Técnica do ‘cérebro podre’: alunos usam app para transformar material de aulas em vídeos viciantes

Greve na UnB: servidores técnico-administrativos paralisam atividades
Programas convertem arquivos de PDF em vídeos com linguagem de TikTok e imagens genéricas e descontextualizadas, como as dos jogos ‘Subway Surfers’ e ‘Minecraft’ . Técnica do ‘cérebro podre’: alunos usam app que transforma textos longos em vídeos curtos
Imagine a seguinte situação: um aluno do ensino médio precisa estudar um capítulo de 11 páginas do livro de biologia. No material, há ilustrações, gráficos e textos detalhados sobre estruturas celulares e transporte de secreções.
🚨A prova é amanhã. O que fazer? Se você pensou no mais óbvio (ler as 11 páginas), está na contramão da nova tendência de crianças e jovens no exterior: eles usam vídeos de “brain rot” (“cérebro podre”, em inglês) para driblar a dificuldade de concentração e deixar o conteúdo mais apelativo e resumido.
Sites e aplicativos específicos transformam o arquivo PDF em uma sucessão de imagens genéricas, muito estimulantes visualmente e com baixa exigência cognitiva, apenas para reter a atenção dos estudantes. Enquanto isso, um robô "lê em voz alta" o que estava escrito no texto.
📱Exemplo: O g1 fez um teste e enviou o capítulo de biologia citado acima, retirado de um livro didático, para uma dessas plataformas de inteligência artificial. O material foi convertido em um vídeo de 59 segundos, narrado por uma daquelas vozes automáticas do TikTok:
“POV: você está na aula de biologia, vibe check. Vamos falar sobre a rota secretora. Primeira coisa: a estrela aqui é o retículo endoplasmático. O rolê todo é uma coreografia celular, bem fluido!”
As imagens que aparecem ao longo dessa narração simplificada não têm absolutamente nada a ver com células: são cenas de “Subway Surfers” (jogo de corrida interminável). Ou seja: para o jovem prestar atenção ao que está sendo dito (e que já é uma versão resumida do conteúdo), ele precisa de um estímulo visual de videogame para manter os olhos na tela.
➡️Segundo especialistas ouvidos pelo g1, substituir a leitura por esse tipo de conteúdo pode gerar uma falsa sensação de aprendizado, limitar o desenvolvimento do senso crítico, reduzir o vocabulário e piorar ainda mais os distúrbios de foco. (leia mais abaixo)
“Os estudantes estão com dificuldade de manter a concentração em textos longos, principalmente se forem mais densos. Eles se acostumaram a consumir muita informação em vídeos rápidos, como no TikTok ou nos reels”, afirma Danilo Torini, gerente de tecnologias do ensino com aprendizagem da ESPM.
“Acabam aplicando o mesmo princípio das mídias sociais na aprendizagem: buscam a gamificação para liberar a dopamina [hormônio da felicidade].”
Abaixo, nesta reportagem, entenda:
o funcionamento dessas plataformas de “brain rot”;
os riscos de usar a técnica do “cérebro podre” para estudar.
🤔Como as plataformas funcionam?
Vídeo gerado por IA mostra conteúdos aleatórios enquanto reproduz áudio sobre células
Reprodução
Aplicativos e programas (pagos ou gratuitos) como Coconote, Raena, PDF to Brain Rot e TurnoLearn AI têm um princípio de funcionamento parecido:
O aluno faz o “upload” de um arquivo em formato PDF.
Em seguida, o site sugere as opções de vídeos “brain rot”: é possível escolher entre cenas de videogame (como de Minecraft, de Subway Surfers ou de jogos de basquete, por exemplo), de ASMR (aquelas imagens criadas para gerar sensações relaxantes e agradáveis ou de memes genéricos) ou de memes aleatórios.
O sistema, então, gera um vídeo cujo áudio é exatamente a leitura em voz alta do que está escrito no PDF. Enquanto o estudante ouve a gravação e lê as legendas, o que passa na tela é o conteúdo “brain rot” escolhido.
Resultado: em vez de ler um artigo científico de 30 páginas, o aluno assiste a um vídeo superficial e estimulante, para conseguir manter o foco por mais tempo. Um texto sobre energia eólica, por exemplo, vira um jogo virtual com um bonequinho de LeBron James tentando fazer uma cesta de basquete, enquanto o áudio explica a força dos ventos.
