Como ler transforma o cérebro

Vídeo curto é pior que texto para aprender, mostra estudo
Cientista cognitiva Maryanne Wolf explica que habilidade de leitura profunda não é inata, e sim desenvolvida por humanos ao longo de milênios – e agora sob risco por conta de hábitos digitais. Leitura não é algo inato, e sim um conjunto de circuitos cerebrais que os humanos desenvolveram, afirma cientista Maryanne Wolf
Getty Images/via BBC
Enquanto você lê esta reportagem, ativa circuitos cerebrais que nós, seres humanos, levamos milhares de anos para desenvolver: os da leitura.
Decodificar letras, símbolos e significados transformou o nosso cérebro e nossa sociedade, e criou algo que não existia quando a nossa espécie surgiu.
"Nós pensamos na linguagem como algo natural, e deduzimos que a língua escrita é algo natural também. Mas não é, nem um pouco", afirma à BBC News Brasil Maryanne Wolf, cientista cognitiva, professora da Universidade da Califórnia em Los Angeles e autora de O Cérebro Leitor (editora Contexto).
"E quanto mais você lê, mais esse sistema molda o cérebro, de modo cumulativo. Dá a ele todo um conhecimento, toda uma construção de processos que eu chamo de leitura profunda."
No entanto, Wolf adverte que essa habilidade de leitura profunda está sob risco, por causa dos hábitos digitais modernos – como apenas "passar os olhos" em textos on-line.
A seguir, explicamos quatro formas como a leitura alterou a forma como pensamos – e como preservar essas conquistas.
1 – A 'invenção' da leitura
Maryanne Wolf explica que um cérebro neurotípico já nasce com os circuitos que permitem que nossos olhos enxerguem e que as nossas cordas vocais produzam os sons da fala. Mas ele não nasce com um circuito que permita ler.
Esse processo provavelmente começou por volta do ano 3300 a.C., com o povo sumério, na Mesopotâmia, onde hoje fica o Iraque. Os sumérios criaram o sistema cuneiforme, de cunhar símbolos em argila – embora haja debates entre alguns cientistas que os precursores da escrita possam ter sido os egípcios, com seus hieróglifos.
De qualquer modo, decifrar símbolos passou a exigir mais do cérebro do que apenas enxergar. Era preciso associar aquele símbolo a algum objeto, conceito ou emoção, e também a algum som.
"Os símbolos de escrita começaram a surgir mais ou menos 6 mil anos atrás. E exigiram uma mudança no cérebro, em que um símbolo visual passou a representar um conceito e ser expressado por linguagem", diz a autora.
Em seu livro, Wolf explica que os cientistas acreditam que os nossos ancestrais "reciclaram" para a leitura circuitos antes usados para o reconhecimento de objetos.
Em 1989, um grupo de pesquisadores acompanhou a atividade cerebral de pessoas olhando para uma série de caracteres — alguns deles com significado e outros aleatórios, que não significavam nada em particular.
E quando as pessoas olhavam para os caracteres que tinham significado real — ou seja, eram uma palavra de um idioma —, ativavam-se áreas muito mais amplas da visão, e também células específicas que a nossa espécie desenvolveu para processar o sentido de letras, palavras e sons.
E uma única palavra é capaz de despertar no cérebro todo um acervo de conceitos relacionados.
Wolf cita um experimento feito anos atrás pelo cientista cognitivo David Swinney. Os participantes do estudo, quando liam a palavra "bug", em inglês, pensavam não só no significado básico do termo — inseto —, como também em "bugs de informática" e até mesmo no carro Fusca (que em inglês chama Beetle, nome de um inseto).
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2 – O idioma que aprendemos impacta áreas diferentes do cérebro
Outra observação de Wolf é de que diferentes idiomas podem impactar o cérebro de modo distinto.
Vejamos o caso do chinês, um dos idiomas mais antigos do mundo, escrito no chamado sistema logográfico. Cada ideia ou preposição, por exemplo, é representada por um símbolo, em vez de por um conjunto de letras do alfabeto.
Pesquisas indicam que o aprendizado de sistemas logográficos ativa áreas diferentes do cérebro do que o aprendizado de português ou inglês, por exemplo. Em particular as regiões envolvidas na memória visual e associação visual.
Uma das formas como os cientistas descobriram isso foi a partir de um estudo pioneiro sobre o bilinguismo na década de 1930. Nele, pesquisadores chineses estudaram o caso de um homem que sofrera um derrame cerebral grave. No entanto, o derrame impactou apenas a capacidade do paciente de ler chinês. O conhecimento do idioma inglês continuou intacto.
"É um exemplo de como os circuitos do cérebro refletem as demandas do idioma chinês, que exige mais memória visual e mais processamento visual daqueles belos e intrincados símbolos", afirma Maryanne Wolf.
3 – Repertório desde a primeira infância
Inclusive, esse aprendizado tão sofisticado começa antes da alfabetização formal: já quando os bebês ouvem história no colo dos adultos ou veem livros com figuras – mesmo que ainda não consigam decifrar as letras.
Para Wolf, isso já cria o terreno para a criança desenvolver habilidades emocionais importantes, como a empatia e a capacidade de se colocar no lugar de um personagem da história.
Em contrapartida, a negligência à leitura tem um efeito contrário — e bastante prejudicial — ao cérebro infantil.
Um famoso estudo americano de 1995 concluiu que crianças de lares pobres, sem acesso à leitura e a estímulos, terão escutado, até os 3 anos de idade, 30 milhões de palavras a menos do que uma criança estimulada e de classe média.
