Encceja: inscrição para quem busca diploma do ensino fundamental ou médio termina nesta sexta; tire dúvidas

Injúria, ofensas e apologia ao crime: como jogos universitários ficaram marcados por cultura de ódio
Prova é gratuita e voltada para alunos que não se formaram na idade correta. Aluno estuda para o Encceja
Divulgação
As inscrições para o Exame Nacional para Certificação de Competências de Jovens e Adultos (Encceja) 2025 terminam nesta sexta-feira (2). Por meio dessa prova, quem não concluiu os estudos na idade certa pode pleitear um diploma de conclusão de ensino fundamental e de ensino médio.
Para participar, é preciso preencher os dados pessoais neste link.
Abaixo, tire suas dúvidas:
💸Qual é a taxa de inscrição?
A prova é gratuita. Mas, se o candidato se inscreveu para o Encceja do ano passado e não compareceu ao local de avaliação, só conseguirá participar em 2025 caso justifique sua ausência em 2024. Se não houver uma explicação, será necessário pagar uma taxa de R$ 40.
🧾A partir de que idade é possível participar?
Para buscar um diploma de ensino fundamental, é preciso ter a partir de 15 anos. Para o de ensino médio, 18 anos.
🖊️Quando as provas serão aplicadas?
Em 3 de agosto de 2025, seguindo os horários abaixo:
Manhã (ciências naturais e matemática)
Abertura dos portões: 8h
Fechamento dos portões: 8h45
Início das provas: 9h
Término das provas: 13h
Tarde (língua portuguesa, redação e disciplinas de ciências humanas)
Abertura dos portões: 14h30
Fechamento dos portões: 15h15
Início das provas: 15h30
Término das provas: 20h30
📝Quais os formatos de prova?
O Encceja é composto por quatro provas objetivas, cada uma com 30 questões de múltipla escolha. Os candidatos também devem escrever uma redação de até 30 linhas, no formato dissertativo-argumentativo (o mesmo do Enem).
As provas para certificado do ensino fundamental são:
ciências naturais;
matemática;
língua portuguesa, língua estrangeira, artes, educação física e redação
história e geografia;
No ensino médio, são provas de:
ciências da natureza e suas tecnologias;
matemática e suas tecnologias;
linguagens, códigos e suas tecnologias e redação;
ciências humanas e suas tecnologias.
📐Qual conteúdo será cobrado? O que devo estudar?
Segundo o MEC, cada área do conhecimento tem uma Matriz de Referência composta por 30 habilidades. As áreas do conhecimento foram estabelecidas a partir do currículo da Base Nacional Comum, de acordo com os Parâmetros Curriculares Nacionais (PCN's).
📏Como localizar materiais para estudo?
O Inep mantém em seu site uma coletânea. Ela pode ser acessada neste link.
🎓Qual é a pontuação mínima para a aprovação?
Para obter o certificado, o participante deverá atingir no mínimo 100 pontos em cada uma das provas, em uma escala de 60 a 180. Na redação, é preciso ter nota igual ou acima de 5.
Atenção: se você obtiver a nota necessária em apenas algumas das disciplinas, poderá receber uma declaração de proficiência parcial. No ano seguinte, só precisará fazer as provas nas quais seu desempenho foi insuficiente.
🧑‍🎓Se eu não tiver diploma do ensino fundamental, posso fazer direto a prova do ensino médio?
Sim. Candidatos com mais de 18 anos que não têm o diploma do ensino fundamental podem prestar diretamente o Encceja para o diploma do ensino médio.
🗂️O diploma será concedido pelo governo federal?
Não. O Inep é responsável por elaborar e aplicar a prova. A confecção dos diplomas ficará a cargo das secretarias estaduais.
Inscrições para o Encceja terminam hoje

Ataque a professora no RS: como uma escola se reconstrói após um trauma?

Injúria, ofensas e apologia ao crime: como jogos universitários ficaram marcados por cultura de ódio
Em Caxias do Sul e São Paulo, professores, alunos e familiares lidam com trauma e tentam retomar a rotina após atentados violentos em escolas. Uma semana após o ataque a uma escola em Caxias do Sul (RS), a resposta de uma aluna ao ser advertida em sala de aula foi um baque para a professora Juliana ao dar aula em outro colégio da mesma cidade.
A professora distribuía papéis coloridos para uma atividade, limitados a um por aluno, quando a estudante reagiu à proibição de pegar mais uma folha: "É por isso que fazem o que fizeram na João de Zorzi".
A referência era ao ataque ocorrido em 1º de abril, em que três adolescentes do sétimo ano da Escola Municipal João de Zorzi atacaram pelas costas e a facadas uma professora de inglês, seguindo um plano premeditado pelo Instagram dias antes.
Legenda da foto, Em Caxias do Sul e São Paulo, professores, alunos e familiares lidam com trauma e tentam retomar a rotina após atentados violentos em escolas
Gabriel Lain/Sindiserv/BBC
"A violência contra os professores está naturalizada", diz Juliana, que pediu para ter seu nome real preservado.
Ela trabalhou com a professora que foi esfaqueada na João de Zorzi. Desde a agressão, Juliana diz ter dificuldades em retomar o trabalho em sala de aula.
"Ainda tenho uma mistura de sentimentos que não consegui entender. Mas sei que me sinto muito insegura."
O medo não é só de Juliana. Assim como ela, professores e alunos de toda a escola ainda tentam entender como seguir em frente diante de uma violência que rompeu o cotidiano escolar.
