Universidades dos EUA assinam carta condenando interferência política de Trump

Por que crianças mentem? Como reagir à mentira do seu filho pequeno
Quase 200 diretores de universidades e faculdades americanas acusam a Casa Branca de uso coercitivo do financiamento público e intromissão indevida. Harvard, Brown e Princeton endossam o documento. Dezenas de reitores criticam ofensiva do governo contra universidades e uso coercitivo do orçamento público.
Reuters
Quase 200 universidades e faculdades dos EUA, incluindo algumas das instituições mais prestigiadas do país que compõem a Ivy League, assinaram uma carta conjunta nesta terça-feira (22/04) condenando a "interferência política" do presidente americano Donald Trump no ensino superior.
"Nós nos manifestamos em uma só voz contra o controle governamental sem precedentes e a interferência política que agora colocam em risco o ensino superior americano", diz a carta.
O texto, publicado pela Associação Americana de Faculdades e Universidades, tinha 191 assinaturas até a publicação desta reportagem – entre elas, representantes de Yale, Brown, Princeton e Harvard. O número vem subindo desde que o manifesto foi ao ar.
"Estamos abertos a reformas construtivas e não nos opomos à supervisão legítima do governo. Entretanto, devemos nos opor à interferência indevida do governo na vida daqueles que aprendem, vivem e trabalham em nossos campi. Sempre buscaremos práticas financeiras eficazes e justas, mas devemos rejeitar o uso coercitivo do financiamento público de pesquisa", continua o texto.
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A carta defende que as universidades devem ser centros onde "professores, alunos e funcionários são livres para trocar ideias e opiniões sobre uma ampla gama de pontos de vista sem medo de represálias, censura ou deportação".
"O preço de restringir as liberdades que definem o ensino superior americano será pago por nossos alunos e por nossa sociedade."
Ataque às universidades
Desde a sua posse em janeiro, o presidente republicano Donald Trump tem reprimido as principais universidades dos EUA, com base em alegações de que elas toleraram discursos antissemitas durante protestos pró-palestinos que ocorreram no ano passado.
O presidente ainda critica políticas afirmativas que promovem a diversidade no ensino universitário. A repressão se estende a diversos estudantes estrangeiros, que tiveram seus vistos revogados ou foram presos por participar das manifestações contra o conflito corrente em Gaza.
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Processo judicial
A carta foi publicada um dia depois de a Universidade de Harvard processar o governo Trump, que ameaça ampliar os cortes a seu financiamento e impor uma supervisão política externa. O presidente quer impor níveis sem precedentes de controle governamental sobre as admissões e práticas de contratação na universidade mais antiga e mais rica do país.
Mas Harvard rejeitou as exigências do governo, o que levou o governo Trump a ordenar, na semana passada, o congelamento de 2,2 bilhões de dólares (R$ 12,6 bilhões) em verbas federais para a instituição. Na ocasião, o porta-voz presidencial, Harrison Fields, disse que o presidente quer garantir que os dólares do contribuinte americano não apoiem a discriminação racial ou a violência motivada por raça.
A Casa Branca agora avalia proibir a universidade de matricular estudantes estrangeiros e acusa seu corpo docente de "envenenar seu campus e suas salas de aula" com uma "ideologia antiamericana". O Departamento de Segurança Interna dos EUA quer que a universidade entregue registros de "atividades ilegais e violentas" que tenham sido praticadas por estrangeiros em seu campus durante protestos pró-palestinos.
Os alunos estrangeiros representaram 27,2% das matrículas de Harvard neste ano acadêmico, de acordo com seu site.
Na ação judicial, Harvard defende que as tentativas do governo de "coagir e controlar" a universidade violam as proteções da Constituição para a liberdade de expressão. Ela também acusou a Casa Branca de não seguir os procedimentos estabelecidos pelas leis federais de direitos civis. A universidade pede que o congelamento dos fundos e as condições impostas aos subsídios federais sejam declarados ilegais.
VÍDEOS DE EDUCAÇÃO

Brasil tem ‘autonomia universitária’ e verba liberada automaticamente; entenda diferenças em relação aos EUA

Enquanto as universidades brasileiras possuem autonomia e recursos financeiros mínimos destinados na Constituição, Estados Unidos não possui os direitos assinalados no documento e maioria das universidades possuem parceria pública e privada. As universidades públicas brasileiras, de acordo com a Constituição Federal, estão blindadas de interferência de governo na gestão financeira das instituições, ao contrário dos Estados Unidos (EUA), que não possuem uma legislação clara sobre o orçamento.
"No Brasil, o posicionamento mais impositivo que o governo pode tomar é o bloqueio do orçamento ou a contenção de verba por um tempo, mas a União não pode deixar de pagar o mínimo às universidades", explica o presidente da Associação Nacional de Pesquisa em Financiamento (Fineduca) Nelson Amaro.
Ou seja, pela Constituição, "não tem como o governo brasileiro agir neste 'modelo Trump', o não detalhamento da constituição americana deixa muito espaço ao poder do governante. Lá, como a constituição fala pouco, ela atua pouco", completa o especialista.