Hoje já existem outras pesquisas contestando algumas conclusões desse estudo – dizendo que não é uma mera questão de nível socioeconômico, e que tais conclusões podem estigmatizar crianças mais pobres.
Mas um ponto-chave continua a valer: com menos repertório, a tendência é que a criança já comece a vida acadêmica em desvantagem.
4 – Capacidade de leitura profunda se perdendo
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Uma grande preocupação da pesquisadora é com o que ela chama de "crise de leitura".
O fato de que ler não é uma capacidade inata dos humanos, e sim algo adquirido e aperfeiçoado ao longo de milênios, significa, segundo Wolf, que essas habilidades podem ser atrofiadas ou lentamente perdidas.
Pense em como você lê na tela do celular. Por acaso é uma passada de olhos, fazendo scroll na tela, e interrompendo a cada notificação do WhatsApp? Isso é cada vez mais comum.
O problema, segundo Wolf, é que se limitar a essa leitura superficial pode prejudicar nossa capacidade de imersão num texto, de entender argumentos complexos, de fazer uma análise crítica, de identificar notícias falsas ou, simplesmente, de mergulhar em um livro bem escrito.
"Quando você apenas passa o olho no texto, estudos mostram que você absorve apenas uma amostra do que está escrito", diz ela. "E você não perde apenas dados ou fatos absolutos, mas também todo o propósito do que o escritor está tentando instigar – que é a beleza da linguagem."
Wolf cita pesquisas acadêmicas indicando, por exemplo, que crianças que usam o celular desde os primeiros anos de vida podem ter um desempenho pior na escola depois.
Além disso, "num cérebro que é constantemente distraído e hiper-estimulado, os neurotransmissores começam a desejar estímulos em um intervalo cada vez mais curto. Daí é comum que essas crianças, quando estão off-line, se sintam muito entediadas."
E tampouco sobra tempo para a leitura de lazer, "o que significa que (muitas crianças e adolescentes) não vão desenvolver essa capacidade de leitura profunda".
"O antídoto para isso é o mais simples e bonito o possível: ter nossas crianças imersas na leitura, e ter uma vida de leitor. Ajudá-los a entender que (a leitura) pode ser um santuário onde elas podem pensar por conta própria", conclui Wolf.
"Mas é um antídoto duro, no sentido de que exige que pais e professores ajudem. Eles têm de servir de modelo. Eles têm de ler para as crianças. E eles próprios precisam desenvolver o gosto pela leitura."
Dislexia e dificuldades de leitura
Outro ponto de atenção são as muitas crianças com dificuldades de leitura, como a dislexia — uma condição que, segundo diferentes estimativas, atinge de 4% a 10% da população mundial.
A dislexia é caracterizada por entraves de aprendizado de leitura e ortografia. Crianças com dislexia costumam ter dificuldade também em distinguir sons e fonemas dentro das palavras, ou em recordar informações que veem e escutam.
Maryanne Wolf tem um filho disléxico e dirige um centro de estudos sobre a dislexia na Universidade da Califórnia. E lamenta que tantas crianças com essa característica sejam taxadas de incapazes ou preguiçosas, em vez de diagnosticadas e ajudadas.
"O enredo da história da dislexia poderia ser contado com pequenas variações em todo o mundo", escreve Wolf em O Cérebro Leitor.
"Uma criança inteligente, digamos, um menino, chega à escola cheio de vida e entusiasmo; se esforça para aprender a ler como todo mundo, mas, diferentemente de todos, parece que não conseguirá aprender; seus pais lhe dizem para se esforçar mais um pouco; os professores lhe dizem que 'não está trabalhando com todo seu potencial'; alguns colegas o chamam de 'retardado', 'idiota'; recebe a mensagem avassaladora de que não terá muito valor; e assim, essa criança deixa a escola sem qualquer traço do entusiasmo inicial de quando entrou", afirma ela.
Em seu livro, a pesquisadora cita algumas hipóteses para explicar a dislexia, como uma possível falha nas estruturas de linguagem ou visão do cérebro. Também é possível que pessoas disléxicas usem circuitos cerebrais diferentes dos de um leitor típico.
"Já conhecemos muito, mas muito ainda precisa ser explicado na história e nos mistérios da dislexia", diz Wolf.
"Em muitos casos, o cérebro nunca atinge os estágios mais elevados de desenvolvimento da leitura, pois leva muito tempo para conectar as primeiras partes do processo. Muitas crianças com dislexia literalmente não têm tempo para processar a informação escrita."
Ao mesmo tempo, muitas pessoas com dislexia são consideradas excepcionalmente criativas e inteligentes.
Inclusive existe o debate de que grandes gênios da humanidade, como Leonardo da Vinci, Thomas Edison e Albert Einstein possam ter sido disléxicos.
Da Vinci, por exemplo, tinha dificuldade com a leitura e às vezes escrevia da direita pra esquerda, e com erros ortográficos e sintáticos.
"A maioria das pessoas com dislexia não possui talentos espetaculares como os de Edison ou Leonardo, mas parece haver um grande número de pessoas portadoras de dislexia extraordinariamente talentosas", escreve Wolf.
Além disso, hoje já existem muitas estratégias para ajudar crianças com essa e outras dificuldades de leitura.
"O principal é tentar ajudar as crianças a descobrirem a sensação de terem um santuário de leitura", afirma Wolf à BBC News Brasil. "No começo, é claro, as histórias são muito simples e com o tempo vão ficando mais complexas. Mas sempre enfatizando habilidades como capacidade de dedução, empatia e pensar por conta própria."

