O clima de medo entre pesquisadores brasileiros nos EUA com política de Trump: ‘Não vejo a hora de voltar ao Brasil e ter meus direitos garantidos’

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Estudantes e professores que trabalham nos Estados Unidos falam sobre a insegurança que tomou conta da comunidade acadêmica, especialmente de estrangeiros, a partir de cortes de financiamento e notícias sobre deportações.
Formado na área de Ciências Sociais, Josué M. mudou-se para os Estados Unidos para fazer um doutorado numa prestigiada universidade do centro-oeste americano.
Ele chegou ao país em 2023, no penúltimo ano do governo Joe Biden, e viu na prática como as políticas de incentivo à pesquisa acadêmica e de financiamento das universidades mudaram a partir deste ano, com a volta de Donald Trump à presidência.
"A gente convive diariamente com essa energia negativa que paira sobre as cidades universitárias. Estamos num ambiente cheio de incertezas", relata ele.
"Eu gostaria de ter informações concretas, mesmo que fossem notícias ruins. Queria saber se terei salário no próximo ano, ou se serei deportado."
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"Se meu visto for revogado, tudo bem, volto para o Brasil com um enorme sorriso na cara. Mas o problema é essa incerteza", complementa o estudante.
Josué M. foi um dos poucos que aceitou compartilhar um relato para esta reportagem.
Ao longo das últimas semanas, a BBC News Brasil tentou marcar entrevistas com mais de uma dezena de estudantes, professores e pesquisadores brasileiros que trabalham nos Estados Unidos.
Os contatos foram feitos via WhatsApp — os próprios pesquisadores orientaram que nenhuma mensagem ou convite para entrevista fosse enviado diretamente pelo e-mail institucional, vinculado à universidade, pois eles temem que as caixas de entrada sejam monitoradas.
Mesmo no aplicativo de troca de mensagens, a maioria declinou o convite para a entrevista.
O principal argumento usado para a recusa foi o risco de represálias ou de uma revogação do visto americano em razão de eventuais críticas ou opiniões em relação às políticas de educação superior implementadas nos últimos meses pelo governo Trump.
"Estou legalizado aqui, tenho emprego estável como docente e estou preocupado", justificou um dos indivíduos contactados pela reportagem, que pediu para não ser identificado.
Outro opinou que "vivemos tempos sombrios" e disse ter sido "aconselhado a não discutir" publicamente sobre o assunto.
Mesmo entre os pesquisadores que aceitaram falar, houve um pedido unânime: todos não quiseram ter seus nomes, cargos ou vínculos com universidades e centros de estudos identificados ao longo do texto.
Por isso, todos os nomes citados na reportagem são pseudônimos e as instituições às quais eles pertencem foram identificadas de modo genérico.
A BBC News Brasil também entrou em contato com a Casa Branca e o Departamento de Educação dos EUA para que eles pudessem se posicionar sobre esse debate. Não foram enviadas respostas até a publicação desta reportagem.
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Cortes profundos
Todas as fontes ouvidas pela BBC News Brasil dizem que a mudança mais visível está relacionada aos cortes em orçamentos e no financiamento de bolsas ou projetos de pesquisa a partir de janeiro de 2025.
Só para os Institutos Nacionais de Saúde (NIH, na sigla em inglês) — que estão entre os maiores centros de referência em pesquisa biomédica do mundo — há uma proposta de reduzir o orçamento em 40% a partir de 2026.
Recentemente, Harvard também foi impactada com o congelamento de US$ 2,3 bilhões (R$ 12,8 bi) em fundos do Departamento de Educação, após a recusa da direção da universidade em aceitar demandas do governo Trump — que incluíam monitorar atividades consideradas antissemitas, acabar com programas de diversidade, igualdade e inclusão e instaurar uma disciplina mais rigorosa entre estudantes.
Em diversas ocasiões, Trump e seus apoiadores disseram que as universidades de elite do país estão "doutrinando" pessoas com ideologias de esquerda.
Uma pesquisa realizada pelo instituto Gallup no verão passado sugeriu que a confiança no ensino superior vem caindo ao longo do tempo entre americanos de todas as origens políticas, em parte impulsionada pela crença crescente de que as universidades promovem uma agenda política. O declínio foi particularmente acentuado entre os republicanos.
Vale lembrar que as universidades americanas são, em sua maioria, privadas. Mas elas recebem investimentos do governo para projetos específicos e também se beneficiam de isenções fiscais e outros incentivos garantidos pelo poder público.
Nas últimas semanas, uma carta assinada por representantes de 150 instituições de ensino superior dos EUA denunciou o "excesso de poder governamental e interferência política sem precedentes" do governo Trump.
"Estamos abertos a reformas construtivas e não nos opomos à supervisão governamental legítima", aponta o texto.
"No entanto, devemos nos opor à intrusão indevida do governo na vida daqueles que estudam, vivem e trabalham em nossos campus."
Mas como tudo isso se reflete na prática, no dia a dia de pesquisadores, alunos e professores brasileiros?
Josué M. conta que duas bolsas de pesquisas para as quais ele se candidatou recentemente foram encerradas no meio do processo seletivo.
"Conheço casos de colegas da área de engenharia que faziam estudos sobre a construção de casas populares e tiveram o financiamento cortado por completo", acrescenta Diego F., que faz pós-doutorado em Direito numa universidade que também fica no centro-oeste americano.
"É como se eles jogassem no lixo anos de pesquisa acadêmica por causa de interesses políticos. Isso é muito preocupante", acrescenta ele.
Carla D., que trabalha num centro de pesquisas em biotecnologia no extremo oeste do país, também chama a atenção para a troca das lideranças de muitas instituições.
