Como prédios altos podem resistir a terremotos tão fortes? Veja 4 estratégias adotadas por engenheiros

Por que 1º de abril é considerado o Dia da Abolição da Escravidão Indígena no Brasil
O 'básico' da engenharia sísmica é seguir as normas sismorresistentes, que determinam os materiais e as dimensões ideais para não haver desabamento. Técnicas mais avançadas também usam molas amortecedoras, pêndulos gigantes e sistemas computadorizados. Como prédios altos podem resistir a terremotos tão fortes?
Um vídeo que viralizou nas redes sociais nesta semana mostrou que, mesmo diante do terremoto de magnitude 7,7, que devastou Bangkok em 28 de março, dois prédios altos da capital tailandesa resistiram aos tremores e não colapsaram.
“As pessoas estudam engenharia civil por um motivo, gente”, escreveu uma das usuárias do X, em post com quase 3 milhões de visualizações.
➡️Mas, afinal, o que explica o fato de um edifício não desabar durante um abalo sísmico? O g1 conversou com três especialistas da área e resumiu abaixo as principais estratégias:
estrutura resistente, nas dimensões e materiais corretos;
sistemas de isolamento sísmico de três tipos diferentes, que incluem amortecedores de borracha, sistemas computadorizados e pêndulos gigantescos, por exemplo.
💦 Um spoiler: reparou, no vídeo, que a água da piscina, na cobertura das torres, “espirra” para os lados após o tremor? Proposital ou não, certamente foi um elemento que colaborou para as torres não desmoronarem. Veja os detalhes ao longo desta reportagem.
1- Estrutura resistente
“O princípio de base da engenharia sísmica é: a construção não pode desabar. Precisamos proteger a população”, afirma Gustavo Siqueira, professor associado da Universidade Estadual de Campinas e pesquisador de sistemas de isolamento sísmico.
Levando em conta características geográficas (como a posição das placas tectônicas), cada país tem suas próprias normas sismorresistentes: procedimentos básicos que devem ser adotados pelo engenheiro civil para que as estruturas sejam dimensionadas de forma que resistam a terremotos. Isso inclui a instalação de determinados tipos de pilares e de vigas, por exemplo, ou a utilização de materiais específicos, como aço, betão ou madeira.
Edifícios com falhas na construção e templos antigos provavelmente não foram projetados seguindo as normas modernas.
José Elias Laier, engenheiro civil e professor titular da Universidade de São Paulo (USP), esclarece que, em edifícios mais altos, a recomendação é investir em aço, por ser dúctil (ou seja, por ser flexível sem que haja rompimento).
“Ele não esfarela, digamos assim. É possível que ele resista ao terremoto, dependendo da magnitude — pode até balançar, mas não vai cair. É como o bambu, que consegue se deformar sem romper”, diz.
📢Mas, atenção: o fato de um prédio resistir ao desabamento não significa que ele ficará intacto e seguro após o abalo sísmico. Pode haver fissuras em pilares e lajes, por exemplo, que exigirão manutenção (e possivelmente uma evacuação do local).
🏥Isso seria inviável para prédios que não podem ter o funcionamento interrompido, como hospitais e quartéis de bombeiros. Dependendo da importância do estabelecimento, é possível ir além: investir em sistemas de proteção que, mesmo depois de um tremor, possam continuar funcionando, sem necessidade de conserto.
Eles dividem-se entre sistemas passivos (que funcionam por conta própria, “sozinhos”) e ativos (que necessitam de eletricidade).
2- Sistemas passivos
São isoladores sísmicos que têm a vantagem de não precisar de energia para funcionar. Veja exemplos:
a) Dissipadores: absorvem a energia do terremoto antes que ela atinja a estrutura principal do edifício. Podem ser molas amortecedoras e sistemas hidráulicos, por exemplo.
Um dos mais famosos é é o TMD (Tunned Mass Damper), que, em português, é traduzido como "amortecedor de massa sintonizada". Ele fica na parte de cima do edifício e funciona pela Lei da Inércia.
✏️Para você refrescar a memória: é a 1ª lei de Newton, ensinada no ensino médio aos alunos. “Todo corpo continua em seu estado de repouso ou de movimento uniforme em uma linha reta, a menos que seja forçado a mudar aquele estado por forças aplicadas sobre ele.”