Comunidade LED: no Rio, espaço vira o ponto de encontro do Festival LED

Vídeo curto é pior que texto para aprender, mostra estudo
Em parceria com a Fundação Bradesco, palco contou com uma agenda repleta de conversas sobre educação, tecnologia, trabalho e esporte. Espaço Comunidade LED teve uma programação especial oferecida pela Fundação Bradesco –
Lorena Zschaber/Divulgação
Um local para novas conexões, trocas importantes sobre assuntos em alta na área da educação e de proximidade entre o público e os especialistas foi montado na Praça Mauá, no Rio de Janeiro, durante a 4ª edição do Festival LED Rio – Luz na Educação.
O Comunidade LED, apresentado pela Fundação Bradesco, virou o ponto oficial de encontro nos dias 13 e 14 de junho. Com uma programação recheada de temas emergentes e atuais, foi a escolha ideal para quem aproveitou o evento gratuito e aberto para todas as idades.
Nele, especialistas, educadores, estudantes e talentos Globo debateram a importância de conectar, escutar e colaborar para fortalecer práticas educacionais transformadoras. As arquibancadas com capacidade para cerca de 100 pessoas e o formato de arena deram o toque de integração durante as tardes de programação.
Logo na largada da agenda, um tema muito em evidência: Inteligência Artificial (I.A). João Alegria, secretário geral da Fundação Roberto Marinho, e Barbara Frasseto, head de inovação e estratégia na Fundação Bradesco, compartilharam as novidades encontradas em uma viagem à China, onde a tecnologia está muito aplicada na evolução dos materiais didáticos que automatizam a tutoria.
“Vimos, por exemplo, um tablet que você pode colocar na mesa de estudo da criança em casa e fazer o dever se apoiando no equipamento que, ao mesmo tempo leva conteúdo em diferentes linguagens mas, por conter camadas de Inteligência Artificial, pode atuar como uma espécie de tutor, que faz a pré-correção de exercícios, inclusive uma redação que tenha sido feita à mão”, comenta João Alegria.
Na viagem, também perceberam que é possível um monitoramento de 100% da vida escolar dos estudantes e professores, com salas equipadas de câmeras, recursos de presença como reconhecimento facial e dispositivos que abrangem questões de segurança e comportamento. Uma realidade ainda não aplicada no Brasil e que levanta opiniões divergentes sobre os limites da privacidade.
O que já é real e não se pode negar é que a Inteligência Artificial já faz parte da vida de todos. O uso de modelos como o ChatGPT para ajudar em trabalhos escolares provocou risos da plateia formada por estudantes da Fundação que acompanharam a primeira mesa de sexta-feira (13). Para Barbara, as ferramentas podem ser usadas como um apoio:
“A Inteligência Artificial é capaz de indicar, sugerir, ampliar, mas a decisão final ainda é do ser humano. Quando usada para fins pedagógicos, deve servir à cidadania, ao direito à privacidade, ao pensamento crítico, ao ser humano que está utilizando para o fim educacional ou pessoal”, explica.
Estande da Fundação Bradesco no Festival LED contou a história da instituição e teve distribuição de brindes.
Lorena Zschaber/Divulgação
No Espaço Comunidade LED, Barbara, que é especialista em Gestão de Projetos, Data Intelligence and Analytics, Controladoria e Administração, explicou como a I.A está no dia a dia das 40 escolas próprias da instituição, que é o maior projeto de investimento social privado do país e atende mais de 42 mil alunos na Educação Básica Regular por ano.
Quatro grandes pilares envolvem a tecnologia: na gestão, com uso no tratamento de dados e informações para tomadas de decisões mais assertivas; na formação continuada dos docentes, com a capacitação personalizada para cada região; na sala de aula, onde os alunos usam em projetos com fins pedagógicos e, por fim, no estudo da I.A, onde a Fundação Bradesco busca caminhos para desenvolver um senso crítico sobre ela.
Presente em 26 estados e no Distrito Federal, o projeto inaugurado em 1966 por Amador Aguiar acredita que a só a educação transforma e levou para o Festival LED um estande com interações digitais e brindes para os visitantes. Foi mais um ponto que atraiu centenas de pessoas ao longo do evento.
Dois dias de conversas sobre vida profissional, inclusão e educação
Mara Pane, superintendente de ensino da Fundação Bradesco, participou de conversa no Espaço Comunidade LED
Lorena Zschaber/Divulgação
Professora da área de Química por muitos anos e atual superintendente de ensino da Fundação Bradesco, Mara Pane, participou da mesa “Viralizando o conhecimento científico”. Ela apontou que, para atrair o interesse dos alunos em temas mais densos, numa época em que os vídeos curtos fazem parte da rotina deles, é preciso despertar a curiosidade.
“Os alunos passam a vida respondendo questões, agora é a hora deles fazerem a pergunta. Precisamos estimular que eles olhem o entorno, a comunidade onde vivem, a cidade e vejam qual o problema que chama atenção. E aí, precisamos ter bons professores que vão orientar o recorte certo para essa pergunta que será trabalhada em um projeto”, diz Mara.
Ao se sentirem capazes de entender um conteúdo didático como algo a ser aplicado no dia a dia, ela ressalta que os estudantes criam um novo olhar e desenvolvem um senso crítico.
“Gosto muito do ensino por investigação, quando você leva uma pergunta para o aluno e aí ele vai elaborar uma hipótese, vai pensar naquilo e, quando você apresenta o conteúdo faz sentido pra ele. Você acaba despertando a curiosidade, motivando o aluno e ele aprende também”, compartilhou Mara.