"Os professores agora evitam escrever no quadro para não ficar de costas", relatou uma estudante à BBC News Brasil.
Um dia após o ataque, todas as escolas da rede municipal de Caxias do Sul tiveram aulas suspensas. Professores e funcionários foram acolhidos por psicólogos e equipes da Secretaria Municipal de Educação. A escola reabriu dois dias após o ataque, em 3 de abril.
Apesar do retorno rápido à rotina, a comunidade escolar ainda digeria o trauma. Na semana seguinte ao ataque, pais cogitavam transferir os filhos da João de Zorzi para outros colégios, e professores também se questionavam se ficariam ali.
"Os professores ainda estavam ganhando confiança novamente", afirma o vice-diretor da escola, Gabriel Jean Boff. "Sempre vai ter um sentimento diferente, em especial para quem estava aqui no dia do ataque."
A mãe de uma aluna do quarto ano diz que passou a acompanhar a filha até a escola todos os dias — antes, fazia isso só de vez em quando.
"Ela ficou medo e não entendeu bem o que aconteceu", explica a mãe, que pediu para não ser identificada.
"Tivemos que explicar que ocorreu na sala dos alunos mais velhos e que algumas crianças podem ser más. Meu marido e eu cogitamos tirá-la da escola, mas ela disse que queria continuar para estar com as amigas."
A secretária municipal de Educação, Marta Fattori, disse à BBC News Brasil que o patrulhamento foi reforçado na João de Zorzi e em outras unidades da região.
Também estão sendo discutidas medidas como colocar portões com campainha para controlar acesso de estranhos e botões de pânico que poderiam ser acionados em ataques e outras situações de emergência em escolas da rede. Na João de Zorzi, isso já foi feito.
Fattori também afirmou que o município retomou o programa Escolas de Paz, que prevê uma série de iniciativas para combater a violência nas salas de aula.
Após o ataque do início de abril, diz a secretária, o programa foi reforçado com a presença de equipes itinerantes nas escolas e implementação de projetos de mediação de conflitos.
O dia seguinte, dois anos antes
A 980 km de Caxias do Sul, a Escola Estadual Thomazia Montoro, em São Paulo, ainda vive o luto por um ataque em 2023.
As manhãs agitadas eram parte da rotina da escola, na época com mais de 300 alunos de ensino fundamental. Mas, em 27 de março daquele ano, o dia fugiu do normal.
"Foi algo fora da rotina", lembra Cinthia da Silva Barbosa, que era professora de educação física na escola localizada na Vila Sônia, Zona Oeste de São Paulo. "Não era o barulho habitual de uma escola viva, com sons de crianças brincando e correndo. Era um som urgente, desorganizado."
Naquele dia, enquanto dava aula, Cinthia viu que crianças de outras turmas desciam correndo a escada, em pânico. A professora pediu que seus alunos permanecessem na sala de aula e subiu no fluxo contrário.
"Encontrei com a coordenadora. Não lembro a sequência de palavras, mas lembro dela dizer: 'Ele está armado. Cuidado'."
Em uma das salas, viu uma professora caída no chão e outra colega sendo esfaqueada. Sem pensar muito, Cinthia imobilizou por trás o autor do ataque, um estudante de 13 anos. "Naquele momento, não ouvia mais nada. Só agi."
A professora Elisabeth Tenreiro, de 71 anos, morreu no local. O aluno também feriu mais dois colegas e outras três professoras.
Ele vestia uma máscara de caveira e havia avisado nas redes sociais que estava "esperando por esse momento a vida inteira". Na mochila, levou uma faca e a intenção declarada de matar o maior número possível de pessoas.
O agressor foi apreendido e levado para a Fundação Casa, em São Paulo.
Nos dias que seguiram o ataque, a escola foi o epicentro de uma comoção nacional. Recebeu psicólogos, voluntários — de ONGs a igrejas — e visitas de políticos, como o governador Tarcísio de Freitas (Republicanos).
Seguindo recomendações de especialistas, a escola permaneceu fechada por 14 dias. Neste período, foi reformada e pintada — uma ação encorajada por pesquisadores no tema para ressignificar o espaço. Houve rodas de conversa, oficinas lúdicas, sessões de acolhimento. Até a merenda escolar foi diferente.
"Muitos voluntários foram nos acolheram, além dos alunos. Isso foi o que me deu mais força para continuar ali", diz Cinthia.
As marcas do trauma
A professora Ana Clélia Rosa, de 60 anos, foi uma das vítimas do ataque. "Não tem como esquecer. Nesses dois anos, essas lembranças vão e voltam", afirma.
Ela lembra que, ao tentar pedir ajuda para a colega Elisabeth, deu de frente com o agressor. "Só lembro da faca levantando. Caí e comecei a me defender como podia. Foram menos de dois minutos, mas pareceram uma eternidade."
Antes de ser levada para a cirurgia, ainda no hospital, recebeu a visita do vice-governador do Estado, Felicio Ramuth (PSD). "Ele me perguntou como eu estava e se voltaria a dar aulas. Respondi que sim, assim que me recuperasse."
Duas semanas depois, ela voltou à mesma sala onde havia sido atacada. "Cumprimentei meus alunos e vi na porta uma mancha de sangue. Por mais que tivessem limpado, você ainda via uma sombra mais escura. Isso foi o mais difícil de tudo, foi um grande descaso."