Imagine que uma pessoa está em um ônibus parado e, de repente, ele arranca bruscamente. O indivíduo tende a ser lançado para trás, antes de acompanhar o movimento do veículo. Isso acontece porque, pela Lei da Inércia, o corpo quer permanecer em repouso. Agora, pense no contrário: o ônibus está em movimento e freia de repente. A pessoa tende a ir para frente, porque estava em movimento e quer continuar nesse estado.
O TMD funciona da mesma forma:
Dentro de alguns arranha-céus, há uma enorme massa suspensa (como um pêndulo gigante).
Quando o prédio começa a balançar devido a um terremoto, essa grande massa tende a permanecer em repouso por causa da Lei da Inércia.
Como resultado, ela se move na direção oposta ao balanço do prédio, ajudando a reduzir as oscilações e tornando o edifício mais estável. Isso serve para equilibrar a construção: se o edifício estiver se inclinando para a direita, o pêndulo vai se mover para a esquerda.
“Toda a energia de vibração vai para o pêndulo, e não para o prédio. A Ponte Rio-Niterói, por exemplo, tem um sistema assim, feito com baldes de ferro pendurados em molas. [Foi essa intervenção que] diminuiu a vibração sentida no vão central quando batia um vento de cerca de 55 km/h”, explica Reyolando Brasil, professor da Escola Politécnica da Universidade de São Paulo (Poli-USP).
“Na China, temos exemplos de pêndulos com massas que ocupam três andares do prédio. É um sistema muito inteligente, porque vai funcionar mesmo sem eletricidade.”
Veja o funcionamento do TMD
Arte/g1
b) Isolamento de base
“Nesse tipo de passivo, a fundação do prédio fica em cima de isoladores sísmicos, como molas ou amortecedores de borracha. É algo gigante que tem como objetivo ‘isolar’ o edifício e 'desacoplá-lo' parcialmente do solo. Com isso, o solo se movimenta, mas só a mola [ou a estrutura usada] se deforma — sem abalar tanto a estrutura”, explica Brasil.
Há também outras tipos de isolamento, como amortecedores de chumbo e rolamentos deslizantes.
O edifício da Suprema Corte dos Estados Unidos, por exemplo, passou por uma reforma em 2011 para a instalação de isoladores embaixo da construção.
Isolamento de base pode ajudar a preservar a construção em terremotos
Arte/g1
3- Sistemas ativos
Neste caso, sensores detectam tendências de movimento do solo e enviam informações para um sistema computacional, que processa as informações e aciona dispositivos no topo do edifício (como molas amortecedoras).
Esse mecanismo ajuda a minimizar o impacto de vibrações causadas por terremotos.
Cidades como Nova York e Tóquio possuem edifícios equipados com esse tipo de tecnologia. No entanto, são sistemas que apresentam algumas limitações: além de serem significativamente mais caros, dependem de eletricidade para funcionar. Isso pode ser um problema em situações de emergência, como em um terremoto, quando há risco de falta de energia. Adotar fontes alternativas pode ser uma solução, mas gera mais custos.
E a piscina lá de cima? Realmente pode ter ajudado?
Sim. Não sabemos se ela foi construída na cobertura já com essa intenção de proteção sísmica (provavelmente, não) — de qualquer forma, foi um recurso que auxiliou na preservação dos edifícios.
Mais uma vez, a explicação vem da Lei da Inércia, por meio de um sistema de “contrarresposta passiva”.
“O terremoto ‘tira o chão’ do prédio. Nesse movimento, toda aquela água da piscina tende a se deslocar para o sentido contrário. Isso traz um equilíbrio por um tempo”, explica Reyolando Brasil.
Então, colocar uma piscina na cobertura pode ser a solução para evitar desabamentos? Não, é apenas um recurso extra. “A água vai sendo jogada para fora, e a força [que equilibraria o prédio] vai reduzindo com o passar do tempo”, complementa o professor.