🌍O assunto repercutiu após o governo do presidente Donald Trump ter anunciado, na segunda-feira (14) o congelamento de cerca de US$ 2,3 bilhões (R$ 13,1 bilhões) em subsídios e contratos com a Universidade de Harvard, por meio do Departamento de Educação dos Estados Unidos.
A decisão do republicano foi firmada após a instituição declarar que não iria cumprir exigências da gestão de Donald Trump, como o fim de programas de inclusão e equidade.
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Para as próximas semanas, o presidente Trump avalia cancelar a isenção fiscal concedida a Harvard e passar a taxá-la como uma "entidade política" por promover "doença inspirada em política, ideologia e terrorismo".
📌A medida pode ser tomada caso a Universidade não se desculpe por episódios de "antissemitismo" na instituição. O governo fez referência a protestos pró-Palestina e contra a guerra na Faixa de Gaza que ocorreram em várias universidades americanas ao longo de 2024.
Na última semana, o presidente republicano enviou uma carta a Harvard, que além de solicitar uma auditoria com estudantes, professores e dirigentes, também demandava:

reformas amplas na administração da universidade;
adoção de políticas de admissão; e
contratações “baseadas em mérito”.
A universidade, porém, afirmou que não iria atender às exigências do governo.
"Seja no Brasil ou nos Estados Unidos, a autonomia universitária, didática e operatória são inegociáveis. Quando uma universidade faz concessões ao governo, a instituição passa a ideia de ser mais perene", avalia o diretor jurídico da Associação Brasileira Bruno Coimbra, diretor jurídico da Associação Brasileira de Mantenedoras de Ensino Superior.
Segundo ele, "Harvard, ao se firmar em seus princípios, demostra que a universidade é fiel ao plano educacional".
O especialista ainda pontua que as universidades devem se posicionar enquanto 'agentes mantenedores de conhecimento', visto que o comportamento reforça a autonomia e o poder da instituição como 'agente influenciador' nos debates públicos.
O que a lei brasileira diz?
👉A legislação brasileira assegura a destinação monetária da União para o ensino e estabelece a autonomia das universidades públicas para gerir os investimentos. Os parâmetros foram instituídos a partir de 1988, com a Constituição Federal.
A norma regula que:
➡️Destinação mínima da verba arrecadada: A União deve aplicar, anualmente, no mínimo 18% da receita resultante de impostos na manutenção e desenvolvimento de todas as fases do ensino. Já os estados, o Distrito Federal e os municípios devem destinar, no mínimo, 25% das receitas.
➡️Autonomia universitária: As instituições têm liberdade didático-científica, administrativa e de gestão financeira e patrimonial. Essa autonomia garante às universidades o direito de definir, dentro dos recursos disponíveis, como investir em ensino, pesquisa e extensão.
Para o ano de 2025, o orçamento projetado para as despesas com Ensino Superior das Universidades Federais, excluindo os Institutos Federais e os Centro Federal de Educação Tecnológica, é de R$ 41 bilhões.
🔎O financiamento paras as universidades públicas federais é da Fonte 1000, que são recursos livres da União projetados no orçamento fiscal, com base na arrecadação de tributos. A informação consta no painel do Orçamento Federal.
Como funcionam as normas nos Estados Unidos?
A Constituição dos Estados Unidos não garante explicitamente o financiamento das universidades. A Carta Magna americana, escrita em 1787, é enxuta e não trata diretamente da educação, que é considerada uma responsabilidade dos estados, e não do governo federal.
➡️Isso significa que: não há um artigo constitucional específico que obrigue o governo federal a destinar um percentual fixo de sua receita para a educação, como ocorre no Brasil com o artigo 212 da Constituição Federal.
Nos EUA, o financiamento das universidades se dá por meio de leis específicas aprovadas pelo Congresso, e os valores podem variar a cada ano, conforme o orçamento federal. O fator permite que o valor destinado à educação se torne mais suscetível às vontades do governo.
📌De acordo com especialistas ouvidos pelo g1, é mais fácil delimitar a destinação de recursos na educação brasileira do que na americana, visto que os EUA misturam verbas de iniciativas públicas e privadas. Ou seja, as universidades privadas também são financiadas pelo governo americano.
"A constituição brasileira é importante para delimitar o financiamento. Ela garante a autonomia da gestão de recursos nas instituições. O dinheiro é colocado a disponibilidade da gestão publica, e em tese, a instituição não tem que ir atrás desse dinheiro, é reponsabilidade do governo. Essa via dá uma boa integração do fluxo monetário", detalha Nelson Amaro.
O governo brasileiro financia as faculdades privadas?
👉No Brasil, o governo não distribui verbas para as instituições privadas. Os estudantes e universitários do Estado brasileiro são beneficiados por meio do Programa Universidade para Todos (Prouni) e pelo Fundo de Financiamento Estudantil (Fies).
