Como Harvard se tornou a universidade mais rica do mundo e sua fortuna lhe permite resistir à pressão de Trump

Morte de Tancredo Neves completa 40 anos e São João del Rei terá programação especial
Donald Trump congelou mais de US$ 2 bilhões em financiamento federal para Harvard e está ameaçando retirar benefícios fiscais da instituição. Será que a universidade conseguirá suportar a pressão?
A Universidade de Harvard tem um patrimônio superior ao PIB da Bolívia e do Paraguai
Getty Images/BBC
Harvard não é apenas a universidade mais prestigiada dos Estados Unidos, mas também a mais rica do país e do mundo.
A instituição tem um patrimônio (ativos próprios que investe para financiar suas atividades) de US$ 53 bilhões (R$ 308 bilhões), mais que o Produto Interno Bruto de 120 países, incluindo Islândia, Bolívia, Honduras e Paraguai.
Doações milionárias, investimentos bem-sucedidos e uma gestão rigorosa fizeram de Harvard uma instituição com recursos suficientes, em teoria, para resistir a pressões políticas e econômicas que abalariam outras universidades.
Essa capacidade foi posta à prova nesta semana, quando o presidente Donald Trump anunciou um congelamento de US$ 2,2 bilhões em financiamento federal para Harvard porque a universidade se recusou a aceitar uma série de exigências sobre como opera, recruta e ensina.
Esse ataque, somado às ameaças de retirar isenções fiscais e proibir a admissão de estudantes estrangeiros, é visto como parte de uma ofensiva mais ampla contra instituições educacionais de elite que Trump destacou como bastiões de ideias progressistas e de esquerda.
De qualquer forma, enquanto outros cederam às ameaças do presidente, Harvard seguiu firme.
Trump X Harvard
'Harvard é uma zombaria, ensina ódio e estupidez e não deveria mais receber financiamento federal', postou Trump
Getty Images/BBC
A Universidade Harvard está no centro de uma batalha política sem precedentes com o presidente Donald Trump, que recentemente ordenou o congelamento de US$ 2,2 bilhões em bolsas e US$ 60 milhões em contratos para a instituição.
O presidente anunciou a medida depois que Harvard se recusou a cumprir uma série de exigências do governo que, sob o pretexto de combater o antissemitismo, incluíam mudanças nas políticas acadêmicas e de contratação e admissão.
O presidente de Harvard, Alan Garber, rejeitou publicamente essas condições e defendeu a autonomia intelectual da universidade: "Nenhum governo, independentemente do partido no poder, deve ditar o que as universidades privadas podem ensinar", escreveu ele em uma mensagem à comunidade universitária.
Em resposta, Trump intensificou seus ataques, alegando que a instituição sediada em Boston "ensina ódio e estupidez" e "não merece mais receber financiamento federal".
O presidente também ameaçou retirar o status de isenção fiscal, um privilégio universitário que economizou a Harvard cerca de US$ 158 milhões em impostos sobre propriedade em 2023, de acordo com estimativas da Bloomberg.
"Isso seria ainda mais grave. Instituições de ensino superior não pagam imposto de renda ou imposto predial, e os doadores também recebem deduções fiscais, o que incentiva as doações. Perder essa isenção seria um sinal de alerta para todo o sistema universitário e teria um efeito inibidor", disse Steven Bloom, vice-presidente assistente de relações governamentais do Conselho Americano de Educação, que representa 1.700 universidades, à BBC Mundo, o serviço de notícias em espanhol da BBC.
As tensões aumentaram ainda mais quando o Departamento de Segurança Interna, liderado por Kristi Noem, ameaçou Harvard na quinta-feira (10) com a retirada de sua permissão para matricular estudantes estrangeiros — atualmente mais de 27% do corpo estudantil — se não enviasse um relatório sobre as supostas "atividades ilegais e violentas" de alguns de seus alunos.
Especialistas ressaltam que esse conflito não é um incidente isolado.
Trump intensificou recentemente seus ataques a instituições de ensino superior, que ele acusa de promover uma agenda progressista, e ameaçou repetidamente cortar o financiamento público para aquelas que ele acredita que censuram vozes de direita ou permitem protestos anti-Israel.
O presidente Donald Trump anunciou um congelamento de US$ 2,2 bilhões em financiamento federal para Harvard
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Desde que os protestos pró-palestinos começaram nos campi de todo o país em 2023 por causa da guerra em Gaza, estudantes judeus relataram se sentir inseguros, enquanto outros permaneceram neutros ou se juntaram às manifestações.
Harvard respondeu com concessões, como suspender programas acusados ​​de preconceito anti-Israel e resolver dois processos de antissemitismo sem admitir culpa, mas rejeitou consistentemente a interferência do governo Trump em sua gestão interna.
Harvard tem quase 350 anos de história
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Como Harvard construiu sua fortuna e quais restrições enfrenta
Com uma dotação de US$ 53 bilhões, Harvard é a universidade mais rica do mundo, superando em muito outras universidades da chamada Ivy League, como Yale, Columbia e Princeton.
Esse capital, que constitui o coração financeiro da instituição, foi construído ao longo dos séculos por meio de doações e investimentos privados.
"Não aconteceu da noite para o dia; é um processo longo. Harvard existe há quase 350 anos. Eles demonstraram uma tremenda capacidade de atrair apoio. Ex-alunos, doadores e muitos outros têm se dedicado profundamente à instituição", explica Steven Bloom.