➡️Observação: Em alguns aplicativos, existe a opção de pedir uma adaptação do conteúdo. No Raena, por exemplo, o tópico é resumido e recontado com gírias de redes sociais. No exemplo dos ventos, o resultado trouxe frases como:
“Essa vibe do vento já movimentou muita coisa, antes do rolê da eletricidade”.
🤔Os vídeos de ‘brain rot’ podem atrapalhar os estudos?
Um conteúdo sobre energia eólica pode virar uma corrida de caminhões entre montanhas
Reprodução
Andrea Jotta, do Laboratório de Estudos da Psicologia em Tecnologia, Informação e Comunicação da PUC-SP, afirma que, “depois da pandemia, os alunos voltaram para a escola ainda mais acostumados ao ensino virtual”.
“Eles passaram dois anos conciliando várias telas: uma com jogo, outra com aula. Podemos limitar o uso do celular, até por questões de saúde mental, mas eles vão continuar tentando achar saídas para tornar o estudo menos entediante. É uma tendência difícil de ser revertida”, diz.
🖥️Torini, da ESPM, explica que os vídeos em si não são um problema: tudo vai depender da frequência e do tipo de uso.
“Pode ser uma estratégia complementar ao estudo tradicional, para ajudar na memorização”, diz o professor. Seria o caso de quem primeiramente lê o capítulo do livro, relê as anotações feitas em aula, reflete sobre o conteúdo e, só depois, gera um vídeo de "brain rot" para fixar o aprendizado.
Mas, se ocorrer a substituição da leitura pelos vídeos — como os próprios estudantes relatam nas redes sociais —, haverá o risco de consequências como:
❌Falsa sensação de aprendizagem: “Só ouvir o conteúdo, sem uma interação ativa, não é suficiente para reter os conhecimentos a longo prazo. Ao anotar ou fazer um exercício, áreas diferentes do cérebro são ativadas”, explica Torini.
❌Sobrecarga cognitiva: São muitos estímulos — cores gritantes, cenário dinâmico, agitação, bonequinhos correndo…. Fica muito mais difícil ler/ouvir o texto com atenção.
“É um excesso de elementos visuais muito dinâmicos, competindo com a construção do conhecimento. Não dá para parar e refletir sobre o conteúdo estudado”, complementa o professor.
❌Superficialidade: Os vídeos de “brain rot” são simplificados e não desenvolvem habilidades críticas de análise e de interpretação de texto. O vocabulário usado pelos aplicativos pode parecer mais acessível, mas distancia o aluno de outros gêneros textuais (como o acadêmico).
❌Dificuldade de leitura: A dependência de estímulos rápidos, segundo Torini, faz com que o cérebro se acostume a conteúdos sempre acelerados. A tendência é que tarefas que exigem maior concentração, como a leitura, fiquem cada vez mais desafiadoras para o estudante.
❌Problemas emocionais: O indivíduo pode se tornar dependente desse “looping” de vídeos rápidos. Aos poucos, sintomas como declínio cognitivo, dificuldade de foco, perda de criatividade, cansaço mental e desinteresse por atividades intelectuais podem surgir.
🤔Os professores devem intervir?
Os especialistas ouvidos nesta reportagem insistem que, por mais que professores e pais fiquem assustados diante dos conteúdos de “brain rot”, o mais indicado é “trazer o assunto à tona, em vez de fingir que ele não existe".
“É possível incorporar esses métodos multimodais de estudo e estimular que eles sejam mesclados com experiências de leitura. Eles podem servir para despertar o interesse inicial sobre um assunto ou complementar os estudos — só não podem ser os únicos meios”, afirma o professor da ESPM.
“Não adianta demonizar a inteligência artificial nem achar que ela é a solução dos nossos problemas. Ela é só uma ferramenta. É preciso ter equilíbrio.”
Vídeos
‘Brain rot’ e ansiedade nas redes sociais

Se bebês formam memórias, por que não nos lembramos dos primeiros anos de vida?