Os programas regulam que:
Prouni: O programa, criado em 2004, oferece bolsas de estudo integrais e parciais em instituições privadas de ensino superior para estudantes de baixa renda.
Fies: a iniciativa, criada em 1999, para financiar cursos superiores em instituições privadas, permite que estudantes com dificuldades financeiras paguem suas mensalidades somente após a conclusão do curso, com condições facilitadas de juros e prazos.
"Aqui, temos o ministério, as próprias fundações de cada universidade, o Estado brasileiro diretamente financiando as atividades das instituições de ensino. Com orçamento público definido, o governo brasileiro é o mantenedor. Já nos Estados Unidos, tem muito do olhar do investimento sob a educação", afirma Bruno Coimbra.
O especialista ainda explica que as universidades americanas recebem verbas de grandes empresas que contribuem no financiamento das atividades.
"As indústrias estão integradas às universidades, o próprio Google tem atividades de pesquisa e alta tecnologia empenhadas em Harvard", exemplifica Coimbra.
Contingenciamento no Brasil
O Brasil passou por incertezas no orçamento da educação durante o governo do ex-presidente Jair Bolsonaro, no final de 2022. Após a sanção do Orçamento, o primeiro impacto para reitores veio em junho, depois de um bloqueio inicial de 14,5% do Orçamento da Educação.
Nos dias seguintes, o bloqueio foi reduzido a 7,2%, valor que foi repassado às universidades e institutos federais.
Entretanto, o que começou como um bloqueio terminou como corte, já que o valor não foi devolvido às instituições. Apenas na educação superior (universidades e institutos), a redução foi de R$ 438 milhões.
Em outubro de 2022, o MEC sofreu um novo bloqueio, desta vez de R$ 1 bilhão, após o governo anunciar um contingenciamento de R$ 2,6 bilhões que foi repassado aos ministérios.
Na ocasião, foram bloqueados R$ 328 milhões das universidades federais. O valor foi liberado posteriormente, depois de o ministério realocar verbas internamente.

Prestes a sair do papel, universidade indígena será passo importante na educação escolar dos povos originários

Por que crianças mentem? Como reagir à mentira do seu filho pequeno
A educação escolar indígena, que já foi um instrumento para o genocídio dos povos, hoje é ferramenta para a construção de espaços que permitam o trânsito das pessoas por diversos campos de saberes Um dos desafios é promover uma política educacional dos povos indígenas considerando a diversidade entre eles.
Ana Coutinho/TV Globo
Neste 19 de abril, o Brasil celebra em plena Semana Santa o Dia Nacional dos Povos Indígenas. Ocasião mais do que apropriada para jogar luz sobre uma iniciativa inédita, histórica e prestes a sair do papel: a criação da Universidade Indígena. É o que detalha em seu artigo abaixo o professor e pesquisador da Faculdade Intercultural Indígena, da Universidade Federal da Grande Dourados (UFGD), Eliel Benites. Eliel também é formado em Licenciatura Intercultural Indígena Ára Verá (espaço-tempo iluminado), graduado em Licenciatura Intercultural Indígena Teko Arandu, mestre em Educação pela Universidade Católica Dom Bosco e Doutor em Geografia, também pela UFGD.
A presença dos estudantes indígenas nas universidades tem crescido nos últimos anos. Os jovens indígenas buscam no ensino superior uma forma de vencer as dificuldades que vivenciam, mas também como um processo de resistência e fortalecimento cultural.
Precisamos construir valores humanos que permitam o trânsito das pessoas por diversos campos de saberes. Como indígenas, sabemos que temos que transitar entre os conhecimentos ocidentais sem ser encantados por ele ou transformá-lo em verdade absoluta. É isso que possibilita o verdadeiro diálogo.
É a partir dessa perspectiva que temos discutido, no Ministério dos Povos Indígenas, Ministério da Educação (MEC) e outras instâncias do governo, a criação de uma universidade indígena no Brasil. O Grupo de Trabalho Nacional da Universidade Indígena, criado pelo MEC em 2024, tem trabalhado para finalizar a proposta ainda esse ano.
A universidade indígena será um passo importante numa longa e árdua caminhada dos povos rumo a uma educação escolar indígena que verdadeiramente respeite a diversidade cultural de indígenas e não indígenas, e também entre os muitos povos indígenas do país.
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Educação como forma de apagamento
A história da educação formal, no contexto dos povos indígenas, é marcada por momentos distintos. O primeiro deles tinha a educação como elemento da colonização e extinção dos povos indígenas. Como ponto de chegada, essa educação buscava a construção da “sociedade brasileira” — uma sociedade com cultura, língua e valores únicos. É, portanto, uma história de genocídio, em todos os aspectos: linguístico, cultural e físico também.
Já o século 20 foi muito marcado pela educação integracionista, com a ideia de utilizar a língua e os valores indígenas como meios para que os indígenas deixassem sua cultura e se integrassem à sociedade brasileira. Utilizava-se a minha língua, o Guarani, por exemplo, para poder aprender português. E, aprendendo o português, a ideia era abandonar o Guarani.