Os protestos pró-Palestina em Harvard têm sido recorrentes desde 2023
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O Harvard Endowment funciona essencialmente como um fundo mútuo composto por vários outros fundos, cada um sujeito a condições específicas impostas pelos doadores.
Este fundo investe e gera retorno: em 2024 foi de 9,6%, e no ano anterior foi de 2,9%.
E embora essa seja uma quantia astronômica, mais de 80% dela é legalmente restrita a usos específicos, como bolsas de estudo, cátedras, pesquisas médicas, programas acadêmicos ou auxílio financeiro.
"Muitas pessoas não entendem o que é uma doação. Elas pensam que é como uma conta-corrente, mas, na verdade, não é possível sacar dinheiro de um cartão de débito para qualquer finalidade", diz o representante do Conselho Americano de Educação.
Bloom ressalta que a universidade "pode ​​ser processada se não gastar o dinheiro de acordo com as instruções do doador".
Além disso, uma parcela considerável de seu orçamento (cerca de 16%) depende de verbas federais, alocadas principalmente à pesquisa científica.
Pode resistir sem ajuda do governo?
Então, como o corte de US$ 2,2 bilhões no financiamento federal afetará Harvard?
Sem a capacidade de usar livremente seus ativos, a universidade teria pouco espaço de manobra em uma emergência orçamentária, de acordo com Bloom.
Além disso, há restrições legais sobre o valor que pode ser sacado do fundo patrimonial a cada ano: "No ensino superior, é comum não gastar mais de 5% ao ano, e alguns Estados até restringem ainda mais. Se você só puder usar 5%, precisará de US$ 40 bilhões em fundos irrestritos para cobrir US$ 2 bilhões em despesas", explica.
De qualquer forma, Harvard desenvolveu nas últimas décadas um sistema financeiro sólido que, a princípio, lhe permitiria enfrentar situações difíceis sem muitas complicações.
A instituição desfruta de um superávit de US$ 45 milhões, uma classificação de crédito AAA, US$ 61 bilhões em ativos líquidos e investimentos e acesso a uma linha de crédito rotativo de US$ 1,5 bilhão, de acordo com seus últimos relatórios financeiros.
Assim, especialistas apontam que Harvard pode facilmente recorrer a financiamentos de curto prazo ou emitir títulos, o que lhe permitiria preservar sua liquidez sem recorrer diretamente ao fundo patrimonial.
Harvard tem 24.596 alunos matriculados neste ano e 20.667 empregados em todos os departamentos, incluindo os docentes
Getty Images/BBC
Mesmo assim, se a pressão do governo persistir, um período de incerteza poderá começar.
"Durante a pandemia, Harvard e outras universidades bem financiadas conseguiram aumentar temporariamente seus gastos com doações, mas isso não é sustentável a longo prazo", explica Bloom.
E se a isso se somasse uma possível perda de isenção fiscal, ele alerta, o panorama ficaria ainda mais complicado.
Por que uma universidade rica recebe dinheiro público?
Harvard também é uma das universidades mais caras do mundo: mensalidades e taxas excedem US$ 79 mil por ano, um valor bem acima da média dos EUA.
Se ela recebe uma quantia significativa de renda de mensalidades, bem como doações de organizações e indivíduos, por que também precisa de fundos públicos financiados pelos contribuintes?
Primeiro, nem todos os alunos pagam por isso: a maioria das famílias de baixa e média renda tem acesso à educação gratuita ou subsidiada.
Estudantes de famílias que ganham menos de US$ 85 mil por ano não pagam, e aqueles cuja renda está entre US$ 85 mil e 150 mil contribuem com no máximo 10% de sua renda anual.
Harvard destinou mais de US$ 850 milhões em ajuda financeira em 2023, em grande parte coberta pela renda gerada por seu fundo patrimonial.
Parte dos fundos públicos financiam a pesquisa em hospitais vinculados a Harvard
Getty Images/BBC
Por outro lado, especialistas ressaltam que a contribuição do governo federal é crucial para a instituição, principalmente na área de pesquisa científica e médica.
"Os fundos federais não vão cobrir o custo da mensalidade, mas sim apoiar sua enorme atividade científica e de pesquisa, como a de muitas grandes universidades", observa Bloom.
O especialista ressalta que grande parte desses fundos nem vai diretamente para Harvard, mas sim para hospitais afiliados, como o Hospital Geral de Massachusetts, que são legalmente independentes e lideram pesquisas sobre doenças como câncer, AIDS e transplantes de órgãos.
Ele argumenta que a relação entre o Estado e as universidades não se baseia em uma simples lógica de subsídios, mas em uma parceria público-privada que há décadas permite avanços científicos fundamentais para a sociedade.
Assim, ele conclui, eliminar permanentemente esse apoio seria um golpe não apenas para Harvard, mas também para os programas nacionais de pesquisa que dependem dessa infraestrutura acadêmica.

Aprender a dormir: alunos do ensino médio nos EUA descobrem em aulas como celular envenena o sono

Morte de Tancredo Neves completa 40 anos e São João del Rei terá programação especial
Sono insuficiente pode aumentar problemas de humor, saúde física e mental. 'Você ficaria surpreso com a quantidade de jovens que simplesmente não sabem como fazer isso', diz professor. Tony Davis em aula sobre a importância do sono.