"Testemunhamos a saída de líderes e diretores que têm história dentro da Ciência. Eles foram substituídos por administradores que não entendem profundamente como os estudos são feitos", diz ela.
"Há um temor de como dados podem ser interpretados para beneficiar certas causas ou visões de mundo, ou até mesmo manipular informações ou ignorar fatos que não corroboram com certas teorias ou ideias", complementa a especialista.
Reportagens indicam que pelo menos 40 estudantes estrangeiros foram deportados por infrações pequenas, como multas de trânsito
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Diversidade, igualdade e inclusão
Carla D. e outros pesquisadores ouvidos pela BBC News Brasil destacam ainda que as mudanças impactam particularmente os programas que buscavam incluir pessoas de grupos minoritários ou que eram sub-representados na comunidade acadêmica.
Segundo eles, as chamadas políticas de diversidade, igualdade e inclusão foram particularmente atingidas pelas mudanças recentes.
Ao longo dos últimos meses, Trump assinou uma série de ordens executivas para acabar com programas estabelecidos em governos anteriores, que eram voltados a esses objetivos.
A justificativa, segundo ele, é "restaurar os valores de dignidade individual, trabalho duro e excelência".
"Desde janeiro, dentro da instituição em que trabalho, todos os mecanismos que incentivam essa diversidade entre os grupos de pesquisa deixaram de existir", conta Carla.
E isso, claro, impacta a chegada de novos estudantes estrangeiros, como aqueles vindos do Brasil.
Cícero J., que faz doutorado em mídia e comunicação, percebe que já existe uma preocupação sobre a entrada de novos pesquisadores vindos de outros países.
"Antes, havia um interesse em trazer pessoas de diferentes lugares, para construir um ambiente diverso. Isso facilitou a minha vinda para cá e ajudou a conseguir uma bolsa para me manter nos EUA. E pude trazer minha visão de mundo e contribuir com o ambiente universitário, assim como colegas que vieram da Nigéria, da China, da Colômbia, da Índia…", lista ele.
"Mas agora, se a universidade resolver admitir estudantes internacionais, não existe mais segurança alguma de que aquela pessoa vai conseguir passar quatro ou cinco anos aqui", argumenta ele.
"O presidente pode mudar as regras repentinamente e aumentar o risco de deportação desses pesquisadores", complementa Cícero.
Com isso, segundo o doutorando, muitas universidades já começam a refletir se vale a pena investir na chegada de estudantes estrangeiros nos próximos anos letivos.
"Elas correm um risco de gastar uma verba que, de uma hora pra outra, vai parar no lixo porque a pessoa não poderá concluir o programa de estudos dela."
"Não há mais certeza de que haverá um retorno, em termos de pesquisa, porque o estudante pode perder o visto a qualquer momento e o investimento feito na educação dele é, entre aspas, desperdiçado", detalha ele.
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Palavras 'proibidas'?
Para além dos anúncios de corte no financiamento e o fim dos programas de inclusão, os pesquisadores brasileiros falam que as mudanças geram uma autocensura, a partir de um suposto boicote a projetos de pesquisa que envolvam alguns temas ou usem certas palavras.
"Estudos que tenham como escopo analisar diversidade, justiça social, ou qualquer outro termo que vai contra a política do atual governo, precisaram ser remodelados", informa Diego F.
"Nos grupos de pesquisadores, sempre correm listas de termos e expressões, como ideologia de gênero, multiculturalismo, pluralismo, que em tese estão sob suspeita."
"É impossível não perceber como isso afeta o ambiente acadêmico e coloca os pesquisadores na mira. Os critérios são políticos e não levam em conta a Ciência."
"A pesquisa precisa estar livre das amarras e dos anseios políticos transitórios", complementa ele.
"Vimos um grande número de bolsas de estudo que foram terminadas porque usavam termos como gravidez, feminino, infertilidade… Parece que certas palavras se tornaram proibidas", diz Carla D.
"Temos uma recomendação informal de não usar palavras-chave, como mudanças climáticas, ou questões ambientais. Muitos professores sabem que, se esses termos estiverem em projetos de pesquisa, eles não serão aprovados e não ganharão bolsas", acrescenta Josué M.
"Dentro das Ciências Humanas, tudo relacionado a temas raciais, direitos LGBTQIA +, imigração ou América Latina também já entra na linha de corte", complementa ele.
Reportagens publicadas em fevereiro de 2025 por jornais como Washington Post e New York Times revelam listas de palavras que foram banidas de agências governamentais.
Muitas delas foram citadas pelos pesquisadores ouvidos pela BBC News Brasil. Mas há outras que aparecem em matérias da mídia americana, como "vacinas", "apropriação cultural", "indígena", "preferência sexual" e "energia solar".
À época, a Casa Branca disse que não existe uma lista de palavras proibidas, mas agências federais deveriam interpretar como cumprir ordens executivas assinadas por Trump que reconhecem apenas o sexo masculino e feminino e extinguiram os programas de diversidade, equidade e inclusão.
Pesquisadores relatam que a presença de certas palavras em projetos de pesquisa é o suficiente para que o financiamento seja interrompido
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Boatos, medo e insegurança
Há ainda uma terceira camada, mais profunda e subliminar, que parece afetar os pesquisadores brasileiros que estão nos Estados Unidos: um clima de instabilidade fomentado por fatores que vão além dos cortes nas bolsas e o suposto veto a certos assuntos.
"Você precisa tomar um cuidado constante e pesado sobre que faz e fala. Eu dou aula e devo pensar em tudo o que digo na sala. Preciso refletir sobre qualquer posicionamento ou sobre o uso de palavras que o governo pode considerar inadequadas ou que possam ser interpretadas como uma crítica", confessa Cícero J.