Outros vídeos de Educação

Dia Mundial da Conscientização do Autismo: veja os obstáculos enfrentados e conheça iniciativas de apoio à inclusão

Por que 1º de abril é considerado o Dia da Abolição da Escravidão Indígena no Brasil
Transtorno do Espectro Autista costuma gerar dificuldades de interação social,
problemas na comunicação e alteração nos interesses (como resistência a mudanças de rotinas ou maneiras diferentes de brincar). Em um ano, 200 mil alunos com autismo foram matriculados em escolas comuns
Neste 2 de abril, Dia Mundial da Conscientização do Autismo, o g1 reúne:
informações sobre os direitos reservados às pessoas que têm TEA (transtorno do espectro autista) e aos familiares delas;
histórias de quem enfrenta obstáculos para alcançar a inclusão plena, principalmente na escola;
iniciativas em cidades brasileiras para divulgar mais informações sobre o autismo e informar a população.
🧩 Quais os sinais de alerta para procurar ajuda médica?
Pais e mães devem ficar atentos se a criança:
não estabelece contato visual com a mãe durante a amamentação;
não olha quando é chamado pelo nome ou quando alguém compartilha um interesse e aponta para algo;
não gosta do toque e prefere ficar sozinho no berço (isso não significa desgostar de carinho);
quando começa a andar, é na ponta dos pés;
tem um jeito atípico de brincar – prefere empilhar ou enfileirar carrinhos, por exemplo;
tem seletividade alimentar e problemas com texturas;
não ri de brincadeiras que os pais fazem;
faz gestos repetitivos, com a cabeça ou o tronco, e balança as mãos;
não fala ou, quando aprende a falar, repete frases de filmes, sem se comunicar;
fica nervoso com mudanças de rotina.
Saiba mais sobre o diagnóstico.
Luto e libertação: mãe e filha têm sensações diferentes ao receberem diagnóstico tardio de autismo
🧩 Quais os direitos da pessoa com TEA e de seus familiares nos benefícios sociais?
Jary, que tem autismo, estuda em escola comum de Nova Iguaçu (RJ)
Arquivo pessoal
Nesta reportagem, o g1 explica como indivíduos com autismo podem acessar benefícios do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS). A reportagem detalha os critérios para a obtenção do Benefício de Prestação Continuada (BPC) e orienta sobre o processo de solicitação. Leia aqui.
Outra matéria também destaca os direitos de pais e mães de pessoas atípicas: mostra os desafios enfrentados por essas famílias e esclarece os benefícios e garantias legais disponíveis para assegurar uma melhor qualidade de vida a elas. Acompanhe aqui.
🧩 A inclusão escolar realmente acontece? Quais os desafios?
De 2022 a 2023 (dados mais recentes), no Brasil, o número de crianças e adolescentes com TEA matriculados em salas de aula comuns — ou seja, junto com alunos sem deficiência — aumentou 50%: saltou de 405.056 para 607.144, segundo dados do Censo de Educação Básica.
➡️Cientistas e profissionais da educação reforçam que a convivência entre pessoas com e sem deficiência é benéfica para todos – tanto do ponto de vista social (compreensão das diferenças, cidadania, melhora na capacidade de comunicação) quanto do cognitivo (a escola deve apresentar os conteúdos de maneira que todos os estudantes possam aprender e desenvolver o pensamento lógico, o raciocínio matemático ou conhecimento histórico, por exemplo).
👎O problema é que a matrícula é só o primeiro passo – e as etapas subsequentes ainda deixam a desejar. Não basta “permitir” a entrada da criança. Há dificuldades diante:
da formação frágil de docentes e funcionários, que acabam indo atrás de preparo por iniciativa própria, sem apoio da escola ou do governo;
da falta de adaptação de atividades e aulas;
do desconhecimento sobre como agir diante de surtos de agressividade e de outros possíveis sintomas;
do bullying;
da cobrança de taxas extras na mensalidade (prática ilegal);
do descumprimento do direito a um acompanhante contratado pelo colégio;
da evasão escolar e ausência de recursos para lidar com os diferentes tempos de aprendizagem.
Em Alagoas, uma matéria do g1 aborda os desafios enfrentados por famílias na inclusão de crianças com autismo nas escolas de Maceió. Leia aqui.
“Sempre enfrentei muito preconceito na vida escolar de professores que não sabiam as características do meu transtorno. Hoje estou na universidade e continuo sofrendo agressões de quem deveria me ajudar [comunidade acadêmica] quando entro em crise”, diz à reportagem um estudante com TEA.