Casos de violência extrema em escolas exigem protocolos específicos de acolhimento, pontua a psicóloga Elaine Alves, especialista em luto pela Universidade de São Paulo (USP), onde coordena o Núcleo de Intervenção Psicológica em Emergências e Desastres (Niped).
O atendimento após uma tragédia deve considerar o tipo de evento. "Não é a mesma abordagem para um suicídio, um homicídio entre estudantes ou um ataque com agressor ativo. Cada caso exige um plano de contingência próprio", afirma.
No caso dos chamados ataques ativos, quando o agressor tem o objetivo de matar o maior número de pessoas sem especificar alvos, a orientação é que a escola feche por um período para conseguir se reorganizar.
"É necessário cuidar dos feridos, lidar com a morte e, ao mesmo tempo, planejar o dia seguinte", pontua a psicóloga, que atuou no Thomazia Montoro após o ataque de 2023.
Ela afirma que o atendimento psicológico precisa ser imediato, contínuo e articulado com profissionais de diferentes áreas — saúde, educação e assistência social.
"Nos primeiros dias, o ideal é ter profissionais circulando pela escola, fazendo atendimentos móveis, rodas de conversa, acolhimento no pátio", explica.
Os efeitos do trauma são duradouros, pontua Alves: "O estresse pós-traumático pode surgir 30 dias depois ou cinco anos depois. Por isso, a rede pública precisa garantir atendimento psicológico de longo prazo — algo que hoje, infelizmente, não se consegue fazer".
Andrea Oliveira, que era secretária do Thomazia Montoro e estava trabalhando na escola no momento do ataque, carregou um trauma consigo por causa do que aconteceu.
"Pensei que encontraria um adolescente perturbado, arrependido. Mas não. Ele entrou com o peito estufado, sem hesitação", diz ela, sobre o momento em que o agressor foi levado pela polícia.
Nas semanas seguintes, a secretária cuidou de tarefas burocráticas: receber visitas e voluntários, fazer ligações de checagem às famílias dos estudantes. "Nunca trabalhei tanto quanto naquele período."
Andrea só começou a sentir os primeiros sintomas de estresse pós-traumático meses depois. O olhar do adolescente passou a ser uma cena recorrente em seus sonhos.
"Comecei com dores no corpo, depois vieram os pesadelos, a hipersensibilidade a sons. Hoje, qualquer barulho fora do comum de uma escola me assusta", conta.
Hoje, ela não trabalha mais na Thomazia Montoro, é merendeira em outra escola. Em julho de 2024, mais de um ano após o ataque, passou a ser acompanhada por psicólogos.
A experiência também transformou Cinthia Barbosa. "Acho que cada um tem uma resposta diferente", diz. Depois do episódio, a professora começou a cursar faculdade de direito e a pesquisar sobre prevenção a ataques escolares.
Em suas aulas de educação física, Cinthia passou a estimular ainda mais as vivências coletivas: jogos e atividades em grupo. "A escola precisa ser um espaço de socialização. Isolamento é sempre um sinal de alerta", afirma.
"Não dá para traçar um perfil de aluno agressor. O que dá para fazer é criar vínculos, escutar, observar."
'Escola precisa ser escutada e cuidada'
O esforço de Cinthia para entender e buscar formas de evitar novos ataques se reflete em um movimento mais amplo. Pesquisadores têm tentado compreender por que esse tipo de violência tem crescido nas escolas brasileiras.
O país registrou ao menos 42 ataques a escolas entre 2001 e 2024 — mais da metade deles concentrados entre 2022 e 2024.
Os dados são do relatório Ataques de Violência Extrema às Escolas: Causas e Caminhos — Atualização, publicado pelo D3e – Dados para um Debate Democrático na Educação, com apoio da B3 Social e da Fundação José Luiz Setúbal.
O levantamento mostra que, entre 2001 e o fim do ano passado, 44 pessoas foram mortas em ataques a escolas no Brasil. Outras 113 ficaram feridas. Mais da metade dos ataques no país foi executada com facas, machados ou coquetéis molotov.
A pesquisadora Cléo Garcia participou do estudo e da elaboração de uma cartilha com orientações para escolas e gestores, em parceria com a Unicef (Fundo das Nações Unidas para a Infância), que inclui um passo a passo de ações a serem tomadas após um ataque.
O documento orienta sobre como organizar o retorno às aulas de maneira segura, escutando ativamente a comunidade escolar a respeito deste momento, e estratégias de cuidado com todos os seus integrantes.
Garcia diz que esse guia pode ajudar redes escolares que ainda não têm planos próprios de contingência para situações deste tipo.
"Fechar por um dia e reabrir como se nada tivesse acontecido não dá conta do impacto. A escola inteira precisa ser escutada e cuidada", afirma.
Ela também destaca a importância da comunicação clara e transparente das autoridades envolvidas com a comunidade escolar e com a imprensa, como forma de combater rumores e boatos.
"Às vezes, os gestores não estão preparados para isso, mas é fundamental que alguém possa falar em nome da escola, com orientação adequada, para prestar esclarecimentos e garantir a confiança de todos sobre o que está sendo feito."
Ela também defende que a imprensa atue com responsabilidade para evitar efeito contágio — ou seja, a propagação dos ataques por influência.
"É preciso evitar dar nome e rosto aos autores, não divulgar detalhes descontextualizados que possam estimular reprodução de condutas violentas", afirma. "Esses adolescentes, em muitos casos, desejam a visibilidade."