Greve na UnB: servidores técnico-administrativos paralisam atividades
Estudo publicado nesta quinta-feira (21) esclarece, após o monitoramento de mais de 20 bebês, o motivo de certas recordações ficarem inacessíveis com o tempo. Bebê viraliza ao fazer cara de bravo logo após o nascimento em São Roque de Minas, no início de março
Carol Wolf/Arquivo Pessoal
Os primeiros anos dos humanos são um período de aprendizagem rápido, mas normalmente não conseguimos nos lembrar de experiências específicas dessa época: é o fenômeno conhecido como amnésia infantil.
Um novo estudo publicado nesta quinta-feira (20), na prestigiosa revista científica "Science", desafia as suposições sobre a memória infantil, demonstrando que a mente dos bebês é, sim, capaz de formar lembranças.
➡️A pergunta é: por que é tão difícil recuperar essas memórias mais adiante na vida?
"Sempre fui fascinado por este misterioso vazio na nossa história pessoal", disse à AFP Nick Turk-Browne, professor de psicologia em Yale e principal autor do estudo.
Por volta de um ano de idade, as crianças se tornam aprendizes extraordinários: adquirem linguagem, andam, reconhecem objetos, compreendem os vínculos sociais e muito mais.
"No entanto, não lembramos nenhuma destas experiências, pois existe uma espécie de desajuste entre essa incrível plasticidade e nossa capacidade de aprendizado", afirmou.
Sigmund Freud, fundador da psicanálise, sugeriu a hipótese de que as primeiras lembranças são reprimidas, ainda que desde então a ciência tenha descartado em grande medida a ideia de um processo de supressão ativa.
As teorias modernas se centram no hipocampo, área do cérebro crucial para a memória episódica, que não se desenvolve completamente na infância.
Turk-Browne sentiu-se intrigado com as pistas de estudos comportamentais anteriores.
Visto que os bebês não conseguem comunicar verbalmente as lembranças antes de adquirirem a linguagem, sua tendência a observar objetos familiares por mais tempo dá pistas importantes.
Estudos recentes com roedores que monitoram a atividade cerebral também demonstraram que os engramas (padrões de células que armazenam lembranças) se formam no hipocampo infantil, mas se tornam inacessíveis com o tempo, embora possam ser reativados artificialmente mediante uma técnica que usa luz para estimular os neurônios.
Até agora, combinar as observações de crianças pequenas com imagens cerebrais estava fora do alcance, pois bebês são sabidamente pouco cooperativos quando se trata de ficarem quietos dentro de uma máquina de ressonância magnética funcional (fMRI), o dispositivo que rastreia o fluxo sanguíneo para "ver" a atividade cerebral.
Padrões psicodélicos
Para superar este desafio, a equipe de Turk-Browne usou métodos que seu laboratório aperfeiçoou ao longo dos anos: trabalhar com famílias para incorporar chupetas, cobertores e bichos de pelúcia; manter os bebês estáveis com almofadas para que não se mexam; e usar padrões psicodélicos de fundo para prender sua atenção.
O movimento inevitável produziu, no entanto, imagens borradas que tiveram de ser descartadas, mas a equipe solucionou o problema realizando centenas de sessões.
No total, participaram da experiência 26 bebês (sendo a metade de menores de um ano e a outra metade, maiores). Eles tiveram o cérebro escaneado durante uma tarefa de memória, um exercício de estudo para adultos adaptado para eles.
Primeiro, mostraram aos bebês imagens de rostos, cenas e objetos. Depois, após verem outras imagens, exibiu-se uma que já tinham visto antes, junto com uma nova.
"Quantificamos o tempo que passaram olhando o que já tinham visto e essa é uma medida de sua memória para essa imagem", explicou Turk-Browne.
Ao comparar a atividade cerebral durante a formação bem-sucedida de lembranças com a de imagens esquecidas, os pesquisadores confirmaram que o hipocampo participa ativamente da codificação da memória desde a tenra idade.
Isto foi visto em 11 dos 13 bebês maiores de um ano, mas não nos menores.
Eles também descobriram que os bebês com melhor rendimento em tarefas de memória apresentaram uma atividade maior no hipocampo.
"Podemos concluir com precisão que os bebês têm a capacidade de codificar lembranças episódicas no hipocampo desde aproximadamente um ano de idade", afirmou Turk-Browne.