"Muitos de nós reduziram a participação em grupos de WhatsApp e apagaram perfis nas redes sociais, porque há um entendimento geral de que isso pode representar um risco", acrescenta Josué M.
"Como brasileiro e latino-americano, sinto que há um alvo sobre aquilo que produzo e falo", diz Diego F.
"Isso chega ao ponto de me questionar sobre tudo e parar de fazer publicações no Instagram", complementa ele.
Esse também é um terreno fértil para o surgimento de boatos e rumores.
Em grupos de conversa e trocas de informações que reúnem pesquisadores brasileiros, há três orientações frequentes: andar em grupo sempre que possível, saber o contato de um advogado e não levar o celular em viagens (pelo medo de que o aparelho seja confiscado e vasculhado por agentes do governo).
"A gente é bombardeado o tempo todo. Eu recebo dia sim, dia não, e-mails vindos de diversas pessoas sobre como agir, o que fazer… É uma situação terrível", confessa Josué M.
Várias das fontes ouvidas pela BBC News Brasil também contaram histórias similares de estudantes de outros países que tiveram os vistos revogados porque estavam com o aluguel atrasado ou tinham uma multa de trânsito.
Uma reportagem do jornal britânico The Guardian afirma que pelo menos 40 estudantes estrangeiros que estavam nos EUA perderam o visto por causa de pequenas infrações, como as citadas no parágrafo anterior.
Há também relatos extra-oficiais sobre visitas-surpresa de agentes de imigração ou pessoas suspeitas que circulam pelos campus das universidades e abordam os pesquisadores com perguntas sobre o status migratório deles.
"Muitos rumores se espalham e geram uma insegurança, um desconforto generalizado, de que a qualquer momento alguém pode te entrevistar e, por abuso de poder, usar qualquer justificativa para te deportar", aponta Cícero.
"Há um medo muito grande de fazer algo que pode ser considerado além do ponto de tolerância do governo dos Estados Unidos ou dos agentes de imigração. Você nunca sabe quanto suas atividades são vistas como um desvio da norma", complementa ele.
Luiza A. formou-se em História e atualmente faz um doutorado no Brasil. Ela está atualmente nos EUA por um semestre, num projeto de visita acadêmica a uma universidade no oeste do país.
Ela observa que essa ameaça constante de sofrer uma revogação do visto deixa todo mundo "à deriva".
"Não existem protocolos e ninguém sabe muito bem como agir. Processos comuns da vida acadêmica agora são situações de grande ansiedade e incerteza", diz a doutoranda.
"Não vejo a hora de retornar ao Brasil e voltar a ter meus direitos garantidos", desabafa ela.
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Fuga de cérebros?
Os pesquisadores ouvidos pela reportagem também parecem concordar que toda essa transformação afeta o prestígio das instituições de pesquisa e ensino dos Estados Unidos — que sempre aparecem no topo de rankings globais de educação e reúnem uma grande quantidade de prêmios Nobel.
Josué M. não vê um sentido lógico para essas mudanças de política no fomento às universidades.
"Os Estados Unidos investem durante quatro anos num pesquisador, para que ele se forme e gere conhecimento. E agora muitos querem ir embora", diz ele.
"Seria de interesse do país reter esses cérebros aqui", complementa o especialista.
"Para o Brasil, isso será ótimo. Em muitos casos, o país não investiu um centavo e vai ganhar 'de graça' especialistas com grande conhecimento."
Para Carla D., a perda de prestígio das instituições acadêmicas americanas já está em curso.
"Um estudante de pós-graduação que hoje pode escolher entre vir para os Estados Unidos e a Europa vai preferir a segunda opção", raciocina ela.
"Conheço pesquisadores que estão com medo de viajar aos EUA", diz ela.
A especialista pontua que o novo curso das políticas sobre o fomento à pesquisa não leva em conta enormes prejuízos futuros que poderão acontecer.
"Imagina quantos anos um país investe na formação de um cientista. E você vai perder esse profissional depois de formado? É algo que não faz sentido do ponto de vista econômico", argumenta ela.
Afinal, um profissional altamente capacitado, com anos de estudo, é o motor por trás da inovação e do surgimento de soluções para os mais variados problemas que enfrentamos — e isso gera patentes, novos produtos e lucro.
"A população precisa se conscientizar que praticamente tudo na nossa vida, o computador, o celular, o carro, o combate aos incêndios, qualquer coisa, tem uma ciência por trás. Alguém precisou estudar aquilo", diz ela.
"Além das questões econômicas, não podemos ignorar a perda de conhecimento. Essas medidas vão gerar um atraso no desenvolvimento de novos tratamentos contra doenças, por exemplo", projeta a especialista.
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O que esperar do futuro?
Diego F. precisa renovar o visto para continuar as pesquisas nos Estados Unidos. Enquanto a situação dele não fica 100% regularizada, ele tem medo de viajar ao Brasil — e ser barrado pela imigração americana na volta.
Ele teme que o fato de estudar temas que podem ser considerados sensíveis pelo atual governo Trump pese na balança e impeça a renovação do documento necessário para que ele permaneça legal nos EUA.
"Tenho medo que eles entendam que minha pesquisa não seja de interesse nacional e não traga nenhum ganho", admite ele.
O pesquisador relata que participou de eventos recentes em diversas universidades e, em todas elas, viu especialistas afetados por dilemas parecidos.
"Isso traz um grande impacto na saúde mental e nós, imigrantes, não podemos estar no front de resistência", lamenta ele.
