Ceará é o único estado do Nordeste em que a maioria da população lê livros, diz estudo

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6ª edição do levantamento “Retratos da Leitura no Brasil” aponta que 54% dos entrevistados do Ceará leram pelo menos um livro nos últimos três meses. Acesso aos livros no Brasil é feito, na maioria das vezes, pela compra em lojas físicas e virtuais, aponta levantamento.
Jr Panela
O Ceará foi o único estado do Nordeste em que a maior parte da população leu algum livro nos últimos três meses. O dado é do levantamento “Retratos da Leitura no Brasil”, divulgado nesta quarta-feira (18). No estado, 54% dos entrevistados foram considerados leitores, deixando o Ceará acima da média nacional em hábito de leitura.
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Enquanto o Nordeste teve uma queda de cinco pontos percentuais na proporção de leitores em relação à pesquisa anterior, o Ceará se manteve com um bom índice de leitura.
“Na Região Nordeste, o único estado que manteve uma proporção de maioria de leitores foi o Ceará, em que 54% da população leu total ou parcialmente pelo menos um livro nos últimos três meses”, afirma a pesquisa.
O levantamento considera a leitura de livros impressos e digitais, além de não restringir qualquer gênero, incluindo didáticos, bíblia e religiosos.
Percentual de pessoas que leram livros nos últimos 3 meses no Nordeste:
Ceará: 54%
Pernambuco: 46%
Maranhão: 45%
Bahia: 42%
Sergipe: 40%
Alagoas: 39%
Paraíba: 38%
Rio Grande do Norte: 33%
Na proporção de leitores em todos os estados do Brasil, o Ceará fica atrás apenas de Santa Catarina — que tem 64% de entrevistados que leram nos últimos três meses.
A média nacional aponta que 47% dos entrevistados leram nos últimos três meses. Em comparação com os últimos levantamentos, o retrato é de um Brasil que está lendo menos, com 53% da população declarando não ter lido nem mesmo parte de uma obra no último trimestre.
A pesquisa "Retratos da Leitura" é considerada a mais abrangente na tarefa de medir o comportamento do leitor brasileiro. Ela foi feita pelo Instituto Ipec (Inteligência em Pesquisa e Consultoria) e ouviu 5.504 entrevistados durante visitas domiciliares em 208 municípios entre 30 de abril e 31 de julho de 2024.
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A pesquisa é uma iniciativa do Instituto Pró-Livro (IPL) e contou com parceria da Fundação Itaú e apoio da Associação Brasileira de Livros e Conteúdos Educacionais (Abrelivros), da Câmara Brasileira do Livro (CBL) e do Sindicato Nacional dos Editores de Livros (SNEL).
Livros de literatura e indicações das escolas
Indicações de leitura nas escolas no Ceará levaram cerca de 1 milhão de pessoas a lerem nos últimos três meses, diz estudo
Divulgação
No Nordeste, o Ceará também se destaca pelos maiores índices de leitura de livros indicados pela escola, alcançando 1,5 milhão de pessoas (17%). Além disso, o estado fica em primeiro lugar na região quanto à proporção de pessoas que leram livros de literatura por vontade própria, com 49%.
Leitura de livros no Ceará nos últimos três meses:
Livros em geral: 54%
Livros inteiros: 30%
Livros em partes: 49%
Livros indicados pela escola: 17%
Livros lidos por vontade própria: 49%
Livros de literatura lidos por vontade própria: 30%
No Ceará, a frequência de leitura tem proporções semelhantes para aqueles que leem uma vez por semana ou até uma vez a cada três meses.
Frequência de leitura dos livros de literatura por vontade própria no Ceará:
Todos os dias ou quase todo dia: 8%
Pelo menos 1 vez por semana: 13%
Pelo menos 1 vez por mês: 14%
Pelo menos 1 vez a cada três meses: 10%
Menos de 1 vez a cada três meses: 9%
Não lê: 47%
Não sabe ou não respondeu: 1%
Em todo o Brasil, o acesso aos livros é feito, na maioria das vezes, pela compra em lojas físicas ou pela internet. No Nordeste, 27% dos entrevistados afirmaram fazer compras nas lojas físicas, enquanto 15% compraram virtualmente.
Outra forma de acesso aos livros foram ao receber livros como presentes (21%) e ao pegar títulos emprestados em bibliotecas de escolas (17%).
Outros destaques da pesquisa:
Em média, os cearenses leram 2,4 livros nos últimos três meses.