Lembranças apagadas
"A ingenuidade de sua abordagem experimental não deve ser subestimada", escreveram os pesquisadores Adam Ramsaran e Paul Frankland em um editorial da Science.
Mas o que segue sem resposta é o que acontece com estas lembranças remotas. Talvez nunca se consolidem por completo no longo prazo ou talvez persistam, mas se tornem inacessíveis.
Turk-Browne suspeita da segunda hipótese e agora está encarregado de um novo estudo que avalia se bebês e crianças pequenas conseguem reconhecer videoclipes gravados de sua própria perspectiva quando eram bebês.
Os primeiros resultados provisórios sugerem que estas lembranças poderiam persistir até cerca dos três anos antes de desaparecerem.
Turk-Browne se diz intrigado especialmente com a possibilidade de que estes fragmentos possam ser reativados algum dia em etapas posteriores da vida.
Ginástica para o cérebro: tarefas de memória, atenção e resolução de problemas melhoram a cognição em idosos

Cidade de MT diz ter 83% de alunos alfabetizados com ‘método rápido alemão’; dados do MEC divergem

Greve na UnB: servidores técnico-administrativos paralisam atividades
Essência do método é a repetição: alunos devem reproduzir o som de 4 letras ao longo de 21 dias. Segundo defensores, crianças tornam-se leitoras fluentes em 4 meses. Críticos dizem que a falta de contexto prejudica habilidades de interpretação. Sala de aula com alfabeto na parede
Prefeitura de Uberaba/Divulgação
Os defensores de um método de alfabetização desenvolvido na Alemanha e vendido no Brasil usam a experiência observada no município de Alta Floresta (MT) para atestar que, com uma técnica de repetição de sons, é possível ensinar crianças a ler e a escrever em apenas 4 meses. O que é divulgado como "sucesso absoluto" e difundido para outras redes de ensino, no entanto, não foi verificado por índices oficiais do Ministério da Educação (MEC).
De acordo com a Secretaria de Educação de Alta Floresta, em 2022, após um ano de implementação do chamado "IntraAct Brasil", a porcentagem de crianças do 2º ano alfabetizadas teria saltado de 35% para 83%.
A avaliação do MEC mais próxima disso é o indicador Criança Alfabetizada, que usa dados de 2023. Ele foca na mesma faixa etária e mensura os conhecimentos dos alunos em língua portuguesa. O resultado é bem diferente: Alta Floresta teve apenas 53,5% dos alunos da rede pública com conhecimentos adequados na disciplina. É uma taxa ainda menor do que a média nacional (56%). Entenda mais abaixo.
✏️Abaixo, nesta reportagem, entenda os seguintes pontos:
por que a técnica gera embate entre as diferentes correntes da educação;
os detalhes do método e os resultados já registrados;
os pontos fortes apresentados pelos defensores;
e as críticas feitas por pesquisadores, principalmente a respeito da suposta limitação da criatividade e da "robotização" da aprendizagem.
📝Por que é uma técnica 'polêmica'?
🔊O método baseia-se na neurociência para defender que a chave da aprendizagem é a repetição (veja mais detalhes na próxima seção do texto). E é justamente esse princípio de "automatizar" a aquisição de conhecimentos que virou alvo de críticas. No IntraAct, as crianças precisam reproduzir os sons de 4 letras por 15 minutos, três vezes ao dia, ao longo de 3 semanas. Só depois disso, a turma é apresentada a uma outra pequena parte do alfabeto.
Para educadores consultados pelo g1, há as seguintes fragilidades:
A técnica ensina a decifrar códigos, mas, por apresentar aos alunos palavras fora de contexto, pode não desenvolver a capacidade de interpretação de texto e a criatividade das crianças.
No Brasil, o passo a passo a ser seguido pelo professor só é divulgado mediante a compra do "pacote" de materiais didáticos (mais de R$ 600 por aluno).
A crença de que mudar o método das escolas seria a solução para os problemas de leitura e escrita no Brasil é ilusória, já que há outros fatores que determinam o fracasso na educação atual, como a formação de professores deficitária, a falta de incentivo à carreira docente e as falhas na estrutura dos colégios.
“De tempos em tempos, aparece um método que promete mundos e fundos, como se a solução [para o nosso problema] fosse milagrosa. Mas é preciso olhar o contexto maior e investir principalmente na formação dos professores”, defende Elaine Vidal, professora da Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo (USP).