Uma metodologia, claramente, marcada pelo preconceito, e que perpetuava uma violência no processo educativo, com apagamentos, violência física contra os alunos e traumas psicológicos coletivos.
Educação indígena na Constituição de 1988
Vivemos muitos séculos — de 1500 até o final do século 20 — com um modelo de educação que exterminava os indígenas. Foi só a partir da Constituição de 1988 que iniciamos o processo de construção de uma nova educação indígena, que se propõe a promover o fortalecimento da identidade dos povos.
A educação escolar indígena está intimamente ligada às pautas das lutas dos povos indígenas. A Constituição determina que os indígenas têm o direito de ser indígenas, de ter sua língua, sua cultura. Enfim, de ser diferente. Essa é a base fundamental da mudança constitucional, que orienta também a prática educacional.
A partir daí, passamos por um tempo necessário para a regulamentação da Constituição. Na década de 1990, participamos de muitos debates que levaram, por exemplo, à construção da Lei de Diretrizes Curriculares (LDB), que regulamenta a educação indígena, o bilinguismo, as questões curriculares e de gestão da educação escolar indígena.
De 1988 até hoje é um período curto para recuperar todo o processo de genocídio cultural. Por isso, precisamos estar num ambiente de permanente construção metodológica da educação escolar indígena.
No campo das ideias, a educação indígena é perfeita. Na prática, contudo, ainda há vários problemas que ainda precisam ser resolvidos, como a introdução dos conhecimentos tradicionais dos povos indígenas no contexto da educação escolar, a falta de formação adequada de professores indígenas e o reconhecimento desse contexto intercultural, em que haja o diálogo entre o conhecimento ocidental, acadêmico, e os conhecimentos tradicionais.
A prática pedagógica deveria ser um espaço de constante experimentação. A própria avaliação da educação escolar indígena deveria ser diferenciada, mas ainda segue a lógica de que a qualidade da educação está no modelo conteúdista, racional.
Ou seja, propõe-se uma educação diferenciada, específica, mas a estrutura — de formação, de avaliação, de fomento, de promoção de políticas públicas — segue atrelada ao modelo tradicional. Esse é um dos desafios que vivemos hoje.
Diversidade entre os povos
Outro desafio que enfrentamos é como promover uma política educacional dos povos indígenas considerando a diversidade entre eles. De acordo com o IGBE (com dados de 2010, porque os dados atuais ainda não foram disponibilizados), temos hoje no Brasil 305 povos indígenas, que falam 274 línguas diferentes.
Uma das características das políticas públicas é que sejam uma ação global para todos, mas isso gera uma dificuldade quando se trata de povos indígenas, porque cada realidade, cada povo, é diferente, em termos linguísticos, culturais, históricos, de memória.
Por isso, estamos hoje trabalhando junto ao MEC na ideia de pactuação e repactuação de Territórios Etnoeducacionais. Esses territórios são conjuntos de ações de gestão e promoção de educação escolar indígena conforme a lógica dos povos e regiões do país, para garantir o respeito a essa diversidade. Estamos caminhando nesse sentido, mas, para isso, é preciso reformular a própria estrutura do MEC e da oferta de educação escolar indígena.
Papel das universidades no processo
A partir da educação escolar indígena foram sendo criadas e edificadas e as ideias curriculares, na perspectiva do diálogo dos saberes e da introdução dos saberes tradicionais no contexto de ensino formal. E isso se reflete também na própria academia e no papel das universidades nesse processo.
A crescente presença dos jovens indígenas nas universidades provoca as instituições a criarem experiências regionais de formação específica, políticas de acesso a estudantes indígenas, cotas. A realidade indígena é diferenciada e a universidade tem que se adequar para receber essa comunidade acadêmica diferenciada.
Já houve um avanço significativo dentro das instituições de ensino, mas ainda há muito o que se avançar na perspectiva de como receber os indígenas com seus conhecimentos tradicionais. O que fazer com esses conhecimentos? Esse é um debate que tem que ser feito nas universidades em termos epistemológicos: como fazer orientação acadêmica, como se dá a construção dos conhecimentos? É um desafio muito grande em todos os campos do conhecimento.
Essa é uma situação para a qual não existe receita ou parâmetro, mas é preciso iniciar essa reflexão. O que existem são alguns princípios para orientar esse processo de construção.
Um desses princípios seria trazer o universo conceitual dos povos para a academia. Um exemplo disso é a palavra território, hoje muito utilizada. No conceito ocidental, a ideia do território é o lugar sobre o qual o sujeito tem domínio, influência. Parte da ideia de que o homem domina a natureza.
Na perspectiva dos povos indígenas, o sujeito é parte de uma rede de conexões dos seres de um lugar. E o território é o conjunto de elementos naturais que compõem o equilíbrio pleno desse lugar. O sujeito humano, como organismo, não é o dono, é parte daquele conjunto de redes, sistemas e memórias acumuladas ao longo do tempo no território.