Em Caxias do Sul, a relação com a imprensa foi conturbada desde o primeiro dia. De fake news a informações incompletas ou descontextualizadas, sites locais chegaram a publicar foto de um dos adolescentes envolvidos no ataque e a veicular informações falsas sobre a professora agredida.
A BBC News Brasil tentou entrevistar a professora atacada e os familiares dos estudantes envolvidos no ataque — de ambos os lados, o assédio da imprensa foi parte da justificativa para declinar os pedidos da reportagem.
Escola Segura
Em resposta ao aumento de ataques a escolas em 2023, o Ministério da Justiça e Segurança Pública lançou naquele ano a Operação Escola Segura. Em parceria com a organização SaferNet Brasil, foi criado um canal exclusivo para receber denúncias de ameaças e episódios de violência nas instituições de ensino.
Entre abril de 2023 e março de 2025, houve 11.971 denúncias. Só no primeiro mês de funcionamento, foram 8,6 mil — de um total de quase 9,8 mil ao longo de 2023 inteiro.
Para Cléo Garcia, o volume expressivo reflete, em parte, a ausência até então de um sistema nacional unificado para esse tipo de queixa.
Em 2024, o número caiu drasticamente: 2.081 denúncias, uma redução de 78,6% em comparação ao primeiro ano de funcionamento do canal. Neste ano, até o dia 31 de março, foram 138 queixas.
A queda no número de ataques registrados em 2024, na avaliação da especialista, é um efeito do trabalho de forças de segurança.
"Houve monitoramento de ameaças e ações de inteligência, inclusive em parceria com órgãos dos EUA. Isso impediu novos ataques. Mas as ameaças seguem em alta, e muitas escolas não sabem como reagir", diz.
O Ministério da Justiça e Segurança Pública atribui a queda nas denúncias de ameaças a escolas a um conjunto de ações, como o reforço na prevenção, o monitoramento de ameaças na internet e campanhas de conscientização.
Segundo a pasta, todas as denúncias recebidas desde a criação do canal são analisadas individualmente. Após avaliação do conteúdo — com base na gravidade e urgência das informações — os casos com indícios de crime são encaminhados às autoridades policiais locais.
Os dados também servem de base para a formulação de políticas públicas voltadas à prevenção e ao enfrentamento da violência nas escolas, informou o Ministério.
Para Garcia, é essencial garantir atendimento psicológico contínuo, canais anônimos para denúncias e protocolos de convivência adaptados à realidade de cada escola.
"O trauma de um ataque não se resolve em uma semana. Há estudos que mostram que os efeitos podem durar mais de três anos", diz.
"A escola sofre um grande abalo, mas não é só ela: toda a comunidade escolar, os vizinhos, os parentes das crianças e os colegas dos professores também são afetados."
'Não tem como dizer que já passou'
"Estamos sempre com a antena ligada", diz a professora de inglês Monique Queiroz. Ela era vice-diretora da escola Thomazia Montoro no momento do atentado, em março de 2023.
"Não tem como dizer 'já passou'. Cada pessoa reagiu de um jeito, mas acho que 90% da comunidade escolar ficou adoecida — funcionários, alunos e as famílias também", afirma a professora.
"Qualquer barulho, grito ou estalo assusta. A escola vive em estado de alerta permanente."
Ela defende a presença fixa de profissionais de saúde mental na escola, com atendimentos individualizados. "Os psicólogos atuam em grupo, mas a dor de cada um é diferente. Precisamos de atendimento contínuo, tanto para casos de trauma quanto para prevenção."
A escola, diz a professora, recebeu apoio de voluntários e equipes de psicólogos até o final do ano letivo de 2023.
Procurada pela BBC News Brasil, a Secretaria da Educação do Estado de São Paulo afirmou que acompanha a rotina das escolas estaduais por meio do programa Conviva-SP, que atua na prevenção da violência, mediação de conflitos e apoio à saúde mental.
A rede, segundo a pasta, conta com mais de 660 psicólogos e quase 700 professores orientadores de convivência, além de mil vigilantes contratados em 2023 para atuar em unidades escolares selecionadas conforme critérios de vulnerabilidade.
Entre as medidas de segurança, a pasta destaca o Protocolo Conviva 179, com orientações para lidar com situações de risco, e a parceria com a Secretaria de Segurança Pública para garantir reforço de policiais nas escolas.
Monique deu aulas na escola Thomazia Montoro até o fim do ano letivo de 2024. Ela diz que a decisão de deixar a escola foi motivada por esgotamento emocional. "Precisava encerrar um ciclo. Eu ia ao trabalho triste. O ambiente estava adoecido, e eu não estava bem."
A psicóloga Elaine Alves questiona a ideia de "voltar ao normal". "Há uma tendência humana de querer esquecer, mas isso não vai acontecer. Essa escola sempre será marcada pelo ataque. E isso precisa ser incorporado."
Ela defende que escolas criem formas de simbolizar o episódio, como a construção de memoriais com participação da comunidade.
A psicóloga cita o memorial criado em homenagem às vítimas do massacre da escola Tasso da Silveira, em Realengo, no Rio de Janeiro. Em 2011, um ataque matou 12 crianças e feriu outras 10.
"Não é para glorificar a tragédia, mas para lembrar e evitar que se repita."