O Ceará também lidera o ranking do Nordeste na proporção de pessoas que leram algum livro nos últimos 12 meses, com 57% de leitores.
Um cearense aparece como autor na lista dos livros mais marcantes para os brasileiros: José de Alencar. É dele o romance ‘Iracema’, que aparece como o 23º livro mais citado pelos entrevistados.
O Rio Grande do Norte foi o estado brasileiro com a maior taxa de não leitores, com 67% que declararam não ter lido nenhum livro, ou parte de um livro, nos últimos três meses, mesmo que tenham lido nos últimos 12 meses.
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ES tem maior percentual de leitores no Sudeste; 53% leu pelo menos um livro nos últimos três meses

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Apesar do resultado positivo, região teve queda no índice de leitores nos últimos cinco anos. Em 2020, eram 51%, agora, são 46%, segundo a 6ª edição da pesquisa Retratos da leitura no Brasil. Espírito Santo tem maioria de leitores no Sudeste
Freepik
O Espírito Santo é o estado com a maior população leitora entre os estados da Região Sudeste, apontou a 6ª edição da pesquisa "Retratos da Leitura no Brasil", divulgada nesta quarta-feira (18). De acordo com o levantamento, 53% da população do estado leu total ou parcialmente pelo menos um livro nos últimos três meses, o que representa 2 milhões de capixabas.
Atrás do Espírito Santo aparecem Rio de Janeiro, São Paulo e Minas Gerais, respectivamente.
A pesquisa considera como leitor aquele que leu, inteiro ou em partes, pelo menos um livro de qualquer gênero, impresso ou digital, nos últimos três meses.
Entre os livros por vontade própria, a pesquisa apontou que 27% dos leitores leem a bíblia, o equivalente a 1 milhão de pessoas. De acordo com o Censo 2022, divulgado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o estado tem 3.833.486 habitantes.
Ranking de número de leitores da Região Sudeste
Outra dado revelado no levantamento é a frequência de leitura de livros de literatura por vontade própria. No Espírito Santo, 60% dos entrevistados declararam não ler este gênero; enquanto 12% leem todos os dias.
A pesquisa é uma iniciativa do Instituto Pró-Livro (IPL) e contou com parceria da Fundação Itaú e apoio da Associação Brasileira de Livros e Conteúdos Educacionais (Abrelivros), da Câmara Brasileira do Livro (CBL) e do Sindicato Nacional dos Editores de Livros (SNEL).
O levantamento foi feito pelo Inteligência em Pesquisa e Consultoria (Ipec) em 208 municípios entre 30 de abril e 31 de julho de 2024. Ao todo, 5.504 pessoas foram entrevistadas.
Média de leitores cai no Sudeste
Segundo o levantamento, na Região Sudeste houve uma queda de 5 pontos percentuais nos últimos cinco anos no número de leitores. Em 2020, eram 51%; agora, são apenas 46%.
No caso do Espírito Santo, apesar da maior proporcionalidade de leitores, o estado ficou em último lugar em outros recortes da pesquisa. Um deles é em relação é na quantidade de livros lidos nos últimos três meses.
Biblioteca Pública do Espírito Santo (BPES)
Divulgação/Secult
De acordo com a pesquisa, os capixabas leram 0,74 livros inteiros, enquanto os paulistas leram 0,81; fluminenses, 0,84 e os mineiros 1,18.
Sobre a frequência de leitura de livros de literatura por vontade própria, pelo menos uma vez por semana, São Paulo e Rio de Janeiro ficam com 10%. Em terceiro lugar está Minas Gerais (8%) e o Espírito Santo (5%) em último.
Nos últimos 12 meses, Minas Gerais aponta 2,97 livros lidos por vontade própria; São Paulo 2,86; Rio de Janeiro 2,74; por último está o Espírito Santo com 1,96.
Sobre a frequência de leitura de livros de literatura por vontade própria, pelo menos uma vez por semana, São Paulo e Rio de Janeiro ficam com 10%. Em terceiro lugar está Minas Gerais (8%) e o Espírito Santo (5%) em último.
Nos últimos 12 meses, Minas Gerais aponta 2,97 livros lidos por vontade própria; São Paulo 2,86; Rio de Janeiro 2,74; por último está o Espírito Santo com 1,96.
Principais formas de acesso
Acervo de biblioteca municipal
Prefeitura de Presidente Venceslau
A pesquisa apontou ainda que a compra em livrarias físicas ou online permanece como a principal forma de acesso ao livro, em todas as regiões, desde as edições anteriores. O maior percentual nas Regiões Sudeste (54%) e Sul (53%) aponta para o maior número de livrarias físicas nessas regiões. Já Norte e Nordeste indicam a grande carência de livrarias.