A construção de um conhecimento que aceite e respeite diferentes universos conceituais depende de diálogo, o que exige uma construção permanente: um território de diálogo.
Como será a Universidade indígena
A nova universidade indígena pode ser um espaço privilegiado de criação dessa espécie de cartografia consensual a partir do diálogo dos saberes. Para isso, ela tem que estar baseada na perspectiva da interculturalidade dos saberes e da existência, o que vai desafiar muito da metodologia dos professores.
Fizemos algumas consultas aos povos indígenas no início do processo e estamos agora trabalhando no projeto de criação dessa universidade que considera territórios, povos, presença de professores e acadêmicos indígenas. Uma universidade que deverá fortalecer políticas linguísticas, memórias, museus e patrimônios culturais indígenas. Não será uma universidade restrita a um espaço, com um único campus, mas uma universidade em rede, que se conecta com diferentes povos, territórios e biomas.
A universidade indígena deverá ter cursos específicos, ou cursos com currículos diferenciados. Trata-se de uma união de saberes distintos, feita de forma estratégica, para que possamos, de fato, construir outros campos de conhecimento.
Devemos ser uma geração que busca o diálogo dos saberes, numa perspectiva em que o saber ocidental não será hegemônico, mas será parte desse processo de construção de um novo conhecimento. Esse é o caminho, mas ele é longo e tortuoso.
Eliel Benites não presta consultoria, trabalha, possui ações ou recebe financiamento de qualquer empresa ou organização que poderia se beneficiar com a publicação deste artigo e não revelou nenhum vínculo relevante além de seu cargo acadêmico.
Djamila Ribeiro fala sobre combate ao racismo e fortalecimento da educação indígena

A psicologia por trás do fascínio de crianças com Minecraft

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Jogo em que pessoas têm liberdade para construir coisas é o mais vendido do mundo e até se tornou filme no cinema. Minecraft é o jogo de computador mais vendido do mundo e atrai pessoas de diversas idades
Getty Images via BBC
Minecraft é o jogo de computador mais vendido no mundo e, recentemente, chegou às telas dos cinemas com Um Filme Minecraft. Não é à toa que as crianças não se cansam de jogá-lo.
O americano AJ Minotti tem três filhos, e todos eles adoram jogar Minecraft. Tanto as gêmeas de dez anos quanto o filho mais novo de seis passam horas construindo coisas com uma quantidade infinita de blocos virtuais disponíveis no jogo.
Minotti, que trabalha com marketing em Ohio, nos Estados Unidos, se impressiona, com frequência, com o que eles são capazes de criar.
"Pai, quero te mostrar uma coisa", disse uma das filhas de Minotti recentemente, segurando a tela do Nintendo Switch.
O avatar dela estava diante de uma cachoeira. Assim que ela apertou um botão, a água parou, revelando a entrada de uma caverna. Lá dentro havia uma construção subterrânea cheia de luzes interativas e um painel que exibia os itens que ela tinha conseguido ao longo do jogo.
"Parecia uma mansão subterrânea", lembra Minotti, maravilhado. "Eu fiquei super impressionado."
A filha havia seguido alguns tutoriais no YouTube, mas também criou muitas coisas a partir das próprias ideias. "Me lembra de quando eu era uma criança e ficava o tempo todo mexendo no computador", diz Minotti.
O sucesso do jogo Minecraft fez com que ele fosse adaptado para um filme de Holywood, lançado no início de abril
PA Media via BBC
Minecraft é um dos jogos mais populares de todos os tempos. Lançado em 2009, vendeu mais de 300 milhões de cópias até 2023. Assim como outros similares como Roblox e Terraria, atrai jogadores de todas as idades, desde crianças até adultos.
O jogo é capaz de prender a atenção das crianças por horas, algo cada vez mais raro hoje em dia, com tantas distrações. Mas alguns pais temem que o interesse dos filhos pelo Minecraft se torne uma obsessão, ou até mesmo um vício, já que muitas vezes é difícil tirá-los de frente da tela do computador.
A popularidade do Minecraft é tanta que deu origem a uma adaptação para o cinema: Um Filme Minecraft, estrelado por Jack Black e Jason Momoa, e lançado no início deste mês.
Segundo especialistas, é possível que haja fatores psicológicos, e até mesmo evolutivos, por trás do sucesso de Minecraft. Jogos como esse despertam um instinto natural que existe em todos nós, e que sustenta o progresso da espécie humana: o desejo de construir.
Instituto natural de construção
Se pensarmos bem, as crianças sempre gostaram de construir coisas. Seja castelos de areias e casas na árvore, seja objetos feitos com blocos de madeira, massinhas de modelar e peças de Lego.
O Minecraft é apenas uma nova versão desse tipo de brincadeira, só que no espaço digital.
Mas por que construir coisas é tão irresistível para muitas crianças?