AP Photo/Phil Long
Em uma sala de aula da escola Mansfield Senior High, no estado de Ohio, o assunto é um problema enfrentado por adolescentes de todo o país: como conseguir dormir.
Um aluno do nono ano conta que sua técnica é rolar o feed do TikTok até pegar no sono. Uma colega revela que costuma adormecer durante chamadas em grupo com os amigos. Em uma manhã de sexta-feira, alguns nem participam da discussão: estão dormindo sobre as carteiras.
Não se trata mais de um treinamento reservado a recém-nascidos. Algumas escolas dos Estados Unidos decidiram assumir a tarefa de ensinar os adolescentes a ter uma boa noite de sono.
“Pode parecer estranho dizer que alunos do ensino médio precisam aprender a dormir”, afirma o professor Tony Davis, responsável por aulas de saúde exigidas por lei em Ohio. Ele incorporou à disciplina um novo currículo sobre sono. “Mas você ficaria surpreso com a quantidade de jovens que simplesmente não sabem como fazer isso.”
Adolescentes virando a noite não é nenhuma novidade; os jovens são biologicamente programados para dormir mais tarde, à medida que seus ritmos circadianos mudam com a puberdade. Mas estudos mostram que os adolescentes estão mais privados de sono do que nunca, e especialistas acreditam que isso pode estar contribuindo para a crise de saúde mental entre os jovens e para outros problemas que afetam as escolas, incluindo questões de comportamento e de frequência.
“É só entrar em qualquer escola de ensino médio nos Estados Unidos para ver adolescentes dormindo. Seja sobre uma carteira, no chão, em um banco ou até em sofás que algumas escolas oferecem para sonecas — eles estão exaustos”, diz Denise Pope, professora sênior da Faculdade de Educação da Universidade Stanford. Pope pesquisa estudantes do ensino médio há mais de uma década e lidera sessões para pais em escolas da Califórnia sobre a importância do sono na adolescência. “O sono está diretamente ligado à saúde mental. Ninguém vai discordar disso.”
Quanto sono os adolescentes precisam?
Adolescentes precisam de oito a dez horas de sono por noite para o desenvolvimento do cérebro e do corpo. Mas, segundo o Centro de Controle e Prevenção de Doenças dos EUA (CDC), quase 80% dos adolescentes dormem menos do que isso. Desde 2007, a agência tem monitorado uma queda constante nas horas de sono dos jovens. Hoje, a média é de apenas seis horas por noite.
Pesquisas mostram cada vez mais como o sono está fortemente ligado ao humor, à saúde mental e ao risco de automutilação. Quanto menos sono, mais aumentam casos de depressão, ansiedade, pensamentos e comportamentos suicidas. Diversos estudos também apontam a relação entre a falta de sono e lesões esportivas, desempenho em atividades físicas, acidentes de trânsito envolvendo jovens motoristas, comportamento sexual de risco e uso de substâncias — situações que têm, em parte, ligação com o julgamento prejudicado de um cérebro cansado.
Há anos, especialistas em sono soam o alarme sobre essa crise entre adolescentes, apoiados por instituições como a Associação Médica Americana, a Academia Americana de Pediatria, o CDC e outras entidades. Como resposta, alguns distritos escolares adotaram horários de início das aulas mais tardios. Dois estados — Califórnia e Flórida — aprovaram leis que determinam que as aulas em escolas de ensino médio não comecem antes das 8h30. Mas, como qualquer pai pode confirmar, simplesmente mandar um adolescente dormir mais cedo nem sempre funciona: é preciso convencê-los.
É por isso que o distrito escolar de Mansfield, que atende 3 mil alunos no centro-norte do estado de Ohio, está promovendo o que chama de “intervenção do sono”.
‘Durma para ser uma versão melhor de você’
Aluno dorme durante aula de saúde sobre qualidade do sono.
AP Photo/Phil Long
A escola de ensino médio do distrito está testando um novo currículo chamado “Durma para ser uma versão melhor de você”, com o objetivo de melhorar o desempenho acadêmico e reduzir as ausências crônicas — quando um estudante falta a mais de 10% do ano letivo.
Segundo Kari Cawrse, coordenadora de frequência do distrito, a taxa de alunos que faltam tanto diminuiu de 44%, em 2021, para 32%, mas o número ainda é alto. Pesquisas com pais e estudantes apontaram problemas generalizados relacionados ao sono e um ciclo difícil de quebrar: dormir tarde, perder a hora, perder o ônibus escolar e acabar faltando às aulas.
Os alunos da turma de Davis compartilharam suas percepções sobre o porquê de ser tão difícil ter uma boa noite de sono. Uma pesquisa feita em sala de aula com 90 estudantes, de cinco turmas diferentes, mostrou que mais de 60% usam o celular como despertador. Mais da metade adormece olhando para o celular. Especialistas recomendam, há anos, que os pais mantenham os celulares fora do quarto à noite, mas pesquisas nacionais indicam que a maioria dos adolescentes mantém os aparelhos por perto — e muitos acabam dormindo com o telefone nas mãos.
Durante o curso, que é dividido em seis partes, os estudantes são orientados a manter um diário do sono ao longo de seis semanas, anotando também como se sentem em relação ao humor e aos níveis de energia.