Enem 2025: prazo para pedir isenção da taxa de inscrição termina nesta sexta; veja quem tem direito

Injúria, ofensas e apologia ao crime: como jogos universitários ficaram marcados por cultura de ódio
Quem estava isento em 2024 e não compareceu à prova deve justificar a ausência para poder solicitar a gratuidade da taxa novamente. Professores do Piauí comentam provas de matemática e ciências da natureza no Enem 2024 no Piauí
Lívia Ferreira/ g1 Piauí
Os interessados em participar do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) 2025 têm até esta sexta-feira (2) para pedir a isenção da taxa de inscrição.
Inicialmente, o edital previa que o processo fosse encerrado em 25 de abril — o prazo, no entanto, foi prorrogado pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep).
SAIBA MAIS: Leia redações nota mil do Enem 2024
💰Quem tem direito à isenção? Segundo o edital, entra no grupo quem:
estiver cursando o último ano do ensino médio no ano de 2025, em qualquer modalidade de ensino, em escola da rede pública declarada ao Censo Escolar da Educação Básica;
tiver cursado todo o ensino médio em escola da rede pública ou como bolsista integral na rede privada e ter renda per capita igual ou inferior a um salário mínimo e meio;
declarar situação de vulnerabilidade socioeconômica, por ser membro de família de baixa renda, e que está inscrito no Cadastro Único para Programas Sociais do Governo Federal (CadÚnico).
💰Como fazer a solicitação? Para pedir a isenção de pagamento da taxa de inscrição para o Enem 2025, o participante deve:
acessar o site enem.inep.gov.br/participante;
informar CPF, data de nascimento, e-mail válido e número de telefone;
justificar ausência no Enem 2024 com documentos específicos (para os isentos que não compareceram à prova);
preencher corretamente as informações e criar um cadastro na Página do Participante em sso.acesso.gov.br.
✏️Como justificar a ausência no Enem 2024? Quem estava isento da taxa na última edição da prova e, ainda assim, faltou a um ou dois dias do exame deverá apresentar uma documentação que comprove o motivo da ausência. Só assim terá direito novamente à gratuidade.
Para isso, é preciso acessar o mesmo sistema de solicitação de isenção da taxa de inscrição (enem.inep.gov.br/participante) e inserir uma das opções abaixo:
boletim de ocorrência comprovando assalto, furto ou acidente de trânsito;
certidão de casamento ou contrato de união estável no dia da prova;
certidão de óbito comprovando morte na família;
certidão e nascimento comprovando maternidade ou paternidade;
emergência, internação ou repouso médico;
mandado de prisão que ateste privação de liberdade;
comprovante de mudança de domicílio;
documento que comprove mudança de domicílio;
documento que comprove intercâmbio acadêmico ou atividade escolar.
Não serão aceitos documentos autodeclaratórios ou emitidos por pais ou responsáveis. E não é possível justificar ausência no Enem 2024 sem antes solicitar isenção da taxa de inscrição no Enem 2025.
📅Qual é o cronograma completo?
Resultado do recurso da justificativa de ausência no Enem 2024 e solicitação de isenção de pagamento da taxa de inscrição para o Enem 2025: 22/5/2025
Recurso da justificativa de ausência no Enem 2024 e solicitação de isenção de pagamento da taxa de inscrição para o Enem 2025: 12/5/2025 a 16/5/2025
Resultado da justificativa de ausência no Enem 2024 e solicitação de isenção de pagamento da taxa de inscrição para o Enem 2025: 12/5/2025
Justificativa de ausência no Enem 2024 e solicitação de isenção de pagamento da taxa de inscrição para o Enem 2025: 14/4/2025 a 02/05/2025
✏️Já dá para fazer a inscrição no Enem? Não. O Inep ainda vai publicar os editais específicos com as regras e datas do Enem 2025.
E atenção: ter a aprovação da justificativa de ausência no Enem 2024 e/ou da solicitação de isenção de pagamento da taxa de inscrição para o Enem 2025 não garante a efetivação da inscrição.
Os interessados em realizar o Enem 2025, isentos ou não, deverão realizar sua inscrição na Página do Participante, no período que ainda será divulgado.
Inep libera versão digitalizada do texto das redações nota mil do Enem 2024

1 a cada 10 alunos de Medicina é cotista, diz estudo

Injúria, ofensas e apologia ao crime: como jogos universitários ficaram marcados por cultura de ódio
Desde 2010, a participação absoluta de estudantes de Medicina em programas de reservas de vagas e cotas cresceu 778,6%, indo de 2.736 para 24.041 em 2023. Estudantes de curso de Medicina.
Sarah Daltri/Divulgação Sírio-Libanês
O Brasil nunca teve tantos estudantes de Medicina que participam de programas de reserva de vagas e cotas. Em 2023, mais de 24 mil médicos em formação utilizavam algum programa de ação afirmativa. É quase como se 1 a cada 10 estudantes de Medicina fosse cotista (0,9 a cada 10).
O dado é do o estudo Demografia Médica no Brasil 2025, divulgado nesta quarta-feira (30). O documento é uma parceria entre o Ministério da Saúde, a Faculdade de Medicina da USP (FMUSP) e a Associação Médica Brasileira (AMB).
O Ministério da Educação (MEC) considera como programa de reserva de vagas aquelas iniciativas de ação afirmativa com foco em permitir que determinado público acesse o ensino superior. Por exemplo:
reserva de vagas étnicos, para autodeclarados pretos, pardos ou indígenas (PPI);
reserva para alunos procedentes de ensino médio público, por critério social ou renda familiar;
reserva para pessoas com deficiência; entre outros.
Programas como estes impactaram significativamente o perfil social e econômico dos alunos de Medicina, promovendo maior diversidade.