"Todos os mamíferos brincam quando são jovens", afirma Peter Gray, psicólogo que estuda formas de aprendizagem infantil no Boston College, em Massachussets, Estados Unidos. Animais predadores, por exemplo, brincam de pegar coisas. Já as presas brincam de se esquivar.
"Eles brincam com as habilidades que são mais importantes para o seu desenvolvimento, sobrevivência e capacidade de reprodução", diz Gray.
Mas diferente de outros animais, os seres humanos devem grande parte da sua capacidade de sobrevivência à habilidade de construção — desde cabanas às ferramentas para caça. "Por isso, não é uma surpresa que a seleção natural tenha dotado crianças com um instinto forte para brincar de construir coisas", pontua.
Gray também observa que as crianças brincam usando a linguagem e a imaginação, ou criam jogos baseados em regras e interação social — aparentemente como parte da preparação para a vida adulta.
O que as crianças escolhem construir enquanto brincam, e a forma como constroem, tende a refletir a cultura em que vivem.
"Não devemos nos surpreender com o fato de que as crianças hoje em dia estejam tão atraídas a brincar no computador, e isso não deveria nos preocupar", afirma Gray.
"As crianças sabem, instintivamente, que essas são as habilidades que elas precisam desenvolver."
A psicologia por trás do fascínio de crianças com Minecraft
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Julian Togelius, cientista da computação da Universidade de Nova York, tem notado esse ímpeto para construção surgindo no filho, que não tem nem três anos. Na creche, ele já constrói túneis para passar com trenzinhos e caminhões de brinquedo. Quando o filho de Togelius ficar um pouco mais velho, será difícil resistir aos computadores.
Segundo o cientista, os jogos estilo sandbox, como Minecraft, que dão aos jogadores liberdade para explorar a criatividade sem ter um objetivo específico, facilitam a interação e a execução de tarefas no computador.
"No mundo do Minecraft, criar algo é direto e simples", explica. "É muito mais fácil do que escrever um código."
Em outras palavras, jogos como esse satisfazem nosso desejo natural de construir, algo que os computadores, tradicionalmente, poderiam dificultar, principalmente para as crianças.
Mas a construção não é o único atrativo. Embora o modo sandbox permita que os jogadores criem com liberdade, há também o modo sobrevivência, em que o jogador é desafiado a enfrentar inimigos.
Minotti destaca ainda que há um lado social no jogo. Quando seus filhos não conseguem encontrar pessoalmente com os amigos ou primos, eles podem fazer isso online. "Acaba se tornando um espaço virtual de convivência."
Talvez seja melhor pensar no Minecraft como um playground virtual, onde as crianças podem encontrar seu próprio nicho, uma vez que elas podem escolher entre uma grande variedade de atividades e estilos de jogo.
Personalidade e comportamento
Togelius estudou como o comportamento de jogadores em Minecraft revelam aspectos de suas personalidades. Ele argumenta que, devido à liberdade que é dada aos jogadores, é mais fácil para eles se expressarem no jogo do que em clássicos de fliperama como Asteroides, em que é preciso atirar contra rochas que caem do espaço.
Como parte do estudo, Togelius e seus colegas pediram a participantes adultos que respondessem um questionário sobre suas personalidades. Em seguida, compararam os resultados com a forma como cada participante jogava Minecraft. O comportamento dos participantes dentro do jogo apresentou correlação com certos traços de personalidade.
"A independência é fortemente vista no jogador que não termina a missão principal do jogo", diz Togelius.
Além disso, pessoas que disseram carregar fortes valores familiares pareciam demonstrar isso, ainda que de forma inconsciente, dentro do jogo.
"Elas constroem casas e fortalezas com cercas."
Apesar de Togelius não ter repetido o estudo com crianças, ele diz que não ficaria surpreso se as personalidades delas também se manifestassem no jogo.
O estudo ainda revelou que os jogadores de Minecraft tendem a se diferenciar da população em geral, sendo significativamente mais curiosos e menos motivados por desejos de vingança.
A diversidade de possibilidades nos jogos sandbox ajuda a garantir um apelo mais amplo, diz Bailey Brashears, psicóloga da Texas Tech University, que no ano passado publicou uma tese sobre como o Minecraft pode ser usado como uma ferramenta de pesquisa psicológica.
Brashears identificou cinco aspectos distintos oferecidos pelo jogo: a socialização, a oportunidade de se sentir competente através de um combate ou exploração, engenharia, criatividade, e a sobrevivência.
"A maioria dos jogos oferece apenas um ou dois desses elementos", Brashears diz. "Você tem jogos que são mais focados no aspecto social e na sobrevivência, como o Fortnite", explica.
A psicologia por trás do fascínio de crianças com Minecraft
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É claro que a quantidade de tempo que as crianças passam jogando Minecraft também gera preocupações mais amplas sobre o excesso de exposição às telas. Mas Minotti ressalta que os filhos também fazem outros tipos de atividades – eles amam jogar basquete, por exemplo.