🧩 Que iniciativas estão promovendo a conscientização do autismo?
Há diversos projetos, novas iniciativas e eventos que, neste 2 de abril, estão divulgando informações a respeito do TEA ou facilitando o acesso dos autistas à cultura, à educação e à saúde:
No Pará, o g1 apresenta uma iniciativa cultural em Belém que promove a inclusão de DJs autistas e destaca a importância da inclusão cultural.
No Rio de Janeiro, um projeto usa animais no tratamento de pessoas com autismo em hospital da capital.
No Espírito Santo, um menino autista encontrou no cultivo de abelhas um caminho para a socialização.
Em São Paulo, a Prefeitura inaugurou o primeiro Centro Municipal para Pessoas com Transtorno do Espectro do Autismo da cidade, com um investimento de R$ 119 milhões. O centro oferecerá atendimento especializado e multidisciplinar.
Na Bahia, uma ação de saúde em Salvador está oferecendo atendimentos gratuitos a familiares de pessoas com autismo. A iniciativa disponibiliza uma variedade de serviços para apoiar as famílias, incluindo orientações médicas e psicológicas.
Em Goiás, um padre em Planaltina criou turmas inclusivas para catequese e batismo de crianças com autismo. O programa é adaptado às necessidades dessas crianças, promovendo inclusão e acessibilidade nas atividades religiosas.
Em Feira de Santana, na Bahia, uma ação promove a confecção gratuita de crachás para autistas, para facilitar a identificação e assegurar que pessoas com TEA recebam atendimento adequado.
No Mato Grosso do Sul, a "Caminhada da Inclusão" reuniu a comunidade de Campo Grande em prol do autismo. O evento buscou aumentar a conscientização sobre o TEA e promover a inclusão social, contando com a participação de famílias, profissionais e apoiadores da causa.
Em Mojuí dos Campos, no Pará, a Câmara Municipal realizou uma sessão solene alusiva ao Dia Mundial da Conscientização sobre o Autismo. A cerimônia destacou a importância de políticas públicas voltadas para pessoas com TEA e reconheceu o trabalho de organizações e indivíduos que atuam na área.
No Amazonas, uma ação educativa em Manaus atendeu famílias das escolas associadas ao Sindicato dos Estabelecimentos de Ensino Privado do Estado do Amazonas, promovendo atividades de conscientização e inclusão.
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Resultado da lista de espera do Prouni 2025 é divulgado; confira calendário de comprovação de informações

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Etapa é voltada aos inscritos que não foram pré-selecionados nas chamadas regulares ou que foram reprovados por não formação de turma. Calendário do Prouni 2025 do primeiro semestre.
Reprodução
O resultado da lista de espera do Programa Universidade Para Todos (Prouni) do primeiro semestre de 2025 foi divulgado nesta terça-feira (1º). O candidato pode fazer a consulta no portal Acesso Único, utilizando o login gov.br, com CPF e senha.
A etapa é voltada aos inscritos que não foram pré-selecionados nas chamadas regulares ou que foram reprovados por não formação de turma.
Quem for pré-selecionado na etapa terá até 11 de abril para comprovar as informações prestadas no ato de inscrição, na instituição de ensino na qual foi aprovado.
🚨 Atenção: Fique atento, as instituições podem ter exigências adicionais, além das previstas pelo programa.
De acordo com o Ministério da Educação (MEC), reponsável pelo programa, 197.080 estudantes haviam sido pré-selecionados na primeira chamada do Prouni, no início de fevereiro. Na segunda chamada, ao final do mês, outros 86.373 teriam sido pré-selecionados.
Ainda de acordo com a pasta, a edição de 2025 teve 1,5 milhão de inscrições totais, para 768.296  inscritos (considerando que cada candidato pode escolher até dois cursos).
A edição oferta 338.444 bolsas em 403 cursos de 1.031 instituições privadas por todo o país. Dessas bolsas, 203.539 são integrais e 134.905 parciais.
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Série ‘Adolescência’ será transmitida nas escolas britânicas

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Produção explora as influências tóxicas e misóginas às quais os jovens são expostos na internet e já foi assistida por mais de 65 milhões de pessoas. Owen Cooper foi elogiado por sua atuação como Jamie, de 13 anos, em 'Adolescência'
Divulgação/Netflix
A minissérie da Netflix "Adolescência", que explora as influências tóxicas e misóginas às quais os jovens são expostos na internet, será transmitida gratuitamente nas escolas de ensino médio do Reino Unido, anunciou o governo britânico nesta segunda-feira (31).
