiga – de Bled (Eslovênia) para a BBC News Brasil
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Como funciona projeto que proíbe celular nas escolas; veja perguntas e respostas

CCJ da Câmara flexibiliza texto e aprova projeto para restringir uso de celulares nas escolas
Texto agora segue diretamente para análise do Senado, a menos que haja um recurso para votação no plenário principal da Câmara. CCJ da Câmara aprova projeto que proíbe celulares em escolas.
O projeto que restringe o uso de celulares para todos os alunos nas escolas públicas e particulares foi aprovado nesta quarta-feira (11) pela Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) da Câmara dos Deputados.
O texto tramita em caráter conclusivo. Ele agora segue diretamente para análise do Senado, a menos que haja um recurso para votação no plenário principal da Câmara.
De acordo com a Unesco, 25% dos países no planeta já estão adotando medidas parecidas com o projeto.
O que diz o projeto?
O projeto, de autoria do deputado Alceu Moreira (MDB-RS), tramita na Câmara desde 2015. O assunto ganhou mais força quando o Ministério da Educação informou que estava preparando uma medida para proibir o uso de celulares em escolas públicas.
Que mudanças foram feitas no texto original?
A principal mudança feita pelo deputado Renan Ferreirinha (PSD-RJ) é a permissão para que as crianças da educação infantil possam portar o celular na escola, mas não utilizar durante a aula.
"Antes do início da primeira aula e após o término da última aula, caso o aluno precise avisar que vai ficar mais tempo na escola, é tranquilo que o aluno possa ter esse contato com a família", explicou o deputado em entrevista à GloboNews.
"Durante a primeira aula e a última aula, se a família precisar falar, só se for diretamente na escola… Toda vez que o aluno recebe alguma notificação, é como se ele saísse da sala de aula. A gente perde a concentração desse aluno."
Em que situações celular poderá ser usado?
O texto aprovado pela CCJ permite o porte do celular pelos estudantes do ensino básico, mas estabelece que o uso só será possível em casos excepcionais, como situações de:
perigo
necessidade
ou de força maior
A proposta também possibilita o uso de aparelhos eletrônicos pessoais em sala de aula para:
fins estritamente pedagógicos ou didáticos, conforme orientação do professor
garantir a acessibilidade e a inclusão de alunos com deficiência, por exemplo.
atender às condições de saúde dos estudantes e assegurar "direitos fundamentais" dos alunos
Crianças estudantes com celular em sala de aula de escola
RDNE Stock project/Pexels

O chip quântico do Google que resolve em 5 minutos problema que levaria 10 septilhões de anos