➡️Segundo ela, o que está sendo vendido como uma técnica revolucionária parece ser apenas uma “nova roupagem” do método fônico (defendido pelo Ministério da Educação durante o governo Bolsonaro).
“Não há nada de inovador nisso. Os métodos sintéticos [entenda mais abaixo] existem desde o século XIX. A alfabetização baseada na memorização pode, de fato, tirar uma criança do analfabetismo total, porque ela vai decifrar sons e palavras. Mas é preciso analisar: ela vai saber interpretar o texto que acabou de ler? Vai atribuir sentido a ele?”, questiona Vidal.
Irene Duarte, professora responsável por trazer o IntraAct para o Brasil, diz que, de fato, "há críticas, mas que elas podem ser derrubadas".
"O método foi criado para pessoas com transtornos de aprendizagem [como dislexia e TDAH], mas a gente recomenda para todas. É uma forma de aprender muito rapidamente a ler. E sem gaguejar”, afirma.
De acordo com ela, os resultados das turmas após a aplicação do IntraAct foram muito positivos. "Testei em uma escola pública de Alta Floresta e foi lindo. No fim de 2021, mesmo com a pandemia, eu tinha as 33 crianças lendo, inclusive uma indígena que não falava português e uma menina com deficiência intelectual", conta Irene.
⛔É mais um capítulo da guerra entre métodos de alfabetização – conflito antigo que nunca definiu um vencedor.
📖Como funciona o IntraAct?
O método, baseado na neurociência, foi fundado pelos alemães Uta Streit e Fritz Jansen há mais de 30 anos. O objetivo inicial, como já explicado mais acima, era alfabetizar pessoas com dislexia, transtorno do déficit de atenção e hiperatividade (TDAH) ou autismo.
Veja como funciona:
O professor apresenta aos alunos um grupo de 4 letras de cada vez, começando pelas que são pronunciadas mais facilmente (A, M, L, O). Ao longo de 3 semanas, a turma repetirá o som de cada um desses caracteres.
O objetivo é tornar automática a associação do “M” ao som de “mmmm”, por exemplo. Aos poucos, o aluno formará palavras e pseudopalavras usando essas 4 letras: lama, loma, amo etc.
“A aula tem 4 horas. Em 3 tempos de 15 minutos, a gente repete os sons das letras. Esse processo [de aprendizagem] precisa ser de fora pra dentro, precisa ser colocado na cabeça das crianças. A gente vai instalar as 26 letras do sistema alfabético na região occipital do cérebro [responsável pelo processamento visual das informações]”, explica Irene Duarte.
A orientação é que palavras escritas com outras letras ainda não sejam apresentadas para as crianças, segundo a cartilha de Streit e Jansen.
Depois de 21 dias, outras 4 letras são ensinadas: F, S, I e N. O aluno passa a escrever “nana”, “lona”, “fama” e termos que não existem, mas que usam essas sílabas.
Após cerca de 4 meses, todo o alfabeto terá sido mostrado. Em tese, a criança terá desenvolvido consciência fonológica e saberá ler e escrever com fluência.
O processo é focado na memorização. As crianças veem a letra “A”, por exemplo, 5 vezes, por meio de um papel recortado que forma uma espécie de “janelinha”— ela é deslizada da esquerda para a direita, na intenção de condicionar o cérebro a ler sempre nesse sentido (veja a imagem abaixo). No meio das sequências, aparecem outros elementos, como um quadrado roxo, para só depois voltar à letra “A”. Assim, é possível exercitar a memória e fixar o que foi aprendido mesmo após "interrupções".
Exemplo de 'janelinha' que revela as letras
Reprodução/IntraAct
📖O que os números dizem sobre o IntraAct?
Professora ensina aluno a ler por meio de método alemão
Reprodução/IntraAct
A Secretaria de Educação de Alta Floresta, cidade onde Irene aplicou pela primeira vez o IntraAct, alega que, antes de adotar o método, apenas 35% das crianças eram alfabetizadas até o fim do 2º ano do ensino fundamental. No fim de 2022, após um ano da implementação da técnica, o índice teria subido para 83%.