"Qualquer coisa pode ser utilizada para descredibilizar e colocar sob ameaça a comunidade acadêmica."
Já Cícero J. sente falta de uma rede de apoio. "Não tenho amigos ou familiares por perto, que possam passar segurança e dizer que vai ficar tudo bem."
"Não ter essa rede próxima é algo que mexe muito com a saúde mental, emocional e financeira. A gente lida com as inseguranças completamente sós."
"A minha mentalidade é seguir um dia de cada vez e ter muita cautela com tudo o que expresso sobre minha pesquisa para colegas e professores."
"Ver as portas se fecharem num momento de vulnerabilidade é algo que mexe muito com a gente", complementa ele.
Questionado sobre qual era o sentimento diante do atual momento, Josué M. diz ter ficado bastante desiludido.
"Mas desilusão talvez não seja a palavra… Afinal, eu nunca tive uma ilusão sobre os Estados Unidos", reflete ele.
"Sei de muita gente que veio para cá e apostou todas as fichas nesse país. Até porque a gente sempre recebe uma propaganda muito grande sobre as oportunidades de trabalhar nas melhores universidades do mundo."
"Então esse pessoal está decepcionadíssimo e triste, porque pensou que faria uma carreira aqui e vê agora essas possibilidades ficarem cada vez mais restritas."
"Mas o meu sentimento mesmo é de raiva", admite ele.
"Como estudante, eu contribuo com pesquisas, apresento trabalhos em congressos, escrevo artigos, dou minha força de trabalho e levo o nome da universidade adiante."
"Tudo isso para que no final eu seja tratado como algo absolutamente descartável", conclui ele.

‘Vira homem!’: como pais podem ajudar que filhos escapem da ‘machosfera’ e vivam uma masculinidade saudável

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Série "Adolescência" denunciou que grupos misóginos oferecem violência como resposta a dilemas dos jovens. Mas iniciativas no Brasil querem mostrar que "ser homem" é um conceito plural que inclui modelos mais positivos. meninos crescem e descobrem que, na sociedade ocidental do século 21, muitos dos códigos de comportamento que aprenderam estão sendo questionados.
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Para muitos meninos, um dos primeiros contatos com as dinâmicas dos papéis de gênero deles esperados vem através de uma reprimenda: "vira homem!". A expressão condena qualquer tipo de atitude que represente um desvio do modelo tradicional de masculinidade, associado a atributos como força, virilidade e dominância.
Mas os meninos crescem e descobrem que, na sociedade ocidental do século 21, muitos dos códigos de comportamento que aprenderam estão sendo questionados. "Ser homem", um conceito historicamente singular, agora pode carregar múltiplos significados.
Em casos extremos, o dilema atrai jovens a comunidades virtuais da chamada "machosfera", onde o submundo dos incels oferece misoginia, ressentimento e violência como resposta a essas questões.O fenômeno ganhou visibilidade nas últimas semanas após ter sido retratado na série Adolescência,que tem quebrado recordes de audiência na Netflix.
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Na outra ponta da equação, porém, um grupo de homens quer mostrar que há outros caminhos disponíveis. Eles defendem que é possível exercer uma masculinidade que não exija força física, superioridade financeira ou desejo sexual ilimitado. E que demonstrar vulnerabilidade e pedir ajuda não devem ser vistos como comportamentos exclusivos às mulheres.
"Isso não te torna menos homem", afirma Guilherme Nascimento Valadares, cofundador e diretor de pesquisa do Instituto PDH. A sigla é uma referência ao termo Papo de Homem, site que há quase duas décadas apresenta conteúdos e discussões sobre temas importantes à experiência masculina.
Uma conversa de homem para homem
O próprio Guilherme teve que transformar o modo de enxergar o mundo para entender que tipo de papel ocuparia na sociedade. O mineiro cresceu em uma família brasileira típica, em que o gênero define os traços de personalidade de uma pessoa. Mas ele era sensível e introspectivo.
"Eu era rejeitado pelos outros meninos e também pelas meninas porque era fracote, torto, espinhoso, nerd", conta.
Ao se tornar adulto, reproduziu comportamentos que poderiam encaixá-lo no padrão mais aceito. Fisicamente mais forte, Guilherme tentou assumir uma postura de controle, inclusive em relação a mulheres. Quando percebeu que essas questões eram comuns a outros homens, em 2006, ele se juntou a amigos para criar um espaço de discussões de assuntos pouco abordados na mídia tradicional. Era o início da história do PapodeHomem.
Do blog, surgiu a ideia de criar um instituto para pesquisar as transformações das masculinidades, além de questões como diversidade, inclusão e saúde mental. Os estudos servem de base para documentários, livros, palestras e cursos de treinamento em empresas.
Para o fim do ano, junto com o Pacto Global da ONU no Brasil, o PDH prepara o documentário Meninos: Sonhando os Homens do Futuro, com base em uma ampla pesquisa nacional que ouviu adolescentes sobre as dores e as alegrias dessa fase da vida. O trabalho busca mapear questões caras aos meninos. "Os adultos vão gostar de ver, todo mundo que tiver filho adolescente vai gostar, mas o nosso alvo são os meninos adolescentes. Estamos fazendo algo com a linguagem deles", explica.
Com os resultados dos estudos, o instituto está elaborando um programa curricular para escolas e espaços esportivos que reflita os pontos levantados pelos meninos durante a pesquisa. A ideia é realizar rodas de conversa, grupos de treinamento emocional e atividades esportivas focados em ensinar equilíbrio emocional e enfrentar o preconceito e o assédio.