"Esta é uma iniciativa importante para incentivar o maior número possível de estudantes a assistir ao programa", disse o primeiro-ministro britânico, Keir Starmer, que assistiu à minissérie com seus filhos adolescentes.
O anúncio foi feito depois que Starmer se reuniu com os criadores do programa, juntamente com organizações beneficentes e juvenis, em sua residência de Downing Street para discutir os problemas expostos pelo programa.
A série, que está no streaming desde 13 de março, é a número 1 na Netflix no mundo todo. Até 25 de março, foi assistida por mais de 66,3 milhões de pessoas, de acordo com a plataforma.
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Incels, redpills e mais 10: os termos da série ‘Adolescência’ sobre a cultura de ódio a mulheres
No Reino Unido, tornou-se um fenômeno de massa e os jornais publicaram vários artigos sobre as questões levantadas.
"Adolescência" conta a história de um garoto de 13 anos, Jamie, que é preso e acusado de esfaquear uma estudante até a morte.
"Criamos esse programa para gerar discussão. Poder transmiti-lo nas escolas excede as nossas expectativas", disse Jack Thorne, co-roteirista da série.
Em quatro episódios, "Adolescência" disseca os motivos que podem ter levado o jovem a esse ato, evocando a influência do discurso misógino e machista e a impossibilidade de controlar o uso das redes sociais entre os adolescentes.
"Falar abertamente sobre as mudanças na maneira como se comunicam, no conteúdo que visualizam e entender as conversas que têm entre si é essencial para ajudá-los a lidar adequadamente com as influências nocivas", disse Starmer.
Maria Neophytou, da organização beneficente de proteção à criança NSPCC, disse que as empresas têm a "responsabilidade de garantir que suas plataformas e sites sejam projetados para serem seguros para os usuários jovens".
No Reino Unido, uma Lei de Segurança Digital foi aprovada em 2023 e já está em vigor, com o objetivo de reforçar as obrigações das plataformas, especialmente a de remover conteúdos ilegais.
Entenda o que são incels, redpills e outros 10 termos da série ‘Adolescência’

Por que 1º de abril é considerado o Dia da Abolição da Escravidão Indígena no Brasil

Por que 1º de abril é considerado o Dia da Abolição da Escravidão Indígena no Brasil
A primeira lei que aboliu a escravidão de indígenas no Brasil é de 270 anos atrás — mas a abolição só foi plena em todo o território três anos mais tarde, e a escravidão de negros só veio bem mais tarde. Tela de Jean Baptiste Debret, de 1830, mostra apresamento de indígenas
Domínio Público
Ao longo dos séculos de regime escravocrata no Brasil Colônia e no Brasil Império, a historiografia costuma negligenciar a participação da mão de obra indígena.
Afinal, se é amplamente conhecido que foram milhões os africanos trazidos compulsoriamente para trabalhar como escravizados — estimativas recentes costumam chegar a números próximos de 5 milhões — poucas são as informações sobre a escravidão dos povos originários.
Historiadores contemporâneos, contudo, têm se dedicado a esmiuçar também essa vertente da violenta exploração colonial.
Entre estudiosos do tema, já é consenso de que houve muita escravidão indígena em todo o território que hoje é Brasil — às vezes de forma disfarçada, às vezes de forma muito semelhante à praticada com os africanos.
E embora seja impossível cravar um número, esses pesquisadores acreditam que foram milhares, talvez milhões — sobretudo nas regiões mais pobres e vistas como periféricas na lógica econômica da América Portuguesa.
"É importante ensinar nas escolas sobre escravidão indígena. É importante sabermos como sociedade mesmo", comenta à BBC News Brasil a historiadora Luma Ribeiro Prado, pesquisadora do Laboríndio, o Grupo de Pesquisa sobre o Mundo do Trabalho nas Américas, na Universidade de São Paulo (USP), do Centro de Estudos Mesoamericanos, Amazônicos e Andinos, também na USP e no Instituto Socioambiental (ISA). Prado é autora do livro Cativas Litigantes, que aborda uma faceta do mesmo tema, publicado há pouco mais de um ano.