O estudante Nathan Baker, que está no primeiro ano do ensino médio, achava que sabia dormir bem, mas percebeu que estava fazendo tudo errado. Para ele, “hora de dormir” significava deitar com o celular e assistir vídeos no YouTube ou no Snapchat Spotlight, muitas vezes ficando acordado até depois da meia-noite. Em uma boa noite, dormia cinco horas. Chegava tão exausto na metade do dia que, ao voltar para casa, cochilava por horas — sem perceber que isso acabava atrapalhando ainda mais o sono da noite seguinte.
“Os maus hábitos começam mesmo no ensino fundamental, com todo o estresse e drama”, conta Baker. Ele passou a aplicar as dicas que aprendeu no curso sobre sono e ficou surpreso com os resultados. Agora, adota uma rotina que começa por volta das 19h ou 20h: desliga o celular e evita lanches noturnos, que podem bagunçar o ritmo circadiano. Tenta manter uma hora fixa para dormir, por volta das 22h, sempre fechando as cortinas e desligando a TV. Ainda gosta de ouvir música para pegar no sono, mas trocou a playlist agitada de hip hop por faixas de R&B ou jazz mais suaves, que ouve no rádio, em vez do celular.
“Estou me sentindo muito melhor. Chego na escola sorrindo”, diz Baker, que agora dorme, em média, sete horas por noite. “A vida ficou muito mais simples.”
E há uma explicação científica para isso. Estudos com exames de ressonância magnética mostram que o cérebro fica sob estresse quando está privado de sono e passa a funcionar de maneira diferente. A atividade na região pré-frontal, responsável por regular emoções, decisões, concentração e controle dos impulsos, diminui. Enquanto isso, a amígdala, área ligada ao processamento de medo, raiva e ansiedade, fica mais ativa.
Entenda as diferenças do sono entre homens e mulheres
Pais e adolescentes muitas vezes não percebem os sinais da privação de sono e acabam atribuindo o comportamento ao “normal” da idade: irritação, mau humor, fragilidade emocional, falta de motivação, impulsividade ou negatividade.
É como com crianças pequenas que fazem birra quando não tiram a soneca.
“Adolescentes também têm crises, porque estão cansados. Mas fazem isso de um jeito mais apropriado para a idade”, diz Kyla Wahlstrom, especialista em sono de adolescentes da Universidade de Minnesota, que há décadas pesquisa os benefícios de horários de início das aulas mais tardios. Wahlstrom é a criadora do currículo gratuito sobre sono adotado em Mansfield e em diversas escolas de Minnesota.
A culpa não é só das redes sociais
As redes sociais são frequentemente apontadas como um dos fatores que alimentam a crise de saúde mental entre adolescentes, mas muitos especialistas dizem que o debate nacional ignora o papel crucial do sono.
“As evidências que ligam o sono à saúde mental são muito mais sólidas e causais do que as que envolvem redes sociais”, afirma Andrew Fuligni, professor de psiquiatria da Universidade da Califórnia em Los Angeles (UCLA) e codiretor do Centro para o Desenvolvimento do Adolescente da UCLA.
Quase 70% dos alunos da professora Davis, em Mansfield, disseram que se sentem sonolentos ou exaustos com frequência durante o dia escolar. Mas a tecnologia não é a única responsável. Os jovens de hoje vivem com agendas lotadas, sobrecarregados e pressionados — especialmente à medida que se aproximam do último ano do ensino médio e do processo de candidatura às faculdades.
Chase Cole, de 17 anos, está no último ano e tenta conquistar uma bolsa esportiva para jogar futebol na universidade. Ele faz três disciplinas de nível avançado e integra três ligas diferentes de futebol, com treinos até as 19h. Quando chega em casa, tira uma soneca, acorda para o jantar e depois mergulha nos deveres de casa, que costumam tomar pelo menos três horas. Entre uma tarefa e outra, faz pequenas pausas de cinco minutos no celular, e só relaxa de vez, jogando videogame ou assistindo TV, perto da 1h da manhã.
“Eu definitivamente preciso dormir mais à noite”, admite Cole. “Mas é difícil com todas essas aulas avançadas e o processo de preparação para a faculdade. Cansa muito.”
Para a estudante Amelia Raphael, de 15 anos, que está no segundo ano, simplesmente não há horas suficientes no dia para dormir. Ela se define como perfeccionista: cursa física, química avançada, álgebra e trigonometria, além de fazer aulas online para obter um diploma universitário de tecnólogo antes mesmo de terminar o ensino médio.
“Eu não quero ter que pagar pela faculdade. É muito caro”, diz Raphael, que também joga em três equipes esportivas, participa do grêmio estudantil e de outros clubes.
Ela sabe que está sobrecarregada. “Mas se você não fizer tudo isso, meio que está se preparando para o fracasso. Existe muita pressão para dar conta de tudo”, diz Raphael, que costuma ir dormir entre meia-noite e 2h da manhã. “Estou abrindo mão do sono para isso.”
*Este texto foi publicado originalmente em inglês pela Associated Press, e traduzido pelo g1.
VIDEOS DE EDUCAÇÃO

Escolas dos EUA criam disciplina para ensinar adolescentes a dormir melhor

Morte de Tancredo Neves completa 40 anos e São João del Rei terá programação especial
Sono insuficiente pode aumentar problemas de humor, saúde física e mental. 'Você ficaria surpreso com a quantidade de jovens que simplesmente não sabem como fazer isso', diz professor. Tony Davis em aula sobre a importância do sono.