Cursos profissionalizantes como alternativa
A movimentada agenda do Espaço Comunidade LED contou também com a mesa “Entre a escola e o trabalho: como começa a vida profissional?”, onde o abandono escolar pela necessidade de trabalhar foi tema central.
“O trabalho acaba sendo o principal motivo para o abandono de um percurso que deveria justamente formar para o trabalho. Precisamos pensar em formas de que nesse país escola e trabalho deixem de ser conflituosos”, disse Fernando Frochtengarten, head de EJA e FIC da Fundação Bradesco.
Para um jovem começar a vida profissional no Brasil existem muitos caminhos em diferentes realidades socioeconômicas. Fernando ressaltou que, mesmo com as cotas, o universo do curso superior segue seletivo. Por isso, os cursos profissionalizantes são uma alternativa.
“Temos na Fundação Bradesco cursos em diversas áreas do conhecimento. Eles são muito interessantes para aproximar o jovem de uma área que deseja conhecer ou aprimorar algumas habilidades. Com duração de uma semana ou meses, permitem aos jovens fazerem uma trilha um pouco mais personalizada, porque conseguem transitar entre diferentes áreas”, avalia Fernando.
Sábado de trocas sobre inclusão e esporte
Depois de uma sexta-feira de muito conhecimento, a Praça Mauá e o Espaço Comunidade LED voltaram a ser ponto de encontro do Festival LED com novas mesas. O compromisso do setor privado e a necessidade de trabalho coordenado de governos, empresas e toda a sociedade para construir soluções coletivas, fortalecer territórios e gerar impacto positivo e duradouro na vida das pessoas formou a primeira conversa da tarde.
A jornalista e advogada Érica Fortuna, head de relações institucionais da Fundação Bradesco, representou a instituição que está sempre atenta às pautas que busquem proporcionar uma formação educacional mais completa e atual.
Na sequência, o futuro no trabalho voltou à pauta com o olhar de como a educação profissional contribui para a inclusão de grupos historicamente excluídos, não apenas no mercado, mas também nas universidades e nos equipamentos culturais.
Com dois especialistas, a Fundação Bradesco compartilhou a perspectiva de como o acesso ao ensino e a vivência de experiências significativas podem promover uma transformação social real e duradoura no mundo. Edson Lanzoni, head de Educação profissional, e Leonardo Felipe Paes Monteiro, head de educação do Ensino Médio, dividiram os aprendizados que possuem ao trabalhar na área.
Já na mesa “Acolher, antes de competir: o esporte como troca, afeto e formação”, atletas e especialistas discutiram como práticas esportivas fortalecem a autoestima, constroem redes de apoio e ajudam a lidar com traumas e violências.
A conversa mostrou que, mais do que medalhas, o esporte pode oferecer cuidado, vínculo e saúde mental para jovens em contextos de vulnerabilidade. Rogério Curi, head de esportes da Fundação Bradesco, contou sobre as iniciativas que impactam positivamente a vida dos estudantes.
Nos dois dias de festival, o encerramento do Espaço Comunidade LED foi aberto para uma roda de conversa com os Vencedores do Prêmio LED 2025. Os responsáveis pelas iniciativas selecionadas entre mais de 2,3 mil inscritos dividiram suas experiências e aprendizados para inspirar novas ideias de inovação na educação.
Realizado pela Globo e pela Fundação Roberto Marinho, em parceria com a Editora Globo e com patrocínio da Fundação Bradesco, o Festival LED – Luz na Educação promoveu experiências, trocas e diálogos que iluminaram as práticas educativas.

Eletrodoméstico ficou amarelado? Um ingrediente pode deixar o aparelho branco novamente (graças à química)

Vídeo curto é pior que texto para aprender, mostra estudo
Clareamento com água oxigenada 40 volumes viralizou nas redes sociais — e realmente funciona!
Reação química que explica fenômeno envolve luz solar, oxidação e radicais livres. Conheça truque simples para tirar o amarelado de eletrodomésticos
Você — ou sua avó — certamente já teve um eletrodoméstico amarelado que virou "de estimação". Aquela batedeira maravilhosa que ainda funciona de forma impecável, o liquidificador "inquebrável" dos anos 1970… mas todos com aparência de encardidos.
Fique tranquilo: não é preciso desapegar dos seus utensílios só porque eles ficaram mais velhinhos. A química (sim, aquela que fez tanta gente sofrer na época da escola) pode, com apenas um ingrediente, devolver a cor branca para os seus pertences de plástico.
Quer saber qual? Abaixo, o g1 dá o passo a passo desse truque que viralizou no TikTok. E, como manda a nossa tradição, tudo será explicado a partir de conhecimentos científicos ensinados na escola.
Por que os eletrodomésticos e plásticos brancos ficam amarelados?
Centrífuga (com mais de 3 décadas de idade) ficou amarelada com o tempo
Arquivo pessoal
Na fabricação de itens plásticos (como liquidificadores, brinquedos e carcaças de computadores), é comum adicionar "retardantes de chama à base de bromo". Eles deixam os objetos mais resistentes ao fogo — o objetivo é impedir ou retardar a propagação de chamas, em caso de incêndio.
Com o tempo, porém, quando exposto à radiação ultravioleta (como a do sol) e ao oxigênio do ar, o plástico começa a se degradar quimicamente. Isso leva a reações de oxidação — ou seja, os compostos perdem elétrons.
Um dos efeitos mais importantes é a quebra da ligação entre o bromo (que havia sido adicionado pela questão da prevenção do incêndio) e o restante da molécula: R–Br ⟶ R• + Br•.