As iniciativas contestam a perspectiva de uma masculinidade singular, sem apresentar uma solução dicotômica. "Também não precisa cair num estereótipo de que ser homem significa ser sempre voz mansa, sensível, calminho, que não pode ser assertivo", explica Guilherme.
No lugar disso, o objetivo é promover uma "conversa honesta" com os homens sobre como lidar com a força, trabalhar a competitividade, desenvolver amizades saudáveis, entre outros aspectos.
"Estamos falando de homens que vão ser emocionalmente mais equilibrados, compassivos, inclusivos, que sabem o que é responsabilidade consigo mesmo com seu corpo, com a casa, com os amigos, com as amigas", lista Guilherme.
Amor de pai: o primeiro passo na construção da masculinidade
A construção desses referenciais começa ainda na infância, com o pai como o primeiro espelho. Para o psicanalista Thiago Queiroz, esse é um processo iniciado de dentro, pela autoconsciência sobre os padrões masculinos perpetuados. "A partir do momento em que entendo que preciso reconstruir o tipo de homem que sou, eu consigo me tornar um pai mais sensível, consciente, e cuidador, mais do que provedor apenas", afirma.
Pai de quatro crianças, incluindo dois meninos, Queiroz compartilha visões sobre o desenvolvimento de uma paternidade mais afetiva no site Paizinho, Vírgula. O influenciador produz vídeos, podcasts e textos em que discute maneiras de criar relações mais saudáveis com os filhos e, em particular, de excluir a violência na criação masculina.
A chave para uma criação saudável é pela disposição em se manter emocionalmente disponível para os filhos, inclusive na adolescência, avalia Queiroz. Na ausência do afeto paterno, os jovens buscam respostas para suas incertezas em outros lugares e podem encontrá-las de maneira distorcida na internet. "É importante que o pai expresse amor também para os filhos homens", argumenta o influenciador.
Diálogo como ponto de partida
Além do ambiente doméstico, a escola também tem papel importante nesse processo. Nela, os jovens têm a primeira validação de que estão no caminho para se tornarem homens, afirma o consultor de diversidade e gênero Caio César. "Meninos emulam outros meninos, porque a masculinidade é confirmada ou colocada em xeque por outros homens", diz.
O carioca era professor de geografia quando percebeu que as estruturas inflexíveis de gênero são prejudiciais não apenas às meninas, mas também aos meninos. Eles crescem sob a pressão da performance, com dificuldades para demonstrar afeto ou vulnerabilidade.
Para tentar romper esse ciclo, Caio César decidiu mudar a postura com os alunos. Deu abraços, proferiu elogios e demonstrou abertura para a conversa. O resultado foi uma relação mais afetiva e saudável. "É possível ser homem sem exercer uma violência para si mesmo ou para outras pessoas", afirma.
Hoje, Caio César atua na consultoria de assuntos de gêneros para eventos, empresas, órgãos públicos e outras entidades interessadas a explorar esse debate. Até o ano passado, ele participava do projeto Memoh, que organiza rodas de conversas para discutir questões próprias da masculinidade.
O diálogo costuma ser mais fluído quando há grupos formados exclusivamente por homens, que se sentem mais confortáveis para discutir os assuntos mais livremente. "É muito importante construir espaços onde essas questões possam ser trabalhadas de uma forma mais aberta e profunda", defende.
Também de um lugar de escuta, o educador Leonardo Oshiro mensalmente promove espaços para o compartilhamento de reflexões entre homens. São encontros de cerca de três horas em que os participantes são convidados a discutirem temas que constituem a formação de identidades masculinas.
Oshiro também é um dos fundadores do Projeto Okara, que leva exercícios semelhantes para jovens em escolas públicas e privadas em São Paulo. O projeto está suspenso desde que o educador se mudou para Osasco, no interior do estado, mas ele ainda busca apoiadores para retomá-lo. "É crucial que haja ambientes seguros para que esses jovens possam se expressar de maneira autêntica, na sua potência, sem o medo e a insegurança de estar sob olhares que julgam", destaca.
A Caixa dos Homens
Por trás dessas iniciativas, há uma tentativa de combater a ideia de uma "caixa dos homens". O conceito foi criado na década de 1980 pelo educador Paul Kivel, que cita um conjunto de normas sociais que define se alguém pode ser considerado um "homem de verdade".
Dentro da caixa, estariam os fortes, os controladores, os que se afastam de qualquer traço visto como feminino. Fora dela, um amplo universo de comportamentos comumente dissociado do padrão heterossexual.
Para Caio César, no entanto, o mais importante não é buscar um modelo único que determine o novo "cara ideal". "Existe uma série de outras questões envolvidas nisso, de raça, classe, sexo, sexualidade. Não dá para trilhar um único caminho", ressalta.
Homens negros, por exemplo, tendem a estar sujeitos a expectativas ainda mais extremas de uma conduta masculinizada, já desde a infância. Uma pesquisa do Instituto PDH indicou que cinco em cada dez dos meninos entrevistados tinham dúvidas sobre o amor do pai. Entre os diferentes recortes, os rapazes negros (49%) foram os que mais tinham incerteza sobre o amor paterno.
"Dentro da sua construção de masculinidade, esse homem vai enfrentar muito mais violências, pelas questões estruturais, sociais e de raça, do os que homens brancos e isso pode afetá-lo ainda mais na maneira como ele forma a sua masculinidade", explica Guilherme.
Já os homens LGBTQ+ buscam definições não necessariamente alinhadas aos comportamentos ligados à heterossexualidade. Há também diferenças regionais, econômicas, geracionais. "Eu não quero trocar a antiga caixinha por uma nova, ou seja, deixa aqui seu modelo desatualizado e pega um novo também um pouquinho claustrofóbico", resume Guilherme.