AP Photo/Phil Long
Em uma sala de aula da escola Mansfield Senior High, no estado de Ohio, o assunto é um problema enfrentado por adolescentes de todo o país: como conseguir dormir.
Um aluno do nono ano conta que sua técnica é rolar o feed do TikTok até pegar no sono. Uma colega revela que costuma adormecer durante chamadas em grupo com os amigos. Em uma manhã de sexta-feira, alguns nem participam da discussão: estão dormindo sobre as carteiras.
Não se trata mais de um treinamento reservado a recém-nascidos. Algumas escolas dos Estados Unidos decidiram assumir a tarefa de ensinar os adolescentes a ter uma boa noite de sono.
“Pode parecer estranho dizer que alunos do ensino médio precisam aprender a dormir”, afirma o professor Tony Davis, responsável por aulas de saúde exigidas por lei em Ohio. Ele incorporou à disciplina um novo currículo sobre sono. “Mas você ficaria surpreso com a quantidade de jovens que simplesmente não sabem como fazer isso.”
Adolescentes virando a noite não é nenhuma novidade; os jovens são biologicamente programados para dormir mais tarde, à medida que seus ritmos circadianos mudam com a puberdade. Mas estudos mostram que os adolescentes estão mais privados de sono do que nunca, e especialistas acreditam que isso pode estar contribuindo para a crise de saúde mental entre os jovens e para outros problemas que afetam as escolas, incluindo questões de comportamento e de frequência.
“É só entrar em qualquer escola de ensino médio nos Estados Unidos para ver adolescentes dormindo. Seja sobre uma carteira, no chão, em um banco ou até em sofás que algumas escolas oferecem para sonecas — eles estão exaustos”, diz Denise Pope, professora sênior da Faculdade de Educação da Universidade Stanford. Pope pesquisa estudantes do ensino médio há mais de uma década e lidera sessões para pais em escolas da Califórnia sobre a importância do sono na adolescência. “O sono está diretamente ligado à saúde mental. Ninguém vai discordar disso.”
Quanto sono os adolescentes precisam?
Adolescentes precisam de oito a dez horas de sono por noite para o desenvolvimento do cérebro e do corpo. Mas, segundo o Centro de Controle e Prevenção de Doenças dos EUA (CDC), quase 80% dos adolescentes dormem menos do que isso. Desde 2007, a agência tem monitorado uma queda constante nas horas de sono dos jovens. Hoje, a média é de apenas seis horas por noite.
Pesquisas mostram cada vez mais como o sono está fortemente ligado ao humor, à saúde mental e ao risco de automutilação. Quanto menos sono, mais aumentam casos de depressão, ansiedade, pensamentos e comportamentos suicidas. Diversos estudos também apontam a relação entre a falta de sono e lesões esportivas, desempenho em atividades físicas, acidentes de trânsito envolvendo jovens motoristas, comportamento sexual de risco e uso de substâncias — situações que têm, em parte, ligação com o julgamento prejudicado de um cérebro cansado.
Há anos, especialistas em sono soam o alarme sobre essa crise entre adolescentes, apoiados por instituições como a Associação Médica Americana, a Academia Americana de Pediatria, o CDC e outras entidades. Como resposta, alguns distritos escolares adotaram horários de início das aulas mais tardios. Dois estados — Califórnia e Flórida — aprovaram leis que determinam que as aulas em escolas de ensino médio não comecem antes das 8h30. Mas, como qualquer pai pode confirmar, simplesmente mandar um adolescente dormir mais cedo nem sempre funciona: é preciso convencê-los.
É por isso que o distrito escolar de Mansfield, que atende 3 mil alunos no centro-norte do estado de Ohio, está promovendo o que chama de “intervenção do sono”.
‘Durma para ser uma versão melhor de você’
Aluno dorme durante aula de saúde sobre qualidade do sono.
AP Photo/Phil Long
A escola de ensino médio do distrito está testando um novo currículo chamado “Durma para ser uma versão melhor de você”, com o objetivo de melhorar o desempenho acadêmico e reduzir as ausências crônicas — quando um estudante falta a mais de 10% do ano letivo. Segundo Kari Cawrse, coordenadora de frequência do distrito, a taxa de alunos que faltam tanto diminuiu de 44%, em 2021, para 32%, mas o número ainda é alto. Pesquisas com pais e estudantes apontaram problemas generalizados relacionados ao sono e um ciclo difícil de quebrar: dormir tarde, perder a hora, perder o ônibus escolar e acabar faltando às aulas.
Os alunos da turma de Davis compartilharam suas percepções sobre o porquê de ser tão difícil ter uma boa noite de sono. Uma pesquisa feita em sala de aula com 90 estudantes, de cinco turmas diferentes, mostrou que mais de 60% usam o celular como despertador. Mais da metade adormece olhando para o celular. Especialistas recomendam, há anos, que os pais mantenham os celulares fora do quarto à noite, mas pesquisas nacionais indicam que a maioria dos adolescentes mantém os aparelhos por perto — e muitos acabam dormindo com o telefone nas mãos.
Durante o curso, que é dividido em seis partes, os estudantes são orientados a manter um diário do sono ao longo de seis semanas, anotando também como se sentem em relação ao humor e aos níveis de energia.