Ainda assim, às vezes ele precisa lembrá-los de não jogar em excesso, e supervisionar os pedidos de amizade online. "Nós não deixamos eles livres para fazer o que querem na internet", afirma.
A Sociedade Nacional para a Prevenção de Crueldade contra Crianças no Reino Unido, (NSPCC, sigla em inglês) publicou orientações sobre como manter as crianças seguras enquanto jogam Minecraft ou jogos desse tipo. Há relatos de casos sérios envolvendo abuso infantil e aliciamento de menores no Minecraft.
Recentemente, o chefe executivo da Roblox, outro tipo de jogo que permite às pessoas criarem, gerou um debate intenso ao dizer que os pais deveriam manter seus filhos longe das plataformas de jogos se eles estivessem preocupados com a exposição deles a conteúdos prejudiciais.
No geral, Minotti se sente confortável com o fato de os filhos passarem bastante tempo jogando Minecraft. Segundo ele, além de ter controle sobre o que os filhos estão fazendo, eles jogam usando a criatividade. "Eu vejo como um playground digital", afirma.
Ferramenta de aprendizagem
O grande apelo do Minecraft também está na sua capacidade de conectar pessoas de novas formas.
Professores universitários, por exemplo, usaram o Minecraft para dar aulas online durante os primeiros anos da pandemia de Covid-19.
Na Irlanda, professores do Ensino Fundamental relataram ter tido sucesso em engajar os alunos nas aulas por meio plataforma Minecraft Education – uma versão do jogo feita para atividades escolares -, segundo uma pesquisa feita por Éadaoin Slattery, professora de Psicologia da Technlogical University of the Shannon Midwest.
Ela entrevistou 11 professores no país para um estudo financiado pela Microsoft, proprietária do Minecraft. E cita o exemplo de um professor que decidiu criar um jogo dentro do Minecraft Education para ajudar os alunos a aprender gaélico.
"Ele falou sobre como criar restaurantes e diferentes tipos de comida no Minecraft ajudaria os estudantes a aprender novas palavras", disse.
Outras pesquisas apontam que o uso do Minecraft nas salas de aula pode aumentar a motivação dos alunos para tarefas escolares, resolução de problemas, leitura e escrita, entre outras habilidades.
Talvez as atividades educativas no Minecraft estejam aproveitando o chamado "estado de flow", um alto nível de concentração e foco que os jogadores atingem quando estão imersos no jogo.
Esse fenômeno é associado a diferentes tipos de atividade, mas é tão comum entre fãs de Minecraft que se tornou um objeto de estudo. Isso ajuda entender por que as crianças ficam tão concentradas no jogo a ponto de ignorar tudo o que acontece ao redor.
A psicologia por trás do fascínio de crianças com Minecraft
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Mas há indícios de que o Minecraft não é atrativa para todos os públicos da mesma forma e pode apresentar uma desigualdade de gênero.
Um estudo na Austrália, que entrevistou mais de 700 pais, revelou que enquanto 54% dos meninos entre 3 e 12 anos jogam Minecraft, apenas 32% das meninas nessa faixa etária também fazem isso.
Os autores do estudo afirmam que é importante que jogos e plataformas online busquem engajar as meninas tanto quanto os meninos, uma vez que esses jogos ajudam as crianças a desenvolver habilidades digitais que elas vão precisar quando crescerem.
AJ Minoti, por exemplo, não está preocupado com qualquer dificuldade que as filhas possam ter para se adaptar ao mundo digital.
"O Minecraft é a praia delas", ele afirma. "Sou eu que tenho que perguntar como se mexe nas coisas."
E embora seus filhos também se divirtam construindo coisas com peças de lego, Minotti diz que não tem espaço para guardar tantos blocos em casa.
No fim das contas, o Minecraft oferece uma solução prática: "É como ter todas as peças de Lego que você poderia imaginar", afirma.
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Por que crianças mentem? Como reagir à mentira do seu filho pequeno

Por que crianças mentem? Como reagir à mentira do seu filho pequeno
As mentiras na infância fazem parte do desenvolvimento cognitivo, emocional e social. Quando as crianças são pequenas, elas não devem ser percebidas como um sinal de malícia ou desonestidade. Cientistas dizem que crianças aprendem a mentir para não ter que enfrentar as consequências de suas ações
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Pablo ganhou de presente de aniversário o uniforme do seu time de futebol favorito. No dia seguinte, ele estava animado para estrear a roupa nova. Quando seus pais o viram vestido da cabeça aos pés, notaram algo estranho.
Ao se aproximar, descobriram que ele havia escrito as iniciais do time no short para personalizá-lo. Com uma expressão de insatisfação óbvia, eles perguntaram por que ele havia feito isso. Sem hesitar, Pablo respondeu com naturalidade: "Não fui eu! Veio assim".
As crianças pequenas geralmente contam mentiras que são fáceis de serem detectadas pelos adultos.
Uma criança de três ou quatro anos pode negar ser a autora de um desenho na parede, mesmo sendo a única pessoa na sala; ou é capaz de insistir que não comeu chocolate quando sua boca está toda suja de cacau.