Está vendo esse "Br•", um bromo com uma bolinha ao lado? É um radical livre — partícula altamente reativa. Ao reagir com o oxigênio do ar, ele pode gerar compostos coloridos, normalmente… em tons amarelados ou amarronzados.
O resultado final é a mudança de cor do plástico.
Como clarear o plástico? Veja o passo a passo
Para reverter esse processo e clarear o material, é possível recorrer a uma combinação de água oxigenada (40 volumes), luz do sol e plástico filme. Veja como e por quê:
✅ 1. Escolha o produto certo
Use água oxigenada (o nome técnico é peróxido de hidrogênio – H₂O₂). Escolha a versão de 40 volumes.
O que isso significa? É que 1 litro de água oxigenada liberará até 40 litros de oxigênio gasoso. Essa é uma concentração de 12%, muito mais maior do que a registrada pela água oxigenada comum de farmácia (geralmente de 3% ou 10 volumes).
"Existem alternativas à água oxigenada, como o uso do ozônio ou os processos de lixamento e polimento. Mas são métodos que exigem mais cuidado, já não são tão caseiros. Para plásticos, o peróxido de hidrogênio é mesmo o método mais eficaz", explica Vanessa Linhares, professora de Química da Fundação Bradesco.
✅ 2. Cubra a área amarelada
Espalhe a água oxigenada sobre toda a superfície do plástico a ser clareado.
Em seguida, embrulhe o objeto com papel-filme (aquele de cozinha).
Por quê? Isso ajuda a manter a umidade e a impedir que a água oxigenada evapore rapidamente. É uma forma de permitir que a reação química aconteça por mais tempo.
"E um cuidado: se a água oxigenada entrar em contato com a pele, pode causar vermelhidão, irritação e queimaduras. Então, é muito importante usar luvas", afirma Paulo Martimiano, professor de química do Curso Anglo (SP).
✅ 3. Exponha ao sol
Deixe o objeto coberto com o produto em um local com luz solar direta.
Qual é o papel do Sol? A radiação UV quebra a molécula do peróxido de hidrogênio e gera radicais hidroxila (OH•) — extremamente reativos. Esses radicais "atacam" os compostos coloridos formados na oxidação anterior, desfazendo suas ligações químicas.
Sem elas, as moléculas deixam de absorver luz visível — e o plástico volta a parecer branco.
"O Sol vai catalisar a reação de decomposição do peróxido. Quanto mais o peróxido se decompõe, mais oxigênio ele libera, e mais reações acontecem", afirma Ricardo Deps, professor de Química da Escola SEB Lafaiete (SP).
✅ 4. Após aguardar algumas horas, lave o objeto
O tempo de exposição necessário depende da intensidade da luz solar e da temperatura no local — pode variar de algumas horas a um dia inteiro.
Após a reação, lave bem o objeto para remover qualquer resíduo de água oxigenada e de outros subprodutos da reação.
"Se não for lavado, o material pode continuar a reagir, podendo ficar 'estragado' ou mesmo manchado com o tempo", afirma a professora Linhares.
Atenção: é preciso ter cautela ao usar o 'truque'
Use luvas e faça o procedimento em local ventilado. A água oxigenada (40 volumes) é bem corrosiva e pode causar queimaduras na pele e nos olhos.
E nem tente aplicar essa receita para clarear seus tênis (que já foram) brancos. "Em tecidos, o efeito é limitado, porque o peróxido é muito agressivo e pode danificar as fibras ou de desbotá-las", diz a docente de química.

O menino que enfrentou o câncer e doenças autoimunes e se tornou reitor nos EUA: ‘Quase não vivi para contar’

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A partir de julho, Santiago Schnell será o presidente do Dartmouth College, uma das oito universidades de elite que compõem a Ivy League nos Estados Unidos. Santiago Schnell é especialista em Biologia e Matemática Computacional
Cortesia de Santiago Schnel a BBC
Quando Santiago Schnell tinha idade suficiente para decidir qual carreira seguir, já sofria de doenças autoimunes, incluindo um câncer.
Durante o ensino fundamental, ele se dividia entre duas paixões: os computadores do pai e os experimentos de ciências naturais do vizinho, o professor Serafín Mazparrote, autor dos livros didáticos de biologia usados ​​na Venezuela.
Mas entre o pai e o professor Mazparrote, os computadores e as ciências naturais, outra força incontrolável interferia em sua rotina de estudos: a batalha do corpo contra si mesmo.
"Desde que nasci, tive uma saúde frágil: alergias terríveis, vontades de ir ao banheiro que eu não conseguia controlar. E ninguém entendia o que estava acontecendo comigo", diz Schnell, 53, enquanto se prepara para se tornar presidente do Dartmouth College em 1º de julho.
Dartmouth fica em New Hampshire, na costa leste dos Estados Unidos. É uma das oito universidades que compõem a Ivy League, juntamente com Harvard, Yale, Brown, Columbia, Cornell, Pennsylvania e Princeton, um grupo de instituições privadas de ensino superior reconhecidas por sua excelência acadêmica.
Desde pequeno, Santiago Schnell sempre teve problemas de saúde
Cortesia de Santiago Schnel a BBC
Um computador e um professor
Enquanto sua mãe visitava médicos em Caracas para um diagnóstico, seu pai tentava familiarizar Schnell com a computação, convencido de que seria a disciplina do futuro.
"Meu pai me deu um Sinclair ZX 81, uma máquina inglesa que foi um dos primeiros computadores pessoais, muito antes dos da Apple ou IBM, para que eu pudesse aprender a programar e pensar logicamente."
Era 1981, e Schnell tinha 10 anos.