O estudante Nathan Baker, que está no primeiro ano do ensino médio, achava que sabia dormir bem, mas percebeu que estava fazendo tudo errado. Para ele, “hora de dormir” significava deitar com o celular e assistir vídeos no YouTube ou no Snapchat Spotlight, muitas vezes ficando acordado até depois da meia-noite. Em uma boa noite, dormia cinco horas. Chegava tão exausto na metade do dia que, ao voltar para casa, cochilava por horas — sem perceber que isso acabava atrapalhando ainda mais o sono da noite seguinte.
“Os maus hábitos começam mesmo no ensino fundamental, com todo o estresse e drama”, conta Baker. Ele passou a aplicar as dicas que aprendeu no curso sobre sono e ficou surpreso com os resultados. Agora, adota uma rotina que começa por volta das 19h ou 20h: desliga o celular e evita lanches noturnos, que podem bagunçar o ritmo circadiano. Tenta manter uma hora fixa para dormir, por volta das 22h, sempre fechando as cortinas e desligando a TV. Ainda gosta de ouvir música para pegar no sono, mas trocou a playlist agitada de hip hop por faixas de R&B ou jazz mais suaves, que ouve no rádio, em vez do celular.
“Estou me sentindo muito melhor. Chego na escola sorrindo”, diz Baker, que agora dorme, em média, sete horas por noite. “A vida ficou muito mais simples.”
E há uma explicação científica para isso. Estudos com exames de ressonância magnética mostram que o cérebro fica sob estresse quando está privado de sono e passa a funcionar de maneira diferente. A atividade na região pré-frontal, responsável por regular emoções, decisões, concentração e controle dos impulsos, diminui. Enquanto isso, a amígdala, área ligada ao processamento de medo, raiva e ansiedade, fica mais ativa.
Entenda as diferenças do sono entre homens e mulheres
Pais e adolescentes muitas vezes não percebem os sinais da privação de sono e acabam atribuindo o comportamento ao “normal” da idade: irritação, mau humor, fragilidade emocional, falta de motivação, impulsividade ou negatividade.
É como com crianças pequenas que fazem birra quando não tiram a soneca.
“Adolescentes também têm crises, porque estão cansados. Mas fazem isso de um jeito mais apropriado para a idade”, diz Kyla Wahlstrom, especialista em sono de adolescentes da Universidade de Minnesota, que há décadas pesquisa os benefícios de horários de início das aulas mais tardios. Wahlstrom é a criadora do currículo gratuito sobre sono adotado em Mansfield e em diversas escolas de Minnesota.
A culpa não é só das redes sociais
As redes sociais são frequentemente apontadas como um dos fatores que alimentam a crise de saúde mental entre adolescentes, mas muitos especialistas dizem que o debate nacional ignora o papel crucial do sono.
“As evidências que ligam o sono à saúde mental são muito mais sólidas e causais do que as que envolvem redes sociais”, afirma Andrew Fuligni, professor de psiquiatria da Universidade da Califórnia em Los Angeles (UCLA) e codiretor do Centro para o Desenvolvimento do Adolescente da UCLA.
Quase 70% dos alunos da professora Davis, em Mansfield, disseram que se sentem sonolentos ou exaustos com frequência durante o dia escolar. Mas a tecnologia não é a única responsável. Os jovens de hoje vivem com agendas lotadas, sobrecarregados e pressionados — especialmente à medida que se aproximam do último ano do ensino médio e do processo de candidatura às faculdades.
Chase Cole, de 17 anos, está no último ano e tenta conquistar uma bolsa esportiva para jogar futebol na universidade. Ele faz três disciplinas de nível avançado e integra três ligas diferentes de futebol, com treinos até as 19h. Quando chega em casa, tira uma soneca, acorda para o jantar e depois mergulha nos deveres de casa, que costumam tomar pelo menos três horas. Entre uma tarefa e outra, faz pequenas pausas de cinco minutos no celular, e só relaxa de vez, jogando videogame ou assistindo TV, perto da 1h da manhã.
“Eu definitivamente preciso dormir mais à noite”, admite Cole. “Mas é difícil com todas essas aulas avançadas e o processo de preparação para a faculdade. Cansa muito.”
Para a estudante Amelia Raphael, de 15 anos, que está no segundo ano, simplesmente não há horas suficientes no dia para dormir. Ela se define como perfeccionista: cursa física, química avançada, álgebra e trigonometria, além de fazer aulas online para obter um diploma universitário de tecnólogo antes mesmo de terminar o ensino médio.
“Eu não quero ter que pagar pela faculdade. É muito caro”, diz Raphael, que também joga em três equipes esportivas, participa do grêmio estudantil e de outros clubes.
Ela sabe que está sobrecarregada. “Mas se você não fizer tudo isso, meio que está se preparando para o fracasso. Existe muita pressão para dar conta de tudo”, diz Raphael, que costuma ir dormir entre meia-noite e 2h da manhã. “Estou abrindo mão do sono para isso.”
*Este texto foi publicado originalmente em inglês pela Associated Press, e traduzido pelo g1.