Estas situações são desconcertantes para os adultos, mas há uma explicação baseada no desenvolvimento cognitivo e socioemocional das crianças.
Por que as crianças mentem?
Mentir é uma estratégia que as crianças usam para lidar com situações de que não gostam. Um dos motivos mais comuns é evitar as consequências negativas de suas ações.
Quando percebem uma expressão de aborrecimento nos pais ou aprendem que uma ação semelhante resultou em reprimenda, elas tentam evitar essas consequências negando o que aconteceu.
Por que crianças mentem? Como reagir à mentira do seu filho pequeno
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Não dizer a verdade também contribui para manter uma imagem positiva diante dos outros, evitando assim decepcionar os adultos.
Mentir ajuda as crianças a evitar problemas. Mas será que elas não percebem que é óbvio que não estão dizendo a verdade?
Quando são pequenas, elas ainda não desenvolveram certas habilidades cognitivas que são características de estágios posteriores de desenvolvimento. Por exemplo, não conseguem antecipar as consequências de suas ações e, portanto, não são capazes de prever que uma mentira pode ser descoberta.
Tampouco adquiriram a capacidade de entender que os pensamentos e emoções dos outros podem ser diferentes dos seus.
Elas acreditam que os outros vão pensar como elas e, assim, vão acreditar na sua versão da história.
Como elas aprendem a mentir?
A observação desempenha um papel fundamental no aprendizado do comportamento de mentir. As crianças observam com frequência os adultos contando pequenas mentiras na vida cotidiana.
Frases como: "não diga ao papai que você comeu biscoito" ou "vamos estar viajando", como desculpa para não aceitar o convite para um jantar, transmitem a ideia de que pequenas mentiras são aceitáveis.
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Em suas primeiras experiências diante deste tipo de situação, as crianças geralmente reagem de forma ingênua.
Não é incomum que contradigam subitamente os adultos, contando ao pai como o biscoito estava delicioso ou informando ao vizinho que a suposta viagem nunca aconteceu.
Com o tempo, e após várias situações semelhantes, a criança internaliza que, em certos casos, mentir é aceitável. Isso geralmente acontece quando os pais minimizam a importância dessas pequenas mentiras, às quais eles próprios recorrem às vezes.
À medida que crescem, as crianças aprendem que as mentiras podem ser descobertas, e mudam a maneira de mentir.
Se suas mentiras são facilmente detectadas, elas aprendem que mentir é uma estratégia que não funciona, e que gera desconfiança por parte dos outros.
Se conseguem enganar, aperfeiçoam a técnica, e suas mentiras se tornam mais elaboradas e difíceis de serem detectadas.
O que fazer diante da mentira de uma criança
As mentiras fazem parte do desenvolvimento infantil, mas devem ser gerenciadas adequadamente para promover a honestidade, e evitar que sejam usadas para manipular os outros.
Por isso, é importante ser um modelo de sinceridade, evitando mentir na frente das crianças, mesmo que sejam pequenas mentiras cotidianas.
Desta forma, a criança vai entender que dizer a verdade é um valor importante, e não vai conseguir justificar suas próprias mentiras dizendo: "Você também mente". É preferível reforçar a importância de dizer a verdade e destacar os benefícios de ser sincero com os demais.
Outra sugestão é evitar consequências desproporcionais para um comportamento inadequado.
Se a criança receber uma punição excessiva por dizer a verdade, ela vai aprender que mentir evita reprimenda. Em vez disso, é melhor interpretar o comportamento inadequado como uma oportunidade de aprendizado.
Não devemos presumir de imediato que a criança fez algo errado — mas, sim, dar a ela a oportunidade de se explicar, sem julgá-la previamente.
Permitir que elas se expressem livremente reduz a necessidade de se defender com mentiras, e promove um ambiente de confiança.
Uma parte normal do desenvolvimento
As mentiras na infância fazem parte do desenvolvimento cognitivo, emocional e social. Em crianças pequenas, elas não devem ser vistas como sinais de malícia ou desonestidade.
Por meio de suas primeiras experiências com a mentira, as crianças aprendem sobre as consequências de suas ações.
Se os adultos entenderem por que as crianças mentem, e lidarem com as mentiras de forma adequada, vão poder orientá-las a estabelecer uma comunicação honesta baseada na sinceridade.
Com paciência, boa comunicação e exemplos positivos, as crianças vão aprender que a verdade é sempre a melhor opção. Elas não vão ter medo de cometer erros, e vão fortalecer, assim, sua confiança nos adultos.
*Mireia Orgilés é professora universitária, especialista em tratamento psicológico infantil, da Universidade Miguel Hernández, na Espanha.
José Pedro Espada é professor de psicologia e diretor do Centro de Pesquisa da Infância da Universidade Miguel Hernández.
**Este artigo foi publicado originalmente no site de notícias acadêmicas The Conversation e republicado aqui sob uma licença Creative Commons. Leia aqui a versão original (em espanhol).
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