"Quase ninguém tinha um computador pessoal em casa naquela época, muito menos em Caracas. Isso causou uma mudança muito rápida na minha vida, porque comecei a pensar em procedimentos algorítmicos para resolver problemas."
Durante os passeios em família, Schnell abandonava o Sinclair ZX 81 e acompanhava o professor Mazparrote em expedições para coletar amostras de seus experimentos e tirar fotografias para ilustrar seus livros.
"Fiquei incrivelmente surpreso com a capacidade dele de prever coisas fazendo uma observação inesperada. Por exemplo, caminhávamos na selva e, quando ele via algumas formigas, conseguia prever que, a 10 ou 20 metros de distância, encontraríamos o tipo de pássaro que aquelas formigas comiam."
"Ter essa capacidade mental de ver mais do que qualquer pessoa, de ser um Sherlock Holmes da natureza, aliada aos computadores do meu pai, despertou minha paixão pela ciência."
Santiago Schnell (o mais alto) com seus pais e irmãos em Caracas
Cortesia de Santiago Schnel a BBC
Diagnósticos inesperados
Mas quando Schnell chegou ao ensino médio, ele não era atormentado apenas por alergias e dores de estômago. Ele também desenvolveu crostas avermelhadas no couro cabeludo, que coçavam e doíam, e que eventualmente liberavam flocos brancos que pareciam caspa.
Os médicos o diagnosticaram com psoríase, uma doença autoimune crônica que causa um aumento anormal na produção de células da pele. O efeito inesperado foi que o tratamento que suprimiu seu sistema imunológico o levou a desenvolver câncer aos 15 anos.
"As doenças autoimunes se tornaram ainda mais agressivas depois do câncer. Quase não vivi para contar a história, mas os problemas de saúde só aumentaram minha curiosidade pelas ciências médicas."
Na busca por um diagnóstico que explicasse alergias, psoríase e câncer, os médicos descobriram a doença de Crohn, uma inflamação crônica do intestino que o obrigava a ir ao banheiro constantemente.
Após superar o câncer, Schnell adquiriu uma nova compreensão de seu propósito e interesses. "Minha saúde estava tão desgastada que pensei que talvez, com a minha mente, eu pudesse ajudar."
O professor Serafín Mazparrote (no fundo, à direita), conhecido por seus livros escolares de Biologia, com a família Schnell
Cortesia de Santiago Schnel a BBC
O primeiro laboratório
Em 1991, Schnell iniciou sua graduação em Biologia na Universidade Simón Bolívar, criada para formar engenheiros, arquitetos e cientistas para participar de grandes projetos de desenvolvimento da Venezuela, como a hidrelétrica de Guri e o metrô de Caracas.
No seu tempo livre entre as aulas, ele visitava o Instituto de Estudos Avançados (IDEA), um centro dedicado à inovação científica e tecnológica, ao qual Schnell podia chegar a pé em cerca de 15 minutos da Universidade Simón Bolívar.
Para ter acesso ao laboratório, o médico e pesquisador venezuelano Raimundo Villegas, que havia sido Ministro da Ciência e Tecnologia, lançou um desafio: limpar tubos de ensaio, pipetas e outros instrumentos de vidro por quatro meses.
"Villegas me disse: 'Se você conseguir fazer este trabalho bem, excepcionalmente, nós lhe daremos algo diferente'", lembra Schnell.
"Essa experiência me ensinou a prestar atenção aos detalhes", disse ele em uma videochamada com a BBC Mundo. "Limpar o vidro é talvez uma das tarefas mais importantes, porque experimentos de biologia molecular falham se houver contaminação no vidro."
No laboratório, ele também aprendeu a perseguir suas ideias sem copiar as dos outros, mesmo sendo frequentemente chamado de "louco".
"Ninguém se importa se nós, cientistas, cometemos erros. Formulamos uma hipótese, fazemos o experimento e, se não funcionar, recomeçamos. O que eu tenho a perder? Me deixe fracassar."
Embora Schnell fosse apenas um estudante de graduação, Villegas permitiu que ele participasse de pesquisas sobre desenvolvimento cerebral e inseminação artificial para criar embriões em laboratório.
"Nesse processo, percebi que gostava mais de medições computacionais. Mas, para me dedicar a isso, eu precisava de alguém que me ensinasse a pensar como um teórico."
O fascínio pelas enzimas
Villegas indicou Schnell a Claudio Mendoza, físico computacional que trabalhava no Instituto Venezuelano de Pesquisas Científicas (IVIC), organização que coordenava diversos centros dedicados às ciências básicas e aplicadas na Venezuela.
Do ponto de vista astrofísico, Mendoza participou de projetos para estudar "estrelas, planetas e poeira cósmica, para entender como o universo e a vida se originaram a partir de uma perspectiva química no espaço", explica Schnell.
Dessa colaboração surgiu a equação de Schnell-Mendoza, uma fórmula matemática que facilita o estudo de processos bioquímicos por meio de enzimas, proteínas que aceleram reações químicas em organismos vivos.
Santiago Schnell com sua mãe (à esquerda), sua esposa (ao centro), seus filhos e o professor Claudio Mendoza (à direita).
Cortesia de Santiago Schnel a BBC
"Simplificamos a velocidade com que as reações enzimáticas podem ser medidas tanto em laboratório quanto na clínica", diz Schnell.
"Claudio me ensinou que deve haver beleza nos modelos matemáticos computacionais, que a equação deve ser vista como uma lei universal porque é bela e simples."
À medida que suas alergias e dores pioravam, Schnell decidiu se dedicar à Biologia Matemática e Computacional, uma disciplina que não existia formalmente na Venezuela nem na maioria das universidades do mundo.