O g1 entrou em contato com a Secretaria de Educação do município para saber qual foi a metodologia usada na avaliação, já que, nos materiais públicos de divulgação, não há nenhum detalhamento. Em resposta, o órgão afirmou que foram utilizadas "ferramentas como avaliação municipal e avaliação estadual, dentro do programa Alfabetiza Mato Grosso".
🔔São números que destoam dos apresentados pelo MEC, como mostrado no início da reportagem. O Indicador Criança Alfabetizada indica que apenas 53,5% das crianças de Alta Floresta, do 2º ano do ensino fundamental, demonstraram ter conhecimentos adequados em língua portuguesa em 2023.
Segundo a secretaria estadual, os dados do MEC foram baseados apenas em escolas da rede particular de ensino. Mas, quando consultada pelo g1, a pasta reforçou que são números censitários, colhidos em escolas públicas pelo Sistema Nacional de Avaliação da Educação Básica (Saeb).
Lucineia Mazzoni, secretária de Educação do município, alega que, em 2023, a rede municipal recebeu alunos do 2 ao 5º ano oriundos de colégios estaduais. "Isso impactou diretamente os resultados. Em 2025, a expectativa é que o resultado positivo do programa se amplifique, refletindo um avanço mais significativo na alfabetização", diz.
Observação: Apesar de haver esse índice insatisfatório no Indicador Criança Alfabetizada, o MEC concedeu à cidade o Selo Nacional Compromisso com a Alfabetização, por considerar que houve “o desenvolvimento de ações integradas em nível territorial, a institucionalização de políticas de alfabetização, a formação contínua de professores e a distribuição de materiais didáticos”.
📖Qual é a diferença entre aprender com cartilha ou com textos 'reais'?
Em geral, há duas formas de enxergar esse processo de aprendizagem: pensar na língua como objeto cultural, sempre contextualizada e com sentido; ou ver a escrita como um sistema de códigos, que exige certo distanciamento para ser compreendido.
São interpretações não necessariamente excludentes — uma pode complementar a outra. Mas alguns métodos optam por priorizar um desses aspectos.
Métodos sintéticos: As antigas (mas ainda usadas) cartilhas, por exemplo, ou o próprio IntraAct aproximam-se mais de uma visão técnica — o aluno começa a aprender por uma pequena parte (seja o som de cada letra ou de cada sílaba) para só depois combinar tudo e formar palavras. “Be-bê”, “Ba-bá”.
Métodos analíticos: Outra abordagem, defendida mais acima pela professora da USP, propõe uma reflexão sobre o uso social da língua: o aluno vai entrar em contato com textos reais (histórias, parlendas) para só depois olhar para as suas partes (palavras, sílabas, sons). A prioridade é a compreensão dos significados, sempre próximos ao universo infantil.
Não há uma determinação que obrigue as escolas a adotar um ou outro método no Brasil.
📖Quais as críticas dirigidas ao método? E como os apoiadores se defendem?
1- 'As crianças viram pequenas máquinas que repetem sílabas sem sentido.'
Isabel Frade, presidente emérita da Associação Brasileira de Alfabetização e professora do Centro de Alfabetização, Leitura e Escrita (Ceale) da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), diz que o processo de aprendizagem realmente deve incluir a habilidade de decifrar e registrar sons em letras — mas não pode se limitar a isso.
“Consideramos o funcionamento do cérebro, mas e a parte social? É como se isolássemos a criança de todos os outros fenômenos para que ela consiga decodificar letras em 4 meses”, afirma. “A aprendizagem precisa acontecer a partir de usos sociais da escrita, como os textos.”
Elaine Vidal, da USP, concorda. “Não estamos só decifrando sons na leitura: estamos atribuindo sentindo para aquilo. Por trás de um cérebro que memoriza, há uma criança que pensa”, diz.
Streit, Jansen e Angelika Fuchs, autores do material didático do IntraAct na Alemanha, argumentam que a automação é um pré-requisito para que as habilidades de leitura e de escrita sejam desenvolvidas. Segundo esses estudiosos, apresentar o texto de um livro infantil a uma criança que ainda não é alfabetizada pode “sobrecarregá-la” com tantas letras ainda desconhecidas.
2- 'Os alunos não vão praticar a autodescoberta nem exercitar a criatividade.'