Afinal, o que significa ser homem?
A falta de uma saída única, no entanto, poderia amplificar as incertezas dos jovens que buscam decifrar a dúvida central na transformação de meninos em adultos: o que exatamente significa ser homem no Brasil do século 21?
Por muito tempo, a resposta se resumia aos imperativos de dominar e conquistar. Mas para Guilherme, é possível adotar uma nova perspectiva: "Pode ser muito interessante experimentarmos a ideia de servir e cuidar", diz.
"Ser homem significa se reconhecer como homem, mas não um reconhecimento individualista, ocidental, focado no sucesso. É um reconhecimento em rede, cercado de referências positivas", acrescenta.
O consultor Caio César ainda vê o conceito em construção, mas afirma que esse é um debate coletivo que precisa levar em consideração particularidades individuais. "Nós vamos cometer erros, haverá percalços, mas esse é um caminho possível e que é positivo para os homens", destaca.

Dia da Matemática: mais da metade das crianças brasileiras não sabe resolver estas 10 questões; faça o quiz

Para especialistas, 'buraco' da educação é ainda mais fundo nesta disciplina do que em leitura ou em ciências. Nesta terça-feira (6), Dia da Matemática, o g1 lista quais são os maiores pontos fracos das crianças brasileiras quando aprendem a disciplina na escola. Segundo especialistas, o "buraco" é ainda maior do que em leitura ou em ciências (leia mais abaixo).
➡️Um indicativo: na avaliação internacional Timms 2023 (sigla em inglês para "Estudo Internacional de Tendências em Matemática e Ciências"), por exemplo, 51% dos estudantes do 4º ano, no Brasil, não alcançaram o nível básico de proficiência. Estão com um atraso equivalente a 3 anos escolares em relação à média das demais nações.
Mais abaixo, nesta reportagem, você pode tentar resolver:
7 questões rápidas que mais da metade das crianças de 9 anos erraria;
2 perguntas de nível intermediário, solucionadas por apenas 2 de cada 10 alunos dessa idade;
1 desafio final que cobra um conteúdo de ensino fundamental, mas que só é dominado por 1% dos estudantes do 4º ano.
O quiz foi preparado, a pedido do g1, por Ester Paula Torrezan, mestre em Educação com foco em Matemática pela Unicamp e analista educacional da Fundação Bradesco. Ela levou em conta justamente os parâmetros de avaliação usados pelo Timms.
Metade das crianças brasileiras de 9 anos não sabe resolver estas questões. E você?
🧮Agora, só duas perguntinhas de nível intermediário.
Só 2 de cada 10 crianças brasileiras do 4º ano acertariam estas questões. Vamos tentar?
🧮E o desafio: apenas 1% dos alunos do 4º ano conseguiria resolver problemas matemáticos com mais de um movimento (ou seja, que exijam mais de uma operação matemática). Este é um exemplo:
Um armazém recebeu 45 caixas pequenas e 21 caixas grandes. Cada prateleira comporta 9 caixas pequenas ou 3 caixas grandes. Quantas prateleiras são necessárias para guardar todas as caixas?
a) 9
b) 12
c) 13
d) 15
e) 69
A resposta correta está no fim da reportagem.
Quais as principais dificuldades das crianças?
É por meio do mapeamento de dificuldades que políticas públicas ou projetos individuais de colégios podem ser desenvolvidos.
Dentre os maiores obstáculos matemáticos, segundo o mapeamento do Timms, estão:
operações com números naturais
“A partir de passos pré-definidos, como 'vai um' e 'pega emprestado', os estudantes, muitas vezes, se baseiam na simples memorização, sem entendimento do que estão fazendo”, diz Torrezan.
resolução de problemas
“As dificuldades em resolver problemas são, muitas vezes, atreladas à falta de compreensão leitora, mas vão além disso: é preciso conhecer os diferentes significados de cada uma das operações (adição, subtração, multiplicação e divisão), ou seja, as formas como elas podem se manifestar no cotidiano”, afirma a professora.
geometria
“Historicamente, a geometria é um tema menos priorizado nas aulas de matemática, e isso pode trazer a ideia de que é menos importante, quando não o é. Ela envolve o desenvolvimento do raciocínio e da capacidade de formar representações mentais”, explica a docente.
medidas
“É um dos temas que mais utilizamos no dia a dia, mas o ensino acaba ficando limitado à aplicação de fórmulas, sem que o aluno entenda o sentido delas. O ato de medir corresponde a um conjunto de processos físicos e mentais que associam um número a uma quantidade — é necessário, por exemplo, compreender o que é a unidade de medida e qual o seu papel na medição.”
📚‘O problema da matemática é ainda pior do que o da leitura’, diz especialista
Na reportagem de análise do Timms, publicada pelo g1 em dezembro de 2024, Ernesto Martins Faria, especialista em avaliação de políticas públicas educacionais e diretor-executivo do Iede, explica que os brasileiros estão em um buraco ainda mais fundo em matemática do que em leitura ou em ciências.
“Quase não existe a realidade de alunos abaixo de 400 pontos na Inglaterra, por exemplo. No Brasil, é a pontuação mais comum. Nós temos uma questão no letramento matemático: crianças e jovens não dominam a base mínima da disciplina para conseguir resolver um problema”, diz.