No entanto, há uma disparidade na adoção de ações afirmativas em cursos de Medicina da rede privada de ensino superior, se comparado com os cursos de instituições públicas. Isso contribui para a manutenção da disparidade entre os estudantes das diferentes redes. (Veja mais abaixo.)
Aumento da inclusão social
Desde 2010 a 2018, a proporção de estudantes de Medicina em programas de reserva de vagas quase quadruplicou, passando de 2,6% para 9,9%.
Já a participação absoluta tem tido aumentos constantes, chegando a 24.041 em 2023. O número representa 9% do total de estudantes de Medicina no país naquele ano, quando eram 266.507, um aumento de 778,6% desde os 2.736 de 2010.
Dos estudantes beneficiados por algum programa de reserva de vagas em 2023, apenas 731 estudavam em instituições privadas. Os demais 23.310, que representam 96,9%, estudava em instituições públicas.
Tipos de programas de reserva de vagas
Os programas de reserva de vagas são variados e incluem diferentes critérios de inclusão e público-alvo. Em 2023, a distribuição era:
Ensino médio público: modalidade mais frequente, beneficiando 20.169 estudantes.
Cunho étnico (PPI): reservas para autodeclarados pretos, pardos ou indígenas, com 13.072 alunos beneficiados.
Renda familiar: aumentou de 8,8% em 2010 para 21,5% em 2023, beneficiando 9.833 estudantes.
Pessoas com deficiência: incluía 1.692 alunos.
Outros: programas que não se enquadram nas demais categorias, com 990 beneficiados.
Comparação entre faculdades públicas e privadas
A inclusão social nos cursos públicos de Medicina é significativamente maior do que nos privados.
Cursos públicos em 2023:
39,3% dos alunos das escolas públicas estavam incluídos em programas de reserva de vagas,
destaque para reservas destinadas a egressos de escolas públicas (19.779), cunho étnico (12.857) e social (9.567).
Cursos privados em 2023:
inclusão é mínima, com apenas 0,4% dos alunos beneficiados por programas de reserva de vagas.
215 vagas reservadas para estudantes autodeclarados pretos, pardos ou indígenas, e incluíam apenas 15 pessoas com deficiência.
VÍDEOS DE EDUCAÇÃO E PODCAST

Injúria, ofensas e apologia ao crime: como jogos universitários ficaram marcados por cultura de ódio

Injúria, ofensas e apologia ao crime: como jogos universitários ficaram marcados por cultura de ódio
Alunos reafirmam-se como 'superiores' por critérios de gênero, de etnia ou de classe social. Ofensas que dizem respeito a questões de raça, de deficiência ou de origem, por exemplo, são consideradas criminosas. Atlética de medicina da Faculdade Santa Marcelina posa ao lado de bandeira com frase que faz alusão ao estupro
Reprodução
"Entra por**, escorre sangue": a frase, de clara apologia à cultura do estupro, estava escrita em uma faixa erguida por 12 alunos de medicina da Faculdade Santa Marcelina, em São Paulo, durante um evento esportivo em 15 de março. O grupo inteiro foi expulso pela instituição nesta segunda-feira (28).
A misoginia — definida pela pesquisadora e socióloga Bruna Camilo como "a base da construção de qualquer forma de pensar que oprima as mulheres e atente contra os direitos delas” — não é a única manifestação de ódio que marca os jogos universitários.
Veja outros exemplos de gritos de torcida nessas competições:
“Federal, fala baixinho, quem tem 10 mil não envelhece no cursinho!” x “10 mil reais é o preço que se paga por não ter estudado mais!”
“Eu sou solidário, pago seu curso e vou pagar o seu salário” x “Explode o seu cartão, na maior mensalidade, é lindo ver seu pai pagando a tua e a minha faculdade.”
Os versos acima, entoados por estudantes durante jogos universitários no Brasil, evidenciam que uma das modalidades dessas competições é… a luta de classes. Em uma disputa paralela, que frequentemente inclui ofensas preconceituosas (e até racistas) disfarçadas de “brincadeiras”, estão grupos de torcedores que, por razões financeiras, étnicas ou intelectuais, julgam-se superiores aos demais. Mandam um constante lembrete aos seus oponentes: “aqui não é seu lugar”.
Luta de classes em jogos universitários: torcidas demonstram racismo e preconceito
“Nos jogos jurídicos do ano passado [em Vassouras, RJ], fiquei chocada. Antes da partida, estudantes [de uma faculdade particular do Rio] jogaram notas falsas de dinheiro na quadra, para mostrar que o pai deles pode pagar uma mensalidade”, diz Thamires Soares, aluna de direito, aprovada por cotas na Universidade Estadual do Rio de Janeiro (Uerj).
“Durante muito tempo, a gente, que é pobre e preto, não acessava a universidade pública. Agora que conseguiu, precisa vivenciar isso? Reforça o sentimento de não pertencimento.”
Na mesma cidade, um ano antes, alunos de medicina da Unig cantaram os versos: “Sou playboy, não tenho culpa se seu pai é motoboy”.
➡️São casos que se assemelham ao que aconteceu em Americana, em 16 de novembro de 2024, quando estudantes de direito da PUC-SP, na torcida, gritaram “cotistas” e “pobres” para colegas da USP. Nesta reportagem, o g1 mostra que esses episódios não são novidade nem exceção: reproduzem um comportamento violento e elitista que existe, segundo os especialistas ouvidos, desde a origem do esporte moderno.