Suponha que a criança esteja no primeiro mês de alfabetização pelo método IntraAct. Ela conhecerá, até o momento, apenas quatro letras: A, M, L e O.
“Ela certamente vai querer escrever seu nome, o nome dos pais ou dos animes de que ela gosta. Se não for possível com essas letras, o que fazer? Isolar o ensino do alfabeto em relação à vivência das crianças não é legal”, explica Frade.
Irene, professora do IntraAct mencionada no início da reportagem, conta que, nesses casos, não esconde a resposta do estudante: se o nome a ser escrito for “Flávia”, por exemplo, ela opta por escrever a palavra em um papel e pedir para que o aluno copie, mesmo sem conhecer o F, o V e o I.
“São só 4 meses até ela saber o alfabeto inteiro. A crítica existe, mas a gente derruba. Não considero que esse método limite [a turma]. No segundo bloco de letras, ela já vai conseguir formar frases”, afirma.
➡️Em metodologias analíticas, como já explicado, o aluno vai entrar em contato com textos e, aos poucos, elaborar suas hipóteses a respeito dos sons das letras e da construção de palavras e frases. Como o processo está dentro de um contexto (interesse pela história, dinâmica com os amigos), a criança aprende a ler “atribuindo sentido àquilo”, explicam as pesquisadoras.
➡️Já na visão do método fônico ou do IntraAct, estimular a construção de hipóteses é desrespeitar o ritmo de desenvolvimento cerebral infantil. “Nós aprendemos pelo conhecimento visual de associação ao som. Biologicamente, aprendemos por repetição. Trazer todas as letras de uma vez só é um grande erro”, diz Irene, de Alta Floresta.
O livro sobre a metodologia do IntraAct diz que “a autodescoberta pode ser desafiadora e motivadora, mas também é particularmente ruim sobrecarregar uma criança assim”.
Problemas na alfabetização: o que é fluência leitora e por que ler devagar é preocupante
📖Qual é a solução, então?
Todos os especialistas entrevistados nesta reportagem — sejam críticos ou defensores do IntraAct — concordam em um aspecto: o problema da alfabetização do Brasil não é essencialmente o método usado nas escolas.
Outros fatores, mais importantes, necessitam de reparo, como:
a formação frágil de professores, principalmente após o crescimento da educação à distância;
as desestimulantes condições de carreira oferecidas aos docentes, com baixas remunerações e sobrecarga de trabalho;
a falta de estrutura e de material didático adequados nas escolas da rede pública.
Alfabetização: saiba as diferenças entre método fônico e método global
Outros vídeos de Educação

Trump oficializa desmonte do Departamento de Educação; Senado precisa aprovar fechamento, e presidente não tem apoio suficiente

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Pprocedimento prevê que secretária da pasta, tome 'todas as medidas necessárias para facilitar' o fechamento. Medida não tem apoio popular, segundo pesquisa de opinião. Trump planeja esvaziar departamento de educação
O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, assinou nesta quinta-feira (20) uma ordem executiva para desmantelar o Departamento de Educação.
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O procedimento prevê que Linda McMahon, secretária de Educação, tome "todas as medidas necessárias para facilitar o fechamento do Departamento de Educação e devolver a autoridade educacional aos estados".
McMahon, que é cofundadora da franquia de luta livre profissional WWE defendeu os planos de Trump de abolir a agência, mas prometeu que o financiamento estudantil continuará existindo.
O papel principal da agência é financeiro. Anualmente, ela distribui bilhões de dólares para faculdades e escolas, além de administrar empréstimos estudantis federais. Fechar o departamento significaria redistribuir cada uma dessas funções para outra agência.
Para fechar o Departamento de Educação por completo, porém, o Congresso teria que aprovar uma legislação, e Trump não tem os votos para fazer isso.
Embora os republicanos controlem ambas as câmaras do Congresso, o apoio democrata seria necessário para atingir os 60 votos necessários no Senado para que tal projeto de lei fosse aprovado.
O fechamento do Departamento de Educação é uma promessa de campanha do presidente eleito em 2024. Por outro lado, uma pesquisa Reuters/Ipsos apontou que 65% dos americanos são contrários ao fechamento do órgão, enquanto 30% apoiam a medida.