A seguir, veja hipóteses que explicam esse desempenho tão baixo:
🔢POUCA FAMILIARIDADE COM NÚMEROS – Em língua portuguesa, ainda há um contato mais intenso com a disciplina no dia a dia (seja lendo um livro ou trocando mensagens no Whatsapp). Se houver boas bibliotecas ou se os pais do aluno forem escolarizados, é possível que o aluno adquira habilidades de leitura e escrita. Já em matemática, dependemos muito mais de bons professores e de bons colégios. E o Brasil enfrenta problemas graves na formação docente (como crescimento avassalador do ensino à distância e a baixa qualidade dos cursos de pedagogia e de licenciatura).
➡️BAIXA ATRATIVIDADE – A carreira de professor já não é atrativa, em geral, pela baixa remuneração e pelas condições de trabalho. Nos cursos de licenciatura em matemática, então, a procura por vagas é baixíssima. E não para por aí: a evasão nessas graduações também é alta. O aluno que é bom em cálculo acaba migrando para carreiras com melhores perspectivas de mercado de trabalho, como economia, engenharia e ciências da computação.
⚖️ DESEQUILÍBRIO NA DISTRIBUIÇÃO DE PROFESSORES: Forma-se um ciclo. Os estudantes aprovados nas faculdades privadas entram, em geral, com uma defasagem nos conhecimentos básicos, provavelmente pela baixa qualidade do ensino médio público. ➡️ Têm acesso a um curso superior fraco. ➡️Após a formatura, enfrentam maior dificuldade para passar nos concursos públicos mais concorridos.➡️ São contratados como professores temporários, em escolas de pior estrutura.➡️ Ensinam alunos que já são mais socialmente vulneráveis e que, por tabela, continuarão recebendo uma formação escolar pior que a dos mais ricos.
💰 DESIGUALDADE ECONÔMICA: Émerson de Pietri, professor da Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo (USP), já explicou ao g1 dois aspectos:
O processo de educação formal no Brasil é recente – A escolarização básica, no sistema público, passou a ser acessível para a maior parte da população após a década de 1970, gradualmente. “Foi só na década de 1990 que a maioria chegou ao ensino fundamental 2”, disse. Ou seja: partimos de um ponto diferente da média dos outros países.
Por quase 400 anos, o Brasil viveu um sistema escravocrata, “que deixou uma estrutura social difícil de ser superada”. “No cotidiano escolar, recebemos alunos que vêm de situações socioeconômicas muito difíceis. São crianças que precisam se preocupar antes com a sobrevivência. Ela tem o que comer? O que vestir? Pode tomar banho? É um conjunto de fatores para que ela tenha condições de aprender”, afirmou o professor.
Resposta do desafio: 13
Metade dos alunos brasileiros de 9 anos não sabe resolver tabuada

3 a cada 10 brasileiros são analfabetos funcionais, indica pesquisa; patamar é o mesmo de 2018

Como fazer a fumaça ficar branca ou preta? Pirotecnia, lactose e naftalina são ‘truques’ no anúncio do novo papa
Estudo aponta ainda que taxa de analfabetismo é maior entre pessoas com 40 anos ou mais. Brancos são alfabetizados em nível consolidado mais comumente do que negros, indígenas e amarelos. Estudante faz lição em sala de aula.
IBGE
O Brasil não tem avançado no combate ao analfabetismo funcional, e cerca de 29% dos brasileiros de 15 a 64 anos eram analfabetos funcionais em 2024 — mesmo patamar mesmo de 2018, quando foi realizada a edição anterior do Indicador de Alfabetismo Funcional (Inaf).
O levantamento considera analfabeto funcional a pessoa que consegue apenas ler palavras isoladas, frases curtas, ou apenas identificar números familiares, como contatos telefônicos, endereços, preços, etc..
O estudo foi coordenado pela Ação Educativa e pela consultoria Conhecimento Social, co-realizada pela Fundação Itaú, em parceria com a Fundação Roberto Marinho, Instituto Unibanco, UNESCO e UNICEF.
Para mapear as habilidades de leitura, escrita e matemática dos brasileiros, foram ouvidas 2.554 pessoas de 15 a 64 anos, entre dezembro de 2024 e fevereiro de 2025, em todas as regiões do país. A margem de erro varia entre dois e três pontos percentuais.
Os resultados foram divididos em cinco categorias:
Analfabeto
Rudimentar
Elementar
Intermediário
Proficiente
Outros destaques do levantamento:
A proporção de analfabetos funcionais ficou em queda de 2001 a 2009, quando estagnou em 27% e assim permaneceu até voltar a crescer em 2018, indo para 29%, onde permanece.
O percentual de analfabetismo funcional é maior entre pessoas de 40 a 64 anos, chegando a atingir 51% das pessoas com 50 anos ou mais.
Em contrapartida, o maior percentual de pessoas funcionalmente alfabetizadas se encontra nas faixas de 15 a 29 anos (84%) e 30 a 39 anos (78%).
A desigualdade também se mantém no aspecto racial, e de maneira drástica. Em 2024, 41% dos que se declararam brancos foram considerados alfabetizados consolidados (intermediário ou proficiente). Entre os pardos e pretos, apenas 31% estavam na mesma categoria, e ainda menos (19%) amarelos e indígenas alcançaram os mesmos níveis.
Em uma tendência já observada nos anos anteriores, as mulheres ficam, em média, em patamares superiores aos dos homens: 73% das mulheres são consideradas funcionalmente alfabetizadas, enquanto a proporção é de 69% entre os homens.
O levantamento conclui que a alta taxa de alfabetizados entre os mais jovens evidencia o “efeito positivo das políticas de inclusão e valorização da escola para crianças e jovens realizadas nas últimas duas décadas”, já que a brasileiros dentro deste recorte de idade “são os que se beneficiaram das políticas de inclusão massiva da população na escola.”