"Do ponto de vista da memória, é papel nosso continuarmos falando sobre isso porque o país não foi construído apenas por um tipo de mão, um tipo de opressão. Estamos falando de um processo múltiplo e os povos indígenas participaram tanto dessas violências como de todos os trabalhos e resistências", afirma à BBC News Brasil o historiador João Paulo Peixoto Costa, professor na Universidade Estadual do Piauí e no Instituto Federal do Piauí e coordenador do blog 'Indígenas na História: Sempre Obrigados Ao Trabalho'.
Faltar com a verdade é algo que se aprende em casa: saiba por que crianças mentem e o que fazer
Ele conta que "ainda hoje escuto alunos que aprenderam no Ensino Fundamental que indígenas não trabalhavam porque eram preguiçosos e por isso os africanos foram escravizados, que estes tinham constituição física adequada para tanto. Isso é o racismo no sentido mais puro: você falseia a história baseando-se em condições biológicas. Nada disso é verdade. O que teve foi violência para todo lado, assim como teve resistência para todo lado", enfatiza Costa.
Na prática, o emprego da mão de obra indígena de modo compulsório fez parte da realidade do hoje Brasil desde a chegada dos portugueses até o século 19. O que acontece é que essa questão estava no centro de quedas de braços entre os colonos, a Coroa e a Igreja.
E as idas e vindas que ora autorizavam, ora proibiam — mas quase sempre com vista-grossa — esse tipo de prática partiam de discussões sobre direitos básicos que chegavam a questionar até mesmo se o indígena era um ser humano ou não e acabavam cedendo em benefício dos mais poderosos.
Nesse meio-tempo, diversas regulamentações chegaram a ser publicadas. De acordo com levantamento publicado pela Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai), a primeira legislação da Coroa Portuguesa contra o cativeiro indígena data de 1570 — só permitia a escravização desses com alegação da chamada "guerra justa".
De acordo com Prado, esse termo deriva do direito romano. "Pode ser uma guerra ofensiva ou defensiva. Era autorizada, pela Coroa ou pelos governadores, em casos em que os indígenas se recusavam a serem convertidos [ao catolicismo], praticassem antropofagia ou impedissem a passagem, atrapalhassem o comércio, o deslocamento, os esforços de colonização", diz a historiadora.
Também poderia ser uma guerra defensiva, ou seja, no caso de ataque de tribos indígenas contra assentamentos de colonizadores europeus.
"Neste caso, estava autorizado [pela lei portuguesa] que os sobreviventes fossem escravizados", pontua ela.
Cento e dez anos depois, em 1º de abril de 1680, foram publicadas duas decisões da corte portuguesa que afetaram a questão. A portaria de liberdade dos indígenas seria um documento de certa forma os eximindo da escravidão. É por isso que a data se tornou importante.
Só que na mesma data saiu também um alvará chamado de "regimento das missões". "Autorizava a vinda de religiosos da Companhia de Jesus ao Brasil", contextualiza à BBC News Brasil o historiador Costa.
Obra 'Ciclo da Caça ao Índio', de Henrique Bernardelli
José Rosael/Hélio Nobre/Museu Paulista da USP/ Domínio Público
"Ao mesmo tempo em que a Igreja, entre aspas, defendia os povos indígenas, dizendo que eles tinham alma e por isso não podiam ser escravizados, nos aldeamentos [mantidos por religiosos], os indígenas tinham de fazer todos os serviços. Aprendiam a rezar, mas também faziam roupa, plantavam para alimentar os colonizadores e o clero… E se resistissem, levavam chibatada", pontua à BBC News Brasil a historiadora Márcia Mura, integrante do movimento plurinacional Wayrakuna e da articulação das indígenas Mulheres Mura, além de professora de escola estadual em comunidade no Baixo Madeira, em Rondônia.
De acordo com pesquisas da historiadora Prado, além da chamada "guerra justa", havia um outro argumento que costumava ser aceito para legitimar perante a lei a escravidão indígena: alegar que aquele indivíduo havia sido resgatado como prisioneiro de alguma tribo e que seria vítima de ritual antropofágico.