VIDEOS DE EDUCAÇÃO

Ouvir música instrumental pode ajudar crianças a cometerem menos erros por desatenção

Morte de Tancredo Neves completa 40 anos e São João del Rei terá programação especial
Cerca de 5% da população mundial sofre com o Transtorno do Déficit de Atenção e Hiperatividade e a música pode ajudar a minimizar os impactos do problema sobre o desempenho escolar dos jovens pacientes Ouvir música instrumental pode ajudar crianças a cometerem menos erros por desatenção
Canva
O Transtorno do Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH) é um transtorno neurobiológico que afeta entre 5% a 8% das crianças ao redor do mundo. Entre adultos, essa ocorrência pode chegar a 2,5%. Caracterizado por dificuldades de atenção, hiperatividade e impulsividade, o TDAH impacta o desempenho escolar e a qualidade de vida de milhares de pessoas.
Sua diversidade de formas e de intensidades leva a uma variedade de possíveis condutas para lidar com crianças diagnosticadas com esse problema. Isso não só exige pesquisa contínua, como também o treinamento de pais, professores e outras pessoas que convivam com essas crianças no dia a dia.
Música instrumental e atenção
Pensando em estratégias complementares ao tratamento farmacológico do TDAH, nosso grupo de pesquisadores do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia em Neurotecnologia Responsável (INCT NeuroTec-R), sediado no Centro de Tecnologia em Medicina Molecular (CTMM) da Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), investigou o efeito da música instrumental em crianças com e sem TDAH.
A ideia inicial do grupo — composto pelos professores da Faculdade de Medicina Jonas Jardim de Paula, do Departamento de Psiquiatria; Débora Miranda Marques, do Departamento de Pediatria; e por mim — era potencializar a eficiência das estruturas do cérebro relacionadas à manutenção da atenção e ao maior rendimento do indivíduo.
Os resultados, publicados no Interactive Journal of Medical Research, foram promissores. O estudo mostrou que a música pode ser uma aliada no aprendizado: ouvir música sem letra enquanto executa tarefas que exigem atenção contribui significativamente para a redução de erros.
Como cerca de 5% da população mundial tem o problema, a descoberta faz diferença no dia a dia de milhares de famílias. E crianças sem TDAH também se beneficiam dessa estratégia, que deve ser testada caso a caso, por pais e educadores, com apoio de profissionais capacitados.
TikTok disse que você tem TDAH? Médicos alertam sobre falsos 'diagnósticos' de TDAH
Como foi feito o estudo
Participaram da pesquisa 76 meninos, com idade entre 10 e 12 anos, divididos em dois grupos: 34 com TDAH e 42 sem o diagnóstico, pareados por idade, sexo, nível socioeconômico e inteligência. A opção de incluir apenas meninos se baseia no fato de o número de casos de TDAH ser maior no gênero masculino.
As crianças fizeram um teste de atenção padronizado. O Attention Network Test (ANT) é muito usado para medir diferentes aspectos da atenção e da função executiva, que, por sua vez, envolve a regulação de processos cognitivos como memória, raciocínio, resolução de problemas, planejamento e execução.
O teste foi realizado em duas condições distintas: com música de fundo (através de um fone de ouvido) e sem ela. O repertório musical foi escolhido entre músicas e temas populares relatados por jovens na faixa etária estudada. Aquelas que tinham letra passaram por um processo de edição para que se tornassem apenas instrumentais.
A tarefa, realizada num computador, envolvia identificar a direção tomada por um peixe central, que podia aparecer sozinho ou acompanhado de outros peixes. Ele se movia tanto na mesma direção (estímulos congruentes) quanto na direção oposta (estímulos incongruentes). Além disso, a tarefa incluía diferenças nas condições da imagem (com ou sem pistas que precedem o peixe), com o intuito de avaliar as redes de alerta e orientação.
Mais motivação, menos erros
As crianças participantes cometeram menos erros ao realizar a tarefa ouvindo música de fundo, independentemente do grupo, com TDAH ou sem. O tempo de reação dos jovens, no entanto, não mudou significativamente. Isso sugere que a música não melhora diretamente a capacidade atencional, mas pode criar um ambiente mais propício para o foco e a persistência. Acreditamos que este efeito esteja relacionado à motivação e ao estado de alerta gerado pelo estímulo sonoro.
A revisão sistemática realizada pela nossa equipe demonstrou que músicas instrumentais podem favorecer a atenção seletiva e a regulação emocional, dependendo do gênero musical e do contexto da tarefa.
Esses achados contribuem para a literatura internacional sobre o impacto da música na cognição, especialmente no contexto do TDAH. Por isso, planejamos agora novos estudos, que explorem como diferentes gêneros musicais e contextos de tarefas podem influenciar a atenção.
O tratamento de uma criança com TDAH é sempre uma tarefa desafiadora para os pais. Cada criança é única, e o que funciona para uma pode não funcionar para outra. Se o seu filho ou aluno tem TDAH ou dificuldade de concentração, experimente incluir música instrumental, de fundo, durante as tarefas. Escolha músicas sem letra, como trilhas sonoras ou clássicos, e observe se há melhora no desempenho. Mas acima de tudo, músicas que sejam do interesse da criança.
Além do mais, é importante avaliar também os pais. Este transtorno tem um forte componente genético. Segundo o Ministério da Saúde, entre as crianças diagnosticadas, cerca de 30% tem um ou ambos os pais com o mesmo problema.
Houve avanços na forma como a sociedade e a ciência lidam com o TDAH, mas ainda é preciso mais conscientização a respeito dos impactos do problema sobre a vida dos pacientes e de seus familiares e cuidadores. Também é fundamental que mais profissionais sejam devidamente capacitados para lidar com o transtorno. Da mesma forma, é preciso dispor de novas estratégias, mais eficazes, para o dia a dia dos jovens. E a música pode ser uma delas.