No entanto, no final da década de 1990, havia um centro dedicado ao estudo desse tema na Universidade de Oxford, no Reino Unido. Embora não tivessem contatos lá, Mendoza prometeu a Schnell que o ajudaria a chegar à Europa.
Medir o continuum
Com o objetivo de expandir o escopo da equação que havia projetado com Mendoza, Schnell chegou a Oxford em 1998, onde conheceu Philip Maini, um matemático britânico que estava iniciando sua carreira como professor de Biologia Matemática e se dispôs a ser seu orientador de tese de doutorado.
"Eu me senti completamente inadequado porque vi essas pessoas com um nível de formação cultural e científica que eu não tinha. É por isso que ainda não consigo acreditar que serei reitor de uma universidade da Ivy League."
Durante os 27 anos de carreira acadêmica de Schnell na Europa e nos Estados Unidos, ele se concentrou no continuum entre saúde e doença, um modelo que afirma que os dois estágios não são opostos, mas sim parte de um espectro.
"Com toda a tecnologia que temos, ainda não somos capazes de medir o continuum", diz ele. "Por exemplo, ter um smartwatch que pode medir a pressão arterial e prever que você terá uma emergência antes que ela aconteça."
Santiago Schnell no dia da formatura como doutor em Matemáticas na Universidade de Oxford em 2003
Cortesia de Santiago Schnel a BBC
Schnell gostaria de ter tido essa tecnologia para evitar os piores surtos da doença de Crohn, quando ia ao banheiro 40 vezes por dia em meio aos seus dias acadêmicos como professor na Universidade de Michigan.
Ou a cirurgia que removeu seu intestino grosso, o que agora significa que ele drena seus dejetos para uma bolsa que carrega dentro da camisa.
Ou os vestígios da síndrome de Haddad, uma doença genética rara que o obriga a dormir com respiração artificial todas as noites para evitar engasgos.
Ou a artrite autoimune que causa inflamação nas articulações, especialmente quando joga tênis.
Embora não tenha pesquisado métodos de diagnóstico relacionados às doenças de que sofre, ele enfatiza a importância das atividades e realizações que preenchem as 50 páginas de seu currículo.
"Onde tenho mais reconhecimento é no desenvolvimento de equações matemáticas, softwares e técnicas estatísticas para que as pessoas possam mensurar, tanto em laboratório quanto na clínica, fatores proporcionais à saúde, como a eficiência de enzimas que podem causar doenças quando falham."
O desafio de Dartmouth
Santiago Schnell não considera as decisões do presidente Donald Trump contra a Universidade Harvard ou a suspensão de vistos para estudantes estrangeiros nos Estados Unidos o maior desafio que enfrentará ao assumir a presidência da Universidade de Dartmouth.
Ele está convencido de que seu maior desafio será ajudar a restaurar a confiança da sociedade americana nos cientistas.
"A noção de neutralidade e de que professores e pesquisadores universitários são servidores públicos se perdeu. Precisamos retornar a essa noção; estamos aqui para melhorar a vida da população por meio da educação que oferecemos e da pesquisa que realizamos."
Ele não vai à Venezuela há anos, mas quando pensa na Universidade Simón Bolívar, devastada por uma década de emergência humanitária, se sente grato.
"Foi lá que aprendi a pensar cientificamente e a persistir em minhas ideias. O legado da Universidade Simón Bolívar me acompanha todos os dias."
Bolsista, aluna brasileira fez história: obteve a nota mais alta da turma em Harvard

Vídeo curto é pior que texto para aprender, mostra estudo

Vídeo curto é pior que texto para aprender, mostra estudo
Experimento testou se universidades deveriam usar vídeos curtos para engajar os alunos. O resultado? Prejudica a performance e incentiva o raciocínio superficial. Estudo mostrou que assistir a vídeos curtos está associado a uma tendência de processar informações de forma mais superficial.
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Uma pesquisa realizada na Alemanha demonstrou que vídeos curtos verticais, no estilo dos que aparecem no TikTok e no Instagram, são menos eficientes do que a leitura de um texto de duração semelhante para aprender sobre um assunto.
Além disso, o estudo mostrou que assistir a vídeos curtos está associado a uma tendência de processar informações de forma mais superficial.
O trabalho tinha o objetivo de avaliar se as universidades deveriam usar vídeos curtos como uma forma complementar de ensino, visando ampliar o engajamento e a motivação dos alunos.
A conclusão foi de que era melhor não investir isso – pois poderia acabar estimulando uma forma de raciocinar contrária ao aprendizado profundo almejado pelo ensino superior.
Pensar mais rápido não é sempre melhor
Os vídeos curtos que dominam as redes sociais em geral são caracterizados por um conteúdo efêmero que busca engajar o usuário, oferecendo uma gratificação instantânea e fácil de ser conquistada, aponta o pesquisador Thorsten Otto, do Instituto de Psicologia da Educação da Universidade Técnica de Braunschweig, autor do estudo, publicado em 21 de abril na revista científica Computers & Education.
Ao consumirem esses vídeos, os usuários satisfazem necessidades por informação, entretenimento, conexão social ou regulação emocional sem a necessidade de muito esforço cognitivo. Em troca, o cérebro premia o comportamento com a liberação de dopamina.
No entanto, esse jeito de se informar – ou de aprender – vai na contramão de como nosso cérebro funciona para desenvolver os raciocínios complexos que caracterizam uma aprendizagem profunda.