Ela conta que na estrutura colonial havia um processo montado para a chamada escravidão indígena legal.
"Os [capturados] escravizados eram levados para um local chamado curral. Ali ficavam agrupados até ter número suficiente para serem levados para outro lugar, que era o arraial", explica.
"Lá havia um padre, um jesuíta, que devia fazer o chamado exame de cativeiro. Ele supostamente perguntava para o indígena se ele tinha sido escravizado de maneira legal, ou seja, se era prisioneiro que seria morto em um ritual antropofágico", conta ela, lembrando que aí seria configurado como um escravizado por resgate.
A historiadora lembra, contudo, que parece ser impossível que um religioso conhecesse toda a vasta gama de idiomas indígenas praticados no território para conseguir inquirir assim essas pessoas.
Cabia ao religioso registrar essas informações em um documento, que era chamado de "certidão de cativeiro".
"Quando indígena era escravizado por guerra justa, costumava ser leiloado. Já os 'resgatados' costumavam ser trocados por facões, anzóis, tecidos de algodão", detalha ela. "O senhor ficava com o certificado de escravidão. […] Havia toda uma estrutura."
Amigos e inimigos
Oficialmente, a escravidão indígenas teve alguns marcos legislativos de 1500 para cá.
A explicação mais razoável é que, diante da ampla variedade e povos e etnias originárias que habitavam a região onde hoje é o Brasil, os colonizadores precisaram fazer alianças e, ao mesmo tempo, criaram inimizades.
Costa explica que isso se tornou mais importante sobretudo a partir da segunda metade do século 17, quando Portugal via "a necessidade de aumentar o controle metropolitano" e, ao mesmo tempo, buscava uma "expansão territorial da colônia na América".
"E havia crise no açúcar", comenta. "Como tentativa de solucionar a crise, foi incentivada a entrada, cada vez maior e mais frequentes, nos sertões, nas regiões mais interioranas", explica.
"O que se percebe aí é algo muito marcante em todo o contexto colonial: não teria havido colonização sem aliança com povos indígenas."
Os "amigos" eram aqueles que faziam parcerias com os portugueses e abriam caminho.
Os "inimigos" acabavam mortos ou escravizados, muitas vezes com a ajuda dos "amigos".
Os religiosos jesuítas tinham o monopólio dessa servidão nos aldeamentos, sob pretexto e missão catequética. Ao mesmo tempo, faziam vista-grossa àqueles indígenas que já haviam sido feitos escravos.
Em 6 de junho de 1755 foi promulgada uma nova lei que previa a liberdade dos indígenas.
"Essa legislação conviveu com outras, inclusive do mesmo ano, que davam prioridade às lideranças indígenas ao acesso de cargos nas câmaras dos lugares onde viviam e incentivava os casamentos mistos", diz Costa. "Em 1758, isto foi estendido a toda a América Portuguesa."
No livro Dicionário do Brasil Colonial, do historiador Ronaldo Vainfas, professor na Universidade Federal Fluminense, há um verbete sobre o tema. Ali enfatiza-se que o alvará de 1755 resultava da necessidade de se contar com população livre para defesa das fronteiras e incentivo à produção agrícola.
"Foi quando, de fato, foi promulgada a liberdade dos indígenas, que não mais podiam ser escravizados de maneira alguma, eram agora súditos do império português", comenta o historiador Costa. "Ainda que sob uma condição ambígua de incapacidade. Eram tutelados."
A historiadora Prado, contudo, afirma que "cerca de 80% da escravização indígena era ilegal" — ou seja, não estava à mercê das leis, porque era praticada de forma completamente clandestina. Isto é um fator que dificulta inclusive chegar a uma estimativa de quantos foram os submetidos a tais violências.
Ela lembra que sempre houve uma "disputa pelo monopólio da exploração da mão de obra indígena no Brasil".
"Os colonos queriam explorar [esse trabalho] sem precisar de autorização, sem precisar prestar contas ao rei [de Portugal]", comenta ela. Sem regulamentação eles não tinham como pagar taxas e impostos nem seguir normas. "Às vezes até invadiam aldeias missionárias [para caçar indígenas]."
"Os jesuítas, por sua vez, embora sobre eles durante muito tempo tenha pairado uma aura, uma construção historiográfica, produzida por eles próprios, de que eram os guardiões da liberdade indígena, na prática seus aldeamentos consistiam em espaços eminentemente de trabalho", explica a historiadora.