Já o acesso via bibliotecas da escola, apresenta um maior percentual de indicação nas regiões Norte (18%) e Centro Oeste (19%), ficando com pior percentual a Região Sudeste (14%), apesar da maior oferta de bibliotecas.
Avaliação de leitura de estudantes de escolas públicas do Sul do ES teve bom resultado
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Por que universidades do Reino Unido estão sendo acusadas de negligência por aceitar alunos que não entendem bem inglês

Ruth Rocha, de ‘Marcelo, Marmelo, Martelo’, fecha contrato até 108 anos: ‘Não aguento fazer muita coisa, mas gosto muito de escrever’
Em dificuldades financeiras, instituições de ensino britânicas estariam ignorando a falta de competências linguísticas de estudantes estrangeiros, que pagam caro por cursos de pós-graduação no Reino Unido.
'Se pode cobrar de um estudante estrangeiro tanto quanto ele estiver disposto a pagar'
Getty Images/via BBC
Yasmin (nome fictício) veio do Irã para fazer mestrado numa nova universidade do Reino Unido, mas ficou "chocada" ao descobrir que muitos dos seus colegas tinham um inglês limitado e apenas um ou dois eram britânicos.
"Como é possível continuar este curso sem entender corretamente o sotaque britânico ou o inglês?", disse ela à BBC.
A maioria dos estudantes pagava outras pessoas para fazerem os cursos, explica, e alguns pagavam pessoas para registrar a frequência deles às aulas.
A experiência de Yasmin reflete uma preocupação crescente no Reino Unido.
➡️O Sindicato das Universidades e Faculdades (UCU, na sigla em inglês) aponta que algumas instituições estão negligenciando o domínio do idioma para receber as altas taxas pagas pelos estudantes estrangeiros, e um professor nos contou que 70% dos seus alunos de mestrado nos últimos anos tinham inglês inadequado.
A Universities UK, organização que representa 141 instituições de ensino, rejeita as alegações e afirma que existem requisitos linguísticos rigorosos para estudantes vindos do exterior.
Jo Grady, da UCU, que representa 120 mil professores e funcionários universitários, diz que é de conhecimento geral que os estudantes que não têm conhecimentos adequados de inglês encontram maneiras de ir para o Reino Unido estudar.
"Quando conversamos com os membros, aprendemos sobre os truques usados para fazer com que as pessoas passassem no exame de idioma e acessassem os cursos", diz ela.
Cerca de sete em cada 10 estudantes que frequentam mestrados na Inglaterra são estrangeiros, um número muito superior ao de outros tipos de cursos de ensino superior, afirma Rose Stephenson, do Higher Education Policy Institute, um grupo de especialistas em ensino superior independentes.
Na Inglaterra, as taxas universitárias para estudantes nacionais de graduação são limitadas a 9.250 libras (R$ 70,5 mil) por ano, valor que será elevado a 9.535 libras (R$ 72,7 mil) por ano em 2025-26.
Cada uma das outras nações do Reino Unido estabelece seus próprios valores, mas as taxas para estudantes estrangeiros que estudam na Inglaterra não têm limite máximo.
"Se pode cobrar de um estudante estrangeiro tanto quanto ele estiver disposto a pagar", diz Stephenson.
As taxas de pós-graduação também não têm limite, então um mestrado em uma universidade de elite pode custar 50 mil libras (R$ 380 mil).
Como as taxas pagas pelos estudantes nacionais na Inglaterra não acompanharam o ritmo da inflação, houve um corte em termos reais no financiamento das universidades, diz Stephenson, e os estudantes internacionais estão, na verdade, subsidiando taxas mais baixas para os estudantes nacionais.
Famílias ricas
Um denunciante que trabalhava numa empresa que prepara estudantes internacionais para entrar em universidades britânicas disse à BBC que os agentes da empresa visavam famílias no exterior com dinheiro para pagar pelas altas taxas.
"Sabíamos que essas universidades estavam cada vez mais desesperadas e seguiriam os nossos planos sem muito escrutínio sobre como encontramos esses estudantes", disse o ex-funcionário, que já havia falado antes ao jornal britânico Sunday Times.
O denunciante trabalhava para o Study Group, um dos muitos prestadores de serviços educacionais que alimentam o sistema universitário do Reino Unido e cobram dos estudantes pelo processo.