CCJ da Câmara flexibiliza texto e aprova projeto para restringir uso de celulares nas escolas
O chip Willow é o mais recente avanço da computação quântica e busca usar os princípios da física de partículas para criar um novo tipo de computador incrivelmente poderoso. Novo chip Willow pode ter impactos significativos, mas ainda está longe de ser implementado
Divulgação/Google
O Google apresentou um novo chip que, segundo a empresa, leva cinco minutos para resolver um problema que atualmente os supercomputadores mais rápidos do mundo levariam dez septilhões (ou 10.000.000.000.000.000.000.000.000) de anos para completar.
O chip é o mais recente desenvolvimento em um campo conhecido como computação quântica, que busca usar os princípios da física de partículas para criar um novo tipo de computador incrivelmente poderoso.
O Google afirma que seu novo chip quântico, chamado Willow, incorpora "avanços" importantes" e "pavimenta o caminho para um computador quântico útil em grande escala".
Projeto do criador do ChatGPT já escaneou a íris de 115 mil brasileiros
No entanto, especialistas dizem que o Willow é, por enquanto, um dispositivo essencialmente experimental, o que significa que um computador quântico poderoso o suficiente para resolver uma ampla gama de problemas do mundo real ainda está a anos (e bilhões de dólares) de distância.
O dilema quântico
Design da computação quântica é diferente dos computadores tradicionais
Divulgação/Google
Os computadores quânticos funcionam de uma maneira fundamentalmente diferente dos telefones ou notebooks tradicionais.
Eles aproveitam a mecânica quântica (o comportamento estranho das partículas ultrapequenas) para resolver problemas muito mais rapidamente do que os computadores convencionais.
Espera-se que os computadores quânticos possam usar essa capacidade para acelerar drasticamente processos complexos, como a criação de novos medicamentos.
Também há preocupações de que possam ser usados para fins criminosos, como quebrar alguns tipos de criptografia utilizados para proteger dados sensíveis.
Em fevereiro, a Apple anunciou que a criptografia que protege os chats do iMessage está sendo tornada "à prova quântica" para evitar que computadores quânticos potentes do futuro consigam decifrá-la.
Hartmut Neven, que lidera o laboratório de inteligência artificial quântica do Google responsável pela criação do Willow, descreve a si mesmo como o "otimista-chefe" do projeto.
Ele disse à BBC que o Willow seria usado em algumas aplicações práticas, mas se recusou, por enquanto, a dar mais detalhes.
No entanto, Neven afirmou que um chip como esse, capaz de realizar aplicações comerciais, não estará disponível antes do final da década.
Inicialmente, essas aplicações envolveriam a simulação de sistemas onde os efeitos quânticos são importantes.
"Por exemplo, isso é relevante no design de reatores de fusão nuclear, na compreensão do funcionamento de medicamentos e no desenvolvimento farmacêutico, além do desenvolvimento de baterias melhores para automóveis e uma longa lista de tarefas semelhantes", explicou.
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Maçãs e laranjas
Equipe do Google trabalha no criostato que abriga o chip e o mantém extremamente frio
Divulgação/Google
Neven disse à BBC que o desempenho do Willow significava que ele era o "melhor processador quântico já construído até hoje".
No entanto, o professor Alan Woodward, especialista em computação da Universidade de Surrey, na Inglaterra, afirma que os computadores quânticos serão melhores em uma variedade de tarefas do que os computadores "clássicos" atuais, mas não os substituirão.
Ele alerta contra a supervalorização da importância do feito do Willow em apenas um teste.
"É preciso ter cuidado para não comparar maçãs com laranjas", disse à BBC.
Probleminha da discórdia: você consegue resolver essa expressão numérica?
O problema que o Google escolheu como referência de desempenho foi "feito sob medida para um computador quântico", o que significa que não demonstra "um avanço universal em comparação aos computadores clássicos".
Apesar disso, Woodward reconheceu que o Willow representava um progresso significativo, especialmente no campo conhecido como correção de erros.
De forma bastante simplificada, quanto mais útil é um computador quântico, mais qubits (bits quânticos, a unidade básica de informação na computação quântica) ele possui.
No entanto, um problema crucial dessa tecnologia é sua propensão a erros, uma tendência que anteriormente aumentava à medida que mais qubits eram adicionados ao chip.
Os pesquisadores do Google afirmam que conseguiram reverter essa situação, projetando e programando o novo chip de maneira que a taxa de erro fosse reduzida em todo o sistema conforme o número de qubits aumentava.
Foi um grande "avanço" que resolveu um desafio fundamental que a área enfrentava "há quase 30 anos", disse Neven.
Ele comparou o feito com "ter um avião com um único motor: isso pode funcionar, mas dois motores são mais seguros, e quatro motores são ainda mais seguros".
Os erros são um obstáculo significativo para criar computadores quânticos mais potentes, e esse desenvolvimento foi "animador para todos os que trabalham para construir um computador quântico prático", comentou o professor Woodward.
Contudo, o próprio Google reconhece que, para desenvolver computadores quânticos verdadeiramente úteis, a taxa de erro precisará ser ainda menor do que a apresentada pelo Willow.