Em resumo, você verá que:
A origem do futebol, na Inglaterra, já foi motivada por um conflito de classes.
A desigualdade social e o entendimento de que determinados espaços só podem ser frequentados pela elite (seja a “intelectual” ou a econômica) motivam as ofensas.
A rotina de bebida alcoólica e privação de sono, típica de jogos universitários, inflama ainda mais as intrigas.
Em determinados casos, as provocações não são apenas antiéticas, mas também criminosas (já houve registro de casca de banana sendo jogada em campo, para jogadores negros).
A naturalização da violência verbal nos jogos universitários precisa ser rompida, defendem psicólogos esportivos e juristas: é necessário garantir que os responsáveis enfrentem moralmente e juridicamente as consequências de seus atos.
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🔴A luta de classes sempre existiu no esporte moderno, explica pesquisador
Felipe Tavares Paes Lopes, professor da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e pesquisador da violência no futebol, reforça que o que acontece nos jogos universitários segue a mesma lógica já observada na origem dos esportes modernos.
⚽“O futebol emerge de uma luta de classes entre professores e alunos na Inglaterra do século XVIII e XIX. Os docentes vinham de classes sociais inferiores, enquanto os estudantes das escolas públicas eram da elite, da aristocracia. Era uma competição extremamente violenta, e o controle da disciplina na escola era difícil, por causa dessa estratificação da sociedade”, afirma o pesquisador.
Ele conta que foi feito um “pacto social”: os jovens poderiam jogar futebol e organizar os espaços de lazer nos colégios, desde que, dentro da sala de aula, obedecessem aos mestres.
🏉No rugby, também na Inglaterra do século XIX, uma divergência por questões financeiras acabou levando à criação de duas ligas diferentes: uma para times da aristocracia, que defendiam que o esporte fosse apenas voltado ao lazer, sem remuneração aos jogadores; e uma para os clubes do proletariado, que reivindicavam o pagamento de alguma compensação aos atletas, já que eles tinham de faltar no emprego para jogar.
“É sempre importante lembrar que os pobres foram historicamente alijados das práticas esportivas”, diz Katia Rubio, professora da Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo (USP). “A competição é a metáfora de um conflito que não se realiza de forma concreta. É a metáfora da guerra.”
No Brasil, esses atritos sociais já eram observados no início do século XX, quando, por exemplo, torcedores da zona sul do Rio de Janeiro, de bairros mais “nobres”, eram recebidos de forma hostil no subúrbio carioca, explica Lopes, da Unicamp.
🔴Jogos universitários: bebida 'incendeia', mas câmeras intimidam
“Fui técnico de time universitário por muitos anos, e esses conflitos são seculares. Sempre aconteceram”, diz Flavio Venucini, professor da USP e membro do laboratório de psicologia do esporte da Unesp de Rio Claro (SP).
“Em grupo, tudo é potencializado, porque os jovens se sentem protegidos. E pense: são muitas baladas, bebida alcoólica; as coisas vão ficando piores no avançar dos dias da competição. O ambiente já está contaminado, aí você soma isso com a privação de sono e os preconceitos existentes. A situação sai do controle. É um efeito manada.”
A psicóloga Rita Calegari também reforça que, “de forma solitária, provavelmente os alunos não estariam agindo assim”. “O grupo acaba motivando um comportamento disruptivo. Um jovem sozinho tem menos potência e menos predisposição do que coletivamente a fazer comportamentos discriminatórios", afirma.
📱Venucini diz que, há algumas décadas, os xingamentos que ouvia nesses jogos eram ainda mais “pesados”, com misoginia mais ostensiva e palavrões. Ele acredita que, com a popularização dos smartphones e o avanço das redes sociais, os jovens tenham ficado mais receosos de serem flagrados proferindo alguma ofensa.
Os estudantes da PUC-SP, por exemplo, perderam o emprego em escritórios importantes de advocacia depois que o vídeo dos xingamentos viralizou na internet.
“O conflito entre faculdades públicas e privadas sempre existiu. Mas vemos uma mudança de pauta. Os temas sensíveis foram modificados, sempre em função da vulnerabilidade de cada grupo. Agora, é focado em diminuir os cotistas ou, do outro lado, os ‘filhinhos de papai’. São ataques multilaterais”, afirma o professor.
🚨Mas é importante notar que há uma diferença entre os tipos de provocação:
Quando a ofensa resvala em questões de gênero, de raça, de nacionalidade, de deficiência ou de idade (no caso de idosos), há um crime de discriminação, previsto tanto no Código Penal e na Lei nº 7.716 (sobre preconceito de raça ou de cor) como também no Código Brasileiro de Justiça Desportiva, explica a advogada Amanda Sato.
Se as “piadas” forem sobre um ser supostamente mais inteligente do que o outro, deixam de ser um problema do direito, afirma Wallace Corbo, professor de direito constitucional da UERJ e da FGV .
“‘Você é burro, você tem Q.I. menor que o meu.’ Se isso for entre pessoas da mesma raça, por exemplo, ou do mesmo gênero, que estejam querendo se ofender assim, vira uma questão de imoralidade e de incivilidade. O que me preocupa mais é quando vai para o lado de ‘sou melhor porque sou rico, porque sou branco; você está aí de favor”, diz.