Com sede no Reino Unido, o Study Group, é um prestador de serviço registrado que afirma trabalhar para mais de 50 universidades com uma rede de 3.500 agentes em 99 países.
O grupo rechaça veementemente as alegações do ex-funcionário e afirma que os estudantes estrangeiros conquistam suas vagas por mérito.
Acrescenta que qualquer decisão de admissão de um aluno em um curso é tomada pela universidade, e não pelo Study Group, e rejeita a alegação de que os critérios de admissão não sejam aplicados por qualquer motivo.
A empresa afirma ainda que os cursos que ministra são "rigorosamente avaliados pelas universidades parceiras".
Yasmin pagou 16 mil libras (R$ 122 mil) por seu curso de finanças internacionais em uma universidade no sul da Inglaterra.
Mais tarde, ela descobriu que dos 100 alunos na maioria de seus módulos, "talvez 80 ou 90 deles compraram trabalhos" das chamadas "fábricas de redação" sediadas no exterior.
Na Inglaterra, é crime realizar um trabalho para um estudante e que este o apresente como se fosse de sua autoria.
Quando Yasmin contou ao seu orientador o que estava acontecendo, ele não tomou nenhuma atitude. Yasmin diz que agora sente que seu mestrado foi "desvalorizado".
Um professor universitário do Grupo Russell, associação que representa as principais universidades britânicas, que lecionou em diversas universidades e deseja permanecer anônimo, concorda com as preocupações de Yasmin.
Ele disse à BBC que 70% dos seus alunos de mestrado nos últimos cinco anos não tinham conhecimentos de inglês suficientes para frequentar o curso.
"Certamente houve momentos em que os alunos que ensino não conseguiram entender questões muito simples", diz ele.
O professor nos contou que teve que adaptar sua técnica de ensino e conta que os alunos até usam aplicativos de tradução nas aulas.
Mas insiste que a culpa não é dos estudantes internacionais, que na sua maioria fazem o seu melhor, e salienta que a situação varia de uma disciplina para outra.
Eles são aprovados, diz ele, porque os cursos são frequentemente avaliados por meio de tarefas, e não de exames.
Alguns estudantes recorrem a empresas de redação e pagam outros para escreverem seus trabalhos ou, cada vez mais, recorrem à inteligência artificial.
Ambos os métodos, diz ele, podem driblar o software antiplágio atual.
Crise financeira
Jo Grady, da UCU, diz que não é surpresa que alguns alunos com baixa proficiência em inglês sintam que precisam da ajuda de outras pessoas, ou até mesmo usem inteligência artificial para fazer seu trabalho, como um "ato de desespero".
Ele diz que os membros do seu sindicato dizem aos seus administradores que matricular alunos sem um bom nível de inglês "é uma má ideia… eles terão dificuldades, e nós também teremos dificuldades em ensiná-los".
No entanto, ela afirma que "os administradores e líderes universitários estão avançando de qualquer maneira, por causa do dinheiro e das receitas que isso traz".
Algumas universidades estão em crise financeira, diz Grady, e tornaram-se dependentes de estudantes estrangeiros que pagam taxas elevadas e "somas exorbitantes de dinheiro".
"As instituições estão atrás de dinheiro. Elas não estão necessariamente atrás dos melhores candidatos. E isso é uma corrupção do que deveria ser o ensino superior."
Vivienne Stern, diretora executiva da Universities UK, rejeita a sugestão de que alguns estudantes estrangeiros com baixos conhecimentos de inglês possam participar em cursos como forma de aumentar os rendimentos das universidades.
Ela diz que as instituições de ensino realizam verificações rigorosas das pessoas que matriculam, incluindo os níveis mínimos de idioma, conforme estabelecido pelo governo do Reino Unido.
"Os estudantes têm de poder pagar a taxa para estudar no Reino Unido, mas além disso é uma questão de aceitar os estudantes que se candidatam e aplicar critérios baseados no mérito", afirma.
"É absolutamente fundamental que este seja um sistema em que as pessoas confiem."
Stern diz que os estudantes internacionais são atraídos pela qualidade das universidades do Reino Unido e que seria "insensato" depender do rendimento internacional para financiar a educação e a pesquisa nacionais, porque o número de estudantes estrangeiros pode ser afetado pela geopolítica ou pelas flutuações cambiais.
Entretanto, o número de estudantes internacionais está diminuindo.