Uma teoria bem estabelecida considera que o cérebro humano usa dois sistemas distintos para pensar. O "sistema 1" é rápido e intuitivo, inconsciente e influenciado por emoções, e por isso mesmo mais sujeito a vieses cognitivos e erros. Já o "sistema 2" é mais lento e demanda esforço, mas é mais analítico e tem mais valor para a performance acadêmica e profissional.
Estudos anteriores já haviam indicado que pessoas que são muito multitarefas e que usam mídias principalmente para gratificação instantânea, assim como usuários do YouTube, estão associados a um maior uso do "sistema 1" e ao definhamento do "sistema 2". No entanto, segundo Otto, nenhuma pesquisa havia medido de forma empírica a relação entre vídeos curtos e a aprendizagem.
Como a pesquisa foi feita
O autor do estudo criou uma sequência de três minutos de vídeos curtos variados, obtidos do TikTok, de forma a refletir um feed normal da rede social, com danças, comédia, experiências em primeira pessoa e propagandas. A transição entre os vídeos também era apresentada como um gesto de deslizar, tal qual na realidade.
Para medir o impacto na aprendizagem, ele utilizou dois vídeos curtos retirados de um perfil no TikTok que se propõe a ensinar aspectos do aprendizado do idioma alemão. Um deles discutia como as pessoas criam diferentes imagens em sua cabeça quando ouvem uma mesma palavra (como "carro"), e o outro explicava o uso correto das duas formas de plural para a palavra "palavra" em alemão – Worte e Wörter.
Os dois vídeos curtos tinham uma duração total de 96 segundos. Eles foram também transcritos para um texto, que somava 256 palavras no total e desaparecia da tela após 90 segundos.
A pesquisa recrutou 123 voluntários para o experimento, e os separou em quatro grupos. O primeiro grupo assistiu aos vídeos variados e aos dois vídeos educativos; o segundo grupo assistiu aos vídeos variados e leu o texto educativo; o terceiro grupo apenas assistiu aos vídeos educativos; e o quarto grupo apenas leu o texto educativo.
Em seguida, todos os participantes responderam a perguntas sobre os dois temas educativos e classificaram sua experiência. Eles também responderam a questionários para medir sua capacidade de realizar aprendizagem profunda, sua predisposição a desenvolver raciocínios superficiais e sua disposição para trocar uma gratificação imediata por uma conquista acadêmica mais distante no tempo.
Quais foram os resultados
Assistir à sequência de vídeos variados não teve um impacto significativo na assimilação do conteúdo educativo mostrado na sequência. Mas os grupos que assistiram à sequência de vídeos variados tiveram em seguida uma maior propensão a desenvolver raciocínios superficiais.
A conclusão mais importante, no entanto, foi que as pessoas que haviam assistido aos vídeos educativos tiveram uma pontuação significativamente menor na assimilação do conteúdo do que os que haviam lido os textos educativos.
Ao discutir os resultados, Otto avaliou que o "conteúdo atrativo, efêmero e superficial dos vídeos curtos influencia o estado interno por meio da liberação de dopamina, evocando um comportamento passivo e estimulando uma dependência do sistema 1 de pensamento".
Outra explicação adicional, segundo ele, é que os vídeos curtos, ao tentarem transmitir conteúdos de forma acelerada com muitos recursos gráficos visuais e sonoros, podem acabar sobrecarregando a capacidade do cérebro de processar informações naquele determinado tempo.
O autor ressaltou que são necessários mais estudos para confirmar os resultados e investigar o impacto dos vídeos curtos na aprendizagem.
Abordagem paralela
A pesquisa também usou outra metodologia para avaliar a associação entre consumo de vídeos curtos e a forma de raciocínio. Para isso, recrutou 169 voluntários que relataram o tempo em que gastavam em redes sociais e assistindo a vídeos curtos, e depois responderam ao mesmo questionário aplicado ao grupo anterior sobre aprendizagem profunda, raciocínios superficiais e adiamento de gratificações.
Os resultados indicaram que o maior consumo de vídeos curtos estava associado negativamente à capacidade de raciocinar para uma aprendizagem profunda. No entanto, devido ao desenho dessa parte do estudo, não foi possível concluir se assistir a vídeos curtos piora a capacidade de aprendizagem profunda, ou se pessoas que já têm uma pior capacidade de aprendizagem tendem a assistir mais vídeos curtos.
Excesso de tela "apodrece" os cérebros?
O estudo de Otto se soma a outras pesquisas contemporâneas que vêm analisando o impacto da disseminação dos vídeos curtos sobre a capacidade de raciocínio das pessoas.
Esse debate inclusive levou o termo "cérebro podre" ou "podridão cerebral", da expressão em inglês brain rot, ser eleito a palavra do ano de 2024 pelo Dicionário Oxford por mais de 37 mil pessoas.
Alguns estudos indicam que o uso excessivo de mídias sociais e o consumo compulsivo de conteúdo de baixa qualidade – como notícias sensacionalistas, teorias da conspiração e entretenimento vazio – podem literalmente encolher a massa cinzenta, diminuir a capacidade de atenção e enfraquecer a memória.
Para reverter esse cenário, pesquisadores consideram fundamental estabelecer limites claros para o tempo de tela e fazer um esforço consciente para se desligar. Também é importante dar prioridade a conteúdos educativos que evitem características viciantes e estabelecer intervalos regulares.
Mas com as empresas de tecnologia projetando algoritmos para maximizar nosso tempo de tela e um público cada vez mais digitalizado, o desafio vai além do indivíduo. É preciso políticas públicas que incentivem a transparência e a educação digital crítica.
Autor: Bruno Lupion
Paixão pelo caminhão de lixo ajuda criança autista no aprendizado escolar