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A medida
Trump assina ordem para fechar Departamento de Educação em meio a crianças, em 20 de março de 2025
REUTERS/Nathan Howard
O Departamento de Educação supervisiona cerca de 100 mil escolas públicas e 34 mil privadas nos Estados Unidos, embora mais de 85% do financiamento das escolas públicas venha de governos estaduais e locais.
O órgão fornece subsídios federais para escolas e programas carentes, incluindo dinheiro para pagar professores de crianças com necessidades especiais, financiar programas de artes e substituir infraestrutura desatualizada.
Na quarta-feira, a Reuters informou que, segundo uma fonte anônima, os empréstimos estudantis e os serviços para crianças com deficiência seriam codificados em lei e continuariam. O documento instrui também que quaisquer programas ou atividades que recebam fundos remanescentes do Departamento de Educação não devem "promover DEI ou ideologia de gênero".
Na última semana, procuradores-gerais de estados democratas entraram com uma ação judicial para tentar impedir o fechamento e as demissões de quase metade da equipe. Os defensores do departamento dizem que ele é crucial para manter os padrões de educação pública elevados.
Eles acusam os republicanos de tentar impulsionar a educação com fins lucrativos e afirmam que o fechamento poderia interromper dezenas de bilhões de dólares em ajuda para escolas K-12 e assistência de mensalidades para estudantes universitários.
No início de março, Trump já havia falado à imprensa americana sobre seus planos de acabar com o departamento. Já em fevereiro, em entrevista ao canal de TV americano Fox News, o presidente afirmou que iria mandar o Departamento de Eficiência Governamental, comandado pelo bilionário Elon Musk, procurar supostas fraudes nas áreas de Educação e de Segurança.
"Vou dizer a ele muito em breve… para ir checar o Departamento de Educação. (…) Vamos encontrar bilhões, centenas de bilhões de dólares em fraude e abuso, e o povo me elegeu para isso", declarou Trump ao âncora Bret Baier.
O departamento, conhecido como DOGE, foi criado por Trump para descobrir e eliminar o que a sua administração considera como gastos governamentais desnecessários, mas vem causando polêmica por causa de demissões em massa de servidores e outras decisões.
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Greve na UnB: servidores técnico-administrativos paralisam atividades

Greve na UnB: servidores técnico-administrativos paralisam atividades
Eles reivindicam pagamento de parcela da Unidade de Referência de Preços (URP), mecanismo que ajusta salários. Paralisação começou nesta quinta (20) e é por tempo indeterminado; biblioteca fica fechada. Fachada da UnB
Divulgação/UnB
Os servidores técnico-administrativos da Universidade de Brasília (UnB) entraram em greve nesta quinta-feira (20). A paralisação acontece por tempo indeterminado e afeta também a biblioteca central.
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A categoria reivindica o pagamento da parcela de 26,05% da Unidade de Referência de Preços (URP), que compõe o salário.
🔎 URP: mecanismo para ajuste de preços, salários e contratos, visando combater a hiperinflação.
Segundo o Sindicato dos Servidores Técnico-administrativos da Fundação Universidade de Brasília (SINTFUB), o Supremo Tribunal Federal (STF) aprovou a continuidade da URP, em junho de 2024. Mas o sindicato diz que o Ministério da Gestão e Inovação (MGI) não liberou os recursos para o pagamento.
O g1 entrou em contato com o ministério, que não respondeu até a última atualização da reportagem.
A decisão pela realização da greve aconteceu durante uma assembleia do SINTFUB, na terça-feira (11);
Em assembleia nesta quinta (20), os servidores decidiram iniciar a greve;
Em relação ao fechamento da biblioteca, a informação é que não haverá multas para livros não devolvidos durante a greve.
Greve em 2024
Servidores técnicos da UnB fazem manifestação contra corte de benefício
Os técnico-administrativos da UnB realizaram uma greve no ano passado, entre 11 de março e 1° de julho.
A categoria reivindicou a reestruturação do Plano de Carreira dos Cargos Técnico-Administrativos em Educação (PPCTAE). À época, a categoria encerrou a paralização após um acordo com o governo federal. Entre 8 de abril e 20 de junho, os professores da UnB também realizaram uma paralização.
🔎 Em 2023, os técnicos fizeram uma manifestação contra o corte da Unidade de Referência Padrão (URP) (veja vídeo acima).
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