Os dados sobre pedidos de visto de estudante no Reino Unido no primeiro semestre deste ano mostram uma queda de 16%, resultando numa perda de rendimentos para algumas instituições.
Esta queda é atribuída, em parte, a alterações nas regras de visto de estudante do Reino Unido, que impedem a maioria dos estudantes de pós-graduação de trazer dependentes.
Isto está contribuindo para a pior crise financeira das universidades desde que as taxas foram introduzidas pela primeira vez.
No mês passado, a agência reguladora governamental, o Office for Students (OfS), estimou que até 2025-26, 72% das universidades poderão estar gastando mais do que recebem, e alertou que "é necessária uma ação rápida e decisiva".
O Departamento de Educação do Reino Unido disse à BBC que a dependência de estudantes estrangeiros foi identificada como um risco e que muitas universidades terão de mudar seus modelos de negócio. E acrescentou que o governo está empenhado em gerir a mudança com cuidado.
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Por que crianças pequenas gostam de ver os mesmos desenhos e ler os mesmos livros

Ruth Rocha, de ‘Marcelo, Marmelo, Martelo’, fecha contrato até 108 anos: ‘Não aguento fazer muita coisa, mas gosto muito de escrever’
Estes interesses profundos e repetitivos podem ser frustrantes para os pais — mas, na verdade, oferecem grandes benefícios para o aprendizado e o bem-estar das crianças. Estes interesses profundos e repetitivos podem ser frustrantes para os pais — mas, na verdade, oferecem grandes benefícios para o aprendizado e o bem-estar das crianças
Getty Images via BBC
É um sentimento familiar para muitos pais. Não importa o que você sugira, seu filho em idade pré-escolar só quer assistir aquele episódio de Bluey de novo, e não importa que ele tenha acabado de assistir. E, na hora de dormir, tem que ser um livro que você tenha lido com frequência suficiente para ter desenvolvido um repertório de vozes específicas para cada personagem.
Estes interesses profundos e repetitivos em um determinado episódio de desenho animado, jogo ou tema podem ser frustrantes para os pais que querem apenas assistir a algo diferente. Mas esta repetição, na verdade, oferece grandes benefícios para o aprendizado e o bem-estar das crianças.
Uma razão para isso é o que podemos chamar de "efeito input", que não é um conceito novo na ciência cognitiva.
Em busca de padrões
Pense no cérebro como um órgão que faz seu melhor para descobrir o que é normal em nossas vidas — o que faz parte de um padrão regular, e o que não faz. Os pesquisadores descobriram um fenômeno conhecido como "aprendizagem estatística". De acordo com esta ideia, as crianças são muito sensíveis à ocorrência de regularidades e padrões em suas vidas.
É interessante notar que os bebês são particularmente hábeis em compreender certos tipos de informação, como a probabilidade de certos sons na fala que dirigimos a eles. Mas eles precisam ser expostos a muitos exemplos disso para detectar regularidades.
Por exemplo, em todas as línguas, e o inglês não é exceção, os sons incluídos nas palavras tendem a seguir determinados padrões. Por exemplo, algumas das combinações mais comuns de três letras em inglês são "the", "and" e "ing". Faz sentido que o cérebro das crianças busque a repetição — neste exemplo, isso vai ajudá-las a aprender o idioma.
Portanto, quando as crianças pequenas voltam a assistir ao mesmo programa, o que elas estão fazendo, quer saibam ou não, é motivado pelo desejo de detectar e consolidar os padrões do que estão assistindo, ouvindo ou lendo.
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Conforto familiar
Além de apoiar o aprendizado, a repetição também oferece benefícios para as emoções das crianças, no que estamos chamando aqui de "efeito de bem-estar".
A principal tarefa da infância é o aprendizado, e isso significa buscar ativamente novas experiências e estímulos. No entanto, ter que processar e se adaptar a coisas novas pode ser exaustivo, mesmo para uma criança pequena com energia inesgotável.
O mundo também pode ser um lugar mais estranho e estressante para as crianças do que para os adultos. Como adulto, você terá aprendido o que esperar e como se comportar em determinados contextos, mas as crianças estão constantemente se deparando com situações novas pela primeira vez.
Estímulos bem conhecidos, como aquele episódio de desenho animado que elas já assistiram inúmeras vezes, podem proporcionar uma fonte de conforto e segurança que protege contra esse estresse e incerteza.
Interesses profundos em uma atividade específica também podem proporcionar benefícios de bem-estar por meio de uma sensação de controle e domínio.