*Os autores não prestam consultoria, trabalham, possuem ações ou recebem financiamento de qualquer empresa ou organização que se beneficiaria deste artigo e não revelaram qualquer vínculo relevante além de seus cargos acadêmicos.
VÍDEOS DE EDUCAÇÃO

Morte de Tancredo Neves completa 40 anos e São João del Rei terá programação especial

Morte de Tancredo Neves completa 40 anos e São João del Rei terá programação especial
Solenidade religiosa e a reinauguração de memorial fazem parte da homenagem que será realizada na cidade natal do primeiro civil eleito após a ditadura. Segundo a Prefeitura, estão confirmadas as presenças do ex-presidente José Sarney e do presidente da Câmara dos Deputados, Hugo Motta. Tancredo Neves, foto de arquivo
Divulgação
A próxima segunda-feira (21) será de homenagens a Tancredo Neves em São João del Rei, terra natal do primeiro civil eleito presidente da República depois da ditadura militar. Entre os convidados que já confirmaram presença, estão o ex-presidente da República José Sarney e o presidente da Câmara dos Deputados, Hugo Motta.
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Para lembrar os 40 anos de falecimento do ex-presidente, São João del Rei terá uma programação especial, com momentos religiosos e a reinauguração do Memorial Tancredo Neves. As informações sobre a solenidade foram divulgadas pela Prefeitura e pela assessoria do neto do ex-presidente e atual deputado federal, Aécio Neves (Veja abaixo a programação completa).
Tancredo Neves morreu em 21 de abril de 1985, quando o Brasil vivia um momento de reabertura política. Ele participou ativamente do movimento pelas 'Diretas Já', no fim da ditadura militar.
Ao lado do deputado federal Ulysses Guimarães, Tancredo defendeu a aprovação da emenda Dante de Oliveira, que previa eleições diretas para presidente, em 1984. A emenda não foi aprovada pelo Congresso Nacional.
Tancredo foi então lançado candidato à presidência da República, em uma eleição indireta. O vice era José Sarney. Em 15 de janeiro de 1985, Tancredo Neves foi eleito presidente da República pelo Colégio Eleitoral.
"Não foi fácil chegar até aqui", disse Tancredo naquele momento político.
Mas, na véspera da posse, foi internado e morreu aos 75 anos em São Paulo. Em São João del Rei, a estátua de Tancredo fica em frente à de Tiradentes. Uma homenagem aos dois personagens da história brasileira mortos em 21 de abril.
Enterro de Tancredo Neves mobilizou país em 21 de abril de 1985
Programação
O Patrono da Redemocratização do Brasil, título que Tancredo Neves recebeu do Senado Federal por ter sido um dos principais artífices do fim da ditadura militar, será lembrado com uma missa na Igreja de São Francisco de Assis. Celebrada pelo monsenhor Geraldo Magela da Silva, a missa contará com a participação da Orquestra Ribeiro Bastos.
Em seguida, familiares de Tancredo Neves farão uma homenagem em frente ao túmulo do presidente e de sua esposa, Risoleta Neves, no Cemitério São Francisco de Assis.
9h15: Missa Solene na Igreja de São Francisco, um momento de reflexão e oração em memória de Tancredo.
11h: Encomendação da Alma do Presidente no cemitério da Igreja de São Francisco, uma cerimônia para honrar sua memória.
11h45: Reinauguração do Memorial Tancredo Neves, destacando sua contribuição e legado.
Memorial Tancredo Neves reconstitui vida do ex-presidente
Memorial Tancredo Neves em São João del Rei
Memorial Tancredo Neves/Divulgação
O memorial Tancredo Neves foi aberto no dia 8 de dezembro de 1990 e será reinaugurado na próxima segunda-feira. Sob a gestão da Fundação Presidente Tancredo Neves, o espaço preserva a história do estadista mineiro e personalidade são-joanense.
Em nove salas de exposição, a instituição reconstitui a vida do ex-presidente desde a infância em São João del Rei, até a morte em 1985.
O Memorial reúne documentos, fotos, cartas, vídeos, matérias jornalísticas e depoimentos, além de objetos pessoais, mobiliário, medalhas e condecorações recebidos por Tancredo ao longo da carreira dele.
O acervo traz registros sobre importantes fatos da história brasileira após o Estado Novo, como o segundo governo de Getúlio Vargas, de quem Tancredo foi ministro da Justiça; os anos JK, a renúncia de Jânio e o curto governo de João Goulart, interrompido pelo golpe militar de 1964.
Fotos e reportagens retratam os acontecimentos que deram início ao processo de abertura política no país e toda atuação de Tancredo como deputado federal e governador de Minas Gerais, além dos encontros e viagens realizados em todo país entre 1983 e 1984.
Também há registros sobre a Aliança Democrática formada em 1985 e que, em janeiro daquele ano, elegeu Tancredo à Presidência da República, e longos dias de internação que antecederam sua morte em 21 de abril também estão presentes.
O memorial fica na Rua Padre José Maria Xavier. O horário de funcionamento do memorial é de terça a sexta-feira das 13h às 17h e aos finais de semana das 9h às 17h.
Relembre inauguração do Memorial Tancredo Neves, em São João del Rei
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