"Os indígenas ali não eram livres. Podiam até ser chamados de trabalhadores livres, mas eles eram obrigados ao trabalho, havia a compulsão ao trabalho."
"Por fim, a Coroa tinha vontade, desejo e iniciativa de taxar a escravização", pontua.
Mas como havia um comércio estruturado de fornecimento de mão de obra escravizada negra, com o chamado tráfico negreiro, o emprego mais intenso da mão de obra indígena, segundo os pesquisadores, foram nas regiões periféricas da economia colonial, onde os colonos muitas vezes não tinham dinheiro para bancar o investimento no escravizado africano. Assim, onde mais se lançou mão da mão de obra indígena foi nos atuais estados de São Paulo, Maranhão e na região amazônica.
O entendimento é que havia, sim, uma preferência pela mão de obra africana em detrimento da indígena, se as condições financeiras permitissem.
"A questão central parece ser a seguinte: os africanos, diferentemente dos povos originários do Brasil, provinham de sociedades com diferenciação de classe social, com atividades comerciais e uso de moedas ou seus equivalentes, com conhecimentos de pecuária, com técnicas de metalurgia e com vários outros conhecimentos que os aproximavam mais das necessidades das plantations", explica à BBC News Brasil o historiador Renato Pinto Venancio, professor na Universidade Federal de Minas Gerais e autor do livro Cativos do Reino: A Circulação de Escravos entre Portugal e Brasil.
"Então, sempre que possível, os senhores de engenho optavam pela mão de obra africana. O mesmo pode ser dito em relação a Minas Gerais. Várias regiões africanas extraíam ouro. Não por acaso, o cativo africano predominante em Minas Gerais é chamado de "mina", ou seja, da Costa da Mina ou Costa do Ouro. Eles sabiam mais sobre a mineração do que a maioria dos portugueses."
"O conhecimento, a refinada tecnologia africana, é geralmente desconsiderado pela historiografia brasileira. Tragicamente, essa dimensão acabou tornando o escravizado africano mais atraente do que o indígena", comenta.
"Na verdade, a escravidão indígena ocorreu em grande parte por causa do fator econômico. Da impossibilidade de os paulistas adquirirem escravos africanos", diz à BBC News Brasil o educador e historiador Manuel Pacheco Neto, professor na Universidade Federal da Grande Dourados e autor do livro A Escravização Indígena e o Bandeirante no Brasil Colonial. "[Eram regiões onde] reinava a pobreza, era esse o panorama."
De acordo com seus estudos, a formação da vila que daria origem à cidade de São Paulo baseou-se em produções de víveres para consumo próprio. E os colonos então empreenderam expedições ao interior, as chamadas bandeiras, para obter mão de obra a partir da "caça ao indígena", de maneira "sistemática".
"Lendo as atas da câmara, isso fica claro. Os paulistas denominavam esses indígenas de 'peças', eram vistos apenas como ferramentas de trabalho", contextualiza Pacheco Neto.
Para o professor, é importante nesse contexto inclusive dar o real significado à figura do bandeirante paulista.
"Muitas vezes é pautado na historiografia como herói. Mas foi justamente quem trouxe consigo todo o etnocentrismo que tinha em seu bojo a necessidade, entre aspas, de escravização dos nativos da terra", pontua. "Esse personagem não foi um herói."
Se oficialmente a escravidão indígena foi completamente abolida há 270 anos, em 1755, não dá para dizer que ela parou de ocorrer. Com a chegada da família real portuguesa ao Brasil, em 1808, tornou a ser autorizada a escravização de povos indígenas específicos, considerados inimigos.
"[Nessa época] cartas régias voltaram a autorizá-la no contexto de 'guerra contra os botocudos' em Minas Gerais", diz o historiador Venancio.
E, como lembram os pesquisadores, até hoje os povos originários estão entre grupos mais vulneráveis nos casos de trabalhos análogos à escravidão.
"As violências da escravização, tanto para negros quanto para indígenas, ainda são feridas vivas, sangrando", comenta a historiadora Mura.
'Dia dos Povos Indígenas': conheça única aldeia indígena do noroeste paulista