As crianças estão constantemente sendo desafiadas em relação ao que sabem e entendem na creche, na escola e em outros lugares. Isso é fundamental para o aprendizado, mas também representa uma ameaça aos seus sentimentos de competência.
A capacidade de relaxar durante uma atividade na qual se sentem bem, como um jogo favorito, atende a essas necessidades de competência.
Além disso, o fato de poderem optar por uma atividade de que gostam permite que tenham um senso de autonomia e controle sobre suas vidas, que, de outra forma, podem se resumir a serem levadas para lá e para cá pelos pais.
É claro que nem todas as crianças têm a mesma probabilidade de desenvolver estes tipos de interesses repetitivos. Por exemplo, crianças com autismo geralmente apresentam interesses particularmente específicos.
A repetição tem um valor enorme em termos de aprendizado e bem-estar. Portanto, embora você não deva forçá-las a assistir novamente aos programas, também não precisa se preocupar se isso for algo que elas próprias estão buscando.
No entanto, pode se tornar problemático se afetar a capacidade da criança de se envolver em outros aspectos importantes da sua vida, como sair de casa na hora certa, interagir com outras pessoas ou praticar exercícios físicos.
É claro que não existe uma regra de ouro que possa ser aplicada a todas as crianças em todos os contextos.
Como pais, só podemos ficar atentos à situação e tomar uma decisão. Mas, ao colocar Frozen mais uma vez, pense nos efeitos de input e bem-estar, e tente deixar de lado a preocupação de que seu filho deveria estar fazendo algo — qualquer outra coisa! — diferente.
* Javier Aguado-Orea é professor de Psicologia na Universidade Sheffield Hallam, no Reino Unido.
Diarmuid Verrier também é professor de Psicologia na mesma instituição de ensino.
Este artigo foi publicado originalmente no site de notícias acadêmicas The Conversation e republicado aqui sob uma licença Creative Commons. Leia aqui a versão original (em inglês).

Ruth Rocha, de ‘Marcelo, Marmelo, Martelo’, fecha contrato até 108 anos: ‘Não aguento fazer muita coisa, mas gosto muito de escrever’

Ruth Rocha, de ‘Marcelo, Marmelo, Martelo’, fecha contrato até 108 anos: ‘Não aguento fazer muita coisa, mas gosto muito de escrever’
Em entrevista à BBC News Brasil, autora que coleciona prêmios e exemplares vendidos, fala sobre a velhice, o impacto da tecnologia na infância e seus próximos planos de carreira. Família de Ruth Rocha está mirando a internacionalização da obra da escritora, que já tem livros traduzidos em 25 idiomas
Flávia Mantovani/BBC
A escritora Ruth Rocha tem 93 anos, mas diz que aparenta só 92. A brincadeira vem de uma conversa que teve com uma criança há quase cinco décadas.
"Era um menininho. Ele me perguntou: ‘Quantos anos você tem?’ Eu falei: ‘Tenho 47’ e ele: ‘Mas você não parece! Você parece ter uns… 46!"
Rememorada aos risos por Ruth, essa é uma das muitas histórias que coleciona de sua carreira, em que se tornou ícone da literatura infantil.
Ela tem mais de 200 livros publicados, 40 milhões de exemplares vendidos, com forte presença nas salas de aula, e obra traduzida para 25 idiomas, além de oito prêmios Jabutis.
Autora de clássicos como Marcelo, Marmelo, Martelo, O Reizinho Mandão e A Primavera da Lagarta, a escritora conversou com a BBC News Brasil na sala de sua casa, na cidade de São Paulo.
Vestida com um conjunto de cor clara, maquiada, com o cabelo grisalho muito bem penteado e óculos pretos modernos, Ruth driblou com humor e lucidez a dificuldade de audição e o cansaço físico e mental inerente à idade.
“Escrevo o que eu penso, o que eu sinto, mas eu não ensino muito, não. Eu conto as coisas que eu acho interessantes. Livro tem que ser interessante, divertido”, afirma Ruth.
Ela começou a conversa sentada em uma cadeira de balanço, tomou café quente de um só gole e, no final, se levantou para tirar fotos em frente a uma estante cheia de livros, prêmios e imagens da família.
Depois, sentou-se em uma mesa para mostrar um caderno cheio de frases de autores dos quais gosta e leu um poema de Lorenzo Stechetti, pseudônimo do italiano Olindo Guerrini.
Apesar de ter diminuído o ritmo, Ruth segue na ativa, com a ajuda da família.