CCJ da Câmara flexibiliza texto e aprova projeto para restringir uso de celulares nas escolas

CCJ da Câmara flexibiliza texto e aprova projeto para restringir uso de celulares nas escolas
Versão anterior proibia porte dos aparelhos por alunos do ensino infantil e dos anos iniciais do fundamental. Texto aprovado libera uso em casos excepcionais ou para fins pedagógicos, de acessibilidade, inclusão e para atendimento a condições de saúde. Projeto prevê a proibição do uso de celular dentro de sala, no recreio e também nos intervalos entre as aulas para todas as etapas da educação básica
Reprodução/TV Globo
A Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) da Câmara dos Deputados flexibilizou o texto e aprovou, por 45 votos a 14, nesta quarta-feira (11) uma proposta que restringe o uso de celulares nas escolas públicas e privadas do país.
O texto seguirá diretamente para análise do Senado, a menos que haja um recurso para votação no plenário principal da Câmara.
A versão anterior da proposta, aprovada pela Comissão de Educação da Câmara, proibia que alunos do ensino infantil e anos iniciais do fundamental portassem celulares nas escolas.
O texto aprovado pela CCJ nesta quarta permite o porte do celular pelos estudantes do ensino básico, mas estabelece que o uso só será possível em casos excepcionais, como situações de:
perigo
necessidade
ou de força maior
A proposta também possibilita o uso de aparelhos eletrônicos pessoais em sala de aula para:
fins estritamente pedagógicos ou didáticos, conforme orientação do professor
garantir a acessibilidade e a inclusão
atender às condições de saúde dos estudantes e assegurar "direitos fundamentais" dos alunos
"Escola também precisa de regramento, precisa ter hora para tudo. A gente não quer ser contra a tecnologia, mas que a tecnologia seja utilizada de forma consciente e responsável. Do contrário, ao invés de ser uma aliada do processo educacional, acaba sendo uma grande vilã", afirmou o relator Renan Ferreirinha (PSD-RJ).
O projeto também prevê que os estabelecimentos de ensino disponibilizarão espaços de escuta e acolhimento para receberem alunos ou funcionários que estejam em sofrimento psíquico e mental, principalmente decorrentes do uso imoderado de telas e nomofobia.
🔎A nomofobia é o medo ou ansiedade pela falta de uso do celular, e pode causar sensação de medo, irritabilidade e prejuízo na vida, como falta de sono e dificuldades na escola e nas relações sociais.
As redes de ensino também deverão oferecer treinamentos periódicos para a detecção, prevenção e abordagem de sinais sugestivos de sofrimento psíquico e mental, e efeitos danosos do uso imoderado das telas e dispositivos eletrônicos portáteis pessoais, incluindo aparelhos celulares.
"A utilização desmedida de aparelhos portáteis permite às crianças e adolescentes visitarem – no curso das aulas – conteúdos sem nenhuma relevância pedagógica, tornando-se mero elemento de prejuízo para sua aprendizagem, distrações, retirando o seu tempo de convívio social na escola, o que claramente justifica a regulação do tema", afirmou o relator.
Versão anterior era mais rígida
Projeto de lei prevê proibir uso de celulares nas escolas de São Paulo
Anteriormente, durante discussão na Comissão de Educação da Câmara dos Deputados, o relator, deputado Diego Garcia (Republicanos-PR), havia proposto a proibição do porte para alunos do ensino infantil e anos iniciais do fundamental “como forma de proteger a infância de possíveis abusos”.
A versão também vetava o uso de celular dentro de sala, no recreio e também nos intervalos entre as aulas para todas as etapas da educação básica.
O projeto, de autoria do deputado Alceu Moreira (MDB-RS), tramita na Câmara desde 2015. O assunto ganhou mais força quando o Ministério da Educação informou que estava preparando uma medida para proibir o uso de celulares em escolas públicas.
Em outubro, o ministro da Educação, Camilo Santana, afirmou que apoiava o projeto e que o texto incluía o que defende o governo Lula.