Ana Lima, coordenadora do estudo, destaca que esses resultados já eram observados há duas décadas, o que evidencia uma transformação no panorama educacional brasileiro. Mas não pode parar por aí.
O importante agora é assegurar avanços no desenvolvimento contínuo das habilidades de letramento e numeramento dos brasileiros, tanto para aqueles que ainda estão na escola quanto para os que já estão fora dela.
O g1 procurou o Ministério da Educação (MEC) a fim de repercutir o estagnamento da taxa de analfabetismo, que havia caído em outros momentos nas décadas anteriores, mas não teve resposta até a publicação da reportagem.
A pasta também foi perguntada sobre ações de alfabetização voltadas para pessoas com mais de 40 anos. O espaço segue aberto.
Analfabetismo funcional, alfabetismo elementar e consolidado
O analfabeto funcional consegue identificar algumas palavras isoladas, ler frases curtas e diretas, mas não consegue compreender frases mais longas ou construções textuais mais complexas. Ele também tem uma baixa compreensão dos números, podendo apenas identificar dígitos familiares de alguma maneira. A categoria é formada da soma de analfabetos e alfabetizados rudimentares.
Já a pessoa alfabetizada em nível elementar tem uma compreensão maior do que a analfabeta funcional, mas ainda bastante limitada. Ela é capaz de selecionar uma ou mais informações em textos de extensão média, e consegue resolver problemas com operações básicas (somar, subtrair, multiplicar e dividir) e números da ordem do milhar.
Por fim, os alfabetizados em nível consolidado estão nas categorias intermediária e proficiente da escala utilizada no levantamento Inaf.
Uma pessoa no nível intermediário é capaz de identificar informações em textos diversos e até consegue resolver situações matemáticas envolvendo porcentagem e proporção.
E aquela que é proficiente, além de possuir as mesmas capacidades de uma pessoa com alfabetização intermediária, ainda elabora textos de maior complexidade e interpreta tabelas e gráficos mais complexos. Uma pessoa nessa categoria está apta a resolver situações-problema em contextos diversos e que envolvem diversas etapas.
VÍDEOS DE EDUCAÇÃO E PODCAST

Como fazer a fumaça ficar branca ou preta? Pirotecnia, lactose e naftalina são ‘truques’ no anúncio do novo papa

Como fazer a fumaça ficar branca ou preta? Pirotecnia, lactose e naftalina são ‘truques’ no anúncio do novo papa
Sistema criado por especialista em fogos de artifício gera fumaças de cores distintas e controla a dispersão no ar. Tecnologia substituiu método antigo com palha úmida. Pirotecnia e lactose: como se faz a fumaça branca que anuncia a eleição de um papa?
Talvez nem fosse necessário, mas o g1 já avisa que não é para você reproduzir este experimento em casa, certo? Dado o alerta, descubra, nesta reportagem, como as fumaças que anunciam a eleição de um novo papa são produzidas.
🎆Spoiler: o processo não envolve só queima de papel, não. Desde 2005, o Vaticano utiliza um sistema eletrônico com cartuchos pirotécnicos para garantir a visibilidade da fumaça que sai da Capela Sistina após cada votação no conclave.
Por meio de princípios químicos e físicos, uma equipe usa lactose e naftalina como os principais compostos usados para gerar, respectivamente, as fumaças branca (quando se chegou a um resultado) e preta (quando a decisão ainda não foi tomada pelos cardeais). As substâncias reagem à combustão de maneira controlada, para gerar partículas em suspensão visíveis a grandes distâncias.
Segundo informações da agência de notícias Reuters, a iniciativa foi implementada em 2005 e partiu do próprio Vaticano, após perceber que o método tradicional, baseado apenas na queima de cédulas e de palha úmida, nem sempre produzia fumaça suficientemente intensa.
Química e física na fumaça do papa
13 de março de 2013 – Fumaça preta mostra que cardeais não chegaram a uma decisão sobre o novo papa
Tony Gentile/Reuters
A lactose, açúcar presente no leite, ao ser aquecida, sofre decomposição térmica, gerando partículas sólidas finas que refletem a luz de forma difusa — o que dá à fumaça sua coloração branca.
Já a naftalina, um hidrocarboneto aromático sólido, ao queimar, libera partículas escuras que absorvem a luz, resultando na fumaça preta.
Além da composição química, o sistema leva em conta princípios da física — especialmente da termodinâmica e da mecânica dos fluidos — para que a fumaça suba de forma visível e mantenha sua cor durante a dispersão no ar.
A diferença de densidade entre o ar aquecido e o ambiente externo impulsiona a fumaça para o alto. Já a escolha do tamanho e da granulometria das partículas garante que o efeito visual dure tempo suficiente para ser notado por milhares de pessoas na Praça São Pedro.
Fogos de artifício?
Massimiliano De Sanctis, especialista em fogos de artifício e proprietário da FD Group Fireworks —empresa que forneceu o equipamento usado nos conclaves que elegeram Bento XVI, em 2005, e Francisco, em 2013 —, explica à Reuters que o sistema atual utiliza dois fogões conectados a uma mesma chaminé.
Um deles é mais antigo e serve para queimar as cédulas de votação em ferro fundido.
O outro, mais moderno, é eletrônico e recebe o cartucho de fumaça com seis cápsulas interligadas. Os próprios cardeais acionam o dispositivo por meio de uma central com botão de “ligar”. O efeito dura cerca de sete minutos.
“Cada cartucho tem seis granadas conectadas em série, que liberam fumaça de forma contínua. Isso garante que a mensagem — se o papa foi eleito ou não — seja claramente entendida”, diz De Sanctis.