Continua escrevendo livros, reeditando obras e firmando parcerias com artistas renomados, além de ter renovado o contrato de exclusividade com a editora Salamandra, do grupo espanhol Santillana, por mais 15 anos.
Um dos lançamentos previstos ainda para este ano é Encontro de Histórias (ed. Panini), um livro em quadrinhos da Turma da Mônica junto com a Turma do Marcelo, personagem que o próprio Maurício de Sousa quis desenhar.
A parceria inédita, que era um desejo antigo do quadrinista, foi anunciada na Bienal do Livro de São Paulo em setembro.
Já a parceria com outro cartunista célebre, Caco Galhardo, renderá o título A Lebre e a Tartaruga, que fará parte dos Recontos bonitinhos (ed. Global), coleção com versões de contos clássicos em rimas e versos.
Para o ano que vem, a família de Ruth prepara o relançamento de dez livros já existentes da escritora, remodelados em formato premium e com ilustrações inéditas.
“Um dos trabalhos que eu faço é buscar ilustradores novos, com mais diversidade também, para incluir na obra dela”, afirma Mariana Rocha, sua filha.
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Mariana Rocha, filha de Ruth, fez a seleção de dez livros para o portfólio internacional da autora
Flávia Mantovani/BBC
É Mariana quem comanda um esforço pela internacionalização da obra da mãe, que já recebeu um dos maiores reconhecimentos mundiais da literatura infantil, ao ser incluída na Lista de Honra do Prêmio Hans Christian Andersen, considerado o Nobel do gênero.
Neste ano, Marcelo, Marmelo, Martelo, o maior best-seller de Ruth, foi publicado nos Estados Unidos — com o nome Marcelo Martello Marshmallow — e em Portugal.
Para o portfólio internacional, Mariana Rocha fez uma seleção de dez livros que considerou mais universais.
Ela vê os países da América Latina e os Estados Unidos como especialmente promissores, mas também pensa em mercados mais longínquos.
No dia da entrevista, no início de novembro, por exemplo, a agente que representa Ruth estava na feira de Sharjah, nos Emirados Árabes Unidos.
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'Envelhecer é muito chato'
Hoje, um problema de visão dificulta a capacidade de leitura de Ruth, mas a literatura continua sendo sua companheira graças à irmã Rilda e ao neto Pedro, que leem para ela — Rilda, todos os dias, durante uma hora, por telefone; Pedro, pessoalmente, duas vezes por semana.
"Não fico sem livros na vida", diz a escritora.
Com Rilda, já foram mais de 70 obras lidas. Com Pedro, 13, sendo que cinco são do mesmo autor, Ítalo Calvino.
O neto costuma postar vídeos no TikTok falando das obras que lê com a avó e recebe enxurradas de comentários de fãs de Ruth.
"Ele lê muito bem, é muito expressivo. Agora, estamos lendo contos do [Ernest] Hemingway. Cem anos de solidão [de Gabriel García Márquez] eu já tinha lido e ele releu para mim, adorei", diz Ruth.
Para Ruth, "envelhecer é muito chato".
"Não tenho a mesma alegria de fazer coisas, estou mais fraca, não saio muito. Mas sou feliz. Tenho uma família ótima, tenho saúde, me sinto bem."
O neto Pedro ajuda Ruth a ler, duas vezes por semana
Flávia Mantovani/BBC
Para Ruth, crianças continuam gostando de livros, mesmo com o apelo de celulares e outras telas. Sua sugestão para incentivar o amor pela literatura é começar despertando o gosto pela língua.
"É importante conversar com as crianças desde que elas são pequenininhas, cantar, falar poesia, trocar ideias", diz.
Era assim que ela fazia com Mariana, filha única de Ruth com o empresário e ilustrador Eduardo Rocha, com quem a escritora foi casada até ele morrer, em 2012.
"Minha filha queria saber coisas diferentes. Ela dizia: ‘Eu quero a história dessa coisa de vidro aqui. A história daquele vaso, de um cinzeiro, das estrelas’. Eu não sabia, mas ficava inventando."
Outra recomendação de Ruth é que os pais cultivem o próprio hábito de leitura.
"Leitura também é exemplo. As crianças gostam de brincar de adulto. Elas brincam de médico, de pirata, de aviador. Se ela vê os adultos lendo livros, vai querer imitá-los."
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Obra atravessada pela ditadura e pela covid-19
Em dezembro de 2023, Ruth lançou O Grande Livro dos Macacos, com curiosidades sobre esses animais e sobre a Teoria da Evolução de Charles Darwin.