🔴Preconceitos aflorados: ‘aqui não é seu lugar’
Casca de banana foi jogada contra aluno negro da UCP
Reprodução/Redes sociais
Em 2018, alunos da PUC-Rio perderam o título de campeões após denúncias de terem cometido racismo nos jogos jurídicos em Petrópolis, na região serrana do estado. Uma torcedora da universidade jogou uma casca de banana em direção a um atleta negro da UCP, e outros estudantes da mesma universidade foram flagrados imitando macacos e ofendendo integrantes da Uerj.
“O Brasil é profundamente marcado por uma desigualdade social que separa ricos de pobres e que estabelece um lugar privilegiado para quem tem melhores condições financeiras. Ao chamar uma pessoa de ‘cotista’ [como no caso de novembro de 2024], evoca-se um ‘devolvam essa pessoa para o lugar dela’”, diz Corbo.
“É uma ideia de não pertencimento, de negação de igualdade. Os jovens estão com o ânimo à flor da pele [durante os jogos] e se valem de algo mais profundo, que são os obstáculos sociais, para afirmarem que só o grupo deles pertence àquele espaço [da universidade]. Isso gera traumas nos outros. E sabemos que os cotistas são, muitas vezes, negros. No caso brasileiro, é algo que conversa com o racismo.”
Ana Júlia Viegas, de 23 anos, estuda direito na Uerj e é a primeira pessoa da família a acessar o ensino superior. Nos jogos jurídicos de 2023, no fim da competição, ela ouviu de torcedores de uma universidade particular: “sua mãe trabalha para a minha”.
“Sei que é uma ofensa para o grupo, mas levo para o pessoal. Afeta minha história. Sempre fui uma das únicas negras da sala na escola [particular], porque era bolsista. É como se as mesmas meninas que me excluíram no colégio estivessem de novo comigo na universidade, repetindo o ciclo”, diz.
Ela conta que se sente desconfortável nessas competições universitárias, mas que não deixará de participar delas. “Acho importante estar lá. Sei que são grupos específicos [que xingam], mas se você está ao lado deles e não os repreende, é conivente com o que está acontecendo”, afirma Ana Júlia. “Temos iniciativas no coletivo negro para jogos sem racismo e para a centralização de denúncias.”
Ana Júlia Viegas ouviu gritos preconceituosos durante jogos universitários
Arquivo pessoal
🔴Há soberba intelectual, dizem estudiosos
Soberba intelectual também marca gritos de torcida
Reprodução/Redes sociais
Além da questão financeira e da racial, há outro recurso de suposta superioridade para ser lançado pelas torcidas: a “inteligência”.
“Essa supremacia intelectual nada mais é do que um desejo muito infantil e imaturo de ser melhor do que o outro”, afirma Calegari.
Postada em redes sociais, uma música cantada por alunos de uma faculdade federal diz: “Chuta, cola, deixa a redação pra lá, sou semianalfabeto e faço Estácio de Sá”, em uma referência a uma instituição de ensino privada que cobra mensalidades mais baratas.
Julia Bevictori, de 29 anos, fez a graduação e a pós-graduação na Estácio. Ao ver um dos vídeos com esses versos, conta que ficou absurdada.
“Para muitas pessoas, a faculdade particular é a única opção: tem horários compatíveis com trabalho, em locais de fácil acesso para chegar a tempo depois do expediente. A maioria é pobre com cota, com Fies, com Prouni. Como fazer um curso integral? Eu nem prestei o Enem, porque não tinha base para isso nem tempo para fazer cursinho”, diz.
“Escutar de adolescentes que toda a minha luta, de ter aula até 23h20, é coisa de ‘analfabeto’ é humilhante e ofensivo. E nunca fui pra jogos universitários: trabalhava durante o dia e estudava à noite.”
🔴Como sair disso?
Universidades juntam-se para combater racismo em jogos universitários
Arquivo pessoal
Katia Rubio explica como o esporte profissional também colabora para a troca de ofensas nos jogos universitários.
“Os estádios são espaços em que palavrões e ataques são permitidos. Existe uma mensagem subliminar de que ali pode tudo. Mas é preciso ter fair play, ou seja, uma atitude respeitosa com o adversário. Não adianta que o discurso seja de esporte limpo, se a prática tem ficado cada vez mais contaminada pela falta de educação”, afirma.
Basta lembrar alguns exemplos recentes: cabeça de porco sendo jogada no campo, torcedores preparando emboscadas nas estradas para os adversários e brigas entre rivais terminando em morte.
Quando os jogadores ainda são amadores, sem preparo emocional para ouvir os ataques, “tudo incendeia”, diz o psicólogo esportivo Venucini. “São jovens que não aprenderam a lidar com as emoções de um ambiente hostil. Atletas profissionais são treinados para não se abalar”, explica.
Segundo os especialistas ouvidos pelo g1, para frear os constantes ataques, intolerâncias e confusões, é necessário:
acabar com a impunidade e garantir que os gestos terão consequências;
trabalhar a mediação de conflitos entre os torcedores, como o que foi feito na Alemanha, no futebol profissional;
proporcionar letramento racial principalmente nos cursos mais elitistas, como direito e medicina;
investir em ações afirmativas que tornem os ambientes acadêmicos cada vez mais plurais, tanto no corpo discente quanto no docente.
“Quanto mais cotistas e negros estiverem na universidade, maior será o contrangimento [de quem se opuser a eles]. É preciso que todos entendam que aquele lugar é, sim, de todos. E não adianta dizer que [os xingamentos] são liberdade de expressão do calor do momento. Nossa lei não abarca essa ideia”, afirma Wallace Corbo.
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