Foi, diz a filha Mariana, uma forma de se contrapor ao negacionismo da ciência que angustiava a escritora durante a pandemia de covid-19 — ela dedicou o livro aos cientistas.
Duas das páginas trazem desenhos de Miguel, neto de Ruth, que é designer. "Ele não faz esse tipo de desenho, fez porque eu pedi", diz a avó, orgulhosa.
A indignação com questões políticas e sociais foi ponto de partida para as histórias de Ruth em outros momentos de sua carreira.
Livros como O Reizinho Mandão, por exemplo, criticavam o autoritarismo em plena ditadura militar, mas não chamavam a atenção dos órgãos de censura.
“Ninguém levava muito a sério literatura infantil, achavam que era bobagem”, diz Ruth.
Ela lembra de quando, ainda na ditadura, recebeu um prêmio diretamente das mãos de um ministro da Educação por outra obra que tocava em assuntos como poder e democracia: O rei que não sabia de nada.
Se os livros sobre governantes autoritários enganaram os censores, não passaram batido pelas crianças.
Ruth conta que em uma ocasião, após contar a história de O Reizinho Mandão, um pequeno leitor disse a ela: “Mas esse é o presidente da República!”.
Ela tentou disfarçar. "Eu falei: ‘Não, imagina, é um irmão mandão, um pai mandão’. Aí ele perguntou: ‘Você não tem medo da polícia?’ Respondi que sim, tinha muito medo."
Formada em Ciências Políticas e Sociais pela Escola de Sociologia e Política de São Paulo, Ruth começou a escrever histórias infantis a pedido de uma amiga, Sonia Robatto, diretora da Recreio — revista da editora Abril que a própria Ruth dirigiu posteriormente.
A sugestão de Sonia foi bastante veemente.
“Ela queria que eu fizesse uma história. Eu falava: eu conto histórias para a Mariana, mas eu não sei contar outras histórias. Ela ficava: conta, conta, conta, conta. Até que um dia, ela me trancou na casa dela. E eu sentei e escrevi”, lembra Ruth.
Essa primeira história que Ruth publicou, até hoje muito conhecida dos leitores, é sua versão do clássico Romeu e Julieta com duas borboletas como personagens: uma azul e uma amarela, que não podiam brincar juntas por terem cores diferentes.
Era, segundo ela, uma forma de abordar o preconceito sem perder a fantasia e a ludicidade de uma boa história infantil, característica que acompanhou a escrita da autora ao longo de sua carreira.
“Os livros dela agradam demais aos professores, são adotados em massa pelas escolas e às vezes as pessoas querem colocar como educativo”, diz Mariana.
"É um trabalho que inspira conhecimento e transformação, mas ela sempre fala: minha obra não é didática."
Ruth afirma que sua intenção é despertar nas crianças o mesmo prazer pela literatura que ela tem desde sua infância, quando ouvia histórias contadas por seus pais e avós e pegava livros emprestados toda semana em uma biblioteca.
"A vida inteira eu tinha muitas ideias. Eu estava escrevendo uma história e já saía com três ideias para escrever, ficava com aquilo na cabeça", conta.
De suas 218 obras, ela diz que não tem uma favorita, mas admite que algumas são especiais, citando Marcelo, Marmelo, Martelo, Quando eu comecei a crescer e Um cantinho só pra mim.
Esses dois últimos têm um forte teor autobiográfico, segundo Mariana.
"Minha mãe é muito faladeira e sociável, mas ela curte muito também ficar sozinha, ter momentos de quietude, no mundo dela, pensando na vida", aponta a filha de Ruth.
"Acho que isso também propiciou a criação, a imersão no mundo da Imaginação."
Mariana conta que recebe muitas manifestações de carinho de leitores de diferentes gerações.
"Minha mãe fez parte da infância e do crescimento de muita gente. Pessoas falam que a literatura dela transformou suas vidas, porque mostrou uma amplitude de possibilidades para o ser humano se desenvolver", diz Mariana.
"Tem gente que chora e eu choro junto. É muito bonito."
Apesar das mudanças trazidas pela velhice, Ruth continua escrevendo — à mão, em pranchetas.
Ela acabou de terminar uma obra que chamou de Histórias pequeninas de gente pequenina e está trabalhando em um texto com uma nova versão do conto de Cinderela.
“Não aguento fazer muita coisa, mas eu gosto muito [de escrever]. É a minha vida."
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